Às vezes me pergunto quando foi que a vida começou a pesar… Em que momento os dias deixaram de ser leves e passaram a exigir força? Quando foi que caminhar virou resistência, e não apenas escolha? Me perdi pelo caminho ou apenas superei quem eu era antes? Os desafios que aparecem são para me quebrar ou para me ensinar a ficar de pé de outro jeito? Em que momento aprendi a engolir o choro e chamar isso de maturidade? E quando isso começou a parecer correto? Quantas vezes segui adiante apenas porque já não havia volta…? Quantas partes de mim ficaram para trás tentando sobreviver ao que nunca escolhi viver. Talvez a vida não tenha ficado mais difícil. Talvez eu tenha aprendido a perceber mais as coisas. A notar os silêncios, os cansaços acumulados, os pequenos lutos que ninguém nomeia. Talvez crescer não seja endurecer, mas sentir com mais profundidade — e ainda assim continuar. Talvez o peso não esteja nos dias, mas na consciência do tempo. Na clareza de que algumas escolhas não voltam, de que certas perdas não se explicam, apenas se carregam. E mesmo assim, sigo. Não porque seja fácil, mas porque algo em mim insiste.Insiste em permanecer, em aprender, em existir — mesmo quando existir cansa.
Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence.
sábado, 27 de dezembro de 2025
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
A estrela que me mantém acordado.
À noite, estendo a mão como quem já esqueceu o peso do próprio corpo.
Os dedos se abrem contra o céu, tateando o escuro, e por um instante acredito que o inalcançável possa ceder. Há uma estrela — sempre a mesma — que pulsa diferente das outras. Ela não brilha como promessa; brilha como lembrança. Tem cheiro de casa, som de porta fechando devagar, sensação de pertencimento que não sei explicar. Todas as noites eu a procuro, como quem retorna a um endereço antigo que talvez nem exista mais.
Mas o céu não responde.
Ele apenas observa.
Nas noites em que não durmo, o tempo se dissolve. O relógio perde a autoridade e o silêncio cresce, espesso, ocupando tudo. Não é um silêncio vazio — é um silêncio que fala demais. Ele enumera ausências, repete pensamentos, ecoa perguntas que não ouso fazer em voz alta. É nesse silêncio que a estrela parece mais próxima e, ao mesmo tempo, mais distante.
Fecho a mão.
Não por desistência, mas por cansaço.
O gesto não captura a estrela, nunca capturou. O que ele prende é só o ar frio, a frustração antiga, a certeza de que algumas coisas existem apenas para serem buscadas. Talvez seja esse o acordo: olhar, desejar, seguir tentando, mesmo sabendo.
O céu permanece intacto.
A estrela, intocável.
E eu sigo aqui, entre o alcance e a perda, aprendendo que nem toda casa é um lugar — algumas são apenas um ponto fixo no escuro, algo que nos mantém acordados, vivos, e silenciosamente em movimento.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Cada um carrega o próprio peso...
Há uma maturidade silenciosa em aprender a devolver aos outros aquilo que lhes pertence. Não como gesto de frieza, mas como ato de justiça simbólica. Durante muito tempo, confundiu-se empatia com absorção, cuidado com responsabilidade excessiva, amor com o hábito de carregar pesos alheios como se fossem prova de valor moral. E isso diz menos sobre bondade e mais sobre uma cultura que romantiza o esgotamento.
Existe algo profundamente desorganizador em assumir para si o que não nasce em si. Quando alguém carrega dores que não pode elaborar, falhas que não cometeu, expectativas que não escolheu, passa a viver numa espécie de território híbrido: não é mais inteiro, mas também não é o outro. Torna-se um lugar de depósito.
Há quem acredite que suportar tudo é sinal de força. Mas talvez seja o oposto. Talvez a verdadeira força esteja em sustentar limites — esses espaços invisíveis onde o “meu” e o “do outro” finalmente se diferenciam. Limite não como muro, mas como contorno. Sem contorno, nada tem forma; tudo escorre, tudo pesa.
Deixar com o outro o que é do outro não é abandono. É reconhecer que cada sujeito precisa confrontar suas próprias fissuras para que haja transformação. Retirar esse confronto, ainda que com boas intenções, é impedir o movimento. É anestesiar o processo.
Há um incômodo ético em perceber quantas vezes se tentou consertar o mundo a partir de um lugar que não era convocado. Não por arrogância, mas por um aprendizado distorcido: o de que ser necessário é mais importante do que ser inteiro. E essa lógica cobra caro.
Talvez amadurecer seja isso: aceitar que nem tudo pede intervenção, que nem toda dor precisa de plateia, que nem todo caos exige salvadores. Cuidar do que cabe, sustentar o que é próprio e permitir que o outro faça o mesmo — ainda que tropece, ainda que doa.
No fim, há algo quase revolucionário em carregar apenas o que é seu. Não por egoísmo, mas por lucidez. Porque quando cada um sustenta o próprio peso, o mundo, paradoxalmente, fica mais leve.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
O banquinho...
Há encontros que Deus costura em silêncio, naqueles bastidores que a gente nem percebe. E mesmo quando o tempo dobra esquinas e as rotas mudam, tem laços que não se rompem — só ficam ali, guardados, esperando o momento certo de respirar de novo. Com ela foi assim. Uma amizade que não nasceu de barulho, mas de pequenas coisas: piadas que salvavam dias ruins, conversas sobre música, aquelas angústias que só quem compartilha vocação entende.
E quando a vida pediu distância, eu respeitei. Porque tem amores que são amizade, tem lealdades que são fé, e família sempre vem primeiro. Mas, no fundo, a gente sente falta. Não daquela presença constante, mas daquele tipo raro de pessoa que faz o mundo ficar mais compreensível — alguém que lembra que o silêncio também é casa.
Ontem a gente conversou de novo como antes. E foi curioso… parecia que o tempo não tinha passado. Não era nostalgia; era paz. Um reencontro simples, limpo, como se Deus tivesse segurado essa amizade pelas pontas para ela não se desfazer. Tem laços assim: não exigem, não cobram, não pressionam. Só permanecem.
E quando voltam, não voltam por saudade, mas por graça — aquela graça mansa que mantém tudo saudável, sincero, no lugar certo. E eu fiquei feliz. De um jeito bonito. Como quem reencontra um pedaço quieto de si mesmo que tinha ficado guardado em alguém.
domingo, 23 de novembro de 2025
Entre o fim e o que ainda respira.
Há noites em que a cidade respira mais fundo do que eu. Fico ali, encostado no concreto frio, como quem tenta ouvir alguma resposta nas luzes distantes.
O céu — esse exagero azul — segura um resto de rosa que insiste em não apagar, como se o dia tivesse deixado para trás uma promessa que não cumpriu.
E eu fico parado, meio cansado, meio inteiro, tentando entender por que certas notícias atravessam a gente como se rasgassem alguma memória antiga.
Talvez seja isso: algumas coisas partem longe, mas quebram aqui dentro.
A rua está quase vazia, mas não estou só.
Carrego comigo todas as versões de mim que ainda tentam descobrir o próprio caminho, todas as perguntas que faço de madrugada e todas as respostas que ainda não tive coragem de aceitar.
E apesar desse aperto, há uma calma silenciosa pousada no ombro.
Uma impressão de que mesmo o que se rompe encontra um jeito de continuar existindo, de virar outra coisa, de se reinventar no escuro.
Então eu respiro.
A noite respira de volta.
E sigo sentado, olhando o horizonte como quem pressente que, depois de certos fins, não existe escuridão — existe só o intervalo antes de um novo brilho.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Quando o infinito se parte...
Tem coisa que a gente sente antes mesmo de entender.
Hoje foi assim. Fiquei sabendo que o 3I/ATLAS se partiu — e não sei explicar, mas alguma coisa aqui dentro partiu junto.
É estranho como certos símbolos grudam na gente. Um cometa distante, atravessando o infinito, vira metáfora de tudo que a gente tenta manter inteiro por dentro. E quando ele racha… parece que nasce um silêncio. Daqueles que a gente respeita, porque dói, mas também revela.
Não é exatamente tristeza. É como se fosse aquele instante entre o fim de uma música e o começo da próxima. Um intervalo. Uma dobra do tempo onde a gente percebe que algumas coisas não seguem do jeito que a gente imaginou.
Talvez eu esteja fazendo luto de um símbolo — e tudo bem. Às vezes o que cai do céu não é só pedra e poeira; é também a parte de nós que estava projetada ali, viajando junto, acreditando junto.
Mas eu gosto de pensar que nada realmente termina. Que quando um cometa se rompe, ele não desaparece: ele se multiplica. Vira fragmento, reflexo, rastro de luz.
Vira caminho novo.
E talvez seja isso que eu esteja sentindo:
o começo de algo que ainda não sei nomear, mas que, de algum jeito, continua atravessando o infinito dentro de mim.
domingo, 16 de novembro de 2025
Uma vigília nas sombas...(A Mulher que Carrega o Lobo)
Ela parecia surgir de um lugar onde o silêncio tinha peso, como se cada segundo ao redor dela fosse puxado para dentro daquela máscara ancestral que repousava sobre o rosto. O crânio do lobo — marcado por arabescos escuros, quase como cicatrizes rendadas — encaixava-se à sua pele com uma naturalidade inquietante, deixando apenas os olhos invisíveis sob as sombras internas da cavidade. A impressão era de que ela observava o mundo por trás de séculos, não de pálpebras.
O cabelo preso em volume discreto deixava a máscara em destaque, como um totem de vigilância. E havia algo sutil no modo como o pescoço e o peito dela eram engolidos pelo negro profundo daquela espécie de gola, como tinta escorrida que se recusava a secar. O contraste com a pele clara gerava a mesma sensação de olhar para neve caindo sobre uma floresta queimada: um choque, mas também um convite.
As mãos, longas e quase etéreas, repousavam sobre o próprio peito com a precisão de um ritual. Os dedos lembravam garras humanas – ou humanas demais –, cada unha alongada projetando uma ameaça contida. Nos pulsos e no dorso, a renda negra se espalhava como raízes de uma árvore noturna, conectando-a a alguma força silenciosa que pulsava por dentro.
Ao redor, o fundo aquarelado dissolvia o mundo em tons suaves — cinzas que pareciam respirações, rosados discretos que lembravam um amanhecer tímido, beiges que davam a impressão de que ela surgia de dentro da própria névoa. Nada ali era sólido, exceto ela.
E ainda assim, mesmo envolta em símbolos de morte, metamorfose e sombra, havia uma calma inabalável na forma como permanecia de olhos fechados. Como se carregasse consigo a certeza de que algumas verdades só podem ser vistas quando a visão se dobra para dentro.
Não era uma figura para ser entendida de imediato.
Era para ser encontrada — lentamente — como quem descobre um animal raro caminhando na beira de um sonho.
**arte gerada por I.A. através de sugestões do autor.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Tenho aprendido algo sobre esse mundo...
Há quem diga que neste mundo não há recompensa para quem é bom. E talvez haja verdade nisso. O mundo, muitas vezes, parece premiar a esperteza disfarçada de inteligência, o egoísmo travestido de força, a frieza vendida como equilíbrio.
Mas ser bom nunca foi sobre receber aplausos. Ser bom é um ato silencioso de resistência uma escolha que se renova todos os dias, mesmo quando o mundo não entende, não valoriza e não retribui.
Há quem nasça com a bondade como instinto, e há quem a conquiste após atravessar a própria escuridão. Ambos merecem respeito. A diferença é que o segundo sabe, por experiência, o preço e o poder de ser bom em um mundo que não é.
E talvez a recompensa não esteja nas mãos, nem no bolso, nem no aplauso. Talvez ela esteja na alma – na leveza de deitar a cabeça no travesseiro e saber que, apesar de tudo, você continua sendo alguém que escolhe o bem...






