sexta-feira, 29 de maio de 2020

O trigésimo dia da travessia – a arte do deserto

Há dias que parecem existir apenas para nos contrariar. Ou nos testar. Acordei feliz pensando na Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos. Fui à tenda que servia de refeitório para buscar uma caneca de café e todos comentavam sobre a tradicional festa do trigésimo dia da travessia, que se realizaria naquela noite. Imaginei-me dançando com a astrônoma sob o lindo céu de estrelas do deserto. Foi quando vi a Ingrid conversando com um peregrino que, assim como eu, viajava para o maior oásis do deserto com o intuito de conversar com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Ingrid dava boas risadas. Ele se chamava Paolo, um italiano muito popular na caravana. Era bonito, simpático e gentil. Tinha uma conversa agradável, eu mesmo já tinha dado gargalhadas das suas histórias, sempre bem-humoradas. Paolo era o braço-direito e herdeiro do pai, um rico industrial de Milão. Tinha a idade de Ingrid e, assim como a astrônoma, parecia ter o dom de seduzir. Eles conversavam como se nada mais importasse no mundo. No mesmo instante me senti mal. Um gosto amargo na boca e um azedume nas entranhas sinalizaram a dança do ciúme dentro de mim. Embora não namorasse ou tivesse qualquer compromisso formal com a Ingrid, eu cultivava esta esperança. A plantação ardeu em fogo quando eles emparelharam os camelos para fazerem juntos a travessia daquele dia. Enjoado, cuspi o café.
Sem vontade de falar, segui solitário na marcha. Eu procurava transmutar o ciúme, pois, já havia aprendido muito sobre as sombras. Em vão. Ao mesmo tempo em que eu dizia para mim mesmo que ninguém é dono de ninguém; que devemos respeitar as escolhas alheias, ainda que contrárias às nossas vontades; que embora necessitemos dos relacionamentos como aprimoramento e compartilhamento das virtudes, a felicidade não exige a presença de ninguém ao nosso lado, pois é uma conquista interna. Qualquer dependência emocional será sempre uma cruel prisão a impedir o encontro com a imprescindível liberdade. Conceitos verdadeiros e valiosos que eu tinha aprendido no decorrer da minha jornada cósmica. Contudo, de outro lado, o ciúme me contestava dizendo que a Ingrid era uma ingrata, parecia ter esquecido os bonitos momentos que juntos tínhamos compartilhados. A astrônoma também não levava em consideração a dedicação que eu tivera com ela quando foi mordida por uma serpente, há poucos dias, e quase faleceu. O ciúme também me sugeria um suposto interesse da Ingrid por uma vida maravilhosa que teria ao lado de Paolo. Mostrou-me a astrônoma cercada de luxo e facilidades, passeando na belíssima Costa Amalfitana, com seus ótimos restaurantes de chefs renomados e confortáveis hotéis, em camas revestidas por finos lençóis de linho. O ciúme me dizia que eu nunca poderia proporcionar a ela uma vida parecida. O ciúme me questionava se seria possível outra mulher me completar como a Ingrid.
Era uma batalha de vida e morte, como supostamente são os embates travados no âmago do ser. Em primeiro momento parece existir apenas uma entre duas opções: tudo ou nada. Assim eu me sentia quando veio a ordem para a caravana parar no meio do dia para um breve descanso e uma refeição ligeira. Quando desmontei do camelo pensei que não me restaria nada. As minhas pernas fraquejaram; eu me sentia fraco, como se a vida tivesse escorrido de dentro de mim. Restava-me o vazio. Eu me sentia oco.
Sentado na areia, tentei comer uma tâmara. A fruta, sempre doce, me pareceu azeda e intragável. Eu sabia que tinha de resgatar a força da minha alma, o ânimo pela vida. Nesse momento, ao longe, vi Paolo e Ingrid conversando. Sem dúvida, era um casal bonito e alegre. O ciúme me disse que sem o italiano era eu quem estaria rindo ao lado da astrônoma. Ele cruzara a minha existência para me desafiar e tomar a minha fonte de prazer. Era hora de partir para o “tudo” ou ficaria sem “nada”. Senti ódio do italiano. Instintivamente passei a mão nas minhas costas e toquei no punhal que sempre levava no cós da calça. A fraqueza foi substituída por uma força ácida, a raiva. Ideias e emoções estavam confusas, porém, agora eu me sentia forte por encontrar uma possibilidade de agir para ocupar o lugar da impotência inicial. Contive-me quando vi o caravaneiro me olhando profundamente. Ele parecia adivinhar o que eu pensava. Eu sabia que a lei do deserto era implacável. Desviei o olhar.
Marchei o segundo trecho da travessia daquele dia dividido entre pensamentos e sentimentos. Um guerreiro lutava contra outro guerreiro. Eu era ambos; luz e sombras. O campo de batalha, ensanguentado naquele momento, era o âmago do meu ser; a minha consciência. Deserto e caravana eram meras paisagens para um duelo decisivo que se anunciava.
À noite, eu não quis jantar. Por entre as lamparinas que iluminavam o acampamento da caravana, eu procurava pelo italiano. Ele estava ao lado de Ingrid, afastados de todos, deitados na areia. A astrônoma parecia lhe falar sobre as estrelas, como já fizera comigo. De tocaia os observei por algum tempo. Em determinado momento a Ingrid se levantou para fazer ou buscar algo. Sozinho, Paolo continuou deitado na areia. A hora se mostrava oportuna. Procurei pelos olhos implacáveis do caravaneiro; não os vi. Eu não sentia medo, no entanto também não conseguia sair do lugar, como se os meus pés estivessem enterrados no deserto. Metade de mim queria atacar; a outra parte não deixava. Foi quando percebi que a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli me observava. Ela estava com as feições serenas, mas os seus olhos refletiam uma tristeza sem fim. Envergonhado, corri dali para o alto de uma duna.
Ofegante, sentei na areia. De lá a caravana parecia um brinquedo de criança. As tendas, os lampiões, os camelos e as pessoas. Não se ouvia som. “Apenas a voz sábia do silêncio”, ouvi alguém atrás de mim. Era a mulher de olhos azuis. Sem pedir autorização, ela se sentou. Trazia consigo um pequeno tambor. Um tambor do deserto. Ela ficou quieta ao meu lado por um tempo que eu não sei precisar, sem dizer palavra, sem mexer no tambor. Até que perguntei a razão de ela estar ali. A mulher foi delicada em sua resposta: “Espero o seu coração se acalmar. Depois, caso você queira, conversaremos”. Balancei a cabeça como quem diz “sim” e comecei a chorar. Foi um choro convulsivo. Em seguida comecei a desabafar. Falei muito. Confessei que estranhava a mim mesmo, como se eu não me conhecesse nem tivesse aprendido nada em minha caminhada. Os meus conhecimentos e sentimentos virtuosos e iluminados eram alternados com os conselhos insistentes oferecidos pelas sombras do ciúme, do ódio e do egoísmo. Ela apenas ouvia. Ouvia sem interferir; como quem sabe que o tempo, em verdade, não tem fim. Ouviu com infinita paciência até eu me cansar de ouvir a própria voz.
Então, pediu para eu me deitar na areia e fechar os olhos. Ela começou a tocar o tambor, um instrumento sagrado para o magismo na tradição do deserto. Era um ritmo compassado, como se rufasse no compasso do coração do deserto. Ela pediu: “Concentre-se apenas no rufar do tambor. Permita que o seu coração bata no mesmo compasso do coração do deserto. Sinta os dois corações batendo como se fossem um só coração. Assim, todo o poder e sabedoria do deserto também serão seus.” Passado algum tempo falei que já não sabia se o coração que eu sentia era o meu ou o do deserto. A mulher perguntou: “O que você vê neste instante?” De olhos fechados, confessei que eu me via correndo pelas areias do deserto, como um personagem de um filme, perseguido por um bando que tentava me aprisionar. Quanto mais eu corria, mais eles se aproximavam. Em seguida falei que o bando me encurralara na beira de um estreito beco de pedras. Acrescentei que eu não tinha saída e teria que me entregar ao bando. Falei que eu sentia medo. Medo da prisão, medo do desconhecido, medo do vazio, medo de me perder de mim mesmo. Argumentei que fazer parte do bando talvez desse algum sentido à minha vida. A mulher explicou: “O bando é formado pelo seu ciúme, ódio e egoísmo. Entregar-se ao bando é se deixar aprisionar. Não deixe que o medo domine as suas escolhas. Lembre, as suas escolhas irão te aprisionar ou te libertar.” Gritei que eu não tinha saída. O bando era poderoso. Ela disse com serenidade: “Sempre temos escolhas. Logo, sempre há uma saída.” Fez uma pausa antes de continuar: “Enfrente ou se entregue. Será sempre uma escolha. Morra de medo ou viva com coragem. Repita os velhos erros ou faça diferente e melhor.” No passado eu já tinha sido aprisionado nos cárceres, não apenas do ciúme e do ódio, mas também da inveja e da ganância. Não, eu não queria mais viver experiências parecidas. Sim, para ser livre eu teria, cedo ou tarde, de enfrentar cada uma das minhas sombras, seja em separado, seja em bando. Não fazia sentido adiar o combate se a coragem e todas as demais virtudes, as armas das quais preciso para a primordial luta pela vida sempre estarão dentro mim, pensei. Respirei fundo e decidi acordar a coragem adormecida. Mas não bastava. Respirei fundo de novo para trazer também a compaixão, a humildade e o amor. Impulsionei um dos pés na enorme pedra que fechava o beco e corri em sentido contrário. Embora ainda com medo, comecei a me sentir forte; as virtudes trazem em si este poder. Parti de encontro ao bando. Eu tinha decidido lutar. Neste instante tudo pareceu mudar. A cada passo algo se transformava em mim. Na medida que me aproximava do enfrentamento com o ciúme e o ódio, eu ganhava velocidade. Não, eu não estava mais veloz, exclamei para a mulher de olhos azuis. Em verdade, eu ficava mais leve a cada movimento.
Bem próximo ao início da batalha o medo tinha desaparecido de dentro de mim. No momento do choque para o início da luta que eu acreditava de vida e morte, outra surpresa. Eu não atropelei o ciúme e o ódio como quem se acredita forte como um destruidor tanque de guerra. Eu me senti forte por outro fundamento: eu os tinha sobrevoado. As minhas asas tinham crescido. O bando não podia mais me alcançar nem me fazer nenhum mal. As suas flechas não me atingiam; eram inofensivas. A coragem, a humildade, a compaixão e o amor me sustentavam no ar além da capacidade de alcance das sombras. Eu estava livre, gritei para a mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Ela me alertou: “Sim, você está livre, mas apenas por hoje. Se voltar a se arrastar, as sombras tornam a se agigantar e te aprisionam de novo.”
O tambor ainda rufou por algum tempo. Foi diminuindo o ritmo até cessar. Sentei. Disse que me sentia estranho, mas bem melhor. Falei que não mais sentia ciúme nem ódio. Também não sentia desânimo. Eu me sentia livre. A mulher arqueou os lábios em breve sorriso e me corrigiu: “Apenas metaforicamente. Em verdade, ainda não.”
Diante da minha surpresa, ela explicou: “O cerimonial mágico do tambor não transmuta as sombras de ninguém em luz. Esta é a batalha da vida de todos. Uma batalha que precisa ser vivida no plano físico. Embora possamos ter algumas ajudas sutis, ninguém ficará dispensado de travá-la com a própria consciência, através de cada escolha, até o último dia da travessia. O ritual do deserto facilita a nossa luta ao afastar as energias densas e influências de má vibração que atrapalham o livre pensar. Pensar com liberdade é movimentar a consciência expandido os limites da própria verdade, orientada pelas virtudes, sem condicionamentos, preconceitos, medos ou dependências de qualquer espécie.”
“A metáfora da cerimônia que você vivenciou não o faz vencedor de nenhuma batalha. Apenas o deixa em melhores condições para iluminar as próprias sombras. Não existe vitória sobre ninguém, salvo sobre si mesmo. Vale salientar que a vitória sobre si mesmo não significa a morte das suas sombras. Não faria sentido matar uma parte do próprio ser, pois você restaria incompleto. As sombras não morrem; elas são transmutadas em virtudes. No entanto, este processo quase nunca ocorre de uma única vez; tenha paciência, a natureza não dá saltos. Porém, a travessia é muito rica. Cada sombra, depois de bem trabalhada, se transformará em uma ou mais virtudes. A fragilidade do orgulho nos ensina sobre a força da humildade, por exemplo.” Fez uma pausa antes de concluir: “Por isto, não podemos negar as sombras, pois abdicaríamos das valiosas virtudes. Sem as virtudes restaremos incapacitados para seguir a travessia pelo deserto.”
“O ciúme, por sua vez, nos ensina muito sobre a maturidade do ser. O ciúme pode se tornar o mestre ou o algoz do respeito, da liberdade e da dignidade. Qualquer tentativa de domínio sobre o desejo alheio é um ato de desrespeito à liberdade e à dignidade do outro e a você mesmo. Será preciso aceitar as escolhas alheias como atitude de respeito às suas próprias escolhas. Sem respeitar a si não se respeita nada nem ninguém. Perde-se o norte, o ânimo e o sentido da vida. Estaciona-se na infância da existência.” Falei que eu mesmo estranhara a dimensão e o descontrole das minhas emoções naquele dia. Confessei não ter me reconhecido. Acreditava já ter superado algumas das emoções densas que tinham me dominado. Tornei a admitir a surpresa pelo meu descontrole que quase me levou ao desatino. A mulher me lembrou de uma antiga lição: “Céu e inferno são criações da sua consciência. Céu e inferno te pertencem. Acreditar-se além do mal é um grande perigo. A cada dia, todos os dias, você terá de escolher aonde vai morar.”
Fez uma pausa antes de concluir: “O cerimonial do tambor deixou você com um vazio. Aproveite a oportunidade para preenchê-lo com luz. Ou as trevas voltam a ocupar o antigo templo.”
“Agora é contigo; é a parte que te cabe na arte da vida.” Levantou-se e me deixou sozinho com o silêncio do deserto. Era preciso voltar para o acampamento. A festa pelo trigésimo dia da travessia já tinha começado. Do alto da duna eu podia ver as pessoas dançando, mas eu não ouvia o som das músicas. O vento soprava às minhas costas e levava o burburinho da caravana para longe dos meus ouvidos. Ao retornar eu encontraria com a Ingrid e o Paolo. Provavelmente dançando, felizes e aos beijos. Uma situação fora do meu controle, que não me caberia nenhuma escolha legítima. Nem por isto, e justamente por isto, eu não poderia me furtar da alegria pela vida. Quando a escolha é do outro cabe a ele suportar ou levitar sobre os efeitos da própria decisão. Assim também é comigo. Era hora de viver com isso. Era hora de superar os condicionamentos ancestrais de domínio sobre a vontade dos outros para aprender a ser digno e livre. Somente sendo digno e livre eu poderia viver em paz, ser feliz e amar incondicionalmente.
Acreditar que eu sofria por que a Ingrid era indispensável à minha vida, por me completar como mulher nenhuma tinha conseguido antes era uma ilusão. Se a incompletude era minha, logo, cabia a mim completá-la sozinho, com virtudes que eu ainda desconhecia. Somente assim me tornaria completo, inteiro e pleno. Era preciso parar de transferir a responsabilidade sobre qualquer questão da minha vida para os outros, sob o risco de continuar a viver inseguro, repleto de dependências emocionais. Ninguém completa ninguém. Este é o engano que mantém a humanidade em longos aprisionamentos de sofrimento e dor. O ciúme não é apenas resquício ancestral de dominação, mas também uma absurda tentativa de preencher o próprio jardim com as flores alheias. Quando faço isto deixo de ser as flores do meu jardim; a luz da minha alma. Em verdade, eu me completo através da mudança do olhar, no exercício das virtudes, na transformação do viver, na conquista por bens abstratos e intangíveis. Nas plenitudes. Então compartilho com quem as queira e sigo adiante. Sem depender de ninguém; sem autorização de ninguém. Livre, em paz, feliz, digno. Amando a mim, ao mundo e a vida. Esta é a minha força; este é o poder do universo pulsando através de mim.
Sentia-me pronto. Com o ego alinhado aos valores da alma retornei ao acampamento. Violinos e sanfonas animavam a festa. Todos bebiam, comiam, dançavam e se divertiam. Não demorou, encontrei com a Ingrid abraçada ao Paolo. Eles acenaram para mim. Ao menor sinal do ressurgimento do ciúme o acalmei com os conceitos da luz com os quais eu tinha firmado compromisso em mim há pouco. Essa luz passou a ser minha. Senti-me pleno. Ofereci ao casal um sorriso. Não um sorriso qualquer, mas o meu melhor sorriso. Eu estava sendo sincero, eles tinham o direito de estar juntos; eles tinham escolhido um ao outro. De coração, eu desejei a eles o melhor da vida.
A resposta é imediata. Percebi a força da vida ainda mais forte pulsando em minhas mãos; um poder oriundo da luz. Uma sensação maravilhosa de leveza e transcendência. Eu sorria para todos na caravana, o meu coração sorria para mim. Uma bonita morena de cabelos encaracolados, vestido vermelho e enormes argolas nas orelhas me olhou faceira. As boas vibrações encantam e aconchegam outras almas na mesma sintonia. Dançamos por toda a noite em volta da enorme fogueira que clareava a festa.
Em certo momento vi o caravaneiro. Ele me observava. Aproximei-me e o agradeci pela reprovação que havia em seu olhar quando beirei às trevas. Falei que o seu olhar me ajudou a retornar à luz. Ele sorriu e comentou: “A escolha é o mais precioso dom que possuímos; também o mais perigoso. Em cada uma encontraremos as dores e as delícias do deserto. A escolha é um instrumento primordial à criação, mas também a ferramenta usada para a destruição. Confie na luz que traz em ti, porém não despreze a influência das sombras. Da luz às trevas ou das trevas para a luz possui a distância de uma única escolha. Apenas através delas se consegue completar a travessia. Aprender a construir uma escolha é a mais pura arte do deserto.”

O vigésimo-nono dia da travessia – quando o deserto te arranca de ti.

Acordei com a Ingrid, a bela astrônoma nórdica de cabelos ruivos, me entregando uma caneca de café fresco. Agradeci. Ela sorriu com os olhos para mim. Depois do ocorrido nos dois últimos dias, não era difícil perceber que os seus olhos tinham um brilho diferente. Uma luz típica daqueles que se alegram por ver o que antes não conseguiam. Ingrid disse que iria providenciar algumas coisas junto à caravana e saiu. Sentado na areia, fiz a minha prece diária e bebi o café sem pressa, enquanto observava o movimento da manhã. Com a caneca vazia, me dirigi à tenda que servia de refeitório para me servir de um pouco mais de café. Um grupo de homens conversava na entrada. Embora não fossem meus amigos, depois de tantos dias quase todos nos conhecíamos de vista. Cumprimentei-os. Um deles era alto e bem forte, apesar da idade avançada. A característica que mais chamava a atenção eram as feições que demonstravam desconfiança sobre tudo e todos. Ele sempre fazia comentários sarcásticos, como se o fato de ridicularizar os outros, de alguma maneira o alimentasse. Diziam que tinha servido no serviço de informações de um país da extinta Cortina de Ferro, do bloco soviético existente à época. Chamava-se Ivan. Havia algo nele que emanava perigo. Talvez fosse isto que me incomodasse na sua presença. Talvez fosse uma intuição. Não raro confundimos as intuições com os nossos desejos e receios. Saber discernir uma dos outros costuma evitar dissabores.
Os homens reunidos na entrada da tenda devolveram o meu cumprimento com polidez, menos Ivan. Ele fez um comentário de duplo sentido em relação à Ingrid. Por instinto, sem qualquer resquício sabedoria, respondi com acidez. Eu não permitiria que ele zombasse da minha relação com a astrônoma. Como a presença dele já me trazia desconforto, a sua ironia foi suficiente para me irritar. Respondi em tom de enfrentamento. Ivan se sentiu ultrajado, pois todos os viajantes pareciam sentir medo dele. Por sua vez, ele adorava esta atmosfera de temor que o envolvia. Para manter a aura sombria que cultivava, Ivan me ameaçou. Na estranheza comum ao seu comportamento, não fez uma ameaça direta. Aliás, nada nele era claro; todas as suas palavras pareciam trazer uma mensagem subliminar. A ameaça foi velada, bem ao seu estilo de ser. Falei que se ele tivesse algo contra mim, que resolvêssemos ali, naquele instante. Nada deveria ficar para depois. Os seus olhos me apunhalaram com fúria. Ele proferiu ofensas e deu um passo na minha direção. Mantive o olhar firme. Mais por orgulho, nem tanto por valentia.
Fui salvo pela chegada do caravaneiro. Ele se colocou entre nós dois, nos olhou e nada disse. Não precisava. No deserto o caravaneiro era a lei. Todos, sem exceção, o respeitavam. Nem mesmo Ivan ousava desafiá-lo. Diante de um silêncio repleto de mal-estar, enchi a caneca com café e saí. Antes, porém, olhei para o caravaneiro e vi uma postura de firmeza e serenidade. Quando olhei para o Ivan percebi o desdém em suas feições, como se enviasse um recado de que eu era muito frágil para ele. Senti, também, que as minhas atitudes foram dardos que lhe feriram o orgulho e a vaidade. Tive a certeza de que haveria troco.
Atos e fatos são fábricas vibracionais; ondas energéticas de sombras ou luz que atingem a todos os envolvidos. Ficar imune às sombras ou aproveitar a luz requer conhecimento e exercício. No entanto, somos bem menos do que sabemos. Temos por hábito apenas reagir diante de uma situação, impulsionados por nossos condicionamentos ancestrais e culturais. Então, reagimos pelos instintos que nos moveram até ali, guiados pelas sombras que ainda não educamos dentro de nós. Sombras geram aprisionamento. Se eu colocasse em prática o que sabia, teria permitido que as virtudes, aquelas que já possuía, se manifestassem em ação. Poderia, também, aproveitar a ocasião para germinar outras virtudes ainda em semente. Virtudes são fontes de luz. Eu sabia disso tudo, mas eu não conseguia ser isso tudo.
Como consequência justa, fiquei me sentindo mal. As minhas sombras estavam no domínio; medo, orgulho ou raiva se alternavam através de ideias e emoções. Tudo tão denso dentro de mim que não existia uma pequena brecha por onde entrar um mísero facho de luz. Quando o desequilíbrio se instala no ser; a nitidez dos pensamentos nobres e a clareza dos bons sentimentos desaparecem. Tudo passa a incomodar. Quando Ingrid se aproximou para comunicar que faria a travessia deste dia ao lado do bom homem do chá, a quem todos consideravam um sábio, pois ela tinha vários assuntos que gostaria de conversar com ele, enciumado, dei uma resposta atravessada à astrônoma, em total desrespeito à sua liberdade. Ela me olhou sem entender e se afastou. A razão desse meu comportamento era o desentendimento com o Ivan, na superfície. Em profundidade, era por não saber lidar com as minhas emoções quando alguém se mostrava hostil a mim. Montei em meu camelo; ninguém alinhou ao meu lado. Um pouco depois, após alguns minutos de travessia, o caravaneiro se aproximou, em seu cavalo branco, me olhou fundo por breves segundos, e disse: “O deserto te arrancou de ti.” Fez uma pausa antes de concluir: “Para não naufragares em tempestades de agonia, será preciso voltar para ti mesmo. Não há melhor abrigo.” Tocou com os calcanhares no ventre do cavalo, moveu as rédeas com destreza e sumiu de vista.
Como se o caravaneiro tivesse a capacidade de ler a minha alma, atravessei a primeira parte da marcha afogado em enorme agonia. Foi como se mais nada existisse ao redor. Pior, era como se eu não fosse mais senhor de mim. Eu não conseguia pensar em outra coisa que não fossem as possibilidades de desdobramento do conflito. Possibilidades desastrosas, por qualquer viés que eu conseguisse enxergar. As sombras – as minhas próprias sombras – tinham total poder sobre mim. Medo, raiva e orgulho formavam o triunvirato que me comandavam.
No meio do dia não paramos para descansar como de costume. Marchamos por mais duas horas até um pequeno poço para nos abastecer com água. Veio a ordem para acamparmos. Ficaríamos ali o resto do dia, onde também dormiríamos. Enchi os meus cantis. Em seguida me afastei do grupo. Sentei na areia e fechei os olhos. Eu precisava pensar, porém não conseguia. As ideias se mostravam confusas, como em colisão com as emoções. Tudo em mim parecia disperso. Sentia-me desanimado. Quando abri os olhos a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli estava sentada ao meu lado. Como se adivinhasse, ela explicou: “O desânimo surge quando deixamos secar as fontes internas de luz. Então, bebemos nos riachos das sensações turvas. Restamos envenenados e na escuridão.”
Confessei que aquela sensação era mais forte do que eu. Sentia-me incapaz de sair de onde estava. A mulher ponderou: “A nossa consciência molda a realidade. É preciso que você se acredite forte o suficiente para enfrentar qualquer situação na sua vida. Do contrário, não conseguirá.” Falei que o argumento era válido, no entanto, me parecia insuficiente. Ela concordou: “Trata-se apenas do primeiro degrau. No entanto, ele é essencial para que haja a escalada ao topo.” Perguntei qual era o topo. Ela respondeu de pronto: “A prevalência das virtudes em forma de ação ao invés dos instintos mecânicos de reação; o sábio sobre o selvagem, ambos habitam em todos nós; as sombras transformadas pela luz. A integralidade do ser; a conquista das plenitudes.”
Apesar de ter esse conhecimento, admiti a sua ineficácia, ao menos para mim, nas relações do cotidiano. A mulher se mostrou generosa: “Sem a devida prática, a teoria se desmancha nas noites do tempo.” Fez uma pausa e revelou: “Vou lhe ensinar um exercício. Foi como eu aprendi a me fortalecer, a reencontrar o meu eixo e não me perder das fontes de luz em momentos de conflitos, semelhantes ao qual você atravessa.” Perguntou se eu estava disposto. De imediato respondi que sim. Ela pediu para que eu deitasse na areia e fechasse os olhos. Tirou uma pequena flauta da bolsa que usava à tiracolo. Em seguida começou a tocar uma suave melodia. Pediu para que eu tentasse me desligar de tudo ao meu redor, inclusive dos fatos recentes e também dos pretéritos. Isto ajudaria a esvaziar as emoções e a ideias que me dominavam. Eu deveria me deixar conduzir pela música. Era preciso deixar que cada nota entrasse em meu corpo e, como se fosse uma vassoura ou esponja, limpar qualquer resquício de sujeira que me impedisse a clareza das ideias e a leveza dos sentimentos. A canção prosseguiu por algum tempo até que a mulher de olhos azuis cessou com a música e quis saber como eu me sentia. Falei que um pouco melhor, pois tinha conseguido, por breves minutos, me desligar dos fatos que me perturbavam. Mas apenas um pouco melhor, reiterei. Ela me situou com a sua voz suave: “Não permita que a ansiedade escureça a estrada. Começamos agora. A jornada é longa.”
A mulher de olhos azuis me perguntou em qual lugar eu me sentia melhor, acolhido e em segurança. Respondi que em casa. Ela pediu: “Imagine-se em casa em um encontro consigo mesmo. Sentem-se frente a frente. Busque por todo o conhecimento adquirido até hoje para transmitir a você mesmo as bases de sustentação das suas próximas atitudes daqui por diante. Um comportamento repleto de virtudes. O medo, o orgulho, a vaidade, a inveja, o egoísmo, os desejos insensatos e a desesperança darão lugar à coragem, à humildade, à compaixão, à mansidão, à misericórdia, à pureza e à fé. Uma troca que provocará uma inimaginável transformação no ser.”
“Antes de qualquer decisão, tenha em mente que você deve tratar os outros como gosta de ser tratado, levando em consideração que as dificuldades são comuns a todos, inclusive a você. Entenda que não apenas a força, mas também a clareza, estão na consciência, além de quaisquer circunstâncias externas e materiais. O bom combate começa dentro de si. Ele é travado por aquele que usa as virtudes como espada. As virtudes se manifestam através das escolhas sem as quais não existe avanço na travessia pelo deserto.” Fez uma pausa antes de encerrar a primeira etapa: “Firme um compromisso consigo mesmo e aceite a responsabilidade que acabou de firmar. Assim a luz consagra os seus guerreiros.”
Senti a minha casa como se fosse um templo sagrado. Foi como se todo o poder da luz ancorasse em mim. De alguma maneira, comecei a me sentir diferente e melhor.
Ela prosseguiu: “Agora, em sua tela mental, se encontre com alguém em quem você confie, cuja a presença traga conforto e a sabedoria seja admirada. Pode ser alguém que você conheça, um grande mestre da humanidade ou mesmo um personagem admirável da literatura, cuja saga e o enorme conhecimento tenham como viga principal o amor.” De imediato, pensei no Velho, o monge mais antigo do mosteiro, por sua serenidade e sabedoria. A mulher continuou: “Se imagine sentado ao lado dele, em uma conversa amigável na qual você expõe os seus problemas e ouve os conselhos desse mestre. Escute as palavras, compreenda os conceitos, descortine os véus da ilusão.”
“Após esse encontro, vá à procura da pessoa que o incomoda ou assusta. Olhe nos olhos dela. Veja-o sem raiva nem ressentimento. Caso sinta medo, não recue, o medo é normal; apenas permita que a sua coragem se manifeste e, aos poucos, ocupe o lugar do medo. Jamais seja agressivo; apenas os covardes são violentos. Seja manso, porém firme; a mansidão é uma virtude permitida aos melhores guerreiros. Dispa-se do seu orgulho e vaidade. Não leve o ciúme no bolso, tampouco a inveja escondida na manga. Esteja puro para estar inteiro. Ser puro não significa ser tolo; ser puro é estar livre de subterfúgios. Imagine todas as possibilidades de atitudes cabíveis por parte dessa pessoa. Recuse-se a reagir por impulso ou por instinto diante de cada possibilidade; isto você sempre fez e nada lhe trouxe de bom. Ao invés de apenas reagir ao movimento dessa pessoa, aja de maneira a não mais aceitar as regras de um jogo obsoleto. Não se permita mais jogar nas regras das sombras. A partir de agora serão as regras da luz. Lembre, ninguém consegue caminhar pelas noites do deserto. Nesse cenário, imagine como você agirá diante da provocação ou da ofensa proferida; considere todas as possibilidades que você consiga; seja criativo e pense em algo nunca antes imaginado. Sem esquecer que agora você agirá com as armas com a qual se compromissou, a luz.”
Essa etapa demorou um tempo que não sei precisar. A cada possibilidade eu tendia a reagir no mesmo tom, a “devolver na mesma moeda”. Era preciso refazer os conceitos e a devida ação futura; a fazer diferente e melhor; a me permitir a outra face. A tão incompreendida outra face, a face da luz. Não foi fácil, mas foi transformador. A mulher com os olhos azuis esperou com infinita paciência eu me declarar pronto.
Por fim, ela sugeriu: “Agora volte ao seu lugar sagrado para se encontrar de novo consigo mesmo. Analise toda a trajetória. Olhe para dentro sem esquecer de olhar para fora; seja bom para si, mas ofereça aos outros algo que eles não tenham ou não conheçam. O deserto será sempre um perfeito reflexo do andarilho. Entenda as próprias razões, mas lembre que o outro, assim como você, também vive na fronteira da própria consciência. Não raro, cada um traz uma parte da verdade. Analise se você foi digno em seu comportamento ao oferecer aquilo que gostaria de receber; se a sua atitude foi a de um indivíduo livre de preconceitos, condicionamentos e dependências; se houve esforço em semear uma ideia de amor; se você ficou feliz com as suas escolhas e, ao final, em paz consigo mesmo.” Fez uma pausa e concluiu: “Então, você estará pronto para o bom combate.” Ponderei sobre o imponderável; eu não saberia como agir diante de uma atitude imprevista. Ela me tranquilizou: “O maior perigo é o de você agir fora da luz. O poder que o ilumina é também aquele que o protege.”
A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se levantou e saiu.
Mais tarde, encontrei com a Ingrid e lhe pedi desculpas pelo comportamento que tive pela manhã. A astrônoma foi carinhosa e disse que todos têm os seus maus momentos. Disse que eu era uma pessoa muito importante para ela. A Ingrid tinha o dom de fazer do seu coração um bom lugar para estarmos. Todos se sentiam bem ao seu lado. Exigir a sua presença com exclusividade não era uma atitude digna de pessoas livres por ficar aprisionado à liberdade alheia. Nunca será um gesto de amor por impor condições ao amor. Afinal, nenhum privilégio é justo; sem sermos justos em todas as nossas relações não nos sentiremos felizes nem em paz. Sorri para mim mesmo. Eu nunca tinha me dado conta de como situações aparentemente banais do dia a dia podem nos ensinar tanto em relação às plenitudes.
À noite, na hora do jantar, me dirigi à tenda do refeitório. Enchi uma cuia com sopa de ervilha e, como de costume, fui me sentar afastado. No trajeto encontrei com o Ivan. Estávamos a sós. Ele me provocou fazendo novas insinuações em relação à Ingrid. Em seguida, tornou a me ofender. A primeira emoção foi a raiva; as sombras impressionam por sua enorme velocidade. No entanto, desta vez eu tinha me preparado. Eu dominei a raiva ao invés dela se apossar de mim. A raiva, assim como qualquer emoção sombria, gera energia. No entanto cabe a mim direcionar essa força em outra direção para aproveitá-la para o bem. Para tanto tenho que envolvê-la em alguma virtude para que se transforme em luz. Então, posso usar a energia, agora modificada, para melhores fins.
Usei a compaixão para alterar a frequência da minha raiva. Naquele instante, descobri um amor que eu mesmo não conhecia. Senti-me com entranha força a partir do momento em que eu me mantive irredutível no meu compromisso com a luz. Ali comecei a entender um pouquinho sobre a fé, em como movimentar a luz através de mim.
Eu não queria falhar logo no primeiro combate. Na verdade, percebi que batalha aconteceria primordialmente, não perante ao Ivan, mas dentro de mim. Eu somente poderia ajudar ao Ivan em relação às suas sombras se eu fosse capaz de superar as minhas. A compaixão utilizada para modificar a raiva apenas foi acessível quando admiti que as dificuldades de Ivan são familiares às dificuldades que tive ou tenho. Os graus e os tipos podem ser diferentes, mas o parentesco é inevitável.
Olhos nos olhos, eu sabia que não podia haver qualquer resquício de soberba ou superioridade. A humildade é a virtude primordial sem a qual nenhum avanço será possível. Falei com honestidade que havia algo nele, Ivan, que eu admirava. Ele me olhou surpreso. Eu disse que ele transmitia a todos à sua volta uma força incomensurável e muito importante pelo seu poder de construir e proteger. No entanto, em razão do seu jeito agressivo, aquela força gerava medo; logo, repulsa. Ponderei que se aquela força fosse melhor direcionada, passaria a gerar respeito e admiração; logo, aconchego. Uma impressionante força nata que precisava ser trabalhada de maneira diferente. Propus que eu o ajudasse; considerei que ele, sem nenhuma dúvida, também tinha muito a me ensinar.
Atônito, Ivan desviou o olhar. Manteve-o longe, muito além das dunas ou das estrelas do deserto. Quando tornou a me olhar, vi sofrimento em seus olhos. Por trás daquele homenzarrão existia um menino solitário pedindo ajuda. Disse que ninguém tinha conversado com ele daquela maneira. Afastados do burburinho da caravana, sentamos na areia.
Ivan contou a sua infância sofrida e as dificuldades de sobreviver em um país pobre sob regime totalitário, no qual os direitos e garantias pessoais eram quase inexistentes. O medo imperava; a força bruta era valorizada. Então, aprendera a utilizar o medo para se impor. Era a única ferramenta que ele conhecia e sabia usar. Acostumara-se assim, como se não existisse outra maneira de ser e viver.
Ivan se comportava como aprendera desde sempre. Agressividade era a maneira inconsciente de ele esconder dos outros, ou admitir para si mesmo, as suas fragilidades, as fraquezas morais e emocionais com as quais não conseguia lidar. Ele acuava as pessoas por temer questionamentos. A violência era como um escudo para se proteger de questões internas com as quais não sabia lidar. Tornara-se um homem temido, mas não era feliz. O medo não permitia o florescimento de amigos. Os homens se aproximavam por interesses escusos, nunca por sincera afeição. As mulheres se aproximavam quando desejavam proteção, nunca por admiração. Confessou que estava cansado. A sua força era também a sua fraqueza, ou seja, a sua agressividade era mera expressão da sua covardia. Covardia de enfrentar a si mesmo.
Ivan me perguntou como deixaria de provocar medo para causar respeito. Expliquei que força e violência são manifestações distintas; o amor e as virtudes as diferenciam. Usei o caravaneiro como exemplo. Era um homem que emanava uma inquestionável força, porém o aprimorado senso de justiça que o orientava fazia dele uma pessoa respeitada e agradável pelo clima de confiança proporcionado.
Ficamos um tempo em silêncio. Ivan, com os olhos mareados, confessou que sempre se sentiu fora de si, como se em algum momento da existência alguém o arrancara do seu eixo para viver um personagem inventado. Disse que era hora de voltar para dentro dele, encontrar quem era de verdade. Pois, apesar da idade avançada, ainda não sabia. Sincero, me agradeceu a ajuda. Falei que a conversa só ganhara aqueles contornos pelo fato de ele já estar pronto para a mudança que se anunciava. Eu apenas o tinha despertado de um sono demorado. Ele tornou a agradecer, disse que gostaria de me ter como amigo. Falou que tinha muito para pensar. Levantou-se e foi embora. Aos meus olhos, vi um menino se afastar.
Eu também tinha muita coisa para pensar. O deserto tinha me arrancado de mim, mas quando voltei a me encontrar algo havia se modificado. Percebi que, guardadas as devidas diferenças, o medo e a agressividade usados como ferramentas por Ivan tinham algo em comum comigo. Por toda a minha existência eu alimentei enorme vaidade e orgulho pela minha criatividade profissional. Usei-a ilimitadamente para acuar clientes, depreciar a concorrência e, com isso, conseguir vantajosos contratos. Uma ferramenta que, mal-usada, serviu às sombras por magoar muita gente, me permitir conquistas indevidas e, para piorar, me iludir maior do que os outros, além de me tornar um dependente em elogios e aplausos. Embora as sombras do Ivan pudessem estar mais visíveis para a maioria das pessoas, elas não eram mais inocentes do que as minhas, tampouco eu tinha sido um homem melhor do que ele. No fundo, entre nós, havia mais semelhanças do que diferenças.
Os iguais se atraem. As diferenças explicam aquilo que não entendemos em nós.
Uma bela lição do deserto restara agregada em meu ser. Fiz uma prece; agradeci pelo problemas e conflitos, valiosas alavancas de transformação. Era preciso agradecer também a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli pelos exercícios ministrados. Quando abri os olhos, a vi ao longe, no alto de uma duna. Ela dançava para as estrelas.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O vigésimo-oitavo dia da travessia – a consciência do deserto

Acordei bem cedo, com o céu ainda naquele tom de rosa típico de quando o dia amanhece sem que o sol tenha despontado no horizonte. Ingrid, a bela astrônoma nórdica, que quase morrera envenenada pela mordida de uma serpente no dia anterior, sentada ao meu lado, sorriu para mim. Senti-me aliviado. Embora ainda enfraquecida, ela estava bem. Apanhei duas canecas de café e me sentei ao seu lado. Ela agradeceu com os olhos sem dizer palavra. Falei que estava preocupado de como ela suportaria mais um dia de travessia. As condições do deserto são severas e eu temia que ela piorasse. Com o queixo, Ingrid apontou para um dos encarregados da caravana. Era Rafi. Eu já o tinha notado pelo fato de, mesmo sem ter um dos braços, era uma das pessoas mais solícitas, gentis e trabalhadoras do grupo. Eu entendi o que ela queria me dizer, no entanto, ponderei que apesar de Rafi não ter um dos braços, o seu organismo era forte e acostumado àquelas condições. Entretanto, ela ainda estava visivelmente debilitada. Ponderei que ela seguisse deitada, como no dia anterior, em uma maca montada entre dois camelos, pelo menos por mais um dia. Ingrid se negou. Disse que iria sentada sobre o seu camelo. Insisti que ela estava equivocada e que se arrependeria. Ela deu de ombros e disse que a consciência molda a realidade; ao se acreditar fraca, seria fraca. Acrescentou que o inverso também era aplicável. Ser forte será sempre uma escolha. Uma simples escolha. Rafi era um bom exemplo disso, ressaltou.
No mais, explicou, ninguém gosta de errar. Porém, errar quando nos deixamos levar pela opinião de outra pessoa, ainda que a intenção dela seja sincera, na contramão da nossa consciência, é muito pior. Somente ao respeitar as próprias escolhas o indivíduo outorga a si o poder sobre a sua vida. Significa aplicar a consciência como mestre, em exercício constante de erros e acertos na busca pela verdade. A verdade se ilumina à medida que a consciência se expande. Para tanto, é necessário estudo e prática.
Falei que eu apenas queria o bem dela. A astrônoma me ofereceu um belo sorriso e disse que não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. Disse, também, que todas as opiniões eram bem-vindas e ela agradecia por cada uma delas, pois permitiam outras óticas sobre uma mesma questão. Era como receber flores de sabedoria, uma bonita maneira de amar. Todas eram levadas em consideração, podendo ou não modificar o seu olhar. Contudo, respeitar a verdade da própria consciência faz florescer a liberdade individual. Isto ensina o indivíduo a se responsabilizar por si, por suas escolhas e, por consequência, a aprimorá-las. Seguir a orientação da própria consciência é a maneira única de passar da infância à maturidade do ser.
Não quis insisti para não fazer o papel do chato. Oferecer uma opinião era um direito meu; a decisão cabia a ela. Tão e somente. Respeitar as escolhas alheias estabelece a fronteira das relações saudáveis, germina a paz e também fala muito sobre a liberdade. Quando imponho a minha opinião sobre alguém ficamos ambos na mesma cela. Afinal, prisioneiro e carcereiro estão impossibilitados de sair de onde estão; um cerceia o outro. Para ser verdadeiramente livre não posso aceitar a função de me tornar o carcereiro da liberdade de ninguém. Em contrapartida, não posso conceder tal poder a ninguém sobre as minhas escolhas. Digo o que penso, sempre de maneira serena e clara; o outro decide por seus próprios conceitos e valores. De outro lado, escuto o que todos têm a me dizer; então decido pela luz da minha consciência e assumo, sem lamentar, as dores e delícias das consequências.
Apenas, por cuidado, emparelhei o meu camelo ao da Ingrid. Ela, ao perceber o carinho, sorriu em agradecimento. Com o passar das horas, notei que a astrônoma falava cada vez menos. Os seus olhos quase sempre fechados revelavam um claro desconforto, um cansaço além do que ela sentiria caso estivesse bem.
Quando paramos no meio dia para um breve descanso e uma refeição ligeira, Ingrid parecia quase desfalecer. Deitou-se na areia para descansar. Bebeu um longo gole de água do cantil. Perguntei se ela queria comer alguma coisa. Ofereci um punhado de castanhas e tâmaras desidratadas que sempre levava no alforje do camelo. A astrônoma sorriu e aceitou. Depois que comeu ela me pareceu um pouco melhor. Em seguida, com um jeito maroto, disse que eu deveria estar pensando que teria sido melhor para ela seguir os meus conselhos de fazer a travessia deitada em uma maca entre dois camelos. Respondi que era exatamente isso. Ingrid se sentou e me convidou a sentar ao seu lado. Disse que não morreria mais da mordida da serpente, porém o veneno, ao menos em parte, ainda circulava em suas veias. Acrescentou que ela tinha que entender todo o significado do fato.
Falei que ela parecia complicar o que era simples. Afinal, ela tinha sido envenenada por uma cobra e estava curada. Agora precisava apenas recobrar o vigor aos poucos. Simples assim. Nada mais precisava ser entendido. Ingrid sacudiu a cabeça como quem diz que eu estava enganado.
Ela lembrou que tinha sido envenenada. Interrompi para sugerir que poderia ter acontecido com qualquer outra pessoa da caravana. Ingrid concordou e acrescentou que, porém, foi com ela. Nada é por acaso, tudo que acontece na vida é para o nosso bem. Discordei de imediato. Falei que um desastre, uma doença ou, como no caso dela, um envenenamento que quase a levou ao óbito, não guardavam nada de bom. A astrônoma me olhou com doçura. Em seguida, explicou que todos os problemas escondem um mestre em si. Encontrar o mestre ou deixá-lo fugir é a função de cada um que vivencia a experiência. Significa uma lição agregada ao ser ou uma mera aporrinhação.
Sorriu ao falar que não podia desperdiçar essa maravilhosa oportunidade. Perguntei o que ela tinha aprendido com aquele episódio. Ela disse que ainda não sabia, mas que tinha uma pista de onde o mestre estava escondido. Uma pista? Estranhei. Falou que teve o corpo envenenado. Para que a sua existência prosseguisse precisou filtrar o sangue no antídoto feito com a própria substância nociva. Caso contrário, se apagaria a luz da existência. Processo que ainda não chegara ao fim; ao menos se ela entendesse que aquela jornada não estava limitada ao corpo. Porém, poderia ter também significados metafísicos. Cabia a ela escolher o alcance da experiência vivenciada.
O veneno da serpente envenenara o seu corpo. Era preciso entender o que envenenava a sua alma. Os problemas no físico são espelhos de questões íntimas mal resolvidas. Diante de um problema, os sábios agradecem a oportunidade; os tolos se lamentam.
Falei que aquilo era um absurdo, pois, seguindo a sua lógica, pessoas com problemas de visão teriam questões primordiais em sua vida que se negavam a ver. Indivíduos com lesões na coluna vertebral, eixo central do corpo, teriam situações estruturais do ser a serem resolvidas, apenas para citar algumas possibilidades. A astrônoma balançou a cabeça como quem diz que é exatamente isso. Em seguida, explicou que a alma expurga para o corpo as emoções e realidades mal digeridas. Falei que aquela retórica era insana. Ingrid apenas sorriu e deu de ombros.
Confesso que fiquei atônito com aquele raciocínio. Achei que ela procurava significados em algo desprovido de qualquer significado. Calei-me diante do devaneio da astrônoma. Considerei que seriam delírios ainda como efeitos do envenenamento. Veio a ordem para que a caravana seguisse a sua marcha. Continuamos com os camelos emparelhados. Ingrid evitou conversar. Os olhos, ora fechados, ora abertos, se alternavam por longos períodos. Quando fechados, eu tinha a sensação de que ela olhava para si mesma; abertos, parecia vagar nas areias infinitas do deserto. Por vezes sorria para os próprios pensamentos; em outros momentos as lágrimas lhe escapavam pelos cantos dos olhos, como se, ao lavar o coração as emoções recorrentes transbordassem do próprio ser.
Ao final da tarde paramos para montar o acampamento e passar a noite. Ofereci-me para pegar o jantar para ela na tenda do refeitório. Ingrid aceitou. Quando voltei com duas cuias fumegantes de guisado de carne-seca de carneiro com legumes, a astrônoma estava deitada na areia. A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tinha sentado ao seu lado. Parei, mas a mulher fez um sinal com o queixo para que eu me aproximasse e sentasse. Elas conversavam.
A mulher de olhos azuis pediu para que a Ingrid ficasse com os olhos fechados: “É hora de olhar para si. Sem este movimento não existirá cura. Não falo do corpo, me refiro à alma. Relaxe por alguns minutos. Em seguida, mergulhe no fundo de si mesma e traga à tona todas as memórias e emoções que ainda envenenam o seu coração.”
Passado alguns momentos, a astrônoma começou a falar como em catarse, situações vividas desde a infância que lhe faziam mal. O fato do pai privilegiar o seu irmão em detrimento a ela; um relacionamento em que o namorado a trocou por uma amiga; uma injustiça por ter sido preterida no trabalho por um colega bem menos capacitado. Além destas, outras memórias de tristes lembranças e nocivas emoções. Algumas delas, Ingrid achava nem mais se lembrar, mas naquele momento percebeu que ainda a atormentavam no inconsciente. A mulher de olhos azuis explicou: “As mágoas são venenos que nos intoxicam enquanto durarem. Os ressentimentos roubam as cores da vida; nos matam por aprisionamento. São subtipos da raiva ou do ódio. Venenos agressivos que enfraquecem a alma; impedem a conquista de todas as cinco plenitudes, mormente a felicidade e a liberdade.”
Ingrid disse que entendia que tais emoções a impedissem de alcançar a felicidade. Porém não entendia quanto à liberdade. A mulher foi didática: “Ninguém é feliz com o coração afogado em tristes lembranças.” A astrônoma concordou e interrompeu para perguntar se devia esquecer esses fatos geradores de tantas mágoas. A mulher aprofundou a explicação: “Em verdade, ninguém esquece. Tampouco deve esquecer. A tentativa de reprimir a memória, de recalcar o passado gera desajustes no ser. A alma não consegue evoluir enquanto preferir a negação ao invés da superação. Superar é evoluir para ir além; além de si mesmo, além dos fatos externos que jamais podem ter a força de impedir a conquista das plenitudes. A liberdade é uma delas. Ninguém é livre enquanto estiver acorrentado a um ressentimento. A liberdade, muito mais do que um movimento de ir e vir do corpo, é a livre viagem por todo o seu passado, por todos os momentos da vida sem qualquer sofrimento que a aprisione. Somente assim poderá aproveitar toda a beleza do presente e projetar o futuro com sabedoria. Para tanto é preciso olhar para cada um desses fatos que geraram algum tipo de sofrimento e abraçá-los com amor. Entender que cada indivíduo agiu ou age no limite da sua capacidade; no estreito âmbito do nível de consciência e no extremo das suas possibilidades de amar. Tenha certeza de que o outro se comportou como sabia. Se não fez melhor foi porque não era capaz naquele momento da existência. Talvez ainda não seja, mas não importa. Você não precisa esperar que o outro se arrependa, peças desculpas ou mude o comportamento para que você possa seguir em liberdade. Ser livre sempre será uma atitude pessoal independente de qualquer fator externo ao ser.”
“Contudo, não esqueça que você também poderia ter agido de maneira diferente com outras pessoas em diferentes situações da sua vida. No entanto, naquela época você não conseguiu. Não tenha dúvidas que várias pessoas ficaram magoadas por diversas escolhas que você já fez. No entanto, veja isso sem a culpa que paralisa; enfrente com a responsabilidade que transforma.”
“O problema é que nos arvoramos no direito de nos magoar com as escolhas alheias e, ao agir de acordo com a consciência que já alcançamos, ainda longe da pura luz, exigimos que todos compreendam as nossas decisões. Somos rigorosos com os outros e pedimos que sejam tolerantes conosco. Assim nos mantemos em eteno conflito. Não esqueça, por justiça, a recíproca sempre será aplicada. Entende como a mágoa tem uma absurda ligação com a liberdade? No fundo, a mágoa ainda demonstra o quanto ainda estamos ligados aos condicionamentos ancestrais de dominação. Desejamos que os outros escolham as nossas escolhas; que todos sejam permissivos aos nossos desejos. Constantemente nos iludimos que a nossa consciência é a verdadeira ou a única. Isto não é possível, justo ou digno. Seja conosco, seja com o mundo.”
“Esse entendimento, de respeitar as próprias escolhas e, por consequência filosófica, aceitar as escolhas alheias pavimenta a estrada para uma das mais sublimes virtudes, pelo tanto de amor, sabedoria e coragem que contém: o perdão.”
“O perdão é o antídoto para todos os venenos oriundos da mágoa, do ressentimento, da raiva ou do ódio. Como todo antídoto é elaborado a partir do próprio veneno, o perdão nasce a partir do entendimento dos meus equívocos em relação a outras pessoas em diferentes momentos da existência.”
“Como exigir a perfeição de quem ainda não a entende? ‘Perdoai-os Pai, eles não sabem o que fazem’, esta frase é parte do maior legado de amor, sabedoria e coragem da História. Aprofundando o tema, como exigir a perfeição dos outros se eu mesmo ainda não a tenho em mim para oferecer a eles? Perceba toda a dignidade que existe neste raciocínio.”
“No mesmo diapasão, o perdão nos ensina que a dor só faz sentido quando a envolvemos com amor. Caso contrário não haverá avanço; será apenas um sofrimento. Para ser amor não pode haver taxas ou tributos; há que ser incondicional. Isto, por consequência, redimensiona a verdadeira liberdade. A liberdade forjada no âmago do ser sem nenhuma dependência das coisas do mundo.”
“O perdão nunca é espontâneo ou vem como um passe de mágica. Ele é uma construção interna. O perdão se sustenta através dos pilares da consciência; com a argamassa do coração. O perdão, nascido da ofensa proferida, é o elixir que transmutará toda a tristeza que sufoca a alma.”
“Lembre sempre que não basta perdoar os atos sofridos, mas também aqueles praticados. Os erros não são privilégios de ninguém e fazem parte das escolhas de todos. Sem exceção.” Olhou para Ingrid e ensinou: “Perdoe a si mesma para ser capaz de perdoar alguém. Somente ao entender as suas dificuldades de escolhas você será capaz de compreender e aceitar os equívocos alheios. Entenda também, isto é muito importante, que muitas vezes sofremos porque concedemos a alguém um poder indevido sobre a nossa vida. Então, torne a perdoar a si mesma por não ter conseguido impor os limites que deveria e assuma perante ao próprio coração a responsabilidade de na próxima vez – e sempre haverá uma próxima vez, nem que seja para testar se de fato existiu a superação – agirá de maneira diferente e melhor do que fez anteriormente. Isto lhe concede o poder da vida. Isto fará se sentir em paz consigo e com o mundo.”
“Esta paz é o atestado de cura.”
Ficamos sem dizer palavra por um tempo que não sei precisar. O céu mudou para que as estrelas se derramassem como um manto sobre a astrônoma. As suas amadas estrelas. Aos poucos Ingrid começou a balbuciar fatos tristes da sua infância; enquanto os narrava, se esforçava para o entendimento consciencial das dificuldades de todas as pessoas envolvidas em cada episódio, inclusive ela mesma. O perdão é avesso à vitimização. Depois vagou pela adolescência até chegar aos dias da idade adulta. À medida que os fatos chegavam à mente, chorava; então, os abraçava com amor para iluminar as possibilidades de entendimento e superação. Então, sorria. Sorria para si; sorria para as estrelas. Isso aconteceu várias vezes naquela noite.
As horas se passaram sem pressa. Até o momento em que a astrônoma olhou para a bela mulher de olhos com cor de lápis-lazúli e disse que não havia mais nada, que estava vazia. Vazia de mágas. Falou que se sentia leve. Uma estranha e agradável leveza. Agora Ingrid podia revisitar as suas memórias como quem assiste a um filme de amor; de amor pela beleza da vida, pelas possibilidades infinitas de superação; não mais a um doloroso drama. A mulher de olhos azuis sorriu satisfeita e explicou: “Todo o veneno foi expurgado da sua alma. Agora você está pronta para a seguir na conquista das cinco plenitudes: a dignidade, a paz, a liberdade, o amor incondicional e a felicidade.”
Ingrid sorriu e deu um beijo sincero de agradecimento no rosto da mulher. A astrônoma disse que sentia vontade de dançar. Pegou um lampião, se afastou alguns passos, o fixou na areia e começou a rodopiar em volta dele. Bailava para si, para nós, para as estrelas, para a vida; comemorava por ter encontrado o mestre oculto daquele problema que lhe ensinara um pouco mais sobre todas as curas da alma. Desta vez, ele, o mestre, não tinha escapado. Sentada ao meu lado, a mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se divertia e batia palmas para ritmar a dança de Ingrid. Perguntei a mulher se toda dor traz a resposta que necessitamos. Ela se virou para mim e disse: “Não. A dor traz o mestre; nele, a resposta. Obter a resposta certa exige duas coisas: primeiro, envolver o problema com amor. Depois, fazer a pergunta certa. Senão o mestre escapará e restará apenas o sofrimento.” Fez uma pausa antes de falar: “Não raro, fugimos das perguntas essenciais por medo, comodidade ou ignorância. A exata pergunta ilumina a consciência na busca pela verdade.” Olhou para a astrônoma e concluiu: “A cura da alma reflete a vitória da luz sobre as próprias sombras.”
Ideias nova circunvagavam a minha mente a procura de um lugar para morar. Antes que o dia acabasse, perguntei a mulher qual a definição de consciência. Ela me olhou com os seus olhos azuis por alguns instantes e disse: “Consciência é a percepção de si mesmo acrescida do seu olhar em relação ao mundo”. Tornou a pausar para finalizar: “Quanto mais profundo for o seu conhecimento sobre si próprio mais ampla será a sua janela para a vida.”

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O vigésimo-sétimo dia da travessia – o veneno do deserto

O falcão ficou um logo tempo planando em círculos, como se apenas flanasse despreocupadamente pelo deserto.  De repente, recolheu as asas para mergulhar vertiginosamente até a areia em ataque fulminante. Trouxe uma serpente em suas garras. Por descuido, um pouco antes de pousar, o réptil lhe escapou. Em frações de segundo, movida por instinto de sobrevivência, a cobra se escondeu dentro de uma pequena toca entre as pedras. Com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo, o caravaneiro se retirou. Um pouco afastado, com uma caneca de café fresco à mão, eu observava o caravaneiro e o falcão. Acompanhar o adestramento matinal do falcão tinha se tornado parte da minha rotina diária. Em seguida, fiz a minha prece rogando por luz e proteção. O acampamento estava sendo desmontado e logo seguiríamos para mais um dia de travessia. Guardei as minhas coisas, ajeitei o alforje sobre o camelo. Para a minha surpresa, quem tornou a alinhar ao meu lado para a marcha foi a Ingrid, a bonita astrônoma. Animado, puxei conversa. Tive o cuidado de, naquele dia, não polemizar com ela para não acabarmos em discussão como ocorrera outras vezes. Ela era apaixonada por mecânica quântica e quanto à sua aplicabilidade tanto na astronomia como na construção da realidade. Dizia que o nosso cotidiano tem mais em comum com as estrelas do que a nossa tosca filosofia era capaz de imaginar. Agradável e inteligente em seus modos e argumentos, embora eu discordasse de vários deles, ela fez com que a manhã transcorresse mais rápida do que eu desejava. Quando me dei conta, já estávamos no meio do dia, hora que costumávamos parar para um breve descanso e uma refeição ligeira. Desmontamos dos camelos, estendemos um pequeno tapete para sentar e me ofereci para buscar algumas tâmaras com os encarregados da caravana. Ela aceitou com um sorriso. Eu tinha dado poucos passos quando ouvi um grito. Eu sabia que era a voz da Ingrid. Virei-me rapidamente e, ao mesmo tempo que vi a sua expressão de dor, observei uma serpente fugir com impressionante agilidade pelas areias após morder a astrônoma.
Desorientado e aflito, gritei por socorro. Logo várias pessoas se aproximaram. Nervosos, todos falavam ao mesmo tempo. Sem demora, um dos encarregados pela segurança matou a cobra e confirmou o que todos temiam. Era venenosa. Troquei um olhar de medo com a Ingrid. Desejei do fundo do coração que tivesse soro antiofídico na caravana. Pensei que a organização teria o zelo de trazer alguns remédios para situações previsíveis como essa. Claro que teria. Não tinha.
Esbravejei diante da falta de cuidado. Os acusei duramente por negligência. Foi quando o caravaneiro se aproximou. Ele trazia em si uma estranha tranquilidade. Repeti as acusações de maneira ainda mais veemente quando senti que ele não compartilhava do meu nervosismo. Ele me ouviu sem se alterar. Ao perceber que eu não cessaria de reclamar, me interrompeu. O tom de voz dele mesclava firmeza e serenidade: “Tudo que a moça não precisa agora é que percamos o controle da situação”. Falei que não podíamos perder aquilo que não tínhamos; a situação já estava fora de controle e a culpa era dele. Se fossem um pouco mais previdentes teriam o soro na caravana. O caravaneiro se manteve impassível diante das duras palavras proferidas. Em seguida, me corrigiu: “Não tenho como controlar os acontecimentos ao meu redor. É impossível para mim prever e dominar todas as situações externas que podem influenciar a minha vida. No entanto, posso controlar o universo de emoções que me habitam. Tenho como oferecer uma boa razão para acalmar cada paixão que me assola. As tempestades do mundo estão fora do meu domínio; as da alma apenas acontecem com a minha permissão.”
Antes que eu retrucasse, Ingrid me tocou no braço. Em seguida disse que não era hora do medo, mas da esperança. Ofereceu-me um sorriso para alegrar o meu coração. Abaixei os olhos. Ele tinha razão; ela também. Tudo o que não precisávamos naquele momento era do meu destempero. Eu precisava me orientar pelas virtudes ao invés de seguir o impulso das minhas emoções. Em silêncio, lamentei comigo mesmo de não ter tido um comportamento melhor. Eu estudava com o intuito de aplicar o conhecimento adquirido em momentos cruciais como aquele, porém, mais uma vez, deixava escapar a oportunidade. Calei-me.
O caravaneiro pediu para trazerem a serpente. Na frente de todos, abriu o ventre do animal com o seu punhal. Extraiu um líquido viscoso, vertendo-o para uma taça. Depois solicitou que colocassem uma determinada mistura de ervas em infusão. Tudo aquilo era desconhecido para mim. Enquanto aguardávamos, vi a Ingrid quase desfalecer e tentei animá-la. Ela começava a arder em febre. Quando chegaram com o chá, ele misturou ao líquido retirado da cobra. Mexeu com o punhal. Em seguida entregou para a astrônoma beber. Ela não hesitou. Fez uma careta revelando o gosto amargo do elixir.
O caravaneiro orientou aos encarregados que fizessem uma maca para ser transportada entre dois camelos emparelhados. Não queria que Ingrid fizesse nenhum esforço. Mandou que a envolvessem com vários cobertores. Era importante, não só pela febre, mas que ela transpirasse bastante, na esperança que o organismo dela, estimulado pelo elixir, expelisse o veneno pelos poros. Esperei que ele saísse e fui ao seu encalço. Eu queria saber se ela ficaria bem. O caravaneiro foi sincero: “Não sei.” Insisti em saber quais as chances de ela sobreviver. Mais uma vez a honestidade imperou: “Pequenas. Muito pequenas. Aquele tipo de serpente possui um veneno muito agressivo.” Eu não estava pronto para ouvir aquilo. As palavras têm o poder de enfeitiçar, tanto para o bem quanto para o mal. De imediato as emoções se avantajaram e por pouco não tornaram a me aprisionar mentalmente. Tive que fazer um esforço enorme para impedir que elas me dominassem mais uma vez. Embora soubesse que naquele momento seria inútil insistir, não consegui deixar de ponderar que seria prudente que a caravana trouxesse, nas próximas viagens, algumas doses de soro antiofídico devido a grande quantidade de cobras que existem no deserto. Eu queria deixar registrado a minha insatisfação com o que considerava uma falha grave de planejamento. O caravaneiro, talvez por sentir o meu sofrimento, me olhou com profunda compaixão. Havia misericórdia em seus olhos. Ele explicou: “Não foi por esquecimento. A razão é outra e bem simples. O soro precisa estar refrigerado para não estragar. Seria difícil transportar uma geladeira na caravana; impossível mantê-la ligada. Este é o motivo.” Ele tinha razão. Calei-me. O caravaneiro aconselhou: “Mesmo que tivesse ocorrido um erro, não é hora de desperdiçarmos energia, tempo e tranquilidade com o que não foi feito. O momento é de concentrar esforços naquilo que podemos fazer; nas soluções possíveis.” Ele concluiu: “Fizemos tudo o que sabíamos. Agora temos que formar uma corrente de pensamentos bons em torno da moça. Oferecer o nosso coração para que, unidos, sirvam de alicerces para ponte pela qual os bons espíritos do deserto irão transitar. Quanto maior o amor, mais carga a ponte conseguem suportar.” E me deixou um aviso: “Uma boa ponte tem o tráfego interrompido quando um dos seus pilares se mostra frágil. É como cortar o fio condutor para interromper a passagem da eletricidade. Quem não se achar firme o suficiente para manter o fluxo energético entre as dimensões que se afaste neste momento. É também um jeito de ajudar.” E saiu.
A caravana retomou a marcha. Preocupado, alinhei o meu camelo logo atrás dos camelos que transportavam a Ingrid na maca. As palavras do caravaneiro não me saiam da cabeça; eu tinha alguma dificuldade de alcançar a extensão delas. Ideias e emoções duelavam dentro de mim. Ao mesmo tempo em que eu desejava a cura da astrônoma, eu tinha dificuldade em acreditar que aconteceria. As condições eram muito precárias. Foi quando fui surpreendido por uma voz: “O que determina se o andarilho prosseguirá na jornada não são as intempéries da estrada, mas o poder que ele traz consigo. As batalhas de um guerreiro não se definem na sua destreza com a espada, as vitórias nascem na mente. Para vencer não se pode temer a derrota; para se viver, ao menos com a intensidade que a vida merece, não se pode temer a morte. A vida se molda na consciência.” Era a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Ela emparelhou o seu vigoroso cavalo negro ao lado do meu camelo sem que eu percebesse.
Brinquei que ela tinha de parar de ler os meus pensamentos. A mulher sorriu e prosseguiu: “Não basta entender, é preciso aceitar; na existência temos o indispensável exercício com a verdade. A verdade se constrói na amplitude da consciência. Ambas são traços de uma mesma régua.”
Eu disse que não tinha entendido. Ela começou a explicar: “Somos bem mais do que os nossos corpos físicos. Somente ao aceitar esta realidade nos será possível viver de acordo com outro nível de percepção. Fora disto, todo o resto é ilusão e cotidiano. Conhecimento, quando aliado à prática, permitem ir, desde que de maneira amorosa, além dos cinco sentidos básicos. É quando deixamos a infância das sensações para conhecer as infinitas possibilidades de outra realidade. Bem menos física, bem mais poderosa.”
“Toda cura tem origem na consciência. Por sua vez, posso ter o inconsciente como aliado ou inimigo, a depender de como será utilizado. O mesmo martelo que utilizo na construção também posso usar na demolição.” Interrompi para falar que o discurso continuava complicado. Pedi para ela explicar melhor. A mulher de olhos azuis teve paciência: “O inconsciente, movido por memórias ancestrais, aprisionado por condicionamentos culturais, responde por nós mais do que costumamos nos dar conta; ele é responsável pelo automatismo de quase todas as reações que temos. Isto faz com que também sirva de limitador às novas possibilidades. O inconsciente, enquanto selvagem e dominador, impede o consciente de se expandir e conhecer todo o seu infinito poder. Educar o inconsciente é primordial para a liberdade da consciência. A amplitude do olhar leva à transformação do ser. A realidade ao seu redor se modifica à medida que você a entende de maneira diferente.”
“Era sobre isso que o caravaneiro falava contigo. A consciência, embora perceptível no corpo físico, está também fora dele. Este é o indício inicial para conhecer novas capacidades ao permitir a interação entre planos de existência. Se a parte mais importante do ser está além do corpo, algumas outras funções vitais também podem ser alteradas fora da esfera física. Claro que vários fatores, como o carma, por exemplo, afetam o resultado pretendido. Pois evolução está intrinsicamente ligada ao aprendizado. Contudo, não veja o carma como um bloqueador, mas como um estimulante. O aprendizado irá movimentar o incomensurável poder que, por ora, está fora de uso, proporcionando uma vida mais plena em liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor. Se carma é uma lição ainda não aprendida, ele, em verdade, é um aliado à evolução. É do veneno que se extrai o antídoto para a cura.”
“Para tanto, não se veja como um corpo, mas como um espírito. Não se acredite uma mera matéria andante, porém, uma sofisticada energia pulsante. Está é a diferença entre o estar e o ser; entre o meu e o eu; entre a estética e a ética; entre o finito e o infinito. Você é um espírito que neste momento precisa de um corpo físico para as suas devidas lições evolutivas, principalmente as de ordem emocionais; para entender melhor sobre a força mais poderosa do universo, o amor. Em geral, os espíritos que necessitam de um corpo físico ainda sabem muito pouco sobre o amor. Embora acreditem conhecer tudo sobre o assunto, quase todos são desequilibrados amorosamente. Todos os carmas, direta ou indiretamente, falam sobre o amor. Com forte influência dos sentimentos, somos cada um dos nossos pensamentos. A harmonia daqueles são imprescindíveis ao equilíbrio e à evolução destes. Assim moldamos a realidade através da consciência. Nem mais nem menos.”
“Ideias alicerçadas em sentimentos que se materializam em escolhas. Uma após outra, as escolhas desenham quem sou a cada momento. Emoções equilibradas ajudam a aperfeiçoar as escolhas ao buscar inspiração nas boas virtudes. O exercício das virtudes me aproxima da luz; não há outro Caminho. Aos poucos, a plenitude se instala no ser, mantendo-o além das tempestades mundanas. Assim temos uma vida diferente e melhor daquela na qual fomos educados por padrões que privilegiam o plano material em detrimento às conquistas invisíveis. É a diferença entre as grades e as asas; entre o veneno e o antídoto.”
“A cada fração de segundo emitimos vibrações de acordo com o pensar daquele instante. Os pensamentos formam ondas que navegam pelo espaço gerando efeitos. Luz e sombras se alimentam deles. Cada onda tem uma frequência própria: ondas longas quando as vibrações são densas; ondas curtas nas mais sutis. Isto determina a qualidade da nossa energia; define quem somos e as forças com as quais estamos em sintonia. Estabelece o poder que temos a cada momento da existência.”
“As ondas longas formam abismos nas rotas do universo; as curtas funcionam como pontes. Assim determinamos aonde podemos ir; se estamos aprisionados ou se somos capazes de prosseguir. Quem define o alcance da jornada é você; o seu olhar e o seu pensar. A sua consciência. As vibrações sutis, por serem de ondas menores, possuem uma maior capacidade de penetração. Logo, de transformação. Esta é a força do bem. Quanto mais leve o pensamento, maior o poder da luz em você e ao seu dispor.”
“O que concede leveza ao pensamento é a esperança na vida, é a fé em si mesmo. A generosidade, a delicadeza e a paciência que tenho comigo e com todos. A humildade em ser e a compaixão em sentir. A simplicidade no viver. A alegria por perceber cada momento pulsando em minhas veias. A sinceridade da palavra e a pureza de intenções que pavimentam todas as relações. O amor que floresce em meu coração e eu compartilho com o mundo. Assim alcançamos as estrelas.”
“Quando você se envolve com os desejos passionais, com a ignorância, com o orgulho, a vaidade, o egoísmo, o ciúme, a intriga, a inveja, a ganância, a vingança, a vitimização, com as conquistas meramente materiais, acaba por criar dependências e relações dominadoras de desejo e poder. O medo de não conseguir o desejo e, em seguida, o medo de perdê-lo. Ao final, resta um imenso poder sobre a ilusão.”
“Tudo que você tiver medo de perder não vale a pena conquistar.”
“As verdadeiras e preciosas conquistas não podem ser roubadas; não se desmancham no ar nem se deterioram pelo tempo. Este entendimento amplia a capacidade do seu consciente em agir além da realidade física por oferecer as pontes para atravessar os abismos dos poderes mundanos que, em verdade, não passam de realidade aparente. A realidade consciencial se vive concomitante ao mundo, mais está além do mundo. O mel da vida acontece na essência do ser quando no exercício das virtudes. Este é o poder da vida. A luz.”
“O mais curioso é que quando você se autobloqueia porque, em razão de condicionamentos obsoletos, tem foco exclusivamente na aparência, em uma convivência de superfície, apenas perceptível aos cinco sentidos básicos, abre mão de usar o poder consciencial para a alteração da realidade. Perde os ganhos verdadeiros e profundos. Cercado de abismos e nenhuma ponte, resta impossibilitado de seguir a viagem pela negação das possibilidades a que se impôs.”
A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli foi mais longe: “Trazendo essa retórica para a situação da Ingrid, o caravaneiro tentou explicar que é justamente o medo e a desesperança que impedem você de ajudar a astrônoma.” Contestei de imediato. Era um absurdo pensar que a Ingrid morreria por minha causa. A mulher de olhos azuis sacudiu a cabeça: “Não foi isso que eu falei. Apenas disse que na atual esfera de vibração em que você se encontra em nada irá auxiliar na melhora do estado de saúde dela. O caravaneiro tentou explicar, entre outras coisas, que o seu medo e a ignorância quanto ao próprio poder podem romper o elo da corrente. A corrente de luz que tentamos envolver em torno da Ingrid na expectativa de potencializar a sua cura.”
Tornei a discordar. Argumentei que o medo era natural. A Ingrid corria sério risco e eu temia por sua vida. A mulher foi didática: “Sim, o medo é natural. Mas o que fazer com ele, o medo, é uma escolha. Você pode permitir que ele domine os seus pensamentos, bloqueando os movimentos da esperança e da fé ao se depararem com abismos astrais que você mesmo criou. De outro lado, tem a possibilidade de mostrar para o medo que a vida é um ato de coragem, por indispensável aos desafios inerentes à existência e ao aprendizado. Isto, por sua vez, inicia o processo de mudança. A coragem encorpa a esperança por acreditar nas infinitas oportunidades da vida. Ela sabe que sempre, de um jeito ou outro, haverá uma nova chance. Nem mesmo a morte esgota as possibilidades; apenas as transforma.”
“Não perca a oportunidade de agigantar a fé surgida a cada dificuldade. A fé, embora muito falada, é a virtude mais desconhecida entre nós; também uma das mais poderosas. A fé, ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de uma crença ou de somente acreditar em Deus, na Luz ou no Universo. Este é apenas o degrau raso da fé. A fé atinge a sua maior potencialidade quando percebo que ela, assim como o amor e as demais virtudes, é parte do sagrado que me habita. No entanto, a fé é bem mais do que a esperança e a firmeza, embora delas se fortaleçam e lhes sejam essenciais. A fé se caracteriza pelo poder que cada indivíduo tem de mover a força incomensurável que traz dentro de si em favor de si mesmo e do mundo; o verdadeiro poder da luz. Isto faz com que você passe a acreditar em si mesmo e no poder infinito de transformação que possui. Acreditar em si mesmo, desde que com o mais puro amor, equivale a acreditar em Deus.”
Diante do meu espanto, me olhou profundamente e murmurou como quem conta um segredo: “Sim, você pode.”
Falei que mesmo com toda fé existente eu não poderia impedir a morte. A mulher de olhos azuis concordou: “Claro que não. E é bom que não possamos, pois seria um ato de profundo egoísmo.” Discordei; ela explicou: “A morte é um ato de amor. Um bonito e sábio gesto de amor da Vida em relação à vida. Desde, é claro, que se entenda todo o amor que há na vida.”
“Ela, a morte, encerra um ciclo de aprendizado para proporcionar o início de outro, em diferentes condições de existência. A morte não toma nada de ninguém, salvo dos que insistem em seus sentimentos de egoísmo e dominação. Assim, além de um gesto de amor, se torna também um ato de sabedoria e justiça.”
“A morte apenas altera a programação da vida, oferece uma nova chance de evolução com diferentes ferramentas.” Tornou a falar como quem conta um segredo: “A morte também faz parte do processo de cura e de encantamento pela vida. A morte é uma benção. Sempre será, ainda que tenhamos dificuldade para compreender.”
“Quando entendo que a minha morte não é inimiga da minha vida, mas uma aliada, torno-me um guerreiro sem medo. Invencível pelo poder que assumo.”
Ponderei que, se aquelas palavras fossem verdadeiras, de nada serviria mentalizar ou rezar pela cura de Ingrid. A morte é inexorável e tem a sabedoria de estabelecer a hora da partida. A mulher concordou, em parte: “Na grande maioria das vezes é impossível. Entretanto, em algumas poucas ocasiões é permitido um adiamento como exercício à espiritualidade das pessoas envolvidas. A morte é um dos nossos melhores mestres, desde que se ame e entenda a vida. Caso contrário, continuará sendo um problema e, pior, um instrumento de ameaça disponível para aqueles que se deixam manobrar pelas sombras.”
Eu tinha uma série de perguntas a fazer a ela, quando veio a ordem para pararmos. Estávamos no final da tarde. Iríamos acampar ali naquela noite. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tocou com o calcanhar no dorso do vigoroso cavalo negro, movimentou as suas rédeas e logo sumiu do meu alcance. Aquela conversa tinha oferecido uma nova ótica, mas que necessitava, como tudo mais na vida, do devido amadurecimento; outras questões ainda restaram sem explicação para mim. Como tudo mais na vida, um passo de cada vez.
A Ingrid foi acomodada em uma tenda com todo o cuidado. Fui autorizado a ficar ao lado dela, que, de olhos cerrados, parecia em sono profundo. Em vigília, sem nenhuma fome, recusei o jantar. Mas tarde, quando o burburinho do acampamento silenciou, vieram à tenda o caravaneiro, a mulher de olhos azuis, o bom homem do chá e a sábia anciã com quem eu tinha enfrentado uma tempestade de areia há dias. Sentados, formaram um círculo em torno da astrônoma deitada sobre tapetes e almofadas. Perguntaram se eu me sentia apto a participar. Eu sabia que não podia ser o elo fraco da corrente. Portanto, tinha que estar disposto a me entregar por inteiro àquele momento; tinha que oferecer todo o meu amor. Anui com um movimento de cabeça. O caravaneiro entoou uma sentida oração em forma de canção. Os demais o acompanharam. Como era desconhecida para mim, apenas me deixei envolver pela agradável vibração que a música ancorou naquele instante na tenda. Todos estenderam as suas mãos acima do corpo da astrônoma. Acompanhei o movimento. Tive a estranha sensação que das minhas mãos pulsavam ondas que eu nunca sentira. Em parte, originavam em mim; em parte, vinham através de mim. Apesar da situação difícil da Ingrid, havia beleza e leveza inegáveis naquela tenda. Não sei precisar o tempo que durou aquele cerimonial simples e poderoso. Como a fé, igual ao amor.
Ao final, o caravaneiro sussurrou: “Que os bons espíritos do deserto permitam que aconteça, não os nossos desejos, mas o que for melhor para a Ingrid.” Dei-me conta, naquele instante, que, em verdade, nem sempre os melhores desejos, ainda que puros e sinceros, representam as melhores escolhas. Aos poucos, um a um, todos deram um beijo suave no rosto da astrônoma e se retiraram em silêncio.
A sós com a Ingrid na tenda, pensei na frase dita pelo caravaneiro antes de sair: “Que aconteça o melhor…” Havia sabedoria, amor e justiça naquelas palavras. Quantas vezes não nos enganamos quanto ao melhor? Como os nossos desejos são egoístas; os medos montam armadilhas traiçoeiras. A visão de curto alcance nos traz um sofrimento desnecessário por não entender o que existe além da curva, onde os meus olhos ainda não podem alcançar. Não tinha como saber o que aguardava por Ingrid na próxima estação. Era pretensioso da minha parte acreditar que eu sabia o que era melhor para ela, quando muitas vezes nem sou capaz de saber o que é melhor para mim. Sim, a morte é parte importante do ciclo da vida por permitir a sua renovação em outros níveis e planos de existência. Amar a vida consiste em entender a grandeza e a sabedoria da morte; estar em paz com a morte nos permite viver os dias com intensidade, coragem e amor.
Lembrei que do veneno da cobra se extrai a essência do remédio que salva do próprio veneno; a doença ensina tudo sobre a cura. A coragem nasce na forja do medo; a fé se origina do desamparo. As sombras, no fundo, se tornam a semente da luz. A morte não é um mal, tampouco deve ser temida; ela não é um veneno. A morte não mata nem é um fim. A morte é a cura pela renovação, desde que haja respeito e amor pelo ciclo vida. A morte me fala sobre o valor da vida. Portanto, jamais devemos chamar ou desejar pela morte em respeito à vida. Porém, aceitá-la na sabedoria da própria hora, como um mestre que encerra uma aula. O meu coração serenou de maneira absoluta; as ideias ficaram claras como eu nunca as tinha percebido. Senti uma paz desconhecida. Passei as costas da mão com carinho no rosto de Ingrid e lhe desejei o melhor, de modo sincero, ainda que fosse distante do meu desejo.
Tive a firme sensação de que, independente do que viesse acontecer, nada me abalaria. A vida evolui em ciclos de aprendizado, transmutações, compartilhamentos e infinitas viagens. Senti-me digno, livre e em paz. Em comunhão comigo mesmo como forma de estar comunhão com a perfeição da vida. Uma estranha leveza pareceu capaz de me sustentar no ar. Quando a morte não mais assusta; a vida floresce em impensável beleza. O veneno da morte me oferecera o antídoto para a morte. Tinha me ensinado uma, apenas uma, das infinitas possibilidades de cura através da vida.
Então, quando eu não mais esperava, o inesperado aconteceu. A astrônoma abriu os olhos e balbuciou por um pouco de água. Quando voltei com o cantil, Ingrid sorriu para mim.  Era um sorriso lindo e repleto de vida. A febre cessou. Os seus olhos brilhavam. Naquele instante não tive nenhuma dúvida de que a viagem dela ainda prosseguiria pelas areias do deserto. Naquela caravana. Ao meu lado.

O vigésimo-sexto dia da travessia – uma fábrica no deserto

Era um dia diferente. Tínhamos alinhado para iniciar a marcha ainda com o céu escuro. Quando o sol surgiu por detrás das dunas, hora que, em geral, a caravana acordava, já marchávamos há três quartos de hora. O objetivo era chegar a um oásis intermediário para nos abastecer de água e víveres. Esse oásis tinha um enorme lago de água doce e limpa. Nas suas margens existiam várias pequenas fábricas, todas familiares e montadas em tendas, de excelentes tapeceiros. Eram tapetes com belas estampagens, confeccionados com difíceis pontos de costura, técnicas transmitidas através de muitas gerações do deserto. Muitos mercadores de tapetes que estavam na caravana realizavam ali os seus negócios, adquirindo as peças para a revenda. Daquele ponto retornavam para Marraquexe, conduzidos por um grupo de encarregados. Outra parte da caravana seguia em frente, rumo ao maior oásis do deserto, onde havia outros tecelões de tapetes, que se utilizavam de diferentes técnicas de confecção. Eu, assim como outros peregrinos, seguiríamos no intuito de encontrar com um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Saímos mais cedo para que chegássemos no meio do dia, oferecendo tempo suficiente para a caravana se abastecer. Como isto demoraria um pouco, dormiríamos aquela noite naquele oásis.
Com o sol à pino, avistamos ao longe o enorme lago. Não demorou muito, fomos recebidos pelos hospitaleiros moradores locais. Algumas tendas ofereciam pratos típicos, bom para fugir da rotina simples das refeições da caravana. Almocei e, em seguida, fui conhecer as fábricas e os tapetes. As pessoas eram muito gentis; as fábricas, rudimentares; os tapetes, belíssimos. Passei um bom tempo por entre as tendas. Já próximo ao final da tarde, reparei em uma tenda situada numa ponta distante do lago. Não havia nenhuma outra tenda próxima. Perguntei a um homem se aquela tenda também era uma fábrica. Ele me olhou por instantes e sacudiu a cabeça dizendo que não sabia. Estranhei, ao passo que tive a curiosidade despertada. Tornei a perguntar, desta vez, a uma mulher. Sem me olhar nos olhos, ela se limitou a responder que não valia a pena eu ir até lá. Claro que fui.
Foram uns dez minutos de caminhada. Era uma tenda simples, mas bem arrumada e limpa. Um ancião de pele morena colocava algumas ervas em infusão para um chá. De costas para mim, sem se virar, deve ter percebido a minha presença, pois me convidou para acompanhá-lo em uma xícara. Aceitei. Foi quando ele se virou e sorriu. Assim como o seu cabelo, os seus dentes eram perfeitamente brancos, algo raro de se ver em alguém da sua idade. Pegou um punhado de outras ervas para acender como incenso. Um delicioso perfume impregnou a tenda. Ao seu convite me recostei em uma confortável almofada. Ele se sentou em um banquinho de madeira ao meu lado e acendeu um cachimbo enquanto esperava o chá ficar pronto. Falei que eu estava visitando as fábricas de tapete do oásis. Mesmo sabendo que a resposta seria negativa, perguntei se ele também confeccionava tapetes. O ancião sacudiu a cabeça em negativa e disse: “Tenho uma fábrica de alegrias.”
Estranhei. Falei que não tinha entendido. Ele me explicou com paciência: “As pessoas acreditam que podem comprar alegria.” Deu de ombros e concluiu: “Iludem-se”. Fez uma pausa e prosseguiu: “Confundem alegria com diversão.”
“Estar com a família, encontrar com os amigos, cantar e dançar são algumas coisas maravilhosas que a vida oferece. Faz muito bem ao coração e eu recomendo. Contudo, são apenas diversões. A alegria é diferente.”
Pedi para ele explicar melhor. O ancião foi gentil: “Posso me divertir todos os dias, e não há qualquer contraindicação nisto, porém não significa que serei um homem alegre. Posso ser uma pessoa agradável, polida e até mesmo engraçada, a ponto de arrancar risos de quem estiver ao meu lado. No entanto, nada disso me torna, necessariamente, um homem alegre.”
Falei que havia uma contradição. Se alegria não se vendia, não fazia sentido ele ter uma fábrica de alegria, uma vez que nada teria para oferecer. O ancião explicou: “Sim, você não está errado. Na verdade, eu ajudo a você a montar a sua própria fábrica de alegrias. Tenho uma fábrica que fabrica fábricas de alegrias.” Achei esquisito.
Desconfiado, eu perguntei quanto ele cobrava. Tomei um susto ao ouvir o preço. Quase dava para comprar um camelo. Um camelo, por sua enorme utilidade, possui um alto valor no deserto. Agradeci, mas recusei a oferta. O ancião não insistiu. Ao contrário, manteve a mesma simpatia que lhe era característica. Levantou-se, retirou as ervas em infusão e serviu o chá. Trouxe o chá em duas xícaras de porcelana sobre uma bandeja de prata arrumada com capricho. Estava delicioso. Eu quis saber se os moradores do oásis frequentavam a tenda do ancião. Ele me respondeu que nenhum deles. Perguntei se ele tinha muitos clientes. O ancião possuía uma honestidade apaixonante: “Bem poucos. No máximo um a cada dois ou três anos.” Comentei que a pequena clientela se dava em razão do alto preço cobrado. Ele concordou: “Acredito também”, mas em seguida fez uma ressalva: “De outro lado, pelo fato de as pessoas não entenderem a alegria, não lhe dão o devido valor.”
Discordei. Falei que não existia uma única pessoa que não reconhecesse a importância da alegria. O ancião me ofereceu um olhar de compaixão e questionou: “Não duvido, mas é uma importância abstrata. Como entender o verdadeiro valor de algo que não conhecemos ou, experimentamos tão pouco durante a vida, que as lembranças acabam arrefecidas quanto à sensação e ao sentido?”
Calei-me por instantes. Aquelas palavras me tocaram de maneira diferente. Lembrei da distinção entre divertimento e alegria que o ancião tinha falado no início da conversa. Em silêncio, questionei a mim mesmo se eu conhecia a alegria. Quanto ao divertimento eu não tinha qualquer dúvida. Falei que se não fosse tão caro eu compraria uma fábrica de alegrias para mim. Confessei que temia não conseguir a fabricação da alegria esperada. Acrescentei que o risco era alto, uma vez que dependeria de habilidades pessoais que eu não podia afirmar se as tinha. O ancião sorriu, como se esperasse por aquilo, e me fez uma proposta: “Você apenas paga se ficar satisfeito com o resultado.” Falei que satisfação é um conceito subjetivo e bem variável. O ancião admitiu: “O risco agora é todo meu.” Quando me dei conta o meu rei estava acuado no canto tabuleiro. Xeque-mate!
Sem ter como recusar, lembrei ao ancião que a caravana partiria logo cedo no dia seguinte. Ele disse que tínhamos tempo de sobra. Levantou-se e voltou logo depois com um tambor. Os tambores do deserto. Instrumentos famosos na ritualísticas para alterar o estado de consciência, nos permitindo viajar a lugares fantásticos. Na maioria das vezes, dentro de nós mesmos. Jardins floridos que nos trazem boas recordações e sempre desejamos voltar; porões escuros que tentamos esquecer e, que por este motivo, precisam ser revisitados para restarem limpos, arejados e iluminados. Os porões também fazem parte da casa do ser.
Eu sabia de tudo isso. Contudo, sabia também que a viagem precisa ser conduzida adequadamente para não ficarmos aprisionados em celas sem grades. Não raro, isto já acontece. Porém há prisões mais cruéis que outras. Viajar é preciso, mas há que se ter cuidado.
O ancião me pediu que não tivesse medo. Ele seria o meu guia. O engenheiro da fábrica de alegrias. Havia algo nele que transmitia uma inexplicável bondade. Lembrei dos camaleões do deserto. Não, o ancião não era um camaleão. Confiei no amor que emanava dele. À sua orientação, fechei os olhos e me deixei embalar pelo rufar inebriante do tambor. O tambor parecia falar e embalar o meu coração. Passado algum tempo, o tempo despareceu. O meu coração pulsava no ritmo do tambor, como se dançassem juntos.
O ancião pediu para que eu lembrasse de um dia em que me senti muito feliz. A primeira lembrança que me ocorresse era a melhor. Falei da minha festa de aniversário de doze anos. Foi na casa do meu avô. Todos os meus amigos da escola foram. Jogamos futebol e brincamos muitos. Os meus pais ainda estavam juntos; todos estavam felizes. Naquela noite, quando fui dormir, eu senti uma felicidade tão grande que parecia não caber em mim. O ancião me disse que eu tinha o direito de me lembrar desse dia todas as vezes que quisesse animar um dia triste. As lembranças existem para isso e também para nos mostrar que, se esse bem-estar aconteceu uma vez, pode acontecer em outras oportunidades. Basta que eu me movimentasse nesse sentido.
Perguntei se essas recordações eram uma fábrica de alegrias. O ancião respondeu: “Não. São apenas instrumentos de bem-estar, importantes para colorir momentos tristes. Apenas para colorir. Não podem servir como fuga da realidade. Para superar a tristeza é preciso compaixão para com todos e entendimento quanto a si mesmo.”
Em seguida me veio a lembrança que, logo após aquela festa, os meus pais se separaram. Lembrei das brigas e de que fui passar as férias na casa de uma tia no interior. Foram dias tristes, de muita insegurança e medo. Falei que tentaria afastar essa recordação da minha mente. O ancião me corrigiu: “Não. Fugir das nossas memórias é fugir de nós mesmos. Elas fazem parte da nossa vida, apenas temos que nos reconciliar com elas. Não tente esquecer ou reprimi-las. Abrace-as com amor. Se elas vieram à mente é porque anseiam por cura, estão prontas para iniciar o tratamento. Entenda que os seus pais, por motivos que cabe a eles, não eram felizes no casamento. E que você não tem qualquer culpa nisso.” Interrompi para falar que foi um período muito difícil para mim. O ancião explicou: “Entenda que essa dificuldade ajudou a forjar quem você é, a torná-lo mais forte. Quando superamos um sofrimento intenso descobrimos que é possível superar todas as outras dores. O aço atinge a melhor têmpera no fogo intenso. O ancião ensinou: “Tudo o que acontece em nossas vidas é para o nosso bem. Absolutamente tudo.”
Por que não esquecer os momentos tristes? Eu queria saber. O ancião seguiu a explicação: “Porque não o esquecemos nunca. Pode-se ficar um tempo sem lembrar, então, inesperadamente, eles nos tomam de assalto. Não é assim?” Balancei a cabeça concordando. Uma lágrima escorreu em minha face. Ele aprofundou: “Todas as situações complicadas que passamos na vida tem uma razão de existir. Claro que naquele momento temos uma enorme dificuldade em entender. Mas os dedos do universo são longos e somente mais à frente iremos compreender para, então, agradecer.” Fez uma pausa e concluiu: “As tristezas não podem nem devem ser esquecidas, pois precisam de superação. Apenas possível com entendimento e transformação do nosso jeito de ser e de viver. São os alicerces da fábrica de alegrias.”
Chorei muito. O ancião apenas mudou o ritmo do tambor. As batidas do meu coração acompanharam. Um pouco mais calmo, admiti que passado alguns anos os meus pais refizeram as suas vidas, ao jeito deles, se tornaram pessoas melhores. Quanto a mim, tive uma maturidade prematura, mas que me ajudou a chegar até aqui. Sim, eu era grato pela minha história; ela me tornava único. O ancião sorriu.
Seguindo o ritual, lembrei de outros momentos da minha vida. O futebol de rua com os amigos, a emoção do primeiro beijo, o ingresso na universidade. Recordei também situações difíceis. O diretor da escola que me acusou de algo que não fiz, uma namorada que me trocou por um colega, a demissão inesperada de um emprego. O ancião continuou a me orientar: “Não olhe o passado como um jogo tristeza versus alegria. Veja como lições que o aperfeiçoaram. Então, não haverá perdas”.
Eu segui vasculhando o baú de memórias. Em determinado instante, seguindo as orientações do ancião, todas as lembranças, até mesmo aquela que inicialmente eram tristes, me pareceram boas por eu entender a razão delas em minha vida. Uma agradável sensação me invadiu. Perguntei se aquilo era alegria. Achei que sabia a resposta. Ele me surpreendeu: “Não”. Como assim? Falei que estava decepcionado, pois achava que a fábrica de alegrias estava pronta. A paciência do ancião em me guiar nessa construção parecia sem fim: “O prédio da fábrica ficou pronto. No entanto, você ainda não tem ideia de como colocar os seus motores para funcionar. Lembre, é preciso fabricar as alegrias.”
Ele insistiu que eu tornasse a buscar por lembranças agradáveis. Eu consegui lembrar de várias outras situações que já imaginava ter esquecido por completo. Perguntei se eu já tinha conseguido colocar os motores da fábrica em funcionamento. O ancião apenas sacudiu a cabeça em negativa. Com o queixo pediu que eu prosseguisse na construção da fábrica, enquanto ele continuava a ritmar o tambor do deserto. Vieram outras recordações, nenhuma que alterasse a atenção do engenheiro da fábrica. Até que lembrei de um momento, ainda no ensino médio, de que as minhas notas em matemática estavam muito ruins. A reprovação era iminente. Para eu passar de série teria que tirar nota dez na prova final. Não poderia errar nenhuma questão. Se eu fosse reprovado perderia a bolsa e a chance de prosseguir os estudos em uma escola de excelência. Senti muito medo de desperdiçar a oportunidade que eu tinha. Contei que durante três semanas eu esqueci da vida para me entregar profundamente ao estudo da matemática. Foram dias e noites movidos pela esperança de atingir a meta. Lembrei dos instantes de tensão que antecederam o resultado e a alegria incomensurável que senti ao saber que estava aprovado. Neste momento o ancião parou de tocar o tambor e disse: “Isto é alegria! Houve a entrega. Você colocou o seu coração à frente. A alegria não veio de fora, mas nasceu dentro de você. Os motores da fábrica começaram a funcionar. Prossiga!” Determinou, para em seguida intensificar o ritmo do tambor.
Então, mudaram as recordações. Eu comecei a me lembrar de momentos da vida nos quais eu tinha me doado por inteiro. E da alegria florescida em cada um deles. Falei de quando troquei algumas noites de sábados ao lado de amigos para ir com o pessoal da igreja levar alimentos a pessoas que moravam pelas ruas da cidade; das férias que segui com um grupo de médicos para um país da África assolado pelas misérias de todos os tipos ao invés de passear pela Europa. Ressaltei da alegria que eu sentia por cada olhar e abraço que eu recebi dessas pessoas. Tornei a chorar, mas agora eram lágrimas de alegria, compaixão e amor.
Naquele momento me dei conta uma coisa muito importante. Um detalhe que modificava o todo. Confessei ao ancião que, na verdade, o que tinha me impulsionado a fazer a caridade, não era o amor que eu tinha. Mas, ao contrário, era o amor que eu não tinha, o vazio imenso que me habitava. Ele sorriu e levantou os braços: “Perfeito!” Bradou, para logo explicar: “A alegria tem que ser movimentada pelo amor. Não pelo amor que tenho, mas pelo amor que busco. Não nos outros, mas através dos outros em mim. Assim coloco o outro dentro do meu coração. O amor que tenho é o amor que ofereço, não o amor que recebo. Antes de oferecer amor ao outro pela necessidade dele em receber, o faço pela minha necessidade em ofertar o amor. Não ofereço amor pela necessidade do outro, mas, primordialmente, por precisar dar amor para sentir o amor pulsando em mim e, então, ser feliz. Pratico a caridade porque preciso fomentar o amor em mim. Percebo-me pequeno e me torno humilde.”
Questionei se não era uma atitude egoísta. Ele aprofundou: “Egoísta é desejar apenas receber amor. Que os outros se obriguem a suprir um amor que não quero fabricar.”
Tornou a ritmar o tambor, agora em tom bem suave, e disse: “Quando ofereço amor, seja de modo puramente afetivo, como uma palavra ou um abraço, seja através de um bem material, tenho que fazer por mim, pela oportunidade do indispensável exercício do amor que eu preciso sentir no coração. Se faço pelo outro irei me sentir superior a ele. Então o amor se esgota nos ralos da vaidade e do orgulho. Amo a você porque amo a mim; faço bem ao mundo porque faz bem para mim. Desta maneira me sinto igual e do tamanho daquele que receberá o amor que tenho para dar. Assim não caberão cobranças futuras nem restarão dívidas de ninguém para com ninguém. Apenas amor.”
“Só existe alegria onde há amor. Apenas existe amor onde há a entrega de si por inteiro. Esta é a alegria do mundo!”
O tambor do deserto parou de rufar. A minha fábrica de alegrias tinha começado a funcionar. Fez-se silêncio e quietude. O ancião foi buscar mais duas xícaras de chá. Sentou-se em uma almofada à minha frente e colocou as xícaras sobre uma mesa baixa que estava entre nós. Da minha mochila tirei um maço de dinheiro e entreguei ao ancião. Ele recusou: “Você não me deve nada. Não fiz por você, fiz por mim.”
Ofereceu-me um sorriso do qual me lembrarei até o dia do dia sem fim. Eram como se os seus dentes brancos fossem estrelas do deserto. Fiz menção em contestar, em dizer que não era justo, pois eu estava muito satisfeito com a fábrica. O ancião fez um gesto com a mão para eu não insistir: “Apenas lembre que a alegria é uma virtude que possui um grande segredo: ela exige entrega absoluta. Para tê-la como companheira é preciso que sejamos inteiros em qualquer coisa que fizermos.”
Olhou-me profundamente e disse: “Agora vá.” Em seguida, finalizou: “Nunca esqueça que o amor é a matéria-prima da alegria. Ambas têm a mesma origem; bebem da mesma fonte. Isso é fundamental para se ter uma fábrica cada dia mais próspera”.