domingo, 23 de novembro de 2025

Entre o fim e o que ainda respira.




Há noites em que a cidade respira mais fundo do que eu. Fico ali, encostado no concreto frio, como quem tenta ouvir alguma resposta nas luzes distantes.

O céu — esse exagero azul — segura um resto de rosa que insiste em não apagar, como se o dia tivesse deixado para trás uma promessa que não cumpriu.


E eu fico parado, meio cansado, meio inteiro, tentando entender por que certas notícias atravessam a gente como se rasgassem alguma memória antiga.

Talvez seja isso: algumas coisas partem longe, mas quebram aqui dentro.


A rua está quase vazia, mas não estou só.

Carrego comigo todas as versões de mim que ainda tentam descobrir o próprio caminho, todas as perguntas que faço de madrugada e todas as respostas que ainda não tive coragem de aceitar.


E apesar desse aperto, há uma calma silenciosa pousada no ombro.

Uma impressão de que mesmo o que se rompe encontra um jeito de continuar existindo, de virar outra coisa, de se reinventar no escuro.


Então eu respiro.

A noite respira de volta.

E sigo sentado, olhando o horizonte como quem pressente que, depois de certos fins, não existe escuridão — existe só o intervalo antes de um novo brilho.

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