O dia amanhecia no deserto. Afastado da caravana, sentado na areia
com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro
adestrando o seu falcão. Ingrid, a astrônoma, se aproximou. Ela quis
saber a razão para eu ficar de longe, todas as manhãs, olhando o voo da
ave. Respondi que não sabia ao certo, mas algo ali me fascinava. Disse
que talvez fosse pelo fato de, diante da aridez do deserto, do
improvável, do impossível para muitos, o falcão sempre retornar com a
sua caça. Comentei que provavelmente era o instinto de sobrevivência do
animal, o seu determinismo biológico, porém a ave me passava a sensação
de que ela conseguia o seu alimento por acreditar que o encontraria.
Ingrid comentou: “Onde há uma vontade, há um caminho”. Aquela frase me
impactou pelo leque de interpretações que permitia. Falei isto para a
astrônoma. Ela levantou a manga da blusa e mostrou uma tatuagem no
antebraço. Disse que era um símbolo viking conhecido como Inguz.
Ele representava essa mensagem. No entanto, ela já a tinha ouvido
também na filosofia chinesa. Explicou que a verdade está presente em
todas as tradições. Discordei de imediato. Não quanto a onipresença da
verdade, mas do fato de a vontade se tornar necessariamente um caminho.
Ingrid apenas deu de ombros. Pediu licença, pois a caravana não
demoraria a partir e ela tinha algumas coisas para arrumar. Eu vi quando
o falcão retornou ao caravaneiro trazendo um pequeno roedor em suas
garras.
Não demorou muito a caravana seguiu o seu rumo. Guardei um lugar para
a Ingrid emparelhar o seu camelo ao meu, mas ela não o fez. Preferiu,
mais uma vez, marchar ao lado do astrólogo, com quem tinha conversado há
dias. Fiquei sem entender, uma vez que ela, como astrônoma, torcia o
nariz para a astrologia. Enciumado, mas sem admitir, decidi seguir sem
ninguém ao meu lado naquele dia. As horas seguiram modorrentas até que a
bela mulher com olhos de cor de lápis-lazúli se aproximou montada em
seu cavalo negro, o Vento. Marchamos por algum tempo sem dizer palavra
até que quebrei o silêncio. Perguntei se ela não achava sem sentido uma
cientista como a Ingrid gostar de conversar com um místico como o
astrólogo. Com os olhos fixos no horizonte, a mulher disse: “Os opostos
não se atraem, mas se explicam.”
Falei que ela estava enganada. As constelações, fundamento teórico da
astrologia, em verdade, são apenas ilusões de ótica formadas a partir
do ponto de vista de quem está na Terra. Ao olhar o céu de Marte ou
Saturno, aquelas mesmas estrelas farão parte de outras constelações que
não existem para quem as olha daqui. Em verdade, as constelações são
peças de ficção, criadas pela imaginação humana na ilusão de um olhar.
Falei que Ingrid sabia disto. No entanto, me deixava pasmo por insistir
em conversar com o astrólogo. A bela mulher explicou: “O que a fascina
não é a astrologia em si, mas a entrega sincera e por inteiro do
astrólogo ao seu ofício.” Fez uma pausa e concluiu: “Onde há uma
vontade, há um caminho.” Em seguida fez um movimento suave com as rédeas
do cavalo e se afastou.
Seguimos por mais algumas horas até que veio o comando, no meio do
dia, para um breve descanso e uma rápida refeição. Se engana quem pensa
que o deserto é apenas areia. Fomos avisados que pelo resto do dia
atravessaríamos um trecho conhecido como “Floresta de Pedras”, por causa
das suas enormes rochas. Peguei algumas tâmaras e me sentei na areia.
Próximo, um homem que deveria ter a minha idade, também sentado, me
chamou atenção pelos olhos tristes. Ofereci uma fruta, ele recusou com
educação e um sorriso sem vida. Falei que seguia com a caravana para
encontrar com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o
céu e a terra”, que morava no oásis. Ele contou que os seus parentes
mais próximos também moravam no oásis, eram tecelões. Olhou-me com os
seus olhos foscos e confessou que esperava chegar ao oásis para ser
enterrado pelos seus parentes. Atônito, eu quis saber se ele estava
acometido por alguma doença incurável. O homem respondeu que não. Disse
que a sua saúde era boa, mas não via qualquer motivo para continuar a
viver. Como se mantinha com o dinheiro da herança deixado pelo seu pai,
que havia sido um hábil mercador de tapetes, achava mais sensato se
despedir da vida ao invés de continuar a dilapidar o patrimônio dia após
dia sem que tivesse um motivo para viver. Deixaria o dinheiro para
aqueles que conseguiam encontrar graça na vida. Salomão era o seu nome.
Fiz várias perguntas, mais no intuito de tentar encontrar uma maneira
de fazer com que revisse as suas ideias, do que por curiosidade. Ele
contou que após o falecimento do pai assumiu os negócios. A sua falta de
aptidão para o comércio o fez repassar as lojas para não ir à falência.
Sobrara um bom dinheiro, que escorria um pouco a cada dia, sem que
encontrasse qualquer razão que lhe desse alguma alegria. Tinha tomado
uma decisão, nem triste nem feliz, apenas uma decisão. Talvez a única
que fizesse algum sentido na sua vida.
Logo veio a ordem para a caravana seguir. Preocupado com o Salomão,
fiz o resto da marcha naquele dia ao seu lado. Tentei conversar mais um
pouco com ele, porém as suas respostas se tornaram monossilábicas. O
silêncio dominou o restante daquele dia, enquanto atravessávamos o
trecho rochoso do deserto. Havia muitas pedras. Algumas formavam
construções enormes, do tamanho de um edifício. Estávamos ao final desse
trecho quando anoiteceu. Paramos para montar o acampamento em frente a
um conjunto de pedras que formava uma estranha caverna. Veio a
orientação para que ninguém entrasse na caverna, pois havia casos de
viajantes que nunca mais foram encontrados.
Afastei-me de Salomão para cuidar dos meus afazeres. Na hora do
jantar, eu me servia de um guisado de legumes quando ouvi um tiro.
Espanto, correria e muitos gritos. Ao longe percebi que dois homens
atracados rolavam na areia. Eles disputavam a posse de um revólver. Eram
Salomão e o caravaneiro.
Diversos encarregados da caravana acudiram de maneira rápida e
eficiente. Não havia feridos. O caravaneiro tinha impedido que Salomão
cometesse um suicídio. Ele não tinha conseguido esperar até a chegada ao
oásis para que seus parentes o enterrassem; a tristeza era maior que a
sua vontade. Por pouco, se não fosse a intervenção atenta do
caravaneiro, teria conseguido completar o desatino. Quando cheguei,
Salomão chorava de soluçar. Sentei-me ao seu lado e o abracei. Várias
pessoas se aproximaram. Falei que elas podiam ir, pois eu cuidaria dele.
Ficamos a sós. Deixei que chorasse até esvaziar o coração. Dizem que
choramos quando a alma transborda de emoção. Aos poucos ele foi se
acalmando; eu o deitei na areia. Passou um tempo que não sei precisar, a
caravana se preparava para dormir. Salomão continuava desperto, com os
olhos fixos nas estrelas que enfeitavam o céu do deserto. Foi quando a
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se aproximou.
Sem nada falar, entoou lindas canções. A música pareceu tranquilizar o
ambiente. Fez uma dança suave em volta do homem. Quando os meus olhos
lhe perguntaram porque ela fazia aquilo, ela mexeu os lábios em resposta
sem som: “Para limpar a atmosfera.” Depois, se ajoelhou ao seu lado.
Com as mãos vazias, em movimentos circulares, sem parar de cantar,
enviou boas vibrações para o Salomão. Percebendo-o mais calmo, perguntou
se ele aceitaria um convite para fazer um passeio com ela. O homem
balançou a cabeça em anuência. Então, pediu para que ele se levantasse e
a acompanhasse. Iriam à caverna. Havia algo que o aguardava lá dentro.
Salomão se negou, confessou que sentia medo. A mulher estendeu a mão e
disse: “Segure e confie. Estarei ao seu lado.” Fez um movimento com a
cabeça para que eu também fosse. Pensei em falar dos perigos dos quais
fomos avisados sobre a caverna, porém a suave firmeza que a bela mulher
de olhos azuis transmitia era arrebatadora.
Ela assobiava uma doce melodia quando entramos na caverna. Paramos
por algum tempo para que os nossos olhos aprendessem a ver na escuridão.
Andamos por entre pedras que formavam um labirinto até que, em
determinado momento, onde parecia se formar uma pequena porta, ela disse
que apenas ao Salomão seria permitido passar ali. Em seguida,
acrescentou: “Alguém que você abandonou o aguarda. É um encontro
importante e esperado.”
Antes que ele entrasse, a mulher falou: “Você será perguntado pelo
fato gerador do seu desânimo.” Salomão interrompeu para saber o que era
fato gerador. Ela explicou: “Fato gerador é o vírus que precisa ser
inoculado; é o motivo pelo qual você desistiu da vida.” E fez uma
importante ressalva: “Este encontro será movimentado pela verdade. Aqui a
ilusão se desmancha.” Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Quem
irá conversar contigo é a sua alma, a sua metade esquecida e reprimida,
escondida nos cantos escuros de si mesmo. Ela está entristecida pelos
sonhos negados. Isto causa fraqueza e desequilíbrio. Somente a alma pode
iluminar os seus passos, renovar-lhe as ideias e semear a alegria em
seu coração. Quando a relegamos, abandonamos a nós mesmos nos
radicalismos do ego. Então, algum dia, cedo ou tarde, a depender da
sensibilidade de cada um, implodimos como um prédio que não tem mais
forças em seus alicerces para manter firme as suas paredes e teto.” Fez
uma pequena pausa e explicou: “Isto não é de todo ruim se soubermos
aproveitar a oportunidade do momento para refazer a construção da casa
na qual moramos. Habitamos na casa em que construímos. O ego é o
pedreiro; a alma, o engenheiro. Eles devem trabalhar em comunhão. Isto
transforma um casebre em ruínas em uma fortaleza inexpugnável. O poder
de construir a própria beleza e solidez sempre foi e será seu.”
Fez com a cabeça um movimento para ele seguir. Salomão hesitou por
instantes, olhou para a mulher que lhe ofereceu um sorriso repleto de
confiança. Ele soltou a mão dela e atravessou a porta. Esperamos por um
tempo que não sei precisar até ele retornar. Tinha sido uma conversa
silenciosa, na quietude de um coração que precisa se fazer ouvir.
Salomão trazia um rosto banhado em lágrimas. Ele teve dificuldade para
falar por causa do choro. A mulher esperou com infinita paciência que
ele se acalmasse. Muito emocionado, o homem contou que, a sós com a sua
própria alma, lembrou que sempre teve vontade de ser professor. A ideia
de ampliar e compartilhar o conhecimento o encantava desde sempre. A
possibilidade de estar em sala de aula, de ensinar a crianças e a
adultos era fascinante para ele. No entanto, não conseguiu enfrentar ao
próprio pai, um homem que, embora carinhoso, era enérgico e dominador.
Achava-se no direito de decidir o que era melhor para o filho. Perpetuar
gerações no comércio de tapetes era a sua vontade, porém não era a
vontade de Salomão. O sonho de Salomão era o magistério. Contudo, o
tempo passou sem que Salomão tivesse força para movimentar a sua
vontade. Agora ele se achava velho para resgatar o próprio sonho. E sem
motivo para viver.
A mulher de olhos azuis pediu para que Salomão olhasse para o lado.
Havia outra porta que não tínhamos percebido. Ela disse: “O seu pai está
aí dentro, escondido em algum lugar escuro. Use a lanterna para
iluminar todos os cantos.” O homem disse que não tinha nenhuma lanterna.
A mulher orientou: “A lanterna surge quando substituímos o medo de
falhar ou de decepcionar os outros pela vontade de sermos nós mesmos. É a
coragem de ser único. Nas diferenças reside toda a luz; todo o poder e a
beleza do ser.”
Percebendo a presença do medo, o ensinou: “Não tenha medo de sentir
medo. O medo é um vazio existente em todos nós a espera de ser
preenchido pela coragem. Então, tudo se transforma.” Logo em seguida
complementou: “No mais, os anjos do deserto o guardarão e iluminarão
sempre que precisar e solicitar.” Tornou a fazer uma pausa e o
incentivou: “Vá! Eu estarei aqui para quando você voltar. Contudo, o
mais importante é saber que você sempre terá a si mesmo para se
acompanhar, se alegrar e se encantar.”
Salomão respirou fundo e atravessou a outra porta. Após alguns
minutos de silêncio absoluto, ouvimos o seu choro. Ele falou lá de
dentro: “É o meu pai, ele está aqui. Mas tudo continua muito escuro.” A
mulher prosseguiu nas orientações: “Aumente a luminosidade da lanterna.
Para tanto, não olhe para o seu pai com mágoa, rancor ou ressentimento.
Também não olhe com culpa nem para ele nem para si. Não existe culpa
nenhuma. Olhe para o seu pai com gratidão, com misericórdia, com
compaixão, com gentileza, com generosidade. Ele fez o melhor que sabia
fazer naquele momento. Olhe para o seu pai com amor. Com todo o amor que
houver na vida”. Fez uma pausa e, como se pudesse imaginar a cena que
acontecia, aconselhou: “Abrace-o com vontade!”
Aos poucos os soluços foram diminuindo de tom até darem lugar a
cochichos que não consegui entender. Então, ouvi gostosas risadas.
Passado algum tempo, Salomão retornou. Em uma mistura de lágrimas e
sorrisos, percebi que o Salomão que voltava era diferente do homem que
tinha ido. O seu olhar trazia uma luz que dissipava a escuridão da
caverna. Agradecido, ele disse para a mulher, ao se referir a conversa
que acabara de ter com o pai: “Nós nos perdoamos. Ele por ter sido
autoritário; eu por ter permitido a dominação. Libertei-me; nos
libertamos. Sinto-me digno; estamos em paz.” Ela apenas sorriu em
resposta. Saímos da caverna.
Sentamos na areia do deserto. Ainda seria preciso algum tempo para
alocar todas as ideias que cada um trouxe de dentro da caverna. O
silêncio foi quebrado por Salomão. Ele falou que quando chegasse ao
oásis montaria uma pequena escola para alfabetizar adultos que nunca
tiveram a oportunidade de aprender a ler e a escrever. Como havia uma
lacuna na educação das crianças que moravam lá, também daria aulas de
reforço para elas. Disse que não queria mais morrer; a vida o encantava.
Ofereceu-nos um lindo sorriso, disse que precisava descansar e, feliz,
se retirou para a sua barraca.
Comentei para a mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli que estava
impressionado com a mudança ocorrida naquele homem. Ela deu de ombros e
disse: “Ele agora tem uma vontade”. Olhou para as estrelas e falou:
“Quando vivemos o nosso sonho nos tornamos pessoas agradáveis, leves e
confiantes. Vivemos impulsionados pela alma. Então, a alegria se faz
companheira.” Pediu para que eu também olhasse para as estrelas e
concluiu: “A vontade é a força que move todas virtudes, que por sua vez,
devem orientar as nossas escolhas. O amor é a vontade de ser um bom
lugar para o outro descansar; a fé é a vontade de movimentar universo
dentro e através de mim; a sinceridade é a vontade de viver a verdade da
maneira como a entendo. Onde há vontade, há um caminho.”
Encantado com as estrelas que ilustravam aquelas palavras, me deixei
levar em reflexão por breves instantes. Quando me virei, a cena
recorrente das noites no deserto: a bela mulher não estava mais ao meu
lado. Tinha se desmanchado no ar.
Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence.
sexta-feira, 24 de abril de 2020
domingo, 19 de abril de 2020
O décimo-quinto dia da travessia – navegar sem água
O dia amanhecia. Sentado na areia com uma caneca de café fresco na
mão, eu observava o caravaneiro adestrar o seu falcão. Era encantador
constatar que ela sempre retornava com o seu alimento, apesar da aridez
do deserto. Os olhos sagazes da ave conseguiam encontrar algo onde, para
olhos despreparados, não havia nada. Assim que o falcão pousou na
grossa luva de couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, me
levantei para me preparar para aquele dia da travessia. Enquanto eu
colocava o meu alforje no camelo, ouvi a conversa descontraída de um
grupo de mercadores que também integravam a caravana rumo ao oásis. Um
deles, bem jovem, comentava que esperava logo ter condições de comprar
uma bela casa em um aprazível bairro de Marraquexe, quando, então,
pediria a sua namorada em casamento. Acrescentou que precisava de um bom
lugar para criar os filhos que planejavam ter juntos. Outro, disse que
não tirava férias há muitos anos. Estava cansado e precisava descansar.
No entanto, somente faria isso quando conseguisse abrir a sua sonhada
loja de tapetes no mercado central da cidade, pois queria ter condições
de educar os filhos em boas escolas. Um terceiro mercador, mais velho,
que também fazia parte do grupo, contou que, apesar de ser dono de
várias lojas, também não tirava férias há muito tempo, quando almejava
peregrinar a Meca. Esperava que o filho voltasse do exterior, onde fora
cursar a universidade, para que assumisse o comando dos negócios da
família. Alegou que não confiava em mais ninguém. Tudo arrumado, a
caravana aprumou para partir. Para minha surpresa, quem alinhou ao meu
lado foi Ingrid, a astrônoma, com quem eu tinha me desentendido no dia
anterior. A proximidade dela me alegrava o coração.
Logo começamos a conversar. Contei a ela a conversa dos mercadores que acabara de ouvir e comentei o meu espanto pelo fato de as pessoas sempre estarem à espera de um acontecimento futuro para fazer aquilo que, acreditam, as farão felizes. Ela me perguntou o que eu faria quando retornasse do oásis, após o meu encontro com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Falei que era difícil responder, pois não tinha a menor ideia do que iria acontecer. Confessei que, no fundo, esperava por algo transformador. Ingrid quis saber se eu precisava estar com o sábio dervixe para mudar o rumo da minha vida, caso eu assim desejasse. Fiquei incomodado com o questionamento da astrônoma. Contei que já tinha realizado transformações angulares no curso da minha existência. Revelei que tinha formação em medicina, a qual abandonei para trabalhar com publicidade. Acrescentei que fiz isso quando me dei conta que o meu dom não era curar, mas criar. Falei, ainda, que eu estava triste e perdido naquela época. Conhecer a Ordem foi primordial para as mudanças que eu precisava fazer. Ela discordou. Falou que as mudanças já deveriam estar maduras em mim, mesmo que inconscientes. O convívio no mosteiro apenas facilitou o florescimento delas. Ingrid disse que, assim como na conversa dos mercadores, ficar à espera de algum acontecimento para efetuar as mudanças que sentimos necessárias era um erro. Argumentei que nem sempre temos as condições de fazer o que desejamos e que, sim, algumas vezes precisamos esperar por algo que está fora do nosso alcance.
Perguntei a ela o que pensava em fazer na volta da caravana, após ter estudado a constelação a que se propunha, visível apenas do oásis. A astrônoma explicou que, a se confirmar as suas desconfianças, iria escrever um artigo sobre o assunto. No mais, seguiria como professora. Aguardava a abertura de concurso para uma vaga na cátedra da universidade, pois vinha se preparando há tempos para isto. Falei que, como todas as pessoas, ela também esperava por algo, sem o qual não poderia realizar as pretendidas mudanças em sua vida. Ingrid discordou. Explanou que havia uma diferença entre as situações que estavam além das nossas escolhas e aquelas que estavam ao nosso alcance, mas que adiávamos por medo, egoísmo ou ignorância quanto ao próprio poder de transformação. Entender quando estamos verdadeiramente diante de um ou outro momento era um ato de sabedoria. E de coragem.
Argumentei que ela estava sendo contraditória; a astrônoma negou. Em seguida, contou que começou a sua carreira profissional como pesquisadora no observatório da sua cidade. Seguia um plano de estudos traçado pelo coordenador da sua equipe. Após alguns anos percebeu que tudo tinha ficado chato, pois o seu trabalho se limitava a verificar um conhecimento já consolidado pela ciência. Falou que era um trabalho importante, como são todos os trabalhos, mas que não era o seu dom. Disse que o seu dom era descobrir, desbravar, para depois compartilhar os novos conhecimentos. Isto a motivava, a tirava da cama todos os dias, animava a sua vida. Então, determinada da transformação que precisava, apesar da opinião contrária de algumas pessoas próximas, pediu demissão do observatório e partiu em viagem para a Antártica, decidida a realizar observações em uma determinada nebulosa, apenas visível a partir do Polo Sul. Na volta enviou o resultado dos seus estudos, em formato de artigo, para uma revista científica. Após alguns meses, apesar das incertezas, não havia arrependimento. O seu coração lhe dizia que tinha feito a coisa certa, pois tinha ido ao encontro com o seu sonho. A matéria acabou sendo publicada e, em razão da boa repercussão, ela foi convidada para ministrar aula na universidade na qual era professora. Acrescentou que amava o magistério pela possibilidade permitida em realizar pesquisas e difundir o conhecimento. Falei que ela tinha dado sorte, pois poderia estar desempregada e passando por sérias dificuldades. Ela balançou a cabeça e disse que, sim, era possível que isso tivesse acontecido. Porém, assumira o risco e os resultados que lhe são inerentes. Havia o risco que tudo desse errado. No entanto, o risco de ser feliz e de viver o seu sonho através do seu dom também era real. Então, fez uma escolha; a fez porque queria mudar a rota da sua existência. Sempre existe uma possibilidade de escolha, quase sempre fora das condições ideais de existência, quando se quer transformar a própria vida. Entretanto, as condições ideais não estão no mundo, mas dentro de você. Explicou que por ser uma mudança interna, em um lugar sagrado onde, salvo cada um a si mesmo, ninguém tem autorização para impedi-lo e, melhor ainda, você possui toda a permissão para criar.
Embora de alguma maneira as palavras de Ingrid me incomodassem, a conversa estava interessante. Até que, para o meu espanto, e sem acreditar no que meus olhos viam, a caravana se deparou com um navio encalhado no meio do deserto, a milhares de quilômetros do mar. O caravaneiro avisou que ali era o ponto da breve parada para descanso e uma ligeira refeição que costumávamos fazer no meio do dia. Todos os integrantes da caravana, mesmo os mais experientes, estavam maravilhados diante da cena improvável. Ouvi um turista, que viajava com frequência para visitar parentes que residiam no oásis, que no ano anterior a caravana encontrara o navio em outro local, que não aquele em que estávamos. Fato que, segundo esse turista, comprovava que o navio não estava encalhado, mas seguia navegando mesmo sem água. “Mistério” era a palavra mais ouvida naquele instante de êxtase.
Fotografamos o navio dezenas de vezes para que ninguém duvidasse da história que iríamos contar quando voltássemos para casa. Comentei com a Ingrid que mesmo assim muitos amigos não acreditariam em nossos relatos. A astrônoma sorriu e disse que ela mesma ainda custava a crer naquilo que seus olhos estavam lhe mostrando. Falou que estava com fome e iria pegar alguma coisa para comer. Sozinho, me afastei para fotografar à distância, com maior amplitude, quando me deparei com a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, quieta, observando a tudo de longe. Perguntei se podia me aproximar. Ela balançou a cabeça em permissão e apontou com o queixo um lugar para eu me sentar ao seu lado. Ficamos olhando para o absurdo navio por algum tempo até que perguntei se ela sabia algo sobre aquele mistério. A mulher explicou: “O navio faz parte das lendas do deserto.” Falei que lendas são histórias de ficção. Já o navio, ao contrário, estava na minha frente e era real. Sem dar importância ao meu comentário, como se a realidade também fosse naturalmente colorida com as tintas do irreal, ela prosseguiu: “Narra a lenda que havia um intrépido marinheiro que desde muito jovem esteve embarcado nesse navio. O seu sonho era viajar até um porto longínquo chamado Morserus, por causa de um sonho que tivera certa noite. Neste sonho, ao desembarcar em Morserus, encontraria a fortuna e a mulher da sua vida. Lá encontraria toda a felicidade que almejava. Como era um mero marinheiro, sujeito às ordens do capitão, não tinha como seguir para o destino desejado. Com o passar dos anos acabou se tornando o comandante do navio. Podia, então, seguir na direção para onde o seu sonho apontava. No entanto, agora tinha outras e maiores responsabilidades. Ora não podia ir em razão de alguma carga que precisava entregar em ponto distante do planeta; ora porque as condições meteorológicas não aconselhavam. Sempre havia risco de tempestades e naufrágio. O tempo passou. Esse capitão manteve o barco singrando placidamente pelos mares do mundo enquanto a sua existência permitiu. Nunca naufragou, mas também nunca chegou em Morserus.”
“Nunca soube o que lhe reservava esse porto encantado. Entretanto, embora não revelasse a ninguém, nunca esqueceu do sonho. Desculpava-se em razão de nunca ter tido as condições adequadas para viajar para o porto do seu sonho. Convenceu a si mesmo de que sonhos são bobagens, coisas de quem não entende as responsabilidades da vida. Orgulhava-se de ser um homem sério e cumpridor dos seus deveres. Entretanto, sem entender o motivo, aos poucos foi perdendo a alegria, se tornou ranzinza e a vida restou mais sem graça a cada dia. Tornou-se um pessimista. Por não suportar a amargura do comandante, a tripulação abandonou o navio. Sozinho, o capitão navegou para outro mundo.”
Interrompi para dizer que não era errado ser responsável e cumpridor dos seus deveres. Acrescentei que, esotericamente falando, a vida não acontece quando chegamos ao cais, mas durante a travessia. A mulher balançou a cabeça em concordância: “Sim, é tudo verdade. No entanto, os sonhos são primordiais; eles animam a alma. A responsabilidade e os deveres não anulam os sonhos, ao contrário, os movimentam. Não basta navegar, é preciso saber aonde vamos; não basta fazer a travessia, é fundamental entender o propósito. Senão, restaremos abandonados e nunca chegaremos ao cais.”
Argumentei que sonhos, muitas vezes, não passam de meros delírios. A mulher tornou a concordar comigo e explicou: “Os delírios falam dos desejos de grandeza típicos de um ego dominante. Os sonhos nos revelam tudo aquilo que é essencial para a alma se libertar. Diferenciar um do outro define a direção na qual iremos aproar o navio; se rumo a Morserus ou se navegaremos em círculos.”
Fiquei alguns minutos em silêncio enquanto olhava para o navio. A mulher de olhos azuis tinha razão. É necessário, entre os muitos afazeres da existência, encontrar espaço e tempo para viver o sonho. Falei para ela que a lenda era muito bonita e continha uma bela lição, contudo, nem sempre é fácil, pois ora nos falta condições, ora falta coragem. A mulher sorriu diante da minha conclusão apressada e perguntou: “A história não acabou. Você quer saber como termina?” Pedi para ela continuar. A mulher concluiu: “Ao chegar no outro mundo, em um lugar próximo às estrelas, os bons espíritos trouxeram o capitão e o navio de volta. Só que agora ele tem que aprender a navegar sem água, pelas areias do deserto, para aprender que cada um cria as próprias condições para seguir o seu sonho. Somente assim, um dia, todos chegaremos a Morserus.”
Olhou-me profundamente e finalizou: “Quando partimos em busca do nosso sonho, vivemos em sintonia com a nossa alma. A nossa alma está afinada com a alma do mundo. Então, esta nos acolhe, protege e ilumina para que possamos navegar rumo ao destino que nos aguarda.”
Tornei a me fixar no improvável navio que navegava pelo deserto enquanto me encantava com todos os atributos proporcionados pela lenda. Quando me virei para falar com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, sorri comigo mesmo pela cena recorrente: ela não estava mais ao meu lado
Logo começamos a conversar. Contei a ela a conversa dos mercadores que acabara de ouvir e comentei o meu espanto pelo fato de as pessoas sempre estarem à espera de um acontecimento futuro para fazer aquilo que, acreditam, as farão felizes. Ela me perguntou o que eu faria quando retornasse do oásis, após o meu encontro com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Falei que era difícil responder, pois não tinha a menor ideia do que iria acontecer. Confessei que, no fundo, esperava por algo transformador. Ingrid quis saber se eu precisava estar com o sábio dervixe para mudar o rumo da minha vida, caso eu assim desejasse. Fiquei incomodado com o questionamento da astrônoma. Contei que já tinha realizado transformações angulares no curso da minha existência. Revelei que tinha formação em medicina, a qual abandonei para trabalhar com publicidade. Acrescentei que fiz isso quando me dei conta que o meu dom não era curar, mas criar. Falei, ainda, que eu estava triste e perdido naquela época. Conhecer a Ordem foi primordial para as mudanças que eu precisava fazer. Ela discordou. Falou que as mudanças já deveriam estar maduras em mim, mesmo que inconscientes. O convívio no mosteiro apenas facilitou o florescimento delas. Ingrid disse que, assim como na conversa dos mercadores, ficar à espera de algum acontecimento para efetuar as mudanças que sentimos necessárias era um erro. Argumentei que nem sempre temos as condições de fazer o que desejamos e que, sim, algumas vezes precisamos esperar por algo que está fora do nosso alcance.
Perguntei a ela o que pensava em fazer na volta da caravana, após ter estudado a constelação a que se propunha, visível apenas do oásis. A astrônoma explicou que, a se confirmar as suas desconfianças, iria escrever um artigo sobre o assunto. No mais, seguiria como professora. Aguardava a abertura de concurso para uma vaga na cátedra da universidade, pois vinha se preparando há tempos para isto. Falei que, como todas as pessoas, ela também esperava por algo, sem o qual não poderia realizar as pretendidas mudanças em sua vida. Ingrid discordou. Explanou que havia uma diferença entre as situações que estavam além das nossas escolhas e aquelas que estavam ao nosso alcance, mas que adiávamos por medo, egoísmo ou ignorância quanto ao próprio poder de transformação. Entender quando estamos verdadeiramente diante de um ou outro momento era um ato de sabedoria. E de coragem.
Argumentei que ela estava sendo contraditória; a astrônoma negou. Em seguida, contou que começou a sua carreira profissional como pesquisadora no observatório da sua cidade. Seguia um plano de estudos traçado pelo coordenador da sua equipe. Após alguns anos percebeu que tudo tinha ficado chato, pois o seu trabalho se limitava a verificar um conhecimento já consolidado pela ciência. Falou que era um trabalho importante, como são todos os trabalhos, mas que não era o seu dom. Disse que o seu dom era descobrir, desbravar, para depois compartilhar os novos conhecimentos. Isto a motivava, a tirava da cama todos os dias, animava a sua vida. Então, determinada da transformação que precisava, apesar da opinião contrária de algumas pessoas próximas, pediu demissão do observatório e partiu em viagem para a Antártica, decidida a realizar observações em uma determinada nebulosa, apenas visível a partir do Polo Sul. Na volta enviou o resultado dos seus estudos, em formato de artigo, para uma revista científica. Após alguns meses, apesar das incertezas, não havia arrependimento. O seu coração lhe dizia que tinha feito a coisa certa, pois tinha ido ao encontro com o seu sonho. A matéria acabou sendo publicada e, em razão da boa repercussão, ela foi convidada para ministrar aula na universidade na qual era professora. Acrescentou que amava o magistério pela possibilidade permitida em realizar pesquisas e difundir o conhecimento. Falei que ela tinha dado sorte, pois poderia estar desempregada e passando por sérias dificuldades. Ela balançou a cabeça e disse que, sim, era possível que isso tivesse acontecido. Porém, assumira o risco e os resultados que lhe são inerentes. Havia o risco que tudo desse errado. No entanto, o risco de ser feliz e de viver o seu sonho através do seu dom também era real. Então, fez uma escolha; a fez porque queria mudar a rota da sua existência. Sempre existe uma possibilidade de escolha, quase sempre fora das condições ideais de existência, quando se quer transformar a própria vida. Entretanto, as condições ideais não estão no mundo, mas dentro de você. Explicou que por ser uma mudança interna, em um lugar sagrado onde, salvo cada um a si mesmo, ninguém tem autorização para impedi-lo e, melhor ainda, você possui toda a permissão para criar.
Embora de alguma maneira as palavras de Ingrid me incomodassem, a conversa estava interessante. Até que, para o meu espanto, e sem acreditar no que meus olhos viam, a caravana se deparou com um navio encalhado no meio do deserto, a milhares de quilômetros do mar. O caravaneiro avisou que ali era o ponto da breve parada para descanso e uma ligeira refeição que costumávamos fazer no meio do dia. Todos os integrantes da caravana, mesmo os mais experientes, estavam maravilhados diante da cena improvável. Ouvi um turista, que viajava com frequência para visitar parentes que residiam no oásis, que no ano anterior a caravana encontrara o navio em outro local, que não aquele em que estávamos. Fato que, segundo esse turista, comprovava que o navio não estava encalhado, mas seguia navegando mesmo sem água. “Mistério” era a palavra mais ouvida naquele instante de êxtase.
Fotografamos o navio dezenas de vezes para que ninguém duvidasse da história que iríamos contar quando voltássemos para casa. Comentei com a Ingrid que mesmo assim muitos amigos não acreditariam em nossos relatos. A astrônoma sorriu e disse que ela mesma ainda custava a crer naquilo que seus olhos estavam lhe mostrando. Falou que estava com fome e iria pegar alguma coisa para comer. Sozinho, me afastei para fotografar à distância, com maior amplitude, quando me deparei com a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, quieta, observando a tudo de longe. Perguntei se podia me aproximar. Ela balançou a cabeça em permissão e apontou com o queixo um lugar para eu me sentar ao seu lado. Ficamos olhando para o absurdo navio por algum tempo até que perguntei se ela sabia algo sobre aquele mistério. A mulher explicou: “O navio faz parte das lendas do deserto.” Falei que lendas são histórias de ficção. Já o navio, ao contrário, estava na minha frente e era real. Sem dar importância ao meu comentário, como se a realidade também fosse naturalmente colorida com as tintas do irreal, ela prosseguiu: “Narra a lenda que havia um intrépido marinheiro que desde muito jovem esteve embarcado nesse navio. O seu sonho era viajar até um porto longínquo chamado Morserus, por causa de um sonho que tivera certa noite. Neste sonho, ao desembarcar em Morserus, encontraria a fortuna e a mulher da sua vida. Lá encontraria toda a felicidade que almejava. Como era um mero marinheiro, sujeito às ordens do capitão, não tinha como seguir para o destino desejado. Com o passar dos anos acabou se tornando o comandante do navio. Podia, então, seguir na direção para onde o seu sonho apontava. No entanto, agora tinha outras e maiores responsabilidades. Ora não podia ir em razão de alguma carga que precisava entregar em ponto distante do planeta; ora porque as condições meteorológicas não aconselhavam. Sempre havia risco de tempestades e naufrágio. O tempo passou. Esse capitão manteve o barco singrando placidamente pelos mares do mundo enquanto a sua existência permitiu. Nunca naufragou, mas também nunca chegou em Morserus.”
“Nunca soube o que lhe reservava esse porto encantado. Entretanto, embora não revelasse a ninguém, nunca esqueceu do sonho. Desculpava-se em razão de nunca ter tido as condições adequadas para viajar para o porto do seu sonho. Convenceu a si mesmo de que sonhos são bobagens, coisas de quem não entende as responsabilidades da vida. Orgulhava-se de ser um homem sério e cumpridor dos seus deveres. Entretanto, sem entender o motivo, aos poucos foi perdendo a alegria, se tornou ranzinza e a vida restou mais sem graça a cada dia. Tornou-se um pessimista. Por não suportar a amargura do comandante, a tripulação abandonou o navio. Sozinho, o capitão navegou para outro mundo.”
Interrompi para dizer que não era errado ser responsável e cumpridor dos seus deveres. Acrescentei que, esotericamente falando, a vida não acontece quando chegamos ao cais, mas durante a travessia. A mulher balançou a cabeça em concordância: “Sim, é tudo verdade. No entanto, os sonhos são primordiais; eles animam a alma. A responsabilidade e os deveres não anulam os sonhos, ao contrário, os movimentam. Não basta navegar, é preciso saber aonde vamos; não basta fazer a travessia, é fundamental entender o propósito. Senão, restaremos abandonados e nunca chegaremos ao cais.”
Argumentei que sonhos, muitas vezes, não passam de meros delírios. A mulher tornou a concordar comigo e explicou: “Os delírios falam dos desejos de grandeza típicos de um ego dominante. Os sonhos nos revelam tudo aquilo que é essencial para a alma se libertar. Diferenciar um do outro define a direção na qual iremos aproar o navio; se rumo a Morserus ou se navegaremos em círculos.”
Fiquei alguns minutos em silêncio enquanto olhava para o navio. A mulher de olhos azuis tinha razão. É necessário, entre os muitos afazeres da existência, encontrar espaço e tempo para viver o sonho. Falei para ela que a lenda era muito bonita e continha uma bela lição, contudo, nem sempre é fácil, pois ora nos falta condições, ora falta coragem. A mulher sorriu diante da minha conclusão apressada e perguntou: “A história não acabou. Você quer saber como termina?” Pedi para ela continuar. A mulher concluiu: “Ao chegar no outro mundo, em um lugar próximo às estrelas, os bons espíritos trouxeram o capitão e o navio de volta. Só que agora ele tem que aprender a navegar sem água, pelas areias do deserto, para aprender que cada um cria as próprias condições para seguir o seu sonho. Somente assim, um dia, todos chegaremos a Morserus.”
Olhou-me profundamente e finalizou: “Quando partimos em busca do nosso sonho, vivemos em sintonia com a nossa alma. A nossa alma está afinada com a alma do mundo. Então, esta nos acolhe, protege e ilumina para que possamos navegar rumo ao destino que nos aguarda.”
Tornei a me fixar no improvável navio que navegava pelo deserto enquanto me encantava com todos os atributos proporcionados pela lenda. Quando me virei para falar com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, sorri comigo mesmo pela cena recorrente: ela não estava mais ao meu lado
sexta-feira, 17 de abril de 2020
O décimo-quarto dia da travessia – as maravilhas da impermanência
Acordei com o céu do deserto ainda estrelado. Ao Leste o sol
anunciava levemente a sua hora colorindo uma pequena faixa do horizonte
em tom pastel. Ingrid, astrônoma que tinha adormecido na areia ao meu
lado no dia anterior, estava com os olhos abertos, encantada com as
estrelas. Quando ela me percebeu também desperto, comentou do seu
fascínio pelos astros celestes e por todo mistério que o universo ainda
encerra. Falei que o mistério existe na proporção indireta do nosso
conhecimento. Porém, curioso, perguntei sobre o que ela pensava ao falar
aquilo. “O nosso céu é o céu do passado”, ela respondeu. Eu disse que
não tinha entendido. Ingrid explicou que como as estrelas estão a uma
distância absurdamente grande, a muitos anos-luz de nós, significa que
as estrelas que estávamos vendo naquele momento já não estavam mais ali e
podiam até mesmo nem mais existir. A astrônoma falou que as estrelas
explodem quando terminam o seu ciclo de existência, mas em razão da
enorme distância, a imagem de um fato ocorrido no espaço demora anos
para chegar até a Terra. Ou seja, aquilo que meus olhos viam podiam não
mais existir. Apontou para uma estrela qualquer e concluiu: “Aquela
estrela pode ser apenas uma ilusão em razão da possibilidade de, na
realidade, não mais existir. A ilusão permeia e se mistura à realidade
por todo o tempo quando estudamos astronomia.” Comentei que eu tinha a
sensação de que na vida também era assim; nem sempre era fácil discernir
a ilusão da realidade. Permanecemos em silêncio, olhando para as
estrelas, pelo tempo de o sol escalar mais alguns poucos graus e o
acampamento despertar. Após levantar e arrumar as nossas coisas para
partir para mais um dia de travessia, fomos tomar o desjejum. Enquanto
bebia um delicioso café fresco, observei que uma enorme duna que havia à
nossa frente na tarde anterior, quando acampamos, tinha desaparecido,
varrida pelo vento da noite. Confessei para a Ingrid que a instabilidade
das coisas me trazia desconforto. Ela apenas deu de ombros como quem
diz que é inevitável e se afastou para cuidar de alguns afazeres.
Reservei um lugar para a astrônoma alinhar o seu camelo ao meu. Eu tinha
adorado conversar com ela e desejava a sua companhia. Como até a hora
de iniciar a marcha ela não tinha aparecido, passei os olhos por toda a
caravana a sua procura. Foi quando a vi pronta para prosseguir ao lado
de outra pessoa. De imediato, sentimentos ruins se apossaram de mim.
Esforcei-me para controlar o mal-estar que eu sentia. Em vão. Tentei me distrair com a paisagem do deserto, mas tudo me pareceu de uma insuportável mesmice. Naquele dia, quem seguiu com o camelo alinhado ao meu foi uma senhora de idade avançada, com a pele maltratada pela intempérie do deserto, que, porém, aparentava gozar de boa saúde. Percebi que ela me olhava como se fosse capaz de ver além de mim, além do meu corpo; como se fosse possível ler a minha alma. Como isto me trazia um grande incômodo, a olhei, com a expressão séria, fixamente nos olhos, para que parasse com aquilo. Ela sorriu deixando à mostra um dente de ouro. Em resposta, virei o rosto para frente como quem diz que quer ficar sozinho.
Quando eu esperava que a caravana parasse no meio do dia para um breve descanso e uma leve refeição, como de costume, veio a ordem do caravaneiro comunicando que seguiríamos sem a parada para que fosse possível acamparmos ao lado de um poço onde nos reabasteceríamos com água. Esta mudança de rotina aumentou o meu já enorme desconforto. Mesmo sem que eu nada perguntasse, a senhora que seguia ao meu lado disse: “Escolha quem vai te acompanhar, não apenas na caravana, mas em todos os dias da tua vida.” Falei que quem eu desejava que estivesse ao meu lado não quis estar. Ela, como se soubesse que eu me referia a Ingrid, aconselhou: “Não me refiro a outra pessoa, pois não somos nem devemos nos sentir donos de ninguém. Isto é dominação, raiz de muito sofrimento. Para ser livre é indispensável respeitar a liberdade alheia.” Fez uma pausa para prosseguir em seguida: “Digo quanto aos seus anjos e demônios. Quem determina a aproximação, seja de uns, seja de outros, é você mesmo. Luz ou sombras se definem em sua mente e em seu coração. Assim se constrói a realidade; todo o resto é ilusão.” Tornou a pausar antes de concluir: “Aceite que as circunstâncias mudam quando a vida precisa avançar em outra direção. Negar a evolução é se aprisionar à ilusão; se opor à mudança é desperdiçar a melhor oportunidade oferecida por uma nova realidade”. Sacudi a cabeça como quem diz que ela não sabia nada sobre a minha vida e segui calado. A senhora também não disse mais qualquer palavra.
Ao cair da tarde chegamos ao poço. O acampamento foi montado e toda a caravana se abasteceu com água. No jantar, o delicioso guisado de carne-seca de carneiro com grãos cozidos não foi servido como de costume, sendo substituído por uma sopa de aparência estranha. Entre a decepção e a irritação, me recusei a jantar. Como se não bastasse, reclamei com um dos cozinheiros, que me respondeu de modo grosseiro. Afastei-me para ruminar a mágoa que eu sentia, agora não apenas de Ingrid, mas de toda a caravana que parecia estar em complô contra mim. Não demorou, Ingrid se aproximou. Ela disse que estava me procurando para conversar, pois queria contar da incrível conversa que tivera durante o dia com um astrólogo que seguia para o oásis junto com a caravana. Trazia uma cuia de sopa, que segundo o seu paladar, estava deliciosa. Animada, falou que travou um embate teórico com o astrólogo entre a ciência e o misticismo; astronomia versus astrologia. Sarcástico, perguntei se ela se sentia vitoriosa. A astrônoma percebeu o tom da minha voz e, ao invés de responder a provocação, quis saber a razão de eu estar magoado. Expliquei os meus motivos. Ela comentou que eu estava sendo imaturo. Disse, ainda, que poderíamos conversar para esclarecer. Dando vazão ao meu ressentimento, falei que não estava disposto naquele momento. Ingrid falou que entendia e se foi. Fiquei ainda pior.
Naquele momento estar no meio do deserto seguindo em caravana para um oásis na tentativa de conhecer um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra”, me pareceu uma ideia absurda. Desejei imensamente estar no conforto da minha casa, vivendo a rotina que me agradava, ao lado daqueles que me amavam, quando vi a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, afastada de todos, em posição de meditação. Cheguei próximo, mas hesitei em interrompê-la. Sem abrir os olhos, ela me convidou para sentar. Ao me acomodar, eu quis saber como ela tinha me percebido com os olhos fechados. A mulher respondeu como quem diz o óbvio: “A energia densa que você está pulsando é perceptível como os ventos que antecedem a uma tempestade”. Contei a ela que não tinha tido um dia bom e resumi os fatos. Ela me olhou como quem olha a uma criança e comentou: “Não vejo nada de tão grave que justifique a sua insatisfação”. Contestei sob o argumento que, no dia anterior, Ingrid tinha despertado em mim um grande afeto, para depois trocar a minha companhia por outra pessoa que ela acabara de conhecer. Citei o famoso trecho do livro de Saint-Exupéry, no qual o notável escritor ensina que “és responsável por tudo aquilo que cativas”. Logo, segundo o meu raciocínio, Ingrid tinha que ter sido mais atenciosa comigo. A mulher de olhos azuis explicou: “O ensinamento é precioso, no entanto, como toda a sabedoria, precisa de um contexto adequado e dos devidos limites. Ser responsável por você não significa que ela tenha que suprir todas as suas carências nem atender aos desejos oriundos de um quadro emocional instável. Cativar é oferecer amor, isto não torna ninguém responsável pela felicidade alheia pela evidente impossibilidade da empreitada. Ser responsável pelo outro é oferecer o melhor que temos, com o amor que já possuímos, de maneira generosa e honesta. Isto é bem diferente de estarmos obrigados a atender a todos os desejos alheios. Impor a alguém tamanha obrigação é um abominável exercício de dominação, que deve ser rejeitado com firmeza e delicadeza; não se pode aceitar a transferência de responsabilidade na busca pela própria plenitude. O ensinamento do alquimista francês foi deturpado gerando cobranças insensatas nas afeições, que por se tratar de amor, a cobrança, por si só, se mostra indevida. Assim, conduzimos o raciocínio por vias tortuosas para que entreguem a felicidade que nos cabe buscar. Atolados na inércia pelo medo do trabalho e do desconhecido, ambos inerentes à busca e à evolução, reclamamos do mundo e amaldiçoamos a vida”. Olhou me com seriedade e concluiu: “Na tentativa de manipular a realidade acabamos aprisionados na ilusão.”
Balancei a cabeça em concordância, mas lembrei que Ingrid poderia ter sido um pouco mais atenciosa e paciente comigo ao invés de simplesmente levantar e sair quando eu disse que não queria conversar. A bela mulher questionou as minhas intenções: “Por que ela tinha que insistir? Para te mimar como se faz com as crianças? É comum negarmos o crescimento na ilusão de mantermos a permanente segurança que os adultos nos transmitem na infância. No entanto, tudo na vida muda porque todos precisam crescer. É necessário que seja assim. Sem transformação não há evolução. No entanto, temos medo das novas circunstâncias da vida por não saber se conseguiremos lidar com elas. Trazemos o vicio ancestral de dominar tudo e todos que nos cercam ao invés de nos concentrar em equilibrar o universo que nos habita. Estamos condicionados a impor ou manipular as escolhas alheias ao invés de simplesmente respeitá-las. Ao ansiar pelo controle do mundo perdemos o poder sobre nós mesmos e desperdiçamos as maravilhas da vida. Somente com a alma madura nos sentiremos seguros. Vivemos no mundo o universo que nos habita; sejam os conflitos, seja a harmonia. Pensar que a dor que sentimos é de responsabilidade dos outros é uma ilusão doce de realidade amarga.”
Falei que, de certa maneira, era isso que a anciã tinha me dito sem que eu tivesse entendido. Acrescentei, por curiosidade, que havia estranhado o dente de ouro que aparecia quando ela sorria. A mulher de olhos azuis me olhou surpresa e comentou: “Você não me falou nada sobre ela. Poderia descrevê-la para mim?” Eu o fiz em detalhes, pois ela havia marchado ao meu lado por todo aquele dia. A bela mulher me perguntou se eu vira a anciã na caravana em outro dia qualquer. Foi quando me dei conta que, na verdade, apesar de duas semanas de convívio, todas as pessoas eram, ao menos, conhecidas de vista. No entanto, eu não me recordava de tê-la visto. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli esclareceu para o meu espanto: “Não havia ninguém marchando ao seu lado hoje. Melhor dizendo, nenhuma pessoa. A anciã a que você se refere é um espírito; um bom espírito que acompanha e protege as caravanas. É uma guardiã das areias conhecida como a Cigana do Deserto. Ela é muito sábia e tem muita luz. Conversar com ela é uma oportunidade concedida a pouquíssimos viajantes.”
Tentei prosseguir a conversa, porém fui desaconselhado pela mulher que colocou o dedo sobre os lábios em sinal de silêncio. Em seguida, passou a mão sobre os olhos como quem pede para que eu os fechasse. Entendi que era momento de quietude e reflexão. Atendi a sugestão. Não demorou, ao serenar a emoções, todos os acontecimentos do dia se passaram como um filme em minha tela mental. As várias situações que estavam fora das minhas previsões e desejos, desde a escolha de Ingrid em marchar ao lado de outra pessoa até a mudança do cardápio no jantar se apresentaram com clareza. Ao me recusar a viver as possibilidades que se apresentavam fora do meu controle e vontade, me senti mal o dia todo. Deixei-me aborrecer pelo mero fato de não pararmos para descansar no meio do dia, não conheci o sabor da sopa, briguei com o cozinheiro e, pior, por estar envolvido no ciúme que sentia de Ingrid, desperdicei a rara oportunidade de aproveitar melhor a conversa com uma guardiã do deserto. Enquanto eu invejava a conversa da astrônoma com o astrólogo, não percebi o encontro fantástico que a magia da vida me proporcionava.
Aos poucos os pensamentos se alinharam para compor um mosaico de ideias. Entendi que ao tentar controlar o mundo eu perco a mim mesmo e a vida. Ao contrário, ao harmonizar o meu universo interior, encontro comigo, me equilibro com o mundo e abraço a vida. Apenas a impermanência de todas as coisas pode me ensinar isto. A impermanência oculta a mestria da evolução ao descortinar o véu da ilusão.
Esforcei-me para controlar o mal-estar que eu sentia. Em vão. Tentei me distrair com a paisagem do deserto, mas tudo me pareceu de uma insuportável mesmice. Naquele dia, quem seguiu com o camelo alinhado ao meu foi uma senhora de idade avançada, com a pele maltratada pela intempérie do deserto, que, porém, aparentava gozar de boa saúde. Percebi que ela me olhava como se fosse capaz de ver além de mim, além do meu corpo; como se fosse possível ler a minha alma. Como isto me trazia um grande incômodo, a olhei, com a expressão séria, fixamente nos olhos, para que parasse com aquilo. Ela sorriu deixando à mostra um dente de ouro. Em resposta, virei o rosto para frente como quem diz que quer ficar sozinho.
Quando eu esperava que a caravana parasse no meio do dia para um breve descanso e uma leve refeição, como de costume, veio a ordem do caravaneiro comunicando que seguiríamos sem a parada para que fosse possível acamparmos ao lado de um poço onde nos reabasteceríamos com água. Esta mudança de rotina aumentou o meu já enorme desconforto. Mesmo sem que eu nada perguntasse, a senhora que seguia ao meu lado disse: “Escolha quem vai te acompanhar, não apenas na caravana, mas em todos os dias da tua vida.” Falei que quem eu desejava que estivesse ao meu lado não quis estar. Ela, como se soubesse que eu me referia a Ingrid, aconselhou: “Não me refiro a outra pessoa, pois não somos nem devemos nos sentir donos de ninguém. Isto é dominação, raiz de muito sofrimento. Para ser livre é indispensável respeitar a liberdade alheia.” Fez uma pausa para prosseguir em seguida: “Digo quanto aos seus anjos e demônios. Quem determina a aproximação, seja de uns, seja de outros, é você mesmo. Luz ou sombras se definem em sua mente e em seu coração. Assim se constrói a realidade; todo o resto é ilusão.” Tornou a pausar antes de concluir: “Aceite que as circunstâncias mudam quando a vida precisa avançar em outra direção. Negar a evolução é se aprisionar à ilusão; se opor à mudança é desperdiçar a melhor oportunidade oferecida por uma nova realidade”. Sacudi a cabeça como quem diz que ela não sabia nada sobre a minha vida e segui calado. A senhora também não disse mais qualquer palavra.
Ao cair da tarde chegamos ao poço. O acampamento foi montado e toda a caravana se abasteceu com água. No jantar, o delicioso guisado de carne-seca de carneiro com grãos cozidos não foi servido como de costume, sendo substituído por uma sopa de aparência estranha. Entre a decepção e a irritação, me recusei a jantar. Como se não bastasse, reclamei com um dos cozinheiros, que me respondeu de modo grosseiro. Afastei-me para ruminar a mágoa que eu sentia, agora não apenas de Ingrid, mas de toda a caravana que parecia estar em complô contra mim. Não demorou, Ingrid se aproximou. Ela disse que estava me procurando para conversar, pois queria contar da incrível conversa que tivera durante o dia com um astrólogo que seguia para o oásis junto com a caravana. Trazia uma cuia de sopa, que segundo o seu paladar, estava deliciosa. Animada, falou que travou um embate teórico com o astrólogo entre a ciência e o misticismo; astronomia versus astrologia. Sarcástico, perguntei se ela se sentia vitoriosa. A astrônoma percebeu o tom da minha voz e, ao invés de responder a provocação, quis saber a razão de eu estar magoado. Expliquei os meus motivos. Ela comentou que eu estava sendo imaturo. Disse, ainda, que poderíamos conversar para esclarecer. Dando vazão ao meu ressentimento, falei que não estava disposto naquele momento. Ingrid falou que entendia e se foi. Fiquei ainda pior.
Naquele momento estar no meio do deserto seguindo em caravana para um oásis na tentativa de conhecer um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra”, me pareceu uma ideia absurda. Desejei imensamente estar no conforto da minha casa, vivendo a rotina que me agradava, ao lado daqueles que me amavam, quando vi a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, afastada de todos, em posição de meditação. Cheguei próximo, mas hesitei em interrompê-la. Sem abrir os olhos, ela me convidou para sentar. Ao me acomodar, eu quis saber como ela tinha me percebido com os olhos fechados. A mulher respondeu como quem diz o óbvio: “A energia densa que você está pulsando é perceptível como os ventos que antecedem a uma tempestade”. Contei a ela que não tinha tido um dia bom e resumi os fatos. Ela me olhou como quem olha a uma criança e comentou: “Não vejo nada de tão grave que justifique a sua insatisfação”. Contestei sob o argumento que, no dia anterior, Ingrid tinha despertado em mim um grande afeto, para depois trocar a minha companhia por outra pessoa que ela acabara de conhecer. Citei o famoso trecho do livro de Saint-Exupéry, no qual o notável escritor ensina que “és responsável por tudo aquilo que cativas”. Logo, segundo o meu raciocínio, Ingrid tinha que ter sido mais atenciosa comigo. A mulher de olhos azuis explicou: “O ensinamento é precioso, no entanto, como toda a sabedoria, precisa de um contexto adequado e dos devidos limites. Ser responsável por você não significa que ela tenha que suprir todas as suas carências nem atender aos desejos oriundos de um quadro emocional instável. Cativar é oferecer amor, isto não torna ninguém responsável pela felicidade alheia pela evidente impossibilidade da empreitada. Ser responsável pelo outro é oferecer o melhor que temos, com o amor que já possuímos, de maneira generosa e honesta. Isto é bem diferente de estarmos obrigados a atender a todos os desejos alheios. Impor a alguém tamanha obrigação é um abominável exercício de dominação, que deve ser rejeitado com firmeza e delicadeza; não se pode aceitar a transferência de responsabilidade na busca pela própria plenitude. O ensinamento do alquimista francês foi deturpado gerando cobranças insensatas nas afeições, que por se tratar de amor, a cobrança, por si só, se mostra indevida. Assim, conduzimos o raciocínio por vias tortuosas para que entreguem a felicidade que nos cabe buscar. Atolados na inércia pelo medo do trabalho e do desconhecido, ambos inerentes à busca e à evolução, reclamamos do mundo e amaldiçoamos a vida”. Olhou me com seriedade e concluiu: “Na tentativa de manipular a realidade acabamos aprisionados na ilusão.”
Balancei a cabeça em concordância, mas lembrei que Ingrid poderia ter sido um pouco mais atenciosa e paciente comigo ao invés de simplesmente levantar e sair quando eu disse que não queria conversar. A bela mulher questionou as minhas intenções: “Por que ela tinha que insistir? Para te mimar como se faz com as crianças? É comum negarmos o crescimento na ilusão de mantermos a permanente segurança que os adultos nos transmitem na infância. No entanto, tudo na vida muda porque todos precisam crescer. É necessário que seja assim. Sem transformação não há evolução. No entanto, temos medo das novas circunstâncias da vida por não saber se conseguiremos lidar com elas. Trazemos o vicio ancestral de dominar tudo e todos que nos cercam ao invés de nos concentrar em equilibrar o universo que nos habita. Estamos condicionados a impor ou manipular as escolhas alheias ao invés de simplesmente respeitá-las. Ao ansiar pelo controle do mundo perdemos o poder sobre nós mesmos e desperdiçamos as maravilhas da vida. Somente com a alma madura nos sentiremos seguros. Vivemos no mundo o universo que nos habita; sejam os conflitos, seja a harmonia. Pensar que a dor que sentimos é de responsabilidade dos outros é uma ilusão doce de realidade amarga.”
Falei que, de certa maneira, era isso que a anciã tinha me dito sem que eu tivesse entendido. Acrescentei, por curiosidade, que havia estranhado o dente de ouro que aparecia quando ela sorria. A mulher de olhos azuis me olhou surpresa e comentou: “Você não me falou nada sobre ela. Poderia descrevê-la para mim?” Eu o fiz em detalhes, pois ela havia marchado ao meu lado por todo aquele dia. A bela mulher me perguntou se eu vira a anciã na caravana em outro dia qualquer. Foi quando me dei conta que, na verdade, apesar de duas semanas de convívio, todas as pessoas eram, ao menos, conhecidas de vista. No entanto, eu não me recordava de tê-la visto. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli esclareceu para o meu espanto: “Não havia ninguém marchando ao seu lado hoje. Melhor dizendo, nenhuma pessoa. A anciã a que você se refere é um espírito; um bom espírito que acompanha e protege as caravanas. É uma guardiã das areias conhecida como a Cigana do Deserto. Ela é muito sábia e tem muita luz. Conversar com ela é uma oportunidade concedida a pouquíssimos viajantes.”
Tentei prosseguir a conversa, porém fui desaconselhado pela mulher que colocou o dedo sobre os lábios em sinal de silêncio. Em seguida, passou a mão sobre os olhos como quem pede para que eu os fechasse. Entendi que era momento de quietude e reflexão. Atendi a sugestão. Não demorou, ao serenar a emoções, todos os acontecimentos do dia se passaram como um filme em minha tela mental. As várias situações que estavam fora das minhas previsões e desejos, desde a escolha de Ingrid em marchar ao lado de outra pessoa até a mudança do cardápio no jantar se apresentaram com clareza. Ao me recusar a viver as possibilidades que se apresentavam fora do meu controle e vontade, me senti mal o dia todo. Deixei-me aborrecer pelo mero fato de não pararmos para descansar no meio do dia, não conheci o sabor da sopa, briguei com o cozinheiro e, pior, por estar envolvido no ciúme que sentia de Ingrid, desperdicei a rara oportunidade de aproveitar melhor a conversa com uma guardiã do deserto. Enquanto eu invejava a conversa da astrônoma com o astrólogo, não percebi o encontro fantástico que a magia da vida me proporcionava.
Aos poucos os pensamentos se alinharam para compor um mosaico de ideias. Entendi que ao tentar controlar o mundo eu perco a mim mesmo e a vida. Ao contrário, ao harmonizar o meu universo interior, encontro comigo, me equilibro com o mundo e abraço a vida. Apenas a impermanência de todas as coisas pode me ensinar isto. A impermanência oculta a mestria da evolução ao descortinar o véu da ilusão.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
O décimo-terceiro dia da travessia – a Relatividade no deserto
O décimo-terceiro dia da travessia seguia modorrento. Sol, calor, o
gingado enjoativo do camelo e duna após duna, em um mar de areia sem
fim. Peguei-me pensando que algumas rotinas na caravana já estavam tão
incorporadas aos viajantes que, se porventura, alguma fosse suprimida, a
maioria de nós sentiria falta. O café quente servido no desjejum, a
rápida parada no meio do dia para um breve lanche, o jantar ao início da
noite, o acender dos lampiões que iluminavam o acampamento, o bom homem
do chá, a ágil movimentação em montar e desmontar as tendas, a
enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli galopando em seu
cavalo negro, que aparecia e sumia como que por encanto, eram alguns
exemplos. Eu também já tinha me acostumado a ver o caravaneiro, logo bem
cedo pela manhã e ao final da tarde, se afastar com o seu falcão
pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo para o
adestramento matinal e vespertino da ave. Também me acostumara a vê-lo
nesses horários, sempre antes do treinamento, de joelhos na areia, em
sua prece de duas palavras, rogando por “luz e proteção”, conforme tinha
me ensinado alguns dias antes. Outro hábito que se tornara comum era a
caravana parar em determinada hora do dia para que os integrantes grupo
fizessem as preces conforme os seus preceitos religiosos. Naquele dia,
quem tinha o camelo emparelhado ao meu era uma simpática e bonita
europeia que logo puxou conversa. Contei que seguia para conhecer um
sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra”.
Ela disse se chamar Ingrid e que era astrônoma. Trazia em sua bagagem
alguns telescópios para observar uma determinada constelação, objeto dos
seus estudos, em razão da posição privilegiada do oásis no meio do
deserto. Como as estrelas sempre foram motivo de enorme fascínio para
mim, me derramei em indagações, as quais ela respondeu com boa vontade.
Quando a caravana interrompeu a marcha para a oração, ela, sem qualquer
traço de agressividade, lamentou a perda de tempo. Acrescentou, sempre
com delicadeza, que não entendia como a humanidade ainda desperdiçava
tempo e energia nessa busca que considerava sem sentido. Disse se
espantar que, mesmo após o avanço de séculos em conhecimento, as pessoas
continuavam amarradas em crenças absurdas ou no anseio por algum
insensato contato metafísico.
Em seguida, ela quis saber se eu acreditava em Deus. Apropriei-me de uma resposta dada por um alquimista diante da mesma pergunta e respondi que “não é uma questão de acreditar. Eu o sinto”. A simpática astrônoma disse não fazer sentido. Explicou que qualquer divindade era resultado de conjunções psíquicas. A ciência, por tratar da realidade precisava de elementos físicos para a sua compreensão e aceitação. Ou seja, “o que não há na natureza, não existe na vida”. Para ela, Deus era uma ficção como tantas outras. Questionei se ela acreditava em matemática. A astrônoma respondeu que sim. Acrescentou que a matemática era a base da astronomia. Argumentei que a matemática também era um produto psíquico elaborado pela mente humana, pois não encontramos equações em árvores nem cálculos na beira da praia. No entanto, apesar de também ser uma criação cerebral, logo, uma ficção, a matemática tinha a capacidade de explicar a natureza e seus fenômenos. Ela rebateu dizendo que os romances de ficção, meras criações mentais, comprovam a grande capacidade da humanidade em se encantar com ilusões. Deus era somente mais uma dessas narrativas. Falei que as histórias, mesmo as mais antigas, se sustentam em arquétipos que explicam o comportamento padrão das pessoas, seja quanto às suas dificuldades, seja em relação aos seus ideais. Por isto elas, as histórias, emocionavam pela identificação que provocavam. Ingrid perguntou o que Deus tinha a ver com isso. Respondi que todas as pessoas tinham, em graus de desenvolvimento distintos, o padrão de Deus em si, como um arquétipo-mor. Mesmo aqueles que O negam com toda a força do consciente, inconscientemente buscam os valores divinos existentes nas nobres virtudes e no amor disseminados através dos tempos. Dos facínoras aos santos, há o sagrado em todos. Acrescentei que sagrado era tudo aquilo que me tornava uma pessoa melhor e, em essência, a busca de todos. É a percepção e a consequente manifestação de Deus, sempre em movimento dentro de cada indivíduo. Assim, mesmo aqueles que não acreditam, O buscam sem saber. No fundo, todos querem se afastar de círculos viciosos, onde reinam a ignorância, o medo, o egoísmo, a inveja, o orgulho, a vaidade, o ciúme, entre outras sombras, para viver em círculos virtuosos onde se pratica a humildade, a compaixão, a sinceridade, a pureza, a generosidade, a justiça e, principalmente, o amor, como exemplos de muitas outras virtudes. As virtudes são poderosas fontes de luz. Logo, acreditar ou não em Deus, naquele momento da existência, não fazia diferença, desde que o indivíduo incorporasse em si, a cada dia um pouco mais, cada uma das virtudes como ferramentas indispensáveis à luz. Essa era a maneira como nos aproximamos de Deus, sejamos ateus, sejamos religiosos.
A astrônoma argumentou que não sentia a menor vontade de conhecer Deus, embora reconhecesse o valor das virtudes. Expliquei que o aprimoramento das virtudes é o instrumento único da evolução. Muda o mundo na medida das mudanças pessoais; transformar a si mesmo é a possibilidade singular de transformação da vida. A lapidação das virtudes nos torna plenos. A plenitude se completa nos cinco pontos de luz alcançados pelo ser na existência: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor incondicional e a felicidade. Em outras palavras, era o Graal procurado pelos templários, a Pedra Filosofal que fascinava os alquimistas na tentativa de transformar o chumbo da existência no ouro da vida, a Iluminação ensinada pelas tradições filosóficas orientais e também a preparação para o encontro com Deus de que falam as religiões monoteístas. Aperfeiçoarmo-nos em cada uma das virtudes é também o Caminho dos esotéricos. Queira ou não, cedo ou tarde, isso muda a sua percepção sobre Deus por alterar o entendimento quanto ao universo e em relação a si mesmo.
“Tão real, tão ilusório e tão metafísico como o mundo em que vivemos”, se intrometeu na conversa, para a nossa surpresa, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, ao passar por nós montada em seu vigoroso cavalo negro. Olhou-nos por instantes e seguiu adiante.
A caravana parou para a oração diária. Eu fiquei observando o caravaneiro em sua prece. Sempre afastado, ele tinha como ritual, ao ficar de joelhos, desenhar um círculo na areia, para depois se curvar e rezar. Eu não sabia o que significava, mas na primeira oportunidade iria perguntar. As pessoas que não foram rezar aguardaram em respeitoso silêncio.
A astrônoma me puxou para um canto e, em tom de cochicho para não atrapalhar as preces, perguntou se eu acreditava em sonhos. Respondi que o assunto era bem complexo. Variava de meras ilações quanto a desejos e medos do ego no sono raso até mensagens importantes trazidas pela alma, em viagem a outras esferas de existência, quando desprendida do corpo, durante o sono profundo. Ela confessou que naquela noite acordara sobressaltada com um terrível pesadelo. Sonhara que a caravana tinha sido atacada por tribos nômades do deserto. Tudo lhe parecera tão real que não conseguiu voltar a dormir. Deu de ombros e comentou que sonhos eram bobagens, frutos de devaneios do inconsciente.
Em seguida, o caravaneiro, ao terminar a oração, se levantou e olhou com seriedade para todos da caravana, como se procurasse por alguém. Como quem não encontra o que procura, perguntou se alguém sonhara naquela noite. Não um sonho qualquer, mas um sonho extraordinário. Antes que alguém pudesse se manifestar, por puro instinto, apontei para a Ingrid ao meu lado. O caravaneiro a olhou por instantes e se aproximou. Trazia consigo em firmeza inabalável. Ele quis saber sobre o sonho da astrônoma. Ela disse que não passava de uma grande bobagem e, acreditava, não merecia ser contado. O caravaneiro insistiu. Constrangida, ela narrou o pesadelo que tivera. Para a sua surpresa, o caravaneiro inquiriu por mais alguns detalhes. Após ouvir a tudo com atenção, sem hesitar, chamou um dos batedores mais experientes que compunha a segurança da caravana e determinou que se adiantasse para avaliar o perigo. Determinou que os demais aguardassem até a volta dele. Não demorou, o batedor retornou aflito com a informação de que um bando estava escaramuçado no alto de um desfiladeiro, onde a caravana passaria. Imediatamente o caravaneiro optou por uma rota alternativa, mais longa, porém mais segura, dificultando a possibilidade de uma emboscada.
O dia seguiu tenso, com todos os olhos atentos ao horizonte. Ao final da tarde, a caravana parou para montar o acampamento e passarmos a noite. O caravaneiro garantiu que, embora o risco fosse inerente à travessia, o perigo havia diminuído consideravelmente. A sua credibilidade fez com que a tranquilidade voltasse a reinar entre os viajantes. Jantei ao lado da astrônoma, embora tenhamos ficado em silêncio. O caravaneiro se aproximou e agradeceu a ela. Em resposta, a astrônoma disse ter apenas relatado um sonho, nada demais. Confessou que tinha ficado encantada com a coincidência entre o sonho e o fato. O caravaneiro comentou: “O que você chama de coincidência, em verdade, é sincronicidade.” Diante do olhar de espanto dela, acrescentou: “Há mais coisa entre as estrelas e o deserto do que somos capazes de imaginar.” E se foi.
De novo a sós, ela comentou comigo que estava surpresa de o caravaneiro falar em sincronicidade, pois era um conceito polêmico e ainda muito discutido na ciência. Explicou que foi criado pelo psicanalista Carl Jung e serviu de base para Albert Einstein desenvolver a famosa Teoria da Relatividade, com a qual mudou e aperfeiçoou muitos dos conceitos que temos sobre a Física e a Mecânica Quântica, pois mexe de maneira radical, e ainda pouco entendida, com a ideia convencional de espaço e tempo, tornando-os curvos e não mais lineares como estamos acostumados a lidar. Acrescentou que na astronomia esses conceitos, embora cunhados há cerca de um século, continuavam a trazer uma enorme revolução e muita discussão.
Foi quando, então, ouvimos uma voz a atrás de nós: “As realidades são distintas entre as diversas esferas de existência. A realidade daqui se revela uma ilusão vista por outro prisma. Alguns dos novos conceitos para os cientistas já são milenares para os espiritualistas. Em diferentes esferas vibracionais as ideias de espaço e tempo lineares, da maneira como as entendemos como realidade, se tornam relativas. No sono profundo, quando cai o nível de vigília entre o corpo e o espírito, que estão integrados em unicidade, enquanto aquele descansa este viaja a outras esferas de vida, onde o espaço-tempo não existe como o compreendemos. Pode-se ir ao passado e ao futuro; pode-se lembrar ou não. Podem os sonhos ser bons ou ruins, a depender do que foi experenciado. No entanto, é preciso ficar atento, pois nem todo sonho é uma notícia trazida pela alma. O mais comum é se tratar de criações oriundas dos medos e desejos do ego, sempre bem atuante nos sonhos onde não houve, durante o sono, o desprendimento necessário entre o corpo e o espírito.” Era a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Não a tínhamos percebido. A astrônoma se espantou muito; eu, por estar acostumado a essas aparições súbitas, apenas um pouco. Em seguida, a mulher de olhos azuis aprofundou um pouco mais a explicação: “Há outras formas disso acontecer, como por exemplo através de práticas contemplativas como a meditação e a oração profundas. Elas também abrem outras perspectivas, como a de levar a um estado alterado de consciência, no qual, em verdade, se acessa o inconsciente. Neste está guardado o arquivo das memórias ancestrais.”
Ainda sem nos refazer do susto, a mulher disse para a Ingrid: “Os bons espíritos do deserto, aliados ao seu guardião pessoal, a conduziu durante o sono, em outra frequência de tempo e espaço, ao momento em que a caravana sofreria o ataque pelos nômades. Foi um aviso de proteção. Como você não entendeu a seriedade da situação, por não acreditar no canal de comunicação, diante da iminência do perigo, tornaram a avisar, dessa vez ao caravaneiro, quando ele abriu um portal com a prece. A ele, caravaneiro, apenas foi permitido saber que alguém do grupo tinha tomado conhecimento da tragédia que aconteceria com a caravana, sem saber exatamente quem e qual. Até que ele chegou até você e nos foi possível escapar.”
Ingrid sacudiu a cabeça e falou que aquela história de espíritos do deserto e guardiões pessoais era loucura. Pediu desculpas por sua sinceridade, mas o mero acaso entre um sonho e a realidade não eram cientificamente suficientes para mostrar os novos conceitos de espaço-tempo contidos na complexa Teoria da Relatividade. A mulher de olhos azuis deu de ombros e respondeu de modo sereno: “Não tenho a intenção de comprovar teses científicas ou de tentar convencer quem quer que seja sobre a vida como a vejo. Apenas falo da maneira como sinto o universo funcionar, principalmente o que está além do que podemos perceber com os cinco sentidos básicos. Pode ser a verdade ou apenas uma conversa sem valor, mas é o meu olhar. Por favor, não me leve a mal nem precisa me acompanhar. O encanto pela luz não deve ser fruto de uma mera crença, mas do mais puro entendimento.” Fez menção em se retirar, quando a astrônoma, de modo educado, quis saber por que “Deus ou os bons espíritos” a fizeram interlocutora de um assunto tão importante, através do sonho que tivera, diante de tantas pessoas religiosas, se justamente ela, Ingrid, não acreditava em suas existências? A bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “Acreditar é um detalhe de menor importância. O que vale é ter um bom coração.” Fez uma pausa para finalizar: “E o seu coração é enorme. Isto torna segura a ponte para que possam atravessar; isto a torna bem próxima a eles.” E se foi.
Naquela noite, eu e a astrônoma deitamos na areia e ficamos observando o manto de estrelas no céu do deserto. Por um longo tempo não foi dita palavra. Ingrid quebrou o silêncio. Era uma pergunta retórica: “Qual a razão de existir das estrelas?” Por não saber, não respondi. Dormimos ali.
Em seguida, ela quis saber se eu acreditava em Deus. Apropriei-me de uma resposta dada por um alquimista diante da mesma pergunta e respondi que “não é uma questão de acreditar. Eu o sinto”. A simpática astrônoma disse não fazer sentido. Explicou que qualquer divindade era resultado de conjunções psíquicas. A ciência, por tratar da realidade precisava de elementos físicos para a sua compreensão e aceitação. Ou seja, “o que não há na natureza, não existe na vida”. Para ela, Deus era uma ficção como tantas outras. Questionei se ela acreditava em matemática. A astrônoma respondeu que sim. Acrescentou que a matemática era a base da astronomia. Argumentei que a matemática também era um produto psíquico elaborado pela mente humana, pois não encontramos equações em árvores nem cálculos na beira da praia. No entanto, apesar de também ser uma criação cerebral, logo, uma ficção, a matemática tinha a capacidade de explicar a natureza e seus fenômenos. Ela rebateu dizendo que os romances de ficção, meras criações mentais, comprovam a grande capacidade da humanidade em se encantar com ilusões. Deus era somente mais uma dessas narrativas. Falei que as histórias, mesmo as mais antigas, se sustentam em arquétipos que explicam o comportamento padrão das pessoas, seja quanto às suas dificuldades, seja em relação aos seus ideais. Por isto elas, as histórias, emocionavam pela identificação que provocavam. Ingrid perguntou o que Deus tinha a ver com isso. Respondi que todas as pessoas tinham, em graus de desenvolvimento distintos, o padrão de Deus em si, como um arquétipo-mor. Mesmo aqueles que O negam com toda a força do consciente, inconscientemente buscam os valores divinos existentes nas nobres virtudes e no amor disseminados através dos tempos. Dos facínoras aos santos, há o sagrado em todos. Acrescentei que sagrado era tudo aquilo que me tornava uma pessoa melhor e, em essência, a busca de todos. É a percepção e a consequente manifestação de Deus, sempre em movimento dentro de cada indivíduo. Assim, mesmo aqueles que não acreditam, O buscam sem saber. No fundo, todos querem se afastar de círculos viciosos, onde reinam a ignorância, o medo, o egoísmo, a inveja, o orgulho, a vaidade, o ciúme, entre outras sombras, para viver em círculos virtuosos onde se pratica a humildade, a compaixão, a sinceridade, a pureza, a generosidade, a justiça e, principalmente, o amor, como exemplos de muitas outras virtudes. As virtudes são poderosas fontes de luz. Logo, acreditar ou não em Deus, naquele momento da existência, não fazia diferença, desde que o indivíduo incorporasse em si, a cada dia um pouco mais, cada uma das virtudes como ferramentas indispensáveis à luz. Essa era a maneira como nos aproximamos de Deus, sejamos ateus, sejamos religiosos.
A astrônoma argumentou que não sentia a menor vontade de conhecer Deus, embora reconhecesse o valor das virtudes. Expliquei que o aprimoramento das virtudes é o instrumento único da evolução. Muda o mundo na medida das mudanças pessoais; transformar a si mesmo é a possibilidade singular de transformação da vida. A lapidação das virtudes nos torna plenos. A plenitude se completa nos cinco pontos de luz alcançados pelo ser na existência: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor incondicional e a felicidade. Em outras palavras, era o Graal procurado pelos templários, a Pedra Filosofal que fascinava os alquimistas na tentativa de transformar o chumbo da existência no ouro da vida, a Iluminação ensinada pelas tradições filosóficas orientais e também a preparação para o encontro com Deus de que falam as religiões monoteístas. Aperfeiçoarmo-nos em cada uma das virtudes é também o Caminho dos esotéricos. Queira ou não, cedo ou tarde, isso muda a sua percepção sobre Deus por alterar o entendimento quanto ao universo e em relação a si mesmo.
“Tão real, tão ilusório e tão metafísico como o mundo em que vivemos”, se intrometeu na conversa, para a nossa surpresa, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, ao passar por nós montada em seu vigoroso cavalo negro. Olhou-nos por instantes e seguiu adiante.
A caravana parou para a oração diária. Eu fiquei observando o caravaneiro em sua prece. Sempre afastado, ele tinha como ritual, ao ficar de joelhos, desenhar um círculo na areia, para depois se curvar e rezar. Eu não sabia o que significava, mas na primeira oportunidade iria perguntar. As pessoas que não foram rezar aguardaram em respeitoso silêncio.
A astrônoma me puxou para um canto e, em tom de cochicho para não atrapalhar as preces, perguntou se eu acreditava em sonhos. Respondi que o assunto era bem complexo. Variava de meras ilações quanto a desejos e medos do ego no sono raso até mensagens importantes trazidas pela alma, em viagem a outras esferas de existência, quando desprendida do corpo, durante o sono profundo. Ela confessou que naquela noite acordara sobressaltada com um terrível pesadelo. Sonhara que a caravana tinha sido atacada por tribos nômades do deserto. Tudo lhe parecera tão real que não conseguiu voltar a dormir. Deu de ombros e comentou que sonhos eram bobagens, frutos de devaneios do inconsciente.
Em seguida, o caravaneiro, ao terminar a oração, se levantou e olhou com seriedade para todos da caravana, como se procurasse por alguém. Como quem não encontra o que procura, perguntou se alguém sonhara naquela noite. Não um sonho qualquer, mas um sonho extraordinário. Antes que alguém pudesse se manifestar, por puro instinto, apontei para a Ingrid ao meu lado. O caravaneiro a olhou por instantes e se aproximou. Trazia consigo em firmeza inabalável. Ele quis saber sobre o sonho da astrônoma. Ela disse que não passava de uma grande bobagem e, acreditava, não merecia ser contado. O caravaneiro insistiu. Constrangida, ela narrou o pesadelo que tivera. Para a sua surpresa, o caravaneiro inquiriu por mais alguns detalhes. Após ouvir a tudo com atenção, sem hesitar, chamou um dos batedores mais experientes que compunha a segurança da caravana e determinou que se adiantasse para avaliar o perigo. Determinou que os demais aguardassem até a volta dele. Não demorou, o batedor retornou aflito com a informação de que um bando estava escaramuçado no alto de um desfiladeiro, onde a caravana passaria. Imediatamente o caravaneiro optou por uma rota alternativa, mais longa, porém mais segura, dificultando a possibilidade de uma emboscada.
O dia seguiu tenso, com todos os olhos atentos ao horizonte. Ao final da tarde, a caravana parou para montar o acampamento e passarmos a noite. O caravaneiro garantiu que, embora o risco fosse inerente à travessia, o perigo havia diminuído consideravelmente. A sua credibilidade fez com que a tranquilidade voltasse a reinar entre os viajantes. Jantei ao lado da astrônoma, embora tenhamos ficado em silêncio. O caravaneiro se aproximou e agradeceu a ela. Em resposta, a astrônoma disse ter apenas relatado um sonho, nada demais. Confessou que tinha ficado encantada com a coincidência entre o sonho e o fato. O caravaneiro comentou: “O que você chama de coincidência, em verdade, é sincronicidade.” Diante do olhar de espanto dela, acrescentou: “Há mais coisa entre as estrelas e o deserto do que somos capazes de imaginar.” E se foi.
De novo a sós, ela comentou comigo que estava surpresa de o caravaneiro falar em sincronicidade, pois era um conceito polêmico e ainda muito discutido na ciência. Explicou que foi criado pelo psicanalista Carl Jung e serviu de base para Albert Einstein desenvolver a famosa Teoria da Relatividade, com a qual mudou e aperfeiçoou muitos dos conceitos que temos sobre a Física e a Mecânica Quântica, pois mexe de maneira radical, e ainda pouco entendida, com a ideia convencional de espaço e tempo, tornando-os curvos e não mais lineares como estamos acostumados a lidar. Acrescentou que na astronomia esses conceitos, embora cunhados há cerca de um século, continuavam a trazer uma enorme revolução e muita discussão.
Foi quando, então, ouvimos uma voz a atrás de nós: “As realidades são distintas entre as diversas esferas de existência. A realidade daqui se revela uma ilusão vista por outro prisma. Alguns dos novos conceitos para os cientistas já são milenares para os espiritualistas. Em diferentes esferas vibracionais as ideias de espaço e tempo lineares, da maneira como as entendemos como realidade, se tornam relativas. No sono profundo, quando cai o nível de vigília entre o corpo e o espírito, que estão integrados em unicidade, enquanto aquele descansa este viaja a outras esferas de vida, onde o espaço-tempo não existe como o compreendemos. Pode-se ir ao passado e ao futuro; pode-se lembrar ou não. Podem os sonhos ser bons ou ruins, a depender do que foi experenciado. No entanto, é preciso ficar atento, pois nem todo sonho é uma notícia trazida pela alma. O mais comum é se tratar de criações oriundas dos medos e desejos do ego, sempre bem atuante nos sonhos onde não houve, durante o sono, o desprendimento necessário entre o corpo e o espírito.” Era a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Não a tínhamos percebido. A astrônoma se espantou muito; eu, por estar acostumado a essas aparições súbitas, apenas um pouco. Em seguida, a mulher de olhos azuis aprofundou um pouco mais a explicação: “Há outras formas disso acontecer, como por exemplo através de práticas contemplativas como a meditação e a oração profundas. Elas também abrem outras perspectivas, como a de levar a um estado alterado de consciência, no qual, em verdade, se acessa o inconsciente. Neste está guardado o arquivo das memórias ancestrais.”
Ainda sem nos refazer do susto, a mulher disse para a Ingrid: “Os bons espíritos do deserto, aliados ao seu guardião pessoal, a conduziu durante o sono, em outra frequência de tempo e espaço, ao momento em que a caravana sofreria o ataque pelos nômades. Foi um aviso de proteção. Como você não entendeu a seriedade da situação, por não acreditar no canal de comunicação, diante da iminência do perigo, tornaram a avisar, dessa vez ao caravaneiro, quando ele abriu um portal com a prece. A ele, caravaneiro, apenas foi permitido saber que alguém do grupo tinha tomado conhecimento da tragédia que aconteceria com a caravana, sem saber exatamente quem e qual. Até que ele chegou até você e nos foi possível escapar.”
Ingrid sacudiu a cabeça e falou que aquela história de espíritos do deserto e guardiões pessoais era loucura. Pediu desculpas por sua sinceridade, mas o mero acaso entre um sonho e a realidade não eram cientificamente suficientes para mostrar os novos conceitos de espaço-tempo contidos na complexa Teoria da Relatividade. A mulher de olhos azuis deu de ombros e respondeu de modo sereno: “Não tenho a intenção de comprovar teses científicas ou de tentar convencer quem quer que seja sobre a vida como a vejo. Apenas falo da maneira como sinto o universo funcionar, principalmente o que está além do que podemos perceber com os cinco sentidos básicos. Pode ser a verdade ou apenas uma conversa sem valor, mas é o meu olhar. Por favor, não me leve a mal nem precisa me acompanhar. O encanto pela luz não deve ser fruto de uma mera crença, mas do mais puro entendimento.” Fez menção em se retirar, quando a astrônoma, de modo educado, quis saber por que “Deus ou os bons espíritos” a fizeram interlocutora de um assunto tão importante, através do sonho que tivera, diante de tantas pessoas religiosas, se justamente ela, Ingrid, não acreditava em suas existências? A bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “Acreditar é um detalhe de menor importância. O que vale é ter um bom coração.” Fez uma pausa para finalizar: “E o seu coração é enorme. Isto torna segura a ponte para que possam atravessar; isto a torna bem próxima a eles.” E se foi.
Naquela noite, eu e a astrônoma deitamos na areia e ficamos observando o manto de estrelas no céu do deserto. Por um longo tempo não foi dita palavra. Ingrid quebrou o silêncio. Era uma pergunta retórica: “Qual a razão de existir das estrelas?” Por não saber, não respondi. Dormimos ali.
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