Era o penúltimo dia da travessia. Desde muito cedo eu estava de pé. O
céu tinha a tonalidade rosada, típica de quando o sol ainda não venceu a
linha do horizonte. Eu andei com o caravaneiro para um local afastado
do acampamento. Ele avisou que seria o último treinamento antes de
chegarmos ao oásis. Em seguida me passou o falcão. Senti a pressão das
garras em torno da grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo.
Em pensamento, enviei à ave as orientações quanto a ver além dos olhos,
mas, principalmente, quanto à simples alegria de se sentir em pleno voo.
Retirei a touca que lhe cobria a cabeça. O pássaro me olhou por um
breve instante, em seguida fiz o movimento de impulsão e o falcão logo
ganhou altura no céu. Planou em círculos por longos minutos até que
repentinamente recolheu as enormes asas junto ao corpo em posição
aerodinâmica instintiva para um mergulho vertiginoso ao solo. Retornou
com uma serpente em suas garras. O caravaneiro se manteve impassível,
atitude que interpretei como um sinal de aprovação. Sem nada dizer, eu
sorri para mim. Retornamos ao acampamento que despertava. Fui à tenda do
refeitório e me servi de uma caneca com café fresco. Tornei a me
afastar do acampamento. Com os olhos vasculhei os arredores em busca da
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Há dias não
conversávamos. Muitas coisas importantes tinham acontecido. Eu sentia
falta de falar com ela e, principalmente, de ouvi-la. A sua maneira de
pensar era peculiar e interessante. No entanto, não a vi naquela manhã.
Quem se aproximou foi a Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos,
ao lado do Paolo, o seu simpático namorado italiano. Traziam nos rostos a
expressão de encantamento típica dos casais apaixonados. Ofereceram-me
alguns biscoitos para acompanhar o café. Aceitei e os convidei para
sentarem ao meu lado. Acomodados na areia, Ingrid comentou que logo que
chegássemos montaria os telescópios para iniciar os seus estudos sobre a
constelação apenas visível do oásis. Paolo brincou dizendo que ela não
precisava ter pressa, pois as estrelas a esperariam por alguns milhões
anos. Rimos. Em seguida, ele quis saber se eu me considerava pronto para
encontrar com o sábio dervixe. Também brincando, lembrou que, ao
contrário das estrelas, eu não teria tanto tempo para fazer aquilo a que
me propunha. Concordei com ele. Contudo, ponderei que o tempo, embora
fosse um limitador da existência, nunca seria um adversário, a depender
de como nos relacionamos com ele.
Paolo ponderou que não era bem assim. Como era um homem polido, pediu
desculpas antecipadas pelo que falaria, mas lembrou que o encontro com o
dervixe poderia se frustrar por vários motivos. Doença, morte, viagem
inesperada, compromissos urgentes, há situações imponderáveis a impedir a
conversa que eu desejava ter. Então a cansativa viagem se mostraria
improdutiva. Concordei que eu tinha me proposto à travessia em razão dos
enormes conhecimentos sobre as coisas do céu e da terra que o sábio
poderia compartilhar comigo. Era inegável que tal encontro poderia nunca
acontecer. Todavia, cada dia no deserto tinha sido de incomensurável
sabedoria a ponto de não deixar qualquer rastro de perda ou de decepção
se a conversa não fosse possível. “Penso que a caravana foi como um grão
de trigo que a cada dia cresceu em mim. Sinto o grão pronto para se
transformar em pão. Pão que me alimentará e que levarei sempre comigo
para oferecer em todas as demais travessias que vier a fazer. Se eu
encontrar com o dervixe o meu coração ficará em festa; caso contrário,
nada também me faltará. Aprendi a encontrar em mim, quando alinhado à
luz, o suficiente à ceia de cada dia”, argumentei. Em seguida, conclui:
“Somente com a minha permissão os fatos do mundo terão força capaz de
atormentar a minha alma.”
Paolo questionou se não era um olhar arrogante perante mim mesmo. Eu
propus a ele um raciocínio diferente: “Penso que dependerá sempre dos
olhos com os quais eu me perceber. Se eu me enxergar repleto em
sabedoria não passarei de um estúpido a incorrer em antigos erros. Se eu
entender o exato tamanho que tenho me permitirei os novos erros; com
eles a possibilidade dos conhecimentos ainda inimagináveis.” Olhei para a
imensidão do deserto e expliquei: “O que não posso é condicionar a
minha paz ou felicidade aos acontecimentos da caravana ou do oásis. Isto
seria uma concessão indevida sobre a minha vida.”
“A mim cabe a vigilância sobre as minhas escolhas para que sejam
sempre manifestas em virtudes. Ao me iluminar embelezo a caravana e o
oásis. Mesmo que ninguém perceba, o deserto me reconhecerá. Isto me
basta.”
“Um fato pode me desagradar, posso desaprovar determinada atitude
alheia, pode uma escolha não satisfazer a ninguém na caravana ou o
dervixe do oásis não entender as razões que me movem, porém entendo que
isso faz parte de um mundo onde todos estão em processo de aprendizado.
Os equívocos serão inevitáveis. Inclusive os meus. Não raro, erro em
escolhas sobre algo que já conheço. Entretanto, saber não significa ser;
trata-se apenas do passo inicial. Todavia, nada disso pode me
descontrolar, abater ou paralisar. Evito a culpa que aprisiona em função
da dependência que gera. Escolho trabalhar com a responsabilidade
pessoal de fazer diferente e melhor da próxima vez.”
“Este é o único poder que tenho. Contudo, é de uma força
incomensurável; ele muda o mundo por transformar a mim mesmo. Com ele
sou invencível como o pequeno grão de areia que traz a alma do deserto
em si e a manifesta. Esse é o exercício pelo qual tenho a possibilidade
de, a cada dia, me aproximar um pouco mais da imagem e da semelhança de
Deus. Esta é a travessia para luz. A caravana parte todos os dias bem
cedo.”
Aproveitando a metáfora que eu fazia, Paolo lembrou que no deserto há
severas tempestades de areia que costumam fazer enormes estragos às
caravanas. Balancei a cabeça em concordância e disse: “Sem dúvida. As
tempestades movimentam os grãos de areias, soterram algumas caravanas,
porém, passam. O deserto permanece incólume.” Fiz uma pausa para
prosseguir: “Em suma, as tempestades nunca destroem o deserto, apenas
atingem o que está fora dele.”
“Assim, não posso condicionar a plenitude do ser à obtenção de algum
bem material; de algo ou condição externa a mim. Preciso das coisas
concretas para atravessar a existência; todavia, apenas o que é abstrato
interessa à vida. No concreto, o tangível; no abstrato, a verdade.
Logo, não preciso esperar o acontecimento de algum fato, seja na
caravana, seja no oásis, para viver a felicidade, em paz, com liberdade,
dignidade e amor.”
“Se eu viver cada dia na dependência do que ainda não tenho ou na
espera de alguma realização – além das minhas próprias transmutações – o
tempo será em vão; as tempestades se comportarão com uma fúria
destruidora. A mais terrível das tempestades, quando bem aproveitada,
somente servirá para impulsionar o pequeno grão de areia para longe, a
um ponto ainda inimaginável, além de fantástico. Há muitos recantos no
deserto, longe dos oásis, com impensadas maneiras de ser e viver.” Olhei
para o horizonte e conclui: “Faça a travessia, aproveite a caravana, se
divirta no oásis; mas seja o grão de areia que é parte do deserto e,
por isto, traz em si todo o poder do deserto.”
Estava na hora de partirmos. A Ingrid falou para o Paolo realizar
aquele trecho da travessia ao meu lado para continuarmos a conversa. Ela
aproveitaria para seguir a marcha ao lado do astrólogo com quem gostava
de discutir sobre as estrelas. Brincou ao dizer que astrônomos gostavam
de conversar sobre o céu com os astrólogos, apesar de não concordarem
em quase nada. Rimos. Deu um beijo no namorado e se foi. O italiano
emparelhou o seu camelo ao meu. Partimos. Passados alguns minutos, Paolo
pediu para eu explicar melhor a teoria sobre qual eu me referia.
Ofereci o melhor que pude: “Existem muitos tipos de vícios. Drogas e
jogos de azar são os mais comuns por serem os mais visíveis pelos
estragos aparentes que proporcionam. No entanto, há outros, talvez mais
perigosos, por serem de sofisticada percepção, não nos permitem entender
a dependência que nos aprisiona.” Citei uma frase conhecida na Ordem
Esotérica dos Monges da Montanha da qual eu era membro: “‘A pior prisão é
aquela que não tem grades.’” Em seguida, prossegui: “Quem não se
percebe preso não sente falta da liberdade. Não esqueçamos que as únicas
grades que têm força para nos manter cativos são aquelas que nós
próprios criamos ou permitimos que nos imponham. São todas meramente
conceituais, frutos da ignorância e do atavismo dominador. As grades de
ferro podem conter um corpo; jamais uma alma livre. As grades
intelectuais, emocionais e espirituais mantêm uma alma cativa por
milênios. Por exemplo, ‘apenas serei feliz se fulano agir de determinada
maneira; se beltrano aprovar a minha escolha’ são situações comuns e
desnecessárias. Em verdade, nocivas. Mas há outras subespécies que
condicionam a felicidade à conquista de um diploma, à compra de uma casa
ou à realização de uma viagem. Não que haja algo de errado em querer um
diploma, uma casa ou em fazer uma viagem. O que não pode é ficar na
dependência da ocorrência de um fato externo para viver a leveza da
plenitude apenas possível no âmago do ser.”
“Assim acontece com a paz. Aguardamos que alguém faça algum movimento
para que alcancemos a sonhada paz. Preciso do consentimento de fulano
para que os dias sejam serenos; necessito da aceitação de beltrano para
que a vida se pacifique em mim. Mentiras a nos enganar, as quais
repetimos para nós mesmos todos os dias! Não passam de dependências;
como tais, todas inúteis. Não é diferente com a dignidade. Nada além do
que há em mim a impede. Para ser digno basta que eu trate os outros como
gosto que me tratem. Nada mais é necessário. Não há nada a se esperar,
em absoluto; é uma simples escolha. Como as demais plenitudes, depende
somente da maneira como irei me relacionar comigo mesmo.”
O italiano me interrompeu para saber quais eram as plenitudes de que
eu tanto falava. Eu lhe disse: “A plenitude total é composta das cinco
plenitudes básicas: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor
incondicional e a felicidade. Nenhuma delas reside em qualquer fato
externo a você. Todas estão em sementes no âmago de cada pessoa. Fazer
com que floresçam é o sentido da vida.”
Ao longe, à frente da caravana, vi o caravaneiro cavalgando sobre o
seu cavalo branco levando o imponente falcão sobre as grossas luvas de
couro que usava no braço esquerdo. A imagem me lembrou do ensinamento e
serviu de inspiração: “Nada do que existe ou acontece além do falcão
pode impedir a beleza do seu voo. Não importa a caça ou o clima; vale a
leveza de voar e a verdade oculta além dos olhos.”
Paolo me perguntou como tornar as plenitudes uma realidade. Respondi
sem titubear: “Através das escolhas. Tão e somente. A plenitude é o céu
azul; as virtudes são as asas do falcão.”
O italiano quis saber de quais virtudes eu me referia. Especifiquei:
“Humildade, simplicidade, compaixão, sinceridade, generosidade,
delicadeza, firmeza, mansidão, honestidade, coragem, pureza, justiça,
misericórdia, alegria, fé, entre algumas outras. Todas tendo o amor como
o vento que lhes sustentam o voo.”
“Os nossos relacionamentos e os fatos do mundo são alimentos ou são
venenos à medida da capacidade do falcão em lidar com o quanto do
deserto já consegue sobrevoar e enxergar.”
Paolo lembrou das doenças e da morte como fatores impeditivos à
plenitude. Tornei a oferecer outro olhar: “As doenças são cármicas, logo
estão ligadas ao nosso aprendizado. Podem nos falar sobre as
existências passadas; nestes casos as trazemos como herança hereditária.
Outras estão em sintonia à existência atual. São situações que nos
abalaram emocionalmente e não restaram devidamente absorvidas na
essência do ser. Na busca incessante por pureza e cura a alma expurga
aquilo que a intoxica. Pode ser em agressividade ou depressão; as
chamadas ‘feridas da alma’. Pode, de outro lado, desencadear o
funcionamento deficiente de algum órgão ou mesmo um tumor; as
denominadas ‘enfermidades do corpo’. Para uma pessoa desatenta será uma
desgraça sem precedentes. Para o indivíduo conectado à evolução será uma
maravilhosa oportunidade de aprendizado e superação. Ainda que haja
sequelas ou o perecimento físico haverá a cura do espírito, a
quintessência do ser, desde, é claro, que ele tenha encontrado o mestre
oculto que traz a lição inerente àquela dificuldade. As doenças das
existências têm por finalidade nos conduzir à cura para a vida.”
“A morte do corpo, por sua vez, embora seja uma certeza
incontestável, permanece incompreendida. A morte, em verdade, é um ato
de amor do universo pela vida.” De amor? Paolo estranhou. Tentei
explicar: “Um gesto de amor por cada um de nós, pela possibilidade de
prosseguir no processo evolutivo em renovadas condições. Quando assim
entendemos, o tempo finito da existência se torna ato de profunda
sabedoria nos impulsionando à infinitude da luz. Então, podemos abraçar o
tempo como fazemos a um amigo.”
“Se eu viver cada dia como uma fonte inesgotável de virtudes, sejam
nas manhãs aconchegantes de sol, sejam nas noites frias de inverno, o
tempo se mostrará como um animado mestre de cerimônias quando me
informar que o show terminou. Sem dúvida o espetáculo valerá tanto o
preço da luta cobrado pela existência quanto o valor da luz ensinado
pela vida.”
Veio a ordem para a caravana parar para o habitual descanso breve e
uma refeição ligeira. Apeamos dos camelos. A Ingrid veio ver como o
namorado estava. Paolo disse que estava bem. Ela trouxe um cantil com
água e algumas tâmaras desidratadas. Bebemos e comemos em silêncio.
Quando a marcha foi retomada, Ingrid se afastou. Tornamos a emparelhar
as montarias e o italiano pediu que eu me alongasse no assunto:
Prossegui: “Aproveitar em cada dia a possibilidade de se conhecer um
pouco mais, de tentar algo diferente, de fazer um pouco melhor do que
antes; eis a magia da vida. Em todos os dias portas se abrem a outros
patamares da existência na oportunidade de realizar em si algo não
tentado até então. As escolhas aparentemente impossíveis através de
olhares impensados. Quando nos permitimos essa possibilidade acabamos
por descobrir que podemos ir mais; que podemos ver além dos olhos; que
podemos voar mais alto. Que podemos ser o mestre e o aprendiz; o
falcoeiro e o falcão. Isto, de modo inevitável, se refletirá no mundo.
Na transformação do ser está a fortuna da existência, a riqueza da
evolução, a revolução do mundo, a nossa herança ao planeta. Quando
vivemos assim não resta vício nem vazio. Todo o momento importa, cada
acontecimento agrega valor pelo aprendizado que traz. Nada falta nem
excede; quando completos transbordamos para a vida.”
“Assim os alquimistas transformam o chumbo em ouro.”
“Não importa o que aconteça no mundo; o importante é aquilo que no
mundo aconteceu e teve força de transformação íntima. A história de uma
pessoa não se narra pelos seus atos heroicos mundo afora, mas pelos
fatos que o levaram a transmutar a si mesmo universo adentro.” Calei-me
por alguns instantes antes de prosseguir: “A lição é para todos;
contudo, o aprendizado é pessoal. A exata dimensão do mundo está na
medida da compreensão de si próprio; daquilo que o envolve e o
impulsiona. Assim funciona a consciência a nos moldar a realidade.”
“Aprender, transmutar, compartilhar e seguir, estes são os quatro
capítulos do manual de cada dia no deserto. Esta é a grande lição da
caravana; também é o poder incomensurável do viajante. Um poder que se
expande ou se encolhe nas réguas das virtudes aplicadas. Toda a luz
apenas começa a iluminar quando aprendemos a acender o próprio fogo.
Depois cabe continuar alimentando a chama; aos poucos, o entorno irá se
clarear em alcances cada vez maiores. Qualquer coisa além disso não se
se faz necessária; é mera peça de decoração.”
Paolo argumentou que lamentavelmente quase nunca conseguimos realizar
tudo o que projetamos. Tentei mostrar a ele outro olhar: “Se olharmos
apenas o quanto ainda não realizamos sempre restará uma frustração pela
infinitude do todo em si. Qualquer realização no mundo está vinculada a
acidentes extrínsecos, ou seja, dependem muitas vezes de fatores alheios
à sua vontade. Assim, não há porque sofrer se o efeito está, em parte,
desvinculado ao esforço dedicado. Vale o aprendizado, a transformação, o
compartilhamento e prosseguimento da travessia sem fim; infinito é o
deserto. Entretanto, se nos alegrarmos em fazer o melhor dentro do
oferecido a cada dia teremos uma diferente e pequena parte do todo
acrescida a nós diariamente. Nada será em vão ou restará desperdiçado.
Nenhuma decepção, apenas a alegria da serena plenitude.”
O italiano não disse mais palavra. Ele precisava de silêncio para
alocar aquelas ideias em si; aproveitar as que julgasse úteis e
descartar aquelas que acreditasse desnecessárias. As ideias são
sazonais; algumas se apresentam em tamanha perfeição por já estarem
maduras, outras não prestam ou ainda não estamos prontos para elas.
Seguimos calados por incontáveis minutos. Quando nos demos conta,
entardecia. Chegou a ordem para a caravana parar e montar o acampamento.
Era a última noite. Afastei-me para, em oração, agradecer ao deserto
por aquela travessia. Não havia faltado nem luz nem proteção. A quietude
foi interrompida por Paolo. O italiano retornou para questionar sobre
uma das plenitudes, o amor incondicional. Lembrou que eu havia falado da
liberdade, da paz, da dignidade e da felicidade. Nem uma palavra sobre o
amor. Ele acrescentou da importância do amor em nossas vidas, em como a
ausência de amor nos impede a uma existência plena. Tive uma estranha
sensação, pois, de alguma maneira, eu esperava que o Paolo voltasse com
essa questão. Embora estranha, era uma sensação boa. Sorri para mim;
sorri para ele. Em seguida, abordei o tema: “O amor é a virtude mais
sofisticada que existe, pois, para ser alcançada necessita de todas as
demais virtudes a lhe sustentar. Apesar disto, o amor é essencial a cada
virtude isolada.” Paolo me interrompeu para dizer que aquilo era um
paradoxo. Eu expliquei: “Todo paradoxo é apenas aparente. Cada virtude
se move e se orienta através de um impulso próprio de amor. Todas juntas
se manifestam em magnitude máxima, o amor em forma de pura luz. A
iluminação cósmica.” Para melhor compreensão usei uma analogia: “As
virtudes são como as pétalas de uma flor. O amor é o miolo que as
sustentam. Sem o miolo as pétalas perecem; sem as pétalas não há flor.
Esta flor se chama luz.” O italiano quis saber seu eu me referia ao amor
incondicional. Ponderei: “Amor incondicional, em verdade, é um
pleonasmo. Todo amor, para assim ser, é incondicional por definição e
pressuposto. O amor não impõe condições, não se sujeita às reações, não
cobra taxas nem deixa dívidas. Não é credor, tampouco cria devedores.”
Paolo tornou a interromper para falar que era muito triste ver pessoas
que não conheciam o amor por nunca terem encontrado alguém que as
amassem. Acrescentou que ele tinha muita sorte por ter o amor da Ingrid.
Eu fiz as correções que entendia cabíveis: “O amor que você recebe da
Ingrid não é seu; é dela. Tanto que ela pode decidir por nada mais lhe
oferecer. Então, nada restará. Em verdade, o amor que você tem é tão e
somente o amor que você compartilha. Este nasce em você. Com isto você
pode dimensionar, orientar e sustentar a própria vida. Assim, nada
faltará.”
“Não haverá dependências externas nem existirá sofrimento pelas
escolhas alheias. Apenas liberdade, dignidade, felicidade e paz oriundas
do amor cuja a fonte inesgotável é o próprio coração.”
“Esperar pelo amor dos outros é o dilema do amor; o equívoco na arte de amar. Raiz-mor de todas as dependências e sofrimentos.”
Mais uma vez fui interrompido. Desta vez pela Ingrid. A astrônoma
veio buscar o namorado para jantar. Antes de ir, o italiano apertou a
minha mão e me agradeceu pelos ensinamentos daquele dia. Eles se
afastaram. Sozinho, me percebi na outra ponta de onde eu sempre
estivera. Lembrei da inúmeras conversas que tivera com aqueles com os
quais eu considerava os meus mestres. O Velho, o Loureiro, o Canção
Estrelada e o Li Tzu formavam o quarteto mágico a me indicar as inúmeras
maneiras para eu encontrar o meu jeito pessoal de acender a minha
própria luz, sem precisar da luz alheia a me iluminar nas noites comuns
ao Caminho. Ou à travessia.
Não! Afastei a ideia da mente. Eu gostava da prática de ter os
mestres, não para decidir por mim – este é o papel odioso dos gurus que
geram tantos vícios emocionais, intelectuais e espirituais ao afundar os
seguidores em crises existenciais. Prometi a mim mesmo que jamais me
permitiria tamanho ardil – mas para indicar diferentes possibilidades de
olhares e de escolhas. Eu nunca me consideraria um mestre nem teria
qualquer aprendiz; uma ideia que eu afastava com sincera repulsa. Fiquei
mais algum tempo envolto em meus pensamentos quando o caravaneiro se
aproximou com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no
braço esquerdo. Comentei que ele dissera que o treino da manhã teria
sido o último da travessia. Ele nada disse, apenas fez um sinal para
acompanhá-lo. Afastamo-nos um pouco mais. De pé ao seu lado, vi o
caravaneiro falar ao pássaro, em pensamento. Por instantes, achei que
tivesse ouvido as palavras não ditas. Quando ele tirou a touca, a ave
olhou para mim e, em seguida, para o caravaneiro. Era como se estivesse
agradecendo. E se despedindo.
Com o impulso do braço o falcão ganhou altura. Dessa vez não planou
em círculos. Voou para longe, para além da última duna, para um lugar no
céu onde os meus olhos não conseguiam enxergar. De uma maneira que não
saberia explicar, eu não me surpreendi, assim como eu tinha certeza de
que nunca mais veria aquele falcão. Ao contrário do que eu mesmo
acreditaria até então, me alegrei por isto.
O caravaneiro comentou como se falasse consigo: “A leveza de
conquistar sem possuir”. Houve uma rápida troca de olhares entre nós. Um
entendimento profundo, difícil de ser medido em palavras. Sorri para o
deserto.
O caravaneiro enterrou a sua grossa luva de couro nas areias do
deserto. Entendi que ele não mais a usaria. Aquela missão terminara. Fiz
menção em fazer o mesmo com a minha luva. Ele me olhou nos olhos,
sacudiu a cabeça para que eu não fizesse o mesmo e avisou: “A sua missão
começa aqui.” Em seguida, retornou ao acampamento. Preferi ficar a sós
com o silêncio e a quietude. Passado algum tempo, senti saudade da bela
mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, das conversas que tínhamos.
Há dias eu não falava com ela. Ela não apareceu naquela noite. Em sua
homenagem decidi subir uma enorme duna que tinha à minha frente. Ela
gostava de bailar no alto das dunas, de se sentir próxima às estrelas
quando queria entrar em comunhão com o deserto. Escalei a duna. Lá de
cima, bem ao fundo, me foi possível avistar o oásis.
Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence.
quarta-feira, 10 de junho de 2020
O trigésimo-oitavo dia da travessia – o motim
Como todo aprendiz dedicado, eu já aguardava o caravaneiro quando ele
chegou com o falcão para o treinamento matinal. Era muito cedo, o
acampamento despertava. Ter sido convidado para aprender a arte da
falcoaria muito me animava. Contudo, era preciso honrar o convite; em
dois dias, sob o meu comando, o falcão voltara sem nenhuma presa. Isto
me preocupava. Vesti a grossa luva de couro, presente do caravaneiro, e
recebi o pássaro. Senti a força das garras do pássaro de rapina no meu
braço esquerdo. Avaliei o quão difícil seria para um animal de pequeno
porte escapar daquele predador. Conforme o caravaneiro tinha me
ensinado, e demonstrado, me aproximei do falcão para transmitir em
pensamento as orientações para a caçada daquele dia. Sem dizer palavra,
falei para ele ver além dos olhos para que pudesse encontrar as presas
escondidas além das aparências do deserto. Retirei a touca que cobria a
cabeça da ave; ela manteve o olhar fixo para frente. Em seguida, a
impulsionei com o braço. O falcão ganhou os céus. Planou em círculos por
longos minutos; momentos de muita ansiedade para mim e absoluta
serenidade para o caravaneiro. Quando retornou ao meu braço não trazia
nenhuma caça. Mais uma vez. Aguardei algum comentário do caravaneiro,
mas ele nada disse a respeito. Apenas falou para retornamos ao
acampamento, pois estava na hora de arrumarmos as nossas coisas para a
caravana seguir para mais um dia da travessia. Comentei que estava
chateado com o fato de o falcão ainda não ter tido sucesso em nenhuma
caçada sob o meu comando. O caravaneiro disse: “Você está preocupado com
a glória do caçador, por consequência, a sua. Esta é a razão do falcão
não encontrar nada.” Fez uma pausa antes de explicar, ao seu estilo, de
modo enigmático: “Esqueça a caça e se concentre em viver o mecanismo da
busca. Então, toda a procura irá se revelar. O troféu não é a presa, mas
o perfeito voo.”
Andávamos lado a lado, já bem próximos ao acampamento, eu estava para comentar que não via a mulher com olhos da cor de lápis-lazúli há dois dias, quando notamos uma enorme confusão. Liderados por Omar e Jamil, um pequeno grupo formado por alguns encarregados amotinados mantinha sob a mira de armas os outros encarregados, além dos demais viajantes da caravana. Eles ameaçavam matar sumariamente quem os desobedecesse. Omar e Jamil tinham personalidades distintas. Enquanto Omar era calado e carrancudo, Jamil era falante e popular. Omar nos apontou o rifle quando nos aproximamos. Foi Jamil quem fez a ameaça verbal. Disse que se houvesse reação teríamos uma tragédia. Acrescentou que estavam insatisfeitos com o comando do caravaneiro, pela divisão dos lucros provenientes da caravana. O caravaneiro, sem demonstrar qualquer resquício de nervosismo e nenhuma pressa, passou o falcão para mim. Somente depois se manifestou. A sua voz era clara, mansa e sem medo: “Todas as condições foram expostas antes de a caravana partir. Ofereci o que considero justo. Ninguém foi obrigado a aceitar ou a vir. Quem o fez deve honrar o compromisso ou tem a opção de se desligar dos serviços da caravana. Pode retornar, seguir para o oásis, não mais como encarregado, mas na condição de viajante ou, ainda, partir para onde desejar.” Fez uma breve pausa para prosseguir: “Ninguém precisa fazer aquilo que não concorda. Apenas não pode, através da violência, obrigar os outros a fazer o que não querem ou subtrair os seus pertences.”
Jamil disse que os encarregados se sentiam explorados e maltratados. Aquela era a revolta dos oprimidos, bradou. O caravaneiro ponderou: “As condições do deserto são muito inóspitas; a travessia pode se frustrar a qualquer erro. Cabe a mim manter a ordem e a harmonia na caravana. Estamos a três dias de chegar ao oásis. Lá encontraremos um tribunal com magistrados afeitos às leis do deserto. Os insatisfeitos podem propor as reparações que considerarem devidas. No entanto, eu os alerto, pelas leis do deserto todo caravaneiro tem direito absoluto sobre a caravana; as dificuldades encontradas no deserto exigem firmeza sob o risco de a travessia não se completar. Em contrapartida, todo caravaneiro tem o compromisso de oferecer a própria vida para levá-la em segurança até o destino. Assim são as leis do deserto. Todos aqui foram avisados das regras antes de a caravana partir.” Olhou nos olhos de cada rebelde e sibilou: “Isso não é uma insurreição. Em verdade, não passa de coação e um roubo vulgar.”
O caravaneiro avisou a eles que o tribunal do deserto seria implacável quando chegássemos ao oásis. Todavia, concederia o perdão se desistissem espontaneamente do crime que cometiam. O circunspecto Omar, que se mantivera calado, tomou a frente para dizer que era tarde demais para o arrependimento. Acrescentou que não eram ingênuos a ponto de se dirigirem para o oásis, onde sabiam que encontrariam olhares de censura. Mudariam de rumo em sentido a uma aldeia tuaregue a menos de um dia de marcha. O líder dos aldeões aguardava a caravana. Lá, sim, todos seriam julgados. O caravaneiro arqueou os lábios em leve sorriso, como se já esperasse a malícia de Omar e disse: “Um julgamento, para ter a dignidade de assim se denominar, pressupõe uma análise honesta dos fatos, uma defesa ampla em possibilidades e uma decisão descompromissada de quaisquer interesses alheios à verdadeira justiça. Caso contrário, nessa aldeia encontraremos somente a divisão do butim e a retórica tortuosa para justificar os lucros da pilhagem.”
O caravaneiro não opôs reação quando as suas mãos foram amarradas. Omar tentou seguir no cavalo branco do caravaneiro, no entanto, o animal, aparentemente dócil, não permitiu outra montaria. Vigiado de perto pelo mal-humorado Omar, o caravaneiro seguiu a pé, ao lado do cavalo e dos demais encarregados leais a ele. Jamil garantiu a todos da caravana que, se não criassem problemas, seriam liberados após o julgamento na aldeia. Nada falou sobre a destinação dos seus bens e pertences. Os encarregados rebeldes seguiram ao lado da caravana com as suas armas apontadas de modo ameaçador para os demais viajantes montados em seus camelos. Eu fiz questão de ir junto ao caravaneiro, embora Jamil dissesse que não era necessário. Insisti. Eles riram, porém, permitiram. Segui a pé, embora desamarrado nas mãos. Na avaliação deles eu não oferecia perigo. O caravaneiro sorriu com os olhos para mim. Em suas feições não se encontrava um único traço de ódio, apenas serenidade e atenção. Passado algum tempo que andávamos, comentei com ele que me surpreendia com tamanha tranquilidade. O caravaneiro disse: “Não tenho controle sobre as tempestades do mundo, mas tenho total domínio para que elas não alcancem o meu coração.” Fez uma pausa e acrescentou: “No mais, o momento envolve muito perigo e atenção. Preciso da mente clara para as decisões exatas em tempo e conteúdo, sem as interferências sombrias de um coração afogado em ódio.”
Assim como quase todos na caravana, eu estava com medo. Eu percebia medo até mesmo nos homens insurgentes e armados. Perguntei se o caravaneiro não sentia nem mesmo uma ponta de medo. Ele disse com sincera humildade: “A hora do medo passou. O momento é de coragem, esperança e fé.”
Ele tinha razão. Para isso servem as virtudes. Qualquer aprendizado apenas faz sentido se aplicado às situações do cotidiano; o conhecimento precisa de exercício para se transformar em sabedoria. Estamos condicionados a sentir medo diante das dificuldades que se apresentam. Contudo, o medo, por se tratar de uma sombra, é um fator ocultador das virtudes, das boas ideias e melhores escolhas. O medo ofusca a manifestação da luz. Diante disto, me esforcei para dominar as minhas emoções nos trilhos das palavras do caravaneiro. Aos poucos também me acalmei, comecei a raciocinar melhor e a percepção se mostrou mais apurada. Foi quando me dei conta de que eu não tinha visto a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Vasculhei com os olhos por toda a caravana sem o menor sinal dela. Perguntei ao caravaneiro se ele a tinha visto. Ele apenas sacudiu a cabeça em negativa. Por uma fração de segundo, achei que a vira montada em seu vigoroso cavalo negro, o Vento, observando a caravana no alto de uma duna distante. Forcei os olhos, não havia nada. Considerei que não passara de uma miragem típica do deserto.
Seguimos por mais algumas horas. A habitual parada no meio do dia foi desautorizada por Omar, embora Jamil a desejasse. O insurgente carrancudo insistiu em apressar a chegada até a aldeia. Houve uma breve discussão; a vontade de Omar em seguir parecia que prevaleceria, quando o caravaneiro se intrometeu para dizer que era preciso parar. Ponderou que na caravana havia pessoas mais velhas e outras que não estavam bem de saúde. A parada seria providencial. Omar argumentou que por vários dias a caravana seguiu direto sem qualquer descanso. O caravaneiro, com a fala pausada e tranquila, explicou que aquele não era um dia comum. A tensão corrói a resistência física, explicou. Omar tornou a negar. O caravaneiro disse que não daria mais um passo. Sentou-se na areia. Diante do espanto geral, um gesto de rebeldia dentro da insurreição.
Omar apontou a espingarda para a cabeça do caravaneiro. O ameaçou de morte se ele não se levantasse de imediato. O caravaneiro apenas o olhou profundamente nos olhos. Não disse palavra nem se levantou. Neste instante, tomado por uma estranha calma, proveniente de uma convicção profunda eivada no âmago da minha alma, também me sentei. Em seguida, os encarregados leais ao caravaneiro também se sentaram, mesmo com as ameaças escalando tons. Um a um, todos os demais viajantes se acomodaram pelas areias do deserto. De pé apenas os insurgentes diante daqueles que se insurgiam face a insurreição inicial.
Jamil ameaçou matar a todos caso continuassem a desobedecer. Ele estava visivelmente descontrolado. Ninguém se manifestou. Jamil estava frente a um impasse. Para valer a sua autoridade teria que tomar uma atitude que demonstrasse, de forma inequívoca, o seu poder. No entanto, assassinar toda a caravana no meio do deserto seria uma atitude tão extrema que, em verdade, mostraria a sua fraqueza e inabilidade em lidar com a situação. Jamil sabia que restaria desmoralizado perante a aldeia de tuaregues da qual dependiam de apoio. Liderança e autoridade são conceitos distintos. A liderança brota do bom exemplo; a autoridade surge em razão da lei ou da força bruta. O caravaneiro era um líder por causa das leis do deserto, mas também pela admiração que as suas atitudes geraram perante a caravana; Omar e Jamil não passavam de pessoas autoritárias que se impunham diante do pavor que provocavam. Contudo, a violência, à régua da exacerbação, demonstra sempre descontrole, medo e ignorância. Com a resiliência à medida da ética pessoal, todos, sem exceção, têm um código de conduta no qual estabelecem limite ao mal. Com os tuaregues não era diferente; dificilmente compactuariam com um extermínio insensato envolvendo pessoas comuns e indefesas. O deserto era um solo sagrado para esse povo. No entanto, diante de um desatino qualquer, o risco que corríamos era enorme e todos estavam cientes disto. Alguns, no entanto, percebiam algo além; sabiam estar na fronteira entre a tragédia e a redenção.
Fez-se um silêncio, ao mesmo tempo, abismal e celestial; de sepulcro e de vida em botão. Instantes que pareceram demorar uma eternidade. Os próximos movimentos definiriam as sombras ou a luz daquele dia.
Foi quando Kalil, o bom homem do chá, uma pessoa sábia com quem eu tinha aprendido muito sobre a alma do mundo, além do valor da simplicidade e da humildade, se levantou, disse que iria colocar algumas ervas em infusão e perguntou se alguém estava servido. Diante da tensão e do inusitado, todos riram. Menos Jamil e, principalmente, Omar. Este, irritado, pegou o homem do chá pelo braço, encostou a arma na sua cabeça e ameaçou que o mataria se todos não se levantassem de imediato e reiniciassem a marcha. Disse, ainda, que mataria um por vez até que fosse obedecido. Ninguém se levantou, exceto o caravaneiro. Não para obedecer a ordem de Omar, porém para aconselhar: “Cortar a cabeça é o modo mais eficaz para se matar um animal. Mate a mim e terá todo o corpo da caravana à disposição.”
Omar ficou atônito. Ele não tinha se programado para aquelas reações. Em sua cabeça o roteiro daquele dia teria de narrar uma história bem diferente, uma narrativa na qual o horror imporia a submissão. Tudo parecia fora de controle. Mais por instinto do que por raciocínio, Omar empurrou o homem do chá para o chão, apontou a arma para o caravaneiro e mandou que se aproximasse. Este, em resposta, foi monossilábico e desafiador: “Não.” Ele não faria qualquer movimento para facilitar o trabalho do carrasco; era ousadia, coragem e fé, jamais um suicídio.
Um tiro.
O barulho me fez fechar os olhos. Ouvi alguns gritos de susto e pavor. Quando reabri os olhos me surpreendi com as feições de surpresa no rosto de Omar. Virei-me para a direção aonde o seu olhar assustado se dirigia. Então, entendi. O tiro não tinha saído da arma de Omar nem de ninguém da caravana. Tinha sido um tiro dado para o alto, disparado pelo líder dos tuaregues de cima de uma duna não muito distante. Ladeado por seu bando, ele se aproximou.
Como o inesperado não se cansava de se fazer presente naquele dia, cavalgando altiva com o seu vigoroso cavalo negro por entre o bando, estava ela. Sim, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Omar e Jamil se mostraram servis diante de Ali, o chefe tuaregue. Jamil, de pronto, ofereceu a sua versão dos fatos. Falou que o caravaneiro era um homem impiedoso e injusto. Era também insensível e explorava a todos na caravana, cobrando valores abusivos pela travessia. Como se não bastasse, extorquia os encarregados, os remunerando com um salário miserável. Ali era um homem de poucas palavras, mas a situação parecia inspiradora. Ele disse: “Essa foi a história que Omar me contou quando, há meses, me procurou pedindo por apoio para interceptar a caravana. No entanto, não é isto que vejo. Tampouco esta é a história que essa mulher me contou” e apontou para a mulher de olhos azuis. O chefe tuaregue prosseguiu: “Omar também não me falou que o caravaneiro em questão era este.” Com o queixo apontou para o homem sereno que estava de pé, com as mãos amarradas, ao meu lado. Ali continuou: “Eu o conheço. Esse caravaneiro é um homem de lei. Ele segue as leis do deserto. Leis que o povo tuaregue também está sujeito, assim como todo ser vivo que habita ou atravessa essas areias desde tempos imemoriais.”
“Somos selvagens porque não nos submetemos a ninguém, salvo as leis do deserto. As leis permitem justiça, jamais roubo. Habitamos o deserto desde que no mundo se fez vida. Cobramos pedágios daqueles que atravessam os nossos domínios sagrados. Mas não somos ladrões. Nos fazemos firmes com aqueles que acreditam que não precisam de autorização e respeito para atravessar o deserto. Também aplicamos a justiça aos moldes da lei e de nossa consciência. Todavia, somos doces com aqueles que merecem o mel da vida.” Olhou para a caravaneiro e quis saber se era verdadeira a história contada por Jamil e Omar. O caravaneiro tornou a dar uma resposta monossilábica: “Não.” Inesperadamente, acrescentou: “No entanto, para todo fato existe no mínimo duas versões.” Fez uma pausa proposital para acrescentar: “Além da verdade” Deu de ombros e concluiu: “Fique à vontade para apurar.”
O chefe tuaregue sorriu diante da honestidade que beirava o atrevimento. Eu tinha aprendido durante aquela travessia que a verdade sempre protege; a alma do mundo ama a verdade. Ali apeou do camelo, se aproximou do caravaneiro, puxou um punhal da cinta de sua túnica e cortou as cordas que amarravam as mãos do caravaneiro. Houve uma troca de olhares significativa entre os dois. Disse que a partir daquele ponto faria a vigília da caravana até o oásis. Acrescentou que estávamos em território tuaregue e a nossa segurança estava assegurada. Em seguida, perguntou o que o caravaneiro faria com os rebeldes. O caravaneiro não hesitou: “Eles ficarão. Serão julgados pelo seu povo de acordo com as leis do deserto. Que seja uma sentença de caráter educativo para que vir permeada em justiça; nenhuma vingança é desejada nem acolhida pelo deserto.”
Sem demora a caravana retomou a travessia. Sobre o meu camelo, no meio da grande fila, avistei, bem à frente, a mulher de olhos azuis cavalgando ao lado do caravaneiro. Havia um grande burburinho durante a marcha daquele dia. Todos conversavam sobre a aventura e as emoções sentidas. Aos poucos fui deixando que outros passassem por mim. Quis ficar na rabeira da fila, sozinho, para alocar os sentimentos e concatenar as ideias de tudo que me foi permitido viver. Todos os dias um mestre nos aguarda com uma nova lição. Aos poucos o mestre daquele dia se fazia visível e a lição ficava inteligível.
Considerei várias hipóteses e fiz muitas reflexões. Talvez o caravaneiro tivesse percebido o movimento insurgente antes de eclodir. Isto explicaria o sumiço da mulher de olhos azuis que partira em busca de apoio junto aos tuaregues, fazendo-os entender a justiça dos fatos. Pensei também no comportamento do caravaneiro; do risco que se permitira correr no limite das consequências entre o mal e o bem. Eu tentava entender como, mesmo diante da possibilidade de o pior acontecer, ele se manteve com inabalável serenidade; como se nada nem ninguém pudessem atingir a sua alma.
Pensei por muitas horas até clarear o raciocínio. O risco é inerente à vida. Tudo poderia ter dado errado; seria uma tragédia. De outro lado, os acontecimentos se desenvolveram de maneira favorável. Como o caravaneiro se movia em prol da luz, por consequência teria a proteção do deserto. Isto é uma lei. Mesmo assim algo poderia ter se mostrado desastroso naquele dia? Sem dúvida. Porém, apenas na aparência. As manifestações de amor, sabedoria e justiça do deserto nem sempre são de fácil entendimento.
Contudo, como se manter firme e sereno diante de um final indesejado? A resposta era de uma simplicidade absurda: A tristeza tem a sua raiz nas frustrações e decepções. Isto somente acontece quando vivemos em busca das recompensas da existência. O caravaneiro não vivia em busca dos prêmios; ele apenas se empenhava em fazer a coisa certa. Tão e somente. Isto o tornava pleno; livre, digno e em paz. Daí brotam todo o amor e felicidade. Então, nada falta.
Mas o que é a coisa certa? A coisa certa é viver o seu melhor a cada dia, com leveza e alegria, à medida da sua consciência, nos trilhos das virtudes já iluminadas em si. A consciência é a percepção que cada um tem de si e do deserto. Assim, cada qual ao seu passo faz a travessia rumo à luz; assim se chega ao oásis. Lá, a verdade. Este é todo o poder.
Ao final da tarde a caravana parou para acampar e passar a noite. Vi quando o caravaneiro passou com o falcão para o treinamento vespertino. Fui atrás. Como se me esperasse, sem dizer palavra, me passou a ave. Pousado sobre a grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo, me aproximei do pássaro para falar, apenas em pensamento, que era preciso que visse além dos olhos para encontrar tudo aquilo que estava oculto à aparência. Mas não só. Independente de capturar uma presa, sugeri ao falcão que subisse o mais alto que as suas asas suportassem, pedi por um voo perfeito; com leveza, pela simples alegria de sentir o vento do deserto impulsionando e mantendo o seu corpo no ar.
Tirei a touca da cabeça da ave. O falcão se virou para mim por uma fração de segundo como se tivesse entendido cada palavra que não falei. Com o movimento do meu braço o pássaro se lançou às alturas. Planou pelo azul do céu por um bom tempo, como se nada mais importasse, salvo voar pela precisão de voar. Voar é preciso; viver não é preciso. Naquele instante foi impossível não lembrar do famoso poema do alquimista lisboeta.
Inesperadamente o falcão recolheu as asas para um mergulho vertiginoso até o solo. Em seguida trouxe em suas vigorosas garras um pequeno roedor. O caravaneiro me olhou e arqueou os lábios em leve sorriso. Em silêncio, balancei a cabeça em agradecimento por aquela inestimável lição.
Adormeci deitado na areia, distante do acampamento, olhando as estrelas e à espera da bela mulher com os olhos da cor da lápis-lazúli. Tanta coisa para conversar. Ela não veio.
Andávamos lado a lado, já bem próximos ao acampamento, eu estava para comentar que não via a mulher com olhos da cor de lápis-lazúli há dois dias, quando notamos uma enorme confusão. Liderados por Omar e Jamil, um pequeno grupo formado por alguns encarregados amotinados mantinha sob a mira de armas os outros encarregados, além dos demais viajantes da caravana. Eles ameaçavam matar sumariamente quem os desobedecesse. Omar e Jamil tinham personalidades distintas. Enquanto Omar era calado e carrancudo, Jamil era falante e popular. Omar nos apontou o rifle quando nos aproximamos. Foi Jamil quem fez a ameaça verbal. Disse que se houvesse reação teríamos uma tragédia. Acrescentou que estavam insatisfeitos com o comando do caravaneiro, pela divisão dos lucros provenientes da caravana. O caravaneiro, sem demonstrar qualquer resquício de nervosismo e nenhuma pressa, passou o falcão para mim. Somente depois se manifestou. A sua voz era clara, mansa e sem medo: “Todas as condições foram expostas antes de a caravana partir. Ofereci o que considero justo. Ninguém foi obrigado a aceitar ou a vir. Quem o fez deve honrar o compromisso ou tem a opção de se desligar dos serviços da caravana. Pode retornar, seguir para o oásis, não mais como encarregado, mas na condição de viajante ou, ainda, partir para onde desejar.” Fez uma breve pausa para prosseguir: “Ninguém precisa fazer aquilo que não concorda. Apenas não pode, através da violência, obrigar os outros a fazer o que não querem ou subtrair os seus pertences.”
Jamil disse que os encarregados se sentiam explorados e maltratados. Aquela era a revolta dos oprimidos, bradou. O caravaneiro ponderou: “As condições do deserto são muito inóspitas; a travessia pode se frustrar a qualquer erro. Cabe a mim manter a ordem e a harmonia na caravana. Estamos a três dias de chegar ao oásis. Lá encontraremos um tribunal com magistrados afeitos às leis do deserto. Os insatisfeitos podem propor as reparações que considerarem devidas. No entanto, eu os alerto, pelas leis do deserto todo caravaneiro tem direito absoluto sobre a caravana; as dificuldades encontradas no deserto exigem firmeza sob o risco de a travessia não se completar. Em contrapartida, todo caravaneiro tem o compromisso de oferecer a própria vida para levá-la em segurança até o destino. Assim são as leis do deserto. Todos aqui foram avisados das regras antes de a caravana partir.” Olhou nos olhos de cada rebelde e sibilou: “Isso não é uma insurreição. Em verdade, não passa de coação e um roubo vulgar.”
O caravaneiro avisou a eles que o tribunal do deserto seria implacável quando chegássemos ao oásis. Todavia, concederia o perdão se desistissem espontaneamente do crime que cometiam. O circunspecto Omar, que se mantivera calado, tomou a frente para dizer que era tarde demais para o arrependimento. Acrescentou que não eram ingênuos a ponto de se dirigirem para o oásis, onde sabiam que encontrariam olhares de censura. Mudariam de rumo em sentido a uma aldeia tuaregue a menos de um dia de marcha. O líder dos aldeões aguardava a caravana. Lá, sim, todos seriam julgados. O caravaneiro arqueou os lábios em leve sorriso, como se já esperasse a malícia de Omar e disse: “Um julgamento, para ter a dignidade de assim se denominar, pressupõe uma análise honesta dos fatos, uma defesa ampla em possibilidades e uma decisão descompromissada de quaisquer interesses alheios à verdadeira justiça. Caso contrário, nessa aldeia encontraremos somente a divisão do butim e a retórica tortuosa para justificar os lucros da pilhagem.”
O caravaneiro não opôs reação quando as suas mãos foram amarradas. Omar tentou seguir no cavalo branco do caravaneiro, no entanto, o animal, aparentemente dócil, não permitiu outra montaria. Vigiado de perto pelo mal-humorado Omar, o caravaneiro seguiu a pé, ao lado do cavalo e dos demais encarregados leais a ele. Jamil garantiu a todos da caravana que, se não criassem problemas, seriam liberados após o julgamento na aldeia. Nada falou sobre a destinação dos seus bens e pertences. Os encarregados rebeldes seguiram ao lado da caravana com as suas armas apontadas de modo ameaçador para os demais viajantes montados em seus camelos. Eu fiz questão de ir junto ao caravaneiro, embora Jamil dissesse que não era necessário. Insisti. Eles riram, porém, permitiram. Segui a pé, embora desamarrado nas mãos. Na avaliação deles eu não oferecia perigo. O caravaneiro sorriu com os olhos para mim. Em suas feições não se encontrava um único traço de ódio, apenas serenidade e atenção. Passado algum tempo que andávamos, comentei com ele que me surpreendia com tamanha tranquilidade. O caravaneiro disse: “Não tenho controle sobre as tempestades do mundo, mas tenho total domínio para que elas não alcancem o meu coração.” Fez uma pausa e acrescentou: “No mais, o momento envolve muito perigo e atenção. Preciso da mente clara para as decisões exatas em tempo e conteúdo, sem as interferências sombrias de um coração afogado em ódio.”
Assim como quase todos na caravana, eu estava com medo. Eu percebia medo até mesmo nos homens insurgentes e armados. Perguntei se o caravaneiro não sentia nem mesmo uma ponta de medo. Ele disse com sincera humildade: “A hora do medo passou. O momento é de coragem, esperança e fé.”
Ele tinha razão. Para isso servem as virtudes. Qualquer aprendizado apenas faz sentido se aplicado às situações do cotidiano; o conhecimento precisa de exercício para se transformar em sabedoria. Estamos condicionados a sentir medo diante das dificuldades que se apresentam. Contudo, o medo, por se tratar de uma sombra, é um fator ocultador das virtudes, das boas ideias e melhores escolhas. O medo ofusca a manifestação da luz. Diante disto, me esforcei para dominar as minhas emoções nos trilhos das palavras do caravaneiro. Aos poucos também me acalmei, comecei a raciocinar melhor e a percepção se mostrou mais apurada. Foi quando me dei conta de que eu não tinha visto a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Vasculhei com os olhos por toda a caravana sem o menor sinal dela. Perguntei ao caravaneiro se ele a tinha visto. Ele apenas sacudiu a cabeça em negativa. Por uma fração de segundo, achei que a vira montada em seu vigoroso cavalo negro, o Vento, observando a caravana no alto de uma duna distante. Forcei os olhos, não havia nada. Considerei que não passara de uma miragem típica do deserto.
Seguimos por mais algumas horas. A habitual parada no meio do dia foi desautorizada por Omar, embora Jamil a desejasse. O insurgente carrancudo insistiu em apressar a chegada até a aldeia. Houve uma breve discussão; a vontade de Omar em seguir parecia que prevaleceria, quando o caravaneiro se intrometeu para dizer que era preciso parar. Ponderou que na caravana havia pessoas mais velhas e outras que não estavam bem de saúde. A parada seria providencial. Omar argumentou que por vários dias a caravana seguiu direto sem qualquer descanso. O caravaneiro, com a fala pausada e tranquila, explicou que aquele não era um dia comum. A tensão corrói a resistência física, explicou. Omar tornou a negar. O caravaneiro disse que não daria mais um passo. Sentou-se na areia. Diante do espanto geral, um gesto de rebeldia dentro da insurreição.
Omar apontou a espingarda para a cabeça do caravaneiro. O ameaçou de morte se ele não se levantasse de imediato. O caravaneiro apenas o olhou profundamente nos olhos. Não disse palavra nem se levantou. Neste instante, tomado por uma estranha calma, proveniente de uma convicção profunda eivada no âmago da minha alma, também me sentei. Em seguida, os encarregados leais ao caravaneiro também se sentaram, mesmo com as ameaças escalando tons. Um a um, todos os demais viajantes se acomodaram pelas areias do deserto. De pé apenas os insurgentes diante daqueles que se insurgiam face a insurreição inicial.
Jamil ameaçou matar a todos caso continuassem a desobedecer. Ele estava visivelmente descontrolado. Ninguém se manifestou. Jamil estava frente a um impasse. Para valer a sua autoridade teria que tomar uma atitude que demonstrasse, de forma inequívoca, o seu poder. No entanto, assassinar toda a caravana no meio do deserto seria uma atitude tão extrema que, em verdade, mostraria a sua fraqueza e inabilidade em lidar com a situação. Jamil sabia que restaria desmoralizado perante a aldeia de tuaregues da qual dependiam de apoio. Liderança e autoridade são conceitos distintos. A liderança brota do bom exemplo; a autoridade surge em razão da lei ou da força bruta. O caravaneiro era um líder por causa das leis do deserto, mas também pela admiração que as suas atitudes geraram perante a caravana; Omar e Jamil não passavam de pessoas autoritárias que se impunham diante do pavor que provocavam. Contudo, a violência, à régua da exacerbação, demonstra sempre descontrole, medo e ignorância. Com a resiliência à medida da ética pessoal, todos, sem exceção, têm um código de conduta no qual estabelecem limite ao mal. Com os tuaregues não era diferente; dificilmente compactuariam com um extermínio insensato envolvendo pessoas comuns e indefesas. O deserto era um solo sagrado para esse povo. No entanto, diante de um desatino qualquer, o risco que corríamos era enorme e todos estavam cientes disto. Alguns, no entanto, percebiam algo além; sabiam estar na fronteira entre a tragédia e a redenção.
Fez-se um silêncio, ao mesmo tempo, abismal e celestial; de sepulcro e de vida em botão. Instantes que pareceram demorar uma eternidade. Os próximos movimentos definiriam as sombras ou a luz daquele dia.
Foi quando Kalil, o bom homem do chá, uma pessoa sábia com quem eu tinha aprendido muito sobre a alma do mundo, além do valor da simplicidade e da humildade, se levantou, disse que iria colocar algumas ervas em infusão e perguntou se alguém estava servido. Diante da tensão e do inusitado, todos riram. Menos Jamil e, principalmente, Omar. Este, irritado, pegou o homem do chá pelo braço, encostou a arma na sua cabeça e ameaçou que o mataria se todos não se levantassem de imediato e reiniciassem a marcha. Disse, ainda, que mataria um por vez até que fosse obedecido. Ninguém se levantou, exceto o caravaneiro. Não para obedecer a ordem de Omar, porém para aconselhar: “Cortar a cabeça é o modo mais eficaz para se matar um animal. Mate a mim e terá todo o corpo da caravana à disposição.”
Omar ficou atônito. Ele não tinha se programado para aquelas reações. Em sua cabeça o roteiro daquele dia teria de narrar uma história bem diferente, uma narrativa na qual o horror imporia a submissão. Tudo parecia fora de controle. Mais por instinto do que por raciocínio, Omar empurrou o homem do chá para o chão, apontou a arma para o caravaneiro e mandou que se aproximasse. Este, em resposta, foi monossilábico e desafiador: “Não.” Ele não faria qualquer movimento para facilitar o trabalho do carrasco; era ousadia, coragem e fé, jamais um suicídio.
Um tiro.
O barulho me fez fechar os olhos. Ouvi alguns gritos de susto e pavor. Quando reabri os olhos me surpreendi com as feições de surpresa no rosto de Omar. Virei-me para a direção aonde o seu olhar assustado se dirigia. Então, entendi. O tiro não tinha saído da arma de Omar nem de ninguém da caravana. Tinha sido um tiro dado para o alto, disparado pelo líder dos tuaregues de cima de uma duna não muito distante. Ladeado por seu bando, ele se aproximou.
Como o inesperado não se cansava de se fazer presente naquele dia, cavalgando altiva com o seu vigoroso cavalo negro por entre o bando, estava ela. Sim, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Omar e Jamil se mostraram servis diante de Ali, o chefe tuaregue. Jamil, de pronto, ofereceu a sua versão dos fatos. Falou que o caravaneiro era um homem impiedoso e injusto. Era também insensível e explorava a todos na caravana, cobrando valores abusivos pela travessia. Como se não bastasse, extorquia os encarregados, os remunerando com um salário miserável. Ali era um homem de poucas palavras, mas a situação parecia inspiradora. Ele disse: “Essa foi a história que Omar me contou quando, há meses, me procurou pedindo por apoio para interceptar a caravana. No entanto, não é isto que vejo. Tampouco esta é a história que essa mulher me contou” e apontou para a mulher de olhos azuis. O chefe tuaregue prosseguiu: “Omar também não me falou que o caravaneiro em questão era este.” Com o queixo apontou para o homem sereno que estava de pé, com as mãos amarradas, ao meu lado. Ali continuou: “Eu o conheço. Esse caravaneiro é um homem de lei. Ele segue as leis do deserto. Leis que o povo tuaregue também está sujeito, assim como todo ser vivo que habita ou atravessa essas areias desde tempos imemoriais.”
“Somos selvagens porque não nos submetemos a ninguém, salvo as leis do deserto. As leis permitem justiça, jamais roubo. Habitamos o deserto desde que no mundo se fez vida. Cobramos pedágios daqueles que atravessam os nossos domínios sagrados. Mas não somos ladrões. Nos fazemos firmes com aqueles que acreditam que não precisam de autorização e respeito para atravessar o deserto. Também aplicamos a justiça aos moldes da lei e de nossa consciência. Todavia, somos doces com aqueles que merecem o mel da vida.” Olhou para a caravaneiro e quis saber se era verdadeira a história contada por Jamil e Omar. O caravaneiro tornou a dar uma resposta monossilábica: “Não.” Inesperadamente, acrescentou: “No entanto, para todo fato existe no mínimo duas versões.” Fez uma pausa proposital para acrescentar: “Além da verdade” Deu de ombros e concluiu: “Fique à vontade para apurar.”
O chefe tuaregue sorriu diante da honestidade que beirava o atrevimento. Eu tinha aprendido durante aquela travessia que a verdade sempre protege; a alma do mundo ama a verdade. Ali apeou do camelo, se aproximou do caravaneiro, puxou um punhal da cinta de sua túnica e cortou as cordas que amarravam as mãos do caravaneiro. Houve uma troca de olhares significativa entre os dois. Disse que a partir daquele ponto faria a vigília da caravana até o oásis. Acrescentou que estávamos em território tuaregue e a nossa segurança estava assegurada. Em seguida, perguntou o que o caravaneiro faria com os rebeldes. O caravaneiro não hesitou: “Eles ficarão. Serão julgados pelo seu povo de acordo com as leis do deserto. Que seja uma sentença de caráter educativo para que vir permeada em justiça; nenhuma vingança é desejada nem acolhida pelo deserto.”
Sem demora a caravana retomou a travessia. Sobre o meu camelo, no meio da grande fila, avistei, bem à frente, a mulher de olhos azuis cavalgando ao lado do caravaneiro. Havia um grande burburinho durante a marcha daquele dia. Todos conversavam sobre a aventura e as emoções sentidas. Aos poucos fui deixando que outros passassem por mim. Quis ficar na rabeira da fila, sozinho, para alocar os sentimentos e concatenar as ideias de tudo que me foi permitido viver. Todos os dias um mestre nos aguarda com uma nova lição. Aos poucos o mestre daquele dia se fazia visível e a lição ficava inteligível.
Considerei várias hipóteses e fiz muitas reflexões. Talvez o caravaneiro tivesse percebido o movimento insurgente antes de eclodir. Isto explicaria o sumiço da mulher de olhos azuis que partira em busca de apoio junto aos tuaregues, fazendo-os entender a justiça dos fatos. Pensei também no comportamento do caravaneiro; do risco que se permitira correr no limite das consequências entre o mal e o bem. Eu tentava entender como, mesmo diante da possibilidade de o pior acontecer, ele se manteve com inabalável serenidade; como se nada nem ninguém pudessem atingir a sua alma.
Pensei por muitas horas até clarear o raciocínio. O risco é inerente à vida. Tudo poderia ter dado errado; seria uma tragédia. De outro lado, os acontecimentos se desenvolveram de maneira favorável. Como o caravaneiro se movia em prol da luz, por consequência teria a proteção do deserto. Isto é uma lei. Mesmo assim algo poderia ter se mostrado desastroso naquele dia? Sem dúvida. Porém, apenas na aparência. As manifestações de amor, sabedoria e justiça do deserto nem sempre são de fácil entendimento.
Contudo, como se manter firme e sereno diante de um final indesejado? A resposta era de uma simplicidade absurda: A tristeza tem a sua raiz nas frustrações e decepções. Isto somente acontece quando vivemos em busca das recompensas da existência. O caravaneiro não vivia em busca dos prêmios; ele apenas se empenhava em fazer a coisa certa. Tão e somente. Isto o tornava pleno; livre, digno e em paz. Daí brotam todo o amor e felicidade. Então, nada falta.
Mas o que é a coisa certa? A coisa certa é viver o seu melhor a cada dia, com leveza e alegria, à medida da sua consciência, nos trilhos das virtudes já iluminadas em si. A consciência é a percepção que cada um tem de si e do deserto. Assim, cada qual ao seu passo faz a travessia rumo à luz; assim se chega ao oásis. Lá, a verdade. Este é todo o poder.
Ao final da tarde a caravana parou para acampar e passar a noite. Vi quando o caravaneiro passou com o falcão para o treinamento vespertino. Fui atrás. Como se me esperasse, sem dizer palavra, me passou a ave. Pousado sobre a grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo, me aproximei do pássaro para falar, apenas em pensamento, que era preciso que visse além dos olhos para encontrar tudo aquilo que estava oculto à aparência. Mas não só. Independente de capturar uma presa, sugeri ao falcão que subisse o mais alto que as suas asas suportassem, pedi por um voo perfeito; com leveza, pela simples alegria de sentir o vento do deserto impulsionando e mantendo o seu corpo no ar.
Tirei a touca da cabeça da ave. O falcão se virou para mim por uma fração de segundo como se tivesse entendido cada palavra que não falei. Com o movimento do meu braço o pássaro se lançou às alturas. Planou pelo azul do céu por um bom tempo, como se nada mais importasse, salvo voar pela precisão de voar. Voar é preciso; viver não é preciso. Naquele instante foi impossível não lembrar do famoso poema do alquimista lisboeta.
Inesperadamente o falcão recolheu as asas para um mergulho vertiginoso até o solo. Em seguida trouxe em suas vigorosas garras um pequeno roedor. O caravaneiro me olhou e arqueou os lábios em leve sorriso. Em silêncio, balancei a cabeça em agradecimento por aquela inestimável lição.
Adormeci deitado na areia, distante do acampamento, olhando as estrelas e à espera da bela mulher com os olhos da cor da lápis-lazúli. Tanta coisa para conversar. Ela não veio.
O trigésimo-sétimo dia da travessia – o rádio do deserto
Quando o caravaneiro chegou com o falcão para o treino da manhã eu já
o aguardava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou
com um aceno de cabeça. Coloquei a grossa luva de couro e senti as
garras firmes da ave em volta do meu braço esquerdo. Em pensamento,
falei ao pássaro que apesar dos olhos privilegiados que possuía não
deveria se deixar guiar apenas por eles. Era preciso ver além da visão.
Retirei a touca da cabeça do animal e fiz o movimento de impulso. O
falcão alçou voou e logo ganhou o céu. No alto, planou em círculos por
longos minutos. Fiquei apreensivo por um mergulho vertiginoso na captura
de uma pequena presa. Olhei para o caravaneiro; ele estava impassível e
sereno como um padre em uma missa de domingo. Parecia ter tudo sobre
controle. O silêncio era quase absoluto; o ruído distante do acampamento
e o sopro de uma suave brisa compunham a cantiga daquela manhã. Pensei
em como algumas pessoas demonstravam enorme serenidade diante da
imprevisibilidade dos dias. Tudo pode acontecer; de bom e de ruim.
Naquele canto do deserto poderíamos ter um dia calmo de travessia, mas
sempre existia a possibilidade do imponderável. Um assalto por selvagens
tribos nômades que habitam no deserto; um ataque por grandes felinos,
como leões e leopardos, também comuns desde sempre na região; uma picada
de serpente ou de escorpião, animais que têm a areia e as pedras como
habitat natural; uma devastadora tempestade de areia; uma enorme
confusão entre os integrantes da caravana, um motim ou mesmo uma
epidemia de rápida disseminação. Entre outras possibilidades que nem ao
menos me ocorriam naquele momento. Entretanto, as suas feições eram como
se ele estivesse inalcançável a qualquer mal. Comentei isto e perguntei
a razão de tamanha serenidade. Sem tirar os olhos do falcão, o
caravaneiro foi monossilábico em sua resposta: “Fé.”
Ponderei que grande parte da humanidade, através das mais diversas tradições religiosas, acredita em um poder superior que rege o universo, porém, nem por isto, consegue manter a calma. Assim também acontece com os eruditos, estudiosos de muitas vertentes filosóficas; conhecem as letras, mas a ansiedade nascida da incerteza dos dias perdura. O receio que alguma espécie de mal pudesse se avizinhar era causa endêmica de crises de pânico, depressão e agressividade. Medo, pessimismo e desesperança em diferentes escalas, a depender do indivíduo, pareciam cada vez mais presentes a quase todas as pessoas. Eu conhecia pouquíssima gente que conseguia se manter além dessa sensação sombria, independente da classe social, nível cultural ou continente de moradia. O caravaneiro, sem tirar os olhos do falcão, apenas me ouvia. Falei que, apesar de ter lido muitos livros de filosofia e metafísica, além de também acreditar em Deus, nem por isto deixava de me incomodar com a mera possibilidade de vivenciar situações desagradáveis e tristes. Eu não conseguia conviver com o imponderável ao ponto de me sentir plenamente confortável com o dia de amanhã. Apesar, acrescentei, de nunca, nem por um único momento, ter deixado de acreditar em Deus. Neste instante o caravaneiro virou o rosto para mim e arqueou as sobrancelhas. Em seu olhar não havia espanto nem indignação, porém o sentimento de compaixão e paciência que temos quando nossos filhos dão os primeiros passos ou, na infância terna, nos perguntam o significado de todas as coisas que existem no mundo.
Contudo, não disse palavra. Os minutos se passaram até que o falcão retornou para pousar na grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo. Fiquei preocupado, pois tinha sido mais um dia que, sob o meu comando, o falcão não conseguira nenhuma caça. O caravaneiro pareceu não se alterar com o fato. Tínhamos que retornar ao acampamento, a caravana não poderia tardar em partir. Em silêncio, passei o pássaro para o caravaneiro. Antes de voltarmos ele disse: “Crença não significa fé. São conceitos distintos.”
Como ter fé é diferente de acreditar em um poder divino? Fiquei pensando nisso enquanto arrumava as minhas coisas no alforje e o colocava sobre o camelo. Alinhei para a marcha. Naquele dia quem emparelhou comigo foi um morador do oásis que retornava de um tratamento de saúde que fora realizar em Marraquexe. Logo começamos a conversar. Zayn era um homem simpático e estava alegre por faltar poucos dias para reencontrar a sua esposa e seus filhos. Falou que o período de internação no hospital tinha sido muito difícil, mas os médicos e as enfermeiras que cuidaram dele eram muito dedicados. Falei que acreditava terem sido dias de muita ansiedade e incerteza. Zayn explicou que ninguém fica feliz por estar doente, todavia, não se sentiu triste nem inseguro durante o tratamento. A fé manteve o seu ânimo em alta. Acrescentou que isto tinha auxiliado muito na cura, além de tornar o tratamento mais tranquilo. A fé ajudara a tornar mais suave o tempo que passara no hospital. Contei uma breve história de uma pessoa que disse ter sido visitada por Deus quando esteve internada. Perguntei se isto tinha acontecido com ele. Zayn sacudiu a cabeça e explicou: “Não foi necessária nenhuma visita. Deus mora em mim. Trago em mim uma parte Dele. Estamos conectados por todo o tempo.” Aquela resposta me instigou. Eu quis saber se ele temeu a morte e, por consequência, a situação na qual ficaria a sua família. Zayn me ofereceu um olhar parecido com o do caravaneiro mais cedo, como se tivesse que falar o óbvio e disse: “Faço o meu melhor no dia de hoje. Do amanhã Ele cuida.”
Interrompi para dizer aquela frase me incomodava. Confessei que eu tinha alguma dificuldade em aceitar que eu não era o artesão do meu destino. Zayn me corrigiu: “Não falei isto. Sem dúvida que cada um molda o próprio destino. A existência é o barro universal; a Lei da Ação e Reação é a espátula cósmica. Este é o poder sagrado das escolhas. Terei o amanhã na exata dimensão das minhas necessidades evolutivas.” Virou o rosto em minha direção e disparou: “Não tenha dúvida, frequenatmos em uma escola de excelência.”
Falei que as coisas não eram simples assim. Eu já tinha presenciado muita desgraça. Assisti a vida de pessoas viradas ao avesso de uma hora para outra. Tempestades existenciais varreram a alegria de muita gente conhecida. Alguns nunca conseguiram se recuperar. Zayn ponderou: “Nunca é um tempo que não existe para que o mal perdure”. Em seguida prosseguiu: “Entenda que cada um tem as suas próprias lições; quem determina o tempo de duração delas é o aluno. Aprendeu, segue em frente; não entendeu, novas explicações da mesma lição. Aceite a sabedoria, a justiça e o amor da vida, ainda que não seja capaz de compreender a beleza daquele momento. Acredite, sempre há uma boa razão para todos os acontecimentos. Não lamente, aproveite a oportunidade e cresça.” Falei que entendia a profundidade das suas palavras, porém, me intrigava ver pessoas boas passarem por sofrimentos inexplicáveis e imprevisíveis. Zayn, embora enigmático, foi mais fundo no raciocínio: “A existência é apenas um recorte. A vida é a imagem por inteiro.”
Ato seguinte, perguntou se eu tinha filhos. Falei que era abençoado por ter duas filhas, já maiores de idade. Ele perguntou seu eu já as tinha maltratado. Respondi que jamais me ocorrera absurda ideia. Eu nunca tinha maltratado sequer um desconhecido, como imaginar em maltratar pessoas que eu amava com toda a força do coração. Zayn disse: “Não tenho a menor dúvida quanto às suas palavras. Contudo, você e eu, apesar de amarmos profundamente nossos filhos, os educamos à medida da sabedoria e firmeza necessárias para que cresçam nos trilhos da luz. Negamos desejos insensatos, repreendemos nos erros, aconselhamos dentro da ética, ensinamos as virtudes, envolvemos com amor. Mesmo assim há situações de equívocos e de rebeldia por parte deles. Então, temos que ser ainda mais firmes para que não restem deseducados pelas sombras que são inerentes à humanidade. Esta firmeza, muitas vezes manifestadas em forma de repreensão e de negativas, seria um ato de maldade ou de amor? De descuido ou de cuidado?” Eu me mantive calado. Claro que, apesar do rigor, era um ato de amor. Ele prosseguiu: “Situações que acontecem todos os dias em lares do mundo habitados por pais amorosos. Pois é preferível que sejam encaminhados com afeto de casa a serem moldados pela aspereza do mundo. Por que imaginamos que o Pai Maior, com a sua infinita capacidade de amar, enorme sabedoria e senso de justiça, faria menos ou pior do que fazemos você e eu? Como todo bom pai, zeloso em ensinar os seus bons valores e conceitos, Ele nos orienta à sua imagem e semelhança. A cada dia é preciso ser mais parecido. Não no corpo, mas nas ideias e no coração. Um pouco mais próximo a Sua imagem e semelhança em nossa alma e nas escolhas de todos os dias.”
“Faça o seu melhor hoje; amanhã um pouco mais. No mais, sem demais, nada lhe será negado.”
Questionei se essa linha de raciocínio não induzia as pessoas a negociar um futuro promissor. Zayn sorriu diante da minha malícia e lamentou: “Apenas os tolos agem assim”. Olhou as areias sem fim por breves instantes e tornou ao tom enigmático: “Não se negocia com o deserto.”
Pedi para ele explicar melhor. Zayn foi generoso: “De nada serve fazer o bem sem ser bom. Nenhum valor tem a caridade por interesse grosseiro e sem amor. É a aparência em detrimento da essência. O Paraíso não está disponível na prateleira de um mercado. O motivo é simples: o céu está dentro de você. O passaporte para as Terras Altas é confeccionado pelo próprio coração através das mãos que acodem, dos braços que abraçam, dos lábios que consolam e beijam.”
Tornou a olhar o deserto e disse: “O deserto não aceita barganha nem se deixa enganar. Consigo me enfeitar para você; diante do deserto, não tenha dúvida, estarei sempre nu.” Fez uma pausa e disse como se falasse consigo mesmo: “Todos os reis estão nus.” Virou-se para mim e ensinou: “Ao deserto apenas importa assistir e auxiliar ao pequeno grão de trigo a crescer até se transformar no pão que alimentará a humanidade em suas ceias espirituais. Todo o resto não passa de retórica na vã tentativa de ludibriar o deserto. Sem amor não se avança na travessia. Contudo, o amor, apesar de ser uma virtude comum a todos, não é de fácil compreensão quanto à sua extensão e poder. Apenas a fé permite a percepção de toda a amplitude possível ao amor.”
Em seguida, concluiu: “Confundimos apego com amor; crença com fé. Por isto nos sentimos desconfortáveis e desorientados com a impermanência dos dias no deserto.”
Mais uma vez a questão da fé diferenciada da crença. Eu tinha muitas perguntas para a fazer ao Zayn, porém veio a ordem para a habitual parada para um ligeiro descanso no meio do dia. Zayn pediu licença, pois tinha de encontrar com Abdul, o médico que seguia com a caravana para atender as pessoas no oásis. Abdul o acompanhava clinicamente durante a travessia. Peguei o meu cantil, um punhado nozes e me afastei para pensar sobre a questão da fé. Foi quando vi o caravaneiro sozinho, agachado e compenetrado sobre um objeto. Aproximei-me. Ao sentir a minha presença, ele se virou e não fez qualquer objeção. Cheguei mais perto e notei que ele mexia em um rádio. Sem que eu nada perguntasse, ele comentou que como estávamos próximos ao oásis era de praxe fazer contato através do rádio. Explicou que no oásis funcionava uma estação amadora de rádio que transmitia música, notícias e orientava as caravanas que passavam ao largo. Percebi que o caravaneiro enfrentava dificuldade em sintonizar o seu rádio na frequência da estação do oásis. Ele se mantinha sereno e afável. Aproveitei para indagar sobre o que havia na fé e na crença que eu achava não ter entendido. O caravaneiro foi generoso: “É muito comum as pessoas confundirem os conceitos de crença com os da fé. A crença surge da percepção sensorial de um mundo invisível que permeia e interfere no mundo visível. Em verdade, se trata de um mesmo mundo, apenas em distintas dimensões, nem sempre accessível à medida dos desejos, mas da necessidade e do aprimoramento.”
“Neste ponto a fé começa a se tornar tangível. A fé surge do conhecimento e do exercício das virtudes, simples e complexas, todas tendo o amor como raiz e fruto. Como o todo está contido na parte, a fé é a virtude que move o poder do universo através de cada pessoa. Por isto se diz que a fé faz o inacreditável.”
“A crença é uma percepção; a fé, uma construção. A crença é sensorial; a fé, uma virtude. Todas as virtudes reunidas concedem o poder da luz. A fé, sem dúvida, embora banalizada em discursos de religiosidade superficial, é uma virtude profunda e nem sempre fácil para se conquistar. Antes, o andarilho precisa sedimentar em si outras virtudes para servirem de alicerces para fé. A fé é a ponte pela qual o sagrado se manifesta em você.”
Eu falei que a explicação era boa, mas restava a sensação de que ainda faltava algo a ser compreendido quanto à fé. O sentimento traduzido em palavras simples para a plena captação do conceito. Afinal, as palavras são cápsulas que trazem em si a clareza e o poder de uma ideia.
Fui interrompido pela chiadeira do rádio que aumentou de volume. Como se viesse a sugestão para eu me calar um pouco. Rimos. Ficamos alguns instantes em silêncio enquanto o caravaneiro tentava encontrar as ondas da estação do oásis. De repente, ele se virou me olhou com a aquela expressão de quem é assaltado por uma ideia e disse: “Somos como um rádio. As pilhas são a energia vital que nos anima durante a existência. A crença é como ligar o rádio na expectativa de ouvir uma música. Sem sintonizar em uma estação transmissora não ouviremos nenhuma melodia, o rádio será apenas ruído. O sagrado é a estação transmissora. O amor é o botão de frequência ou dial. A sintonia entre o rádio e a estação se chama fé.”
“Transmissor e receptor precisam estar em conexão pura, livre de interferências indevidas para uma melhor comunicação. Um rádio fora de frequência apenas faz barulho. Em sintonia, traz a música que transforma a vida.”
Neste instante, não por acaso, o ruído cessou e uma doce melodia árabe pode ser ouvida através do rádio. O caravaneiro tinha conseguido alinhar o seu rádio à estação do oásis. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e sussurrou como quem conta um segredo: “A fé permite a música que nos faz bailar na grande sinfonia cósmica.”
Em seguida o caravaneiro disse para eu me aprontar, pois estava na hora da travessia prosseguir. Zayn emparelhou o seu camelo ao meu. Ele falou que Abdul tinha verificado a sua pressão arterial e estava tudo bem. Sorrimos. Seguimos um longo tempo em silêncio até que comentei que eu tinha entendido a sofisticação da fé através da metáfora simples de um rádio, uma linguagem disponível a qualquer pessoa todos os dias. Zayn comentou: “Assim é o amor e a sabedoria. Através das coisas simples e corriqueiras o deserto nos mostra a sua sofisticação e importância.”
No entanto o alertei que, embora tenha entendido o conceito da fé por intermédio da figura do rádio, algo ainda restava incompreendido em mim. Na prática, como usar a fé para me sintonizar com as ondas cósmicas? Zayn se valeu da mesma metáfora para encerrar a lição: “Ligar o rádio é o passo inicial. Mas isto não basta; você precisa sintonizar o rádio para ouvir a música. A estação lança a música no ar para todos, mas apenas uma antena ativada conseguirá captar as ondas da estação e, por consequência, a música. Esta antena se chama coração. Para ouvir a canção das estrelas tenho que despertar o amor em mim.”
Fez uma pausa e prosseguiu: “Preciso ativar a beleza em mim. Esta é a frequência sem a qual não conseguirei sintonizar a beleza que existe em você e no universo. A beleza a que me refiro é aquela plena em pureza e em amor; eis a canção das estrelas, a música da vida. Se eu não ouvir essa melodia a minha existência se esgotará nos bueiros dos dias ralos, tristes e assustados. A música da vida traz consigo a poesia que dissolve os medos e nos alegra; a serenidade diante das impermanências inerentes ao cotidiano. Sem a fé não se ouve nenhuma melodia na rádio do deserto; entretanto, com ela, tenho todo o poder e a força do deserto em mim. Não temo a escuridão, sou a luz.”
Não se disse mais palavra até o final da marcha daquele dia. Não quis jantar. Peguei o saco de dormir e fui dormir sozinho, distante do acampamento. Deitei olhando para as estrelas, pensando em quantas possibilidades de sintonia me eram possíveis para ouvir as suas canções. Adormeci com uma inacreditável sensação de força e poder que poderiam ser meus. Uma certeza inabalável.
Ponderei que grande parte da humanidade, através das mais diversas tradições religiosas, acredita em um poder superior que rege o universo, porém, nem por isto, consegue manter a calma. Assim também acontece com os eruditos, estudiosos de muitas vertentes filosóficas; conhecem as letras, mas a ansiedade nascida da incerteza dos dias perdura. O receio que alguma espécie de mal pudesse se avizinhar era causa endêmica de crises de pânico, depressão e agressividade. Medo, pessimismo e desesperança em diferentes escalas, a depender do indivíduo, pareciam cada vez mais presentes a quase todas as pessoas. Eu conhecia pouquíssima gente que conseguia se manter além dessa sensação sombria, independente da classe social, nível cultural ou continente de moradia. O caravaneiro, sem tirar os olhos do falcão, apenas me ouvia. Falei que, apesar de ter lido muitos livros de filosofia e metafísica, além de também acreditar em Deus, nem por isto deixava de me incomodar com a mera possibilidade de vivenciar situações desagradáveis e tristes. Eu não conseguia conviver com o imponderável ao ponto de me sentir plenamente confortável com o dia de amanhã. Apesar, acrescentei, de nunca, nem por um único momento, ter deixado de acreditar em Deus. Neste instante o caravaneiro virou o rosto para mim e arqueou as sobrancelhas. Em seu olhar não havia espanto nem indignação, porém o sentimento de compaixão e paciência que temos quando nossos filhos dão os primeiros passos ou, na infância terna, nos perguntam o significado de todas as coisas que existem no mundo.
Contudo, não disse palavra. Os minutos se passaram até que o falcão retornou para pousar na grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo. Fiquei preocupado, pois tinha sido mais um dia que, sob o meu comando, o falcão não conseguira nenhuma caça. O caravaneiro pareceu não se alterar com o fato. Tínhamos que retornar ao acampamento, a caravana não poderia tardar em partir. Em silêncio, passei o pássaro para o caravaneiro. Antes de voltarmos ele disse: “Crença não significa fé. São conceitos distintos.”
Como ter fé é diferente de acreditar em um poder divino? Fiquei pensando nisso enquanto arrumava as minhas coisas no alforje e o colocava sobre o camelo. Alinhei para a marcha. Naquele dia quem emparelhou comigo foi um morador do oásis que retornava de um tratamento de saúde que fora realizar em Marraquexe. Logo começamos a conversar. Zayn era um homem simpático e estava alegre por faltar poucos dias para reencontrar a sua esposa e seus filhos. Falou que o período de internação no hospital tinha sido muito difícil, mas os médicos e as enfermeiras que cuidaram dele eram muito dedicados. Falei que acreditava terem sido dias de muita ansiedade e incerteza. Zayn explicou que ninguém fica feliz por estar doente, todavia, não se sentiu triste nem inseguro durante o tratamento. A fé manteve o seu ânimo em alta. Acrescentou que isto tinha auxiliado muito na cura, além de tornar o tratamento mais tranquilo. A fé ajudara a tornar mais suave o tempo que passara no hospital. Contei uma breve história de uma pessoa que disse ter sido visitada por Deus quando esteve internada. Perguntei se isto tinha acontecido com ele. Zayn sacudiu a cabeça e explicou: “Não foi necessária nenhuma visita. Deus mora em mim. Trago em mim uma parte Dele. Estamos conectados por todo o tempo.” Aquela resposta me instigou. Eu quis saber se ele temeu a morte e, por consequência, a situação na qual ficaria a sua família. Zayn me ofereceu um olhar parecido com o do caravaneiro mais cedo, como se tivesse que falar o óbvio e disse: “Faço o meu melhor no dia de hoje. Do amanhã Ele cuida.”
Interrompi para dizer aquela frase me incomodava. Confessei que eu tinha alguma dificuldade em aceitar que eu não era o artesão do meu destino. Zayn me corrigiu: “Não falei isto. Sem dúvida que cada um molda o próprio destino. A existência é o barro universal; a Lei da Ação e Reação é a espátula cósmica. Este é o poder sagrado das escolhas. Terei o amanhã na exata dimensão das minhas necessidades evolutivas.” Virou o rosto em minha direção e disparou: “Não tenha dúvida, frequenatmos em uma escola de excelência.”
Falei que as coisas não eram simples assim. Eu já tinha presenciado muita desgraça. Assisti a vida de pessoas viradas ao avesso de uma hora para outra. Tempestades existenciais varreram a alegria de muita gente conhecida. Alguns nunca conseguiram se recuperar. Zayn ponderou: “Nunca é um tempo que não existe para que o mal perdure”. Em seguida prosseguiu: “Entenda que cada um tem as suas próprias lições; quem determina o tempo de duração delas é o aluno. Aprendeu, segue em frente; não entendeu, novas explicações da mesma lição. Aceite a sabedoria, a justiça e o amor da vida, ainda que não seja capaz de compreender a beleza daquele momento. Acredite, sempre há uma boa razão para todos os acontecimentos. Não lamente, aproveite a oportunidade e cresça.” Falei que entendia a profundidade das suas palavras, porém, me intrigava ver pessoas boas passarem por sofrimentos inexplicáveis e imprevisíveis. Zayn, embora enigmático, foi mais fundo no raciocínio: “A existência é apenas um recorte. A vida é a imagem por inteiro.”
Ato seguinte, perguntou se eu tinha filhos. Falei que era abençoado por ter duas filhas, já maiores de idade. Ele perguntou seu eu já as tinha maltratado. Respondi que jamais me ocorrera absurda ideia. Eu nunca tinha maltratado sequer um desconhecido, como imaginar em maltratar pessoas que eu amava com toda a força do coração. Zayn disse: “Não tenho a menor dúvida quanto às suas palavras. Contudo, você e eu, apesar de amarmos profundamente nossos filhos, os educamos à medida da sabedoria e firmeza necessárias para que cresçam nos trilhos da luz. Negamos desejos insensatos, repreendemos nos erros, aconselhamos dentro da ética, ensinamos as virtudes, envolvemos com amor. Mesmo assim há situações de equívocos e de rebeldia por parte deles. Então, temos que ser ainda mais firmes para que não restem deseducados pelas sombras que são inerentes à humanidade. Esta firmeza, muitas vezes manifestadas em forma de repreensão e de negativas, seria um ato de maldade ou de amor? De descuido ou de cuidado?” Eu me mantive calado. Claro que, apesar do rigor, era um ato de amor. Ele prosseguiu: “Situações que acontecem todos os dias em lares do mundo habitados por pais amorosos. Pois é preferível que sejam encaminhados com afeto de casa a serem moldados pela aspereza do mundo. Por que imaginamos que o Pai Maior, com a sua infinita capacidade de amar, enorme sabedoria e senso de justiça, faria menos ou pior do que fazemos você e eu? Como todo bom pai, zeloso em ensinar os seus bons valores e conceitos, Ele nos orienta à sua imagem e semelhança. A cada dia é preciso ser mais parecido. Não no corpo, mas nas ideias e no coração. Um pouco mais próximo a Sua imagem e semelhança em nossa alma e nas escolhas de todos os dias.”
“Faça o seu melhor hoje; amanhã um pouco mais. No mais, sem demais, nada lhe será negado.”
Questionei se essa linha de raciocínio não induzia as pessoas a negociar um futuro promissor. Zayn sorriu diante da minha malícia e lamentou: “Apenas os tolos agem assim”. Olhou as areias sem fim por breves instantes e tornou ao tom enigmático: “Não se negocia com o deserto.”
Pedi para ele explicar melhor. Zayn foi generoso: “De nada serve fazer o bem sem ser bom. Nenhum valor tem a caridade por interesse grosseiro e sem amor. É a aparência em detrimento da essência. O Paraíso não está disponível na prateleira de um mercado. O motivo é simples: o céu está dentro de você. O passaporte para as Terras Altas é confeccionado pelo próprio coração através das mãos que acodem, dos braços que abraçam, dos lábios que consolam e beijam.”
Tornou a olhar o deserto e disse: “O deserto não aceita barganha nem se deixa enganar. Consigo me enfeitar para você; diante do deserto, não tenha dúvida, estarei sempre nu.” Fez uma pausa e disse como se falasse consigo mesmo: “Todos os reis estão nus.” Virou-se para mim e ensinou: “Ao deserto apenas importa assistir e auxiliar ao pequeno grão de trigo a crescer até se transformar no pão que alimentará a humanidade em suas ceias espirituais. Todo o resto não passa de retórica na vã tentativa de ludibriar o deserto. Sem amor não se avança na travessia. Contudo, o amor, apesar de ser uma virtude comum a todos, não é de fácil compreensão quanto à sua extensão e poder. Apenas a fé permite a percepção de toda a amplitude possível ao amor.”
Em seguida, concluiu: “Confundimos apego com amor; crença com fé. Por isto nos sentimos desconfortáveis e desorientados com a impermanência dos dias no deserto.”
Mais uma vez a questão da fé diferenciada da crença. Eu tinha muitas perguntas para a fazer ao Zayn, porém veio a ordem para a habitual parada para um ligeiro descanso no meio do dia. Zayn pediu licença, pois tinha de encontrar com Abdul, o médico que seguia com a caravana para atender as pessoas no oásis. Abdul o acompanhava clinicamente durante a travessia. Peguei o meu cantil, um punhado nozes e me afastei para pensar sobre a questão da fé. Foi quando vi o caravaneiro sozinho, agachado e compenetrado sobre um objeto. Aproximei-me. Ao sentir a minha presença, ele se virou e não fez qualquer objeção. Cheguei mais perto e notei que ele mexia em um rádio. Sem que eu nada perguntasse, ele comentou que como estávamos próximos ao oásis era de praxe fazer contato através do rádio. Explicou que no oásis funcionava uma estação amadora de rádio que transmitia música, notícias e orientava as caravanas que passavam ao largo. Percebi que o caravaneiro enfrentava dificuldade em sintonizar o seu rádio na frequência da estação do oásis. Ele se mantinha sereno e afável. Aproveitei para indagar sobre o que havia na fé e na crença que eu achava não ter entendido. O caravaneiro foi generoso: “É muito comum as pessoas confundirem os conceitos de crença com os da fé. A crença surge da percepção sensorial de um mundo invisível que permeia e interfere no mundo visível. Em verdade, se trata de um mesmo mundo, apenas em distintas dimensões, nem sempre accessível à medida dos desejos, mas da necessidade e do aprimoramento.”
“Neste ponto a fé começa a se tornar tangível. A fé surge do conhecimento e do exercício das virtudes, simples e complexas, todas tendo o amor como raiz e fruto. Como o todo está contido na parte, a fé é a virtude que move o poder do universo através de cada pessoa. Por isto se diz que a fé faz o inacreditável.”
“A crença é uma percepção; a fé, uma construção. A crença é sensorial; a fé, uma virtude. Todas as virtudes reunidas concedem o poder da luz. A fé, sem dúvida, embora banalizada em discursos de religiosidade superficial, é uma virtude profunda e nem sempre fácil para se conquistar. Antes, o andarilho precisa sedimentar em si outras virtudes para servirem de alicerces para fé. A fé é a ponte pela qual o sagrado se manifesta em você.”
Eu falei que a explicação era boa, mas restava a sensação de que ainda faltava algo a ser compreendido quanto à fé. O sentimento traduzido em palavras simples para a plena captação do conceito. Afinal, as palavras são cápsulas que trazem em si a clareza e o poder de uma ideia.
Fui interrompido pela chiadeira do rádio que aumentou de volume. Como se viesse a sugestão para eu me calar um pouco. Rimos. Ficamos alguns instantes em silêncio enquanto o caravaneiro tentava encontrar as ondas da estação do oásis. De repente, ele se virou me olhou com a aquela expressão de quem é assaltado por uma ideia e disse: “Somos como um rádio. As pilhas são a energia vital que nos anima durante a existência. A crença é como ligar o rádio na expectativa de ouvir uma música. Sem sintonizar em uma estação transmissora não ouviremos nenhuma melodia, o rádio será apenas ruído. O sagrado é a estação transmissora. O amor é o botão de frequência ou dial. A sintonia entre o rádio e a estação se chama fé.”
“Transmissor e receptor precisam estar em conexão pura, livre de interferências indevidas para uma melhor comunicação. Um rádio fora de frequência apenas faz barulho. Em sintonia, traz a música que transforma a vida.”
Neste instante, não por acaso, o ruído cessou e uma doce melodia árabe pode ser ouvida através do rádio. O caravaneiro tinha conseguido alinhar o seu rádio à estação do oásis. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e sussurrou como quem conta um segredo: “A fé permite a música que nos faz bailar na grande sinfonia cósmica.”
Em seguida o caravaneiro disse para eu me aprontar, pois estava na hora da travessia prosseguir. Zayn emparelhou o seu camelo ao meu. Ele falou que Abdul tinha verificado a sua pressão arterial e estava tudo bem. Sorrimos. Seguimos um longo tempo em silêncio até que comentei que eu tinha entendido a sofisticação da fé através da metáfora simples de um rádio, uma linguagem disponível a qualquer pessoa todos os dias. Zayn comentou: “Assim é o amor e a sabedoria. Através das coisas simples e corriqueiras o deserto nos mostra a sua sofisticação e importância.”
No entanto o alertei que, embora tenha entendido o conceito da fé por intermédio da figura do rádio, algo ainda restava incompreendido em mim. Na prática, como usar a fé para me sintonizar com as ondas cósmicas? Zayn se valeu da mesma metáfora para encerrar a lição: “Ligar o rádio é o passo inicial. Mas isto não basta; você precisa sintonizar o rádio para ouvir a música. A estação lança a música no ar para todos, mas apenas uma antena ativada conseguirá captar as ondas da estação e, por consequência, a música. Esta antena se chama coração. Para ouvir a canção das estrelas tenho que despertar o amor em mim.”
Fez uma pausa e prosseguiu: “Preciso ativar a beleza em mim. Esta é a frequência sem a qual não conseguirei sintonizar a beleza que existe em você e no universo. A beleza a que me refiro é aquela plena em pureza e em amor; eis a canção das estrelas, a música da vida. Se eu não ouvir essa melodia a minha existência se esgotará nos bueiros dos dias ralos, tristes e assustados. A música da vida traz consigo a poesia que dissolve os medos e nos alegra; a serenidade diante das impermanências inerentes ao cotidiano. Sem a fé não se ouve nenhuma melodia na rádio do deserto; entretanto, com ela, tenho todo o poder e a força do deserto em mim. Não temo a escuridão, sou a luz.”
Não se disse mais palavra até o final da marcha daquele dia. Não quis jantar. Peguei o saco de dormir e fui dormir sozinho, distante do acampamento. Deitei olhando para as estrelas, pensando em quantas possibilidades de sintonia me eram possíveis para ouvir as suas canções. Adormeci com uma inacreditável sensação de força e poder que poderiam ser meus. Uma certeza inabalável.
segunda-feira, 8 de junho de 2020
O trigésimo-sexto dia da travessia – as estrelas do deserto
A travessia se aproximava do fim. À medida que os dias se passavam eu
me sentia mais à vontade no deserto. Eu o entendia, ele me acolhia. De
um lado, o desejo pela chegada; de outro, uma saudade que já se
anunciava. Um relacionamento de início tormentoso, mas que, aos poucos,
se tornava apaixonante, como tudo o que é valioso, mas que causa
estranhamento até o momento do exato entendimento. Não à toa a travessia
se alongara por quarenta dias. Era preciso haver tempo para que valores
e conceitos arraigados em mim, já sem nenhuma serventia, pudessem ficar
pelas areias. Aos poucos, trocados por outros, mais adequados à pessoa
que eu me transformava, impossível sem a ajuda do deserto. Mesmo que o
sábio dervixe se recusasse a me receber a travessia já teria valido a
pena. Ainda era madrugada quando despertei. As noites no deserto são
encantadoras. Um manto de estrelas se estende por todo céu. De tão
brilhantes temos a maravilhosa sensação de que ao subir nas dunas
tocaremos nas estrelas mais próximas. Sentei na areia e peguei algumas
tâmaras secas no alforje. Planejava meditar e rezar até a hora de a
caravana acordar. Tomaria algumas canecas de café e iria para segunda
aula de falcoaria com o caravaneiro. Eu estava bastante animado. Foi
quando percebi que a Ingrid, a bela astrônoma nórdica de cabelos ruivos,
estava ao longe com um dos seus telescópios montados sob o tripé
observando alguma constelação. Ela parecia alegre ao dar explicações ao
Paolo, o bonito namorado italiano que conhecera na caravana. Formavam um
belo e interessante casal. Embora o ciúme inicial que eu sentira
tivesse ficado para trás, confesso que tornei a pensar que poderia ser
eu a estar ouvindo as explicações sobre a Via Láctea. Dominei a emoção
selvagem e a pacifiquei em mim. Fiquei bem; me senti leve. Eles me viram
e acenaram para eu me aproximar.
Fui recebido com os melhores sorrisos. Eles estavam felizes. Ingrid contou que a posição era ótima para avistar Órion, uma constelação típica do equador celeste. Pude ver com enorme clareza Rígel e Betelgeuse, estrelas gigantes das cores azul e vermelha, respectivamente, que junto com as estrelas Bellatrix e Saiph compõem o quadrilátero principal. Era impossível não ficar maravilhado. Ingrid disse que algumas constelações eram austrais, outras boreais, acessíveis apenas dos hemisférios sul ou norte. Brincou dizendo que por isto os telescópios faziam parte da bagagem de todo astrônomo: “Não é mania, é necessidade.” Ela tornou a falar algo que já tinha me chamado atenção antes: “As constelações são criações humanas. Não passam de ilusões de ótica. As mesmas estrelas avistadas de diferentes pontos do planeta formam outros conjuntos.” Entre diversas lições, as estrelas nos ensinavam a ver, a separar a ilusão da realidade. Conversamos mais um pouco e a aproximação da manhã encerrou as observações. A caravana acordava. Agradeci os momentos agradáveis e me despedi. Eu estava sedento por uma caneca de café.
Ainda bebia a primeira caneca de café quando avistei o caravaneiro se afastar com o falcão para o treinamento matinal. Fui atrás. Ele me entregou uma grossa luva de couro. Disse que aquela era minha. A coloquei em meu braço esquerdo. Conforme tinha aprendido na aula do dia anterior, me aproximei da ave, disse em pensamento para que ela visse além dos olhos para encontrar o inimaginável, retirei a toca sobre a sua cabeça e a impulsionei com o movimento do braço. O falcão alçou voo. Ficou alguns minutos planando em círculos em grande altitude. Enquanto aguardávamos, comentei o fato de as constelações não passarem de meras ilusões, segundo a Ingrid me ensinara. Ele disse: “Há os olhos de ver o mundo; existe o olho de ver a vida.” Eu pedi para ele falar mais sobre o assunto. O caravaneiro explicou: “Os iniciados nas tradições orientais, desde sempre, alertam quanto à terceira-visão. Como se referia o mestre galileu: ‘Quando o seu olho é simples todo o universo é luz’.”
Falei que conhecia o ensinamento do Sermão da Montanha, texto muito utilizado na irmandade esotérica da qual eu era membro. Muito embora, observei, as traduções que eu havia lido falavam em “se os seus olhos forem bons todo o seu corpo resplandecerá em luz”, com algumas insignificantes diferenças a depender do tradutor e da editora. Pedi para ele aprofundar o seu entendimento. O caravaneiro foi humilde: “Sei pouco.” Fez uma pausa, olhou para o falcão no céu azul e disse: “Buda denominava de samadhia conquista desse olhar despertado no interior do próprio ser. É um estado de êxtase, como a sensação permitida a um cego diante da visão desconhecida. É a saída da escuridão da caverna no encontro com o sol na famosa alegoria narrada por Platão, o filósofo grego.”
Perguntei se ele achava possível alcançar essa visão extraordinária. O caravaneiro me lembrou: “No treinamento de ontem, através da linguagem da vida, o falcão conseguiu ver a caça enterrada na areia, invisível aos olhos do mundo”. Considerei a possibilidade do apurado instinto predador de uma ave de rapina. Lembrei a ele que animais não têm intuição nem consciência. O caravaneiro balançou a cabeça em concordância, porém não disse mais qualquer palavra. O falcão se alongou em sua busca e quando retornou o seu voo tinha se mostrado infrutífero. O caravaneiro me alertou que tínhamos que arrumar as nossas coisas. A travessia não tardaria a começar naquele dia.
Alinhei ao lado de uma mulher alegre e falante. Assim como eu, Beatriz era latino-americana. Ela também seguia rumo ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Engrenamos uma animada conversa sobre espiritualidade e mística. Beatriz se declarou estudiosa em magia. Acreditava que o dervixe teria muitos conhecimentos para transmitir a ela. Confessou que aguardava o encontro com ansiedade. A Beatriz quis saber o que eu esperava da conversa com o sábio. Confessei que os meus interesses se modificaram no decorrer da travessia. Eu já não me reconhecia o mesmo da partida. Ela disse que eu não poderia ser tão volúvel e deveria ficar mais atento à minha essência. Ponderei que talvez a essência tenha permanecido imutável, em verdade, apenas mais desnudada. Isto tornava diferente o mundo que eu percebia à minha volta. Falei que naquele momento eu estava intrigado com as possibilidades permitidas pela terceira-visão. Beatriz sorriu e me revelou que era mais fácil do que eu acreditava. Falou que a magia tinha a chave daquele acesso. Contou que povos ancestrais das Américas usavam a mescalina, um fungo extraído de uma espécie de cactos, o peyote, para ativar o terceiro olho, localizado etereamente no centro da testa, entre as sobrancelhas.
Falei que tinha tomado conhecimento dessa prática através da leitura dos livros de Castanheda, além das experiências narradas por algumas pessoas próximas. Tão e somente. Beatriz contou que trazia alguma quantidade de mescalina em seu alforje e, se eu estivesse disposto, naquela noite ela me iniciaria à terceira-visão. Não neguei toda a minha dúvida. Não apenas quanto à eficácia, mas também à insegurança em vivenciar tal experiência. Eu soube que algumas histórias não tiveram finais felizes, com os experimentadores marcados por traumas. Beatriz explicou que cada um tem tanto o céu quanto o inferno dentro de si. Eu concordei, acrescentando que eu não tinha nenhuma dúvida quanto a isto; luz ou trevas será sempre uma questão pessoal. Beatriz disse que tudo dependeria de quem conduzisse a experiência; o facilitador, como ela designou. Falou, ainda, que era uma prática conhecida por ela desde a adolescência e que, portanto, poderia me conduzir a um universo inimaginável. Claro, se eu assim a permitisse.
Não respondi. Emendei uma pergunta em outras até para evitar qualquer compromisso. Todavia, ela se mostrou bastante animada em me mostrar os seus conhecimentos. Mais uma vez a caravana não fez a habitual parada no meio do dia para um breve descanso e uma refeição ligeira. O caravaneiro se mostrava determinado a cumprir o prazo dos quarenta dias de travessia. Ao final da tarde, quando veio a ordem para cessar a marcha e montarmos o acampamento para a noite, eu estava cansado e com fome. Beatriz me orientou a não comer nada, pois eu poderia vomitar. Disse, também, que o cansaço logo passaria e eu me sentiria revigorado assim que experimentasse o peyote. Esclareceu que eu viveria uma enorme sensação de introspecção e as cores se tornariam mais brilhantes. Também seria tomado por incrível sinestesia. Eu quis saber o que significava. Beatriz explicou que se trata de uma incrível experiência de inversão e mistura dos sentidos sensoriais, como sentir o cheiro de uma cor ou ouvir o som de um gosto. As portas da percepção se abririam para mim; o tempo e a realidade se revelariam em inacreditáveis dimensões.
Eu não disse palavra. De um lado, tinha a Beatriz com um discurso empolgante e se mostrando segura em suas promessas. De outro, uma voz silenciosa fortalecia em mim a ideia de recusar o convite. Beatriz disse para eu a esperar em um ponto distante da caravana enquanto ela pegava no alforje a mescalina e os demais apetrechos ritualísticos. Afastei-me e me permiti ouvir melhor o silêncio dessa voz interna que me orientava. Aos poucos a convicção se sedimentou em meu âmago. Quando a Beatriz retornou, eu não tinha qualquer dúvida. Agradeci a oportunidade, mas declinei a oferta.
Ela era uma pessoa educada e culta. Não se mostrou zangada, apenas se revelou decepcionada com a minha recusa. Deu a entender que eu era um fraco. Falou que eu não deveria deixar que o medo me conduzisse pelo Caminho. Acrescentou que o medo faz prevalecer o poder das sombras sobre a luz.
Beatriz se despediu e saiu. Afastei-me um pouco mais da caravana. As noites do deserto são sempre lindas e iluminadas pelas infinitas estrelas. Sozinho, andei até me deparar com uma pequena duna, do tamanho de uma casa. Sentada sobre ela, como se tivéssemos um encontro marcado, estava a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Como ela não fez qualquer objeção, subi a duna e me sentei ao seu lado. Contei o ocorrido. Embora não estivesse me sentindo mal, pois estava firme quanto a escolha feita, falei que ninguém gosta da acusação de covardia. A mulher ponderou: “Este é um olhar. O olhar pelo qual a Beatriz enxerga o mundo. Tudo e todos têm a forma e a substância possíveis ao olhar do observador. Circunstâncias que não representam necessariamente a verdade. Trata-se, neste caso, apenas dos limites da realidade da Beatriz. Não da sua, da minha, do caravaneiro ou de qualquer outro integrante da caravana. Cada qual vive na fronteira da própria consciência. Daí a importância de expandi-la.”
Perguntei se ela me considerava um covarde por me negar as experiências com a mescalina. Ela respondeu sem hesitar: “De jeito nenhum. Muitas vezes é mais fácil se deixar levar pelas correntezas do mundo para evitar a reprovação alheia. Isto, sim, é medo. Sem dúvida que o medo é o mestre das sombras. No entanto, outro mestre das sombras, ainda mais graduado, é a ignorância. Fazer-se surdo à voz da alma é se permitir a manipulação pelas sombras. A intuição sempre trabalha à favor da luz.” Eu questionei como eu saberia se voz ouvida era proveniente da intuição ou do medo. Pois, isto sempre esclarece se a decisão tomada tem as suas raízes nas sombras ou na luz. Ela dirimiu a questão: “A voz virtuosa, repleta de prudência e sabedoria, é calma e bem diferente dos gritos do medo. A prova disto consiste no simples fato de você estar sereno e se sentir bem mesmo diante da acusação de covardia feita pela Beatriz.”
A mulher de olhos azuis se aquietou por um breve tempo, como se lembrasse de uma ideia profunda. Depois sorriu e disse com sapiência: “Em verdade, me sinto mais tranquila quando me acusam injustamente”. Eu só fui entender o teor deste raciocínio muito tempo depois.
Em seguida, disse com convicção: “Não há atalhos no Caminho.” Questionei se realmente não existiam atalhos. Como eu saberia não ter desperdiçado uma oportunidade de expansão de consciência, perguntei. A mulher respondeu: “Nenhum artificialismo funciona para a alma. Acreditar que possamos alcançar a luz através de mecanismos forçados por substâncias químicas, psicotrópicas ou não, seria o mesmo em crer em uma pílula do amor verdadeiro.”
“É a obsoleta lei do menor esforço. Não se cura o medo com chás, não se evita o ciúme com comprimidos, não afastamos a inveja, o orgulho e o egoísmo pela receita de laboratórios farmacêuticos. A ferida da alma é a escuridão na qual o ego se encontra. Para isto, apenas a luz cura. Luz em forma de virtudes; virtudes apenas possíveis através fantástica viagem ao centro do ser.”
“Conhecer a si mesmo revela a verdade. A verdade leva à plenitude. A plenitude concede a terceira-visão; o olhar além da ilusão que esconde a realidade. Pois o ego, quando desequilibrado, ofusca a alma. A alma fica opaca quando precisa estar cristalina. Perde-se o poder do todo contido na parte.”
Imediatamente lembrei da conversa com o caravaneiro pela manhã. Sobre os iniciados nas tradições orientais, de Buda, dos filósofos gregos e de mestre Jesus. A necessidade dos meus olhos bons para que meu corpo resplandecesse em luz. A mulher comentou sobre as alterações do texto sofridas por sucessivas traduções através dos séculos. Alegou que a versão original dizia que “se o seu olho for simples todo universo será luz”. Argumentei que não percebia diferença significativa. Ela explicou: “Ele não falou olhos, mas olho. O mestre se referia ao olho cósmico; ao olhar da alma, não aos olhos físicos. ‘Corpo em luz’ dá ideia de sobrevivência no plano material; ‘universo em luz’ transmite o conceito de transcendência através do espírito.” Fez uma pausa e concluiu: “Esta é uma jornada possível apenas quando se faz consciência adentro para expandir os limites existência afora.”
Foi inevitável eu lembrar dos dizeres contidos no emblema da OEMM: “Aprender, Transmutar, Compartilhar e Seguir”. Sim, ali estava o mapa da evolução que não permite qualquer alternativa que não seja o aprimoramento através do autoconhecimento refletido nos relacionamentos pessoais. Isto exige muito esforço. Somente assim despertamos o olhar cósmico.
Ficamos algum tempo sem dizer palavra. Quebrei o silêncio para comentar sobre o conceito de “olho simples”. Não me parecia tão simples assim. Pedi para ela explicar melhor. A mulher de olhos azuis ficou quieta por alguns instantes como se procurasse por uma metáfora. Depois, explicou: “Michelangelo, o gênio da Renascença, quando questionado pelo seu extraordinário talento em esculpir no mármore, dizia que tudo para ele era muito simples: ‘Olho para pedra e vejo a estátua que está escondida dentro dela. Então, retiro as aparas que escondem a obra. A arte se revela’.”
Em seguida, finalizou: “Ter um olho simples é tirar o excesso que oculta a essência. Então, estaremos diante da beleza da vida; a imensidão da luz. Eis a verdade revelada.”
A mulher de olhos da cor de lápis-lazúli se despediu com um aceno de cabeça e saiu. Eu a vi caminhar pelo deserto até os limites permitidos aos meus olhos para se misturar com as estrelas e desparecer na noite. Pensei se a Ingrid, a astrônoma nórdica, a encontraria mais tarde, através das lentes do seu telescópio, bailando em uma das infinitas constelações.
Fui recebido com os melhores sorrisos. Eles estavam felizes. Ingrid contou que a posição era ótima para avistar Órion, uma constelação típica do equador celeste. Pude ver com enorme clareza Rígel e Betelgeuse, estrelas gigantes das cores azul e vermelha, respectivamente, que junto com as estrelas Bellatrix e Saiph compõem o quadrilátero principal. Era impossível não ficar maravilhado. Ingrid disse que algumas constelações eram austrais, outras boreais, acessíveis apenas dos hemisférios sul ou norte. Brincou dizendo que por isto os telescópios faziam parte da bagagem de todo astrônomo: “Não é mania, é necessidade.” Ela tornou a falar algo que já tinha me chamado atenção antes: “As constelações são criações humanas. Não passam de ilusões de ótica. As mesmas estrelas avistadas de diferentes pontos do planeta formam outros conjuntos.” Entre diversas lições, as estrelas nos ensinavam a ver, a separar a ilusão da realidade. Conversamos mais um pouco e a aproximação da manhã encerrou as observações. A caravana acordava. Agradeci os momentos agradáveis e me despedi. Eu estava sedento por uma caneca de café.
Ainda bebia a primeira caneca de café quando avistei o caravaneiro se afastar com o falcão para o treinamento matinal. Fui atrás. Ele me entregou uma grossa luva de couro. Disse que aquela era minha. A coloquei em meu braço esquerdo. Conforme tinha aprendido na aula do dia anterior, me aproximei da ave, disse em pensamento para que ela visse além dos olhos para encontrar o inimaginável, retirei a toca sobre a sua cabeça e a impulsionei com o movimento do braço. O falcão alçou voo. Ficou alguns minutos planando em círculos em grande altitude. Enquanto aguardávamos, comentei o fato de as constelações não passarem de meras ilusões, segundo a Ingrid me ensinara. Ele disse: “Há os olhos de ver o mundo; existe o olho de ver a vida.” Eu pedi para ele falar mais sobre o assunto. O caravaneiro explicou: “Os iniciados nas tradições orientais, desde sempre, alertam quanto à terceira-visão. Como se referia o mestre galileu: ‘Quando o seu olho é simples todo o universo é luz’.”
Falei que conhecia o ensinamento do Sermão da Montanha, texto muito utilizado na irmandade esotérica da qual eu era membro. Muito embora, observei, as traduções que eu havia lido falavam em “se os seus olhos forem bons todo o seu corpo resplandecerá em luz”, com algumas insignificantes diferenças a depender do tradutor e da editora. Pedi para ele aprofundar o seu entendimento. O caravaneiro foi humilde: “Sei pouco.” Fez uma pausa, olhou para o falcão no céu azul e disse: “Buda denominava de samadhia conquista desse olhar despertado no interior do próprio ser. É um estado de êxtase, como a sensação permitida a um cego diante da visão desconhecida. É a saída da escuridão da caverna no encontro com o sol na famosa alegoria narrada por Platão, o filósofo grego.”
Perguntei se ele achava possível alcançar essa visão extraordinária. O caravaneiro me lembrou: “No treinamento de ontem, através da linguagem da vida, o falcão conseguiu ver a caça enterrada na areia, invisível aos olhos do mundo”. Considerei a possibilidade do apurado instinto predador de uma ave de rapina. Lembrei a ele que animais não têm intuição nem consciência. O caravaneiro balançou a cabeça em concordância, porém não disse mais qualquer palavra. O falcão se alongou em sua busca e quando retornou o seu voo tinha se mostrado infrutífero. O caravaneiro me alertou que tínhamos que arrumar as nossas coisas. A travessia não tardaria a começar naquele dia.
Alinhei ao lado de uma mulher alegre e falante. Assim como eu, Beatriz era latino-americana. Ela também seguia rumo ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Engrenamos uma animada conversa sobre espiritualidade e mística. Beatriz se declarou estudiosa em magia. Acreditava que o dervixe teria muitos conhecimentos para transmitir a ela. Confessou que aguardava o encontro com ansiedade. A Beatriz quis saber o que eu esperava da conversa com o sábio. Confessei que os meus interesses se modificaram no decorrer da travessia. Eu já não me reconhecia o mesmo da partida. Ela disse que eu não poderia ser tão volúvel e deveria ficar mais atento à minha essência. Ponderei que talvez a essência tenha permanecido imutável, em verdade, apenas mais desnudada. Isto tornava diferente o mundo que eu percebia à minha volta. Falei que naquele momento eu estava intrigado com as possibilidades permitidas pela terceira-visão. Beatriz sorriu e me revelou que era mais fácil do que eu acreditava. Falou que a magia tinha a chave daquele acesso. Contou que povos ancestrais das Américas usavam a mescalina, um fungo extraído de uma espécie de cactos, o peyote, para ativar o terceiro olho, localizado etereamente no centro da testa, entre as sobrancelhas.
Falei que tinha tomado conhecimento dessa prática através da leitura dos livros de Castanheda, além das experiências narradas por algumas pessoas próximas. Tão e somente. Beatriz contou que trazia alguma quantidade de mescalina em seu alforje e, se eu estivesse disposto, naquela noite ela me iniciaria à terceira-visão. Não neguei toda a minha dúvida. Não apenas quanto à eficácia, mas também à insegurança em vivenciar tal experiência. Eu soube que algumas histórias não tiveram finais felizes, com os experimentadores marcados por traumas. Beatriz explicou que cada um tem tanto o céu quanto o inferno dentro de si. Eu concordei, acrescentando que eu não tinha nenhuma dúvida quanto a isto; luz ou trevas será sempre uma questão pessoal. Beatriz disse que tudo dependeria de quem conduzisse a experiência; o facilitador, como ela designou. Falou, ainda, que era uma prática conhecida por ela desde a adolescência e que, portanto, poderia me conduzir a um universo inimaginável. Claro, se eu assim a permitisse.
Não respondi. Emendei uma pergunta em outras até para evitar qualquer compromisso. Todavia, ela se mostrou bastante animada em me mostrar os seus conhecimentos. Mais uma vez a caravana não fez a habitual parada no meio do dia para um breve descanso e uma refeição ligeira. O caravaneiro se mostrava determinado a cumprir o prazo dos quarenta dias de travessia. Ao final da tarde, quando veio a ordem para cessar a marcha e montarmos o acampamento para a noite, eu estava cansado e com fome. Beatriz me orientou a não comer nada, pois eu poderia vomitar. Disse, também, que o cansaço logo passaria e eu me sentiria revigorado assim que experimentasse o peyote. Esclareceu que eu viveria uma enorme sensação de introspecção e as cores se tornariam mais brilhantes. Também seria tomado por incrível sinestesia. Eu quis saber o que significava. Beatriz explicou que se trata de uma incrível experiência de inversão e mistura dos sentidos sensoriais, como sentir o cheiro de uma cor ou ouvir o som de um gosto. As portas da percepção se abririam para mim; o tempo e a realidade se revelariam em inacreditáveis dimensões.
Eu não disse palavra. De um lado, tinha a Beatriz com um discurso empolgante e se mostrando segura em suas promessas. De outro, uma voz silenciosa fortalecia em mim a ideia de recusar o convite. Beatriz disse para eu a esperar em um ponto distante da caravana enquanto ela pegava no alforje a mescalina e os demais apetrechos ritualísticos. Afastei-me e me permiti ouvir melhor o silêncio dessa voz interna que me orientava. Aos poucos a convicção se sedimentou em meu âmago. Quando a Beatriz retornou, eu não tinha qualquer dúvida. Agradeci a oportunidade, mas declinei a oferta.
Ela era uma pessoa educada e culta. Não se mostrou zangada, apenas se revelou decepcionada com a minha recusa. Deu a entender que eu era um fraco. Falou que eu não deveria deixar que o medo me conduzisse pelo Caminho. Acrescentou que o medo faz prevalecer o poder das sombras sobre a luz.
Beatriz se despediu e saiu. Afastei-me um pouco mais da caravana. As noites do deserto são sempre lindas e iluminadas pelas infinitas estrelas. Sozinho, andei até me deparar com uma pequena duna, do tamanho de uma casa. Sentada sobre ela, como se tivéssemos um encontro marcado, estava a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Como ela não fez qualquer objeção, subi a duna e me sentei ao seu lado. Contei o ocorrido. Embora não estivesse me sentindo mal, pois estava firme quanto a escolha feita, falei que ninguém gosta da acusação de covardia. A mulher ponderou: “Este é um olhar. O olhar pelo qual a Beatriz enxerga o mundo. Tudo e todos têm a forma e a substância possíveis ao olhar do observador. Circunstâncias que não representam necessariamente a verdade. Trata-se, neste caso, apenas dos limites da realidade da Beatriz. Não da sua, da minha, do caravaneiro ou de qualquer outro integrante da caravana. Cada qual vive na fronteira da própria consciência. Daí a importância de expandi-la.”
Perguntei se ela me considerava um covarde por me negar as experiências com a mescalina. Ela respondeu sem hesitar: “De jeito nenhum. Muitas vezes é mais fácil se deixar levar pelas correntezas do mundo para evitar a reprovação alheia. Isto, sim, é medo. Sem dúvida que o medo é o mestre das sombras. No entanto, outro mestre das sombras, ainda mais graduado, é a ignorância. Fazer-se surdo à voz da alma é se permitir a manipulação pelas sombras. A intuição sempre trabalha à favor da luz.” Eu questionei como eu saberia se voz ouvida era proveniente da intuição ou do medo. Pois, isto sempre esclarece se a decisão tomada tem as suas raízes nas sombras ou na luz. Ela dirimiu a questão: “A voz virtuosa, repleta de prudência e sabedoria, é calma e bem diferente dos gritos do medo. A prova disto consiste no simples fato de você estar sereno e se sentir bem mesmo diante da acusação de covardia feita pela Beatriz.”
A mulher de olhos azuis se aquietou por um breve tempo, como se lembrasse de uma ideia profunda. Depois sorriu e disse com sapiência: “Em verdade, me sinto mais tranquila quando me acusam injustamente”. Eu só fui entender o teor deste raciocínio muito tempo depois.
Em seguida, disse com convicção: “Não há atalhos no Caminho.” Questionei se realmente não existiam atalhos. Como eu saberia não ter desperdiçado uma oportunidade de expansão de consciência, perguntei. A mulher respondeu: “Nenhum artificialismo funciona para a alma. Acreditar que possamos alcançar a luz através de mecanismos forçados por substâncias químicas, psicotrópicas ou não, seria o mesmo em crer em uma pílula do amor verdadeiro.”
“É a obsoleta lei do menor esforço. Não se cura o medo com chás, não se evita o ciúme com comprimidos, não afastamos a inveja, o orgulho e o egoísmo pela receita de laboratórios farmacêuticos. A ferida da alma é a escuridão na qual o ego se encontra. Para isto, apenas a luz cura. Luz em forma de virtudes; virtudes apenas possíveis através fantástica viagem ao centro do ser.”
“Conhecer a si mesmo revela a verdade. A verdade leva à plenitude. A plenitude concede a terceira-visão; o olhar além da ilusão que esconde a realidade. Pois o ego, quando desequilibrado, ofusca a alma. A alma fica opaca quando precisa estar cristalina. Perde-se o poder do todo contido na parte.”
Imediatamente lembrei da conversa com o caravaneiro pela manhã. Sobre os iniciados nas tradições orientais, de Buda, dos filósofos gregos e de mestre Jesus. A necessidade dos meus olhos bons para que meu corpo resplandecesse em luz. A mulher comentou sobre as alterações do texto sofridas por sucessivas traduções através dos séculos. Alegou que a versão original dizia que “se o seu olho for simples todo universo será luz”. Argumentei que não percebia diferença significativa. Ela explicou: “Ele não falou olhos, mas olho. O mestre se referia ao olho cósmico; ao olhar da alma, não aos olhos físicos. ‘Corpo em luz’ dá ideia de sobrevivência no plano material; ‘universo em luz’ transmite o conceito de transcendência através do espírito.” Fez uma pausa e concluiu: “Esta é uma jornada possível apenas quando se faz consciência adentro para expandir os limites existência afora.”
Foi inevitável eu lembrar dos dizeres contidos no emblema da OEMM: “Aprender, Transmutar, Compartilhar e Seguir”. Sim, ali estava o mapa da evolução que não permite qualquer alternativa que não seja o aprimoramento através do autoconhecimento refletido nos relacionamentos pessoais. Isto exige muito esforço. Somente assim despertamos o olhar cósmico.
Ficamos algum tempo sem dizer palavra. Quebrei o silêncio para comentar sobre o conceito de “olho simples”. Não me parecia tão simples assim. Pedi para ela explicar melhor. A mulher de olhos azuis ficou quieta por alguns instantes como se procurasse por uma metáfora. Depois, explicou: “Michelangelo, o gênio da Renascença, quando questionado pelo seu extraordinário talento em esculpir no mármore, dizia que tudo para ele era muito simples: ‘Olho para pedra e vejo a estátua que está escondida dentro dela. Então, retiro as aparas que escondem a obra. A arte se revela’.”
Em seguida, finalizou: “Ter um olho simples é tirar o excesso que oculta a essência. Então, estaremos diante da beleza da vida; a imensidão da luz. Eis a verdade revelada.”
A mulher de olhos da cor de lápis-lazúli se despediu com um aceno de cabeça e saiu. Eu a vi caminhar pelo deserto até os limites permitidos aos meus olhos para se misturar com as estrelas e desparecer na noite. Pensei se a Ingrid, a astrônoma nórdica, a encontraria mais tarde, através das lentes do seu telescópio, bailando em uma das infinitas constelações.
O trigésimo-quinto dia da travessia – a anciã do deserto
Eu tinha acordado bem-disposto. Era muito cedo. A caravana ainda
dormia. A leste o céu começava a ganhar o tom rosado que antecede ao
azul. Sem demora as estrelas se retirariam de cena. Em verdade, estariam
lá, apenas ocultas pela cortina do dia. Os sentidos permitem ou limitam
as percepções à medida de como lidamos com eles. Sentei na areia em
local um pouco afastado e fiquei pensando sobre a verdade que está por
trás dos nossos sentidos. O mundo e, por consequência, a vida nos é
concebido da maneira como entendemos tanto o mundo quanto a vida.
Quantas e quais cortinas preciso abrir para encontrar a verdade? Quanto
da vida eu perco por não a perceber em toda a sua amplitude e sutileza?
Eu estava envolto em minhas reflexões quando fui interrompido por uma
anciã. Ela parecia ter uma idade avançada ao analisar por sua pele
bastante enrugada. Não conseguia me recordar dela na caravana. As suas
feições não eram nem tristes nem alegres; apenas serenas. A anciã me
perguntou se eu podia acompanhá-la. Imaginei que ela precisava de ajuda
e, sem hesitar, me coloquei à disposição. Ela me levou até a tenda mais
distante do acampamento.
Quando entrei vi sobre uma mesa baixa, típicas dos acampamentos no deserto, um bolo coberto com frutas secas. Ela me acomodou em uma confortável almofada e se sentou em outra à frente. Serviu-me uma fatia de bolo com uma caneca de café. Uma combinação maravilhosa. Tudo muito gostoso. A anciã pegou uma pequena harpa e começou a tocar uma música suave. Tudo muito agradável. Quando acabei, a anciã tornou a colocar outra fatia em meu prato. Pedi mais um pouco de café para acompanhar o bolo. Ela disse que o café tinha acabado. Sugeriu que eu experimentasse um dos chás que ela fazia. Aceitei. Ela me serviu em uma xícara de fina porcelana. A minha língua ficou adormecida após eu provar o chá. Quando coloquei um pedaço de bolo na boca percebi que o mesmo bolo, que minutos antes havia me deliciado, tinha perdido todo o sabor. O chá tinha anestesiado as minhas papilas gustativas. Pensei que aquele não era um bom chá, pois furtava o sabor do bolo; ou talvez o bolo não fosse tão bom quanto imaginei. A anciã continuava a tocar a harpa. Porém, acelerou o ritmo. A música rápida acrescida do bolo sem sabor tornou, de um momento para outro, o ambiente desagradável. Nada falei. Apenas agradeci a hospitalidade, me despedi sob a alegação de que eu tinha que arrumar as minhas coisas e saí. A anciã não fez qualquer objeção; apenas sorriu.
Quando eu passava por entre as tendas fui interrompido por uma jovem e bela mulher. Ela pediu a minha ajuda para abrir uma pequena caixa. Era uma tenda confortável, repleta de almofadas estampadas ao estilo árabe e com um agradável perfume de incenso. A moça estava sozinha. A chave parecia emperrada. Pedi um pouco de óleo. Ela perguntou se azeite serviria. Falei que sim e ela me passou um vidro. A chave azeitada girou na fechadura da caixa sem qualquer dificuldade. A caixa estava repleta de joias de ouro e pedras preciosas. A mulher se mostrou agradecida e disse para eu escolher algo da caixa. Recusei. Ela insistiu. Diante da minha irredutibilidade a mulher escolheu um anel de fina ourivesaria, adornado com um precioso rubi, e tentou colocar em um dos meus dedos. Tornei a recusar. A minha resistência foi quebrada pelo seu belo sorriso e modo carinhoso pelo qual segurou na minha mão. Eu me senti no céu. Neste instante entrou na tenda um homem. Ele estava zangado. Os dois discutiram em um idioma que eu não conhecia. Não foi difícil perceber que o homem reclamava pela caixa. A discussão subiu de tom. O homem apontava para o anel que a mulher tinha me dado e gritava. A anciã, que há pouco tinha me servido o bolo, entrou no momento em que eu devolvia o anel, me puxou pegou pelo braço e me retirou da tenda. Senti-me aliviado de sair daquele lugar que mais parecia o inferno.
Caminhei até a tenda que servia de refeitório. O simples fato de já ter café pronto me alegrou. Enchi uma caneca e bebi ali mesmo. Eu bebo muito café, principalmente quando acordo. Após completar a segunda caneca, ouvi um grupo de homens conversando sobre o caravaneiro. Falavam que ele se casaria assim que a caravana chegasse ao oásis. Seria uma grande festa, mas apenas alguns integrantes da caravana teriam sido convidados. Todos do grupo se declararam convidados e que providenciariam os presentes sem demora. Eu não tinha recebido qualquer convite. Uma enorme insatisfação corroeu as minhas entranhas. Não ter sido convidado para o casamento me entristeceu e, pior, fui tomado por um misto de inveja e ciúme. Um dos homens ressaltou a insistência do caravaneiro para que ele não faltasse à festa; outro contou que também tinha sido convidado para apadrinhar o primogênito quando nascesse. Aquela conversa me fazia mal, mas por algum motivo, eu não conseguia me afastar. Como se o veneno que começou a correr em minhas veias precisasse de mais veneno para me manter de pé. Emoções insensatas e raciocínios absurdos. Foi quando a anciã tornou a me pegar pelo braço. Com um movimento suave tentou me retirar daquele espiral negativo de sensações. Resisti. Ela olhou firme para os meus olhos. Nos seus olhos havia uma luz muito forte, inversamente proporcional ao seu corpo alquebrado. Eram olhos que pareciam falar. Eles insistiam para que eu saísse dali, porém também me diziam que não podiam me obrigar; a escolha sempre seria minha. Decidi por acompanhá-la. Sem dizer palavra, nos afastamos do acampamento. Ela me conduziu para perto de onde o caravaneiro realizava o treinamento matinal com o seu falcão. Falei que eu não queria ficar ali. A presença dele a me incomodava. Naquele momento, na bagunça do meu coração, eu o considerava arrogante e estúpido. A anciã insistiu que permanecêssemos. Passado alguns instantes, ele nos viu e fez sinal para que nos aproximássemos. Chateado com o caravaneiro, hesitei. Ela me conduziu até o caravaneiro com a força da sua suavidade. A anciã possuía uma mansidão encantadora. Eles se cumprimentaram como velhos conhecidos. Ela se despediu, fiz menção em acompanhá-la, mas a anciã disse que iria sozinha. O caravaneiro arqueou os lábios em leve sorriso. Enquanto observava o falcão voar em círculos, quase sem bater as asas, sustentado no ar pela brisa da manhã a procura de uma caça, eu esperava pelo convite, ainda que tardio, para o casamento. O caravaneiro não tocou neste assunto.
Eu estava perdendo tempo ali. Falei que era melhor eu ir para não me atrasar, pois ainda tinha que arrumar as minhas coisas antes de partirmos. O caravaneiro me perguntou se eu queria aprender sobre a arte da falcoaria. Fiquei surpreso, eu sabia que tal ensinamento era um privilégio. Não havia uma escola que alguém pudesse se matricular para conhecer essa arte. Os mestres falcoeiros escolhiam os seus aprendizes; os conhecimentos eram transmitidos há séculos pela tradição oral. Naquele instante, os sentimentos e ideias que eu tinha pelo caravaneiro ficaram ainda mais confusos. De um lado, zangado por ter sido preterido da sua festa; de outro, alegre por ter sido convidado para algo tão importante. Embora magoado, não consegui recusar a incomensurável oferta. Apenas balancei a cabeça em concordância. Ele retirou a grossa luva de couro que usava em seu braço esquerdo e a colocou no meu. Era o ritual simbólico de iniciação. Com o silvo de um apito, inaudível ao ouvido humano por causa da alta frequência sonora, chamou o falcão de volta. Quando a ave se aproximava ele me orientou a manter o braço, no qual estava a luva de couro, bem levantado para que o pássaro não tivesse qualquer dúvida quanto ao local de pouso. Sem que me machucasse, senti a força das garras firmes do falcão em meu antebraço. Uma sensação agradável. Em seguida me entregou uma espécie de touca que tinha por objetivo tapar os olhos da ave. Pediu para que eu cobrisse a cabeça do animal com delicadeza. Ele explicou: “É para que o falcão não se distraia e possa se concentrar nas suas palavras. Diga para ele que apenas encontrará aquilo que conseguir ver. No entanto, fale também que enxergamos melhor quando vemos além dos olhos.” Diante do meu olhar atônito, acrescentou: “Por mais apurados que sejam os olhos de uma ave de rapina.” Em seguida, explicou: “Sempre podemos ouvir sem qualquer palavra; se deliciar sem usar o paladar. É preciso sentir além dos sentidos.”
Achei tudo aquilo muito estranho. O primeiro pensamento foi de como encontrar a melhor maneira para aconselhar um falcão sem me sentir ridículo. Em seguida me ocorreu que talvez fosse uma limitação pessoal desprezar a inteligência e o instinto alheio, mesmo que de um animal. Assim, procurei as melhores palavras para aconselhar o pássaro. O caravaneiro me mostrou o movimento que eu teria de fazer com o braço como sinal para que a ave alçasse voo. Assim aconteceu. O falcão voou em círculos por minutos que me pareceram intermináveis. Comentei que aquela região do deserto era inóspita ao extremo, imprópria para a vida. Não haveria qualquer caça ali. O caravaneiro voltou a soar o apito inaudível. Falcão retornou. Levantei o braço esquerdo com a luva de couro para ele pousar. O caravaneiro colocou a toca sobre a cabeça do animal. Porém, ao invés de pedir para que eu falasse, ele próprio aproximou a sua cabeça ao falcão e movimentou os lábios como se conversasse com o pássaro. Não em palavras faladas, mas em pensamento. Achei esquisito. Fez sinal para eu liberar o animal para um novo voo. Quando retirei a touca da cabeça da ave, ela virou a cabeça e olhou para o caravaneiro por um breve instante como se dissesse que tinha compreendido aquilo que não foi dito. O pássaro ganhou o céu. Após planar por algum tempo, o falcão recolheu as asas para mergulhar vertiginosamente até o solo. De longe vimos a ave escavar as areias do deserto e trazer em suas garras uma serpente que, escondida, se acreditava protegida sob o piso arenoso e sem vida.
O caravaneiro disse que era hora de encerrar. Por aquele dia bastava: “Hoje marcharemos até mais tarde. Não haverá o treino vespertino. Caso queira prosseguir se apresente amanhã bem cedo.” Agradeci, disse que ele podia contar comigo no dia seguinte. No entanto, algo ainda me incomodava. Antes de sair para arrumar as minhas coisas, desejei que ele fosse feliz em seu casamento. O caravaneiro sorriu, deu de ombros e disse: “Eu sou feliz no meu casamento. Tenho esposa e filhos; amo a minha família. Não vejo a hora de retornar para casa e me aconchegar.” Surpreso, me despedi e saí sem falar mais nada. Coloquei tudo no alforje e o ajeitei sobre o camelo. Procurei a anciã por todos os lugares, pois eu queria alinhar ao seu lado na marcha. Eu tinha muitas perguntas para fazer. No entanto, não tive sucesso. Indaguei por ela a várias pessoas; ninguém a tinha visto.
Naquele dia ninguém emparelhou comigo. Segui acompanhado apenas dos meus pensamentos e sentimentos. Quando encerramos a marcha a noite se avizinhava. O acampamento foi erguido e me afastei um pouco enquanto esperava o aviso para o jantar. Eu meditava sobre a necessidade de perceber além dos sentidos; sentir além das emoções; entender além das razões. Sim, existia algo de verdadeiro e valioso a ser percebido, sentido e entendido para uma vida plena que naquele momento eu deixava escapar.
“A paz”, ouvi uma voz doce atrás de mim. Não era a anciã. A bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli se aproximou sem eu perceber e, mais uma vez, parecia adivinhar o que acontecia comigo. Ela se sentou ao meu lado e disse: “Enquanto permitirmos que a densidade do mundo afete a sutileza da alma ficaremos distantes da paz. Acreditar que a paz depende dos fatos da vida é uma tola ilusão. Quando ainda rumo à maturidade acreditamos conhecer as delícias pelo paladar, o perfume pelo olfato, a beleza pelos olhos, a música pela audição e a textura pelo tato. A vida é mais. A verdade está bem distante dos sentidos básicos.”
“O bolo deixa de ter sabor se eu estiver gripada. A música cessa de tocar se eu me negar a ouvir. A beleza se desmancha se eu fechar os olhos. Ou será que continuam a existir além dos meus sentidos, da minha capacidade de perceber e compreender tudo o que há?”
“Tentar entender a vida apenas através dos sentidos básicos é desperdiçar a sua grande e melhor parte. As minhas limitações não podem impedir a minha caminhada. O Caminho muda quando o andarilho se transforma. Qualquer um pode ser mais, mas é preciso treino para ver a serpente que se oculta sob a areia”, disse em explicita alusão a experiência vivida naquela manhã, mas também em clara metáfora.
Falei que tanto o mundo quanto a vida são maiores quando eu me permito os sentimentos e a razão para entendê-los. Assim os percebo além dos sentidos básicos. Coração e mente são indispensáveis para a compreensão de tudo e de todos. A mulher de olhos azuis concordou apenas em parte: “Sim, no entanto, temos que aprender a sentir e a raciocinar sem a areia das sombras que esconde a paz. Um assunto no qual já falamos várias vezes durante esta travessia, mas que nos persegue diariamente. Amor ou ódio não dependem da informação oferecida, mas da antena que a captar e do canal que a codificar. A sua opinião e sentimento sobre o caravaneiro mudou quando a mentira e a intriga estimularam a vaidade, o orgulho, o ciúme e a inveja. Uma cortina se fechou e a beleza desapareceu.”
“Quando o coração e a mente estão pacificados pela humildade, compaixão, simplicidade, mansidão, sinceridade, entre outras virtudes cuja raiz é o amor, tudo e todos se tornam diferentes. Tudo fica claro e sereno, todos se tornam belos e interessantes mesmo diante das enormes dificuldades inerentes à vida. As cortinas se abrem.” Fez uma pausa e concluiu: “Em suma, sim, precisamos do coração e da mente para entender a exata verdade e a perfeita beleza da grande escola. Contudo, não basta usá-los. O amadurecimento se faz indispensável. Precisamos de um coração puro e uma mente profunda. Há os que ainda estão em sementes; existem os que já se compartilham em frutos.”
“Os canais de entendimento e percepção são muitos; todos têm o seu valor. Alguns, entretanto, se mostram extremamente poderosos. Há aqueles que chegam prontos como a audição, a visão, o tato, o olfato e o paladar, por isto são considerados básicos. Coração e mente, através das emoções e das razões, são considerados pelos eruditos como fundamentais para o entendimento do mundo e da vida. No entanto, embora importantíssimos, necessitam de aprimoramento. São sentidos de nível intermediário devido à extensão do alcance.”
Se coração e mente eram intermediários, quais seriam os essenciais? A mulher explicou: “A intuição é a quintessência dos sentidos enquanto estivermos na terceira dimensão. A intuição, quando bem desenvolvida, é um canal valioso de comunicação com os planos superiores. Quando mal trabalhada acaba servindo às esferas turvas da existência. Não raro os andarilhos imaturos costumam confundir a intuição com os seus desejos e medos. Para discernir uma dos outros é preciso amor e sabedoria, através de muito conhecimento e exercícios, para que todas as cortinas se abram. Nada é fácil.”
“Contudo, não é só. Alguns sentidos são próprios do ego, pois nos dizem muito sobre a sobrevivência; outros são permitidos apenas através da alma ao nos orientar quanto à transcendência. A intuição são os olhos, a voz, o ritmo, a percepção, o gosto, os sentimentos e a razão da sua alma. Isto é muito importante e poderoso. A alma é a sua parte sagrada no todo universal. Ela o torna um ser cósmico. A alma conhece a origem da vida. Através da intuição a alma tem o poder de te levar à zero-dimensão, onde tudo é cristalino e as plenitudes aguardam. Apenas com ela à frente poderemos chegar à verdade.”
Ficamos em silêncio por algum tempo. A mulher disse que tinha coisas a fazer e se levantou. Agradeci a conversa. Falei que eu tinha muito o que pensar e me esforçaria para amadurecer a minha intuição como ferramenta evolutiva. A mulher sorriu. Antes de ela sair, perguntei sobre a anciã. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli explicou: “Ela é uma mensageira da paz. De todas as plenitudes, a paz é a mais difícil de se conquistar. Parece escondida ou perdida sob tanta areia que colocamos sobre ela. Assim como a felicidade, o amor, a dignidade e a liberdade, a paz está em semente dentro de cada um de nós. Para encontrar a paz é preciso perceber além dos sentidos, sentir além emoções, entender além da razão. A semente da paz é uma semente sutil, porém poderosa. Perceptível apenas à sensibilidade da alma.”
“Como um pequenino, e aparentemente frágil e sem vida, grão de trigo. Além do invólucro da casca do grão, para quem aprendeu a ver, existe o pão. Para que o grão germine em vida a casca inerte precisa se romper. Algumas cascas se rompem com o equilíbrio das emoções, outras com a clareza da razão. Contudo, há invólucros que precisam de uma força maior para que o pão da vida se manifeste através da paz. A fé é este poder. Não se alcança a fé sem a intuição.”
“O fruto parece inexistir quando não vemos além do caroço; o fruto está ali, apenas ainda é invisível aos olhares inflexíveis e intangível à percepção superficial. São os véus que precisam ser descortinados. Mas, não tenha dúvida, todo o fruto um dia esteve oculto atrás de um véu em forma de caroço.”
Falei que gostaria de encontrar a anciã de novo. A mulher de olhos azuis sorriu, sacudiu a cabeça como quem diz que eu não tinha jeito e finalizou: “Passe a prestar mais atenção à sua volta. Você a encontrará todos os dias. Ela sempre esteve ao seu lado. Assim se disfarçam os anjos.”
Quando entrei vi sobre uma mesa baixa, típicas dos acampamentos no deserto, um bolo coberto com frutas secas. Ela me acomodou em uma confortável almofada e se sentou em outra à frente. Serviu-me uma fatia de bolo com uma caneca de café. Uma combinação maravilhosa. Tudo muito gostoso. A anciã pegou uma pequena harpa e começou a tocar uma música suave. Tudo muito agradável. Quando acabei, a anciã tornou a colocar outra fatia em meu prato. Pedi mais um pouco de café para acompanhar o bolo. Ela disse que o café tinha acabado. Sugeriu que eu experimentasse um dos chás que ela fazia. Aceitei. Ela me serviu em uma xícara de fina porcelana. A minha língua ficou adormecida após eu provar o chá. Quando coloquei um pedaço de bolo na boca percebi que o mesmo bolo, que minutos antes havia me deliciado, tinha perdido todo o sabor. O chá tinha anestesiado as minhas papilas gustativas. Pensei que aquele não era um bom chá, pois furtava o sabor do bolo; ou talvez o bolo não fosse tão bom quanto imaginei. A anciã continuava a tocar a harpa. Porém, acelerou o ritmo. A música rápida acrescida do bolo sem sabor tornou, de um momento para outro, o ambiente desagradável. Nada falei. Apenas agradeci a hospitalidade, me despedi sob a alegação de que eu tinha que arrumar as minhas coisas e saí. A anciã não fez qualquer objeção; apenas sorriu.
Quando eu passava por entre as tendas fui interrompido por uma jovem e bela mulher. Ela pediu a minha ajuda para abrir uma pequena caixa. Era uma tenda confortável, repleta de almofadas estampadas ao estilo árabe e com um agradável perfume de incenso. A moça estava sozinha. A chave parecia emperrada. Pedi um pouco de óleo. Ela perguntou se azeite serviria. Falei que sim e ela me passou um vidro. A chave azeitada girou na fechadura da caixa sem qualquer dificuldade. A caixa estava repleta de joias de ouro e pedras preciosas. A mulher se mostrou agradecida e disse para eu escolher algo da caixa. Recusei. Ela insistiu. Diante da minha irredutibilidade a mulher escolheu um anel de fina ourivesaria, adornado com um precioso rubi, e tentou colocar em um dos meus dedos. Tornei a recusar. A minha resistência foi quebrada pelo seu belo sorriso e modo carinhoso pelo qual segurou na minha mão. Eu me senti no céu. Neste instante entrou na tenda um homem. Ele estava zangado. Os dois discutiram em um idioma que eu não conhecia. Não foi difícil perceber que o homem reclamava pela caixa. A discussão subiu de tom. O homem apontava para o anel que a mulher tinha me dado e gritava. A anciã, que há pouco tinha me servido o bolo, entrou no momento em que eu devolvia o anel, me puxou pegou pelo braço e me retirou da tenda. Senti-me aliviado de sair daquele lugar que mais parecia o inferno.
Caminhei até a tenda que servia de refeitório. O simples fato de já ter café pronto me alegrou. Enchi uma caneca e bebi ali mesmo. Eu bebo muito café, principalmente quando acordo. Após completar a segunda caneca, ouvi um grupo de homens conversando sobre o caravaneiro. Falavam que ele se casaria assim que a caravana chegasse ao oásis. Seria uma grande festa, mas apenas alguns integrantes da caravana teriam sido convidados. Todos do grupo se declararam convidados e que providenciariam os presentes sem demora. Eu não tinha recebido qualquer convite. Uma enorme insatisfação corroeu as minhas entranhas. Não ter sido convidado para o casamento me entristeceu e, pior, fui tomado por um misto de inveja e ciúme. Um dos homens ressaltou a insistência do caravaneiro para que ele não faltasse à festa; outro contou que também tinha sido convidado para apadrinhar o primogênito quando nascesse. Aquela conversa me fazia mal, mas por algum motivo, eu não conseguia me afastar. Como se o veneno que começou a correr em minhas veias precisasse de mais veneno para me manter de pé. Emoções insensatas e raciocínios absurdos. Foi quando a anciã tornou a me pegar pelo braço. Com um movimento suave tentou me retirar daquele espiral negativo de sensações. Resisti. Ela olhou firme para os meus olhos. Nos seus olhos havia uma luz muito forte, inversamente proporcional ao seu corpo alquebrado. Eram olhos que pareciam falar. Eles insistiam para que eu saísse dali, porém também me diziam que não podiam me obrigar; a escolha sempre seria minha. Decidi por acompanhá-la. Sem dizer palavra, nos afastamos do acampamento. Ela me conduziu para perto de onde o caravaneiro realizava o treinamento matinal com o seu falcão. Falei que eu não queria ficar ali. A presença dele a me incomodava. Naquele momento, na bagunça do meu coração, eu o considerava arrogante e estúpido. A anciã insistiu que permanecêssemos. Passado alguns instantes, ele nos viu e fez sinal para que nos aproximássemos. Chateado com o caravaneiro, hesitei. Ela me conduziu até o caravaneiro com a força da sua suavidade. A anciã possuía uma mansidão encantadora. Eles se cumprimentaram como velhos conhecidos. Ela se despediu, fiz menção em acompanhá-la, mas a anciã disse que iria sozinha. O caravaneiro arqueou os lábios em leve sorriso. Enquanto observava o falcão voar em círculos, quase sem bater as asas, sustentado no ar pela brisa da manhã a procura de uma caça, eu esperava pelo convite, ainda que tardio, para o casamento. O caravaneiro não tocou neste assunto.
Eu estava perdendo tempo ali. Falei que era melhor eu ir para não me atrasar, pois ainda tinha que arrumar as minhas coisas antes de partirmos. O caravaneiro me perguntou se eu queria aprender sobre a arte da falcoaria. Fiquei surpreso, eu sabia que tal ensinamento era um privilégio. Não havia uma escola que alguém pudesse se matricular para conhecer essa arte. Os mestres falcoeiros escolhiam os seus aprendizes; os conhecimentos eram transmitidos há séculos pela tradição oral. Naquele instante, os sentimentos e ideias que eu tinha pelo caravaneiro ficaram ainda mais confusos. De um lado, zangado por ter sido preterido da sua festa; de outro, alegre por ter sido convidado para algo tão importante. Embora magoado, não consegui recusar a incomensurável oferta. Apenas balancei a cabeça em concordância. Ele retirou a grossa luva de couro que usava em seu braço esquerdo e a colocou no meu. Era o ritual simbólico de iniciação. Com o silvo de um apito, inaudível ao ouvido humano por causa da alta frequência sonora, chamou o falcão de volta. Quando a ave se aproximava ele me orientou a manter o braço, no qual estava a luva de couro, bem levantado para que o pássaro não tivesse qualquer dúvida quanto ao local de pouso. Sem que me machucasse, senti a força das garras firmes do falcão em meu antebraço. Uma sensação agradável. Em seguida me entregou uma espécie de touca que tinha por objetivo tapar os olhos da ave. Pediu para que eu cobrisse a cabeça do animal com delicadeza. Ele explicou: “É para que o falcão não se distraia e possa se concentrar nas suas palavras. Diga para ele que apenas encontrará aquilo que conseguir ver. No entanto, fale também que enxergamos melhor quando vemos além dos olhos.” Diante do meu olhar atônito, acrescentou: “Por mais apurados que sejam os olhos de uma ave de rapina.” Em seguida, explicou: “Sempre podemos ouvir sem qualquer palavra; se deliciar sem usar o paladar. É preciso sentir além dos sentidos.”
Achei tudo aquilo muito estranho. O primeiro pensamento foi de como encontrar a melhor maneira para aconselhar um falcão sem me sentir ridículo. Em seguida me ocorreu que talvez fosse uma limitação pessoal desprezar a inteligência e o instinto alheio, mesmo que de um animal. Assim, procurei as melhores palavras para aconselhar o pássaro. O caravaneiro me mostrou o movimento que eu teria de fazer com o braço como sinal para que a ave alçasse voo. Assim aconteceu. O falcão voou em círculos por minutos que me pareceram intermináveis. Comentei que aquela região do deserto era inóspita ao extremo, imprópria para a vida. Não haveria qualquer caça ali. O caravaneiro voltou a soar o apito inaudível. Falcão retornou. Levantei o braço esquerdo com a luva de couro para ele pousar. O caravaneiro colocou a toca sobre a cabeça do animal. Porém, ao invés de pedir para que eu falasse, ele próprio aproximou a sua cabeça ao falcão e movimentou os lábios como se conversasse com o pássaro. Não em palavras faladas, mas em pensamento. Achei esquisito. Fez sinal para eu liberar o animal para um novo voo. Quando retirei a touca da cabeça da ave, ela virou a cabeça e olhou para o caravaneiro por um breve instante como se dissesse que tinha compreendido aquilo que não foi dito. O pássaro ganhou o céu. Após planar por algum tempo, o falcão recolheu as asas para mergulhar vertiginosamente até o solo. De longe vimos a ave escavar as areias do deserto e trazer em suas garras uma serpente que, escondida, se acreditava protegida sob o piso arenoso e sem vida.
O caravaneiro disse que era hora de encerrar. Por aquele dia bastava: “Hoje marcharemos até mais tarde. Não haverá o treino vespertino. Caso queira prosseguir se apresente amanhã bem cedo.” Agradeci, disse que ele podia contar comigo no dia seguinte. No entanto, algo ainda me incomodava. Antes de sair para arrumar as minhas coisas, desejei que ele fosse feliz em seu casamento. O caravaneiro sorriu, deu de ombros e disse: “Eu sou feliz no meu casamento. Tenho esposa e filhos; amo a minha família. Não vejo a hora de retornar para casa e me aconchegar.” Surpreso, me despedi e saí sem falar mais nada. Coloquei tudo no alforje e o ajeitei sobre o camelo. Procurei a anciã por todos os lugares, pois eu queria alinhar ao seu lado na marcha. Eu tinha muitas perguntas para fazer. No entanto, não tive sucesso. Indaguei por ela a várias pessoas; ninguém a tinha visto.
Naquele dia ninguém emparelhou comigo. Segui acompanhado apenas dos meus pensamentos e sentimentos. Quando encerramos a marcha a noite se avizinhava. O acampamento foi erguido e me afastei um pouco enquanto esperava o aviso para o jantar. Eu meditava sobre a necessidade de perceber além dos sentidos; sentir além das emoções; entender além das razões. Sim, existia algo de verdadeiro e valioso a ser percebido, sentido e entendido para uma vida plena que naquele momento eu deixava escapar.
“A paz”, ouvi uma voz doce atrás de mim. Não era a anciã. A bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli se aproximou sem eu perceber e, mais uma vez, parecia adivinhar o que acontecia comigo. Ela se sentou ao meu lado e disse: “Enquanto permitirmos que a densidade do mundo afete a sutileza da alma ficaremos distantes da paz. Acreditar que a paz depende dos fatos da vida é uma tola ilusão. Quando ainda rumo à maturidade acreditamos conhecer as delícias pelo paladar, o perfume pelo olfato, a beleza pelos olhos, a música pela audição e a textura pelo tato. A vida é mais. A verdade está bem distante dos sentidos básicos.”
“O bolo deixa de ter sabor se eu estiver gripada. A música cessa de tocar se eu me negar a ouvir. A beleza se desmancha se eu fechar os olhos. Ou será que continuam a existir além dos meus sentidos, da minha capacidade de perceber e compreender tudo o que há?”
“Tentar entender a vida apenas através dos sentidos básicos é desperdiçar a sua grande e melhor parte. As minhas limitações não podem impedir a minha caminhada. O Caminho muda quando o andarilho se transforma. Qualquer um pode ser mais, mas é preciso treino para ver a serpente que se oculta sob a areia”, disse em explicita alusão a experiência vivida naquela manhã, mas também em clara metáfora.
Falei que tanto o mundo quanto a vida são maiores quando eu me permito os sentimentos e a razão para entendê-los. Assim os percebo além dos sentidos básicos. Coração e mente são indispensáveis para a compreensão de tudo e de todos. A mulher de olhos azuis concordou apenas em parte: “Sim, no entanto, temos que aprender a sentir e a raciocinar sem a areia das sombras que esconde a paz. Um assunto no qual já falamos várias vezes durante esta travessia, mas que nos persegue diariamente. Amor ou ódio não dependem da informação oferecida, mas da antena que a captar e do canal que a codificar. A sua opinião e sentimento sobre o caravaneiro mudou quando a mentira e a intriga estimularam a vaidade, o orgulho, o ciúme e a inveja. Uma cortina se fechou e a beleza desapareceu.”
“Quando o coração e a mente estão pacificados pela humildade, compaixão, simplicidade, mansidão, sinceridade, entre outras virtudes cuja raiz é o amor, tudo e todos se tornam diferentes. Tudo fica claro e sereno, todos se tornam belos e interessantes mesmo diante das enormes dificuldades inerentes à vida. As cortinas se abrem.” Fez uma pausa e concluiu: “Em suma, sim, precisamos do coração e da mente para entender a exata verdade e a perfeita beleza da grande escola. Contudo, não basta usá-los. O amadurecimento se faz indispensável. Precisamos de um coração puro e uma mente profunda. Há os que ainda estão em sementes; existem os que já se compartilham em frutos.”
“Os canais de entendimento e percepção são muitos; todos têm o seu valor. Alguns, entretanto, se mostram extremamente poderosos. Há aqueles que chegam prontos como a audição, a visão, o tato, o olfato e o paladar, por isto são considerados básicos. Coração e mente, através das emoções e das razões, são considerados pelos eruditos como fundamentais para o entendimento do mundo e da vida. No entanto, embora importantíssimos, necessitam de aprimoramento. São sentidos de nível intermediário devido à extensão do alcance.”
Se coração e mente eram intermediários, quais seriam os essenciais? A mulher explicou: “A intuição é a quintessência dos sentidos enquanto estivermos na terceira dimensão. A intuição, quando bem desenvolvida, é um canal valioso de comunicação com os planos superiores. Quando mal trabalhada acaba servindo às esferas turvas da existência. Não raro os andarilhos imaturos costumam confundir a intuição com os seus desejos e medos. Para discernir uma dos outros é preciso amor e sabedoria, através de muito conhecimento e exercícios, para que todas as cortinas se abram. Nada é fácil.”
“Contudo, não é só. Alguns sentidos são próprios do ego, pois nos dizem muito sobre a sobrevivência; outros são permitidos apenas através da alma ao nos orientar quanto à transcendência. A intuição são os olhos, a voz, o ritmo, a percepção, o gosto, os sentimentos e a razão da sua alma. Isto é muito importante e poderoso. A alma é a sua parte sagrada no todo universal. Ela o torna um ser cósmico. A alma conhece a origem da vida. Através da intuição a alma tem o poder de te levar à zero-dimensão, onde tudo é cristalino e as plenitudes aguardam. Apenas com ela à frente poderemos chegar à verdade.”
Ficamos em silêncio por algum tempo. A mulher disse que tinha coisas a fazer e se levantou. Agradeci a conversa. Falei que eu tinha muito o que pensar e me esforçaria para amadurecer a minha intuição como ferramenta evolutiva. A mulher sorriu. Antes de ela sair, perguntei sobre a anciã. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli explicou: “Ela é uma mensageira da paz. De todas as plenitudes, a paz é a mais difícil de se conquistar. Parece escondida ou perdida sob tanta areia que colocamos sobre ela. Assim como a felicidade, o amor, a dignidade e a liberdade, a paz está em semente dentro de cada um de nós. Para encontrar a paz é preciso perceber além dos sentidos, sentir além emoções, entender além da razão. A semente da paz é uma semente sutil, porém poderosa. Perceptível apenas à sensibilidade da alma.”
“Como um pequenino, e aparentemente frágil e sem vida, grão de trigo. Além do invólucro da casca do grão, para quem aprendeu a ver, existe o pão. Para que o grão germine em vida a casca inerte precisa se romper. Algumas cascas se rompem com o equilíbrio das emoções, outras com a clareza da razão. Contudo, há invólucros que precisam de uma força maior para que o pão da vida se manifeste através da paz. A fé é este poder. Não se alcança a fé sem a intuição.”
“O fruto parece inexistir quando não vemos além do caroço; o fruto está ali, apenas ainda é invisível aos olhares inflexíveis e intangível à percepção superficial. São os véus que precisam ser descortinados. Mas, não tenha dúvida, todo o fruto um dia esteve oculto atrás de um véu em forma de caroço.”
Falei que gostaria de encontrar a anciã de novo. A mulher de olhos azuis sorriu, sacudiu a cabeça como quem diz que eu não tinha jeito e finalizou: “Passe a prestar mais atenção à sua volta. Você a encontrará todos os dias. Ela sempre esteve ao seu lado. Assim se disfarçam os anjos.”
O trigésimo-quarto dia da travessia – a cruz
Acordei bem-disposto. E tarde. O caravaneiro já retornava com o
falcão pousado na grossa luva de couro do braço esquerdo quando enchi
uma caneca com café fresco na tenda que servia de refeitório. O
acompanhei com o olhar. Ele entregou o pássaro aos cuidados de um
encarregado e remexeu nas suas coisas em busca de algo. Já tinha me
chamado atenção o fato de o caravaneiro carregar tão poucas coisas na
sua bagagem. Poucos na caravana levavam um alforje tão leve. De quanto eu menos precisar mais livre serei,
era um ensinamento que, pelo visto, ele cumpria à risca. Aproximei-me.
Como ele olhou sem fazer objeção, me encorajei a chegar mais perto.
Comentei sobre a minha observação. Ele disse: “As desnecessidades sobre
as coisas do mundo são fatores que ajudam e sinalizam a conquista da
liberdade por evitar as relações de dependência. Contudo, não basta.
Pois posso estar além dos cárceres da matéria, mas aprisionado nas
esferas das emoções. A liberdade é um estado por inteiro do ser. Uma
conquista profunda”, com a mão fez no ar um traço na vertical, “E
ampla”, e desenhou outro traço na horizontal. Uma cruz. Não entendi a
razão do gesto.
Ele se virou e voltou a se concentrar no que estava fazendo. Continuei de pé ao seu lado. Falei que eu tinha relação de amor e ódio com o deserto. A cada dia me era permitido uma lição. No entanto, às duras penas. O caravaneiro olhou para mim e aconselhou: “Quando o deserto estiver por demais inóspito, se deixe encantar pela luz das estrelas. Contudo, não se satisfaça com elas a ponto de esquecer de prosseguir na travessia.” E tornou a se virar. Acrescentei que percebia que o deserto era a metáfora da vida; a travessia representava os percalços e as delícias da existência de todos nós. O caravaneiro continuava agachado revirando os seus pertences. Ele voltou a me olhar e disse: “Uma flor traduz todo o universo e as manifestações da existência. Mesmo assim continua sendo apenas uma flor”. Comentei que das duas, uma. Ele não tinha entendido a minha observação ou eu não havia compreendido a sua resposta. O caravaneiro pegou a bússola que procurava, fechou o alforje, se levantou e disse: “A travessia não é apenas o deserto” e tornou a fazer o movimento horizontal com a mão, “Mas também é as estrelas” e fez a linha vertical no ar. A cruz, de novo. Prosseguiu: “Entenda algo, um assunto, um conceito ou a si mesmo. Mas, principalmente, entenda que nada restará limitado na fronteira da sua percepção, salvo você próprio.” E saiu.
Fiquei pensando nas palavras do caravaneiro enquanto esvaziava a caneca de café. Eu estava atrasado. Arrumei as minhas coisas no alforje e aprumei o camelo na fila para a marcha de mais um dia. Quem alinhou ao meu lado foi um europeu. Um homem que eu já conhecia de vista, como todos naquela altura da travessia, mas com quem eu nunca conversara. Julius, como se chamava, era muito gentil, simpático e educado. Uma pessoa bastante agradável de conviver. Sem demora, puxou assunto. Perguntou sobre a minha atividade profissional. Respondi-lhe. Ele mostrou interesse em saber sobre a agência de propaganda. Fez vários questionamentos sobre o funcionamento. Ele quis saber se a travessia tinha algum intuito comercial. Falei que não; apenas me interessava conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Ele nada perguntou sobre isto. Em seguida, revelou que era mercador de remédios. Tinha feito fortuna como representante dos principais laboratórios da Europa nos “confins do mundo”, como se referiu aos lugares pelos quais viajava oferecendo os medicamentos. Viajava ao oásis à negócio. Falou que era um privilegiado, pois tinha a oportunidade de conhecer os lugares mais insólitos do planeta, onde os outros representantes se recusavam a ir. De sobra, ficava rico enquanto se divertia e aproveitava a vida. Enriquecia com dinheiro e histórias, fez questão de acrescentar. Contou a experiência vivida no ano anterior em um campo de refugiados dentro de uma zona de guerra na região central da África. Um país dividido por etnias, mas principalmente, e infelizmente, cortado pelo ódio. Explicou que apesar de terem vários aspectos culturais em comum, e isto os tornava uma nação, as diferenças se manifestavam em intolerância, sangue e morte. Um povo destruído econômica e afetivamente. Nessa ocasião, quando chegou ao campo de refugiados, encontrou muitas pessoas, entre adultos e crianças, mutiladas pelas tribos rivais para que não servissem mais para o combate nem para o trabalho e, assim, no ápice da maldade, se tornassem um ônus para os seus parentes pelo resto da existência. Para piorar, além de diversas doenças, uma perigosa epidemia se alastrava em razão das precárias condições de saúde e higiene. Não havia hospitais, todos destruídos na guerra absurda. Alimentos e água potável eram racionados. Uma organização não-governamental humanitária, formada por médicos de todo o mundo, que durante os seus períodos de férias viajavam para lá, pagando todos os custos do próprio bolso, com o objetivo de levar a assistência e o atendimento possível à região e àquele povo, mantinham a vida possível. Viu cirurgias sendo feitas em tendas e curas alcançadas pela inenarrável determinação, competência e amor daqueles profissionais.
Eu ouvia atentamente. Nesse momento comentei que Deus os iluminasse e os protegesse. “Deus? Que Deus? Qual o Ser repleto de amor, sabedoria e justiça permitiria aquele descalabro? Por que Ele não soluciona aquele suplício desumano?”, deixou transparecer a sua revolta e a descrença em um mundo invisível que permeia e interage ao visível. Narrou que a organização daqueles bondosos médicos já não tinha mais dinheiro para comprar uma nova remessa de remédios na tentativa de conter a infecção generalizada que se alastrava. Então ele, o mercador de remédios, o homem que ganhava a vida vendendo remédios, pela primeira vez na vida, não apenas abriu mão da sua comissão, mas negociou com os laboratórios uma doação de medicamentos. Ainda mais, Julius arcou com toda a despesa do transporte para que a medicação chegasse à zona de conflito. Por fim, olhou para mim, sorriu e confessou que era muito feliz com a profissão que tinha escolhido, pois levava a cura para muita gente através dos remédios, sejam os vendidos, sejam os doados, aos recantos esquecidos do mundo. Duvidava que houvesse outra profissão melhor.
Veio a ordem para a habitual parada no meio do dia. Um breve descanso e uma refeição ligeira eram necessários. No momento de alinhar os camelos na fila para a outra metade da marcha daquele dia, quem emparelhou comigo foi um religioso, quase um asceta. Um homem dedicado à meditação, à oração e a caridade espiritual. Embora nunca tivéssemos nos falado, assim como o Julius, eu também o conhecia de vista. Muito amável, transparecia uma enorme serenidade. As suas palavras eram sempre em voz mansa, claras e traziam inegável conforto. Assim como Julius, era muito simpático e também me senti bem ao seu lado. Disse isso a ele, que sorriu e falou se chamar Naim. Acrescentou que o seu nome, de origem árabe, significava tranquilidade. Logo me perguntou qual a religião eu professava. Respondi que todas. Contei que eu tinha forte influência cristã desde a infância, ensinamentos preciosos que fui enriquecendo à medida que conhecia as outras tradições filosóficas e religiosas, ocidentais e orientais. Acrescentei que todas as palavras de amor e sabedoria me interessavam, independente da origem. Mostrei no cordão que eu usava sob a blusa, a cruz que transpassava o círculo. Era o símbolo da irmandade esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica da qual eu fazia parte, cujo o eixo central era o Sermão da Montanha. Naim sorriu com o coração. Perguntou sobre os meus estudos; nada quis saber sobre a minha atividade profissional. Em seguida, falou que percorria os “confins do mundo” levando uma palavra que pudesse trazer algum conforto a qualquer alma sofredora. Esta era a sua enorme riqueza. O seu patrimônio, ao contrário, se resumia na túnica que vestia e outra que trocava quando lavava aquela. “Ah, também estas sandálias”, disse apontando para os pés. Calçados que usava até “se desmancharem”.
A conversa se estendeu. Naim confessou que as histórias vividas também eram parte da sua riqueza. Contou que no ano passado esteve na parte central da África, em país repartido pela guerra civil. A disputa pelo poder por diversas tribos, divididas em facções étnicas, tinha levado o povo à miséria material, mas principalmente, à miséria espiritual. As pessoas sofriam tanto que já estavam descrentes de tudo. Acrescentou que quando perdemos a esperança a fé não sobrevive. Então, não resta nada. Fica difícil para o amor germinar. Estava em um campo de concentração onde uma perigosa epidemia se alastrava com rapidez em razão das precárias condições de sobrevivência, mas também por causa de um baixo padrão vibracional, gerado pelo medo e pelo pessimismo, que enfraquecia o sistema imunológico daquelas pessoas. Uma organização de médicos dispendia todos os recursos humanos e financeiros para atender aquele povo sofrido, mesmo sob diversos riscos. Pessoas que poderiam usufruir das férias em lugares paradisíacos, mas que como na mitologia, iam ao inferno como anjos guardiões resgatar almas desamparadas, sob o perigo real de receberem um tiro, serem aprisionados por uma das facções ou de também se contaminarem.
Era preciso novos medicamentos para conter a infecção bacteriológica que se generalizava. Não havia mais recursos; todos os canais de ajuda tinham sido acionados e nenhuma solução se mostrara possível. O desânimo também era contagiante. Preocupou-se em animar as pessoas com boas palavras e abraços aconchegantes. Também rogou a Deus por Sua intervenção. No dia seguinte o acampamento foi invadido por uma das violentas facções. O filho do chefe estava muito doente. O garoto sofria de um mal que os médicos não conseguiam identificar. O menino estava com a vida por um fio. Alguns dias atrás, o chefe tinha tirado o filho do acampamento, onde estava sob o cuidado dos médicos, e o levado para a tribo. Lá o garoto esgotaria as suas últimas forças. Voltou para se vingar das pessoas que, segundo o chefe, tinham contaminado o seu filho. Naim pediu uma chance para tentar curar o garoto. Uma única oportunidade. Caso não conseguisse, o chefe executaria o plano. Alegou que, do contrário, o pai retiraria a última chance do filho. Mesmo desconfiado, o chefe aceitou, não sem antes ameaçar Naim com uma morte cruel e dolorosa caso não obtivesse êxito. Quando chegou à tribo Naim logo sentiu a energia densa do lugar e percebeu que o garoto tinha as suas forças vitais sugadas por espíritos sombrios que, por afinidade vibracional, tinham se instalado no local. Os médicos não conseguiam curar o filho do chefe porque não era uma doença física, mas espiritual. Promoveu um ritual de purificação e equilíbrio energético. Em poucos dias o menino estava bem, brincando com as outras crianças como se nada tivesse acontecido.
Agradecido e feliz, o chefe disse que Naim poderia pedir o que quisesse. Naim pediu que o campo de refugiados nunca mais fosse atacado. Sob nenhuma hipótese. Explicou que já havia sofrimento demais. O chefe lhe garantiu o pedido. O religioso explicou que as doenças do corpo estão, em geral, ligadas à alma enfermiça. Naim pediu também que fosse conduzido de volta para o acampamento, pois estava preocupado com a epidemia que se alastrava. O chefe prometeu que ele seria levado imediatamente. Contudo, falou que as suas preocupações arrefecessem, pois soubera que após a saída deles chegara um europeu. Este homem providenciara o medicamento necessário para debelar a infecção. Naim contou que passou a noite em oração de agradecimento a Deus pelo atendimento aos seus pedidos e por Sua pronta intervenção. “Naquele momento a mão de Deus se fez presente através desse europeu”, disse com os olhos mareados. Um homem que, mesmo sem acreditar, mas envolvido em um gesto de amor, se tornou uma ferramenta sagrada, pensei sem nada dizer. Naim revelou que quando retornou ao campo de refugiados o tal europeu, que tanto gostaria de conhecer, já tinha partido. Com os novos remédios que logo chegaram e o fim do medo de serem constantemente atacados, a cura se sustentou.
Estávamos no final da tarde. Veio a ordem para encerrar a marcha e levantar o acampamento para passarmos a noite. Naim agradeceu a tarde que passamos juntos e se despediu. Havia pessoas que precisavam dele. “Sou um curador de almas”, se definiu. Declarou-se um homem abençoado pelo trabalho que exercia. Também agradeci pela conversa e nada falei sobre a sincronicidade dos fatos daquele dia. A caravana era envolta em magia.
Não era difícil imaginar que o deserto me deixara com a incumbência de ser o elo de ligação entre as duas pontas de uma mesma história. Sob ângulos e olhares distintos, pontas que se encontravam em algum ponto. “No ponto em que o deserto se encontra com as estrelas”, ouvi a voz da bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli soprando em meus ouvidos. Virei a cabeça para os lados, não havia ninguém. “A cruz”, tornei a ouvir a voz dela. Mais uma vez, não havia ninguém. Considerei que aquela travessia inóspita logo me traria outras alucinações.
Vi o caravaneiro se afastar para o treinamento vespertino do falcão. Sentei na areia, um pouco distante, para apreciar o voo do pássaro; e pensar. Eu precisava pensar. Aqueles dois homens me contando as suas aventuras em um mesmo dia. Homens que tinham as suas existências entrelaçadas, mas não se conheciam. O acaso não existe; eu sabia disto. Ao longe o caravaneiro me observava. Quando nossos olhares se encontraram ele tornou a fazer o sinal da cruz com a mão. Abri os braços como quem diz que não entendeu o gesto. Ele se virou para cuidar do falcão.
“Quando se anda pelo deserto há que se ter a preocupação em caminhar para as estrelas. Concomitantemente.” Era a bela mulher de olhos azuis. Desta vez não apenas a sua voz, mas ela em pessoa. Sem pedir licença, se sentou ao meu lado. Perguntei se ela tinha visto o sinal da cruz que o caravaneiro tinha feito para mim. A mulher balançou a cabeça em anuência. Falei que ele repetiu aquele gesto várias vezes durante o dia, desde que conversamos pela manhã. Ela explicou: “A cruz é um símbolo que existe desde tempos imemoriais. Foi usada na Suméria, no Egito Antigo, na Índia, na Pérsia e, posteriormente, renasceu em Jerusalém. Possui vários significados, todos preciosos, interligados em si. O mais conhecido, e dos mais belos, é o da libertação através das virtudes aplicadas à vida, ensinado pelo maior dos mestres que já andou por este mundo. Contudo, há outros mistérios; todos precisam de esclarecimentos.”
Falei que já tinha visto em meus estudos diversas cruzes, com pequenas alterações de formato, como a cruz alçada no Egito ou a cruz em giro na Índia. A famosa cruz dos celtas, além de outras com diferentes geometrias, algumas usadas também no cristianismo, como a cruz em T de Francisco de Assis ou a cruz invertida de Pedro, o apóstolo. A mulher tornou a balançar a cabeça e disse: “Todas trazem em si conhecimentos ocultos que precisam vir à luz.”
“Penso que a cruz simétrica, aquela em que a linha horizontal possui o mesmo tamanho da linha vertical, possui uma valiosa lição. Não se caminha para cima sem caminhar para os lados; não se chega ao Céu sem se envolver com o mundo.”
Pedi para ela explicar melhor. A mulher foi generosa: “Veja as histórias de Julius e de Naim. Ambos são bons homens. Um sempre conduziu a vida em função dos negócios, da sobrevivência do corpo, dos interesses ligados ao ego. Um homem do mundo; o traço horizontal da cruz. O outro, vive em função do intangível, da elevação do espírito, em razão dos interesses da alma. Um homem do Céu; o traço vertical da cruz. Cada um com as suas prioridades. No entanto, para salvar os mesmos refugiados, para salvar as mesmas vidas, ambos foram igualmente imprescindíveis. Sem os remédios providenciados pelo Julius, a epidemia de bactérias ceifaria a existência de muitos refugiados; sem as medicações espirituais de Naim a epidemia de ódio imporia aos refugiados uma pena semelhante. Encontraram-se no ponto central da cruz, onde os traços se entrelaçam. Este ponto se chama amor.”
“Julius é o deserto; Naim, as estrelas. Juntos se completam e se expandem, longitude e latitude, na perfeição da cruz.”
“Quando se caminha pelo deserto sem olhar as estrelas não se chega a lugar nenhum. Quando apenas se olha para as estrelas sem caminhar pelo deserto também não.” Fez uma pausa e finalizou: “A existência se passa pelo mundo para se fortalecer no campo de provas. A vida precisa das estrelas para iluminar na superação dessas provas. Amplitude e profundidade. Não se separa o deserto das estrelas. Julius e Naim em um único homem. Em verdade, a travessia apenas se completa quando realizada em cruz.”
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se levantou e saiu. Acompanhei os seus passos. Ela passou pelo caravaneiro e o cumprimentou; ele sorriu em agradecimento para ela. Depois desapareceu por trás das dunas. Entardecia. Esperei anoitecer enquanto alocava aquelas ideias e pensava nas modificações que se faziam necessárias para eu viver em cruz. Quando as estrelas do céu tocaram as areias do deserto no infinito do meu olhar, me levantei a procura de Julius e Naim. Eu queria apresentar um ao outro. Eu veria irromper a luz ao unir os traços da cruz.
Ele se virou e voltou a se concentrar no que estava fazendo. Continuei de pé ao seu lado. Falei que eu tinha relação de amor e ódio com o deserto. A cada dia me era permitido uma lição. No entanto, às duras penas. O caravaneiro olhou para mim e aconselhou: “Quando o deserto estiver por demais inóspito, se deixe encantar pela luz das estrelas. Contudo, não se satisfaça com elas a ponto de esquecer de prosseguir na travessia.” E tornou a se virar. Acrescentei que percebia que o deserto era a metáfora da vida; a travessia representava os percalços e as delícias da existência de todos nós. O caravaneiro continuava agachado revirando os seus pertences. Ele voltou a me olhar e disse: “Uma flor traduz todo o universo e as manifestações da existência. Mesmo assim continua sendo apenas uma flor”. Comentei que das duas, uma. Ele não tinha entendido a minha observação ou eu não havia compreendido a sua resposta. O caravaneiro pegou a bússola que procurava, fechou o alforje, se levantou e disse: “A travessia não é apenas o deserto” e tornou a fazer o movimento horizontal com a mão, “Mas também é as estrelas” e fez a linha vertical no ar. A cruz, de novo. Prosseguiu: “Entenda algo, um assunto, um conceito ou a si mesmo. Mas, principalmente, entenda que nada restará limitado na fronteira da sua percepção, salvo você próprio.” E saiu.
Fiquei pensando nas palavras do caravaneiro enquanto esvaziava a caneca de café. Eu estava atrasado. Arrumei as minhas coisas no alforje e aprumei o camelo na fila para a marcha de mais um dia. Quem alinhou ao meu lado foi um europeu. Um homem que eu já conhecia de vista, como todos naquela altura da travessia, mas com quem eu nunca conversara. Julius, como se chamava, era muito gentil, simpático e educado. Uma pessoa bastante agradável de conviver. Sem demora, puxou assunto. Perguntou sobre a minha atividade profissional. Respondi-lhe. Ele mostrou interesse em saber sobre a agência de propaganda. Fez vários questionamentos sobre o funcionamento. Ele quis saber se a travessia tinha algum intuito comercial. Falei que não; apenas me interessava conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Ele nada perguntou sobre isto. Em seguida, revelou que era mercador de remédios. Tinha feito fortuna como representante dos principais laboratórios da Europa nos “confins do mundo”, como se referiu aos lugares pelos quais viajava oferecendo os medicamentos. Viajava ao oásis à negócio. Falou que era um privilegiado, pois tinha a oportunidade de conhecer os lugares mais insólitos do planeta, onde os outros representantes se recusavam a ir. De sobra, ficava rico enquanto se divertia e aproveitava a vida. Enriquecia com dinheiro e histórias, fez questão de acrescentar. Contou a experiência vivida no ano anterior em um campo de refugiados dentro de uma zona de guerra na região central da África. Um país dividido por etnias, mas principalmente, e infelizmente, cortado pelo ódio. Explicou que apesar de terem vários aspectos culturais em comum, e isto os tornava uma nação, as diferenças se manifestavam em intolerância, sangue e morte. Um povo destruído econômica e afetivamente. Nessa ocasião, quando chegou ao campo de refugiados, encontrou muitas pessoas, entre adultos e crianças, mutiladas pelas tribos rivais para que não servissem mais para o combate nem para o trabalho e, assim, no ápice da maldade, se tornassem um ônus para os seus parentes pelo resto da existência. Para piorar, além de diversas doenças, uma perigosa epidemia se alastrava em razão das precárias condições de saúde e higiene. Não havia hospitais, todos destruídos na guerra absurda. Alimentos e água potável eram racionados. Uma organização não-governamental humanitária, formada por médicos de todo o mundo, que durante os seus períodos de férias viajavam para lá, pagando todos os custos do próprio bolso, com o objetivo de levar a assistência e o atendimento possível à região e àquele povo, mantinham a vida possível. Viu cirurgias sendo feitas em tendas e curas alcançadas pela inenarrável determinação, competência e amor daqueles profissionais.
Eu ouvia atentamente. Nesse momento comentei que Deus os iluminasse e os protegesse. “Deus? Que Deus? Qual o Ser repleto de amor, sabedoria e justiça permitiria aquele descalabro? Por que Ele não soluciona aquele suplício desumano?”, deixou transparecer a sua revolta e a descrença em um mundo invisível que permeia e interage ao visível. Narrou que a organização daqueles bondosos médicos já não tinha mais dinheiro para comprar uma nova remessa de remédios na tentativa de conter a infecção generalizada que se alastrava. Então ele, o mercador de remédios, o homem que ganhava a vida vendendo remédios, pela primeira vez na vida, não apenas abriu mão da sua comissão, mas negociou com os laboratórios uma doação de medicamentos. Ainda mais, Julius arcou com toda a despesa do transporte para que a medicação chegasse à zona de conflito. Por fim, olhou para mim, sorriu e confessou que era muito feliz com a profissão que tinha escolhido, pois levava a cura para muita gente através dos remédios, sejam os vendidos, sejam os doados, aos recantos esquecidos do mundo. Duvidava que houvesse outra profissão melhor.
Veio a ordem para a habitual parada no meio do dia. Um breve descanso e uma refeição ligeira eram necessários. No momento de alinhar os camelos na fila para a outra metade da marcha daquele dia, quem emparelhou comigo foi um religioso, quase um asceta. Um homem dedicado à meditação, à oração e a caridade espiritual. Embora nunca tivéssemos nos falado, assim como o Julius, eu também o conhecia de vista. Muito amável, transparecia uma enorme serenidade. As suas palavras eram sempre em voz mansa, claras e traziam inegável conforto. Assim como Julius, era muito simpático e também me senti bem ao seu lado. Disse isso a ele, que sorriu e falou se chamar Naim. Acrescentou que o seu nome, de origem árabe, significava tranquilidade. Logo me perguntou qual a religião eu professava. Respondi que todas. Contei que eu tinha forte influência cristã desde a infância, ensinamentos preciosos que fui enriquecendo à medida que conhecia as outras tradições filosóficas e religiosas, ocidentais e orientais. Acrescentei que todas as palavras de amor e sabedoria me interessavam, independente da origem. Mostrei no cordão que eu usava sob a blusa, a cruz que transpassava o círculo. Era o símbolo da irmandade esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica da qual eu fazia parte, cujo o eixo central era o Sermão da Montanha. Naim sorriu com o coração. Perguntou sobre os meus estudos; nada quis saber sobre a minha atividade profissional. Em seguida, falou que percorria os “confins do mundo” levando uma palavra que pudesse trazer algum conforto a qualquer alma sofredora. Esta era a sua enorme riqueza. O seu patrimônio, ao contrário, se resumia na túnica que vestia e outra que trocava quando lavava aquela. “Ah, também estas sandálias”, disse apontando para os pés. Calçados que usava até “se desmancharem”.
A conversa se estendeu. Naim confessou que as histórias vividas também eram parte da sua riqueza. Contou que no ano passado esteve na parte central da África, em país repartido pela guerra civil. A disputa pelo poder por diversas tribos, divididas em facções étnicas, tinha levado o povo à miséria material, mas principalmente, à miséria espiritual. As pessoas sofriam tanto que já estavam descrentes de tudo. Acrescentou que quando perdemos a esperança a fé não sobrevive. Então, não resta nada. Fica difícil para o amor germinar. Estava em um campo de concentração onde uma perigosa epidemia se alastrava com rapidez em razão das precárias condições de sobrevivência, mas também por causa de um baixo padrão vibracional, gerado pelo medo e pelo pessimismo, que enfraquecia o sistema imunológico daquelas pessoas. Uma organização de médicos dispendia todos os recursos humanos e financeiros para atender aquele povo sofrido, mesmo sob diversos riscos. Pessoas que poderiam usufruir das férias em lugares paradisíacos, mas que como na mitologia, iam ao inferno como anjos guardiões resgatar almas desamparadas, sob o perigo real de receberem um tiro, serem aprisionados por uma das facções ou de também se contaminarem.
Era preciso novos medicamentos para conter a infecção bacteriológica que se generalizava. Não havia mais recursos; todos os canais de ajuda tinham sido acionados e nenhuma solução se mostrara possível. O desânimo também era contagiante. Preocupou-se em animar as pessoas com boas palavras e abraços aconchegantes. Também rogou a Deus por Sua intervenção. No dia seguinte o acampamento foi invadido por uma das violentas facções. O filho do chefe estava muito doente. O garoto sofria de um mal que os médicos não conseguiam identificar. O menino estava com a vida por um fio. Alguns dias atrás, o chefe tinha tirado o filho do acampamento, onde estava sob o cuidado dos médicos, e o levado para a tribo. Lá o garoto esgotaria as suas últimas forças. Voltou para se vingar das pessoas que, segundo o chefe, tinham contaminado o seu filho. Naim pediu uma chance para tentar curar o garoto. Uma única oportunidade. Caso não conseguisse, o chefe executaria o plano. Alegou que, do contrário, o pai retiraria a última chance do filho. Mesmo desconfiado, o chefe aceitou, não sem antes ameaçar Naim com uma morte cruel e dolorosa caso não obtivesse êxito. Quando chegou à tribo Naim logo sentiu a energia densa do lugar e percebeu que o garoto tinha as suas forças vitais sugadas por espíritos sombrios que, por afinidade vibracional, tinham se instalado no local. Os médicos não conseguiam curar o filho do chefe porque não era uma doença física, mas espiritual. Promoveu um ritual de purificação e equilíbrio energético. Em poucos dias o menino estava bem, brincando com as outras crianças como se nada tivesse acontecido.
Agradecido e feliz, o chefe disse que Naim poderia pedir o que quisesse. Naim pediu que o campo de refugiados nunca mais fosse atacado. Sob nenhuma hipótese. Explicou que já havia sofrimento demais. O chefe lhe garantiu o pedido. O religioso explicou que as doenças do corpo estão, em geral, ligadas à alma enfermiça. Naim pediu também que fosse conduzido de volta para o acampamento, pois estava preocupado com a epidemia que se alastrava. O chefe prometeu que ele seria levado imediatamente. Contudo, falou que as suas preocupações arrefecessem, pois soubera que após a saída deles chegara um europeu. Este homem providenciara o medicamento necessário para debelar a infecção. Naim contou que passou a noite em oração de agradecimento a Deus pelo atendimento aos seus pedidos e por Sua pronta intervenção. “Naquele momento a mão de Deus se fez presente através desse europeu”, disse com os olhos mareados. Um homem que, mesmo sem acreditar, mas envolvido em um gesto de amor, se tornou uma ferramenta sagrada, pensei sem nada dizer. Naim revelou que quando retornou ao campo de refugiados o tal europeu, que tanto gostaria de conhecer, já tinha partido. Com os novos remédios que logo chegaram e o fim do medo de serem constantemente atacados, a cura se sustentou.
Estávamos no final da tarde. Veio a ordem para encerrar a marcha e levantar o acampamento para passarmos a noite. Naim agradeceu a tarde que passamos juntos e se despediu. Havia pessoas que precisavam dele. “Sou um curador de almas”, se definiu. Declarou-se um homem abençoado pelo trabalho que exercia. Também agradeci pela conversa e nada falei sobre a sincronicidade dos fatos daquele dia. A caravana era envolta em magia.
Não era difícil imaginar que o deserto me deixara com a incumbência de ser o elo de ligação entre as duas pontas de uma mesma história. Sob ângulos e olhares distintos, pontas que se encontravam em algum ponto. “No ponto em que o deserto se encontra com as estrelas”, ouvi a voz da bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli soprando em meus ouvidos. Virei a cabeça para os lados, não havia ninguém. “A cruz”, tornei a ouvir a voz dela. Mais uma vez, não havia ninguém. Considerei que aquela travessia inóspita logo me traria outras alucinações.
Vi o caravaneiro se afastar para o treinamento vespertino do falcão. Sentei na areia, um pouco distante, para apreciar o voo do pássaro; e pensar. Eu precisava pensar. Aqueles dois homens me contando as suas aventuras em um mesmo dia. Homens que tinham as suas existências entrelaçadas, mas não se conheciam. O acaso não existe; eu sabia disto. Ao longe o caravaneiro me observava. Quando nossos olhares se encontraram ele tornou a fazer o sinal da cruz com a mão. Abri os braços como quem diz que não entendeu o gesto. Ele se virou para cuidar do falcão.
“Quando se anda pelo deserto há que se ter a preocupação em caminhar para as estrelas. Concomitantemente.” Era a bela mulher de olhos azuis. Desta vez não apenas a sua voz, mas ela em pessoa. Sem pedir licença, se sentou ao meu lado. Perguntei se ela tinha visto o sinal da cruz que o caravaneiro tinha feito para mim. A mulher balançou a cabeça em anuência. Falei que ele repetiu aquele gesto várias vezes durante o dia, desde que conversamos pela manhã. Ela explicou: “A cruz é um símbolo que existe desde tempos imemoriais. Foi usada na Suméria, no Egito Antigo, na Índia, na Pérsia e, posteriormente, renasceu em Jerusalém. Possui vários significados, todos preciosos, interligados em si. O mais conhecido, e dos mais belos, é o da libertação através das virtudes aplicadas à vida, ensinado pelo maior dos mestres que já andou por este mundo. Contudo, há outros mistérios; todos precisam de esclarecimentos.”
Falei que já tinha visto em meus estudos diversas cruzes, com pequenas alterações de formato, como a cruz alçada no Egito ou a cruz em giro na Índia. A famosa cruz dos celtas, além de outras com diferentes geometrias, algumas usadas também no cristianismo, como a cruz em T de Francisco de Assis ou a cruz invertida de Pedro, o apóstolo. A mulher tornou a balançar a cabeça e disse: “Todas trazem em si conhecimentos ocultos que precisam vir à luz.”
“Penso que a cruz simétrica, aquela em que a linha horizontal possui o mesmo tamanho da linha vertical, possui uma valiosa lição. Não se caminha para cima sem caminhar para os lados; não se chega ao Céu sem se envolver com o mundo.”
Pedi para ela explicar melhor. A mulher foi generosa: “Veja as histórias de Julius e de Naim. Ambos são bons homens. Um sempre conduziu a vida em função dos negócios, da sobrevivência do corpo, dos interesses ligados ao ego. Um homem do mundo; o traço horizontal da cruz. O outro, vive em função do intangível, da elevação do espírito, em razão dos interesses da alma. Um homem do Céu; o traço vertical da cruz. Cada um com as suas prioridades. No entanto, para salvar os mesmos refugiados, para salvar as mesmas vidas, ambos foram igualmente imprescindíveis. Sem os remédios providenciados pelo Julius, a epidemia de bactérias ceifaria a existência de muitos refugiados; sem as medicações espirituais de Naim a epidemia de ódio imporia aos refugiados uma pena semelhante. Encontraram-se no ponto central da cruz, onde os traços se entrelaçam. Este ponto se chama amor.”
“Julius é o deserto; Naim, as estrelas. Juntos se completam e se expandem, longitude e latitude, na perfeição da cruz.”
“Quando se caminha pelo deserto sem olhar as estrelas não se chega a lugar nenhum. Quando apenas se olha para as estrelas sem caminhar pelo deserto também não.” Fez uma pausa e finalizou: “A existência se passa pelo mundo para se fortalecer no campo de provas. A vida precisa das estrelas para iluminar na superação dessas provas. Amplitude e profundidade. Não se separa o deserto das estrelas. Julius e Naim em um único homem. Em verdade, a travessia apenas se completa quando realizada em cruz.”
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se levantou e saiu. Acompanhei os seus passos. Ela passou pelo caravaneiro e o cumprimentou; ele sorriu em agradecimento para ela. Depois desapareceu por trás das dunas. Entardecia. Esperei anoitecer enquanto alocava aquelas ideias e pensava nas modificações que se faziam necessárias para eu viver em cruz. Quando as estrelas do céu tocaram as areias do deserto no infinito do meu olhar, me levantei a procura de Julius e Naim. Eu queria apresentar um ao outro. Eu veria irromper a luz ao unir os traços da cruz.
Assinar:
Comentários (Atom)