quinta-feira, 28 de abril de 2016

Pensamentos 07


Fechei algumas portas, não por arrogância ou orgulho.
Mas porque já não me levam a lugar algum...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

MEU PERSONAGEM FAVORITO. (Conto)

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.
Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.
O elegante artesão tinha o olhar perdido em alguma página da sua história e falava como quem explica um fato distante: “Em geral, não preparamos o outro para nos ver atuando sem nossas fantasias sociais. O ego que criou o personagem na tolice de nos proteger, cedo ou tarde, subirá à tona para mostrar a verdadeira face, aquela que ocultamos. O ‘eu’ vai ficar nu. Nenhum truque se sustenta para sempre. Daí surgem as decepções, conflitos, e sofrimentos, nesta ordem”.
“Algumas pessoas abusam mais, outras menos, dos personagens na medida da falta de coragem para encarar quem realmente são. É necessário enfrentar a verdade, sem adereços, com humildade, como primeiro passo para se transformar e vivenciar as suas infinitas possibilidades. Não se chega à próxima estação sem enfrentar a estrada. Ainda que haja curvas, pedras e tempestades, as dificuldades fortalecem e aperfeiçoam o viajante”.
“Nem todos estão dispostos a se deparar com as verdades da alma, com suas frustrações e insucessos. Então, nos escondemos sob o manto das ilusões oferecidas pelo ego, a nos enganar, na vã esperança que ele nos conforte e proteja para sempre. Usamos as máscaras que ele nos empresta no baile em homenagem à mentira. Até que o Caminho, na exigência do movimento da cura pela verdade, despe o personagem que criamos para interpretar as histórias que gostamos de contar sobre nós mesmos. Cedo ou tarde, nos obriga a olhar para o espelho. Estar frente a frente consigo é mirar nos olhos da verdade e entender toda a sua força revolucionária. É doloroso em um primeiro momento, por estar sem maquiagem, não encontrar a perfeição que se iludiu. Mas só assim descobrimos o que precisa ser modificado, o que temos que deixar para trás. Entendemos, principalmente, que não somos o nosso discurso, mas as nossas escolhas”.
Comentei que deveriam existir alguns modelos mais comuns de fantasias, arquétipos do inconsciente coletivo. Loureiro concordou: “Existem muitos e posso exemplificar alguns. Um personagem muito usado hoje em dia é o da ‘pessoa séria, muito ocupada, que não tem tempo para os outros’, em uma clara demonstração de fuga do convívio, da intimidade, por medo de revelar que tem pouco para mostrar ou de mostrar o que anseia esconder. É a débil máscara do forte, a fantasia curta do poderoso. Na verdade, ocultamos aquilo que não temos coragem de enfrentar. Levanta-se muros para que ninguém descubra as nossas fraquezas, quando na verdade precisamos de pontes para atravessar esses abismos. Somente quando admitimos as dificuldades nos tornamos aptos a superá-las. Para ser grande é necessário trilhar o caminho do pequeno. Isto se chama humildade. Esta virtude lhe fará aceitar a condição de aprendiz, de que ninguém nasce pronto, e assim permitirá, não sem muito trabalho, que aos poucos revele toda a grandeza que habita em seu coração”.
“Existe também o personagem do ‘falso alegre’, aquele que precisa estar sempre rodeado de gente e, de preferência, barulho. Que fique bem claro que diversão, amizade, alegria e movimento são coisas maravilhosas. Mas há que se ter hora para todas as coisas, a fazer bom uso do tempo, este tesouro finito. Por que o medo de ficar à sós consigo? De ouvir a música do silêncio? De conversar com o próprio coração? A solidão tem sido amaldiçoada por mal compreendida. Solidão não significa abandono, mas a viagem que o ego faz aos jardins da alma. O retiro necessário para percebermos as máscaras que atrapalham, por ineficazes, a conquista da plenitude; as fantasias que ficaram velhas sem conseguir sustentar a felicidade; a maquiagem que borrou por tantas lágrimas ao perceber que a paz não se encontra nas prateleiras da ilusão, mas precisa ser construída pela verdade de se conhecer por inteiro e, então, se transformar. Ser feliz é uma escolha consciente que exige determinação e coragem para estar consigo próprio e ouvir a voz que brota no coração”.
“De todas as fantasias, a mais triste é a da ‘vítima’. São aqueles que se dizem bons e generosos, porém alegam ser enganados ou sabotados por todos o tempo todo. Usam a máscara do drama para transferir aos outros a responsabilidade pelo seu sofrimento, escondendo de si mesmo a atribuição de trabalhar a própria evolução. É como se desejassem uma carona até a próxima estação para não ter que enfrentar as dificuldades do Caminho. Esquecem que os problemas que nos perseguem nada mais são do que as lições que precisamos aprender, as transformações que devemos forjar no próprio ser. Ignoram que a batalha final é travada dentro de cada um de nós”.
Loureiro tomou um último gole de vinho e alertou: “É importante se reinventar todos os dias, pois faz parte do processo primoroso de transformação. No entanto, é preciso que se funde os alicerces da verdade nas rochas da humildade, alegria e coragem, afastando-se, a cada dia, dos pântanos da ilusão, da mentira e do medo que atolam a evolução”.
“É imperioso desvendar o véu da fantasia que enevoa as mudanças necessárias exigidas pela alma despida. Embora seja um processo difícil, pois muito do aparente conforto do personagem será substituído pelo esforço no desenvolvimento do verdadeiro eu. O autoconhecimento é indispensável à cura. Cura das imperfeições, dos traumas e do sofrimento através do remédio da verdade, na lapidação das cascas de si mesmo até que se reflita a mais pura luz. Semear e cultivar a essência que nos habita, na beleza de ser único e parte do todo, ao mesmo tempo”.
Deu uma pequena pausa e concluiu antes de se levantar: “Cada qual é a nau a atravessar as tempestades das próprias ilusões, aprendendo a manobrar com os ventos da verdade, a navegar pela luz da fina sabedoria. A vida é o mar, os encontros são os portos e o amor é o destino”.
Já de pé, me ofereceu um sorriso maroto e provocou: “Yoskhaz, qual a sua máscara?”. Rimos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

NINGUÉM SOFRE POR AMOR! (Conto)

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.
Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?
O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.
Brinquei com o bom sapateiro para que tivesse cuidado, pois seria apedrejado pelos amantes e defenestrado pelos poetas. “Sei que se sofre muito em razão de separações afetivas, mas não é por amor. O verdadeiro amor é aliado inseparável da liberdade; diria até que o amor são as asas da liberdade. Ele, o amor, respeita a escolha do outro em partir ou não querer mais manter o relacionamento. ‘Ah, eu gostava tanto dela’... Continue gostando, admirando, mas entenda que ninguém é dono de ninguém. Uma alma não pode ser proprietária de outra. Não existe qualquer tipo de dominação no amor verdadeiro. Não se pode celebrar um casamento como quem outorga uma escritura de compra. Tem tudo para dar errado. Dessa maneira, o sofrimento, em verdade, nasce do apego ilegítimo de desejar ter o que não pode ser possuído. Não se justifica o cerceamento da liberdade de alguém em função dos medos e desejos de outra pessoa. O descuido e ignorância em permitir a manifestação em seu coração de emoções de baixa vibração como o ciúme, a inveja, o orgulho e a vaidade são as reais e únicas razões do sofrimento. No entanto, essas sombras, sempre sorrateiras e disfarçadas, se eximem da responsabilidade e a atribuem injustamente ao amor. Há milênios se condena o amor por crimes que ele nunca cometeu. E nós continuamos a acreditar na mentira, desperdiçando a beleza e a grandeza do amor”.
Argumentei que os jornais, todos dias, narram crimes passionais cometidos por amantes inconsoláveis. Loureiro balançou a cabeça como quem diz que está tudo errado e falou: “Ciúme não é amor. Mata-se por ciúme, nunca por amor. São sentimentos antagônicos. Já ouvi, muitas vezes, a seguinte frase: ‘quem ama tem ciúme’. Uma mentira. E uma mentira repetida mil vezes ganha força de verdade, o que é lamentável, por induzir as pessoas ao erro”. Retruquei que o ciúme era inerente à natureza humana. “Sim, isso é verdade. Ciúmes, inveja, orgulho, vaidade, medo estão entre as outras emoções que compõem as sombras que se escondem no âmago de todos nós. Transmutá-las é a grande batalha. Há quem sinta ciúme e mate; há quem sinta ciúme pegue o violão e faça uma canção. Enquanto uns permitem que as sombras se tornem senhoras de si, a dominar e iludir as suas vontades; outros as iluminam, modificando para sempre a sua antiga condição. Percebe que enquanto um enveredou pelas raias da insanidade e do crime, o outro confeccionou uma bela obra de arte? Ambos tinham o mesmo sentimento como matéria-prima. Mas fizeram escolhas diferentes. Porquê? Nível de consciência é a resposta. E somente a compreensão das infinitas possibilidades do amor sustenta e expande as fronteiras da sabedoria, a nos levar às Terras Altas da Plenitude”.
“É necessário entender que a Lei da Afinidade é que rege a aproximação entre as pessoas. Uma frequência energética de sentimentos e pensamentos vibrando em faixas similares as atraem. Isto pode durar um dia ou séculos. Então, deixar ir ou você próprio partir quando sentir que ligações não se sustentam na intensidade necessária, significa que já estão em pontos diferentes do Caminho. Respeitar as escolhas é entender a viagem. É sábio, é um ato de amor. Isto nos liberta para novas histórias e para um novo ciclo. Separações não são perdas; são oportunidades”.
Eu quis saber onde costumamos errar, onde nos perdemos? De pronto o artesão me respondeu: “Para começar costumamos focar na exigência em sermos amados ao invés de amarmos sem qualquer exigência, invertendo a lógica natural do amor, que precisa da renúncia para se espraiar e brilhar em toda a sua amplitude. Só temos aquilo que doamos com o coração, com pureza e sinceridade, sem apegos, condições ou tributos. Mas reparo as pessoas fazerem uma espécie de ‘livro-caixa do afeto’, onde anotam créditos e débitos na ilusão de auferir lucros ou, na pior das hipóteses, zerar a conta do ‘carinho e da atenção’. Ora, isto nunca foi amor”.
Loureiro bebeu mais um gole do tinto e se aprofundou: “Outro motivo, bem comum, é transferir ao outro a responsabilidade por fazê-lo feliz nas relações afetivas. É como mandar o outro fazer um trabalho que lhe cabe. Você apenas encontrará a felicidade dentro de si, em processo de autoconhecimento, de cura pela verdade, de transmutação das velhas formas do pensar e agir. Esta construção é pessoal e intransferível. Depositar no outro a obrigação de te fazer feliz? Tudo errado de novo. Puro medo de enfrentar as batalhas de aprimoramento e evolução que devem ser travadas consigo mesmo, entre o ego e a alma: sombra e luz. O amor exige doação, jamais cobrança. Em geral, por infeliz ironia, cobra-se muito quando se tem pouco para dar. Temos que compartilhar o amor que floresce em nós e não desejar ardentemente sugá-lo do outro como um viciado em busca de droga”.
Questionei ao sapateiro, sobre o sofrimento causado pela perda de um ente querido. Ele me olhou incrédulo e rebateu de pronto: “Perda? Que perda, Yoskhaz? Até quando vamos insistir em não desmistificar a morte? A morte é uma certeza, ponto. Lembrar todos os dias de que iremos morrer a qualquer momento é altamente saudável, amplia o sentido da vida, refina o tempo, aperfeiçoa as escolhas. Se entendermos que a morte não é o final de uma história, mas a mudança de capítulo no livro da vida, não haverá sofrimento. A saudade da partida será a fonte da alegria no reencontro. Inúmeras partidas e chegadas. Os laços costurados pelo amor são eternos e unirá a todos mais à frente. Lei da Afinidade de novo. Caso contrário, nada faria sentido. Enquanto isso vamos aprendendo, transmutando, compartilhando para seguir adiante, habilitados para novas aventuras de uma história sem fim. A saudade tem que ser motivo de alegria, pois só há saudade onde existe amor. Celebremos a saudade, pois quem não a sente reside no vazio. Assim, a exata percepção das Leis do Universo transforma o sofrimento em pó de estrelas”.
Falei da sua sobrinha, que mais cedo saíra em lágrimas da oficina. Ele me disse com a voz mansa, repleta de compaixão: “Ela ainda está aprisionada a condicionamentos sociais e culturais que enevoam a pura dimensão do amor. Usa o seu sagrado nome e o interpreta de forma equivocada. Evoluímos por vontade ou pelo desequilíbrio que a vida impõe. A recusa dela em se permitir outra ótica traz sofrimento, que em algum momento, por se cansar da dor, ou melhor, por entendê-la desnecessária, fará com que reveja conceitos, ideias, comportamentos. Então, conhecerá toda a liberdade contida no amor. Só assim entenderá e viverá o amor. De verdade”.

ALEGRIA, ALEGRIA! (Conto)

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado pelo vigário da igreja localizada na pequena e charmosa cidade próxima à montanha que abriga o mosteiro, um amigo de longa data, para proferir algumas palavras durante a missa de domingo. Ele me chamou para acompanhá-lo e nos fez chegar cedo para aguardar no banco da praça em frente à igreja. O Velho gostava de sentir o sol que aquecia o corpo diante da manhã fria de outono. O sol, o frio, os esquilos, pais que passeavam com seus filhos pequenos, filhos que passeavam com seus pais anciões, a algazarra das crianças, os jardins e os pássaros, enfim, a vida pulsando em todas as suas manifestações encantava o monge. “Tudo isso alimenta o meu silêncio”, comentou.
A missa transcorreu tranquilamente em seu cerimonial até que o Velho, foi chamado a subir no púlpito. O vigário alertou aos presentes que não estranhassem a linha de discurso do monge, embora profundamente cristão, pertencia a uma ordem esotérica secular, dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. O Velho agradeceu e iniciou: “Eu vou tecer algumas palavras sobre a grandeza da gratidão, essa virtude tão mal interpretada”.
“Alguns estão aqui aflitos a solicitar auxílio por problemas que se sentem incapazes de resolver; outros para agradecer pelas dádivas concedidas; muitos, apenas para se banharem nas energias de amor e luz que inundam esta casa. Cada qual com os seus motivos, razões, sentimentos e fé. Todos merecem acolhida, respeito e carinho. Mas desde sempre me fiz duas perguntas: qual o critério da esfera espiritual para atender as súplicas, vez que algumas são atendidas, outra não? A outra, qual a melhor maneira de agradecer por tudo de bom que foi ofertado? Foram questões que tomaram bastante tempo em minhas meditações”, fez uma pequena pausa para que todos refletissem por instantes e prosseguiu: “Conheço os que realizam doações preventivamente, como forma de ‘ficar bem’ com os amigos divinos a garantir proteção e privilégios. Há os que preenchem generosos cheques em prol de instituições religiosas e filantrópicas para ‘quitar a dívida’ do pedido atendido. Para estes e aqueles posso afiançar o total equívoco de suas intenções. O Céu ou o plano espiritual, independente do nome que lhe atribua, não é um balcão de negócios”. A voz do Velho tinha a habitual serenidade e, embora baixa, se podia ouvir claramente até a última fileira; o silêncio era absoluto.
“Além do mundo visível não se compra favores, tampouco o dinheiro é a moeda de troca. Os interesses e valores são outros. Você se acha ‘especial’ porque tem mais dinheiro, mais estudo ou aparece na TV? Esquece. Ter as melhores ferramentas e possibilidades apenas aumentam a sua responsabilidade em transformar. Sabe as orações em que você promete adotar uma criança caso fique milionário ao ganhar o prêmio da loteria? Esquece. Não se barganha com amor, muito menos com Deus.
“A lógica no plano invisível é diferente. Não existe nenhum interesse pelos desejos do seu ego. As preocupações dos benfeitores espirituais estão ligadas tão somente as necessidades da sua alma, a tudo que você precisa para evoluir. O emprego, a casa, os filhos e até mesmo a saúde, ou a falta disso, compõe a perfeita realidade para você Aprender, se Transformar, Compartilhar e Seguir”.
“Não, não se lamente por não ter o que deseja, ao contrário, agradeça a oportunidade e faça o melhor uso possível do que lhe foi oferecido. Isto é sábio. Isto é pura gratidão. Ainda que neste instante haja dificuldade em entender, tenha certeza não lhe falta absolutamente nada para o encontro com a paz, salvo o que você tem que buscar no âmago do próprio ser: A coragem de agregar os seus dons e talentos ao seu viver; parar de negociar com as sombras; aperfeiçoar as escolhas na busca pela Luz e aprender a amar demais.
“Por mais absurdo que possa parecer, tudo que acontece em nossas vidas é para o nosso bem. O bom guerreiro agradece a dureza das batalhas pelo seu aperfeiçoamento na habilidade de combater. A sua evolução é a prioridade para o Universo, todo é resto é efêmero, perfumaria sem poder de cura. Portanto, seja grato sempre. As frustrações são adubos do amadurecimento; as dificuldades são lições a iluminar e fortalecer o espírito; os problemas e adversários são mestres ocultos a nos brindar com sabedoria e ampliar a capacidade de amar. Assim nos metamorfoseamos, rompemos a crosta que aprisiona para florescer as asas de um novo ser”.
“E as preces, elas são importantes? Sim, como a meditação, elevam o padrão vibracional e aproximam os mestres e guardiões invisíveis para ajuda e proteção, desde que haja vontade sincera por transformação e nos limites permitidos pelas Leis Não Escritas que balizam a evolução universal, em binômio formado por necessidade e merecimento. Acontecimentos inesperados; o surgimento repentino de pessoas, como se fossem anjos; os inúmeros sinais; a intuição, que é a perfeita conexão cósmica, são algumas das muitas maneiras de colaboração que recebemos. Perceba e seja grato. No entanto, preste atenção: Eles sempre ajudarão, mas jamais farão a parte que cabe a você realizar. São coisas bem diferentes”.
“Assistir a missa, mas se aliar as sombras que lhe habitam não resultará no efeito esperado. Por outro lado, quem anda pelo lado ensolarado da Estrada não precisa temer a escuridão. O perfume das flores atrai passarinhos e borboletas; o odor do esgoto o infesta de baratas e ratos. Assim escolhemos quem nos acompanha”. Deu uma pausa e concluiu: “Portanto, nunca há motivos para reclamações”.
Muitas das pessoas que assistiam a missa estavam visivelmente desconfortáveis com aquele discurso. O Velho olhou para o vigário e este arqueou os lábios em sorriso de aprovação.
“Toda caridade é bem-vinda e uma bela forma de gratidão. Sem dúvida que a ajuda material é indispensável para quem tem frio e fome. No entanto, as de maior significado e importância são aquelas em que depositamos o coração junto com as nossas ações. Por isto a caridade emocional será sempre infinitamente mais valiosa do que a financeira, afinal o que você tem de mais precioso do que o próprio coração? Um abraço costuma valer mais do que um cheque”.
“Não conheço palavra mais bonita do que misericórdia. De origem latina, ela nasce da junção de duas outras e significa o ato de oferecer amor como remédio ao sofrimento alheio. Historicamente os que mais se deram nada tinham para dar, além de si próprios, além de seus corações. Assim, conseguiram tudo. Acham incoerente? Perguntem a Francisco de Assis ou a Tereza de Calcutá. Para ser grande é necessário se sentir pequeno diante do menor de todos. Não basta simplesmente ter o coração do mundo, é preciso sentir o seu pulsar e não lavar as mãos”.
“Me refiro ao dia a dia, no convívio com toda a gente e em todas as nossas relações. Não aguarde ser convidado para alguma grande cerimônia de transformação, pois é durante os afazeres e obrigações do cotidiano que a vida acontece. É nas pequenas coisas que você se revela, aprende e caminha; é nos detalhes quase imperceptíveis que os milagres se manifestam, invisíveis a olhares desatentos. E tudo se modifica de uma hora para outra sem qualquer aviso. Esta é a magia da vida”. Tornou a dar breve pausa para que as palavras encontrassem o seu lugar.
“Ouso a ir um pouco mais longe. A gratidão é sincera e simples em sua manifestação. Os mais puros sentimentos, por serem frutos da pura humildade, são discretos e anônimos. Não se revelam para o aplauso público, mas estão ligados a intimidade e beleza de compartilhar, como qualquer ato de amor verdadeiro. Nasce da responsabilidade pelo aperfeiçoamento da obra que nos foi confiada na condição de coautores. Sim, o mundo foi criado, mas não está terminado. Isto nos torna criadores e também as criaturas desse fascinante espetáculo, com as suas maravilhas e mazelas, na medida que ajudamos a escrever o roteiro, ao mesmo tempo em que protagonizamos as cenas. Nem todos ainda se deram conta da oportunidade concedida. Desta forma, agradeça e vá além da retórica ao tornar impecável cada gesto ou palavra. Não esqueça, ainda que distante, o mundo perfeito começa em você”.
O Velho sabia que não tinha mais do que alguns segundos para não atrapalhar o bom andamento da missa: “Para finalizar, peço desculpas se falei demais e deixo-os com duas questões. Como costumamos reclamar bastante das imperfeições do mundo, pergunto-lhes qual foi a sua melhor ação em prol de um mundo melhor?”, esperou alguns instantes para fazer a outra pergunta. “Qual a melhor maneira de agradecer por todas as bênçãos que a Vida segue a nos presentear?”.
Ao término da missa, o pároco agradeceu ao Velho por suas palavras e trocaram um forte abraço. Na saída da igreja muitas pessoas olharam para o monge com cara-feia, outros vieram lhe cumprimentar e ele atendeu a todas com atenção e carinho. Já de volta à praça, a sós, questionei sobre as perguntas que ele deixou a todos. Achei que não tratavam de uma mesma matéria, assim como o seu discurso, abordava dois assuntos distintos. O monge me mirou nos olhos, deu um leve sorriso e balançou a cabeça como dizendo que eu não tinha entendido nada.
Sentamos em uma cafeteria próxima. O Velho me falou com serenidade: “As Leis Não Escritas ajustam a vida e alavancam a evolução de todos. Caminhamos por gosto ou por imposição. A dificuldade nasce da recusa em aprender a devida lição para se libertar de um ciclo. Não lamente, agradeça, aprenda, se transforme, compartilhe e siga. O andarilho do Caminho se reconhece distante, não critica e busca o aperfeiçoamento. Ele sempre oferece o melhor de si. A cada escolha definimos o nosso destino e herança. Nesta ou em outra estação recolheremos os frutos da própria semeadura. Receberemos as exatas lições para entender a grandeza do Jardim. Somos o jardineiro, a semente, a flor e também o fruto. A semente é depositada e, em algum momento, há de germinar. Nem que para isso o solo pressione a casca de forma enérgica para que se rompa, germine e floresça em todo o seu encantamento”.
Ficamos em silêncio por um tempo e tornei a tocar nas perguntas que ele tinha feito a todos na igreja e qual seriam as respostas. Ele me observou com os olhos repletos de misericórdia e brincou. “Você é o pior discípulo que já tivemos na Ordem, Yoskhaz! Só existe uma resposta e serve para ambas as perguntas”, deu uma pequena pausa, rimos juntos, ele comeu a pequena fração de chocolate que acompanhava o café e respondeu: “A melhor maneira de agradecer pelas bênçãos recebidas é também o jeito mais eficaz de harmonizar o planeta: espalhe alegria por onde passar. Alegria, alegria! O amor tem as cores da alegria. Nada é mais poderoso do que ser o motivo para o sorriso de alguém”.
“Alegria é a melhor maneira de demonstrar gratidão por todas as bênçãos do Caminho”. Mirou no fundo de meus olhos e finalizou: “A alegria é o pão da alma; é um presente do amor. A alegria revela a paciência que temos com o que ainda não somos, de ver a beleza oculta em tudo e em todos. A alegria tem o dom de convidar os corações para dançar, aliviar dores, dar asas aos sonhos da humanidade e a manter viva a esperança indispensável em si próprio e em toda a gente. Permite que as suas atitudes reflitam o perfeito mundo que seu coração deseja. A alegria revela a boa vontade, a coragem e o respeito para com a vida. Aprenda com alegria, se transforme com alegria, compartilhe com alegria e siga com alegria. O melhor de tudo é que você não precisa pagar absolutamente nada por ela, é sementeira barata e está á disposição de qualquer um. Basta buscá-la no fundo do coração. A alegria é uma criatura do Amor e traz consigo todo o poder do Criador”.

O ENIGMA DA PACIÊNCIA. (Conto)

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, parecia encantado com as roseiras do pátio e as podava como bom jardineiro. Pedi para lhe fazer companhia. Ele anuiu com a cabeça e os seus olhos me indicaram um banco próximo para sentar. Ficamos em silêncio por um bom tempo a alimentar a alma com a quietude das horas. Até que perguntei se podíamos conversar. O monge arqueou os lábios em breve sorriso que interpretei como uma permissão. Discorri as minhas reflexões e dúvidas sobre a virtude da paciência e a sua importância para a felicidade. Ele ouviu sem dizer palavra, depois recolheu o alicate no bolso, acomodou-se à sombra em outro banco na minha frente e falou enquanto se distraia com uma pequena lagarta na palma da mão que acabara de arrancar da roseira: “A paciência é alimento indispensável da alma na estrada para a plenitude do ser, onde reside a paz”, pausou por alguns instantes como se buscasse as melhores palavras e seguiu: “No entanto, a paciência é uma virtude valiosa que possui um precioso enigma. A chave para decifrá-lo é a sensibilidade”.
De pronto, eu quis saber mais. O Velho me mirou nos olhos e disse: “Antes de qualquer coisa, há que se ter boa vontade com tudo e com todos. Entender que as pessoas se comportam de acordo com o seu nível de consciência e carga emocional momentânea e pretérita, ajuda a paciência a encontrar o seu lugar em nós. Não adianta ensinar uma criança a calcular uma raiz quadrada se ela ainda não domina as quatro operações básicas da matemática ou explicar algo enquanto está adormecida. Em nossas relações pessoais não é diferente. Ter esse compasso é perceber o passo do mundo, a entender que as relações se desenvolvem de acordo com a evolução e possibilidades dos interlocutores. A natureza não dá saltos. Aos poucos, tudo e todos se aperfeiçoam”.
Pensando ter entendido, falei que restava esperar que cada qual alargasse seu horizonte para as transformações indispensáveis no âmago do ser. De plano o Velho retrucou: “Apenas esperar? Esse não é o enigma da paciência”.
“Não podemos esquecer de oferecer o nosso melhor diante de qualquer acontecimento que se apresente, das mais banais às mais complexas situações e a paciência é parte essencial desse pacote. Isto é uma premissa para o andarilho do Caminho. Entretanto, a paciência nem sempre exclui uma atitude enérgica diante de determinados momentos do cotidiano. Ao contrário, ela tem que se fazer presente principalmente nos momentos que exigem firmeza nas ações”. Acomodou a pequena lagarta dentro de uma caixa de fósforos, mais tarde a soltaria na floresta, e disse: “Ser paciente não significa ser permissivo com o mal, cegos à injustiça, tolerantes com a violência ou omissos ao erro, quando se apresenta a responsabilidade de agir. Em outra variante, existe a hora de esclarecer e ajudar, como um farol a iluminar a embarcação na noite escura, evitando que naufrague nos rochedos da existência. Você nem sempre evitará o desastre, mas sinalizará a possibilidade de outra rota”. Deu uma pequena pausa, me observou por instantes e continuou: “No entanto, essa indispensável interferência é bastante delicada e revela muito de si mesmo. Por isto, deve ser feita com cuidado para que não seja um exercício de orgulho e vaidade do ego, que se satisfaz em imaginar, por instantes, superior ao outro. Tampouco que se crie estardalhaço para não envergonhar aquele que está no erro, porém que tenha tão somente a pura finalidade de mostrar um olhar diferente sobre determinada situação. Não esqueça que a paciência nunca tenta convencer, apenas iluminar, pois é um ato de amor. Bondade, generosidade e, acima de tudo, humildade são pressupostos indispensáveis da paciência”, explicou o monge.
Comentei que nunca tinha me dado conta de como a paciência era complexa. “Sim, ao contrário do que muitos pensam, ser paciente não significa ser conformista, porém um transformador. Sem alarde, longe do moralismo castrador, sem o sincero desejo de humilhar, de vingança ou de buscar aplausos nos palcos sociais. Por outro lado, a paciência não pode servir para maquiar a covardia ou a preguiça. A paciência é para os fortes, pois fizeram a escolha de abdicar da violência para o enfrentamento das dificuldades. O ser que domina a virtude da paciência é um pacífico e um pacificador, utiliza a paz como força de transformação. Ele é suave, porém firme; nunca agressivo. Suas palavras e atitudes servem como bálsamo a acalmar os corações dos que ainda viajam aflitos, lanterna aos navegantes perdidos nas rotas sombrias da existência”.
Questionei como saber a hora de esperar ou agir diante de cada situação. O monge me olhou como se já esperasse a pergunta e respondeu: “Este é o enigma da paciência, Yoskhaz. Voltamos ao início da conversa quando lhe falei sobre a sensibilidade ser a chave do segredo. A sensibilidade nada mais é do que a percepção apurada do Caminho. Isto faz com que o andarilho ofereça sempre o seu melhor, em infinito aperfeiçoamento para as metamorfoses indispensáveis à evolução. É a parte que lhe cabe e que ninguém fará por ele. Por outro lado, traz consigo a calma em saber que as Leis Não Escritas são inexoráveis, mesmo quando o resultado esperado não for imediato, até porque, não raro, envolve questões que o andarilho desconhece. Nada no universo escapará da abrangência e poder do Código. Então, é continuar semeando com afinco e aguardar a magia da vida na primavera que sempre chega”.
Falei que entendia, mas pedi que fosse mais didático. O Velho riu e caprichou: “Falo das Leis do Amor, Retorno, Afinidade, Ciclos, entre várias outras. São as Guardiães do Caminho e direcionam o processo evolutivo. A mente as decodifica pouco a pouco e nos mostra que quando mudamos o nosso jeito de andar mudam também a Estrada e a paisagem. O coração se encanta com a nova leveza do ser. Os desejos do ego lentamente se alinham aos princípios dignos da alma. A sabedoria passa a iluminar as feridas da alma e o amor as envolve com o seu incomensurável poder de curar. Assim passamos do embrutecimento à sensibilidade, da agonia para a paz”. Após uma pequena pausa, concluiu: “Aprendemos o momento de agir ou a hora de esperar através da sabedoria e do amor, mas sem a paciência essas virtudes desaparecem”.
Fechei os olhos por um tempo que não sei precisar. Quando voltei o Velho ainda estava sentado à minha frente. Ele me observou com sua enorme doçura e finalizou: “Não trago nenhuma novidade. A sabedoria e o amor são muito antigos, estão no mundo desde o início dos tempos. A transmutação do chumbo em ouro era a incessante busca dos alquimistas, pois é a grande batalha da vida. Trata-se de uma metáfora a iluminação das sombras que habitam cada um de nós. Esta é a Pedra Filosofal. E, pode acreditar, a paciência é um poderoso ingrediente na magia desse caldeirão”.