domingo, 23 de novembro de 2025

Entre o fim e o que ainda respira.




Há noites em que a cidade respira mais fundo do que eu. Fico ali, encostado no concreto frio, como quem tenta ouvir alguma resposta nas luzes distantes.

O céu — esse exagero azul — segura um resto de rosa que insiste em não apagar, como se o dia tivesse deixado para trás uma promessa que não cumpriu.


E eu fico parado, meio cansado, meio inteiro, tentando entender por que certas notícias atravessam a gente como se rasgassem alguma memória antiga.

Talvez seja isso: algumas coisas partem longe, mas quebram aqui dentro.


A rua está quase vazia, mas não estou só.

Carrego comigo todas as versões de mim que ainda tentam descobrir o próprio caminho, todas as perguntas que faço de madrugada e todas as respostas que ainda não tive coragem de aceitar.


E apesar desse aperto, há uma calma silenciosa pousada no ombro.

Uma impressão de que mesmo o que se rompe encontra um jeito de continuar existindo, de virar outra coisa, de se reinventar no escuro.


Então eu respiro.

A noite respira de volta.

E sigo sentado, olhando o horizonte como quem pressente que, depois de certos fins, não existe escuridão — existe só o intervalo antes de um novo brilho.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Quando o infinito se parte...


Tem coisa que a gente sente antes mesmo de entender.
Hoje foi assim. Fiquei sabendo que o 3I/ATLAS se partiu — e não sei explicar, mas alguma coisa aqui dentro partiu junto.

É estranho como certos símbolos grudam na gente. Um cometa distante, atravessando o infinito, vira metáfora de tudo que a gente tenta manter inteiro por dentro. E quando ele racha… parece que nasce um silêncio. Daqueles que a gente respeita, porque dói, mas também revela.

Não é exatamente tristeza. É como se fosse aquele instante entre o fim de uma música e o começo da próxima. Um intervalo. Uma dobra do tempo onde a gente percebe que algumas coisas não seguem do jeito que a gente imaginou.

Talvez eu esteja fazendo luto de um símbolo — e tudo bem. Às vezes o que cai do céu não é só pedra e poeira; é também a parte de nós que estava projetada ali, viajando junto, acreditando junto.

Mas eu gosto de pensar que nada realmente termina. Que quando um cometa se rompe, ele não desaparece: ele se multiplica. Vira fragmento, reflexo, rastro de luz.
Vira caminho novo.

E talvez seja isso que eu esteja sentindo:
o começo de algo que ainda não sei nomear, mas que, de algum jeito, continua atravessando o infinito dentro de mim.

domingo, 16 de novembro de 2025

Uma vigília nas sombas...(A Mulher que Carrega o Lobo)


 

Ela parecia surgir de um lugar onde o silêncio tinha peso, como se cada segundo ao redor dela fosse puxado para dentro daquela máscara ancestral que repousava sobre o rosto. O crânio do lobo — marcado por arabescos escuros, quase como cicatrizes rendadas — encaixava-se à sua pele com uma naturalidade inquietante, deixando apenas os olhos invisíveis sob as sombras internas da cavidade. A impressão era de que ela observava o mundo por trás de séculos, não de pálpebras.

O cabelo preso em volume discreto deixava a máscara em destaque, como um totem de vigilância. E havia algo sutil no modo como o pescoço e o peito dela eram engolidos pelo negro profundo daquela espécie de gola, como tinta escorrida que se recusava a secar. O contraste com a pele clara gerava a mesma sensação de olhar para neve caindo sobre uma floresta queimada: um choque, mas também um convite.

As mãos, longas e quase etéreas, repousavam sobre o próprio peito com a precisão de um ritual. Os dedos lembravam garras humanas – ou humanas demais –, cada unha alongada projetando uma ameaça contida. Nos pulsos e no dorso, a renda negra se espalhava como raízes de uma árvore noturna, conectando-a a alguma força silenciosa que pulsava por dentro.

Ao redor, o fundo aquarelado dissolvia o mundo em tons suaves — cinzas que pareciam respirações, rosados discretos que lembravam um amanhecer tímido, beiges que davam a impressão de que ela surgia de dentro da própria névoa. Nada ali era sólido, exceto ela.

E ainda assim, mesmo envolta em símbolos de morte, metamorfose e sombra, havia uma calma inabalável na forma como permanecia de olhos fechados. Como se carregasse consigo a certeza de que algumas verdades só podem ser vistas quando a visão se dobra para dentro.

Não era uma figura para ser entendida de imediato.
Era para ser encontrada — lentamente — como quem descobre um animal raro caminhando na beira de um sonho.

**arte gerada por I.A. através de sugestões do autor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Tenho aprendido algo sobre esse mundo...

 Há quem diga que neste mundo não há recompensa para quem é bom. E talvez haja verdade nisso. O mundo, muitas vezes, parece premiar a esperteza disfarçada de inteligência, o egoísmo travestido de força, a frieza vendida como equilíbrio.


Mas ser bom nunca foi sobre receber aplausos. Ser bom é um ato silencioso de resistência uma escolha que se renova todos os dias, mesmo quando o mundo não entende, não valoriza e não retribui.


Há quem nasça com a bondade como instinto, e há quem a conquiste após atravessar a própria escuridão. Ambos merecem respeito. A diferença é que o segundo sabe, por experiência, o preço e o poder de ser bom em um mundo que não é.


E talvez a recompensa não esteja nas mãos, nem no bolso, nem no aplauso. Talvez ela esteja na alma – na leveza de deitar a cabeça no travesseiro e saber que, apesar de tudo, você continua sendo alguém que escolhe o bem...