Entardecia no nono dia da travessia. Tinha sido um dia monótono,
mormente se comparado aos anteriores. O caravaneiro dera ordens para
montarmos o acampamento um pouco antes da hora que em geral
interrompíamos a marcha. Aproveitei para ir ao barbeiro. Pode parecer
estranho, mas a caravana tinha um barbeiro. Um dos encarregados levava
em sua bagagem uma pequena pia e um espelho, além dos apetrechos típicos
para a barbearia, como navalhas, tesouras, óleos e cremes. Eu uso barba
há muitos anos e tenho o costume apará-la uma vez por semana. Como não
cuidava da barba desde alguns dias antes da partida, somado às condições
difíceis impostas pelo deserto, me senti abandonado por mim mesmo
quando me olhei no pequeno espelho. O barbeiro era um homem simpático e
falante. Como era veterano de muitas travessias, o seu ofício ficava
enfeitado pelas muitas histórias que contava na medida que aparava
barbas e cortava cabelos. Quando me sentei na cadeira e comentei que
tomara um susto ao me ver no espelho devido aos maus-tratos que o
deserto me impunha, ele me corrigiu para dizer que o deserto era
rigoroso, porém cada um definia os cuidados que tinha consigo mesmo. Em
seguida, narrou uma engraçada história, que ele afirmava verdadeira,
acontecida há muitas travessias atrás, de um homem que teve um sério
surto ao se olhar no espelho: ele jurou que a imagem refletida não
correspondia a sua pessoa.
Atribuí o ocorrido ao desleixo desse homem consigo mesmo, somado a
algum tipo de problema psicótico agravado pelas difíceis condições da
travessia. O barbeiro deu de ombros e falou que o deserto sempre mudava a
vida das pessoas que o atravessavam. Acrescentou que já havia visto
muitas coisas estranhas durante as travessias e tinha desistido de
entendê-las. Serviço encerrado, paguei o preço cobrado e me dei por
satisfeito. Como o jantar estava servido, fui comer e esqueci da
história contada pelo barbeiro. Tive a atenção desviada para um rico
mercador de tapetes, a quem eu já tinha notado nos dias anteriores, que
viajava acompanhado por um séquito de empregados, sempre à disposição
para suas menores vontades. A sua tenda era luxuosa, forrada por finos
tapetes e almofadas de seda. De longe, ele reparou que eu observava toda
a movimentação à sua volta e fez um sinal para eu me aproximar. Hesitei
e ele enviou um dos empregados para me convidar à sua tenda. Quando
entrei, de perto, tudo me pareceu ainda mais luxuoso. Talheres de prata,
copos de cristal e um músico que entoava uma doce melodia com um
instrumento de corda que eu nunca tinha visto. Foi impossível não me
impressionar. Ele disse para eu me sentir à vontade e me servir do que
quisesse. Logo contou sobre os seus negócios e falou do palácio no qual
morava em Marraquexe. Em seguida, um dos seus empregados entrou com
todos os apetrechos para aparar a barba do mercador. O mercador disse
para continuarmos a conversa enquanto o serviço era feito. Tudo
transcorria bem até que perguntei se o caravaneiro costumava frequentar
aquela tenda. As suas feições se fecharam. O tom de voz ficou
visivelmente alterado quando ele disse que o caravaneiro nunca entrara
ali. O clima piorou quando após a barba feita, cortada rente à pele por
uma afiada navalha, e o rosto banhado em óleo, elogiei o resultado.
Sugeri que ele mesmo constatasse diante de um espelho. De modo
grosseiro, bem diferente do afável anfitrião de pouco antes, o mercador
disse que nunca se olhava no espelho durante as travessias no deserto.
Em seguida avisou que estava na hora de ele dormir. Sem entender a
mudança repentina de humor, fui conduzido por um dos empregados para
fora da tenda.
Atônito, fui para um lugar afastado para tentar entender o que tinha
acontecido, quando vi o caravaneiro cuidando do seu falcão após o
período vespertino de adestramento. Aproximei-me e fiz algumas perguntas
sobre a ave, menos por curiosidade e mais por necessidade de conversar.
Não demorou, contei sobre o que tinha acontecido há pouco na tenda. O
caravaneiro me ouviu com paciência e, ao final, não traçou qualquer
comentário. Perguntei por qual motivo ele nunca tinha entrado na tenda
do rico mercador. A resposta foi simples: “Nunca fui convidado.” Embora
tenha me pego de surpresa, não tive dúvida da sinceridade do
caravaneiro. Ele arqueou os lábios em leve sorriso. Havia compaixão e
nenhum ressentimento. O caravaneiro pediu licença para ir jantar, pois,
logo a comida seria recolhida. Sozinho, me sentei na areia e fiquei
tentando entender os estranhos fatos enquanto observava as primeiras
estrelas surgirem no céu.
Foi quando a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se
sentou ao meu lado. Ofereceu-me um punhado de nozes. Ficamos sem dizer
palavra por algum tempo, até que resolvi lhe contar sobre o acontecido
na tenda do rico mercador e a posterior conversa com o caravaneiro.
Então, aconteceu a maior das surpresas quando ela segredou: “Eles são
irmãos”. Acho que em razão das minhas feições não terem escondido a
enorme surpresa que senti, ela decidiu me contar um pouco mais: “Eles
ficaram órfãos ainda garotos. Cresceram cuidando um do outro. Iniciaram
no comércio de tapetes ainda adolescentes quando uma senhora, que estava
de mudança, lhes deu todos os tapetes da sua casa, pois não os podia
levar. Venderam tudo. Com o dinheiro passaram a correr a cidade em busca
de outros tapetes usados para revenda. Até que ouviram falar dos
tapeceiros do oásis, que apesar da excelente qualidade, tinham
dificuldade em encontrar compradores por causa da travessia do deserto.
Com a intrepidez típica da juventude, começaram a viajar para negociar
com os esses maravilhosos tecelões. Naquela época ninguém se aventurava a
isso. Na medida que enriqueciam, as viagens aumentavam e o negócio se
consolidava. Ocorre que o caravaneiro começou a se encantar mais pelos
mistérios do deserto do que pelos lucros do comércio. Aos poucos, sem se
dar conta, a travessia não era apenas uma parte do seu ofício, mas
virou uma arte. Apesar disto, tudo parecia ir bem até o dia que, durante
uma das travessias, ao terminar de aparar a barba do caravaneiro – até
então um mercador de tapetes – o barbeiro o colocou diante do pequeno
espelho para avaliar o serviço realizado. Dizem que ele não reconheceu a
imagem que o refletia.”
“Ali foi o momento da virada na existência do caravaneiro. Abdicou do
negócio de tapetes, deixando tudo para o irmão. Com o dinheiro que
juntou durante aquele período decidiu montar a própria caravana. Claro
que no início não foi fácil, mas o amor pelo seu sonho e o
aperfeiçoamento do seu dom o fortaleceram para superar as dificuldades e
prosseguir.” Perguntei se o sonho do mercador era também virar
caravaneiro como o irmão. A mulher explicou: “Provavelmente não, cada
qual é único e nisto reside toda a beleza do ser. Todavia, o mercador
precisa entender duas coisas básicas. O fato de o caravaneiro não mais
desejar para si a vida de mercador de tapetes não deprecia nem é uma
crítica ao irmão, que continua a exercer esse ofício. Cada um com o seu
dom e sonho. Outra coisa é a questão do dinheiro que me parece presente
de maneira muito óbvia. O dinheiro é uma ferramenta útil e bem-vinda,
mas atravessar um deserto apenas para ganhar e acumular fortuna como
forma de poder e dominação, orgulho e vaidade, causará em algum momento
um inevitável vazio impossível de preencher com moedas.”
“Um dia você acaba por não reconhecer o seu rosto no espelho por se
tornar estranho a si mesmo. Uns decidem enfrentar a batalha pessoal;
outros escolhem fugir.” Abriu os braços como quem lamenta e concluiu:
“Podemos fugir de um lugar, nunca da verdade.”
Como não reconheceu o próprio rosto? Interrompi para pedir que
explicasse melhor. A mulher teve boa vontade: “Olhar no espelho e ver o
nariz, as bochechas e as orelhas, todos conseguem. No entanto, olhar no
espelho e encontrar a sua alma refletida é para poucos. Algumas vezes
pode acontecer, em momentos de sensibilidade e percepção, de você
encontrar a alma abandonada, esquecida de si mesmo. Todo o brilho
exterior não ilumina a escuridão causada pela luz interna apagada” Fez
uma pausa e prosseguiu: “É um encontro doloroso, mas necessário. É
preciso humildade, sinceridade, amor e coragem, além de outras virtudes,
para o imprescindível resgate.” Observou-me profundamente e disse: “Em
algum momento da existência todos precisam enxergar a alma diante do
espelho. Depois, trazer a alma de volta à vida. Negar esta busca é
abdicar da essência da vida. Ninguém pode fazer isto por ninguém.
Encontrar a própria alma é a arte maior; libertá-la das prisões da
existência, a grande obra.”
Falei que era uma belíssima história, com bastante material para
reflexão. Contudo, não entendia o fato de os irmãos terem brigado. A
mulher explicou: “Eles não brigaram. Apenas o mercador se recusa a
conviver com o caravaneiro. Este nada tem contra aquele.” Eu disse que
agora compreendia ainda menos. Ela não desistiu de me fazer entender: “É
porque eles são muito parecidos.” Sacudi a cabeça como quem diz que não
fazia sentido. A bela mulher foi pedagógica: “Negamos a beleza do que
não conseguimos aceitar. Fugimos da verdade quando ela nos incomoda.
Estar ao lado de alguém, que mesmo sem dizer palavra, nos mostra toda
uma vida que poderia ter sido, mas não foi, entristece. Então, nos
refugiamos na sensação de segurança e poder com as ilusões que o
entreposto das sombras, sempre nas margens da vida, seduz o ego.” Deu de
ombros e comentou: “Nem todos estão prontos para iniciar a travessia
através do deserto de si mesmo para chegar ao oásis da alma.”
Interrompi para dizer que algo não fazia sentido. Se a opção de vida
do caravaneiro era tão dolorosa para o mercador, por qual motivo ele
teimava em fazer a travessia com a caravana do irmão? Ele poderia
ingressar em outra caravana. A mulher me devolveu a pergunta: “Por que
brigamos tanto com as pessoas que amamos? Por que insistimos em procurar
por pessoas que opõe sérios obstáculos em nossa existência? Já se deu
conta disto?” Fez uma pausa e como eu nada falei, ela prosseguiu: “Pelo
simples fato de admirarmos essas pessoas, ainda que apenas no
inconsciente. Sabemos que, no fundo, estas são as pessoas que podem nos
ensinar e fortalecer. Existe nelas uma luz que nos chama, que nos indica
as dificuldades a serem vencidas. Nelas ecoa a voz quase inaudível da
nossa alma, incansável em mostrar uma porta de saída para o ego
desorientado e fragmentado por diversas dores. É a chance de escapar de
um lugar escuro, onde não se percebe a ausência de luz por causa do
inúmeros enfeites brilhosos pendurados ao redor do tempo para nos
distrair. Como a claridade costuma arrancar a máscara de quem está
escondido na escuridão, reclamamos, depreciamos, maldizemos.”
“No entanto, nada revela mais quem somos do que os nossos sofrimentos.”
Interrompi mais uma vez para questionar se os sofrimentos são
indispensáveis à evolução. A mulher tornou a sacudir a cabeça: “Claro
que não. Os sofrimentos não são necessários. Pelo contrário. É
justamente isto que o deserto nos ensina. Sofremos apenas quando nos
movimentamos em sentido contrário à luz”. Olhou-me nos olhos e pareceu
ler os meus pensamentos: “Sim, por mais absurdo que possa parecer,
sofremos tão somente em razão de nossas escolhas. O deserto é apenas o
deserto. A direção para onde se move e o jeito de pisar na areia definem
as dunas e as dificuldades da travessia.”
“Contudo, é nesse ponto que os sofrimentos se mostram importantes.
Eles formam o mapa do resgate, a trilha da transformação. São as pegadas
de superação que contam a história de todos nós. Narram a busca da
vida, da luz, da alma, de si mesmo.”
“Os sofrimentos têm o valor de mostrar quem ainda não somos, passo
iniciático para entender quem podemos ser. É preciso dissecar o
sofrimento a partir do fato que o provocou até compreender a
desnecessidade da sua presença. Na origem do sofrimento está também o
fim do sofrimento. Lá é possível encontrar a transformação
indispensável, a gênese das virtudes, o portal do Caminho. Nele está
oculta a chave da libertação, a receita da cura. Tudo ao alcance de
qualquer indivíduo na exata medida do aperfeiçoamento das escolhas
pessoais. Porém é preciso entendimento. Entendimento, por sua vez, exige
amor, para que, ao invés de culpa e estagnação, vigore a alegria pela
descoberta, além de ânimo pelo prosseguimento da jornada.”
Ficamos algum tempo em silêncio até que a bela mulher pediu licença e
se despediu. Disse que tinha alguns afazeres. Acrescentou que eu
precisava de quietude e solidão. Aos poucos aquelas ideias foram
encontrando o devido lugar dentro de mim. Entendi a recusa do rico
mercador em olhar no espelho para não correr o risco de encontrar a
própria alma em abandono, como uma mendiga da vida. Como ele não estava
disposto a mudar, sofria. Paradoxalmente, a fuga do sofrimento
agigantava a sua dor, girando a roda dos conflitos e dando poder as
sombras pessoais. A variação de humor que eu presenciei na sua tenda
acontecia quando algo o lembrava de quem ele ainda não era. A irritação e
a sisudez são sintomas típicos de pessoas que precisam esconder a
fragilidade por estarem assombradas pelo orgulho e pela vaidade. De
outro lado, o caravaneiro era a imagem que revelava as escolhas
possíveis, simples, imprescindíveis, porém, nem sempre dispostas de
serem enfrentadas. Negar o irmão era a reação inconsciente de ignorar a
própria alma, o dom e os sonhos. Recusar o espelho é abdicar da verdade.
É negar a magia oferecida pela travessia do deserto. Ou da vida. É onde
reside o poder da transformação e a força da evolução.
Naquele momento, tive a nítida sensação que a mulher com olhos da cor
de lápis-lazúli olhava para mim. Mas eram apenas duas estrelas azuis
que brilhavam no céu do deserto.
Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence.
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
O oitavo dia da travessia – as tempestades de areia e da alma
A caravana iniciava o seu oitavo dia de viagem. O acampamento
despertava. Afastei-me para uma ligeira meditação quando vi o
caravaneiro, distante de todos, com o seu falcão pousado nas grossas
luvas de couro que usava no braço esquerdo. Distrai-me a espera do voo
da ave que costumava caçar no início e ao final do dia. Estranhei o
falcão se recusar a voar. Ao perceber o caravaneiro retornar ao
acampamento em passos apressados, entendi que algo estava errado. Embora
não tenha ouvido, vi quando ele deu algumas ordens para os
encarregados. Logo chegou a notícia de que uma tempestade de areia se
aproximava. Fomos orientados a nos arrumar para partir o mais rápido do
possível em busca de um lugar onde pudéssemos enfrentar a tempestade com
um pouco mais de segurança. Eu tinha ouvido histórias de caravanas
inteiras que sucumbiram diante de violentas tempestades de areia,
equivalente às avalanches para os montanhistas. Em poucos minutos todos
já estavam montados em seus camelos e cavalos, em jejum, seguindo
adiante. Marchávamos em absoluto silêncio. Todos os olhos estavam
angustiados em patrulha no horizonte à procura de qualquer sinal. O céu,
com o natural azul intenso do deserto, me parecia igual ao dos dias
anteriores. A temperatura começava a aumentar na medida que o sol
escalava a abóbada. Nada me pareceu diferente, salvo o medo que
amplificava a estranha quietude da marcha naquele dia. Notei que o
caravaneiro nos conduziu para um espaço aberto, longe das dunas, que se
movem ao sabor dos ventos e poderiam nos soterrar durante a tempestade.
Até que paramos para um breve descanso. O caravaneiro se afastou e
sentou sobre as pernas em posição de prece. Ao sentir a minha
aproximação, ele abriu os olhos e me encarou. Fiz sinal perguntando se
podia chegar mais perto e ele autorizou com um aceno de cabeça. Indaguei
se podíamos rezar juntos. Com o queixo ele indicou um lugar para eu
sentar ao seu lado. Confessei que estava com medo e quis saber se ele
também sentia. O caravaneiro respondeu com serenidade: “Todos sentem
medo na iminência de um mal. Peço por luz e proteção. A minha prece tem
tão e somente duas palavras.”
Luz e proteção, simples assim? Eu quis saber a razão de uma prece tão singela. De olhos fechados, ele explicou: “Deus, independente da maneira como o concebemos, habita em de cada um de nós. A alma é o templo do sagrado, o único lugar onde o encontro é possível. Não é o tamanho da oração que abrirá essa porta, mas a pureza dos sentimentos aliada ao entendimento de si mesmo, que em resumo, é o código do Caminho. Diante dos perigos da existência peço proteção contra os males com os quais ainda não consigo lutar, e luz para clarear as minhas escolhas frente àqueles que já posso enfrentar. Os bons espíritos do deserto estarão sempre dispostos ao auxílio, porém jamais farão a parte que me cabe fazer, caso em que estariam atrapalhando o meu aprimoramento pessoal. Apesar dos enormes riscos de uma tempestade de areia, a tempestade da alma é infinitamente mais arrasadora.”
Também fechei os olhos e não dissemos palavra por um tempo que não sei precisar. Deixei que o silêncio me conduzisse em viagem para dentro de mim, como uma visita guiada através dos jardins das minhas memórias, ideias e emoções. Serenei as agitadas, me nutri com as sutis. Uma agradável sensação de leveza aos poucos me envolveu, como quando, ainda criança, meus pais me levavam para passear no parque. Até que me deparei com um antigo conhecido, um velho inimigo: o medo.
Imediatamente, o que era bem-estar virou angústia. O medo sempre fora cruel e uma das principais causas dos meus sofrimentos. O medo me acenava com a derrota em diversos aspectos da existência. Desastres, enfermidades, desemprego, abandono e fracasso eram alguns dos raios da roda que girava desde sempre dentro de mim.
De outro lado, pensei, se o medo estava em mim, ele era criatura de minha autoria. Logo, passível de outro significado. Eu tinha que parar de me assustar, de me encolher e de fugir do medo. Embora fosse um personagem, o medo crescera pelos séculos e ganhara autonomia. Fingir que ele não existia ou negar a sua presença apenas o agigantava. Era preciso, em um primeiro momento, enfrentá-lo com sabedoria. A antítese do medo é a coragem. Ocorreu-me que para haver a coragem é preciso antes existir o medo; sem este não haverá aquela. O medo é a lagarta; a borboleta, a coragem. Isto, em seguida, me permitiu olhar e abraçar o medo com amor. Sim, o medo se alimenta da ausência do amor primordial, o amor por si e pela vida; portanto, eu poderia, através do amor, reinventar o medo como personagem, dar-lhe outro contexto e atuação em minha história e, assim, inverter as suas consequências funestas. Matar ou sufocar o medo seria um equívoco. Em um terceiro ato mostrei ao medo – ou, em essência, a mim mesmo – as possibilidades infinitas da luz. Eu disse ao medo que aceitaria os seus avisos face aos perigos iminentes do mundo, mas que isto jamais me paralisaria. Ao contrário, apenas serviria para me deixar atento e melhor preparado a cada dia. O medo não mais teria força para me esconder da vida nem me furtaria a alegria das manhãs. A partir daquele instante ele se tornaria um bom conselheiro cuja função seria me lembrar de aprimorar os meus dons ao invés de abandoná-los; de compartilhar com o mundo os meus melhores frutos ao invés de guardá-los comigo; e, acima de todas as coisas, de nunca me deixar desistir de seguir adiante. O medo me recordaria, todos os dias, que só fica triste quem abdica dos sonhos. Naquele instante me tornei um hábil criador de mim mesmo, capaz de transmutar um perigoso inimigo ancestral em um valioso aliado contemporâneo.
A agradável sensação de leveza voltou e, desta vez, trouxe consigo uma força estranha. Quando abri os olhos percebi que o caravaneiro me olhava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso como se soubesse aonde eu tinha ido e com quem eu havia me encontrado. Antes que eu pudesse traçar algum comentário, com o queixo, ele apontou o horizonte. Densas e escuras nuvens se avizinhavam. Ao contrário de antes, fui tomado por um incomensurável poder numa mistura de virtudes. Entendi que todas as vezes que houver coragem para enfrentar os problemas que se apresentam, amor para aprender com eles, paciência para aceitar o momento, sabedoria para superar a situação e fé para movimentar no sentido da luz o sagrado que me mora em mim, nunca faltará proteção, nenhum mal poderá me alcançar.
Sim, luz e proteção; tão e somente. Sorri de volta para o caravaneiro pela cumplicidade na revelação de parte da arte que compõe a plenitude; que revela a verdade e perfaz o todo. Sem dizer palavra, corremos ao encontro da caravana para ajudar a quem pudéssemos, mormente os desesperados.
O caravaneiro gritou ordens para que todos se reunissem como a um só corpo. “Todos somos um,” orientavam os encarregados da caravana, pedindo que as pessoas, de joelhos, se unissem em um grande abraço coletivo. Uma comum-unidade. Era a melhor maneira de enfrentar a tempestade. Todas as tempestades. As nuvens se aproximavam rapidamente e fomos aconselhados a cobrir o rosto por causa da violência da areia lançada pelo vento. Foi quando avistei uma anciã separada do grupo, sentada no chão, a uma distância de uns 100 metros de onde estávamos. Ao tentar me desvencilhar, um mercador que estava ao meu lado, ao perceber a minha intenção, disse que seria inútil, pois ela tinha dificuldade de locomoção. A tempestade me alcançaria em terreno aberto e morreríamos, a anciã e eu. Acrescentou para eu não “bancar o herói”, que talvez já fosse a hora dela e o destino tivesse que se cumprir, mas que o destino dela não estava atrelado ao meu. Em frações de segundo ponderei as razões do homem e não tive dúvida de que ele falava orientado pelo medo, porém, o medo dominado pelas sombras. O meu medo, como bom conselheiro, me dizia que não se tratava de uma questão de heroísmo, mas apesar do perigo, não deveria desperdiçar a oportunidade de exercitar o amor que eu sentia por aquela mulher desamparada. Tornei a tentar a me desvencilhar, mas ele voltou a me segurar. Olhei-o com sincera compaixão. Foi suficiente para ele afrouxar a sua mão do meu braço. Corri em direção à anciã. A ventania me desequilibrava e roguei aos bons espíritos do deserto que não me deixassem cair. Quando eu a abracei recebi um olhar de gratidão tão profundo que eu não saberia traduzir em palavras. Embora a tempestade não arrefecesse nem um pouco, meu coração alimentado pelo amor daquela senhora pareceu serenar o tempo dentro de mim. Percebi que ela também estava em paz e se encantava com o meu amor. Falei para ela que tínhamos que correr para nos juntar ao grupo antes que a tempestade aumentasse. Ela confessou que tinha dificuldade para andar. Implorou com honestidade que eu retornasse e me salvasse. Olhou-me nos olhos e disse para eu ir tranquilo, que ela e Deus eram ótimos amigos. Acrescentou que não ficaria desamparada e me presenteou com um luminoso sorriso.
Eu estava decidido a não abandonar a anciã. Ali o tempo era veloz e a tempestade não mais permitiu que nos juntássemos ao restante da caravana. Foi quando percebi que, junto ao grupo, o caravaneiro me olhava. Ele fez sinal para eu olhar atrás de mim. Vi que três camelos estavam deitados e agrupados, por instinto de sobrevivência, a uma pequena distância de onde eu estava. Tornei a olhar para o caravaneiro e ele balançou a cabeça dizendo que sim, era isto mesmo que tinha pensado. Sem mais hesitar, levantei a anciã em meus braços, corri para nos misturar aos animais e tentar resistir a intempérie. Deitados entre os camelos, enfrentamos o terrível clímax da tempestade.
Desmaiei sem me dar conta. Despertei sob dois olhos da cor de lápis-lazúli. Uma das mãos da bela mulher apoiavam a minha cabeça, enquanto a outra oferecia a água de um cantil. Alguns encarregados da caravana ajudaram a tirar a camada de areia que me cobria. A anciã, um pouco afastada, estava bem e era cuidada por outras pessoas. Ela acenou para mim e sorriu em agradecimento. Sentei-me na areia e quando ficamos a sós, contei para a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tudo o que acontecera desde cedo. Falei que devia agradecimentos ao caravaneiro pela lição. Ela comentou: “Figos não brotam em tamareiras.” Pedi para ela explicar melhor. A mulher esclareceu: “O entendimento só floresceu porque a semente já estava pronta para germinar. Caso contrário, de nada adiantaria as mais sábias palavras.”
Confessei que naquela noite eu dormiria um homem bem diferente daquele que acordou pela manhã. Falei que a maneira como eu tratava as minhas emoções faria delas inimigas ou aliadas. Este era um grande poder e era meu. A mulher balançou a cabeça em concordância e disse: “Todos os dias temos oportunidades para transformar chumbo em ouro, prisões em asas, de curar as feridas. Esta é a transmutação alquímica pura e simples; profunda e infinita. No entanto, a desperdiçamos por manter fechada as cortinas que encobrem a verdade. Nos mantemos na tempestade por negar a abrir a porta que nos leva à alma.”
Nesse instante veio a ordem para todos retornarem às suas montarias. A caravana seguiria o seu curso. Inexoravelmente. Levantei-me, sacudi um pouco de areia que ainda tinha em minha roupa e, quando olhei para o lado, não teve como deixar de dar uma gostosa risada pela previsível e, ao mesmo tempo, inusitada cena recorrente. A bela mulher com os olhos de cor de lápis-lazúli tinha se desmanchado no ar.
Luz e proteção, simples assim? Eu quis saber a razão de uma prece tão singela. De olhos fechados, ele explicou: “Deus, independente da maneira como o concebemos, habita em de cada um de nós. A alma é o templo do sagrado, o único lugar onde o encontro é possível. Não é o tamanho da oração que abrirá essa porta, mas a pureza dos sentimentos aliada ao entendimento de si mesmo, que em resumo, é o código do Caminho. Diante dos perigos da existência peço proteção contra os males com os quais ainda não consigo lutar, e luz para clarear as minhas escolhas frente àqueles que já posso enfrentar. Os bons espíritos do deserto estarão sempre dispostos ao auxílio, porém jamais farão a parte que me cabe fazer, caso em que estariam atrapalhando o meu aprimoramento pessoal. Apesar dos enormes riscos de uma tempestade de areia, a tempestade da alma é infinitamente mais arrasadora.”
Também fechei os olhos e não dissemos palavra por um tempo que não sei precisar. Deixei que o silêncio me conduzisse em viagem para dentro de mim, como uma visita guiada através dos jardins das minhas memórias, ideias e emoções. Serenei as agitadas, me nutri com as sutis. Uma agradável sensação de leveza aos poucos me envolveu, como quando, ainda criança, meus pais me levavam para passear no parque. Até que me deparei com um antigo conhecido, um velho inimigo: o medo.
Imediatamente, o que era bem-estar virou angústia. O medo sempre fora cruel e uma das principais causas dos meus sofrimentos. O medo me acenava com a derrota em diversos aspectos da existência. Desastres, enfermidades, desemprego, abandono e fracasso eram alguns dos raios da roda que girava desde sempre dentro de mim.
De outro lado, pensei, se o medo estava em mim, ele era criatura de minha autoria. Logo, passível de outro significado. Eu tinha que parar de me assustar, de me encolher e de fugir do medo. Embora fosse um personagem, o medo crescera pelos séculos e ganhara autonomia. Fingir que ele não existia ou negar a sua presença apenas o agigantava. Era preciso, em um primeiro momento, enfrentá-lo com sabedoria. A antítese do medo é a coragem. Ocorreu-me que para haver a coragem é preciso antes existir o medo; sem este não haverá aquela. O medo é a lagarta; a borboleta, a coragem. Isto, em seguida, me permitiu olhar e abraçar o medo com amor. Sim, o medo se alimenta da ausência do amor primordial, o amor por si e pela vida; portanto, eu poderia, através do amor, reinventar o medo como personagem, dar-lhe outro contexto e atuação em minha história e, assim, inverter as suas consequências funestas. Matar ou sufocar o medo seria um equívoco. Em um terceiro ato mostrei ao medo – ou, em essência, a mim mesmo – as possibilidades infinitas da luz. Eu disse ao medo que aceitaria os seus avisos face aos perigos iminentes do mundo, mas que isto jamais me paralisaria. Ao contrário, apenas serviria para me deixar atento e melhor preparado a cada dia. O medo não mais teria força para me esconder da vida nem me furtaria a alegria das manhãs. A partir daquele instante ele se tornaria um bom conselheiro cuja função seria me lembrar de aprimorar os meus dons ao invés de abandoná-los; de compartilhar com o mundo os meus melhores frutos ao invés de guardá-los comigo; e, acima de todas as coisas, de nunca me deixar desistir de seguir adiante. O medo me recordaria, todos os dias, que só fica triste quem abdica dos sonhos. Naquele instante me tornei um hábil criador de mim mesmo, capaz de transmutar um perigoso inimigo ancestral em um valioso aliado contemporâneo.
A agradável sensação de leveza voltou e, desta vez, trouxe consigo uma força estranha. Quando abri os olhos percebi que o caravaneiro me olhava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso como se soubesse aonde eu tinha ido e com quem eu havia me encontrado. Antes que eu pudesse traçar algum comentário, com o queixo, ele apontou o horizonte. Densas e escuras nuvens se avizinhavam. Ao contrário de antes, fui tomado por um incomensurável poder numa mistura de virtudes. Entendi que todas as vezes que houver coragem para enfrentar os problemas que se apresentam, amor para aprender com eles, paciência para aceitar o momento, sabedoria para superar a situação e fé para movimentar no sentido da luz o sagrado que me mora em mim, nunca faltará proteção, nenhum mal poderá me alcançar.
Sim, luz e proteção; tão e somente. Sorri de volta para o caravaneiro pela cumplicidade na revelação de parte da arte que compõe a plenitude; que revela a verdade e perfaz o todo. Sem dizer palavra, corremos ao encontro da caravana para ajudar a quem pudéssemos, mormente os desesperados.
O caravaneiro gritou ordens para que todos se reunissem como a um só corpo. “Todos somos um,” orientavam os encarregados da caravana, pedindo que as pessoas, de joelhos, se unissem em um grande abraço coletivo. Uma comum-unidade. Era a melhor maneira de enfrentar a tempestade. Todas as tempestades. As nuvens se aproximavam rapidamente e fomos aconselhados a cobrir o rosto por causa da violência da areia lançada pelo vento. Foi quando avistei uma anciã separada do grupo, sentada no chão, a uma distância de uns 100 metros de onde estávamos. Ao tentar me desvencilhar, um mercador que estava ao meu lado, ao perceber a minha intenção, disse que seria inútil, pois ela tinha dificuldade de locomoção. A tempestade me alcançaria em terreno aberto e morreríamos, a anciã e eu. Acrescentou para eu não “bancar o herói”, que talvez já fosse a hora dela e o destino tivesse que se cumprir, mas que o destino dela não estava atrelado ao meu. Em frações de segundo ponderei as razões do homem e não tive dúvida de que ele falava orientado pelo medo, porém, o medo dominado pelas sombras. O meu medo, como bom conselheiro, me dizia que não se tratava de uma questão de heroísmo, mas apesar do perigo, não deveria desperdiçar a oportunidade de exercitar o amor que eu sentia por aquela mulher desamparada. Tornei a tentar a me desvencilhar, mas ele voltou a me segurar. Olhei-o com sincera compaixão. Foi suficiente para ele afrouxar a sua mão do meu braço. Corri em direção à anciã. A ventania me desequilibrava e roguei aos bons espíritos do deserto que não me deixassem cair. Quando eu a abracei recebi um olhar de gratidão tão profundo que eu não saberia traduzir em palavras. Embora a tempestade não arrefecesse nem um pouco, meu coração alimentado pelo amor daquela senhora pareceu serenar o tempo dentro de mim. Percebi que ela também estava em paz e se encantava com o meu amor. Falei para ela que tínhamos que correr para nos juntar ao grupo antes que a tempestade aumentasse. Ela confessou que tinha dificuldade para andar. Implorou com honestidade que eu retornasse e me salvasse. Olhou-me nos olhos e disse para eu ir tranquilo, que ela e Deus eram ótimos amigos. Acrescentou que não ficaria desamparada e me presenteou com um luminoso sorriso.
Eu estava decidido a não abandonar a anciã. Ali o tempo era veloz e a tempestade não mais permitiu que nos juntássemos ao restante da caravana. Foi quando percebi que, junto ao grupo, o caravaneiro me olhava. Ele fez sinal para eu olhar atrás de mim. Vi que três camelos estavam deitados e agrupados, por instinto de sobrevivência, a uma pequena distância de onde eu estava. Tornei a olhar para o caravaneiro e ele balançou a cabeça dizendo que sim, era isto mesmo que tinha pensado. Sem mais hesitar, levantei a anciã em meus braços, corri para nos misturar aos animais e tentar resistir a intempérie. Deitados entre os camelos, enfrentamos o terrível clímax da tempestade.
Desmaiei sem me dar conta. Despertei sob dois olhos da cor de lápis-lazúli. Uma das mãos da bela mulher apoiavam a minha cabeça, enquanto a outra oferecia a água de um cantil. Alguns encarregados da caravana ajudaram a tirar a camada de areia que me cobria. A anciã, um pouco afastada, estava bem e era cuidada por outras pessoas. Ela acenou para mim e sorriu em agradecimento. Sentei-me na areia e quando ficamos a sós, contei para a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tudo o que acontecera desde cedo. Falei que devia agradecimentos ao caravaneiro pela lição. Ela comentou: “Figos não brotam em tamareiras.” Pedi para ela explicar melhor. A mulher esclareceu: “O entendimento só floresceu porque a semente já estava pronta para germinar. Caso contrário, de nada adiantaria as mais sábias palavras.”
Confessei que naquela noite eu dormiria um homem bem diferente daquele que acordou pela manhã. Falei que a maneira como eu tratava as minhas emoções faria delas inimigas ou aliadas. Este era um grande poder e era meu. A mulher balançou a cabeça em concordância e disse: “Todos os dias temos oportunidades para transformar chumbo em ouro, prisões em asas, de curar as feridas. Esta é a transmutação alquímica pura e simples; profunda e infinita. No entanto, a desperdiçamos por manter fechada as cortinas que encobrem a verdade. Nos mantemos na tempestade por negar a abrir a porta que nos leva à alma.”
Nesse instante veio a ordem para todos retornarem às suas montarias. A caravana seguiria o seu curso. Inexoravelmente. Levantei-me, sacudi um pouco de areia que ainda tinha em minha roupa e, quando olhei para o lado, não teve como deixar de dar uma gostosa risada pela previsível e, ao mesmo tempo, inusitada cena recorrente. A bela mulher com os olhos de cor de lápis-lazúli tinha se desmanchado no ar.
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
O sétimo dia da travessia – a temperança e o poder da alma
Estávamos no sétimo dia da travessia. A caravana fez um pequeno
desvio em sua rota para se abastecer de água em um poço construído e
mantido por uma pequena comunidade de tuaregues que, embora fossem de
natureza nômade, tinham se estabelecido naquele local há algum tempo.
Eram pessoas amistosas que se dedicavam a atender aos viajantes. Além da
água potável extraída de um leito subterrâneo do deserto, ofereciam
diversos víveres e negociavam camelos. As mulheres do grupo eram
conhecidas pela tecelagem colorida de suas roupas e pelo delicioso doce
de tâmaras que vendiam. Depois de encher o meu cantil, provei a famosa
iguaria e entendi a razão de a chamarem de “o mel do deserto”. Tive que
fechar os olhos tamanho foi o prazer. Como não sabia quando teria uma
nova oportunidade em comer aquela maravilha, adquiri uma grande
quantidade, suficiente para muitos dias e acondicionei no alforje do meu
camelo. Não tardou, a caravana seguiu o seu curso. Naquele dia, fui me
deliciando com os doces, um após outro, até o último, em incessante
volúpia. Na medida que comia os doces, eu sentia sede, me obrigando a
beber uma quantidade de água bem maior do que o normal. No final da
tarde, quando a caravana tornou a parar para acampar e passar a noite,
eu estava enjoado e com o cantil vazio. Enfastiado, rejeitei a refeição
oferecida e me afastei em razão do mal-estar que sentia. Procurei o
encarregado pela provisão da caravana e solicitei água para o meu
cantil. De modo educado, ele negou. Disse que tinha orientação do
caravaneiro de somente fornecer água após dois dias da passagem pelo
poço, como maneira de todos colaborarem para um consumo consciente,
equilibrando as difíceis condições que se impunham. Insisti, mas o homem
se manteve firme na negativa. Tornei a me afastar e, em pouco tempo, a
sensação de sede aumentou exponencialmente até ficar insustentável. A
irritação tomou conta de mim como efeito da crise de abstinência. De
longe avistei outro viajante, um mercador, veterano de muitas
travessias, bebendo água. Aproximei-me e pedi um pouco. Expliquei a ele o
ocorrido. Ele me olhou por alguns segundos e disse que me venderia um
cantil. Vi que havia vários cantis em seu alforje. Sem hesitar, falei
que pagaria. Ele sorriu de maneira estranha. Em seguida estabeleceu o
preço. Era um valor alto, muito alto.
Argumentei que era um absurdo cobrar uma fortuna por uma pequena quantidade de água. O mercador respondeu que estava barato, pois aquele preço não era pela água, mas pela minha vida.
Todos sabem que é impossível sobreviver sem água. Mais frágil é a vida e mais necessária é a água em região inóspita como o deserto. Falei que o seu comportamento era abusivo e desumano. Ele deu de ombros e disse para eu ficar à vontade para decidir. Sustentei que a minha necessidade furtava a minha liberdade de escolha. Ponderei que não tinha todo o dinheiro cobrado. O mercador propôs que eu pagasse com o meu camelo. Disse que o animal lhe seria útil para distribuir melhor o peso das mercadorias que transportava até o oásis. Contestei o absurdo da proposta, caso em que eu teria de seguir a viagem a pé. Roguei que tivesse piedade; o homem me aconselhou a pedir misericórdia ao caravaneiro que tinha água suficiente para abastecer a todos. Implorei ao mercador, em vão.
Tentado a entregar o meu camelo, decidi me afastar para tentar colocar em ordem a confusão de ideias e emoções que me envolviam. Eu tinha perdido a paz; sem paz a felicidade era uma ilusão. Assim, tênue se tornara o amor que eu sentia por mim ou por alguém. Senti-me o pior dos homens; um trapo de gente. Percebi que talvez eu tivesse que aceitar condições com as quais não concordava; sem liberdade eu também perdia a dignidade. Amaldiçoei a vida.
Procurei me acalmar e pensei que talvez eu tivesse uma chance ao negociar. Os povos do deserto tinham o comércio como uma arte. Voltei ao mercador e ofereci o relógio de uma marca caríssima que eu usava. Ele recusou. Adicionei uma boa parte do dinheiro que eu tinha. A mesma resposta. Mesmo entregando todo o dinheiro nada mudou. Propus fazer uma transferência bancária no valor de dois camelos quando retornasse à cidade. Depois, dez camelos. A negativa se manteve. O mercador se mostrou insensível às minhas ofertas e argumentou que não precisava de um “relógio agora ou de dinheiro depois”. Naquele momento ele necessitava do meu camelo assim como eu desejava um cantil cheio de água.
A sede me assolava de maneira insuportável. Quando pensei em resistir à absurda proposta, a secura na garganta pareceu me sufocar. O ar que eu respirava ardia como fogo. Capitulei. Resignado, disse ao mercador que aceitava a sua absurda oferta. Ele, sem dar a mínima para a minha opinião, pegou um dos cantis no alforje. Antes de me entregar avisou que ao colocá-lo em minhas mãos o negócio estaria fechado. Irremediavelmente.
Com as feições contrariadas, balancei a cabeça afirmando estar ciente dos termos. Quando fui estender a mão para pegar o cantil, para minha surpresa, outro cantil, bem mais rústico, confecionado com pele de cabra e repleto de água, foi atirado aos meus pés. Era o caravaneiro que se aproximara sem se fazer notar. Sedento, peguei-o na areia e bebi um gole prolongado de água em sensação de prazer inesquecível. Alegria tanto pela saciedade quanto pelo resgate da situação que eu me envolvera. Sem temer o caravaneiro, o mercador protestou sob o fundamento de que a tradição do deserto impedia que um homem interferisse nos negócios de outro. O caravaneiro, sem se alterar, respondeu em um tom de voz que equilibrava serenidade e firmeza: “Reza também a tradição do deserto que um homem não pode escravizar outro. Entendo, pela ordem de valores, que esta se sobrepõe àquela”. Virou-se para mim e ordenou: “Afaste-se daqui e aprenda a cuidar de si. Seja senhor das suas escolhas para não se tornar prisioneiro dos seus desejos.” Antes que o mercador articulasse qualquer palavra, girou nos calcanhares e se retirou. Sem demora, segui para um canto distante dali.
Em local distante de todos, me deitei sobre a areia macia e fiquei envolto com os fatos daquele dia, enquanto me encantava com o céu estrelado do deserto. Dormi ali mesmo, abraçado ao cantil de couro de cabra, agora com água pela metade, uma verdadeira riqueza para o dia seguinte. No meio da noite acordei como quem desperta pelo susto de um sono atribulado. Ao meu lado estava sentada a linda mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, com as pernas cruzadas em posição de meditação. Ela olhava para mim como se velasse pelos meus sonhos. Comentei que tinha sido um dia difícil, porém restara uma valiosa lição. Falei que dali por diante eu seria mais moderado quanto aos prazeres e às necessidades. Acrescentei que talvez eu não precisasse de tanto quanto antes imaginava. Era preciso rever as minhas desnecessidades. A mulher sorriu e disse: “A temperança é a flor da serenidade, cujas raízes estão na sensatez. Quanto menor for a dependência, de qualquer tipo ou espécie, maior será a tranquilidade do indivíduo. Quanto mais moderado em relação às minhas necessidades, mais livre consigo ser. A liberdade preserva a dignidade. Esta nos envolve em paz, que por sua vez nos permite respirar o ar puro da felicidade. Então, conseguimos amar de verdade, despojado das exigências mundanas que nos impomos.”
“A temperança é a arte da harmonia entre as metades na integralização do ser. Ela tem a capacidade de desnudar algumas sombras, como a volúpia, a inveja, o ciúme e a ganância, por exemplo. Ao mostrar a insensatez de muitos dos desejos do ego e a importância de valorizar as necessidades fundamentais da alma, a temperança nos orienta rumo à plenitude. Ela retira o enorme peso do ter para oferecer leveza ao ser.” Fez uma pausa antes de concluir: “Não se trata de desfrutar menos a vida, mas aproveitar melhor todas as coisas que há na existência.”
Virei o olhar para as estrelas e pensei em como menos se torna mais diante da fortuna imaterial da plenitude. Liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor são as flores do sagrado ocultas no jardim do mundo; encontrá-las é o encantamento da vida e o poder incomensurável da alma. Se a humildade é a virtude que abre o portal do Caminho, a temperança me equilibra através dele.
Sem lembrar do momento em que voltei a dormir, acordei com os primeiros raios de sol acariciando o meu rosto. Eu ainda estava agarrado ao cantil de couro de cabra. A caravana se movimentava para levantar o acampamento e logo seguiria o seu curso. Como era de se esperar, nem sinal da mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Duvidei se a conversa daquela noite de fato acontecera ou não passara de um sonho bom.
Argumentei que era um absurdo cobrar uma fortuna por uma pequena quantidade de água. O mercador respondeu que estava barato, pois aquele preço não era pela água, mas pela minha vida.
Todos sabem que é impossível sobreviver sem água. Mais frágil é a vida e mais necessária é a água em região inóspita como o deserto. Falei que o seu comportamento era abusivo e desumano. Ele deu de ombros e disse para eu ficar à vontade para decidir. Sustentei que a minha necessidade furtava a minha liberdade de escolha. Ponderei que não tinha todo o dinheiro cobrado. O mercador propôs que eu pagasse com o meu camelo. Disse que o animal lhe seria útil para distribuir melhor o peso das mercadorias que transportava até o oásis. Contestei o absurdo da proposta, caso em que eu teria de seguir a viagem a pé. Roguei que tivesse piedade; o homem me aconselhou a pedir misericórdia ao caravaneiro que tinha água suficiente para abastecer a todos. Implorei ao mercador, em vão.
Tentado a entregar o meu camelo, decidi me afastar para tentar colocar em ordem a confusão de ideias e emoções que me envolviam. Eu tinha perdido a paz; sem paz a felicidade era uma ilusão. Assim, tênue se tornara o amor que eu sentia por mim ou por alguém. Senti-me o pior dos homens; um trapo de gente. Percebi que talvez eu tivesse que aceitar condições com as quais não concordava; sem liberdade eu também perdia a dignidade. Amaldiçoei a vida.
Procurei me acalmar e pensei que talvez eu tivesse uma chance ao negociar. Os povos do deserto tinham o comércio como uma arte. Voltei ao mercador e ofereci o relógio de uma marca caríssima que eu usava. Ele recusou. Adicionei uma boa parte do dinheiro que eu tinha. A mesma resposta. Mesmo entregando todo o dinheiro nada mudou. Propus fazer uma transferência bancária no valor de dois camelos quando retornasse à cidade. Depois, dez camelos. A negativa se manteve. O mercador se mostrou insensível às minhas ofertas e argumentou que não precisava de um “relógio agora ou de dinheiro depois”. Naquele momento ele necessitava do meu camelo assim como eu desejava um cantil cheio de água.
A sede me assolava de maneira insuportável. Quando pensei em resistir à absurda proposta, a secura na garganta pareceu me sufocar. O ar que eu respirava ardia como fogo. Capitulei. Resignado, disse ao mercador que aceitava a sua absurda oferta. Ele, sem dar a mínima para a minha opinião, pegou um dos cantis no alforje. Antes de me entregar avisou que ao colocá-lo em minhas mãos o negócio estaria fechado. Irremediavelmente.
Com as feições contrariadas, balancei a cabeça afirmando estar ciente dos termos. Quando fui estender a mão para pegar o cantil, para minha surpresa, outro cantil, bem mais rústico, confecionado com pele de cabra e repleto de água, foi atirado aos meus pés. Era o caravaneiro que se aproximara sem se fazer notar. Sedento, peguei-o na areia e bebi um gole prolongado de água em sensação de prazer inesquecível. Alegria tanto pela saciedade quanto pelo resgate da situação que eu me envolvera. Sem temer o caravaneiro, o mercador protestou sob o fundamento de que a tradição do deserto impedia que um homem interferisse nos negócios de outro. O caravaneiro, sem se alterar, respondeu em um tom de voz que equilibrava serenidade e firmeza: “Reza também a tradição do deserto que um homem não pode escravizar outro. Entendo, pela ordem de valores, que esta se sobrepõe àquela”. Virou-se para mim e ordenou: “Afaste-se daqui e aprenda a cuidar de si. Seja senhor das suas escolhas para não se tornar prisioneiro dos seus desejos.” Antes que o mercador articulasse qualquer palavra, girou nos calcanhares e se retirou. Sem demora, segui para um canto distante dali.
Em local distante de todos, me deitei sobre a areia macia e fiquei envolto com os fatos daquele dia, enquanto me encantava com o céu estrelado do deserto. Dormi ali mesmo, abraçado ao cantil de couro de cabra, agora com água pela metade, uma verdadeira riqueza para o dia seguinte. No meio da noite acordei como quem desperta pelo susto de um sono atribulado. Ao meu lado estava sentada a linda mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, com as pernas cruzadas em posição de meditação. Ela olhava para mim como se velasse pelos meus sonhos. Comentei que tinha sido um dia difícil, porém restara uma valiosa lição. Falei que dali por diante eu seria mais moderado quanto aos prazeres e às necessidades. Acrescentei que talvez eu não precisasse de tanto quanto antes imaginava. Era preciso rever as minhas desnecessidades. A mulher sorriu e disse: “A temperança é a flor da serenidade, cujas raízes estão na sensatez. Quanto menor for a dependência, de qualquer tipo ou espécie, maior será a tranquilidade do indivíduo. Quanto mais moderado em relação às minhas necessidades, mais livre consigo ser. A liberdade preserva a dignidade. Esta nos envolve em paz, que por sua vez nos permite respirar o ar puro da felicidade. Então, conseguimos amar de verdade, despojado das exigências mundanas que nos impomos.”
“A temperança é a arte da harmonia entre as metades na integralização do ser. Ela tem a capacidade de desnudar algumas sombras, como a volúpia, a inveja, o ciúme e a ganância, por exemplo. Ao mostrar a insensatez de muitos dos desejos do ego e a importância de valorizar as necessidades fundamentais da alma, a temperança nos orienta rumo à plenitude. Ela retira o enorme peso do ter para oferecer leveza ao ser.” Fez uma pausa antes de concluir: “Não se trata de desfrutar menos a vida, mas aproveitar melhor todas as coisas que há na existência.”
Virei o olhar para as estrelas e pensei em como menos se torna mais diante da fortuna imaterial da plenitude. Liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor são as flores do sagrado ocultas no jardim do mundo; encontrá-las é o encantamento da vida e o poder incomensurável da alma. Se a humildade é a virtude que abre o portal do Caminho, a temperança me equilibra através dele.
Sem lembrar do momento em que voltei a dormir, acordei com os primeiros raios de sol acariciando o meu rosto. Eu ainda estava agarrado ao cantil de couro de cabra. A caravana se movimentava para levantar o acampamento e logo seguiria o seu curso. Como era de se esperar, nem sinal da mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Duvidei se a conversa daquela noite de fato acontecera ou não passara de um sonho bom.
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
O sexto dia da travessia – a sombra da discórdia e a alma esquecida
A caravana estava no sexto dia. As precárias condições de uma
travessia pelo deserto, por maiores que sejam os cuidados dispensados
pelos viajantes, seja pelo clima inóspito, seja pela falta de uma série
facilidades, às quais nos acostumamos nas cidades, trazem inevitáveis
problemas. Há que se ter atenção tanto em relação às variações de humor,
tão imprevisíveis quanto as dunas que se movimentam ao sabor do vento,
quanto à saúde física que tende a se deteriorar muito rapidamente ao
menor descuido. Ao caravaneiro cabe a difícil tarefa de conduzir a
caravana na harmonia entre a firmeza e a paciência. A sensatez é a
virtude que permite o equilíbrio entre as outras duas virtudes, posta à
prova a todo momento em diferentes graus de exigência. Naquele dia
circulava a notícia de que poderíamos enfrentar uma violenta tempestade
de areia. Alguns diziam que não passava de um boato; outros sustentavam a
veracidade do perigo, alegando como fonte um experiente encarregado da
caravana, veterano de muitas travessias. Como se não bastasse toda a
insalubridade típica do deserto, a tensão diante da iminência do perigo
alterou o ânimo de alguns integrantes. Não raro, o medo se torna a raiz
de muitas doenças e conflitos. Um dos viajantes foi acometido de um mal
súbito. Como já estávamos no meio do dia, o caravaneiro ordenou uma
pequena parada para um rápido descanso e as providências cabíveis à
pessoa adoentada.
Por acaso era um homem que viajava próximo a mim naquele dia. Algo nele me incomodava. Ele falava o tempo todo, sempre contando vantagens. Quando me aproximei, percebi que ele respirava com dificuldades e falava coisas que na minha opinião eram absurdas e sem sentido. De imediato diagnostiquei a origem do mal: medo. Em seguida, sem a menor cerimônia, receitei o remédio: coragem. Outro homem, que naquele momento também o acudia, um espanhol chamado Pablo, peregrino como eu, discordou. Disse que as palavras pronunciadas pelo enfermo não eram um mero delírio, mas valiosas visões sobrenaturais que deveriam ser aproveitadas para a segurança de todos. Eram, segundo ele, os espíritos do deserto nos auxiliando diante do perigo que se avizinhava. Falei que aquilo era uma bobagem maior do que o delírio do doente. O homem rebateu dizendo que eu deveria ter um pouco mais de sensibilidade e consideração pelos outros. Acusou-me de não ter compaixão. Logo iniciamos uma séria discussão que não chegou às vias de fato graças à intervenção de outras pessoas. Exaltados, cada um foi levado para um lado, carregando consigo as suas razões. Aleguei, para quem estava por perto, a minha falta de paciência com a ignorância travestida de sabedoria. Por sua vez, o meu desafeto sustentou os mesmos motivos para quem estava próximo dele. Não demorou, o caravaneiro se aproximou e disse em tom de sentença: “Por maiores que sejam os perigos que uma caravana está exposta, seja uma tempestade de areia, seja o ataque de tribos nômades, nada supera os danos causados por egos exaltados, emoções descontroladas e pela discórdia. É mais fácil me defender do mal quando ele vem de fora. O mal quando se manifesta internamente costuma causar estragos bem mais sérios e, portanto, precisa ser sanado na raiz. Ambos continuarão a pé, na rabeira da caravana, puxando os seus camelos, até o final do dia. Será uma oportunidade para a reflexão.”
Tanto eu quanto o outro homem alegamos que aquela decisão era insensata. Cada qual se considerou injustiçado em virtude de a culpa ser do outro. O caravaneiro ouviu todas as nossas lamúrias sem nos interromper. Ao final, fundamentou: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. A razão oscila de acordo com o nível de consciência de cada pessoa. Todos têm direito à própria opinião; ela é sagrada por conduzir as nossas escolhas. No entanto, a maneira de a manifestar, demonstrando respeito pelas diferenças, é uma arte.” Fez uma pausa antes de concluir: “Esta travessia apresenta as dificuldades inerentes ao próprio deserto. Elas não são poucas nem fáceis de enfrentar. Para conseguir alcançar o destino a caravana precisa se comportar como um só corpo. Caso contrário, com as forças divididas, não será possível fazer frente às muitas dificuldades externas que inevitavelmente se apresentarão durante o trajeto. O valor reside na pacificação das relações sem que ninguém precise perder a própria identidade. Cada um com as suas verdades e crenças; todos em paz.”
Não tardou e a caravana tornou a seguir o seu curso. Pablo e eu fomos a pé, fazendo companhia um ao outro, conforme determinação do caravaneiro. Na primeira hora nos amaldiçoamos mutuamente. Eu estava profundamente irritado com o espanhol; a recíproca também se aplicava. Como ele viajava acompanhado de alguns amigos, um deles decidiu fazer companhia a Pablo durante o trecho em que íamos a pé. Na segunda hora, começaram a interpretar as visões do homem que tivera o mal-estar e comentavam, fazendo questão que eu os ouvisse, que aquela situação era uma das previstas por ele. Nas horas seguintes a minha irritação foi escalando tons a ponto de virar um ódio destruidor. Toda raiva, mágoa, ira ou ressentimento é avassaladora. É quando quebramos tudo ao redor ou destruímos o melhor que existe em nós. A raiva, como todas as demais sombras, quando se manifesta dentro da gente, nos faz tão mal que parece que a melhor solução é espalhá-la pelo mundo. Quando isto acontece significa que a permitimos germinar e dar frutos. Passamos a habitar uma floresta escura. Tudo à nossa volta parece trevas; o coração perece por inanição. Isto acontece quando permitimos às sombras o poder de apagar a nossa luz. Então, perdemos a batalha.
No final da tarde, quando a caravana parou para levantar o acampamento e passarmos a noite, eu estava exausto. Mas não sentia fome nem tinha sono. A boca trazia um gosto amargo. Sentei-me em um canto afastado. Eu queria quietude e solidão. Vi o caravaneiro se distanciar com o seu falcão pousado sobre a grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Com um muxoxo, para que ninguém ouvisse, disparei uma série de palavrões. Pablo e os amigos que o cercavam formavam um grupo. Não dava para escutar o que eles diziam, mas percebi que eles falavam muito e tive a impressão de que riam de mim. Desconfiei que zombavam dos meus argumentos. A raiva crescente foi se avolumando e considerei a possibilidade de ir tomar satisfações. Não levaria aquele desaforo para casa. Chegou a me ocorrer a absurda ideia de que eu trazia um punhal no alforje do meu camelo. Apenas a certeza de que a punição do caravaneiro seria bem mais rigorosa, caso eu arrumasse qualquer outra confusão, foi capaz de me deter. No entanto, o fel da ira me envenenava e, logo após um breve acesso tosse, vomitei. Com forte sensação de enjoo, virei-me à procura do meu cantil.
Para a minha surpresa, ele estava nas mãos na mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, que o estendia para mim. Eu não tinha notado a sua aproximação. Agradeci, bebi um pouco de água e, lembrando dos dias anteriores, comentei que ela parecia se desmanchar e se materializar no ar. Ela deu uma deliciosa risada e disse em tom de brincadeira, embora eu desconfie que houvesse algo a mais nas entrelinhas das suas palavras: “Eu cavalgo no Vento.” Fez uma pausa e concluiu: “É o nome do meu cavalo”, se referindo ao vigoroso corcel negro com o qual atravessava o deserto. Em seguida, derramei todos os meus sentimentos através da narração dos fatos que se sucederam durante o dia. Ela me ouviu com bondosa paciência. Em determinado momento da minha falação, repleta de queixas, tive a sensação que ela me ouvia apenas na intenção de que eu também me ouvisse. Fiz esse comentário para a mulher. Ela balançou a cabeça em concordância e esclareceu: “Durante um conflito, não raro o espalhamos, seja na tentativa de obter dos outros uma palavra de apoio às nossas ideias, seja na absurda e inconsciente possibilidade de transferir parte do sofrimento ou da responsabilidade que, por ventura, nos vergue as costas. Esse discurso, quando é para o mundo, acaba sendo infrutífero por inadequação, pois ninguém poderá resolvê-lo em nosso lugar. Ou, pior, pode agigantar as sombras ao encontrar suporte por parte de alguém que as alimente. No entanto, quando conseguimos fazer com que a alma escute as palavras proferidas pelo ego, damos o primeiro passo para o verdadeiro entendimento do que se passa. Por isto falar para si mesmo é importante; é a oportunidade de ouvir a própria voz e a mensagem que ela traz. Entender o conflito é entender o ego, os seus desajustes e desejos insensatos; é compreender as próprias sombras envolvidas, fomentadoras do entrevero. Então, aos poucos, a alma se acende para iluminar as escolhas do ego, mostrando novas possibilidades de pensar e agir; de ser e de viver. Um conflito pode causar um grande problema ou te colocar diante de um mestre. Esta escolha é sua. Se faz necessário estar atento a ela.”
Aquelas palavras não arrefeceram os meus ânimos exaltados. Falei que o discurso era belo, porém distante da realidade. Lembrei à mulher que Pablo e seus amigos me ridicularizavam. Ela me olhou com infinita doçura e me disse de forma delicada: “Isto não tem importância. As ofensas, a ironia ou desprezo são armas das sombras utilizadas por um ego ainda primitivo e dominador. Estas flechas somente irão atingi-lo se você tiver um ego na mesma vibração. Um ego alinhado à alma sempre estará em posição onde as setas do mundo não têm alcance. O amor será sempre as suas asas e o seu melhor escudo.”
Perguntei se ela achava que o delírio do homem pela manhã poderia ser mensagens dos espíritos do deserto. Ela deu de ombros e comentou: “Não me importa, tampouco as ouvi. Se você acredita, faça uso delas; senão, descarte-as. Simples assim. Cada um será responsável pelas suas escolhas, com ou sem ajuda dos espíritos. Vale lembrar que no deserto há espíritos de todos os tipos. Você terá sempre a ventura de escutar aqueles com os quais o seu nível de consciência e padrão de sentimentos se afinarem. Estes, sim, serão os mecanismos que determinarão a participação da alma na educação do ego e as suas chances de libertação”. Interrompi para questionar de qual libertação ela se referia. A mulher esclareceu: “A libertação do sofrimento. Justamente a cura da dor provocada pelo ódio que te corrói agora e oculta de ti a beleza da vida.”
“As diferenças de opinião são saudáveis por nos apresentar, por vezes, óticas desconhecidas sobre uma determinada situação ou nos mostrar fronteiras que já atravessamos. Pode se tornar um jeito diferente e melhor de ser ou uma maneira obsoleta de viver. Escute o outro com respeito e paciência; sobre diferentes disfarces, as pessoas quase sempre falam sobre as suas dores”. Fez uma pequena pausa e prosseguiu: “No entanto, quando brigamos, ninguém escuta ninguém. De sobra resta a energia pesada que nos envolve. Faz-se primordial que as ideias sejam expostas de maneira clara e serena, para a devida compreensão. Depois serão aceitas ou descartadas, conforme o valor que houver. Quando vocês discutiram, o desentendimento fez com que as sombras se apresentassem para ambos. Elas, as sombras, os convenceram que cada qual precisava se sobrepor ao outro, como se a divergência de ideias fosse uma guerra na qual tivesse que haver um vencedor. Isto acontece todas as vezes que nos iludimos maiores e melhores que os demais. Pura desnecessidade.” Eu tornei a interromper para saber quais sombras seriam essas. Ela respondeu sem rodeios: “As mais vulgares, que também são as da pior espécie: o orgulho e a vaidade.”
Eu confessei que me sentia muito mal e não sabia como reagir. A mulher continuou atenciosa e disse: “Nesses casos, ao perceber a aproximação de qualquer das sombras, não reaja por impulso, pois você provavelmente estará sob a orientação dela. Pare, sinta e pense. Use o coração como um filtro. É preciso que saibamos quem são nossos conselheiros a cada momento da vida. Busque pela sua alma; dê voz à sua alma. Ela é puro amor e será sempre a melhor conselheira, pois lhe indicará a outra face. A face da luz.”
“Em momentos assim é imprescindível, para iluminar os fatos, que as sombras sejam envolvidas pela nossa luz interior. Quando conseguimos, impedimos que os sentimentos densos se alastrem e a escuridão será extinta de imediato. Quando, porventura, todo o amor necessário não estiver disponível naquele instante, apenas se recuse a alimentar a sombra. Por inanição você irá enfraquecê-la. Então, logo adiante, poderá transmutar a sombra na luz das virtudes.”
“No entanto, na disputa para se mostrar maior e melhor que outro, vocês concederam um enorme poder as sombras. Tão grande esse poder que, na medida que se avolumou, foi capaz de dominar as ideias e as emoções dos dois. Onde estavam a humildade, a compaixão, a paciência, o respeito, a sensatez e o amor? As virtudes acabaram aprisionadas pelo orgulho e pela vaidade. Assim, foram impedidas de qualquer movimento. Quando isso acontece, o resultado origina muito sofrimento.” Deu de ombros e comentou: “Os frutos sempre estarão de acordo com a seiva que alimenta a árvore.”
Falei que tudo aquilo era bastante complicado. Ela respondeu: “Atravessar um conflito é parecido com atravessar o deserto. Se não houver coragem, sabedoria e amor, não se chegará a lugar nenhum. Coragem para enfrentar a si próprio, sabedoria para se conhecer e amor para perdoar a todos, inclusive a você mesmo.” Fez uma pausa e concluiu: “A travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos.”
Bebi mais um gole de água para tirar a secura da garganta e, por instantes, deixei que os pensamentos voassem sobre as areias do deserto como o falcão do caravaneiro. Quando me virei para continuar a conversa com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli a cena se repetiu mais uma vez, que mesmo previsível não deixava de me surpreender: ela não estava mais lá. Ri sozinho.
Continuei ali, pensando em todas as palavras que me foram ditas. Como eu tinha me acalmado, aos poucos, cada uma delas foi encontrando o seu devido lugar. Admiti que, na verdade, tudo não passara de uma disputa entre dois egos exaltados. Na briga por quem tinha razão, esquecemos o principal, que era atender ao homem acometido pelo mal súbito, cujas necessidades foram relegadas, tanto por mim quanto por Pablo. Guerreamos por insensata vitória. Quando o ego é frágil sente fome por sensações de superioridade em relação aos outros e acaba por tentar impor as próprias razões sobre o ponto de vista alheio, independente de estar certo ou errado. Naquele dia, a absurda necessidade em apontar a ignorância, um ao outro, nos fez esquecer do homem adoentado. A discórdia não nos fez perceber a ignorância maior: o amor foi deixado de lado.
A última frase dita pela mulher, “a travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos”, pulsava na minha mente. Lembrei que a palavra discórdia era a junção de outras duas palavras de origem latina. Dis significa fora, distante, afastado. Cor ou córdia significam coração. Assim, discórdia é uma palavra que traduz a raiz de muitos males, pois ela surge quando afasto o meu coração do coração de alguém. Ainda mais profundo, significa estar distante do meu próprio coração. Viver fora do coração é não entender a importância do amor; é deixar a alma esquecida.
Tinha anoitecido e o céu estava salpicado de estrelas. Levantei-me e fui até onde estava Pablo e seus amigos. Fui recebido com desconfiança. Pedi a Pablo que me desculpasse pela minha falta de humildade e agradeci pela lição que ele me proporcionara. Sinceramente, não sei se ele e todos os demais entenderam naquele momento a minha fala, mas pelo silêncio que se fez, sei que em algum momento, entenderiam; seja a minha dificuldade, sejam as deles. Caso demorasse algum tempo para eles compreenderem o que se passara, isto não retiraria a força do perdão, que tem o poder de ser unilateral. Pois, não seria justo que alguém ficasse aprisionado à vontade ou à autorização de outra pessoa para se libertar de uma situação e seguir adiante. Depois me dirigi ao homem que passara mal e também pedi desculpas. Desta vez pela minha falta de compaixão. Ele me deu um abraço forte que interpretei como uma assinatura sincera de aceitação.
Voltei à quietude e solidão em lugar afastado. Fiquei um bom tempo observando a beleza do manto de estrelas sobre o leito de areia do deserto. A paz estava selada; dentro e fora de mim. Uma indescritível leveza me arrebatou. Tive a impossível sensação de estar sentado a dois palmos do chão. Em silêncio, prometi a mim mesmo que da próxima vez, em situação parecida, me esforçaria para agir diferente e melhor, impedindo que a discórdia criasse raízes. Agradeci a todos os envolvidos as lições permitidas naquele dia. A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, o caravaneiro, o Pablo e seus amigos, o homem que passou mal e os espíritos do deserto, cada qual dentro das suas capacidades e possibilidades, me apontaram um jeito melhor de seguir no Caminho. Sorri para as estrelas; sorri para mim.
Por acaso era um homem que viajava próximo a mim naquele dia. Algo nele me incomodava. Ele falava o tempo todo, sempre contando vantagens. Quando me aproximei, percebi que ele respirava com dificuldades e falava coisas que na minha opinião eram absurdas e sem sentido. De imediato diagnostiquei a origem do mal: medo. Em seguida, sem a menor cerimônia, receitei o remédio: coragem. Outro homem, que naquele momento também o acudia, um espanhol chamado Pablo, peregrino como eu, discordou. Disse que as palavras pronunciadas pelo enfermo não eram um mero delírio, mas valiosas visões sobrenaturais que deveriam ser aproveitadas para a segurança de todos. Eram, segundo ele, os espíritos do deserto nos auxiliando diante do perigo que se avizinhava. Falei que aquilo era uma bobagem maior do que o delírio do doente. O homem rebateu dizendo que eu deveria ter um pouco mais de sensibilidade e consideração pelos outros. Acusou-me de não ter compaixão. Logo iniciamos uma séria discussão que não chegou às vias de fato graças à intervenção de outras pessoas. Exaltados, cada um foi levado para um lado, carregando consigo as suas razões. Aleguei, para quem estava por perto, a minha falta de paciência com a ignorância travestida de sabedoria. Por sua vez, o meu desafeto sustentou os mesmos motivos para quem estava próximo dele. Não demorou, o caravaneiro se aproximou e disse em tom de sentença: “Por maiores que sejam os perigos que uma caravana está exposta, seja uma tempestade de areia, seja o ataque de tribos nômades, nada supera os danos causados por egos exaltados, emoções descontroladas e pela discórdia. É mais fácil me defender do mal quando ele vem de fora. O mal quando se manifesta internamente costuma causar estragos bem mais sérios e, portanto, precisa ser sanado na raiz. Ambos continuarão a pé, na rabeira da caravana, puxando os seus camelos, até o final do dia. Será uma oportunidade para a reflexão.”
Tanto eu quanto o outro homem alegamos que aquela decisão era insensata. Cada qual se considerou injustiçado em virtude de a culpa ser do outro. O caravaneiro ouviu todas as nossas lamúrias sem nos interromper. Ao final, fundamentou: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. A razão oscila de acordo com o nível de consciência de cada pessoa. Todos têm direito à própria opinião; ela é sagrada por conduzir as nossas escolhas. No entanto, a maneira de a manifestar, demonstrando respeito pelas diferenças, é uma arte.” Fez uma pausa antes de concluir: “Esta travessia apresenta as dificuldades inerentes ao próprio deserto. Elas não são poucas nem fáceis de enfrentar. Para conseguir alcançar o destino a caravana precisa se comportar como um só corpo. Caso contrário, com as forças divididas, não será possível fazer frente às muitas dificuldades externas que inevitavelmente se apresentarão durante o trajeto. O valor reside na pacificação das relações sem que ninguém precise perder a própria identidade. Cada um com as suas verdades e crenças; todos em paz.”
Não tardou e a caravana tornou a seguir o seu curso. Pablo e eu fomos a pé, fazendo companhia um ao outro, conforme determinação do caravaneiro. Na primeira hora nos amaldiçoamos mutuamente. Eu estava profundamente irritado com o espanhol; a recíproca também se aplicava. Como ele viajava acompanhado de alguns amigos, um deles decidiu fazer companhia a Pablo durante o trecho em que íamos a pé. Na segunda hora, começaram a interpretar as visões do homem que tivera o mal-estar e comentavam, fazendo questão que eu os ouvisse, que aquela situação era uma das previstas por ele. Nas horas seguintes a minha irritação foi escalando tons a ponto de virar um ódio destruidor. Toda raiva, mágoa, ira ou ressentimento é avassaladora. É quando quebramos tudo ao redor ou destruímos o melhor que existe em nós. A raiva, como todas as demais sombras, quando se manifesta dentro da gente, nos faz tão mal que parece que a melhor solução é espalhá-la pelo mundo. Quando isto acontece significa que a permitimos germinar e dar frutos. Passamos a habitar uma floresta escura. Tudo à nossa volta parece trevas; o coração perece por inanição. Isto acontece quando permitimos às sombras o poder de apagar a nossa luz. Então, perdemos a batalha.
No final da tarde, quando a caravana parou para levantar o acampamento e passarmos a noite, eu estava exausto. Mas não sentia fome nem tinha sono. A boca trazia um gosto amargo. Sentei-me em um canto afastado. Eu queria quietude e solidão. Vi o caravaneiro se distanciar com o seu falcão pousado sobre a grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Com um muxoxo, para que ninguém ouvisse, disparei uma série de palavrões. Pablo e os amigos que o cercavam formavam um grupo. Não dava para escutar o que eles diziam, mas percebi que eles falavam muito e tive a impressão de que riam de mim. Desconfiei que zombavam dos meus argumentos. A raiva crescente foi se avolumando e considerei a possibilidade de ir tomar satisfações. Não levaria aquele desaforo para casa. Chegou a me ocorrer a absurda ideia de que eu trazia um punhal no alforje do meu camelo. Apenas a certeza de que a punição do caravaneiro seria bem mais rigorosa, caso eu arrumasse qualquer outra confusão, foi capaz de me deter. No entanto, o fel da ira me envenenava e, logo após um breve acesso tosse, vomitei. Com forte sensação de enjoo, virei-me à procura do meu cantil.
Para a minha surpresa, ele estava nas mãos na mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, que o estendia para mim. Eu não tinha notado a sua aproximação. Agradeci, bebi um pouco de água e, lembrando dos dias anteriores, comentei que ela parecia se desmanchar e se materializar no ar. Ela deu uma deliciosa risada e disse em tom de brincadeira, embora eu desconfie que houvesse algo a mais nas entrelinhas das suas palavras: “Eu cavalgo no Vento.” Fez uma pausa e concluiu: “É o nome do meu cavalo”, se referindo ao vigoroso corcel negro com o qual atravessava o deserto. Em seguida, derramei todos os meus sentimentos através da narração dos fatos que se sucederam durante o dia. Ela me ouviu com bondosa paciência. Em determinado momento da minha falação, repleta de queixas, tive a sensação que ela me ouvia apenas na intenção de que eu também me ouvisse. Fiz esse comentário para a mulher. Ela balançou a cabeça em concordância e esclareceu: “Durante um conflito, não raro o espalhamos, seja na tentativa de obter dos outros uma palavra de apoio às nossas ideias, seja na absurda e inconsciente possibilidade de transferir parte do sofrimento ou da responsabilidade que, por ventura, nos vergue as costas. Esse discurso, quando é para o mundo, acaba sendo infrutífero por inadequação, pois ninguém poderá resolvê-lo em nosso lugar. Ou, pior, pode agigantar as sombras ao encontrar suporte por parte de alguém que as alimente. No entanto, quando conseguimos fazer com que a alma escute as palavras proferidas pelo ego, damos o primeiro passo para o verdadeiro entendimento do que se passa. Por isto falar para si mesmo é importante; é a oportunidade de ouvir a própria voz e a mensagem que ela traz. Entender o conflito é entender o ego, os seus desajustes e desejos insensatos; é compreender as próprias sombras envolvidas, fomentadoras do entrevero. Então, aos poucos, a alma se acende para iluminar as escolhas do ego, mostrando novas possibilidades de pensar e agir; de ser e de viver. Um conflito pode causar um grande problema ou te colocar diante de um mestre. Esta escolha é sua. Se faz necessário estar atento a ela.”
Aquelas palavras não arrefeceram os meus ânimos exaltados. Falei que o discurso era belo, porém distante da realidade. Lembrei à mulher que Pablo e seus amigos me ridicularizavam. Ela me olhou com infinita doçura e me disse de forma delicada: “Isto não tem importância. As ofensas, a ironia ou desprezo são armas das sombras utilizadas por um ego ainda primitivo e dominador. Estas flechas somente irão atingi-lo se você tiver um ego na mesma vibração. Um ego alinhado à alma sempre estará em posição onde as setas do mundo não têm alcance. O amor será sempre as suas asas e o seu melhor escudo.”
Perguntei se ela achava que o delírio do homem pela manhã poderia ser mensagens dos espíritos do deserto. Ela deu de ombros e comentou: “Não me importa, tampouco as ouvi. Se você acredita, faça uso delas; senão, descarte-as. Simples assim. Cada um será responsável pelas suas escolhas, com ou sem ajuda dos espíritos. Vale lembrar que no deserto há espíritos de todos os tipos. Você terá sempre a ventura de escutar aqueles com os quais o seu nível de consciência e padrão de sentimentos se afinarem. Estes, sim, serão os mecanismos que determinarão a participação da alma na educação do ego e as suas chances de libertação”. Interrompi para questionar de qual libertação ela se referia. A mulher esclareceu: “A libertação do sofrimento. Justamente a cura da dor provocada pelo ódio que te corrói agora e oculta de ti a beleza da vida.”
“As diferenças de opinião são saudáveis por nos apresentar, por vezes, óticas desconhecidas sobre uma determinada situação ou nos mostrar fronteiras que já atravessamos. Pode se tornar um jeito diferente e melhor de ser ou uma maneira obsoleta de viver. Escute o outro com respeito e paciência; sobre diferentes disfarces, as pessoas quase sempre falam sobre as suas dores”. Fez uma pequena pausa e prosseguiu: “No entanto, quando brigamos, ninguém escuta ninguém. De sobra resta a energia pesada que nos envolve. Faz-se primordial que as ideias sejam expostas de maneira clara e serena, para a devida compreensão. Depois serão aceitas ou descartadas, conforme o valor que houver. Quando vocês discutiram, o desentendimento fez com que as sombras se apresentassem para ambos. Elas, as sombras, os convenceram que cada qual precisava se sobrepor ao outro, como se a divergência de ideias fosse uma guerra na qual tivesse que haver um vencedor. Isto acontece todas as vezes que nos iludimos maiores e melhores que os demais. Pura desnecessidade.” Eu tornei a interromper para saber quais sombras seriam essas. Ela respondeu sem rodeios: “As mais vulgares, que também são as da pior espécie: o orgulho e a vaidade.”
Eu confessei que me sentia muito mal e não sabia como reagir. A mulher continuou atenciosa e disse: “Nesses casos, ao perceber a aproximação de qualquer das sombras, não reaja por impulso, pois você provavelmente estará sob a orientação dela. Pare, sinta e pense. Use o coração como um filtro. É preciso que saibamos quem são nossos conselheiros a cada momento da vida. Busque pela sua alma; dê voz à sua alma. Ela é puro amor e será sempre a melhor conselheira, pois lhe indicará a outra face. A face da luz.”
“Em momentos assim é imprescindível, para iluminar os fatos, que as sombras sejam envolvidas pela nossa luz interior. Quando conseguimos, impedimos que os sentimentos densos se alastrem e a escuridão será extinta de imediato. Quando, porventura, todo o amor necessário não estiver disponível naquele instante, apenas se recuse a alimentar a sombra. Por inanição você irá enfraquecê-la. Então, logo adiante, poderá transmutar a sombra na luz das virtudes.”
“No entanto, na disputa para se mostrar maior e melhor que outro, vocês concederam um enorme poder as sombras. Tão grande esse poder que, na medida que se avolumou, foi capaz de dominar as ideias e as emoções dos dois. Onde estavam a humildade, a compaixão, a paciência, o respeito, a sensatez e o amor? As virtudes acabaram aprisionadas pelo orgulho e pela vaidade. Assim, foram impedidas de qualquer movimento. Quando isso acontece, o resultado origina muito sofrimento.” Deu de ombros e comentou: “Os frutos sempre estarão de acordo com a seiva que alimenta a árvore.”
Falei que tudo aquilo era bastante complicado. Ela respondeu: “Atravessar um conflito é parecido com atravessar o deserto. Se não houver coragem, sabedoria e amor, não se chegará a lugar nenhum. Coragem para enfrentar a si próprio, sabedoria para se conhecer e amor para perdoar a todos, inclusive a você mesmo.” Fez uma pausa e concluiu: “A travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos.”
Bebi mais um gole de água para tirar a secura da garganta e, por instantes, deixei que os pensamentos voassem sobre as areias do deserto como o falcão do caravaneiro. Quando me virei para continuar a conversa com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli a cena se repetiu mais uma vez, que mesmo previsível não deixava de me surpreender: ela não estava mais lá. Ri sozinho.
Continuei ali, pensando em todas as palavras que me foram ditas. Como eu tinha me acalmado, aos poucos, cada uma delas foi encontrando o seu devido lugar. Admiti que, na verdade, tudo não passara de uma disputa entre dois egos exaltados. Na briga por quem tinha razão, esquecemos o principal, que era atender ao homem acometido pelo mal súbito, cujas necessidades foram relegadas, tanto por mim quanto por Pablo. Guerreamos por insensata vitória. Quando o ego é frágil sente fome por sensações de superioridade em relação aos outros e acaba por tentar impor as próprias razões sobre o ponto de vista alheio, independente de estar certo ou errado. Naquele dia, a absurda necessidade em apontar a ignorância, um ao outro, nos fez esquecer do homem adoentado. A discórdia não nos fez perceber a ignorância maior: o amor foi deixado de lado.
A última frase dita pela mulher, “a travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos”, pulsava na minha mente. Lembrei que a palavra discórdia era a junção de outras duas palavras de origem latina. Dis significa fora, distante, afastado. Cor ou córdia significam coração. Assim, discórdia é uma palavra que traduz a raiz de muitos males, pois ela surge quando afasto o meu coração do coração de alguém. Ainda mais profundo, significa estar distante do meu próprio coração. Viver fora do coração é não entender a importância do amor; é deixar a alma esquecida.
Tinha anoitecido e o céu estava salpicado de estrelas. Levantei-me e fui até onde estava Pablo e seus amigos. Fui recebido com desconfiança. Pedi a Pablo que me desculpasse pela minha falta de humildade e agradeci pela lição que ele me proporcionara. Sinceramente, não sei se ele e todos os demais entenderam naquele momento a minha fala, mas pelo silêncio que se fez, sei que em algum momento, entenderiam; seja a minha dificuldade, sejam as deles. Caso demorasse algum tempo para eles compreenderem o que se passara, isto não retiraria a força do perdão, que tem o poder de ser unilateral. Pois, não seria justo que alguém ficasse aprisionado à vontade ou à autorização de outra pessoa para se libertar de uma situação e seguir adiante. Depois me dirigi ao homem que passara mal e também pedi desculpas. Desta vez pela minha falta de compaixão. Ele me deu um abraço forte que interpretei como uma assinatura sincera de aceitação.
Voltei à quietude e solidão em lugar afastado. Fiquei um bom tempo observando a beleza do manto de estrelas sobre o leito de areia do deserto. A paz estava selada; dentro e fora de mim. Uma indescritível leveza me arrebatou. Tive a impossível sensação de estar sentado a dois palmos do chão. Em silêncio, prometi a mim mesmo que da próxima vez, em situação parecida, me esforçaria para agir diferente e melhor, impedindo que a discórdia criasse raízes. Agradeci a todos os envolvidos as lições permitidas naquele dia. A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, o caravaneiro, o Pablo e seus amigos, o homem que passou mal e os espíritos do deserto, cada qual dentro das suas capacidades e possibilidades, me apontaram um jeito melhor de seguir no Caminho. Sorri para as estrelas; sorri para mim.
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
O quinto dia da travessia – a alma do mundo
Estávamos no quinto dia da travessia. A caravana seguia a sua marcha
rumo ao oásis onde vivia um sábio dervixe, “conhecedor de muitos
segredos do céu e da terra”, com qual eu desejava encontrar. Entre
peregrinos, mercadores, turistas e encarregados, dezenas de pessoas
integravam a caravana e viajavam pelas areias do Saara. Na manhã daquele
dia, logo cedo, antes de levantarmos acampamento, percebi o caravaneiro
um pouco distante do grupo adestrando o seu falcão. Chamava-me atenção o
fato de ele, sempre que possível, se afastar para se entreter com a
ave. Estranha diversão, pensei. Atribui o hábito às inevitáveis
diferenças culturais entre os povos. Procurei pela bela mulher com olhos
da cor de lápis-lazúli em vão. Depois tive a atenção voltada para um
homem que sempre que a caravana fazia uma parada, estendia um belo
tapete e expunha em pequenos cestos porções de biscoitos finos. Ele se
dedicava a servir chá para quem desejasse. Esse homem não trabalhava na
caravana como de início pensei; uma vez por ano viajava para encontrar
com parentes. Realizava o cerimonial do chá por prazer. Fiquei
impressionado com o capricho com o qual ele se dedicava a essa tarefa.
Um mercador inglês que costumava viajar para negociar tapetes com os
habilidosos artesões do oásis, ao perceber o meu interesse, se aproximou
e disse: “É o melhor chá que já tomei na vida.” Respondi que tamanho
elogio vindo de um inglês era para se respeitar. Em seguida, comentei
que achava um certo exagero todo aquele afinco apenas para servir chá
com biscoitos em um acampamento no deserto. O inglês falou como quem
revela um segredo: “Dizem que é um mestre”. Logo o meu interesse mudou.
Cheguei próximo ao homem, perguntei se podia sentar; ele sorriu e fez um
gesto com a mão para que eu ficasse à vontade. Ele tinha acabado de
terminar uma infusão no bule, me serviu com esmero em uma elegante
xícara de porcelana e disse para eu me servir dos biscoitos. Senti-me um
rei. Fiz um elogio sincero ao chá. De fato, era delicioso. Ele tornou a
sorrir e disse: “Isso me alegra o coração. Gosto quando dizem que é um
néctar dos deuses.” Eu confessei que foi exatamente isso que eu senti ao
provar a bebida. Em seguida, interessado em averiguar a mestria a ele
atribuída, perguntei se gostava de Blavatsky, apreciada escritora russa
nos círculos esotéricos. Ele me olhou com simplicidade e respondeu: “Não
sei quem é.” Insisti em saber a sua opinião sobre Krishnamurti,
Yogananda, Kardec, Gibran, entre outros. As respostas se repetiam com um
balanço da cabeça em negativa. Desolado, eu quis saber por quais livros
ele se interessava. O homem, cujo o nome, depois eu soube, se chamava
Kalil, disse com humildade: “Eu não sei ler.” E justificou: “Fui criado
em um campo de refugiados. Lá não tinha escolas.” Em seguida acrescentou
com enorme estima: “Eu aprendi a fazer chá”. Decepcionado, apenas
esbocei um rascunho de sorriso como quem diz que entendia a situação.
Esvaziei a xícara, tornei a elogiar o chá e quando fiz menção para me
levantar, ele se manteve gentil fazendo questão de explicar: “O chá que
você bebeu é de uma flor comum no deserto, mas rara nas cidades. Ela
precisa ir fresca para a infusão, na qual não pode demorar mais do que
três minutos, sob o risco de ter o sabor alterado. Tive sorte de
encontrar um pequeno ramo ontem.” Comentei que era mesmo uma iguaria,
agradeci e, como não estava interessado em saber mais sobre chás, me
levantei.
A caravana seguiu o seu curso sem maiores novidades e nenhuma turbulência, ao contrário dos dias anteriores e de acordo com o meu desejo. No final do dia, um pouco mais cedo do que de costume, paramos para o descanso, refeições e passarmos a noite. Depois que cessou toda a movimentação da montagem das tendas, o jantar foi servido. Eram enormes panelas com cozido de legumes, grãos e carne de carneiro. De maneira organizada, cada pessoa pegava a sua cuia e era servida pelos cozinheiros. Naquelas circunstâncias e devido à fome, sempre era momento agradável do dia. Quando me afastei para comer sozinho, percebi a bela mulher dos olhos da cor de lápis-lazúli, sentada sobre o elegante tapete de Kalil, saboreando uma xícara de chá e entretida em uma demorada conversa. Tentei me aproximar com a desculpa de que gostaria de beber um pouco de chá para auxiliar na digestão, mas fui impedido por um dos seguranças da caravana. Ele se limitou a informar, com as feições sérias, que eu esperasse. Resignado, fiquei de longe aguardando o fim da conversa, que parecia interminável. Fiquei imaginando, sem entender, o que a enigmática mulher, de notável inteligência, tanto falava com o homem do chá. Em determinado momento percebi que ela também o ouvia bastante. Como eu ainda sentia fome, retornei para a tenda onde estavam os caldeirões e enchi mais uma vez a minha cuia. Quando voltei, a surpresa, ela não mais estava lá. Outras pessoas eram servidas por Kalil, sempre atencioso e gentil. Procurei a mulher por toda a parte sem qualquer êxito. Parecia que tinha se desmanchado no ar.
Com o dia ainda claro e sem ter o que fazer, peguei um livro e me sentei em um canto sossegado. Eu ainda não tinha começado a ler, quando vi o caravaneiro retornar com o falcão pousado sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Abordei-o na tentativa de papear um pouco, porém ele se disse impossibilitado naquele momento: “Vou beber uma xícara de chá e conversar com o Kalil.” Curioso, perguntei sobre o que ele gostava de conversar com o homem do chá. O caravaneiro deu de ombros e falou: “Sobre tudo e sobre nada. Sobre as coisas do mundo. Gosto de conversar com ele. É um mestre.”
Intrigado pelo interesse do caravaneiro e da mulher por aquele homem, questionei se, por acaso, se tratava do sábio dervixe do oásis. Ele negou com a cabeça e esclareceu como quem explica o óbvio: “Claro que não.” E acrescentou com sinceridade: “São pessoas bem diferentes. Cada um com a sua beleza.”
De longe observei o caravaneiro conversar por longos minutos com o homem do chá. Ora um falava, ora era o outro. Por vezes deram boas risadas. Foi a primeira vez que vi caravaneiro sorrir. Mais tarde, quando as primeiras estrelas começavam a surgir, voltei a Kalil, que numa mistura de delicadeza, paciência e alegria continuava a oferecer chá para todos. Servi-me de mais uma xícara e perguntei-lhe se era um mestre, como todos comentavam. Ele me olhou com doçura e respondeu em um tom no qual as palavras tinham a mesma suavidade dos seus olhos: “Claro que não.” Comentei que eu estudava metafísica há muitos anos e queria encontrar com o dervixe do oásis. Kalil, balançou a cabeça como quem diz que entende e falou: “É uma boa pessoa. Costumamos tomar chá juntos. As nossas conversas são muito animadas.” Eu quis saber sobre o que eles conversavam. O homem do chá respondeu com sofisticada simplicidade: “Sobre todas as coisas e sobre nada. Essa leveza do encontro, por vezes, dá asas à imaginação e nos leva a lugares desconhecidos, onde se é possível ver sem o véu da ilusão.” Questionei se esse poder vinha do chá. Ele deu uma risada deliciosa e explicou: “Claro que não. Toda a magia vem de dentro para encantar o que existe fora. Todo o poder vem da alma. Quando a sua alma encontra um bom lugar para passear dentro de outra pessoa acontece um encanto. Duas velas juntas iluminam melhor um ambiente. Cuido para que a minha alma seja hospitaleira e permita um pouco de conforto a todos que chegarem.” Perguntei quem tinha ensinado isso a ele. Kalil deu de ombros e disse: “Ninguém. Aprendi servindo chá.”
Antes que eu pudesse prosseguir naquela conversa, outras pessoas chegaram em busca de uma boa xícara de chá. Afastei-me e fiquei com aquelas palavras circulando na mente, na tentativa de encontrarem o melhor sentido. Foi quando tornei a ver o caravaneiro. Ele estava afiando um punhal na pedra. Ao me aproximar comentei que o homem do chá era uma pessoa interessante, embora fosse um analfabeto. O caravaneiro me olhou como quem está diante de uma criança e falou: “A cultura e o conhecimento têm um valor inegável e devem receber todos os estímulos. No entanto, a sabedoria está na alma do mundo. Apenas lá poderemos encontrá-la.” Eu disse que tudo aquilo era bastante enigmático e quis saber se ele poderia explicar melhor. O caravaneiro não se fez de rogado: “É preciso botar a sua alma em tudo que você fizer, das coisas mais importantes às mais banais. É uma maneira de oferecer a sua alma ao mundo. Em contrapartida o mundo lhe devolve a própria essência, a sua alma, a alma do mundo. Lá existe muita luz.”
“Kalil coloca a sua alma no chá que faz. Então, quando o serve as pessoas, entrega ao mundo pequenas porções do melhor que existe em si. Cada xícara de chá é adoçada com gotas da sua alma. O chá de Kalil tem a alma de Kalil. Assim a sua essência se envolve e se funde com a essência do mundo. Isto é magia. Isto encanta e transforma.”
Questionei se isso apenas era possível com o chá. O Caravaneiro franziu as sobrancelhas e disse sério: “Claro que não. É imprescindível que se coloque a alma em absolutamente tudo o que fizer. Das pequenas ações do cotidiano às escolhas angulares da existência; no ofício e na arte. É preciso que se dê vida às coisas, aos lugares e que se anime a vida de outras pessoas. Isso faz com que a sua alma possa colorir e iluminar tudo o que tocar; isso permite a conexão com a alma do mundo e a toda a sabedoria e amor contidos ali.”
O caravaneiro tornou a se concentrar em afiar o punhal na pedra. Eu fiquei ao seu lado por algum tempo sem dizer palavra, concatenando as ideias. Quebrei o silêncio ao comentar que, de fato, a caravana tinha a alma dele, do caravaneiro, como se fosse uma extensão natural do seu corpo, dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Satisfeito com a minha própria conclusão, arrematei dizendo que a caravana era a perfeita fotografia da alma do caravaneiro. Ele me olhou, sorriu e disse: “Amo a caravana e coloco a minha alma nela. Esforço-me para que todos possam viajar com o conforto possível e cheguem ao destino com segurança. Tudo nasce com a responsabilidade de estar por inteiro nas mínimas coisas de cada dia. O compromisso se expande até ultrapassar a própria fronteira. Então, se torna amor. Ao fazer com que a minha alma pulse por toda a caravana fortaleço a todos os seus integrantes com o poder da minha essência. Assim desperto a alma do mundo e ela nos ajuda a atravessar o deserto.”
Ele fez uma pausa para examinar o punhal, o guardou na bainha e concluiu: “Quando movimento a minha alma manifesto o que de melhor há em mim e me aventuro na alma do mundo. Esta é a travessia para o inimaginável.”
O caravaneiro se foi. Fiquei pensando como eu poderia oferecer a minha alma ao mundo; tive vontade de conhecer a alma do mundo. Algum tempo depois tive a atenção voltada para a imagem do acampamento na noite do deserto. Seus inúmeros lampiões e lamparinas, de longe pareciam se misturar com as estrelas no céu, como se formassem um único manto, salpicados por infinitos pontos de luz. Imaginei que talvez fosse assim com a alma de todos e a alma do mundo. Percebi que distante, no alto de uma duna, uma pessoa rodopiava sozinha, como em comunhão com o universo. Como se a sua alma bailasse com a alma do mundo. Achei que talvez fosse a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Mas nem tentei chegar perto para me certificar; tive a absurda impressão de que ela se dissolveria no ar à menor aproximação.
A caravana seguiu o seu curso sem maiores novidades e nenhuma turbulência, ao contrário dos dias anteriores e de acordo com o meu desejo. No final do dia, um pouco mais cedo do que de costume, paramos para o descanso, refeições e passarmos a noite. Depois que cessou toda a movimentação da montagem das tendas, o jantar foi servido. Eram enormes panelas com cozido de legumes, grãos e carne de carneiro. De maneira organizada, cada pessoa pegava a sua cuia e era servida pelos cozinheiros. Naquelas circunstâncias e devido à fome, sempre era momento agradável do dia. Quando me afastei para comer sozinho, percebi a bela mulher dos olhos da cor de lápis-lazúli, sentada sobre o elegante tapete de Kalil, saboreando uma xícara de chá e entretida em uma demorada conversa. Tentei me aproximar com a desculpa de que gostaria de beber um pouco de chá para auxiliar na digestão, mas fui impedido por um dos seguranças da caravana. Ele se limitou a informar, com as feições sérias, que eu esperasse. Resignado, fiquei de longe aguardando o fim da conversa, que parecia interminável. Fiquei imaginando, sem entender, o que a enigmática mulher, de notável inteligência, tanto falava com o homem do chá. Em determinado momento percebi que ela também o ouvia bastante. Como eu ainda sentia fome, retornei para a tenda onde estavam os caldeirões e enchi mais uma vez a minha cuia. Quando voltei, a surpresa, ela não mais estava lá. Outras pessoas eram servidas por Kalil, sempre atencioso e gentil. Procurei a mulher por toda a parte sem qualquer êxito. Parecia que tinha se desmanchado no ar.
Com o dia ainda claro e sem ter o que fazer, peguei um livro e me sentei em um canto sossegado. Eu ainda não tinha começado a ler, quando vi o caravaneiro retornar com o falcão pousado sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Abordei-o na tentativa de papear um pouco, porém ele se disse impossibilitado naquele momento: “Vou beber uma xícara de chá e conversar com o Kalil.” Curioso, perguntei sobre o que ele gostava de conversar com o homem do chá. O caravaneiro deu de ombros e falou: “Sobre tudo e sobre nada. Sobre as coisas do mundo. Gosto de conversar com ele. É um mestre.”
Intrigado pelo interesse do caravaneiro e da mulher por aquele homem, questionei se, por acaso, se tratava do sábio dervixe do oásis. Ele negou com a cabeça e esclareceu como quem explica o óbvio: “Claro que não.” E acrescentou com sinceridade: “São pessoas bem diferentes. Cada um com a sua beleza.”
De longe observei o caravaneiro conversar por longos minutos com o homem do chá. Ora um falava, ora era o outro. Por vezes deram boas risadas. Foi a primeira vez que vi caravaneiro sorrir. Mais tarde, quando as primeiras estrelas começavam a surgir, voltei a Kalil, que numa mistura de delicadeza, paciência e alegria continuava a oferecer chá para todos. Servi-me de mais uma xícara e perguntei-lhe se era um mestre, como todos comentavam. Ele me olhou com doçura e respondeu em um tom no qual as palavras tinham a mesma suavidade dos seus olhos: “Claro que não.” Comentei que eu estudava metafísica há muitos anos e queria encontrar com o dervixe do oásis. Kalil, balançou a cabeça como quem diz que entende e falou: “É uma boa pessoa. Costumamos tomar chá juntos. As nossas conversas são muito animadas.” Eu quis saber sobre o que eles conversavam. O homem do chá respondeu com sofisticada simplicidade: “Sobre todas as coisas e sobre nada. Essa leveza do encontro, por vezes, dá asas à imaginação e nos leva a lugares desconhecidos, onde se é possível ver sem o véu da ilusão.” Questionei se esse poder vinha do chá. Ele deu uma risada deliciosa e explicou: “Claro que não. Toda a magia vem de dentro para encantar o que existe fora. Todo o poder vem da alma. Quando a sua alma encontra um bom lugar para passear dentro de outra pessoa acontece um encanto. Duas velas juntas iluminam melhor um ambiente. Cuido para que a minha alma seja hospitaleira e permita um pouco de conforto a todos que chegarem.” Perguntei quem tinha ensinado isso a ele. Kalil deu de ombros e disse: “Ninguém. Aprendi servindo chá.”
Antes que eu pudesse prosseguir naquela conversa, outras pessoas chegaram em busca de uma boa xícara de chá. Afastei-me e fiquei com aquelas palavras circulando na mente, na tentativa de encontrarem o melhor sentido. Foi quando tornei a ver o caravaneiro. Ele estava afiando um punhal na pedra. Ao me aproximar comentei que o homem do chá era uma pessoa interessante, embora fosse um analfabeto. O caravaneiro me olhou como quem está diante de uma criança e falou: “A cultura e o conhecimento têm um valor inegável e devem receber todos os estímulos. No entanto, a sabedoria está na alma do mundo. Apenas lá poderemos encontrá-la.” Eu disse que tudo aquilo era bastante enigmático e quis saber se ele poderia explicar melhor. O caravaneiro não se fez de rogado: “É preciso botar a sua alma em tudo que você fizer, das coisas mais importantes às mais banais. É uma maneira de oferecer a sua alma ao mundo. Em contrapartida o mundo lhe devolve a própria essência, a sua alma, a alma do mundo. Lá existe muita luz.”
“Kalil coloca a sua alma no chá que faz. Então, quando o serve as pessoas, entrega ao mundo pequenas porções do melhor que existe em si. Cada xícara de chá é adoçada com gotas da sua alma. O chá de Kalil tem a alma de Kalil. Assim a sua essência se envolve e se funde com a essência do mundo. Isto é magia. Isto encanta e transforma.”
Questionei se isso apenas era possível com o chá. O Caravaneiro franziu as sobrancelhas e disse sério: “Claro que não. É imprescindível que se coloque a alma em absolutamente tudo o que fizer. Das pequenas ações do cotidiano às escolhas angulares da existência; no ofício e na arte. É preciso que se dê vida às coisas, aos lugares e que se anime a vida de outras pessoas. Isso faz com que a sua alma possa colorir e iluminar tudo o que tocar; isso permite a conexão com a alma do mundo e a toda a sabedoria e amor contidos ali.”
O caravaneiro tornou a se concentrar em afiar o punhal na pedra. Eu fiquei ao seu lado por algum tempo sem dizer palavra, concatenando as ideias. Quebrei o silêncio ao comentar que, de fato, a caravana tinha a alma dele, do caravaneiro, como se fosse uma extensão natural do seu corpo, dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Satisfeito com a minha própria conclusão, arrematei dizendo que a caravana era a perfeita fotografia da alma do caravaneiro. Ele me olhou, sorriu e disse: “Amo a caravana e coloco a minha alma nela. Esforço-me para que todos possam viajar com o conforto possível e cheguem ao destino com segurança. Tudo nasce com a responsabilidade de estar por inteiro nas mínimas coisas de cada dia. O compromisso se expande até ultrapassar a própria fronteira. Então, se torna amor. Ao fazer com que a minha alma pulse por toda a caravana fortaleço a todos os seus integrantes com o poder da minha essência. Assim desperto a alma do mundo e ela nos ajuda a atravessar o deserto.”
Ele fez uma pausa para examinar o punhal, o guardou na bainha e concluiu: “Quando movimento a minha alma manifesto o que de melhor há em mim e me aventuro na alma do mundo. Esta é a travessia para o inimaginável.”
O caravaneiro se foi. Fiquei pensando como eu poderia oferecer a minha alma ao mundo; tive vontade de conhecer a alma do mundo. Algum tempo depois tive a atenção voltada para a imagem do acampamento na noite do deserto. Seus inúmeros lampiões e lamparinas, de longe pareciam se misturar com as estrelas no céu, como se formassem um único manto, salpicados por infinitos pontos de luz. Imaginei que talvez fosse assim com a alma de todos e a alma do mundo. Percebi que distante, no alto de uma duna, uma pessoa rodopiava sozinha, como em comunhão com o universo. Como se a sua alma bailasse com a alma do mundo. Achei que talvez fosse a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Mas nem tentei chegar perto para me certificar; tive a absurda impressão de que ela se dissolveria no ar à menor aproximação.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
O quarto dia da travessia – a escuridão é o pavio da luz
Ainda era o quarto dia da travessia e já houvera mais movimentação do
que eu seria capaz de imaginar. Tudo o que eu queria era um pouco de
sossego para refletir sobre a vida enquanto atravessávamos o deserto que
parecia sem fim. Ao contrário do que eu supunha, não existe tédio
quando se faz parte de uma caravana. O deserto é um universo peculiar,
que pulsa como um corpo vivo, muda a todo instante pela ação do vento na
areia, tem fortes contrastes entre o dia e a noite, além de abrigar uma
incontável quantidade de seres em seu âmago. Aves migratórias e de
rapina, pequenos roedores, répteis como lagartos e serpentes, além de
pequenos invertebrados, alguns bem perigosos, como aranhas e escorpiões.
Também tinha ouvido falar de felinos, mas estes me pareciam lendas,
pois duvidava da existência dessas espécies em região tão inóspita.
Aquele dia seguia modorrento, conforme o meu desejo. Eu alternava as
horas entre a reflexão, enquanto observava a paisagem, as inúmeras
fotografias que eu tirava para registrar a viagem e a leitura de um
livro, o qual já me habituara a ler sem enjoar, apesar do gingado do
camelo. Eu queria estar preparado para o encontro com o sábio dervixe,
“conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que morava no oásis. O
caravaneiro seguia à frente, montado a cavalo. Por algumas horas do
dia, ele gostava de trotar carregando o seu falcão pousado sobre as
grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Naquele dia eu ainda
não tinha visto a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli.
A caravana, com dezenas de integrantes, além de seus próprios funcionários, era composta não apenas de peregrinos como eu, mas também de mercadores e turistas em visita a parentes que residiam no oásis, ou apenas tinham a curiosidade de conhecer o lugar e comprar um dos famosos tapetes feitos pelas mãos de algum dos hábeis tecelões locais. A caravana seguia o seu curso quando tive atenção despertada por um enorme falatório. Virei-me para a direção onde muitas pessoas apontavam. Tomei um susto ao ver, ao longe, um imponente leopardo descendo uma duna, com a postura de quem reina no deserto. O caravaneiro pareceu não dar importância e manteve a marcha do grupo. Peguei a câmara fotográfica no alforje e retardei o passo da minha montaria para enquadrar o felino por um ângulo mais apropriado. Pensei em como poderia ganhar algum dinheiro com a venda de uma foto como aquela para as revistas especializadas, além de como os meus amigos ficariam admirados com a experiência que eu relataria.
Deixei que todos passassem à frente. Tirei algumas fotos, que ficaram sem a qualidade que eu desejava. Algumas tremidas, outras embaçadas. Considerei alguns fatores como a marcha lenta e regular da caravana, a oportunidade inusitada que se apresentava e não hesitei em desmontar do camelo para conseguir um melhor enquadramento e foco. Eu não teria dificuldade em alcançar o grupo logo após as fotos. Bati várias fotografias, mas o leopardo, sempre em movimento, parecia não estar disposto a colaborar. Até que sumiu por detrás de uma duna. Resignado, retornei ao camelo que tinha se distanciado um pouco. Quando me aproximei o camelo se adiantou mais alguns passos. Iniciamos um jogo que pareceu divertido, ao menos para ele. À medida que eu andava, ele acompanhava; e também parava quando eu assim o fazia. Isto começou a me deixar nervoso, pois a caravana se distanciava, e me irritou bastante quando o camelo virou a cabeça e me mostrou os dentes. Cheguei a imaginar que ria de mim e o amaldiçoei. A brincadeira, para ele, e o desconforto, para mim, duraram mais tempo do que deveria. Quando finalmente consegui montar o camelo, a caravana já não estava mais à vista. Como se não bastasse, uma forte e rápida rajada de vento, típica do deserto, me obrigou a parar para me proteger, principalmente os olhos. Ao final, quando passou, percebi que eu tinha mais um problema. As pegadas do grupo tinham sido varridas das areias do deserto.
Eu tinha como referência o sol poente, pois seguíamos para o oeste; não para o Oeste como referência magnética e, sim, em sua direção. Variações mínimas de ângulos são suficientes para te levar a um lugar distante do destino almejado. Galopei para o alto de uma grande duna com o intuito de avistar a caravana, porém apenas encontrei outras dunas adiante, que me pareceram ainda mais altas. Subi em mais uma e noutra. Nada. Somente o sol e o deserto. Custei a admitir o ridículo da situação, típicas da infância ou da irresponsabilidade; eu estava perdido.
O tempo era escasso para decidir entre esperar, na esperança que sentissem a minha falta e retornassem para me buscar, ou correr o risco de me distanciar ainda mais na aventura de tentar encontrar a caravana. Lembrei de uma situação vivida quando garoto, na saída do Maracanã com meu pai. Tínhamos ido assistir a uma final de campeonato de futebol, quando me perdi dele, após uma confusão entre as duas torcidas. Aguardei em um bar próximo, assim que me dei conta que ele não estava do meu lado. Embora tenham sido poucos minutos de aflição, me pareceu uma eternidade. O meu pai logo refez o trajeto. Ele abriu um sorriso ao me encontrar e perceber que os seus conselhos tinham resolvido o impasse. No entanto, eu não tinha amigos ou parentes na caravana que pudessem de pronto sentir a minha falta e dar o alarme ao caravaneiro. Eram dezenas de desconhecidos que deveriam cuidar de si e manter a harmonia do grupo. Considerei que poderia levar dias para sentirem a minha ausência. Então, de nada adiantaria mandarem alguém à minha procura. Era melhor perecer na luta do que no lamento. Tendo o poente como referência, segui nessa direção, sempre atento a qualquer sinal ou pegadas na areia que pudessem me auxiliar na busca.
Com o passar das horas a sensação de infortúnio aumentou. Eu tinha pouca água no cantil e nenhuma comida no alforje. Apressei o passo da minha montaria, pois precisava estar mais rápido do que o ritmo da caravana, se quisesse alcançá-la, sem falar da necessidade de, por vezes, ter de subir em enormes dunas a procura de uma visão com maior amplitude. No começo da tarde começou a ficar difícil manter a calma. O desespero começou a se avizinhar. Fiquei irritado ao pensar que uma mera fotografia poderia motivar a minha morte. Veio à lembrança algumas histórias de parecida estupidez. Fiz uma prece fervorosa rogando pela ajuda das Terras Altas. O tempo voou no vento, enquanto as minhas palavras pareceram dissolvidas no sol ardente do deserto.
Senti-me abandonado pelos homens e por Deus.
No bairro em que eu fui criado na infância, se dizia para não reclamar de uma situação ruim, pois ela pode piorar. Lembrei disso quando, diante do momento complicado, avistei o leopardo, a causa da minha desgraça, me observando do alto de uma duna. Apesar do calor, senti o frio percorrer as minhas entranhas. Veio-me à mente a minha mesquinhez e ganância de estar naquela situação por causa do dinheiro que eu ganharia ao vender as fotos ou a vaidade e o orgulho de contar uma aventura ilustrada pelas fotografias aos meus conhecidos. Neste instante, igual a uma tempestade do deserto, um turbilhão de pensamentos circula sem rumo na mente. Sem o devido alinhamento, pode causar um enorme estrago. Cheguei a pensar que um desenlace através do ataque de uma fera talvez fosse menos doloroso do que a morte lenta de quem definha no sofrimento. Pode parecer absurdo, mas considerei que aquele animal selvagem poderia ter vindo a mando dos céus para abreviar a minha dor. Mas logo em seguida afastei da mente a ideia ridícula.
Entendi que eu contava apenas comigo e dependia somente de mim para sair daquela situação. Nada mais justo, ponderei, uma vez que estava ali por livre escolha. Lembrei que a morte não é o fim, mas uma passagem, e todos os dias são bons para morrer quando se vive por amor e com dignidade. Eu considerei que poderia encarar o deserto, e todas as vidas que nele habitam, como um aliado ou um adversário. Eu tinha uma escolha.
Amadureci a ideia por um bom tempo. Por mais absurdo possa parecer, estranhamente o medo e a culpa passaram dando lugar a uma calma absoluta. A maneira de lidar com a morte muda o sentido da vida. A maneira de lidar com a vida muda a existência. Substituir a culpa pela responsabilidade de fazer diferente e melhor, de contar comigo, com a minha força e poder, transformou o ânimo e o sentido do momento. Por completo.
Encaramo-nos, o leopardo e eu, por minutos que não sei precisar. Sussurrei, como se ele pudesse me ouvir, que eu não desistiria de viver, que lutaria pela minha vida e que eu tinha direito, tanto quanto ele, os grãos de areia, o sol, as estrelas e os demais animais do deserto, de estar ali, em paz. Assim como ele, eu era parte essencial do todo.
Talvez por não estar com fome, talvez por estar à procura de uma presa mais apetitosa, o felino se virou e começou a andar em direção contrária à minha. Foi quando uma ideia me ocorreu. Um animal daquele porte precisa beber água com alguma regularidade. Eu sabia que, além dos oásis, os desertos costumam ter fontes de água. Considerei a possibilidade de o leopardo estar mais com sede do que com fome e estar se dirigindo para um poço próximo ou algo parecido. De outro lado, eu também sabia que uma caravana não tem como levar toda a água necessária para a sua travessia, mormente em uma jornada de quarenta dias com dezenas de pessoas. Por vezes, o caravaneiro teria de desviar a rota para se abastecer de água. Estávamos no quarto dia e poderia estar nessa hora. Ao invés de fugir do leopardo, como a principio seria normal, tomei a firme decisão de acompanhá-lo. À distância, claro. Afinal, era um raciocínio, não um delírio.
Segui o felino de longe, por cerca de duas horas, com muita dificuldade em razão da enorme diferença de agilidade, mesmo sem correrias, entre ele e o camelo, que ainda tinha o fardo de me carregar. Uma estranha sensação de ânimo aqueceu o meu coração. O leopardo pareceu não se importar com a minha presença, da qual eu não tinha qualquer dúvida de que ele estava ciente. No entanto, apesar dos meus esforços para não o perder de vista, ao cair da tarde ele sumiu. Dei-me conta que eu tinha me afastado sensivelmente do Oeste, minha referência geográfica inicial. Não me lamentei. Ainda não era noite, mas no horizonte o céu crepuscular começava a alterar o azul pelo rosa que antecede às estrelas. Embora tenha me perdido da caravana e, naquele momento, talvez estivesse mais distante dela, eu trazia em mim uma certeza diferente, uma convicção inabalável de que eu estava conectado a todas as coisas ao meu redor, como se o universo e eu fôssemos um. Não existia medo, desespero nem frustração. Havia a serenidade de entender que aquela era a situação a ser vivida. Com todas as suas dores e delícias; lições e transformações. Nem mais nem menos. Para tanto, eu precisava estar ali por inteiro. O meu coração tinha de estar onde o meu corpo estava.
Achei melhor parar, pois o camelo dava sinais de cansaço. Apeei e me sentei na areia. Bebi o último gole de água do cantil e senti fome. Pensei em como seria bom se eu tivesse alguma habilidade como caçador para encontrar, por exemplo, um coelho descuidado de volta à toca. Imediatamente domei o pensamento para não recair em lamentos inúteis e me senti feliz por não ser encontrado por uma serpente, escorpião ou um predador qualquer. Não tinha se passado nem ao menos um minuto quando a minha atenção foi voltada para uma ave que sobrevoava o deserto em círculos. Em um primeiro momento achei que fosse um abutre e a considerei de mau agouro.
Em seguida percebi se tratar de um falcão. O meu coração ficou aos pulos. O falcão do caravaneiro? Bendito sejam os falcoeiros! Sinceramente, eu não sabia. Mas como também se falava no bairro onde fui criado, “quem não tem nada a perder, tem tudo a ganhar”. Anotei mentalmente a direção na qual a ave me pareceu descer, tornei a montar o camelo e fui atrás.
Do alto de uma duna avistei a caravana acampada junto a um poço natural de água para se abastecer e passar a noite. Por necessidade, o caravaneiro não podia seguir em linha reta pelo deserto, entre a cidade e o oásis. Assim costuma ser entre a origem e o destino. Ele estava um pouco distante do grupo, como sempre fazia ao colocar o falcão para caçar. Ao me aproximar, o caravaneiro não fez nenhuma objeção. Contei para ele todo o ocorrido e perguntei se ele tinha notado a minha ausência. Ele apenas sacudiu a cabeça em negativa. Confessei que por momentos me senti abandonado pelos homens e por Deus. Ele apenas me olhou sem dizer palavra. Eu quis saber se ele acreditava em Deus. O caravaneiro me olhou profundamente e respondeu: “Não preciso acreditar”. Fez uma pausa e logo desfez a ideia de arrogância, que de início me pareceu, dando lugar à humildade, ao acrescentar: “Eu o sinto”.
Ficamos sem dizer palavra enquanto observávamos o voo do falcão. Quebrei o silêncio ao dizer que eu não tinha uma boa fotografia para vender nem uma história para contar, pois ninguém acreditaria que inverti a lógica e o instinto ao me aliar ao leopardo. Como uma lúcida loucura. Acrescentei que eu me sentia estranhamente mais forte e inteiro. Apesar de contar apenas comigo, de alguma maneira eu sabia que não estava só, tampouco pela metade. O que me completava não vinha de fora; estava dentro de mim.
O caravaneiro se virou para mim e disse: “A ganância e o orgulho lhe proporcionaram uma bela lição. Passe a fazer bom uso dela. A escuridão pode servir de pavio para luz”. Tornou a olhar para o deserto e falou: “Por todo o tempo somos guiados através da vida. Ora por intuições, ora por sinalizações. Ambas têm por objetivo orientar as nossas escolhas ou nos corrigir a rota. São os momentos em que nos sentimos amparados e seguros. Isto acontece na maior parte da existência de todos nós. Entretanto, não há como negar a dependência. Então, por precisão evolutiva, surgem situações bem complicadas, nas quais nos sentimos desamparados, sem que surja qualquer ajuda por parte dos bons espíritos. Assim, ao ter que lidar com a nudez dos fatos somos levados a enfrentar a nudez da alma. Você terá a nítida sensação de que poderá contar apenas consigo mesmo. Para superar o momento é preciso ouvir a si próprio e a refazer as suas verdades, independente das regras sociais e dos condicionamentos culturais. No íntimo, você saberá o que é certo fazer, ainda que muitos discordem. ‘Ver de dentro’ é diferente de ‘ver de fora’. Esta certeza traz a plenitude daqueles que ao buscarem a sua essência acabaram por encontrar o Absoluto. Então, descobriram que nunca estiveram só. É o início da maturidade do ser. Quando o mundo parece escuro e ninguém nos acode com um lampião, significa ter chegado a hora de acender a própria luz. O que parece abandono, em verdade, é a melhor oportunidade”. Olhou para o deserto por instantes e finalizou: “Conhecer o destino é entender a viagem; conhecer o Mistério é entender a si mesmo. A plenitude surge durante esse movimento”.
Mais tarde, após a refeição, achei ter visto a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli contemplando as estrelas, sentada no topo de uma pequena duna, um pouco distante do grupo. Andei em sua direção, tendo que parar por segundos para dar passagem a um cameleiro que levava os animais para o trato. Quando passaram, eu a tinha perdido de vista. Ela não estava mais lá. Aproximei-me do local e vi a sua marca na areia. Sentei-me no mesmo lugar e fiquei observando toda a cena, em reflexão. Foi quando tomei um susto ao perceber que o leopardo, ao longe, no alto de uma enorme duna em frente, aguardava deitado e sereno a partida da caravana, no dia seguinte, para saciar em paz a sua sede naquele poço. Tive a sensação de que ele me olhava de volta, em impossível cumplicidade, pelo dia vivido, pelas lições permitidas.
A caravana, com dezenas de integrantes, além de seus próprios funcionários, era composta não apenas de peregrinos como eu, mas também de mercadores e turistas em visita a parentes que residiam no oásis, ou apenas tinham a curiosidade de conhecer o lugar e comprar um dos famosos tapetes feitos pelas mãos de algum dos hábeis tecelões locais. A caravana seguia o seu curso quando tive atenção despertada por um enorme falatório. Virei-me para a direção onde muitas pessoas apontavam. Tomei um susto ao ver, ao longe, um imponente leopardo descendo uma duna, com a postura de quem reina no deserto. O caravaneiro pareceu não dar importância e manteve a marcha do grupo. Peguei a câmara fotográfica no alforje e retardei o passo da minha montaria para enquadrar o felino por um ângulo mais apropriado. Pensei em como poderia ganhar algum dinheiro com a venda de uma foto como aquela para as revistas especializadas, além de como os meus amigos ficariam admirados com a experiência que eu relataria.
Deixei que todos passassem à frente. Tirei algumas fotos, que ficaram sem a qualidade que eu desejava. Algumas tremidas, outras embaçadas. Considerei alguns fatores como a marcha lenta e regular da caravana, a oportunidade inusitada que se apresentava e não hesitei em desmontar do camelo para conseguir um melhor enquadramento e foco. Eu não teria dificuldade em alcançar o grupo logo após as fotos. Bati várias fotografias, mas o leopardo, sempre em movimento, parecia não estar disposto a colaborar. Até que sumiu por detrás de uma duna. Resignado, retornei ao camelo que tinha se distanciado um pouco. Quando me aproximei o camelo se adiantou mais alguns passos. Iniciamos um jogo que pareceu divertido, ao menos para ele. À medida que eu andava, ele acompanhava; e também parava quando eu assim o fazia. Isto começou a me deixar nervoso, pois a caravana se distanciava, e me irritou bastante quando o camelo virou a cabeça e me mostrou os dentes. Cheguei a imaginar que ria de mim e o amaldiçoei. A brincadeira, para ele, e o desconforto, para mim, duraram mais tempo do que deveria. Quando finalmente consegui montar o camelo, a caravana já não estava mais à vista. Como se não bastasse, uma forte e rápida rajada de vento, típica do deserto, me obrigou a parar para me proteger, principalmente os olhos. Ao final, quando passou, percebi que eu tinha mais um problema. As pegadas do grupo tinham sido varridas das areias do deserto.
Eu tinha como referência o sol poente, pois seguíamos para o oeste; não para o Oeste como referência magnética e, sim, em sua direção. Variações mínimas de ângulos são suficientes para te levar a um lugar distante do destino almejado. Galopei para o alto de uma grande duna com o intuito de avistar a caravana, porém apenas encontrei outras dunas adiante, que me pareceram ainda mais altas. Subi em mais uma e noutra. Nada. Somente o sol e o deserto. Custei a admitir o ridículo da situação, típicas da infância ou da irresponsabilidade; eu estava perdido.
O tempo era escasso para decidir entre esperar, na esperança que sentissem a minha falta e retornassem para me buscar, ou correr o risco de me distanciar ainda mais na aventura de tentar encontrar a caravana. Lembrei de uma situação vivida quando garoto, na saída do Maracanã com meu pai. Tínhamos ido assistir a uma final de campeonato de futebol, quando me perdi dele, após uma confusão entre as duas torcidas. Aguardei em um bar próximo, assim que me dei conta que ele não estava do meu lado. Embora tenham sido poucos minutos de aflição, me pareceu uma eternidade. O meu pai logo refez o trajeto. Ele abriu um sorriso ao me encontrar e perceber que os seus conselhos tinham resolvido o impasse. No entanto, eu não tinha amigos ou parentes na caravana que pudessem de pronto sentir a minha falta e dar o alarme ao caravaneiro. Eram dezenas de desconhecidos que deveriam cuidar de si e manter a harmonia do grupo. Considerei que poderia levar dias para sentirem a minha ausência. Então, de nada adiantaria mandarem alguém à minha procura. Era melhor perecer na luta do que no lamento. Tendo o poente como referência, segui nessa direção, sempre atento a qualquer sinal ou pegadas na areia que pudessem me auxiliar na busca.
Com o passar das horas a sensação de infortúnio aumentou. Eu tinha pouca água no cantil e nenhuma comida no alforje. Apressei o passo da minha montaria, pois precisava estar mais rápido do que o ritmo da caravana, se quisesse alcançá-la, sem falar da necessidade de, por vezes, ter de subir em enormes dunas a procura de uma visão com maior amplitude. No começo da tarde começou a ficar difícil manter a calma. O desespero começou a se avizinhar. Fiquei irritado ao pensar que uma mera fotografia poderia motivar a minha morte. Veio à lembrança algumas histórias de parecida estupidez. Fiz uma prece fervorosa rogando pela ajuda das Terras Altas. O tempo voou no vento, enquanto as minhas palavras pareceram dissolvidas no sol ardente do deserto.
Senti-me abandonado pelos homens e por Deus.
No bairro em que eu fui criado na infância, se dizia para não reclamar de uma situação ruim, pois ela pode piorar. Lembrei disso quando, diante do momento complicado, avistei o leopardo, a causa da minha desgraça, me observando do alto de uma duna. Apesar do calor, senti o frio percorrer as minhas entranhas. Veio-me à mente a minha mesquinhez e ganância de estar naquela situação por causa do dinheiro que eu ganharia ao vender as fotos ou a vaidade e o orgulho de contar uma aventura ilustrada pelas fotografias aos meus conhecidos. Neste instante, igual a uma tempestade do deserto, um turbilhão de pensamentos circula sem rumo na mente. Sem o devido alinhamento, pode causar um enorme estrago. Cheguei a pensar que um desenlace através do ataque de uma fera talvez fosse menos doloroso do que a morte lenta de quem definha no sofrimento. Pode parecer absurdo, mas considerei que aquele animal selvagem poderia ter vindo a mando dos céus para abreviar a minha dor. Mas logo em seguida afastei da mente a ideia ridícula.
Entendi que eu contava apenas comigo e dependia somente de mim para sair daquela situação. Nada mais justo, ponderei, uma vez que estava ali por livre escolha. Lembrei que a morte não é o fim, mas uma passagem, e todos os dias são bons para morrer quando se vive por amor e com dignidade. Eu considerei que poderia encarar o deserto, e todas as vidas que nele habitam, como um aliado ou um adversário. Eu tinha uma escolha.
Amadureci a ideia por um bom tempo. Por mais absurdo possa parecer, estranhamente o medo e a culpa passaram dando lugar a uma calma absoluta. A maneira de lidar com a morte muda o sentido da vida. A maneira de lidar com a vida muda a existência. Substituir a culpa pela responsabilidade de fazer diferente e melhor, de contar comigo, com a minha força e poder, transformou o ânimo e o sentido do momento. Por completo.
Encaramo-nos, o leopardo e eu, por minutos que não sei precisar. Sussurrei, como se ele pudesse me ouvir, que eu não desistiria de viver, que lutaria pela minha vida e que eu tinha direito, tanto quanto ele, os grãos de areia, o sol, as estrelas e os demais animais do deserto, de estar ali, em paz. Assim como ele, eu era parte essencial do todo.
Talvez por não estar com fome, talvez por estar à procura de uma presa mais apetitosa, o felino se virou e começou a andar em direção contrária à minha. Foi quando uma ideia me ocorreu. Um animal daquele porte precisa beber água com alguma regularidade. Eu sabia que, além dos oásis, os desertos costumam ter fontes de água. Considerei a possibilidade de o leopardo estar mais com sede do que com fome e estar se dirigindo para um poço próximo ou algo parecido. De outro lado, eu também sabia que uma caravana não tem como levar toda a água necessária para a sua travessia, mormente em uma jornada de quarenta dias com dezenas de pessoas. Por vezes, o caravaneiro teria de desviar a rota para se abastecer de água. Estávamos no quarto dia e poderia estar nessa hora. Ao invés de fugir do leopardo, como a principio seria normal, tomei a firme decisão de acompanhá-lo. À distância, claro. Afinal, era um raciocínio, não um delírio.
Segui o felino de longe, por cerca de duas horas, com muita dificuldade em razão da enorme diferença de agilidade, mesmo sem correrias, entre ele e o camelo, que ainda tinha o fardo de me carregar. Uma estranha sensação de ânimo aqueceu o meu coração. O leopardo pareceu não se importar com a minha presença, da qual eu não tinha qualquer dúvida de que ele estava ciente. No entanto, apesar dos meus esforços para não o perder de vista, ao cair da tarde ele sumiu. Dei-me conta que eu tinha me afastado sensivelmente do Oeste, minha referência geográfica inicial. Não me lamentei. Ainda não era noite, mas no horizonte o céu crepuscular começava a alterar o azul pelo rosa que antecede às estrelas. Embora tenha me perdido da caravana e, naquele momento, talvez estivesse mais distante dela, eu trazia em mim uma certeza diferente, uma convicção inabalável de que eu estava conectado a todas as coisas ao meu redor, como se o universo e eu fôssemos um. Não existia medo, desespero nem frustração. Havia a serenidade de entender que aquela era a situação a ser vivida. Com todas as suas dores e delícias; lições e transformações. Nem mais nem menos. Para tanto, eu precisava estar ali por inteiro. O meu coração tinha de estar onde o meu corpo estava.
Achei melhor parar, pois o camelo dava sinais de cansaço. Apeei e me sentei na areia. Bebi o último gole de água do cantil e senti fome. Pensei em como seria bom se eu tivesse alguma habilidade como caçador para encontrar, por exemplo, um coelho descuidado de volta à toca. Imediatamente domei o pensamento para não recair em lamentos inúteis e me senti feliz por não ser encontrado por uma serpente, escorpião ou um predador qualquer. Não tinha se passado nem ao menos um minuto quando a minha atenção foi voltada para uma ave que sobrevoava o deserto em círculos. Em um primeiro momento achei que fosse um abutre e a considerei de mau agouro.
Em seguida percebi se tratar de um falcão. O meu coração ficou aos pulos. O falcão do caravaneiro? Bendito sejam os falcoeiros! Sinceramente, eu não sabia. Mas como também se falava no bairro onde fui criado, “quem não tem nada a perder, tem tudo a ganhar”. Anotei mentalmente a direção na qual a ave me pareceu descer, tornei a montar o camelo e fui atrás.
Do alto de uma duna avistei a caravana acampada junto a um poço natural de água para se abastecer e passar a noite. Por necessidade, o caravaneiro não podia seguir em linha reta pelo deserto, entre a cidade e o oásis. Assim costuma ser entre a origem e o destino. Ele estava um pouco distante do grupo, como sempre fazia ao colocar o falcão para caçar. Ao me aproximar, o caravaneiro não fez nenhuma objeção. Contei para ele todo o ocorrido e perguntei se ele tinha notado a minha ausência. Ele apenas sacudiu a cabeça em negativa. Confessei que por momentos me senti abandonado pelos homens e por Deus. Ele apenas me olhou sem dizer palavra. Eu quis saber se ele acreditava em Deus. O caravaneiro me olhou profundamente e respondeu: “Não preciso acreditar”. Fez uma pausa e logo desfez a ideia de arrogância, que de início me pareceu, dando lugar à humildade, ao acrescentar: “Eu o sinto”.
Ficamos sem dizer palavra enquanto observávamos o voo do falcão. Quebrei o silêncio ao dizer que eu não tinha uma boa fotografia para vender nem uma história para contar, pois ninguém acreditaria que inverti a lógica e o instinto ao me aliar ao leopardo. Como uma lúcida loucura. Acrescentei que eu me sentia estranhamente mais forte e inteiro. Apesar de contar apenas comigo, de alguma maneira eu sabia que não estava só, tampouco pela metade. O que me completava não vinha de fora; estava dentro de mim.
O caravaneiro se virou para mim e disse: “A ganância e o orgulho lhe proporcionaram uma bela lição. Passe a fazer bom uso dela. A escuridão pode servir de pavio para luz”. Tornou a olhar para o deserto e falou: “Por todo o tempo somos guiados através da vida. Ora por intuições, ora por sinalizações. Ambas têm por objetivo orientar as nossas escolhas ou nos corrigir a rota. São os momentos em que nos sentimos amparados e seguros. Isto acontece na maior parte da existência de todos nós. Entretanto, não há como negar a dependência. Então, por precisão evolutiva, surgem situações bem complicadas, nas quais nos sentimos desamparados, sem que surja qualquer ajuda por parte dos bons espíritos. Assim, ao ter que lidar com a nudez dos fatos somos levados a enfrentar a nudez da alma. Você terá a nítida sensação de que poderá contar apenas consigo mesmo. Para superar o momento é preciso ouvir a si próprio e a refazer as suas verdades, independente das regras sociais e dos condicionamentos culturais. No íntimo, você saberá o que é certo fazer, ainda que muitos discordem. ‘Ver de dentro’ é diferente de ‘ver de fora’. Esta certeza traz a plenitude daqueles que ao buscarem a sua essência acabaram por encontrar o Absoluto. Então, descobriram que nunca estiveram só. É o início da maturidade do ser. Quando o mundo parece escuro e ninguém nos acode com um lampião, significa ter chegado a hora de acender a própria luz. O que parece abandono, em verdade, é a melhor oportunidade”. Olhou para o deserto por instantes e finalizou: “Conhecer o destino é entender a viagem; conhecer o Mistério é entender a si mesmo. A plenitude surge durante esse movimento”.
Mais tarde, após a refeição, achei ter visto a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli contemplando as estrelas, sentada no topo de uma pequena duna, um pouco distante do grupo. Andei em sua direção, tendo que parar por segundos para dar passagem a um cameleiro que levava os animais para o trato. Quando passaram, eu a tinha perdido de vista. Ela não estava mais lá. Aproximei-me do local e vi a sua marca na areia. Sentei-me no mesmo lugar e fiquei observando toda a cena, em reflexão. Foi quando tomei um susto ao perceber que o leopardo, ao longe, no alto de uma enorme duna em frente, aguardava deitado e sereno a partida da caravana, no dia seguinte, para saciar em paz a sua sede naquele poço. Tive a sensação de que ele me olhava de volta, em impossível cumplicidade, pelo dia vivido, pelas lições permitidas.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
O terceiro dia da travessia – o dilema entre a palavra e a verdade
Acordei na manhã do terceiro dia da travessia com o corpo ainda
alquebrado em função dos acontecimentos do dia anterior. O céu já estava
claro, embora o sol não tivesse alcançado a linha do horizonte no fim
do mar de areia que parecia sem fim. A movimentação para recolher o
acampamento era intensa. Todos arrumavam as suas coisas para seguirem
adiante, rumo ao maior oásis do Saara. Eu ia ao encontro de um sábio
dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, que lá
residia. A grande maioria dos integrantes da comitiva era de mercadores,
peregrinos e turistas, que marchavam montados em camelos. Os
funcionários da caravana encarregados da segurança viajavam a cavalo, em
vigorosos puros-sangues árabes, que permitiam maior agilidade, além do
caravaneiro e da enigmática mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, a
qual eu não avistara naquela manhã. Notei que, além dessas, algumas
outras poucas pessoas também seguiam a cavalo. Como eu não tinha me
acostumado ao gingado do camelo sobre as areias do deserto, algo que me
deixava enjoado, assim que o caravaneiro se aproximou, questionei o
privilégio concedido a essas pessoas que “viajavam de primeira classe”.
Argumentei que todos deveriam ter o mesmo tratamento face às condições
inóspitas da travessia. Acrescentei que, como esse não era o caso, eu
também gostaria de seguir a cavalo. O caravaneiro me olhou fixamente e
disse: “Todos são tratados de maneira justa e recebem um camelo para
realizar a viagem. No entanto, alguns trouxeram ou compraram os seus
cavalos. Não há nada de errado nisto”. Em seguida, advertiu: “Cada qual
deve vigiar a si mesmo”. Fez uma pequena pausa e concluiu: “Todos são
livres para quaisquer atos, desde que não prejudiquem a harmonia da
caravana”.
Expliquei o meu enjoo e a vontade de comprar um cavalo. O caravaneiro explicou: “Não há oferta de cavalos”. Olhou-me por instantes e disse: “No entanto, um dos homens, um intrépido integrante da segurança, está com febre alta. Foi oferecida a ele a opção de voltar, porém ele escolheu, por enquanto, continuar. Caso ele não possa seguir, o cavalo será seu”. Satisfeito com a resposta, estendi a mão direita para selar o compromisso. O caravaneiro apertou a minha mão.
Com a marcha em curso, foi impossível eu não tentar encontrar qual era o integrante adoentado. Não foi difícil avistar um homem curvado sobre o cavalo, a passo lento, sendo amparado de perto por outros dois, montados em camelos. Seguimos por cerca de duas horas, quando veio a ordem para caravana parar e a notícia de que aquele integrante falecera. Fomos orientados a formar um grande círculo. No centro foi realizado um rápido, porém respeitoso, sepultamento. Algumas preces de acolhimento por aquela alma foram recitadas.
Sem demora, veio uma nova ordem para que todos retomassem os seus lugares. A caravana seguiria adiante. Assim como a vida. Sem dramas e com coragem. Fiquei esperando pelo meu cavalo. Separei o dinheiro para o pagamento, mas nada me foi pedido nem me foi entregue. Andamos por horas. Quase ao entardecer, percebi outro peregrino montado no cavalo que me seria destinado. Chateado com o absurdo da situação, assim que a caravana tornou a parar, desta vez para levantar o acampamento para passarmos a noite, decidi procurar o caravaneiro para questionar sobre o compromisso assumido. Afinal, tínhamos firmado a palavra ao apertarmos as mãos.
Contudo, isso não foi necessário. Eu me servia de um saboroso guisado de legumes com carne salgada de carneiro, quando ele se aproximou, encheu a sua cuia e me convidou para sentar ao seu lado. Acomodados um pouco distante do grupo, ele disse: “Não pude lhe entregar o cavalo. Vi-me obrigado a mudar a minha decisão em razão de novos fatos”. Protestei de imediato. Lembrei que tínhamos um compromisso. Mais do que isto, ele tinha me dado a sua palavra. Falei que um homem vale tanto quanto a palavra empunhada. Eu tinha motivos para estar zangado e não faltavam razões para eu provocar o caravaneiro. Ele não pareceu se ofender. Ao contrário, com serenidade, explicou os motivos pelos quais mudou de ideia: “Chegaram notícias que uma perigosa tribo de nômades nos acompanha de longe. São famosos pelos assaltos e ferocidade”. Levou um pouco de comida à boca, mastigou em silêncio e, após, prosseguiu: “Perdi hoje um dos homens mais valentes que tínhamos aqui. Logo após, fui informado que um dos viajantes é um sagaz oficial das forças especiais do exército marroquino, que viaja para visitar parentes no oásis. Ele se ofereceu para reforçar a segurança sem exigir nenhum pagamento. Achei por bem entregar o cavalo a ele, sem nada cobrar, e integrá-lo ao corpo de proteção da caravana. Por favor, peço a sua compreensão”. Exaltado, rebati que apesar do argumento, aquela conversava não passava de uma mera comunicação do negócio desfeito. Acrescentei que era inaceitável desfazer o compromisso unilateralmente, sem consulta nem concordância da minha parte. Tornei a lembrar da palavra empenhada. Sem perder a calma, o caravaneiro respondeu: “A minha palavra tem muito valor, mas ela estará sempre atrelada à verdade”. Fez um aceno de despedida com a cabeça, se levantou e sumiu no meio da caravana. Mais tarde, quando a caravana já silenciara para dormir, eu ainda me revirava envolvido em uma mistura de insônia e irritação. Levantei-me e fui meditar junto às estrelas no alto de uma duna. Foi quando percebi que, ao longe, duas estrelas da cor de lápis-lazúli me observavam. A bela mulher, que esteve sumida durante todo o dia, estava sentada distante, do outro lado da mesma duna.
Andei em direção a ela; como não houve objeção, me aproximei. Com o rosto iluminado pelas estrelas, apontou um lugar para eu me sentar. Nem próximo nem distante; a uma distância possível de conversar em voz baixa sem qualquer menção de intimidade. Sem que ela nada falasse, despejei toda a minha insatisfação pelo comportamento do caravaneiro naquele episódio. Fiz questão de ressaltar que ele tinha maculado a própria honra ao não cumprir com a palavra empenhada. A mulher me ouviu impassível, deixando que eu transbordasse todo ressentimento que me assolava. Ao final, ela comentou: “A palavra de uma pessoa tem que ser fiel à verdade que ela traz no coração. Simples, clara, tranquila e pura. A honra está ligada às virtudes da sinceridade e da honestidade, que se traduzem no exercício da verdade perante os outros e diante de si mesmo. Por sua vez, estas virtudes são indispensáveis para a dignidade”.
Insisti que onde eu morava a palavra tinha valor absoluto e falava sobre a honra do indivíduo. Ela rebateu: “Não se trata de uma questão cultural, mas de se permitir um novo jeito de ser e viver. Sem o peso da culpa, mas com o compromisso pela verdade, que por estar viva e em processo de aprendizado, se modifica com a expansão de consciência e da capacidade de amar. Isto possibilita a liberdade”.
Falei que não tinha entendido e pedi para a mulher me explicar melhor. Ela foi paciente: “Quando empenhamos a palavra, é de má-fé não cumprir com o compromisso. Não se desfaz um compromisso por vaidade ou variação de humor. Isto revela fraqueza de caráter. Todavia, pode haver uma razão justa e fundamentada. Vale lembrar que a palavra tem que estar associada à verdade. A verdade está sempre ligada ao bem, é a manifestação consciente em prol da luz. Como se comportar quando surge um fato ou um olhar que modifique o entendimento daquela realidade? Devemos nos manter fiel à palavra mesmo sendo desleal à verdade e à luz? Isto seria como permitir o mal de maneira consciente”.
Aquela ótica me desconcertou e devo ter manifestado espanto em minhas feições, pois ela fez questão de exemplificar o raciocínio: “Imagine um rei que condene um suposto malfeitor à forca. Lembre que a palavra tem a força equivalente à prolação de uma sentença no âmbito de quem a profere. Próximo à hora derradeira do infeliz subir no cadafalso para encerrar os seus dias nesta existência, surge um fato incontestável que demostra a inocência do condenado. Deve o rei manter a palavra ou voltar atrás? Retroceder perante uma nova verdade é um erro? Haverá dignidade em sustentar a palavra mesmo quando se percebe o equívoco contido nela? Perceba que quando a sentença foi proferida existia dignidade por pensar de que ela trazia a verdade em seu conteúdo. No entanto, a verdade se modificou à luz de uma nova realidade. Haverá dignidade em manter a palavra diante do erro consciente?”
“Quando eu era criança ouvia que “palavra de rei não volta atrás”. Ora, um rei que não tem as virtudes necessárias para rever um posicionamento, seja qual for, não merece ser senhor de si mesmo”.
“Manter a palavra, mesmo diante do novo que modifica a vida, é a teimosia dos condicionamentos atávicos e sombrios do orgulho e da vaidade. Demonstra o medo diante da opinião alheia em admitir um equívoco, em lidar com o novo ou com relação à sua liberdade de pensar e ser diferente. Durante séculos, mentes primitivas e mal-intencionadas vêm deturpando o sentido da palavra como instrumento do bem, impondo um falso conceito de honra, com a intenção de manipular as escolhas alheias ao encontro de seus interesses egoístas e, não raro, escusos. Inconscientemente absorvemos estes vícios. De outro lado, há que se ter humildade e simplicidade em procurar a outra pessoa para revelar que o olhar se modificou, reconhecer o equívoco, pedir desculpas pelo transtorno, reparar algum dano que porventura tenha causado e seguir em paz, pois, independente do que digam, há que se ter compaixão para com aqueles que ficaram inconformados. A paz nasce da percepção de caminhar do lado iluminado da Estrada. Então, ela, a paz, não será mais uma concessão transitória para se tornar uma conquista definitiva”.
Fez uma pausa para olhar para estrelas como quem busca inspiração e concluiu: “Voltar atrás na palavra, desde que para se manter ligado à verdade, não é desonra, é a real dignidade. É uma atitude de respeito para com o compromisso assumido diante de si mesmo e com a luz. Anterior à palavra que eu possa empenhar diante de alguém, tenho um compromisso primordial com luz. Se algo se modificar no lapso de tempo entre o acordo e a execução, me manterei fiel à verdade, mesmo que me leve a retroceder quanto à palavra”. Olhou-me nos olhos e completou o recado: “Ainda que tenha que enfrentar revoltas, ofensas, incompreensões, provocações ou maledicências. Então, é preciso coragem, paciência e tolerância, além de amor, é claro. Ser digno é viver de acordo com a verdade. Viver a verdade é caminhar em sentido à luz. Não raro, o mapa da vida, mais à frente, nos mostra a possibilidade de uma melhor interpretação. Aceite que isto pode provocar mudanças de rotas para manter o destino inalterável. Pois, todos os dias, exige o aperfeiçoamento das escolhas, sempre orientadas pelas virtudes e associadas às suas inevitáveis transformações”.
Perguntei se ela achava que o caravaneiro tinha manchado a sua palavra. Ela deu de ombros e comentou: “Acredito que ele modificou o compromisso em função de um bem maior. Parece-me justo. Ele tem a responsabilidade em empenhar os seus melhores esforços para que a caravana chegue ao destino”. Olhou-me com os seus olhos da cor de lápis-lazúli e aconselhou: “Feche os olhos e reflita por si mesmo. O entendimento é a sua fortuna e herança”.
Quando tornei a abrir os olhos o céu já clareava. E a mulher não estava mais lá.
Expliquei o meu enjoo e a vontade de comprar um cavalo. O caravaneiro explicou: “Não há oferta de cavalos”. Olhou-me por instantes e disse: “No entanto, um dos homens, um intrépido integrante da segurança, está com febre alta. Foi oferecida a ele a opção de voltar, porém ele escolheu, por enquanto, continuar. Caso ele não possa seguir, o cavalo será seu”. Satisfeito com a resposta, estendi a mão direita para selar o compromisso. O caravaneiro apertou a minha mão.
Com a marcha em curso, foi impossível eu não tentar encontrar qual era o integrante adoentado. Não foi difícil avistar um homem curvado sobre o cavalo, a passo lento, sendo amparado de perto por outros dois, montados em camelos. Seguimos por cerca de duas horas, quando veio a ordem para caravana parar e a notícia de que aquele integrante falecera. Fomos orientados a formar um grande círculo. No centro foi realizado um rápido, porém respeitoso, sepultamento. Algumas preces de acolhimento por aquela alma foram recitadas.
Sem demora, veio uma nova ordem para que todos retomassem os seus lugares. A caravana seguiria adiante. Assim como a vida. Sem dramas e com coragem. Fiquei esperando pelo meu cavalo. Separei o dinheiro para o pagamento, mas nada me foi pedido nem me foi entregue. Andamos por horas. Quase ao entardecer, percebi outro peregrino montado no cavalo que me seria destinado. Chateado com o absurdo da situação, assim que a caravana tornou a parar, desta vez para levantar o acampamento para passarmos a noite, decidi procurar o caravaneiro para questionar sobre o compromisso assumido. Afinal, tínhamos firmado a palavra ao apertarmos as mãos.
Contudo, isso não foi necessário. Eu me servia de um saboroso guisado de legumes com carne salgada de carneiro, quando ele se aproximou, encheu a sua cuia e me convidou para sentar ao seu lado. Acomodados um pouco distante do grupo, ele disse: “Não pude lhe entregar o cavalo. Vi-me obrigado a mudar a minha decisão em razão de novos fatos”. Protestei de imediato. Lembrei que tínhamos um compromisso. Mais do que isto, ele tinha me dado a sua palavra. Falei que um homem vale tanto quanto a palavra empunhada. Eu tinha motivos para estar zangado e não faltavam razões para eu provocar o caravaneiro. Ele não pareceu se ofender. Ao contrário, com serenidade, explicou os motivos pelos quais mudou de ideia: “Chegaram notícias que uma perigosa tribo de nômades nos acompanha de longe. São famosos pelos assaltos e ferocidade”. Levou um pouco de comida à boca, mastigou em silêncio e, após, prosseguiu: “Perdi hoje um dos homens mais valentes que tínhamos aqui. Logo após, fui informado que um dos viajantes é um sagaz oficial das forças especiais do exército marroquino, que viaja para visitar parentes no oásis. Ele se ofereceu para reforçar a segurança sem exigir nenhum pagamento. Achei por bem entregar o cavalo a ele, sem nada cobrar, e integrá-lo ao corpo de proteção da caravana. Por favor, peço a sua compreensão”. Exaltado, rebati que apesar do argumento, aquela conversava não passava de uma mera comunicação do negócio desfeito. Acrescentei que era inaceitável desfazer o compromisso unilateralmente, sem consulta nem concordância da minha parte. Tornei a lembrar da palavra empenhada. Sem perder a calma, o caravaneiro respondeu: “A minha palavra tem muito valor, mas ela estará sempre atrelada à verdade”. Fez um aceno de despedida com a cabeça, se levantou e sumiu no meio da caravana. Mais tarde, quando a caravana já silenciara para dormir, eu ainda me revirava envolvido em uma mistura de insônia e irritação. Levantei-me e fui meditar junto às estrelas no alto de uma duna. Foi quando percebi que, ao longe, duas estrelas da cor de lápis-lazúli me observavam. A bela mulher, que esteve sumida durante todo o dia, estava sentada distante, do outro lado da mesma duna.
Andei em direção a ela; como não houve objeção, me aproximei. Com o rosto iluminado pelas estrelas, apontou um lugar para eu me sentar. Nem próximo nem distante; a uma distância possível de conversar em voz baixa sem qualquer menção de intimidade. Sem que ela nada falasse, despejei toda a minha insatisfação pelo comportamento do caravaneiro naquele episódio. Fiz questão de ressaltar que ele tinha maculado a própria honra ao não cumprir com a palavra empenhada. A mulher me ouviu impassível, deixando que eu transbordasse todo ressentimento que me assolava. Ao final, ela comentou: “A palavra de uma pessoa tem que ser fiel à verdade que ela traz no coração. Simples, clara, tranquila e pura. A honra está ligada às virtudes da sinceridade e da honestidade, que se traduzem no exercício da verdade perante os outros e diante de si mesmo. Por sua vez, estas virtudes são indispensáveis para a dignidade”.
Insisti que onde eu morava a palavra tinha valor absoluto e falava sobre a honra do indivíduo. Ela rebateu: “Não se trata de uma questão cultural, mas de se permitir um novo jeito de ser e viver. Sem o peso da culpa, mas com o compromisso pela verdade, que por estar viva e em processo de aprendizado, se modifica com a expansão de consciência e da capacidade de amar. Isto possibilita a liberdade”.
Falei que não tinha entendido e pedi para a mulher me explicar melhor. Ela foi paciente: “Quando empenhamos a palavra, é de má-fé não cumprir com o compromisso. Não se desfaz um compromisso por vaidade ou variação de humor. Isto revela fraqueza de caráter. Todavia, pode haver uma razão justa e fundamentada. Vale lembrar que a palavra tem que estar associada à verdade. A verdade está sempre ligada ao bem, é a manifestação consciente em prol da luz. Como se comportar quando surge um fato ou um olhar que modifique o entendimento daquela realidade? Devemos nos manter fiel à palavra mesmo sendo desleal à verdade e à luz? Isto seria como permitir o mal de maneira consciente”.
Aquela ótica me desconcertou e devo ter manifestado espanto em minhas feições, pois ela fez questão de exemplificar o raciocínio: “Imagine um rei que condene um suposto malfeitor à forca. Lembre que a palavra tem a força equivalente à prolação de uma sentença no âmbito de quem a profere. Próximo à hora derradeira do infeliz subir no cadafalso para encerrar os seus dias nesta existência, surge um fato incontestável que demostra a inocência do condenado. Deve o rei manter a palavra ou voltar atrás? Retroceder perante uma nova verdade é um erro? Haverá dignidade em sustentar a palavra mesmo quando se percebe o equívoco contido nela? Perceba que quando a sentença foi proferida existia dignidade por pensar de que ela trazia a verdade em seu conteúdo. No entanto, a verdade se modificou à luz de uma nova realidade. Haverá dignidade em manter a palavra diante do erro consciente?”
“Quando eu era criança ouvia que “palavra de rei não volta atrás”. Ora, um rei que não tem as virtudes necessárias para rever um posicionamento, seja qual for, não merece ser senhor de si mesmo”.
“Manter a palavra, mesmo diante do novo que modifica a vida, é a teimosia dos condicionamentos atávicos e sombrios do orgulho e da vaidade. Demonstra o medo diante da opinião alheia em admitir um equívoco, em lidar com o novo ou com relação à sua liberdade de pensar e ser diferente. Durante séculos, mentes primitivas e mal-intencionadas vêm deturpando o sentido da palavra como instrumento do bem, impondo um falso conceito de honra, com a intenção de manipular as escolhas alheias ao encontro de seus interesses egoístas e, não raro, escusos. Inconscientemente absorvemos estes vícios. De outro lado, há que se ter humildade e simplicidade em procurar a outra pessoa para revelar que o olhar se modificou, reconhecer o equívoco, pedir desculpas pelo transtorno, reparar algum dano que porventura tenha causado e seguir em paz, pois, independente do que digam, há que se ter compaixão para com aqueles que ficaram inconformados. A paz nasce da percepção de caminhar do lado iluminado da Estrada. Então, ela, a paz, não será mais uma concessão transitória para se tornar uma conquista definitiva”.
Fez uma pausa para olhar para estrelas como quem busca inspiração e concluiu: “Voltar atrás na palavra, desde que para se manter ligado à verdade, não é desonra, é a real dignidade. É uma atitude de respeito para com o compromisso assumido diante de si mesmo e com a luz. Anterior à palavra que eu possa empenhar diante de alguém, tenho um compromisso primordial com luz. Se algo se modificar no lapso de tempo entre o acordo e a execução, me manterei fiel à verdade, mesmo que me leve a retroceder quanto à palavra”. Olhou-me nos olhos e completou o recado: “Ainda que tenha que enfrentar revoltas, ofensas, incompreensões, provocações ou maledicências. Então, é preciso coragem, paciência e tolerância, além de amor, é claro. Ser digno é viver de acordo com a verdade. Viver a verdade é caminhar em sentido à luz. Não raro, o mapa da vida, mais à frente, nos mostra a possibilidade de uma melhor interpretação. Aceite que isto pode provocar mudanças de rotas para manter o destino inalterável. Pois, todos os dias, exige o aperfeiçoamento das escolhas, sempre orientadas pelas virtudes e associadas às suas inevitáveis transformações”.
Perguntei se ela achava que o caravaneiro tinha manchado a sua palavra. Ela deu de ombros e comentou: “Acredito que ele modificou o compromisso em função de um bem maior. Parece-me justo. Ele tem a responsabilidade em empenhar os seus melhores esforços para que a caravana chegue ao destino”. Olhou-me com os seus olhos da cor de lápis-lazúli e aconselhou: “Feche os olhos e reflita por si mesmo. O entendimento é a sua fortuna e herança”.
Quando tornei a abrir os olhos o céu já clareava. E a mulher não estava mais lá.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
O segundo dia da travessia – a dor nada ensina
A caravana seguia rumo ao maior oásis do Deserto do Saara. O meu
objetivo era conhecer um sábio dervixe, detentor de “muitos segredos do
céu e da terra”. Estávamos no segundo dia da travessia, e eu ainda me
acostumava ao gingado do camelo, que me deixava um pouco enjoado.
Tentava me distrair com a paisagem, mas não conseguia. Dunas enormes
pareciam se repetir dando a falsa sensação de que andávamos em círculos.
A belíssima mulher com os olhos da cor de lápis lazúli, que me
autorizara participar da caravana no dia anterior, desaparecera. O
caravaneiro, montado em seu vigoroso cavalo branco, passava a comitiva
em revista; por vezes, gritava ordens em um idioma desconhecido. Eu,
ainda impactado com os acontecimentos do dia anterior, me limitava a
acompanhar os demais integrantes com receio de fazer algo que
prejudicasse o encontro com o dervixe. Apesar do forte calor, tínhamos o
corpo completamente coberto por roupas para evitar queimaduras solares e
a desidratação que poderia levar à morte. Em determinado momento veio a
ordem para a caravana parar por alguns minutos para que que todos
pudessem fazer uma refeição leve. Algumas pessoas aproveitaram para
realizar as preces diárias conforme os seus preceitos religiosos.
Desmontado do camelo, andei a esmo até avistar o caravaneiro, um pouco
distante e sozinho, com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que
usava na mão esquerda.
Um pouco reticente, arrisquei me aproximar. Ele me viu. Como não fez qualquer objeção, cheguei mais perto. Comentei, apenas para puxar assunto, sobre como o deserto era inóspito e sem vida. O caravaneiro discordou com um movimento de cabeça. Em seguida, tirou a máscara que tapava os olhos da ave, deu uma voz de comando e o gavião bateu as asas ganhando altura. No alto, planou por minutos, como que economizando forças, se sustentando nas invisíveis bolhas de ar quente que se formam a partir das areias escaldantes e sobem ao céu azul. Até que, de repente, recolheu as asas e, em mergulho vertiginoso, desceu para buscar algo no solo. Quando retornou pude ver que trazia uma serpente aprisionada nas garras, que logo lhe serviu de refeição. Espantei-me com a capacidade da ave. O caravaneiro explicou: “Entenda o deserto, aceite fazer parte dele e ele te dará tudo aquilo que precisar”. Percebi que ele usava o deserto como metáfora para o mundo, para a vida e tudo mais de metafísico que nos envolve. Argumentei que a frase era bonita na teoria, entretanto, bem diferente na prática. O caravaneiro tornou a negar as minhas palavras com um simples balanço de cabeça e acrescentou: “Como somos parte do todo, o todo está dentro de nós. Quando entendemos isto, passamos a ter a força do todo à nossa disposição. O poder consiste em aprender a usá-la”.
Fez uma pausa e concluiu: “É isto que o gavião fez”. Discordei de imediato. Falei que a ave age por instinto ou determinismo biológico. Não há raciocínio filosófico em suas ações. O caravaneiro sacudiu a cabeça em concordância: “Sim. Ao contrário do gavião, você tem absoluta liberdade diante de um diversificado leque de escolhas. Isto amplia o teu poder”. Olhou-me nos olhos e disse: “Isto é o que vocês no Ocidente chamam de fé”. Tornou a se virar para o deserto e concluiu: “No Oriente também”.
Falei que havia lições em toda a parte. Em seguida lamentei com a conhecida tese de que “aprendemos com o amor ou com a dor”. Acrescentei que, não raro, o sofrimento costuma ser o professor mais utilizado. O caravaneiro me olhou de maneira estranha, como se tivesse ouvido algum absurdo, e se limitou a dizer: “A dor nada ensina”.
Proferi um pequeno discurso sustentando a teoria do aprendizado pela dor. Citei exemplos próprios e alheios para ilustrar o meu raciocínio. O caravaneiro apenas me olhava, enquanto eu falava, como quem observa os devaneios de um louco. Quando terminei, ele me tomou de surpresa: “Você ainda não está pronto para conversar com o dervixe”. Ainda sem entender o que estava por acontecer, ele sentenciou: “Você não seguirá com a caravana. Será um desperdício de tempo e de mantimentos”. Colocou em minhas mãos um cantil feito com pele de cabra e orientou: “Aguarde que à noite um guia virá para te conduzir de volta à cidade”. Fiz menção de protestar, mas a rudeza no olhar do caravaneiro me fez lembrar que a desobediência no deserto era punida com extremo rigor. Ao longe, vi levantarem o acampamento e seguirem até desaparecerem atrás da primeira duna.
Fui invadido por um redemoinho de sentimentos; da raiva ao medo; da indignação pela injustiça da sentença prolatada pelo caravaneiro à revolta pela minha covardia em aceitá-la passivamente. Corri para um lado e para o outro; xinguei e amaldiçoei; até que cai prostrado na areia. A boca ficou com um gosto amargo e a garganta secou. Bebi um gole longo de água e me dei conta da necessidade em moderar o consumo, pois o sol ainda tinha boa parte do meridiano para ultrapassar até que a noite chegasse junto com o resgate. Como apenas me restava aguardar – e torcer para que a promessa de vir alguém fosse cumprida – me sentei e procurei me acalmar. Como naquele momento a única coisa que eu poderia fazer era refletir, comecei pensando como as diferentes culturas produziam comportamentos considerados estranhos enquanto não compreendidos. Na medida que eu me acalmava, procurei rever toda a conversa que tive com o caravaneiro. Para que eu tivesse alguma chance de entendê-lo, era preciso retirar qualquer resquício de maldade que, por ventura, existisse em sua decisão. Parti do princípio de que ele tinha sido sincero e justo, apesar da dificuldade em entender o aparente paradoxo de como um homem rigoroso como ele podia sustentar de que nada se aprende com a dor. Lembrei por quanto sofrimento eu passei, desde a infância, até chegar ao entendimento que possuía naquele dia. As frustrações e as decepções que me correaram as entranhas até me levarem a outro nível de consciência em vários ciclos de aprendizado. Tudo porque eu não quis aprender por amor. Não restava dúvida de que o caravaneiro estava equivocado.
Com o passar das horas, resignado com a situação, me permiti ampliar o raciocínio, apenas como exercício dialético, na possibilidade de que o caravaneiro, porventura, estivesse certo e nada se aprendesse com a dor. Duas situações pretéritas que me fizeram sofrer vieram à mente. Uma delas foi a decepção que eu tive com um sócio ao descobrir que ele fraudava a empresa. Tivemos uma briga horrorosa, ele se retirou da sociedade e, mesmo passado muito tempo, embora eu não lhe desejasse qualquer mal, eu ainda não tinha conseguido perdoá-lo, pois a recordação me fazia reviver uma enorme mágoa. A outra lembrança que me ocorreu naquele momento foi a convivência conflituosa que eu tivera, por muitos anos, com a minha filha. Como eu me divorciara quando ela era muito pequena, durante muitos anos o relacionamento entre pai e filha foi repleto de cobranças, de ambas as partes, de que não havia no outro a dedicação desejada. Palavras ríspidas fizeram com que brotassem muitos ressentimentos dos dois lados. Ocorre que, apesar das desavenças, existia amor e isto não nos permitiu desistir. Aos poucos, à medida com que fomos amadurecendo, seja como pai, seja como filha, o amor que trazíamos no coração também cresceu. Devagar, mas sem cessar, conseguimos aparar as arestas que nos feriam, fortalecemos os laços e evoluímos para uma relação maravilhosa.
Foi quando, me ocorreu uma ideia: por que em uma das relações houve transformação e na outra restou apenas a mágoa? De repente tudo ficou claro como o céu do deserto. Sim, o amor foi o que fez a diferença. Na primeira, no conflito com o antigo sócio, o sofrimento não foi capaz de despertar nenhum sentimento amoroso em mim. Então, mesmo sendo uma experiência dolorosa não trouxe qualquer aprendizado, cura ou libertação, pois a compaixão não se fez presente. A mágoa ainda imperava e alimentava uma triste lógica de desconfiança em relação ao mundo. Ocorreu-me a evidente verdade que, apesar de a prudência ser uma virtude, é impossível ter leveza sem confiar; a existência se torna por demais pesada e chata. É impossível ser feliz sem perdoar.
Na segunda, ao contrário, permitimos que o amor prevalecesse diante de todas as dificuldades. Todo o sofrimento pelo qual tínhamos passado fez despertar um amor ainda maior dentro de mim e da minha filha. Então, foi possível descobrir uma convivência em esfera impensada, um amor em um nível de amadurecimento que desconhecíamos. Isto nos permitiu escolhas improváveis de início, possibilitou pacificar a relação e a nos tornar pessoas diferentes e melhores. Balancei a cabeça por demorar tanto tempo para ver o óbvio e ri de mim mesmo.
Se a dor não for capaz de despertar o amor, não restará nenhuma lição.
Sim, o caravaneiro tinha razão. Como em êxtase, me levantei e gritei para o deserto em gratidão até ficar rouco. Tomado por enorme alegria, comecei a dançar incessantemente, por um tempo que não sei precisar. Girei, girei e girei o corpo sobre o próprio eixo até a minhas forças se esgotarem e tudo se apagar.
Quando abri os olhos, o azul do céu tinha sido substituído pelo rosa crepuscular do entardecer. A primeira coisa que vi foram os olhos de lápis lazúli da belíssima mulher do dia anterior. Ela segurava a minha cabeça e tentava me fazer beber um pouco de água. Contei para ela tudo o que tinha acontecido, as minhas lembranças e como, ao por do sol, eu já entendia de maneira diversa da qual pensava ao amanhecer. Falei que, apesar de tudo, eu me sentia estranhamente feliz. A mulher me ofereceu um sorriso enigmático e comentou: “A dor nada ensina. O sofrimento é apenas uma ferramenta que deve ter a força de romper a casca da semente do amor que está adormecida dentro de cada ser. Se a dor não for usada com a devida sabedoria para fazer germinar o amor, não se poderá extrair qualquer lição de nenhuma situação. Apenas mágoa ao invés do perdão; dor sem cura; prisão sem chance de libertação. Na evolução de nada serve um elevado nível de consciência se não vier acompanhado com igual medida de amor”.
“Perceba que muitos atravessam o mesmíssimo deserto de sofrimentos. Alguns se atolam nas tempestades de ressentimentos; outros aproveitam esses fortes ventos para avançar em incessantes etapas de superação. Nas duas situações pessoais que você acabou de me contar, em ambas houve dor. Em uma restou incompreensão e estagnação; na outra, entendimento e evolução. A diferença? O amor. Ele é o único mestre de todas as lições. É o amor quem movimenta a sabedoria no sentido da luz. Sem amor, todo o conhecimento apodrece em quarto escuro. A dor é somente um dos instrumentos da luz, usado apenas para auxiliar na germinação do amor quando a casca da semente se mostrar por demais resistente, negando a inevitável beleza da flor”.
Fechei os olhos e fiz uma prece de sincera gratidão. Perguntei se era ela quem me conduziria de volta à cidade. A mulher tornou a me surpreender: “A caravana segue e você com ela”. Fez uma breve pausa e concluiu: “Tudo mudou. Você fez tudo mudar”. Com o queixo apontou para o alto de uma enorme duna atrás de mim. Quando me virei, avistei o caravaneiro de pé, impávido como uma sentinela, me observando. O falcão estava pousado sobre a sua mão esquerda. Entendi que em nenhum momento eu tinha sido abandonado.
Ela me ajudou a levantar. Depois subiu em seu cavalo negro e me deu a mão para que eu montasse na garupa para irmos ao encontro da caravana. Em seguida, fez um comentário aparentemente despretensioso: “Os dervixes também rodopiam em seus cerimoniais de conexão com o lado invisível da vida”. Eu não sabia.
Um pouco reticente, arrisquei me aproximar. Ele me viu. Como não fez qualquer objeção, cheguei mais perto. Comentei, apenas para puxar assunto, sobre como o deserto era inóspito e sem vida. O caravaneiro discordou com um movimento de cabeça. Em seguida, tirou a máscara que tapava os olhos da ave, deu uma voz de comando e o gavião bateu as asas ganhando altura. No alto, planou por minutos, como que economizando forças, se sustentando nas invisíveis bolhas de ar quente que se formam a partir das areias escaldantes e sobem ao céu azul. Até que, de repente, recolheu as asas e, em mergulho vertiginoso, desceu para buscar algo no solo. Quando retornou pude ver que trazia uma serpente aprisionada nas garras, que logo lhe serviu de refeição. Espantei-me com a capacidade da ave. O caravaneiro explicou: “Entenda o deserto, aceite fazer parte dele e ele te dará tudo aquilo que precisar”. Percebi que ele usava o deserto como metáfora para o mundo, para a vida e tudo mais de metafísico que nos envolve. Argumentei que a frase era bonita na teoria, entretanto, bem diferente na prática. O caravaneiro tornou a negar as minhas palavras com um simples balanço de cabeça e acrescentou: “Como somos parte do todo, o todo está dentro de nós. Quando entendemos isto, passamos a ter a força do todo à nossa disposição. O poder consiste em aprender a usá-la”.
Fez uma pausa e concluiu: “É isto que o gavião fez”. Discordei de imediato. Falei que a ave age por instinto ou determinismo biológico. Não há raciocínio filosófico em suas ações. O caravaneiro sacudiu a cabeça em concordância: “Sim. Ao contrário do gavião, você tem absoluta liberdade diante de um diversificado leque de escolhas. Isto amplia o teu poder”. Olhou-me nos olhos e disse: “Isto é o que vocês no Ocidente chamam de fé”. Tornou a se virar para o deserto e concluiu: “No Oriente também”.
Falei que havia lições em toda a parte. Em seguida lamentei com a conhecida tese de que “aprendemos com o amor ou com a dor”. Acrescentei que, não raro, o sofrimento costuma ser o professor mais utilizado. O caravaneiro me olhou de maneira estranha, como se tivesse ouvido algum absurdo, e se limitou a dizer: “A dor nada ensina”.
Proferi um pequeno discurso sustentando a teoria do aprendizado pela dor. Citei exemplos próprios e alheios para ilustrar o meu raciocínio. O caravaneiro apenas me olhava, enquanto eu falava, como quem observa os devaneios de um louco. Quando terminei, ele me tomou de surpresa: “Você ainda não está pronto para conversar com o dervixe”. Ainda sem entender o que estava por acontecer, ele sentenciou: “Você não seguirá com a caravana. Será um desperdício de tempo e de mantimentos”. Colocou em minhas mãos um cantil feito com pele de cabra e orientou: “Aguarde que à noite um guia virá para te conduzir de volta à cidade”. Fiz menção de protestar, mas a rudeza no olhar do caravaneiro me fez lembrar que a desobediência no deserto era punida com extremo rigor. Ao longe, vi levantarem o acampamento e seguirem até desaparecerem atrás da primeira duna.
Fui invadido por um redemoinho de sentimentos; da raiva ao medo; da indignação pela injustiça da sentença prolatada pelo caravaneiro à revolta pela minha covardia em aceitá-la passivamente. Corri para um lado e para o outro; xinguei e amaldiçoei; até que cai prostrado na areia. A boca ficou com um gosto amargo e a garganta secou. Bebi um gole longo de água e me dei conta da necessidade em moderar o consumo, pois o sol ainda tinha boa parte do meridiano para ultrapassar até que a noite chegasse junto com o resgate. Como apenas me restava aguardar – e torcer para que a promessa de vir alguém fosse cumprida – me sentei e procurei me acalmar. Como naquele momento a única coisa que eu poderia fazer era refletir, comecei pensando como as diferentes culturas produziam comportamentos considerados estranhos enquanto não compreendidos. Na medida que eu me acalmava, procurei rever toda a conversa que tive com o caravaneiro. Para que eu tivesse alguma chance de entendê-lo, era preciso retirar qualquer resquício de maldade que, por ventura, existisse em sua decisão. Parti do princípio de que ele tinha sido sincero e justo, apesar da dificuldade em entender o aparente paradoxo de como um homem rigoroso como ele podia sustentar de que nada se aprende com a dor. Lembrei por quanto sofrimento eu passei, desde a infância, até chegar ao entendimento que possuía naquele dia. As frustrações e as decepções que me correaram as entranhas até me levarem a outro nível de consciência em vários ciclos de aprendizado. Tudo porque eu não quis aprender por amor. Não restava dúvida de que o caravaneiro estava equivocado.
Com o passar das horas, resignado com a situação, me permiti ampliar o raciocínio, apenas como exercício dialético, na possibilidade de que o caravaneiro, porventura, estivesse certo e nada se aprendesse com a dor. Duas situações pretéritas que me fizeram sofrer vieram à mente. Uma delas foi a decepção que eu tive com um sócio ao descobrir que ele fraudava a empresa. Tivemos uma briga horrorosa, ele se retirou da sociedade e, mesmo passado muito tempo, embora eu não lhe desejasse qualquer mal, eu ainda não tinha conseguido perdoá-lo, pois a recordação me fazia reviver uma enorme mágoa. A outra lembrança que me ocorreu naquele momento foi a convivência conflituosa que eu tivera, por muitos anos, com a minha filha. Como eu me divorciara quando ela era muito pequena, durante muitos anos o relacionamento entre pai e filha foi repleto de cobranças, de ambas as partes, de que não havia no outro a dedicação desejada. Palavras ríspidas fizeram com que brotassem muitos ressentimentos dos dois lados. Ocorre que, apesar das desavenças, existia amor e isto não nos permitiu desistir. Aos poucos, à medida com que fomos amadurecendo, seja como pai, seja como filha, o amor que trazíamos no coração também cresceu. Devagar, mas sem cessar, conseguimos aparar as arestas que nos feriam, fortalecemos os laços e evoluímos para uma relação maravilhosa.
Foi quando, me ocorreu uma ideia: por que em uma das relações houve transformação e na outra restou apenas a mágoa? De repente tudo ficou claro como o céu do deserto. Sim, o amor foi o que fez a diferença. Na primeira, no conflito com o antigo sócio, o sofrimento não foi capaz de despertar nenhum sentimento amoroso em mim. Então, mesmo sendo uma experiência dolorosa não trouxe qualquer aprendizado, cura ou libertação, pois a compaixão não se fez presente. A mágoa ainda imperava e alimentava uma triste lógica de desconfiança em relação ao mundo. Ocorreu-me a evidente verdade que, apesar de a prudência ser uma virtude, é impossível ter leveza sem confiar; a existência se torna por demais pesada e chata. É impossível ser feliz sem perdoar.
Na segunda, ao contrário, permitimos que o amor prevalecesse diante de todas as dificuldades. Todo o sofrimento pelo qual tínhamos passado fez despertar um amor ainda maior dentro de mim e da minha filha. Então, foi possível descobrir uma convivência em esfera impensada, um amor em um nível de amadurecimento que desconhecíamos. Isto nos permitiu escolhas improváveis de início, possibilitou pacificar a relação e a nos tornar pessoas diferentes e melhores. Balancei a cabeça por demorar tanto tempo para ver o óbvio e ri de mim mesmo.
Se a dor não for capaz de despertar o amor, não restará nenhuma lição.
Sim, o caravaneiro tinha razão. Como em êxtase, me levantei e gritei para o deserto em gratidão até ficar rouco. Tomado por enorme alegria, comecei a dançar incessantemente, por um tempo que não sei precisar. Girei, girei e girei o corpo sobre o próprio eixo até a minhas forças se esgotarem e tudo se apagar.
Quando abri os olhos, o azul do céu tinha sido substituído pelo rosa crepuscular do entardecer. A primeira coisa que vi foram os olhos de lápis lazúli da belíssima mulher do dia anterior. Ela segurava a minha cabeça e tentava me fazer beber um pouco de água. Contei para ela tudo o que tinha acontecido, as minhas lembranças e como, ao por do sol, eu já entendia de maneira diversa da qual pensava ao amanhecer. Falei que, apesar de tudo, eu me sentia estranhamente feliz. A mulher me ofereceu um sorriso enigmático e comentou: “A dor nada ensina. O sofrimento é apenas uma ferramenta que deve ter a força de romper a casca da semente do amor que está adormecida dentro de cada ser. Se a dor não for usada com a devida sabedoria para fazer germinar o amor, não se poderá extrair qualquer lição de nenhuma situação. Apenas mágoa ao invés do perdão; dor sem cura; prisão sem chance de libertação. Na evolução de nada serve um elevado nível de consciência se não vier acompanhado com igual medida de amor”.
“Perceba que muitos atravessam o mesmíssimo deserto de sofrimentos. Alguns se atolam nas tempestades de ressentimentos; outros aproveitam esses fortes ventos para avançar em incessantes etapas de superação. Nas duas situações pessoais que você acabou de me contar, em ambas houve dor. Em uma restou incompreensão e estagnação; na outra, entendimento e evolução. A diferença? O amor. Ele é o único mestre de todas as lições. É o amor quem movimenta a sabedoria no sentido da luz. Sem amor, todo o conhecimento apodrece em quarto escuro. A dor é somente um dos instrumentos da luz, usado apenas para auxiliar na germinação do amor quando a casca da semente se mostrar por demais resistente, negando a inevitável beleza da flor”.
Fechei os olhos e fiz uma prece de sincera gratidão. Perguntei se era ela quem me conduziria de volta à cidade. A mulher tornou a me surpreender: “A caravana segue e você com ela”. Fez uma breve pausa e concluiu: “Tudo mudou. Você fez tudo mudar”. Com o queixo apontou para o alto de uma enorme duna atrás de mim. Quando me virei, avistei o caravaneiro de pé, impávido como uma sentinela, me observando. O falcão estava pousado sobre a sua mão esquerda. Entendi que em nenhum momento eu tinha sido abandonado.
Ela me ajudou a levantar. Depois subiu em seu cavalo negro e me deu a mão para que eu montasse na garupa para irmos ao encontro da caravana. Em seguida, fez um comentário aparentemente despretensioso: “Os dervixes também rodopiam em seus cerimoniais de conexão com o lado invisível da vida”. Eu não sabia.
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