Ela parecia surgir de um lugar onde o silêncio tinha peso, como se cada segundo ao redor dela fosse puxado para dentro daquela máscara ancestral que repousava sobre o rosto. O crânio do lobo — marcado por arabescos escuros, quase como cicatrizes rendadas — encaixava-se à sua pele com uma naturalidade inquietante, deixando apenas os olhos invisíveis sob as sombras internas da cavidade. A impressão era de que ela observava o mundo por trás de séculos, não de pálpebras.
O cabelo preso em volume discreto deixava a máscara em destaque, como um totem de vigilância. E havia algo sutil no modo como o pescoço e o peito dela eram engolidos pelo negro profundo daquela espécie de gola, como tinta escorrida que se recusava a secar. O contraste com a pele clara gerava a mesma sensação de olhar para neve caindo sobre uma floresta queimada: um choque, mas também um convite.
As mãos, longas e quase etéreas, repousavam sobre o próprio peito com a precisão de um ritual. Os dedos lembravam garras humanas – ou humanas demais –, cada unha alongada projetando uma ameaça contida. Nos pulsos e no dorso, a renda negra se espalhava como raízes de uma árvore noturna, conectando-a a alguma força silenciosa que pulsava por dentro.
Ao redor, o fundo aquarelado dissolvia o mundo em tons suaves — cinzas que pareciam respirações, rosados discretos que lembravam um amanhecer tímido, beiges que davam a impressão de que ela surgia de dentro da própria névoa. Nada ali era sólido, exceto ela.
E ainda assim, mesmo envolta em símbolos de morte, metamorfose e sombra, havia uma calma inabalável na forma como permanecia de olhos fechados. Como se carregasse consigo a certeza de que algumas verdades só podem ser vistas quando a visão se dobra para dentro.
Não era uma figura para ser entendida de imediato.
Era para ser encontrada — lentamente — como quem descobre um animal raro caminhando na beira de um sonho.
**arte gerada por I.A. através de sugestões do autor.

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