segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O décimo-segundo dia da travessia – a marca do deserto

Amanhecia no décimo-segundo dia da travessia. Peguei uma caneca de café e me afastei para as minhas reflexões matinais. Eu flanava entre mil pensamentos quando avistei um homem que viajava com a caravana sentado sozinho na areia. Eu já tinha reparado nele pelo fato de sempre estar destacado do grupo. Nunca o vira conversando com ninguém. Decidi me aproximar. Perguntei se podia me sentar ao seu lado e ele aquiesceu com a cabeça. Apresentei-me e disse que seguia para encontrar com o dervixe. Ele disse se chamar Farid e retornava ao oásis, onde nascera, depois de muitos anos para rever os parentes. Em um dia longínquo partira em busca de trabalho. Contou que tinha uma pequena banca de grãos e temperos no mercado central de Marraquexe. Comentei que ele deveria estar muito animado para esse reencontro depois de tanto tempo. Farid disse que nem tanto; em verdade, voltava mais porque a mãe estava muito adoentada. Confessou que o seu desejo era retornar apenas quando se tornasse um rico mercador para que fosse admirado por todos. No entanto, lamentou, a vida não quis assim. Comentou que não sabia a razão do seu negócio não prosperar, pois era esforçado e honesto. Isto o entristecia. Falei que talvez pudesse ajudá-lo, uma vez que eu era publicitário e a minha agência ajudara na construção de diversas marcas ao longo dos últimos anos. Farid disse que talvez não fosse o caso, pois era apenas um mercador de grãos. Sustentei que não importava o tamanho nem o tipo do seu negócio, o importante era criar uma marca que não apenas o identificasse, mas que o diferenciasse dos demais comerciantes; que o tornasse único. Contei de uma marca de motocicletas que agregara o conceito de liberdade às motos que vendia. Falei também de uma fabricante de celulares que dizia não vender apenas telefones, mas aparelhos que poderiam mudar o mundo. Ele me olhou assustado e me perguntou se aquilo era honesto. Respondi que, a depender da ótica, sim, que era possível criar uma marca que refletisse com total clareza as qualidades do produto oferecido. Acrescentei que os exemplos apenas ressaltavam o poder da criatividade, assim como o alcance que uma marca bem construída poderia ter. Falei, ainda, que uma marca deve observar três conceitos importantes em relação ao produto: a verdade, a inovação e a utilidade.
Farid se mostrou interessado. Ao partir, emparelhamos os nossos camelos para conversarmos durante a marcha. Ele me fez várias perguntas, que respondi com facilidade pela experiência que tinha. Expliquei que os três atributos eram de suma importância: a verdade forja uma relação de confiança entre as partes; a inovação permite possibilidades nunca antes imaginada e a utilidade torna a experiência agradável.
Farid estava cada vez mais animado. A sua curiosidade me enchia de perguntas. Tudo aquilo me entretinha e ofereci algumas ideias a respeito do que ele poderia fazer para criar e consolidar uma marca ao seu negócio.
No meio do dia, a caravana fez uma rápida parada, como de costume, para uma refeição ligeira e um breve descanso. Vi que Farid conversava com um dos peregrinos com quem, há dias, eu tivera uma discussão. O fato me trouxe alguma estranheza pelo fato de o mercador de grãos estar sempre sozinho. Afastei da mente os maus pensamentos por saber os quão perniciosos são à vida. Quando a caravana retornou à marcha, notei que Farid não parecia o mesmo. Falava menos, se limitava a respostas monossilábicas e estava sisudo.
No final da tarde paramos para montar o acampamento e passar a noite. Na hora do jantar procurei por Farid e o encontrei em uma animada conversa com o mesmo grupo de peregrinos. Tentei me aproximar, mas fui desestimulado pela maneira como me olharam. Passei na tenda onde as refeições eram servidas, enchi a cuia e me afastei para comer sozinho. Uma desagradável sensação me envolvia. Não passou muito tempo, Farid veio até a mim. Estava com as feições fechadas e os seus questionamentos também tinham mudado. Mais pareciam acusações. Soube que eu cobrava caríssimo pelos meus serviços e que a minha agência tinha um enorme histórico de fracassos. Falei que não era bem assim, em nenhum momento tinha pensado em cobrar a ele por qualquer consultoria, se tratava apenas de uma conversa amigável até como maneira de tornar a viagem menos entediante. Sobre as campanhas sob responsabilidade da minha agência, eram serviços que oferecíamos no melhor da nossa capacidade e o preço cobrado era aquele que entendíamos como justo. O cliente tinha total de liberdade para não aceitar. Sim, algumas campanhas não tinham atingido o objetivo pretendido. No entanto, muitas outras se mostraram acertadas a ponto de alavancar algumas marcas a níveis acima do imaginado. O risco faz parte do negócio; o risco faz parte da vida. Não satisfeito, Farid disse estar horrorizado em saber que eu cobrava percentual nos lucros auferidos pelas marcas trabalhadas. Rebati dizendo que aquilo era uma mentira. Zangado, ele girou nos calcanhares e se foi.
Fiquei mal. Aquilo me pegou como uma tempestade de verão que chega de surpresa e com intensidade. Tudo tão absurdo que parecia surreal. Eu precisava relaxar. Fui até o bom homem do chá. Ele me atendeu com a delicadeza de sempre. Falou que percebia em minha aura algumas alterações. Prontificou-se a preparar uma infusão que ajudaria a me reequilibrar. No entanto, esclareceu, eu teria que fazer a minha parte: “Serenar o coração e suavizar a mente. Esta é a essência de toda a cura; o chá é apenas um paliativo de amor”. Falei que não precisava, mas ele insistiu. Quando ficou pronto, bebi devagar e agradeci. Estava me sentindo um pouco melhor de que quando cheguei. Ao me retirar, percebi que a bela mulher de olhos com cor de lápis-lazúli me observava de longe. Tentei me aproximar, mas como havia algumas pessoas passando à minha frente, quanto tornei a olhar para onde ela estava, a mulher havia desaparecido.
Sentei-me na areia em um lugar distante de todos. Aos poucos, sentimentos e pensamentos foram sendo acomodados em seus devidos lugares. Eu não poderia deixar que as tempestades alheias tivessem força para ofuscar o sol que brilhava em mim. Para isto era preciso entender que o inconformismo dos outros quase nunca tem como causa verdadeira as minhas escolhas. Sem esquecer que a recíproca sempre se aplica: a minha intolerância em relação ao mundo não está no mundo, mas em mim. Isto me acalmou, mas ainda restava uma ponta de desequilíbrio. Foi quando tomei um susto ao me dar conta de que a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli estava sentada ao meu lado. Perguntei o motivo de ela sempre sumir e aparecer como que por magia. Ela sorriu e respondeu: “É uma das características da minha marca”. Dei uma gostosa gargalhada e disse que o dia tinha sido terrível justamente por esse motivo: marcas. Ela apenas voltou a sorrir em resposta. Em seguida, despejei cada detalhe de todos os acontecimentos do dia, de como eu me sentia e de como já tinha conseguido melhorar.
Ela comentou sobre Farid: “A instabilidade emocional do mercador explica porque ele tem dificuldade em fazer amigos. É também reflexo dos maus resultados em seu negócio. Essas situações costumam andar casadas. Em verdade, ele flutua de um lado ao outro, como uma nau sem leme, à deriva por não saber navegar. Ele escolheu como destino uma situação abstrata. ‘Volto para casa quando enriquecer’ é se movimentar pelo orgulho e pela vaidade. Não há nada de errado em ganhar dinheiro, mas há muitas riquezas, bem mais interessantes, a serem descobertas na estrada de volta para a casa. Voltar para a casa é retornar às origens e, de certa maneira, a si mesmo, onde o aguarda o ouro da vida que ele, inconscientemente, tanto procura no mundo. Assim, por ter dificuldade em descobrir quem é, fica sem saber para onde vai. É um homem quebrado; é um homem sem rumo. É um homem sem uma marca”.
Em seguida, falou sobre o desconforto que eu sentia: “Não permitir que as sombras alheias apaguem a nossa luz é um notável avanço e primordial à plenitude. Já temos trabalho demais com as nossas próprias sombras. Não podemos alimentá-las com as sombras do mundo”. Falei também como o bom homem do chá tinha sido gentil e acolhedor. Ressaltei de como era aconchegante sentar para beber uma xícara de chá com ele. A mulher explicou: “Faz parte da marca dele mostrar como o mundo pode se tornar um bom lugar”.
Diante das minhas feições de espanto por ela insistir no assunto que foi gerador de todas as controvérsias daquele dia, ela ampliou o raciocínio: “Viemos ao planeta para viver a nossa essência. Cada qual a sua. Isto o torna uma marca única. Construir esta marca é a parte que cabe a cada um de nós na arte da vida”.
“Você olha para o caravaneiro e encontra nele uma marca definida com solidez pela segurança que o seu caráter transmite. O deserto, por sua vez, é uma marca destinada a destruir marcas ultrapassadas e a construir marcas impensadas”.
Em seguida, perguntou: “Quais os atributos de uma marca”? Respondi que na publicidade aprendemos que são três. Verdade, inovação e utilidade. Ela balançou a cabeça em concordância e prosseguiu: “Na vida não é diferente”. Para minha surpresa, repetiu as palavras que eu havia dito pela manhã ao mercador de grãos, em resumo a esses três conceitos, como se tivesse me ouvido: “A verdade forja uma relação de confiança entre as partes; a inovação permite possibilidades nunca antes imaginada e a utilidade torna a experiência agradável”.
No entanto, aprofundou o raciocínio: “A verdade está ligada a sinceridade que temos no trato pessoal e a honestidade com que nos portamos perante os outros. A verdade une as partes. Ela fala da importância da simplicidade em ser e no viver; do valor da humildade para não se perder na ilusão de se sentir maior do que os demais; da necessidade da pureza para afastar as maledicências e os preconceitos no momento das escolhas. Isto fortalece o espírito diante das adversidades inerentes à vida, perante as maldades do mundo e cria um laço de confiança e bem-estar para com aqueles que estiverem ao redor”.
“A inovação, por sua vez, se refere as indispensáveis transformações que precisamos operar, cada um em si mesmo, para que possamos seguir em evolução. As marcas bem construídas não encontram problemas em se aperfeiçoar à medida que os seus criadores se transformam. Ampliar a consciência e expandir a capacidade de amar como pilares para a construção de uma pessoa diferente e melhor a cada dia. Todos os dias até o dia sem fim. Mas não basta. É preciso que, cada qual ao seu jeito, seja elemento inspirador de mudança a quem estiver por perto. Mais pelo exemplo, menos pelo discurso. Sempre pela livre vontade, jamais por imposição ou cobrança. O voo nos inspira às asas. O que estimula a lagarta ao casulo são as borboletas”.
“Por fim, a utilidade. A utilidade nos fala sobre o amor. O amor por si e por toda a gente. Ser útil é dar um sentido à existência, é plantar flores todos os dias nos jardins da humanidade, ainda que a fronteira do planeta seja a esquina da sua casa. É a misericórdia que transborda no coração daquele que se dispõe a dar a mão, a abrir a porta, a sinalizar na estrada, a acolher na tempestade, a apagar o incêndio. Ao mergulhar profundo para encontrar a si mesmo acaba por descobrir toda uma vida; ao oferecer a outra face abre espaço para uma nova parte, ainda desconhecida. O cuidado com outro, a utilidade que tiver para o mundo, por mais simples e humilde que seja, será sempre a perfeita forja para a transformação da alma iluminada”.
“A vida tem que se tornar uma experiência verdadeira, inovadora e agradável por sua utilidade”.
Fixou os seus olhos azuis em meus olhos tontos e concluiu: “Assim criamos as marcas pessoais. Cada um com o seu jeito único e beleza incomparável de ser; todos indispensáveis à obra. Veja o bom homem do chá ou o caravaneiro: não há nada que esteja fora do indivíduo para a construção de uma marca bem-sucedida”. Em seguida finalizou: “A propósito, você já começou a criar a sua marca pessoal”?

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O décimo-primeiro dia da travessia – os demônios acompanham a caravana

Ainda era cedo. O sol começava a banhar o deserto por detrás de uma enorme duna ao leste. Arrumei as minhas coisas no alforje e o deixei pronto para colocá-lo sobre o camelo na hora da partida. Fui à tenda em que serviam o desjejum para encher uma caneca com café. Depois me afastei para a prece que gostava de fazer sozinho pela manhã, sempre acompanhada de alguma reflexão. Como de costume, o caravaneiro estava destacado do grupo, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo, para o adestramento matinal. Foi então que se aproximou de mim um peregrino que fazia parte da caravana. Perguntou se podia me fazer companhia. Com o queixo apontei para que se sentasse ao meu lado. Não demorou, puxou conversa. Disse que se chamava Saul. Falou que, assim como eu, ele também ia ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Em seguida criticou a estrutura da caravana. Falou que o valor cobrado pela viagem era muito caro para o pouco que ofereciam e que o caravaneiro devia dedicar ao grupo a mesma atenção que oferecia ao falcão. Eu nada respondi para não alimentar aquela conversa com energias que estimulavam a discórdia e a insatisfação. Não satisfeito, talvez por não encontrar em mim o apoio esperado, perguntou se eu tinha lido determinado livro. Respondi que nunca tinha ouvido falar nem no título nem no autor. O peregrino me olhou com espanto para dizer que aquela leitura era pressuposto para a conversa com o dervixe, uma vez que era a base de sua doutrina filosófica. Acrescentou que nem todos que iam ao oásis conseguiam o esperado encontro, pois o sábio escolhia apenas algumas pessoas, aquelas que considerava aptas a entenderem as suas palavras.
Eu quis saber se ele tinha o livro e se poderia me emprestar. Como ainda faltavam trinta dias até chegarmos ao oásis, seria tempo suficiente para eu me preparar. O homem falou que tinha o livro, mas estava dedicado a uma releitura do mesmo. Lamentou não poder me atender. Falou, ainda, que tinha certeza de que ele seria um dos eleitos para se reunir com o dervixe. Relatou todos os estudos que fizera e escolas das mais diversas tradições que frequentara ao longo de muitos anos. Pelo que tinha reparado, duvidava que na caravana alguém estivesse tão preparado como ele. Perguntou sobre qual vertente se sustentava o meu conhecimento. Falei que recentemente tinha ingressado em uma ordem esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Nada além disso. Ele sacudiu a cabeça como quem diz que não era suficiente, mas aconselhou que eu não desistisse e que me ajudaria no que fosse possível. Em seguida, falou que tinha que preparar a sua bagagem, pois a caravana logo seguiria a viagem. Antes, porém, me alertou para ter cuidado com o caravaneiro. Perguntei a razão, mas ele apenas puxou a pálpebra do olho como sinal para que eu estivesse atento e saiu.
Fui envolvido por uma sensação muito ruim. Uma mistura de emoções desagradáveis com alguma confusão mental. Pensei em como seria detestável atravessar o deserto, com todas as dificuldades inerentes ao percurso, para, ao final, voltar frustrado quanto às intenções da viagem. O que eu diria aos meus amigos ao me perguntarem sobre como tinha sido a conversa com o dervixe, especialmente entre aqueles que me incentivaram a fazer a peregrinação? Incomodava a ideia de responder que fora em vão, que o sábio se recusara a conversar comigo. De sobra ainda teria que me deparar com os colegas que haviam me aconselhado a não vir por causa dos perigos do deserto, além da grande despesa que eu teria com a viagem. Fechei os olhos e os imaginei me oferecendo lições de prudência com ares de pretensa superioridade, dizendo algo como “se Deus está em todo lugar, e principalmente dentro de si mesmo, você não precisa ir a lugar nenhum para encontrá-lo”. Na realidade, eu não viajava para encontrar Deus, mas em busca de novos conhecimentos. Eles retrucariam, “não vejo sentido em você se privar do conforto da sua casa, principalmente hoje em dia, onde encontramos tudo na internet”. Ora, andar pelas ruas de uma cidade me permite uma percepção bem diferente do que conhecê-la por fotos. Assim é com a filosofia; se não for vivida restará desperdiçada. No mais, fora as críticas que eu teria que enfrentar, não tinha vislumbrado a possibilidade de passar quarenta dias no deserto, com todas as privações inerentes à caravana, para ao final nem ao menos ouvir uma única frase do dervixe. Aquilo me deixou profundamente agoniado.
Esperei o caravaneiro retornar com o falcão. Quando passou por mim, o questionei por qual razão ele não me avisou que havia uma enorme chance de eu não conseguir conversar com o sábio quando chegássemos ao oásis. Ele me olhou atentamente, como quem procura ler o que está escrito além das palavras ditas, e disse com serenidade: “Você contratou a caravana para chegar a um determinado destino em segurança. Tão somente. Esse é o meu compromisso. Respondo apenas por mim e pela caravana. Não sou secretário nem agenciador do dervixe. Não posso ser responsabilizado se ele viajou ou está recluso sem desejar encontrar com ninguém. Assim como não posso responder pelos negócios entre mercadores e tapeceiros. Ao contrário, veto o ingresso na caravana daqueles que, de antemão, percebo que perderão tempo e dinheiro na travessia. Sejam mercadores, sejam peregrinos”. Admiti que, de fato, eu mesmo quase fui impedido de participar da viagem, logo no início, uma vez pelo caravaneiro, noutra pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli. No entanto, achava que a possibilidade de atravessar o deserto e não conseguir encontrar o sábio deveria restar mais clara.
Sem deixar que a energia densa que me envolvia o atingisse, ele manteve o tom suave da voz como maneira de não alimentar a confusão: “Assuma os riscos da sua escolha e aproveite a travessia. O deserto é muito mais do que sol e areia”. Olhou-me nos olhos e concluiu de jeito enigmático antes de seguir para os seus afazeres: “Mais uma coisa, preste atenção aos demônios para não servir a eles. O melhor truque das sombras é nos iludir de que elas não existem em nós”.
Aquela conversa com o caravaneiro piorou ainda mais a confusão mental que eu sentia. Perdi a confiança nele, e a insegurança quanto ao encontro com o sábio dervixe se agigantou, tomando conta de todos os meus pensamentos. O acampamento foi recolhido e a caravana partiu. Eu seguia desconfortável sobre o camelo. O gingado do animal, a falta de brisa, o calor parecia mais intenso naquele dia. Tudo me incomodava. Senti fome, pois tinha apenas tomado uma xícara de café no desjejum. Depois fiquei com sede. Em razão das lições dos dias anteriores, eu sabia que tinha que racionar a água para não tornar a ter problemas. Comecei a lembrar das pessoas que me desaconselharam a fazer a viagem e fui tomado por uma horrível sensação de arrependimento de estar ali. Eu poderia estar em lugares que adorava, como no mosteiro, nas montanhas do Arizona, na oficina do Loureiro, na pequena vila do Himalaia ou mesmo viajando com as minhas filhas. No entanto, eu estava atravessando o deserto, sob severas condições, para vivenciar uma experiência que, agora, descobria improvável. A agonia me abateu e convidou a irritação para a ceia.
Foi quando o peregrino emparelhou o camelo dele ao meu. Ofereceu-me um chiclete. Disse que ajudava a manter a boca úmida. Aceitei e encontrei nele um amigo disposto a me ajudar. Não demorou muito, Saul começou a narrar como era solicitado para ministrar cursos e fazer palestras. Contou das suas incríveis experiências metafísicas, apenas permitida aos iniciados. Enquanto ouvia, eu me comparava a ele. No íntimo, senti vontade de algum dia ser requisitado daquela maneira.
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli passou por nós montada em seu ágil cavalo negro, olhou-me por instantes e prosseguiu.
Em seguida, Saul antecipou a conversa que teria com o dervixe. Tinha uma série de questões filosóficas para debater com o sábio. E mais, faria uma proposta irrecusável para juntos montarem um spa espiritual na cidade do peregrino. Diante de tudo, confessei o meu receio em não ser recebido pelo dervixe e de como esta possibilidade me incomodava. Ele disse que, na medida possível, intercederia ao meu favor. Acrescentou que eu deveria, da próxima vez, me preparar melhor antes de vir. Depois, voltou a falar sobre a precariedade da caravana, de como era ruim a relação entre o valor cobrado e as condições oferecidas. Falou de algumas maravilhas proporcionadas por outras caravanas. Tendas mais confortáveis e comidas mais requintadas eram apenas algumas das realidades que estavam distantes da nossa.
Ao final da tarde paramos para passar a noite. Logo após o acampamento ser montado, foi servida a refeição. Fui com o peregrino até a tenda para enchermos a nossa cuia. Era um guisado com carne seca de carneiro, grãos e legumes. Saul provou, torceu o nariz, me olhou como para lembrar do que ele tinha falado. Ensina a sabedoria que o acaso não existe, pois nesse instante o caravaneiro entrou para se servir. Enchi-me de coragem e o abordei para reclamar das condições da caravana. Ele me ouviu sem interromper. Quando terminei, ele falou com serenidade: “Ofereço o melhor que posso dentro dos limites das possibilidades que se apresentam e da capacidade que possuo. Acredite, nem um pouco a menos. No entanto, entendo que é um direito seu não estar satisfeito ou mesmo arrependido de estar aqui. O que de pior pode acontecer na caravana é a discórdia criar raízes e se alastrar”. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir com toda a calma: “Dou-lhe a chance de retornar daqui. Devolverei integralmente o dinheiro pago. Não quero que você se sinta prejudicado ou enganado. Amanhã um dos encarregados voltará à cidade de onde partimos. Se quiser, poderá ir com ele. Pense. Se for o caso, esteja pronto logo cedo”. E se retirou. Olhei para o lado em busca do apoio do peregrino. Ele tinha se afastado.
Fui em sua direção e percebi que ele me evitava. Insisti até estar com ele. Achei estranho o comportamento do homem. Mais ainda, quando perguntei se tinha ouvido a conversa, ele nada respondeu. Eu quis saber se ele voltaria comigo no dia seguinte. O peregrino sacudiu a cabeça em negativa e nada falou. Falei que eu estava em uma situação delicada com o caravaneiro. Saul, em um tom agressivo de voz, disse que não era responsável por minhas atitudes nem por minhas escolhas. Falou que eu deveria amadurecer. Contestei. Argumentei que eu tinha plena consciência da responsabilidade pelas minhas ações. Entretanto, as palavras eram a forma mais antiga de magia, pois têm o poder de espalhar as sombras ou semear a luz. Ele, como homem iluminado que se proclamava, deveria saber disso e entender que tipo de mago de fato era e a má influência que tinha causado. Saul me olhou com desdém e disse que logo que me viu tinha reparado que eu não tinha a menor condição de me encontrar com o dervixe. Contrariado, preferi me afastar para não criar uma confusão maior.
Fiquei sozinho, sentado em um canto distante, até um manto de estrelas cobrir o céu do deserto. Aos poucos fui me tranquilizando. Dei-me conta de como tinha sido tolo por embarcar nas sombras de Saul. Lembrei do bom homem que servia chá na caravana, que embora nunca tivesse frequentado uma escola, possuía uma sabedoria extraída da simplicidade e da humildade. Impulsionado pelos bons sentimentos, além de outras virtudes, como a delicadeza e a compaixão, ele se tornara uma das pessoas com quem o dervixe adorava conversar. Não tinha como negar a importância do conhecimento; no entanto, sem amor tudo se esgota nos ralos da existência. Passou um tempo que não sei precisar, quando, de repente, ouvi uma voz doce atrás de mim: “Mais do que sexo, poder e dinheiro, o medo move o mundo. Toda a vez que isso acontece, seguimos na direção oposta à luz, nos afastando do verdadeiro destino”. Era a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli.
Ela se sentou à minha frente. Contei lhe todo o ocorrido durante o dia. Ao final, me declarei traído pelo peregrino. A mulher não concordou: “Pare de culpar os outros pelo seu sofrimento. Isto o impede de avançar. Em verdade, você foi traído por suas vozes ao dar ouvido às próprias sombras. Uma das mais perigosas delas, o medo, se tornou seu conselheiro e alimentou a vaidade e o orgulho do peregrino. Isto fez com que a inveja também lhe fizesse companhia. Com mentores desse quilate você inevitavelmente teria problemas”. Sustentei que a responsabilidade pelas escolhas era minha, porém ele era responsável pelo alcance das suas palavras. A mulher concordou, em parte: “Sim, é verdade. No entanto, a magia das palavras somente germina onde encontra solo fértil, seja de sombra, seja de luz”. Fez uma pausa e concluiu: “A vaidade, o orgulho e a inveja são os demônios mais vulgares que existem, porém os mais influentes em nossas vidas. Todos nascem do medo”.
Eu quis saber se esses eram os demônios aos quais o caravaneiro havia se referido naquela manhã. Ela concordou com um movimento da cabeça. Perguntei se esse era o motivo de ela ter passado a cavalo me olhando enquanto eu conversava com o peregrino durante a marcha daquele dia. “Sim, percebi os demônios acompanhando a caravana”, ela respondeu simplesmente. Falei que o peregrino era quem movia esses demônios e só agora eu me dava conta disso. Ela discordou: “O peregrino é responsável apenas pelos demônios dele. Você, pelos seus. A permissão para que os demônios dele alimentassem os seus foi concedida por você”.
“As pessoas têm sobre nós apenas os poderes que concedemos a elas.”
Lamentei que nem sempre eu conseguia identificar a presença desses demônios em mim e também tinha certa dificuldade de entendê-los. Ela explicou: “A vaidade é a necessidade de se sentir admirado pelos outros; o orgulho surge quando precisamos nos sentir maiores que as demais pessoas. Ambos insistem em nos convencer de que são indispensáveis à felicidade. A inveja se faz presente quando teimamos em nos comparar ou em desejar a vida alheia, como se as possibilidades que se apresentam não são boas o suficiente para nós. No fundo, um desejo sombrio e inconfessável de estar no trono do mundo”. Olhou-me profundamente e disse: “Vaidade, orgulho e inveja são demônios filhos do medo. Medo de duvidar da própria força, medo de não acreditar no poder que o habita, medo de não conseguir viver o próprio sonho, medo de não enxergar a beleza do seu dom, medo de se sentir menor, pior ou abandonado. Medo de mergulhar nas profundezas de si mesmo para iluminar a escuridão. Paradoxalmente, é esta escuridão que alimenta o medo, em eterno ciclo de sofrimento e fuga. Fugimos para a vida do outro na vã tentativa de esquecer a nossa. Então, sofremos por incompletude”.
“Dentro de cada um de nós vivem anjos e demônios, alimentados pelos nossos sentimentos e pensamentos. Os bons e os ruins. O que fazer com cada um deles define, passo a passo, quem somos e qual direção seguimos. Creia, neste momento da existência, ainda precisamos de ambos, anjos e demônios, movidos por ideias e paixões de muitas vertentes, para aperfeiçoar as nossas escolhas e fortalecer, em definitivo, os laços com a luz”.
“Todos temos os mesmos demônios. Não negue nem reprima os seus. Envolva-os com amor e os ilumine, como um bom pai cuida do filho. Use a enorme força vital deles para trabalhar em favor dos seus anjos. Esta é a diferença”.
Falei que tinha que dar uma resposta ao caravaneiro logo pela manhã. Admiti que estava arrependido e já sabia a decisão que tomaria. Ela disse: “A humildade é a virtude primordial ao primeiro portal do Caminho. O portal da lucidez. Lucidez por começar a entender quem sou. Só então, me abro as infinitas possibilidades para tudo aquilo que posso me transformar, na alegre batalha para me tornar melhor do que fui ontem. A existência não trata da absurda competição com os outros, mas no esforço da superação sobre si mesmo. Essa estrada começa com a humildade. Em verdade, a humildade é o início do amor pela vida. As virtudes são os nossos anjos, pois protegem e libertam; a humildade é um dos anjos mais poderosos que existe”.
Sem pedir licença, se levantou e saiu. Fiquei acompanhando os seus passos, quando ela se virou e disse: “Não esqueça de agradecer aos seus demônios pela lição de hoje”. Fez uma pausa e finalizou: “Mas também não esqueça de educá-los”. Depois seguiu até o alto de uma duna. Iluminada pelas estrelas, a vi bailando, sozinha, em comunhão com o deserto.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O décimo dia da travessia – os demônios do deserto

Estávamos no décimo dia de viagem. Ainda não tinha amanhecido. Eu me revirava de um lado para o outro sem sono. Resolvi sair da barraca. O deserto estava iluminado pelas muitas estrelas do céu e de alguns poucos lampiões pendurados nas entradas das tendas. Uma brisa fria, que nos passar das horas desaparecia para dar lugar a um forte calor à medida que o dia avançasse, exigia que eu me cobrisse com uma manta. O silêncio era absoluto. Ocorreu-me que ainda não tinha ouvido ninguém na caravana falar dos demônios do deserto. Eu conhecia muitas histórias, mitos e lendas sobre esses espíritos e não tinha qualquer dúvida de que havia algo de verdade. Sentei-me na areia e fiquei envolvido em reflexões. Logo o céu começou a mudar de cor anunciando o novo reinado do sol. As tendas começaram a ficar barulhentas com o despertar do acampamento. Alegrei-me com a possibilidade de tomar um café quente logo pela manhã. A primeira pessoa que vi foi o caravaneiro. Ele estava pensativo, com o olhar perdido no deserto. Estranhei ele não estar com o falcão para o adestramento matinal. Sem dar importância a esse detalhe, me aproximei e perguntei pelos demônios do deserto. Eu queria saber se ele acreditava na existência deles. O caravaneiro me olhou rapidamente, depois se voltou para o deserto e disse: “Eles acompanham a caravana e estão misturados aos viajantes”.
Antes que eu iniciasse uma série de perguntas que me ocorreram, ele orientou: “Arrume logo a sua bagagem. Sairemos mais cedo do que de costume, pois temos que chegar ao poço antes do anoitecer. Precisamos abastecer. Não há tempo a perder”. Falei que antes tomaria uma caneca de café. Ele esclareceu: “Não haverá desjejum hoje. Partiremos assim que as tendas sejam recolhidas”. Aquilo me irritou. Alguns poucos minutos para um rápido café não fariam diferença até a chegada ao poço. Achei que faltavam planejamento e sensatez. Pensei em dizer isso a ele, mas quando me virei e o caravaneiro viu as minhas feições, se adiantou as minhas palavras e falou: “Reze”. Em seguida concluiu: “Que Deus o proteja”. E saiu.
Voltei para a tenda e arrumei as minhas coisas. Foi quando percebi que a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli me observava. Conversar com ela era uma das coisas mais interessantes da caravana. Tentei me aproximar, mas um homem intercedeu pela minha ajuda. Precisava de auxílio para colocar o seu pesado alforje sobre o camelo. Não tinha como negar e aquele precioso minuto foi suficiente para eu não mais a encontrar quando tornei a procurá-la. Voltei a me irritar ainda tão cedo. Aquele não estava sendo um bom dia.
Logo a caravana iniciou a sua marcha. Domei a minha ira à força, como se faz com um animal selvagem, e tive os pensamentos desviados para memórias, antigas e recentes, de situações mal resolvidas que ainda me traziam desconforto. Enquanto atravessávamos dunas após dunas, eu lembrava de como poderia ter me comportado diferente naqueles momentos do passado que me deixaram mágoas. Achei que algumas pessoas mereceriam respostas mais duras e outras eu jurei nunca mais procurar ou dirigir a palavra. Olhei no relógio e o tempo se arrastava bem mais lento do que eu desejava.
Foi quando tornei a perceber que, de longe, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli me observava. Porém ela estava a uma distância que não permitia a minha aproximação. Nesse momento, um homem que seguia um pouco à frente, acendeu um charuto. Era comum algumas pessoas fumarem durante a marcha, mas aquele cheiro estava insuportável. Como ninguém nada falou, adiantei o meu camelo para reclamar com ele. Logo se iniciou uma ríspida discussão acalmada pelos viajantes que estavam próximos. Um dos encarregados da caravana me recolocou em outro lugar, distante da fumaça do charuto. Fiquei indignado com a permissividade de todos em relação ao fumo. Sem dúvida, um absurdo, mormente em um grupo controlado com regras de comportamento tão rigorosas como uma caravana. Decidido a não deixar que a irritação me dominasse, desviei o pensamento para momentos agradáveis da minha vida. Situações que me levaram a outras, de pesadas memórias. Dei-me conta de como as pessoas são difíceis e como é raro encontrar alguém que tenha empatia pelos outros, que sintam os sentimentos do mundo e disponibilize o próprio coração com boa vontade para pacificar as relações. Situações que eu pensei esquecidas tornaram a se fazer presentes em minha memória, trazendo a sensação de que eu não tinha sido tão feliz quanto imaginava. Tive certeza o mundo não era um bom lugar para se viver quando chegou a notícia de que não pararíamos, como também era de costume, para um breve almoço. A caravana seguiria initerruptamente até o poço. O calor estava insuportável e o sol mais quente do que nos dias anteriores. A bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, de longe, continuava a me observar.
Custei a acreditar quando chegamos ao poço ainda no meio da tarde, restando algumas boas horas até o anoitecer. Veio a ordem para montar o acampamento e que todos se abastecessem de água. O jantar seria servido em seguida. Decidi esperar que a enorme fila que se formou no poço terminasse. Não havia pressa, pois só partiríamos no dia seguinte. Vi que o sábio homem do chá colocava algumas ervas em infusão e me aproximei. Comentei que não entendia a pressa que nos deixou sem desjejum e almoço. Ainda era cedo e daria tempo para tudo. O homem sorriu com doçura e tentou explicar: “As reservas de água da caravana estavam esgotadas e não podíamos correr o risco que algum imprevisto impedisse que chegássemos aqui antes de anoitecer”. Falei que se a caravana fosse uma empresa e o caravaneiro o seu diretor, com certeza seria demitido por um planejamento tão equivocado. O sábio do chá disse com doçura: “Por isso ele é um homem da areia e não um executivo do asfalto. Cada qual com a sua beleza e sabedoria”. Agradeci o chá e me afastei pensando como as pessoas no deserto eram resignadas em excesso. Eu não tinha ouvido uma única reclamação por causa daquela absurda programação. Uma paciência tão estendida que beirava a permissividade. Isto me incomodava.
Enquanto aguardava o jantar, vi que o caravaneiro se afastava, com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo, para iniciar o treinamento vespertino da ave. De longe vi o falcão planar no céu por longos segundos com as asas abertas até as recolher para um mergulho profundo e retornar com uma serpente em suas garras. A cena me fascinou e decidi me aproximar, quando fui impedido por um dos encarregados, sob a alegação que o caravaneiro tinha pedido para ficar só. Falei que estranhava a ordem, pois outras vezes tinha conversado com ele enquanto adestrava o falcão. Acrescentei que estava cansado de ordens sem qualquer sentido e me desvencilhei para ir de encontro ao caravaneiro. O encarregado tornou a me segurar e quando tentei me soltar, a minha roupa rasgou. Reagi e nos embolamos no chão. Rapidamente outras pessoas chegaram para apartar a briga, evitando maiores consequências. O caravaneiro que assistiu a tudo, mandou que fossemos falar com ele. Demos as nossas explicações. Dispensado o encarregado, que apenas cumpria uma ordem, o caravaneiro se virou para mim e disse: “Você não queria conhecer os demônios do deserto? Eles te acompanharam por todo o dia. Espero que consiga se entender com eles”. Em seguida determinou que eu estava proibido de jantar e deveria ficar o resto do dia afastado do grupo. Irritado, perguntei se ele me puniria com a fome. Ele esclareceu: “Não, a sua pena será a reflexão. Mais do que uma punição, que a pena sirva de aprendizado ou não servirá para nada”.
Sozinho, sentado na areia, vi o céu mudar de cor enquanto a minha mente se parecia com uma tempestade do deserto. Revolta e ressentimento me devoravam como predadores a uma presa. Foi isto que falei à bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli quando ela me surpreendeu ao se sentar ao meu lado. Ela ouviu todos os meus lamentos com paciência e, ao final, falei que o caravaneiro dissera que os demônios tinham me feito companhia por todo o dia. Confessei que tinha achado sem sentido o comentário dele, pois o fato de eu ter opinião sobre qualquer assunto era um direito inalienável. A mulher balançou a cabeça em concordância, mas teceu considerações que iam além do aspecto mundano: “Nossas opiniões são sagradas por revelarem, muito ou pouco, da verdade que nos habita naquele momento. As escolhas, reflexo prático das ideias, se nutrem das nossas emoções, poço onde os demônios bebem se dermos a eles aquilo que os alimenta. Então, o sagrado se afasta, a espera de que possamos entender e lidar com a trindade que define quem somos: sentimentos, ideias e escolhas. Coração, mente e mãos; sentir, pensar e fazer. Eis a santíssima trindade do ser”.
Eu quis saber quais eram os alimentos dos demônios. A mulher respondeu de imediato: “As sombras. Muito mais do que em grandes desastres, os demônios se fazem presentes nas situações banais do cotidiano. O orgulho, a vaidade, a inveja, o ciúme, a ganância, o medo, o egoísmo, a impaciência, a vitimização são as portas de entrada mais comuns. Formam um enorme banquete para as trevas. Por descuido, no desencontro de quem somos, nos tornamos justamente aquilo que tememos”.
“Isso nos leva a uma óbvia conclusão: ninguém nos prejudica mais do que cada um a si mesmo”.
Pedi para ela explicar melhor, mas a mulher se levantou, disse para eu continuar em reflexão. Se pudesse, após o jantar, voltaria. A vi se afastar com seu jeito gracioso de andar até desparecer em uma das tendas. Envolto comigo mesmo, achei que aquelas palavras faziam sentido e me permiti usá-las como guia para reflexão. Procurei acalmar os sentimentos para que não atrapalhassem a fluidez dos pensamentos. Passado algum tempo, me ocorreu que, se eu agigantava os demônios com as minhas emoções, ideias e atitudes, também seria capaz de enfraquecê-los da mesma forma. Tudo se resumia em ser um poço de sombras ou de luz. Isto definiria quem, se anjos ou demônios, se aproximaria para andar comigo. Sim, os demônios do deserto não apenas se alimentavam comigo, mas, pior, percebi que muitos eram criações minhas. Sim, alguns nasciam das minhas emoções, ideias e atitudes.
Em contrapartida, pensei, como criador eu também tinha o poder de criar anjos. Melhor ainda se eu criasse os anjos a partir da transmutação dos próprios demônios. Afinal, “nada se perde, tudo se transforma”, ensinou certa vez um alquimista francês. Para tanto, era preciso luz. Onde buscar luz? Ora, só havia um lugar, na mesma fonte das sombras, na trindade pessoal, em mim mesmo. Cada ser é a perfeita fonte de luz do universo. Luz ou trevas, anjos ou demônios, são escolhas pessoais. Naquele instante, eu percebi que precisava refazer as minhas criações. Era necessário também trocar quem me acompanhava e aconselhava. Entendi que por este motivo, a trindade pessoal é o perfeito escudo contra o mal. Indo mais fundo, cheguei à conclusão de que, se ela, a trindade pessoal, me liberta das prisões impostas pelas sombras, ela se torna também as minhas asas. Ali, na trindade, está todo o poder e a magia do mundo. Uma agradável sensação me envolveu. Satisfeito, sorri comigo mesmo.
Passou um tempo que não sei precisar; todo o acampamento dormia, enquanto eu continuava encantado com as minhas descobertas. A bela mulher com olhos de lápis-lazúli retornou. Contei sobre o conhecimento que tinha se revelado para mim e a agradeci por suas palavras. Ela arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Nada que não estivesse pronto para florescer. As sombras não são de todo ruim como se costuma pensar. Não raro se tornam a força necessária para romper a casca da semente onde a luz aguarda para germinar”.
Falei que estava envergonhado pela minha postura durante aquele dia. A mulher me corrigiu em um tom entre a gentileza e a firmeza: “Não sinta vergonha para não ficar paralisado. Ninguém chega pronto para atravessar o deserto. Seja grato a tudo e a todos pelo aprendizado. No entanto, o mais importante é o compromisso com a transformação do próprio ser e toda a mudança que isto irá gerar ao seu redor”. Olhou-me profundamente e concluiu: “É disso que os demônios mais temem”.
Sem se despedir, se levantou e andou até o alto de uma duna. Então, sozinha, bailou para as estrelas que iluminam o céu do deserto.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O nono dia da travessia – quando a alma se olha no espelho

Entardecia no nono dia da travessia. Tinha sido um dia monótono, mormente se comparado aos anteriores. O caravaneiro dera ordens para montarmos o acampamento um pouco antes da hora que em geral interrompíamos a marcha. Aproveitei para ir ao barbeiro. Pode parecer estranho, mas a caravana tinha um barbeiro. Um dos encarregados levava em sua bagagem uma pequena pia e um espelho, além dos apetrechos típicos para a barbearia, como navalhas, tesouras, óleos e cremes. Eu uso barba há muitos anos e tenho o costume apará-la uma vez por semana. Como não cuidava da barba desde alguns dias antes da partida, somado às condições difíceis impostas pelo deserto, me senti abandonado por mim mesmo quando me olhei no pequeno espelho. O barbeiro era um homem simpático e falante. Como era veterano de muitas travessias, o seu ofício ficava enfeitado pelas muitas histórias que contava na medida que aparava barbas e cortava cabelos. Quando me sentei na cadeira e comentei que tomara um susto ao me ver no espelho devido aos maus-tratos que o deserto me impunha, ele me corrigiu para dizer que o deserto era rigoroso, porém cada um definia os cuidados que tinha consigo mesmo. Em seguida, narrou uma engraçada história, que ele afirmava verdadeira, acontecida há muitas travessias atrás, de um homem que teve um sério surto ao se olhar no espelho: ele jurou que a imagem refletida não correspondia a sua pessoa.
Atribuí o ocorrido ao desleixo desse homem consigo mesmo, somado a algum tipo de problema psicótico agravado pelas difíceis condições da travessia. O barbeiro deu de ombros e falou que o deserto sempre mudava a vida das pessoas que o atravessavam.  Acrescentou que já havia visto muitas coisas estranhas durante as travessias e tinha desistido de entendê-las. Serviço encerrado, paguei o preço cobrado e me dei por satisfeito. Como o jantar estava servido, fui comer e esqueci da história contada pelo barbeiro. Tive a atenção desviada para um rico mercador de tapetes, a quem eu já tinha notado nos dias anteriores, que viajava acompanhado por um séquito de empregados, sempre à disposição para suas menores vontades. A sua tenda era luxuosa, forrada por finos tapetes e almofadas de seda. De longe, ele reparou que eu observava toda a movimentação à sua volta e fez um sinal para eu me aproximar. Hesitei e ele enviou um dos empregados para me convidar à sua tenda. Quando entrei, de perto, tudo me pareceu ainda mais luxuoso. Talheres de prata, copos de cristal e um músico que entoava uma doce melodia com um instrumento de corda que eu nunca tinha visto. Foi impossível não me impressionar. Ele disse para eu me sentir à vontade e me servir do que quisesse. Logo contou sobre os seus negócios e falou do palácio no qual morava em Marraquexe. Em seguida, um dos seus empregados entrou com todos os apetrechos para aparar a barba do mercador. O mercador disse para continuarmos a conversa enquanto o serviço era feito. Tudo transcorria bem até que perguntei se o caravaneiro costumava frequentar aquela tenda. As suas feições se fecharam. O tom de voz ficou visivelmente alterado quando ele disse que o caravaneiro nunca entrara ali. O clima piorou quando após a barba feita, cortada rente à pele por uma afiada navalha, e o rosto banhado em óleo, elogiei o resultado. Sugeri que ele mesmo constatasse diante de um espelho. De modo grosseiro, bem diferente do afável anfitrião de pouco antes, o mercador disse que nunca se olhava no espelho durante as travessias no deserto. Em seguida avisou que estava na hora de ele dormir. Sem entender a mudança repentina de humor, fui conduzido por um dos empregados para fora da tenda.
Atônito, fui para um lugar afastado para tentar entender o que tinha acontecido, quando vi o caravaneiro cuidando do seu falcão após o período vespertino de adestramento. Aproximei-me e fiz algumas perguntas sobre a ave, menos por curiosidade e mais por necessidade de conversar. Não demorou, contei sobre o que tinha acontecido há pouco na tenda. O caravaneiro me ouviu com paciência e, ao final, não traçou qualquer comentário. Perguntei por qual motivo ele nunca tinha entrado na tenda do rico mercador. A resposta foi simples: “Nunca fui convidado.” Embora tenha me pego de surpresa, não tive dúvida da sinceridade do caravaneiro. Ele arqueou os lábios em leve sorriso. Havia compaixão e nenhum ressentimento. O caravaneiro pediu licença para ir jantar, pois, logo a comida seria recolhida. Sozinho, me sentei na areia e fiquei tentando entender os estranhos fatos enquanto observava as primeiras estrelas surgirem no céu.
Foi quando a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se sentou ao meu lado. Ofereceu-me um punhado de nozes. Ficamos sem dizer palavra por algum tempo, até que resolvi lhe contar sobre o acontecido na tenda do rico mercador e a posterior conversa com o caravaneiro. Então, aconteceu a maior das surpresas quando ela segredou: “Eles são irmãos”. Acho que em razão das minhas feições não terem escondido a enorme surpresa que senti, ela decidiu me contar um pouco mais: “Eles ficaram órfãos ainda garotos. Cresceram cuidando um do outro. Iniciaram no comércio de tapetes ainda adolescentes quando uma senhora, que estava de mudança, lhes deu todos os tapetes da sua casa, pois não os podia levar. Venderam tudo. Com o dinheiro passaram a correr a cidade em busca de outros tapetes usados para revenda. Até que ouviram falar dos tapeceiros do oásis, que apesar da excelente qualidade, tinham dificuldade em encontrar compradores por causa da travessia do deserto. Com a intrepidez típica da juventude, começaram a viajar para negociar com os esses maravilhosos tecelões. Naquela época ninguém se aventurava a isso. Na medida que enriqueciam, as viagens aumentavam e o negócio se consolidava. Ocorre que o caravaneiro começou a se encantar mais pelos mistérios do deserto do que pelos lucros do comércio. Aos poucos, sem se dar conta, a travessia não era apenas uma parte do seu ofício, mas virou uma arte. Apesar disto, tudo parecia ir bem até o dia que, durante uma das travessias, ao terminar de aparar a barba do caravaneiro – até então um mercador de tapetes – o barbeiro o colocou diante do pequeno espelho para avaliar o serviço realizado. Dizem que ele não reconheceu a imagem que o refletia.”
“Ali foi o momento da virada na existência do caravaneiro. Abdicou do negócio de tapetes, deixando tudo para o irmão. Com o dinheiro que juntou durante aquele período decidiu montar a própria caravana. Claro que no início não foi fácil, mas o amor pelo seu sonho e o aperfeiçoamento do seu dom o fortaleceram para superar as dificuldades e prosseguir.” Perguntei se o sonho do mercador era também virar caravaneiro como o irmão. A mulher explicou: “Provavelmente não, cada qual é único e nisto reside toda a beleza do ser. Todavia, o mercador precisa entender duas coisas básicas. O fato de o caravaneiro não mais desejar para si a vida de mercador de tapetes não deprecia nem é uma crítica ao irmão, que continua a exercer esse ofício. Cada um com o seu dom e sonho. Outra coisa é a questão do dinheiro que me parece presente de maneira muito óbvia. O dinheiro é uma ferramenta útil e bem-vinda, mas atravessar um deserto apenas para ganhar e acumular fortuna como forma de poder e dominação, orgulho e vaidade, causará em algum momento um inevitável vazio impossível de preencher com moedas.”
“Um dia você acaba por não reconhecer o seu rosto no espelho por se tornar estranho a si mesmo. Uns decidem enfrentar a batalha pessoal; outros escolhem fugir.” Abriu os braços como quem lamenta e concluiu: “Podemos fugir de um lugar, nunca da verdade.”
Como não reconheceu o próprio rosto? Interrompi para pedir que explicasse melhor. A mulher teve boa vontade: “Olhar no espelho e ver o nariz, as bochechas e as orelhas, todos conseguem. No entanto, olhar no espelho e encontrar a sua alma refletida é para poucos. Algumas vezes pode acontecer, em momentos de sensibilidade e percepção, de você encontrar a alma abandonada, esquecida de si mesmo. Todo o brilho exterior não ilumina a escuridão causada pela luz interna apagada” Fez uma pausa e prosseguiu: “É um encontro doloroso, mas necessário. É preciso humildade, sinceridade, amor e coragem, além de outras virtudes, para o imprescindível resgate.” Observou-me profundamente e disse: “Em algum momento da existência todos precisam enxergar a alma diante do espelho. Depois, trazer a alma de volta à vida. Negar esta busca é abdicar da essência da vida. Ninguém pode fazer isto por ninguém. Encontrar a própria alma é a arte maior; libertá-la das prisões da existência, a grande obra.”
Falei que era uma belíssima história, com bastante material para reflexão. Contudo, não entendia o fato de os irmãos terem brigado. A mulher explicou: “Eles não brigaram. Apenas o mercador se recusa a conviver com o caravaneiro. Este nada tem contra aquele.” Eu disse que agora compreendia ainda menos. Ela não desistiu de me fazer entender: “É porque eles são muito parecidos.” Sacudi a cabeça como quem diz que não fazia sentido. A bela mulher foi pedagógica: “Negamos a beleza do que não conseguimos aceitar. Fugimos da verdade quando ela nos incomoda. Estar ao lado de alguém, que mesmo sem dizer palavra, nos mostra toda uma vida que poderia ter sido, mas não foi, entristece. Então, nos refugiamos na sensação de segurança e poder com as ilusões que o entreposto das sombras, sempre nas margens da vida, seduz o ego.” Deu de ombros e comentou: “Nem todos estão prontos para iniciar a travessia através do deserto de si mesmo para chegar ao oásis da alma.”
Interrompi para dizer que algo não fazia sentido. Se a opção de vida do caravaneiro era tão dolorosa para o mercador, por qual motivo ele teimava em fazer a travessia com a caravana do irmão? Ele poderia ingressar em outra caravana. A mulher me devolveu a pergunta: “Por que brigamos tanto com as pessoas que amamos? Por que insistimos em procurar por pessoas que opõe sérios obstáculos em nossa existência? Já se deu conta disto?” Fez uma pausa e como eu nada falei, ela prosseguiu: “Pelo simples fato de admirarmos essas pessoas, ainda que apenas no inconsciente. Sabemos que, no fundo, estas são as pessoas que podem nos ensinar e fortalecer. Existe nelas uma luz que nos chama, que nos indica as dificuldades a serem vencidas. Nelas ecoa a voz quase inaudível da nossa alma, incansável em mostrar uma porta de saída para o ego desorientado e fragmentado por diversas dores. É a chance de escapar de um lugar escuro, onde não se percebe a ausência de luz por causa do inúmeros enfeites brilhosos pendurados ao redor do tempo para nos distrair. Como a claridade costuma arrancar a máscara de quem está escondido na escuridão, reclamamos, depreciamos, maldizemos.”
“No entanto, nada revela mais quem somos do que os nossos sofrimentos.”
Interrompi mais uma vez para questionar se os sofrimentos são indispensáveis à evolução. A mulher tornou a sacudir a cabeça: “Claro que não. Os sofrimentos não são necessários. Pelo contrário. É justamente isto que o deserto nos ensina. Sofremos apenas quando nos movimentamos em sentido contrário à luz”. Olhou-me nos olhos e pareceu ler os meus pensamentos: “Sim, por mais absurdo que possa parecer, sofremos tão somente em razão de nossas escolhas. O deserto é apenas o deserto. A direção para onde se move e o jeito de pisar na areia definem as dunas e as dificuldades da travessia.”
“Contudo, é nesse ponto que os sofrimentos se mostram importantes. Eles formam o mapa do resgate, a trilha da transformação. São as pegadas de superação que contam a história de todos nós. Narram a busca da vida, da luz, da alma, de si mesmo.”
“Os sofrimentos têm o valor de mostrar quem ainda não somos, passo iniciático para entender quem podemos ser. É preciso dissecar o sofrimento a partir do fato que o provocou até compreender a desnecessidade da sua presença. Na origem do sofrimento está também o fim do sofrimento. Lá é possível encontrar a transformação indispensável, a gênese das virtudes, o portal do Caminho. Nele está oculta a chave da libertação, a receita da cura. Tudo ao alcance de qualquer indivíduo na exata medida do aperfeiçoamento das escolhas pessoais. Porém é preciso entendimento. Entendimento, por sua vez, exige amor, para que, ao invés de culpa e estagnação, vigore a alegria pela descoberta, além de ânimo pelo prosseguimento da jornada.”
Ficamos algum tempo em silêncio até que a bela mulher pediu licença e se despediu. Disse que tinha alguns afazeres. Acrescentou que eu precisava de quietude e solidão. Aos poucos aquelas ideias foram encontrando o devido lugar dentro de mim. Entendi a recusa do rico mercador em olhar no espelho para não correr o risco de encontrar a própria alma em abandono, como uma mendiga da vida. Como ele não estava disposto a mudar, sofria. Paradoxalmente, a fuga do sofrimento agigantava a sua dor, girando a roda dos conflitos e dando poder as sombras pessoais. A variação de humor que eu presenciei na sua tenda acontecia quando algo o lembrava de quem ele ainda não era. A irritação e a sisudez são sintomas típicos de pessoas que precisam esconder a fragilidade por estarem assombradas pelo orgulho e pela vaidade. De outro lado, o caravaneiro era a imagem que revelava as escolhas possíveis, simples, imprescindíveis, porém, nem sempre dispostas de serem enfrentadas. Negar o irmão era a reação inconsciente de ignorar a própria alma, o dom e os sonhos. Recusar o espelho é abdicar da verdade. É negar a magia oferecida pela travessia do deserto. Ou da vida. É onde reside o poder da transformação e a força da evolução.
Naquele momento, tive a nítida sensação que a mulher com olhos da cor de lápis-lazúli olhava para mim. Mas eram apenas duas estrelas azuis que brilhavam no céu do deserto.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O oitavo dia da travessia – as tempestades de areia e da alma

A caravana iniciava o seu oitavo dia de viagem. O acampamento despertava. Afastei-me para uma ligeira meditação quando vi o caravaneiro, distante de todos, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Distrai-me a espera do voo da ave que costumava caçar no início e ao final do dia. Estranhei o falcão se recusar a voar. Ao perceber o caravaneiro retornar ao acampamento em passos apressados, entendi que algo estava errado. Embora não tenha ouvido, vi quando ele deu algumas ordens para os encarregados. Logo chegou a notícia de que uma tempestade de areia se aproximava. Fomos orientados a nos arrumar para partir o mais rápido do possível em busca de um lugar onde pudéssemos enfrentar a tempestade com um pouco mais de segurança. Eu tinha ouvido histórias de caravanas inteiras que sucumbiram diante de violentas tempestades de areia, equivalente às avalanches para os montanhistas. Em poucos minutos todos já estavam montados em seus camelos e cavalos, em jejum, seguindo adiante. Marchávamos em absoluto silêncio. Todos os olhos estavam angustiados em patrulha no horizonte à procura de qualquer sinal. O céu, com o natural azul intenso do deserto, me parecia igual ao dos dias anteriores. A temperatura começava a aumentar na medida que o sol escalava a abóbada. Nada me pareceu diferente, salvo o medo que amplificava a estranha quietude da marcha naquele dia. Notei que o caravaneiro nos conduziu para um espaço aberto, longe das dunas, que se movem ao sabor dos ventos e poderiam nos soterrar durante a tempestade. Até que paramos para um breve descanso. O caravaneiro se afastou e sentou sobre as pernas em posição de prece. Ao sentir a minha aproximação, ele abriu os olhos e me encarou. Fiz sinal perguntando se podia chegar mais perto e ele autorizou com um aceno de cabeça. Indaguei se podíamos rezar juntos. Com o queixo ele indicou um lugar para eu sentar ao seu lado. Confessei que estava com medo e quis saber se ele também sentia. O caravaneiro respondeu com serenidade: “Todos sentem medo na iminência de um mal. Peço por luz e proteção. A minha prece tem tão e somente duas palavras.”
Luz e proteção, simples assim? Eu quis saber a razão de uma prece tão singela. De olhos fechados, ele explicou: “Deus, independente da maneira como o concebemos, habita em de cada um de nós. A alma é o templo do sagrado, o único lugar onde o encontro é possível. Não é o tamanho da oração que abrirá essa porta, mas a pureza dos sentimentos aliada ao entendimento de si mesmo, que em resumo, é o código do Caminho. Diante dos perigos da existência peço proteção contra os males com os quais ainda não consigo lutar, e luz para clarear as minhas escolhas frente àqueles que já posso enfrentar. Os bons espíritos do deserto estarão sempre dispostos ao auxílio, porém jamais farão a parte que me cabe fazer, caso em que estariam atrapalhando o meu aprimoramento pessoal. Apesar dos enormes riscos de uma tempestade de areia, a tempestade da alma é infinitamente mais arrasadora.”
Também fechei os olhos e não dissemos palavra por um tempo que não sei precisar. Deixei que o silêncio me conduzisse em viagem para dentro de mim, como uma visita guiada através dos jardins das minhas memórias, ideias e emoções. Serenei as agitadas, me nutri com as sutis. Uma agradável sensação de leveza aos poucos me envolveu, como quando, ainda criança, meus pais me levavam para passear no parque. Até que me deparei com um antigo conhecido, um velho inimigo: o medo.
Imediatamente, o que era bem-estar virou angústia. O medo sempre fora cruel e uma das principais causas dos meus sofrimentos. O medo me acenava com a derrota em diversos aspectos da existência. Desastres, enfermidades, desemprego, abandono e fracasso eram alguns dos raios da roda que girava desde sempre dentro de mim.
De outro lado, pensei, se o medo estava em mim, ele era criatura de minha autoria. Logo, passível de outro significado. Eu tinha que parar de me assustar, de me encolher e de fugir do medo. Embora fosse um personagem, o medo crescera pelos séculos e ganhara autonomia. Fingir que ele não existia ou negar a sua presença apenas o agigantava. Era preciso, em um primeiro momento, enfrentá-lo com sabedoria. A antítese do medo é a coragem. Ocorreu-me que para haver a coragem é preciso antes existir o medo; sem este não haverá aquela. O medo é a lagarta; a borboleta, a coragem. Isto, em seguida, me permitiu olhar e abraçar o medo com amor. Sim, o medo se alimenta da ausência do amor primordial, o amor por si e pela vida; portanto, eu poderia, através do amor, reinventar o medo como personagem, dar-lhe outro contexto e atuação em minha história e, assim, inverter as suas consequências funestas. Matar ou sufocar o medo seria um equívoco. Em um terceiro ato mostrei ao medo – ou, em essência, a mim mesmo – as possibilidades infinitas da luz. Eu disse ao medo que aceitaria os seus avisos face aos perigos iminentes do mundo, mas que isto jamais me paralisaria. Ao contrário, apenas serviria para me deixar atento e melhor preparado a cada dia. O medo não mais teria força para me esconder da vida nem me furtaria a alegria das manhãs. A partir daquele instante ele se tornaria um bom conselheiro cuja função seria me lembrar de aprimorar os meus dons ao invés de abandoná-los; de compartilhar com o mundo os meus melhores frutos ao invés de guardá-los comigo; e, acima de todas as coisas, de nunca me deixar desistir de seguir adiante. O medo me recordaria, todos os dias, que só fica triste quem abdica dos sonhos. Naquele instante me tornei um hábil criador de mim mesmo, capaz de transmutar um perigoso inimigo ancestral em um valioso aliado contemporâneo.
A agradável sensação de leveza voltou e, desta vez, trouxe consigo uma força estranha. Quando abri os olhos percebi que o caravaneiro me olhava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso como se soubesse aonde eu tinha ido e com quem eu havia me encontrado. Antes que eu pudesse traçar algum comentário, com o queixo, ele apontou o horizonte. Densas e escuras nuvens se avizinhavam. Ao contrário de antes, fui tomado por um incomensurável poder numa mistura de virtudes. Entendi que todas as vezes que houver coragem para enfrentar os problemas que se apresentam, amor para aprender com eles, paciência para aceitar o momento, sabedoria para superar a situação e fé para movimentar no sentido da luz o sagrado que me mora em mim, nunca faltará proteção, nenhum mal poderá me alcançar.
Sim, luz e proteção; tão e somente. Sorri de volta para o caravaneiro pela cumplicidade na revelação de parte da arte que compõe a plenitude; que revela a verdade e perfaz o todo. Sem dizer palavra, corremos ao encontro da caravana para ajudar a quem pudéssemos, mormente os desesperados.
O caravaneiro gritou ordens para que todos se reunissem como a um só corpo. “Todos somos um,” orientavam os encarregados da caravana, pedindo que as pessoas, de joelhos, se unissem em um grande abraço coletivo. Uma comum-unidade. Era a melhor maneira de enfrentar a tempestade. Todas as tempestades. As nuvens se aproximavam rapidamente e fomos aconselhados a cobrir o rosto por causa da violência da areia lançada pelo vento. Foi quando avistei uma anciã separada do grupo, sentada no chão, a uma distância de uns 100 metros de onde estávamos. Ao tentar me desvencilhar, um mercador que estava ao meu lado, ao perceber a minha intenção, disse que seria inútil, pois ela tinha dificuldade de locomoção. A tempestade me alcançaria em terreno aberto e morreríamos, a anciã e eu. Acrescentou para eu não “bancar o herói”, que talvez já fosse a hora dela e o destino tivesse que se cumprir, mas que o destino dela não estava atrelado ao meu. Em frações de segundo ponderei as razões do homem e não tive dúvida de que ele falava orientado pelo medo, porém, o medo dominado pelas sombras. O meu medo, como bom conselheiro, me dizia que não se tratava de uma questão de heroísmo, mas apesar do perigo, não deveria desperdiçar a oportunidade de exercitar o amor que eu sentia por aquela mulher desamparada. Tornei a tentar a me desvencilhar, mas ele voltou a me segurar. Olhei-o com sincera compaixão. Foi suficiente para ele afrouxar a sua mão do meu braço. Corri em direção à anciã. A ventania me desequilibrava e roguei aos bons espíritos do deserto que não me deixassem cair. Quando eu a abracei recebi um olhar de gratidão tão profundo que eu não saberia traduzir em palavras. Embora a tempestade não arrefecesse nem um pouco, meu coração alimentado pelo amor daquela senhora pareceu serenar o tempo dentro de mim. Percebi que ela também estava em paz e se encantava com o meu amor. Falei para ela que tínhamos que correr para nos juntar ao grupo antes que a tempestade aumentasse. Ela confessou que tinha dificuldade para andar. Implorou com honestidade que eu retornasse e me salvasse. Olhou-me nos olhos e disse para eu ir tranquilo, que ela e Deus eram ótimos amigos. Acrescentou que não ficaria desamparada e me presenteou com um luminoso sorriso.
Eu estava decidido a não abandonar a anciã. Ali o tempo era veloz e a tempestade não mais permitiu que nos juntássemos ao restante da caravana. Foi quando percebi que, junto ao grupo, o caravaneiro me olhava. Ele fez sinal para eu olhar atrás de mim. Vi que três camelos estavam deitados e agrupados, por instinto de sobrevivência, a uma pequena distância de onde eu estava. Tornei a olhar para o caravaneiro e ele balançou a cabeça dizendo que sim, era isto mesmo que tinha pensado. Sem mais hesitar, levantei a anciã em meus braços, corri para nos misturar aos animais e tentar resistir a intempérie. Deitados entre os camelos, enfrentamos o terrível clímax da tempestade.
Desmaiei sem me dar conta. Despertei sob dois olhos da cor de lápis-lazúli. Uma das mãos da bela mulher apoiavam a minha cabeça, enquanto a outra oferecia a água de um cantil. Alguns encarregados da caravana ajudaram a tirar a camada de areia que me cobria. A anciã, um pouco afastada, estava bem e era cuidada por outras pessoas. Ela acenou para mim e sorriu em agradecimento. Sentei-me na areia e quando ficamos a sós, contei para a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tudo o que acontecera desde cedo. Falei que devia agradecimentos ao caravaneiro pela lição. Ela comentou: “Figos não brotam em tamareiras.” Pedi para ela explicar melhor. A mulher esclareceu: “O entendimento só floresceu porque a semente já estava pronta para germinar. Caso contrário, de nada adiantaria as mais sábias palavras.”
Confessei que naquela noite eu dormiria um homem bem diferente daquele que acordou pela manhã. Falei que a maneira como eu tratava as minhas emoções faria delas inimigas ou aliadas. Este era um grande poder e era meu. A mulher balançou a cabeça em concordância e disse: “Todos os dias temos oportunidades para transformar chumbo em ouro, prisões em asas, de curar as feridas. Esta é a transmutação alquímica pura e simples; profunda e infinita. No entanto, a desperdiçamos por manter fechada as cortinas que encobrem a verdade. Nos mantemos na tempestade por negar a abrir a porta que nos leva à alma.”
Nesse instante veio a ordem para todos retornarem às suas montarias. A caravana seguiria o seu curso. Inexoravelmente. Levantei-me, sacudi um pouco de areia que ainda tinha em minha roupa e, quando olhei para o lado, não teve como deixar de dar uma gostosa risada pela previsível e, ao mesmo tempo, inusitada cena recorrente. A bela mulher com os olhos de cor de lápis-lazúli tinha se desmanchado no ar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O sétimo dia da travessia – a temperança e o poder da alma

Estávamos no sétimo dia da travessia. A caravana fez um pequeno desvio em sua rota para se abastecer de água em um poço construído e mantido por uma pequena comunidade de tuaregues que, embora fossem de natureza nômade, tinham se estabelecido naquele local há algum tempo. Eram pessoas amistosas que se dedicavam a atender aos viajantes. Além da água potável extraída de um leito subterrâneo do deserto, ofereciam diversos víveres e negociavam camelos. As mulheres do grupo eram conhecidas pela tecelagem colorida de suas roupas e pelo delicioso doce de tâmaras que vendiam. Depois de encher o meu cantil, provei a famosa iguaria e entendi a razão de a chamarem de “o mel do deserto”. Tive que fechar os olhos tamanho foi o prazer. Como não sabia quando teria uma nova oportunidade em comer aquela maravilha, adquiri uma grande quantidade, suficiente para muitos dias e acondicionei no alforje do meu camelo. Não tardou, a caravana seguiu o seu curso. Naquele dia, fui me deliciando com os doces, um após outro, até o último, em incessante volúpia. Na medida que comia os doces, eu sentia sede, me obrigando a beber uma quantidade de água bem maior do que o normal. No final da tarde, quando a caravana tornou a parar para acampar e passar a noite, eu estava enjoado e com o cantil vazio. Enfastiado, rejeitei a refeição oferecida e me afastei em razão do mal-estar que sentia. Procurei o encarregado pela provisão da caravana e solicitei água para o meu cantil. De modo educado, ele negou. Disse que tinha orientação do caravaneiro de somente fornecer água após dois dias da passagem pelo poço, como maneira de todos colaborarem para um consumo consciente, equilibrando as difíceis condições que se impunham. Insisti, mas o homem se manteve firme na negativa. Tornei a me afastar e, em pouco tempo, a sensação de sede aumentou exponencialmente até ficar insustentável. A irritação tomou conta de mim como efeito da crise de abstinência. De longe avistei outro viajante, um mercador, veterano de muitas travessias, bebendo água. Aproximei-me e pedi um pouco. Expliquei a ele o ocorrido. Ele me olhou por alguns segundos e disse que me venderia um cantil. Vi que havia vários cantis em seu alforje. Sem hesitar, falei que pagaria. Ele sorriu de maneira estranha. Em seguida estabeleceu o preço. Era um valor alto, muito alto.
Argumentei que era um absurdo cobrar uma fortuna por uma pequena quantidade de água. O mercador respondeu que estava barato, pois aquele preço não era pela água, mas pela minha vida.
Todos sabem que é impossível sobreviver sem água. Mais frágil é a vida e mais necessária é a água em região inóspita como o deserto. Falei que o seu comportamento era abusivo e desumano. Ele deu de ombros e disse para eu ficar à vontade para decidir. Sustentei que a minha necessidade furtava a minha liberdade de escolha. Ponderei que não tinha todo o dinheiro cobrado. O mercador propôs que eu pagasse com o meu camelo. Disse que o animal lhe seria útil para distribuir melhor o peso das mercadorias que transportava até o oásis. Contestei o absurdo da proposta, caso em que eu teria de seguir a viagem a pé. Roguei que tivesse piedade; o homem me aconselhou a pedir misericórdia ao caravaneiro que tinha água suficiente para abastecer a todos. Implorei ao mercador, em vão.
Tentado a entregar o meu camelo, decidi me afastar para tentar colocar em ordem a confusão de ideias e emoções que me envolviam. Eu tinha perdido a paz; sem paz a felicidade era uma ilusão. Assim, tênue se tornara o amor que eu sentia por mim ou por alguém. Senti-me o pior dos homens; um trapo de gente. Percebi que talvez eu tivesse que aceitar condições com as quais não concordava; sem liberdade eu também perdia a dignidade. Amaldiçoei a vida.
Procurei me acalmar e pensei que talvez eu tivesse uma chance ao negociar. Os povos do deserto tinham o comércio como uma arte. Voltei ao mercador e ofereci o relógio de uma marca caríssima que eu usava. Ele recusou. Adicionei uma boa parte do dinheiro que eu tinha. A mesma resposta. Mesmo entregando todo o dinheiro nada mudou. Propus fazer uma transferência bancária no valor de dois camelos quando retornasse à cidade. Depois, dez camelos. A negativa se manteve. O mercador se mostrou insensível às minhas ofertas e argumentou que não precisava de um “relógio agora ou de dinheiro depois”. Naquele momento ele necessitava do meu camelo assim como eu desejava um cantil cheio de água.
A sede me assolava de maneira insuportável. Quando pensei em resistir à absurda proposta, a secura na garganta pareceu me sufocar. O ar que eu respirava ardia como fogo. Capitulei. Resignado, disse ao mercador que aceitava a sua absurda oferta. Ele, sem dar a mínima para a minha opinião, pegou um dos cantis no alforje. Antes de me entregar avisou que ao colocá-lo em minhas mãos o negócio estaria fechado. Irremediavelmente.
Com as feições contrariadas, balancei a cabeça afirmando estar ciente dos termos. Quando fui estender a mão para pegar o cantil, para minha surpresa, outro cantil, bem mais rústico, confecionado com pele de cabra e repleto de água, foi atirado aos meus pés. Era o caravaneiro que se aproximara sem se fazer notar. Sedento, peguei-o na areia e bebi um gole prolongado de água em sensação de prazer inesquecível. Alegria tanto pela saciedade quanto pelo resgate da situação que eu me envolvera. Sem temer o caravaneiro, o mercador protestou sob o fundamento de que a tradição do deserto impedia que um homem interferisse nos negócios de outro. O caravaneiro, sem se alterar, respondeu em um tom de voz que equilibrava serenidade e firmeza: “Reza também a tradição do deserto que um homem não pode escravizar outro. Entendo, pela ordem de valores, que esta se sobrepõe àquela”. Virou-se para mim e ordenou: “Afaste-se daqui e aprenda a cuidar de si. Seja senhor das suas escolhas para não se tornar prisioneiro dos seus desejos.” Antes que o mercador articulasse qualquer palavra, girou nos calcanhares e se retirou. Sem demora, segui para um canto distante dali.
Em local distante de todos, me deitei sobre a areia macia e fiquei envolto com os fatos daquele dia, enquanto me encantava com o céu estrelado do deserto. Dormi ali mesmo, abraçado ao cantil de couro de cabra, agora com água pela metade, uma verdadeira riqueza para o dia seguinte. No meio da noite acordei como quem desperta pelo susto de um sono atribulado. Ao meu lado estava sentada a linda mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, com as pernas cruzadas em posição de meditação. Ela olhava para mim como se velasse pelos meus sonhos. Comentei que tinha sido um dia difícil, porém restara uma valiosa lição. Falei que dali por diante eu seria mais moderado quanto aos prazeres e às necessidades. Acrescentei que talvez eu não precisasse de tanto quanto antes imaginava. Era preciso rever as minhas desnecessidades. A mulher sorriu e disse: “A temperança é a flor da serenidade, cujas raízes estão na sensatez. Quanto menor for a dependência, de qualquer tipo ou espécie, maior será a tranquilidade do indivíduo. Quanto mais moderado em relação às minhas necessidades, mais livre consigo ser. A liberdade preserva a dignidade. Esta nos envolve em paz, que por sua vez nos permite respirar o ar puro da felicidade. Então, conseguimos amar de verdade, despojado das exigências mundanas que nos impomos.”
“A temperança é a arte da harmonia entre as metades na integralização do ser. Ela tem a capacidade de desnudar algumas sombras, como a volúpia, a inveja, o ciúme e a ganância, por exemplo. Ao mostrar a insensatez de muitos dos desejos do ego e a importância de valorizar as necessidades fundamentais da alma, a temperança nos orienta rumo à plenitude. Ela retira o enorme peso do ter para oferecer leveza ao ser.” Fez uma pausa antes de concluir: “Não se trata de desfrutar menos a vida, mas aproveitar melhor todas as coisas que há na existência.”
Virei o olhar para as estrelas e pensei em como menos se torna mais diante da fortuna imaterial da plenitude. Liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor são as flores do sagrado ocultas no jardim do mundo; encontrá-las é o encantamento da vida e o poder incomensurável da alma. Se a humildade é a virtude que abre o portal do Caminho, a temperança me equilibra através dele.
Sem lembrar do momento em que voltei a dormir, acordei com os primeiros raios de sol acariciando o meu rosto. Eu ainda estava agarrado ao cantil de couro de cabra. A caravana se movimentava para levantar o acampamento e logo seguiria o seu curso. Como era de se esperar, nem sinal da mulher de olhos da cor de lápis-lazúli. Duvidei se a conversa daquela noite de fato acontecera ou não passara de um sonho bom.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O sexto dia da travessia – a sombra da discórdia e a alma esquecida

A caravana estava no sexto dia. As precárias condições de uma travessia pelo deserto, por maiores que sejam os cuidados dispensados pelos viajantes, seja pelo clima inóspito, seja pela falta de uma série facilidades, às quais nos acostumamos nas cidades, trazem inevitáveis problemas. Há que se ter atenção tanto em relação às variações de humor, tão imprevisíveis quanto as dunas que se movimentam ao sabor do vento, quanto à saúde física que tende a se deteriorar muito rapidamente ao menor descuido. Ao caravaneiro cabe a difícil tarefa de conduzir a caravana na harmonia entre a firmeza e a paciência. A sensatez é a virtude que permite o equilíbrio entre as outras duas virtudes, posta à prova a todo momento em diferentes graus de exigência. Naquele dia circulava a notícia de que poderíamos enfrentar uma violenta tempestade de areia. Alguns diziam que não passava de um boato; outros sustentavam a veracidade do perigo, alegando como fonte um experiente encarregado da caravana, veterano de muitas travessias. Como se não bastasse toda a insalubridade típica do deserto, a tensão diante da iminência do perigo alterou o ânimo de alguns integrantes. Não raro, o medo se torna a raiz de muitas doenças e conflitos. Um dos viajantes foi acometido de um mal súbito. Como já estávamos no meio do dia, o caravaneiro ordenou uma pequena parada para um rápido descanso e as providências cabíveis à pessoa adoentada.
Por acaso era um homem que viajava próximo a mim naquele dia. Algo nele me incomodava. Ele falava o tempo todo, sempre contando vantagens. Quando me aproximei, percebi que ele respirava com dificuldades e falava coisas que na minha opinião eram absurdas e sem sentido. De imediato diagnostiquei a origem do mal: medo. Em seguida, sem a menor cerimônia, receitei o remédio: coragem. Outro homem, que naquele momento também o acudia, um espanhol chamado Pablo, peregrino como eu, discordou. Disse que as palavras pronunciadas pelo enfermo não eram um mero delírio, mas valiosas visões sobrenaturais que deveriam ser aproveitadas para a segurança de todos. Eram, segundo ele, os espíritos do deserto nos auxiliando diante do perigo que se avizinhava. Falei que aquilo era uma bobagem maior do que o delírio do doente. O homem rebateu dizendo que eu deveria ter um pouco mais de sensibilidade e consideração pelos outros. Acusou-me de não ter compaixão. Logo iniciamos uma séria discussão que não chegou às vias de fato graças à intervenção de outras pessoas. Exaltados, cada um foi levado para um lado, carregando consigo as suas razões. Aleguei, para quem estava por perto, a minha falta de paciência com a ignorância travestida de sabedoria. Por sua vez, o meu desafeto sustentou os mesmos motivos para quem estava próximo dele. Não demorou, o caravaneiro se aproximou e disse em tom de sentença: “Por maiores que sejam os perigos que uma caravana está exposta, seja uma tempestade de areia, seja o ataque de tribos nômades, nada supera os danos causados por egos exaltados, emoções descontroladas e pela discórdia. É mais fácil me defender do mal quando ele vem de fora. O mal quando se manifesta internamente costuma causar estragos bem mais sérios e, portanto, precisa ser sanado na raiz. Ambos continuarão a pé, na rabeira da caravana, puxando os seus camelos, até o final do dia. Será uma oportunidade para a reflexão.”
Tanto eu quanto o outro homem alegamos que aquela decisão era insensata. Cada qual se considerou injustiçado em virtude de a culpa ser do outro. O caravaneiro ouviu todas as nossas lamúrias sem nos interromper. Ao final, fundamentou: “Quando duas pessoas discutem, ambas podem ter razão. A razão oscila de acordo com o nível de consciência de cada pessoa. Todos têm direito à própria opinião; ela é sagrada por conduzir as nossas escolhas. No entanto, a maneira de a manifestar, demonstrando respeito pelas diferenças, é uma arte.” Fez uma pausa antes de concluir: “Esta travessia apresenta as dificuldades inerentes ao próprio deserto. Elas não são poucas nem fáceis de enfrentar. Para conseguir alcançar o destino a caravana precisa se comportar como um só corpo. Caso contrário, com as forças divididas, não será possível fazer frente às muitas dificuldades externas que inevitavelmente se apresentarão durante o trajeto. O valor reside na pacificação das relações sem que ninguém precise perder a própria identidade. Cada um com as suas verdades e crenças; todos em paz.”
Não tardou e a caravana tornou a seguir o seu curso. Pablo e eu fomos a pé, fazendo companhia um ao outro, conforme determinação do caravaneiro. Na primeira hora nos amaldiçoamos mutuamente. Eu estava profundamente irritado com o espanhol; a recíproca também se aplicava. Como ele viajava acompanhado de alguns amigos, um deles decidiu fazer companhia a Pablo durante o trecho em que íamos a pé. Na segunda hora, começaram a interpretar as visões do homem que tivera o mal-estar e comentavam, fazendo questão que eu os ouvisse, que aquela situação era uma das previstas por ele. Nas horas seguintes a minha irritação foi escalando tons a ponto de virar um ódio destruidor. Toda raiva, mágoa, ira ou ressentimento é avassaladora. É quando quebramos tudo ao redor ou destruímos o melhor que existe em nós. A raiva, como todas as demais sombras, quando se manifesta dentro da gente, nos faz tão mal que parece que a melhor solução é espalhá-la pelo mundo. Quando isto acontece significa que a permitimos germinar e dar frutos. Passamos a habitar uma floresta escura. Tudo à nossa volta parece trevas; o coração perece por inanição. Isto acontece quando permitimos às sombras o poder de apagar a nossa luz. Então, perdemos a batalha.
No final da tarde, quando a caravana parou para levantar o acampamento e passarmos a noite, eu estava exausto. Mas não sentia fome nem tinha sono. A boca trazia um gosto amargo. Sentei-me em um canto afastado. Eu queria quietude e solidão. Vi o caravaneiro se distanciar com o seu falcão pousado sobre a grossa luva de couro que usava no braço esquerdo. Com um muxoxo, para que ninguém ouvisse, disparei uma série de palavrões. Pablo e os amigos que o cercavam formavam um grupo. Não dava para escutar o que eles diziam, mas percebi que eles falavam muito e tive a impressão de que riam de mim. Desconfiei que zombavam dos meus argumentos. A raiva crescente foi se avolumando e considerei a possibilidade de ir tomar satisfações. Não levaria aquele desaforo para casa. Chegou a me ocorrer a absurda ideia de que eu trazia um punhal no alforje do meu camelo. Apenas a certeza de que a punição do caravaneiro seria bem mais rigorosa, caso eu arrumasse qualquer outra confusão, foi capaz de me deter. No entanto, o fel da ira me envenenava e, logo após um breve acesso tosse, vomitei. Com forte sensação de enjoo, virei-me à procura do meu cantil.
Para a minha surpresa, ele estava nas mãos na mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, que o estendia para mim. Eu não tinha notado a sua aproximação. Agradeci, bebi um pouco de água e, lembrando dos dias anteriores, comentei que ela parecia se desmanchar e se materializar no ar. Ela deu uma deliciosa risada e disse em tom de brincadeira, embora eu desconfie que houvesse algo a mais nas entrelinhas das suas palavras: “Eu cavalgo no Vento.” Fez uma pausa e concluiu: “É o nome do meu cavalo”, se referindo ao vigoroso corcel negro com o qual atravessava o deserto. Em seguida, derramei todos os meus sentimentos através da narração dos fatos que se sucederam durante o dia. Ela me ouviu com bondosa paciência. Em determinado momento da minha falação, repleta de queixas, tive a sensação que ela me ouvia apenas na intenção de que eu também me ouvisse. Fiz esse comentário para a mulher. Ela balançou a cabeça em concordância e esclareceu: “Durante um conflito, não raro o espalhamos, seja na tentativa de obter dos outros uma palavra de apoio às nossas ideias, seja na absurda e inconsciente possibilidade de transferir parte do sofrimento ou da responsabilidade que, por ventura, nos vergue as costas. Esse discurso, quando é para o mundo, acaba sendo infrutífero por inadequação, pois ninguém poderá resolvê-lo em nosso lugar. Ou, pior, pode agigantar as sombras ao encontrar suporte por parte de alguém que as alimente. No entanto, quando conseguimos fazer com que a alma escute as palavras proferidas pelo ego, damos o primeiro passo para o verdadeiro entendimento do que se passa. Por isto falar para si mesmo é importante; é a oportunidade de ouvir a própria voz e a mensagem que ela traz. Entender o conflito é entender o ego, os seus desajustes e desejos insensatos; é compreender as próprias sombras envolvidas, fomentadoras do entrevero. Então, aos poucos, a alma se acende para iluminar as escolhas do ego, mostrando novas possibilidades de pensar e agir; de ser e de viver. Um conflito pode causar um grande problema ou te colocar diante de um mestre. Esta escolha é sua. Se faz necessário estar atento a ela.”
Aquelas palavras não arrefeceram os meus ânimos exaltados. Falei que o discurso era belo, porém distante da realidade. Lembrei à mulher que Pablo e seus amigos me ridicularizavam. Ela me olhou com infinita doçura e me disse de forma delicada: “Isto não tem importância. As ofensas, a ironia ou desprezo são armas das sombras utilizadas por um ego ainda primitivo e dominador. Estas flechas somente irão atingi-lo se você tiver um ego na mesma vibração. Um ego alinhado à alma sempre estará em posição onde as setas do mundo não têm alcance. O amor será sempre as suas asas e o seu melhor escudo.”
Perguntei se ela achava que o delírio do homem pela manhã poderia ser mensagens dos espíritos do deserto. Ela deu de ombros e comentou: “Não me importa, tampouco as ouvi. Se você acredita, faça uso delas; senão, descarte-as. Simples assim. Cada um será responsável pelas suas escolhas, com ou sem ajuda dos espíritos. Vale lembrar que no deserto há espíritos de todos os tipos. Você terá sempre a ventura de escutar aqueles com os quais o seu nível de consciência e padrão de sentimentos se afinarem. Estes, sim, serão os mecanismos que determinarão a participação da alma na educação do ego e as suas chances de libertação”. Interrompi para questionar de qual libertação ela se referia. A mulher esclareceu: “A libertação do sofrimento. Justamente a cura da dor provocada pelo ódio que te corrói agora e oculta de ti a beleza da vida.”
“As diferenças de opinião são saudáveis por nos apresentar, por vezes, óticas desconhecidas sobre uma determinada situação ou nos mostrar fronteiras que já atravessamos. Pode se tornar um jeito diferente e melhor de ser ou uma maneira obsoleta de viver. Escute o outro com respeito e paciência; sobre diferentes disfarces, as pessoas quase sempre falam sobre as suas dores”. Fez uma pequena pausa e prosseguiu: “No entanto, quando brigamos, ninguém escuta ninguém. De sobra resta a energia pesada que nos envolve. Faz-se primordial que as ideias sejam expostas de maneira clara e serena, para a devida compreensão. Depois serão aceitas ou descartadas, conforme o valor que houver. Quando vocês discutiram, o desentendimento fez com que as sombras se apresentassem para ambos. Elas, as sombras, os convenceram que cada qual precisava se sobrepor ao outro, como se a divergência de ideias fosse uma guerra na qual tivesse que haver um vencedor. Isto acontece todas as vezes que nos iludimos maiores e melhores que os demais. Pura desnecessidade.” Eu tornei a interromper para saber quais sombras seriam essas. Ela respondeu sem rodeios: “As mais vulgares, que também são as da pior espécie: o orgulho e a vaidade.”
Eu confessei que me sentia muito mal e não sabia como reagir. A mulher continuou atenciosa e disse: “Nesses casos, ao perceber a aproximação de qualquer das sombras, não reaja por impulso, pois você provavelmente estará sob a orientação dela. Pare, sinta e pense. Use o coração como um filtro. É preciso que saibamos quem são nossos conselheiros a cada momento da vida. Busque pela sua alma; dê voz à sua alma. Ela é puro amor e será sempre a melhor conselheira, pois lhe indicará a outra face. A face da luz.”
“Em momentos assim é imprescindível, para iluminar os fatos, que as sombras sejam envolvidas pela nossa luz interior. Quando conseguimos, impedimos que os sentimentos densos se alastrem e a escuridão será extinta de imediato. Quando, porventura, todo o amor necessário não estiver disponível naquele instante, apenas se recuse a alimentar a sombra. Por inanição você irá enfraquecê-la. Então, logo adiante, poderá transmutar a sombra na luz das virtudes.”
“No entanto, na disputa para se mostrar maior e melhor que outro, vocês concederam um enorme poder as sombras. Tão grande esse poder que, na medida que se avolumou, foi capaz de dominar as ideias e as emoções dos dois. Onde estavam a humildade, a compaixão, a paciência, o respeito, a sensatez e o amor? As virtudes acabaram aprisionadas pelo orgulho e pela vaidade. Assim, foram impedidas de qualquer movimento. Quando isso acontece, o resultado origina muito sofrimento.” Deu de ombros e comentou: “Os frutos sempre estarão de acordo com a seiva que alimenta a árvore.”
Falei que tudo aquilo era bastante complicado. Ela respondeu: “Atravessar um conflito é parecido com atravessar o deserto. Se não houver coragem, sabedoria e amor, não se chegará a lugar nenhum. Coragem para enfrentar a si próprio, sabedoria para se conhecer e amor para perdoar a todos, inclusive a você mesmo.” Fez uma pausa e concluiu: “A travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos.”
Bebi mais um gole de água para tirar a secura da garganta e, por instantes, deixei que os pensamentos voassem sobre as areias do deserto como o falcão do caravaneiro. Quando me virei para continuar a conversa com a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli a cena se repetiu mais uma vez, que mesmo previsível não deixava de me surpreender: ela não estava mais lá. Ri sozinho.
Continuei ali, pensando em todas as palavras que me foram ditas. Como eu tinha me acalmado, aos poucos, cada uma delas foi encontrando o seu devido lugar. Admiti que, na verdade, tudo não passara de uma disputa entre dois egos exaltados. Na briga por quem tinha razão, esquecemos o principal, que era atender ao homem acometido pelo mal súbito, cujas necessidades foram relegadas, tanto por mim quanto por Pablo. Guerreamos por insensata vitória. Quando o ego é frágil sente fome por sensações de superioridade em relação aos outros e acaba por tentar impor as próprias razões sobre o ponto de vista alheio, independente de estar certo ou errado. Naquele dia, a absurda necessidade em apontar a ignorância, um ao outro, nos fez esquecer do homem adoentado. A discórdia não nos fez perceber a ignorância maior: o amor foi deixado de lado.
A última frase dita pela mulher, “a travessia só termina quando todos os corações estiverem unidos”, pulsava na minha mente. Lembrei que a palavra discórdia era a junção de outras duas palavras de origem latina. Dis significa fora, distante, afastado. Cor ou córdia significam coração. Assim, discórdia é uma palavra que traduz a raiz de muitos males, pois ela surge quando afasto o meu coração do coração de alguém. Ainda mais profundo, significa estar distante do meu próprio coração. Viver fora do coração é não entender a importância do amor; é deixar a alma esquecida.
Tinha anoitecido e o céu estava salpicado de estrelas. Levantei-me e fui até onde estava Pablo e seus amigos. Fui recebido com desconfiança. Pedi a Pablo que me desculpasse pela minha falta de humildade e agradeci pela lição que ele me proporcionara. Sinceramente, não sei se ele e todos os demais entenderam naquele momento a minha fala, mas pelo silêncio que se fez, sei que em algum momento, entenderiam; seja a minha dificuldade, sejam as deles. Caso demorasse algum tempo para eles compreenderem o que se passara, isto não retiraria a força do perdão, que tem o poder de ser unilateral. Pois, não seria justo que alguém ficasse aprisionado à vontade ou à autorização de outra pessoa para se libertar de uma situação e seguir adiante. Depois me dirigi ao homem que passara mal e também pedi desculpas. Desta vez pela minha falta de compaixão. Ele me deu um abraço forte que interpretei como uma assinatura sincera de aceitação.
Voltei à quietude e solidão em lugar afastado. Fiquei um bom tempo observando a beleza do manto de estrelas sobre o leito de areia do deserto. A paz estava selada; dentro e fora de mim. Uma indescritível leveza me arrebatou. Tive a impossível sensação de estar sentado a dois palmos do chão. Em silêncio, prometi a mim mesmo que da próxima vez, em situação parecida, me esforçaria para agir diferente e melhor, impedindo que a discórdia criasse raízes. Agradeci a todos os envolvidos as lições permitidas naquele dia.  A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, o caravaneiro, o Pablo e seus amigos, o homem que passou mal e os espíritos do deserto, cada qual dentro das suas capacidades e possibilidades, me apontaram um jeito melhor de seguir no Caminho. Sorri para as estrelas; sorri para mim.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O quinto dia da travessia – a alma do mundo

Estávamos no quinto dia da travessia. A caravana seguia a sua marcha rumo ao oásis onde vivia um sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos do céu e da terra”, com qual eu desejava encontrar. Entre peregrinos, mercadores, turistas e encarregados, dezenas de pessoas integravam a caravana e viajavam pelas areias do Saara. Na manhã daquele dia, logo cedo, antes de levantarmos acampamento, percebi o caravaneiro um pouco distante do grupo adestrando o seu falcão. Chamava-me atenção o fato de ele, sempre que possível, se afastar para se entreter com a ave. Estranha diversão, pensei. Atribui o hábito às inevitáveis diferenças culturais entre os povos. Procurei pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli em vão. Depois tive a atenção voltada para um homem que sempre que a caravana fazia uma parada, estendia um belo tapete e expunha em pequenos cestos porções de biscoitos finos. Ele se dedicava a servir chá para quem desejasse. Esse homem não trabalhava na caravana como de início pensei; uma vez por ano viajava para encontrar com parentes. Realizava o cerimonial do chá por prazer. Fiquei impressionado com o capricho com o qual ele se dedicava a essa tarefa. Um mercador inglês que costumava viajar para negociar tapetes com os habilidosos artesões do oásis, ao perceber o meu interesse, se aproximou e disse: “É o melhor chá que já tomei na vida.” Respondi que tamanho elogio vindo de um inglês era para se respeitar. Em seguida, comentei que achava um certo exagero todo aquele afinco apenas para servir chá com biscoitos em um acampamento no deserto. O inglês falou como quem revela um segredo: “Dizem que é um mestre”. Logo o meu interesse mudou. Cheguei próximo ao homem, perguntei se podia sentar; ele sorriu e fez um gesto com a mão para que eu ficasse à vontade. Ele tinha acabado de terminar uma infusão no bule, me serviu com esmero em uma elegante xícara de porcelana e disse para eu me servir dos biscoitos. Senti-me um rei. Fiz um elogio sincero ao chá. De fato, era delicioso. Ele tornou a sorrir e disse: “Isso me alegra o coração. Gosto quando dizem que é um néctar dos deuses.” Eu confessei que foi exatamente isso que eu senti ao provar a bebida. Em seguida, interessado em averiguar a mestria a ele atribuída, perguntei se gostava de Blavatsky, apreciada escritora russa nos círculos esotéricos. Ele me olhou com simplicidade e respondeu: “Não sei quem é.” Insisti em saber a sua opinião sobre Krishnamurti, Yogananda, Kardec, Gibran, entre outros. As respostas se repetiam com um balanço da cabeça em negativa. Desolado, eu quis saber por quais livros ele se interessava. O homem, cujo o nome, depois eu soube, se chamava Kalil, disse com humildade: “Eu não sei ler.” E justificou: “Fui criado em um campo de refugiados. Lá não tinha escolas.” Em seguida acrescentou com enorme estima: “Eu aprendi a fazer chá”. Decepcionado, apenas esbocei um rascunho de sorriso como quem diz que entendia a situação. Esvaziei a xícara, tornei a elogiar o chá e quando fiz menção para me levantar, ele se manteve gentil fazendo questão de explicar: “O chá que você bebeu é de uma flor comum no deserto, mas rara nas cidades. Ela precisa ir fresca para a infusão, na qual não pode demorar mais do que três minutos, sob o risco de ter o sabor alterado. Tive sorte de encontrar um pequeno ramo ontem.” Comentei que era mesmo uma iguaria, agradeci e, como não estava interessado em saber mais sobre chás, me levantei.
A caravana seguiu o seu curso sem maiores novidades e nenhuma turbulência, ao contrário dos dias anteriores e de acordo com o meu desejo. No final do dia, um pouco mais cedo do que de costume, paramos para o descanso, refeições e passarmos a noite. Depois que cessou toda a movimentação da montagem das tendas, o jantar foi servido. Eram enormes panelas com cozido de legumes, grãos e carne de carneiro. De maneira organizada, cada pessoa pegava a sua cuia e era servida pelos cozinheiros. Naquelas circunstâncias e devido à fome, sempre era momento agradável do dia. Quando me afastei para comer sozinho, percebi a bela mulher dos olhos da cor de lápis-lazúli, sentada sobre o elegante tapete de Kalil, saboreando uma xícara de chá e entretida em uma demorada conversa. Tentei me aproximar com a desculpa de que gostaria de beber um pouco de chá para auxiliar na digestão, mas fui impedido por um dos seguranças da caravana. Ele se limitou a informar, com as feições sérias, que eu esperasse. Resignado, fiquei de longe aguardando o fim da conversa, que parecia interminável. Fiquei imaginando, sem entender, o que a enigmática mulher, de notável inteligência, tanto falava com o homem do chá. Em determinado momento percebi que ela também o ouvia bastante. Como eu ainda sentia fome, retornei para a tenda onde estavam os caldeirões e enchi mais uma vez a minha cuia. Quando voltei, a surpresa, ela não mais estava lá. Outras pessoas eram servidas por Kalil, sempre atencioso e gentil. Procurei a mulher por toda a parte sem qualquer êxito. Parecia que tinha se desmanchado no ar.
Com o dia ainda claro e sem ter o que fazer, peguei um livro e me sentei em um canto sossegado. Eu ainda não tinha começado a ler, quando vi o caravaneiro retornar com o falcão pousado sobre as grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo. Abordei-o na tentativa de papear um pouco, porém ele se disse impossibilitado naquele momento: “Vou beber uma xícara de chá e conversar com o Kalil.” Curioso, perguntei sobre o que ele gostava de conversar com o homem do chá. O caravaneiro deu de ombros e falou: “Sobre tudo e sobre nada. Sobre as coisas do mundo. Gosto de conversar com ele. É um mestre.”
Intrigado pelo interesse do caravaneiro e da mulher por aquele homem, questionei se, por acaso, se tratava do sábio dervixe do oásis. Ele negou com a cabeça e esclareceu como quem explica o óbvio: “Claro que não.” E acrescentou com sinceridade: “São pessoas bem diferentes. Cada um com a sua beleza.”
De longe observei o caravaneiro conversar por longos minutos com o homem do chá. Ora um falava, ora era o outro. Por vezes deram boas risadas. Foi a primeira vez que vi caravaneiro sorrir. Mais tarde, quando as primeiras estrelas começavam a surgir, voltei a Kalil, que numa mistura de delicadeza, paciência e alegria continuava a oferecer chá para todos. Servi-me de mais uma xícara e perguntei-lhe se era um mestre, como todos comentavam. Ele me olhou com doçura e respondeu em um tom no qual as palavras tinham a mesma suavidade dos seus olhos: “Claro que não.” Comentei que eu estudava metafísica há muitos anos e queria encontrar com o dervixe do oásis. Kalil, balançou a cabeça como quem diz que entende e falou: “É uma boa pessoa. Costumamos tomar chá juntos. As nossas conversas são muito animadas.” Eu quis saber sobre o que eles conversavam. O homem do chá respondeu com sofisticada simplicidade: “Sobre todas as coisas e sobre nada. Essa leveza do encontro, por vezes, dá asas à imaginação e nos leva a lugares desconhecidos, onde se é possível ver sem o véu da ilusão.” Questionei se esse poder vinha do chá. Ele deu uma risada deliciosa e explicou: “Claro que não. Toda a magia vem de dentro para encantar o que existe fora. Todo o poder vem da alma. Quando a sua alma encontra um bom lugar para passear dentro de outra pessoa acontece um encanto. Duas velas juntas iluminam melhor um ambiente. Cuido para que a minha alma seja hospitaleira e permita um pouco de conforto a todos que chegarem.” Perguntei quem tinha ensinado isso a ele. Kalil deu de ombros e disse: “Ninguém. Aprendi servindo chá.”
Antes que eu pudesse prosseguir naquela conversa, outras pessoas chegaram em busca de uma boa xícara de chá. Afastei-me e fiquei com aquelas palavras circulando na mente, na tentativa de encontrarem o melhor sentido. Foi quando tornei a ver o caravaneiro. Ele estava afiando um punhal na pedra. Ao me aproximar comentei que o homem do chá era uma pessoa interessante, embora fosse um analfabeto. O caravaneiro me olhou como quem está diante de uma criança e falou: “A cultura e o conhecimento têm um valor inegável e devem receber todos os estímulos. No entanto, a sabedoria está na alma do mundo. Apenas lá poderemos encontrá-la.” Eu disse que tudo aquilo era bastante enigmático e quis saber se ele poderia explicar melhor. O caravaneiro não se fez de rogado: “É preciso botar a sua alma em tudo que você fizer, das coisas mais importantes às mais banais. É uma maneira de oferecer a sua alma ao mundo. Em contrapartida o mundo lhe devolve a própria essência, a sua alma, a alma do mundo. Lá existe muita luz.”
“Kalil coloca a sua alma no chá que faz. Então, quando o serve as pessoas, entrega ao mundo pequenas porções do melhor que existe em si. Cada xícara de chá é adoçada com gotas da sua alma. O chá de Kalil tem a alma de Kalil. Assim a sua essência se envolve e se funde com a essência do mundo. Isto é magia. Isto encanta e transforma.”
Questionei se isso apenas era possível com o chá. O Caravaneiro franziu as sobrancelhas e disse sério: “Claro que não. É imprescindível que se coloque a alma em absolutamente tudo o que fizer. Das pequenas ações do cotidiano às escolhas angulares da existência; no ofício e na arte. É preciso que se dê vida às coisas, aos lugares e que se anime a vida de outras pessoas. Isso faz com que a sua alma possa colorir e iluminar tudo o que tocar; isso permite a conexão com a alma do mundo e a toda a sabedoria e amor contidos ali.”
O caravaneiro tornou a se concentrar em afiar o punhal na pedra. Eu fiquei ao seu lado por algum tempo sem dizer palavra, concatenando as ideias. Quebrei o silêncio ao comentar que, de fato, a caravana tinha a alma dele, do caravaneiro, como se fosse uma extensão natural do seu corpo, dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Satisfeito com a minha própria conclusão, arrematei dizendo que a caravana era a perfeita fotografia da alma do caravaneiro. Ele me olhou, sorriu e disse: “Amo a caravana e coloco a minha alma nela. Esforço-me para que todos possam viajar com o conforto possível e cheguem ao destino com segurança. Tudo nasce com a responsabilidade de estar por inteiro nas mínimas coisas de cada dia. O compromisso se expande até ultrapassar a própria fronteira. Então, se torna amor. Ao fazer com que a minha alma pulse por toda a caravana fortaleço a todos os seus integrantes com o poder da minha essência. Assim desperto a alma do mundo e ela nos ajuda a atravessar o deserto.”
Ele fez uma pausa para examinar o punhal, o guardou na bainha e concluiu: “Quando movimento a minha alma manifesto o que de melhor há em mim e me aventuro na alma do mundo.  Esta é a travessia para o inimaginável.”
O caravaneiro se foi. Fiquei pensando como eu poderia oferecer a minha alma ao mundo; tive vontade de conhecer a alma do mundo. Algum tempo depois tive a atenção voltada para a imagem do acampamento na noite do deserto. Seus inúmeros lampiões e lamparinas, de longe pareciam se misturar com as estrelas no céu, como se formassem um único manto, salpicados por infinitos pontos de luz. Imaginei que talvez fosse assim com a alma de todos e a alma do mundo. Percebi que distante, no alto de uma duna, uma pessoa rodopiava sozinha, como em comunhão com o universo. Como se a sua alma bailasse com a alma do mundo. Achei que talvez fosse a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Mas nem tentei chegar perto para me certificar; tive a absurda impressão de que ela se dissolveria no ar à menor aproximação.