segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A Arte de Ajudar os Outros




Eu e Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, tínhamos acabado de almoçar em um dos nossos restaurantes preferidos na pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que abriga o mosteiro. Por saber que ainda conversaríamos por um bom tempo, o garçom, um velho conhecido, deixou um bule de café fresco em nossa mesa, quando fomos surpreendidos por Lydia, uma sobrinha querida do artesão. Ela tinha entrado no restaurante apenas para tomar um café e divagar sobre algumas questões pessoais e ficou feliz em nos encontrar. Sentou-se conosco e disse que era bom estarmos ali, pois queria ouvir o que o tio pensava a respeito de algo que a chateava nos últimos meses. Fiz menção em deixá-los a sós, mas Lydia, gentil, falou que não era necessário. Em seguida, contou que, como o tio já sabia, namorava com Giovani por quase dois anos. O primeiro período tinha sido de muitas alegrias e descobertas, viagens e total sintonia. Com o passar do tempo tudo parecia desandar e os desentendimentos eram cada vez mais constantes.
Ela narrou que nesse período passou a se interessar mais pela espiritualidade. Começou a estudar esoterismo, meditar e praticar ioga. Disse que no justo momento em que começou a mergulhar mais fundo na esfera do desenvolvimento íntimo, as brigas se acirraram. Os seus interesses e amigos mudaram; Giovani passara a sentir ciúme do novo estilo de vida dela e brigavam por situações que só existiam na imaginação dele. Ela vinha se esforçando para trazê-lo para esse mundo novo e maravilhoso que descobria aos poucos, mas ele estava reativo. Lydia sabia da grandeza em ajudar a todos e reconhecia no namorado um enorme potencial de crescimento, pois ele tinha um bom coração. No entanto, quanto mais ela tentava mais ele refutava a ideia. Até que no último final de semana eles discutiram e Giovani proferiu palavras bem agressivas.
Sem que fosse necessário pedir, o atencioso garçom colocou mais uma xícara sobre a mesa. Loureiro nos serviu o café e disse: “Ajudar a quem encontramos pelas estradas da vida será sempre um compromisso que temos com o universo. Não por obrigação ou medo de eventuais consequências, mas pelo entendimento de que o amor que trago em mim deve crescer na mesma medida em que a minha consciência se amplia. Ou não haverá evolução. Em verdade somos todos irmãos na certeza de uma mesma origem; em essência, somos um, na sabedoria da semente que se reparte em mil para, depois de se transformar em flor e fruto, tornar a virar semente e, então, se unir as partes”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “No entanto, cada um floresce ao seu tempo, dentro das capacidades individuais de sabedoria e amor que possui naquele trecho da existência, a depender do quanto está desperto, pressionado por fortes influências emocionais, condicionamentos socioculturais e de experiências pretéritas, não raro desastrosas. Além disso, existe o aconselhamento das sombras individuais e coletivas, como o medo, a inveja, a ganância, o ciúme, entre outras, oferecendo ilusões de vantagem e proteção. Será sempre uma bonita batalha de superação sobre si mesmo”.
Lydia comentou que talvez fosse melhor cada um cuidar de si. Loureiro a olhou com doçura e devolveu com uma pergunta retórica: “E deixar que o egoísmo alastre as suas raízes e influência? Este é o conselho mais comum oferecido pelas sombras. O Caminho é a estrada da luz, na qual o amor é a rota e o destino. Avançamos na exata medida que ampliamos a consciência em consonância com a capacidade amorosa, pois sabedoria sem amor costuma trazer dissabores. Para entendermos o tamanho do coração basta prestar atenção ao amor que já somos capazes de oferecer. Aquilo que não conseguimos dar, em verdade, ainda não temos nem somos”. A sobrinha se confessou perdida e sem saber como fazer. O sapateiro foi didático: “As virtudes iluminam as nossas melhores escolhas”.
As feições de Lydia mostravam vontade em saber mais. O tio prosseguiu na explicação: “Para quem quer ajudar, há que se ter paciência e respeito, por si e pelo outro; humildade, compaixão e firmeza, medidas com mesma régua”. Tornou a bebericar um gole de café e disse: “Assim como uma mãe possui o sagrado ofício de colocar o filho nos trilhos do bem, haverá o momento de cessar o auxílio para que ele possa ganhar força, seguir em locomotiva própria e decidir o destino que melhor lhe aprouver. Da mesma maneira que não abandona a cria, ainda indefesa, por amor, existe a hora de deixá-la enfrentar as lições que cabe a vida ministrar, sozinho, também por amor, para não criar um fraco. O amor precisa da sabedoria para que possa melhor semear os desertos do mundo. Serve tanto para quem o oferece quanto para quem o recebe. Esta é a arte de ajudar os outros”.
A sobrinha disse não entender como aplicar essa teoria ao seu namoro com Geovani. O artesão enfatizou: “O mais importante é lembrar que o amor será sempre uma ferramenta de libertação para com todas as pessoas envolvidas, jamais de dominação”. Lydia pediu que ele fosse mais claro. O sapateiro prosseguiu: “Sempre desejamos o melhor para quem amamos. Então, oferecemos razões e fundamentos para iluminar o destino da pessoa amada. No entanto, não raro, o outro tem suas próprias convicções, desejos, sonhos e olhares. Aceite que ele tem direito a isto, a escrever a própria história, a traçar o roteiro da própria viagem e, mais, todos os anseios têm ligação direta com as lições que lhe cabem naquele momento da vida”.
Deu uma pequena pausa e continuou o raciocínio: “Este é o ponto em que as virtudes entram em campo. É preciso da humildade para entendermos que não somos senhores da verdade, tampouco administradores da vida alheia; temos as nossas limitações íntimas, muita coisa a aprender, entre elas, que as diferenças entre as pessoas são as oficinas adequadas à lapidação da humanidade”.
“A humildade também se faz primordial, ao lado da simplicidade, para não esquecer, em momento nenhum, que ajudar não nos torna superior a aquele a qual prestamos o auxílio. Todos, em algum momento da vida, necessitam de amparo, seja material, seja emocional. Todo cuidado é pouco para que a ajuda oferecida não seja exercício de vaidade, dispensando, com sinceridade, qualquer gesto de retorno. A gratidão não deve se tornar uma dívida. Nunca pode existir credores nem devedores para que seja uma ajuda de verdade. O amor apenas florescerá daquele ato se oferecido sem a imposição de condições, taxas ou impostos”.
“As virtudes da compaixão e da paciência também precisar estar presentes para lembrar que cada um apenas se movimenta na medida exata das suas capacidades, pois, não atravessar a porta pode significar uma eventual impossibilidade em vê-la e, mais, entre enxergar a porta e ter condições de ultrapassá-la existe uma enorme distância; cada qual ao seu tempo e passo, suas dores e delícias. A delicadeza é necessária para que a ajuda não seja um peso para quem a recebe. A sensatez será útil para saber a hora de começar, de parar e para estabelecer os devidos limites. Por fim, o respeito. Costumamos confundir esta sutil virtude com emoções atávicas, obsoletas e diversas, tais como temor ou reverência. Ao contrário do que muitos pensam, o respeito nada tem a ver com evitar ofensas e humilhações. Estas são situações rasas, facilmente dissolvidas e incapazes de atingir ao indivíduo que traz consigo as virtudes da humildade e da compaixão. A consideração que temos em relação a liberdade alheia é o perfeito espelho do entendimento que temos sobre nós mesmos. Respeito por si mesmo significa não conceder a ninguém nenhum poder sobre as próprias escolhas; de outro lado, e por consequência virtuosa, não exercer qualquer tipo de dominação sobre a vida alheia é o perfeito exercício do respeito para com o mundo”.
“Enfim, o detalhe mais importante é o detalhe mais esquecido: ajudar os outros não significa escolher por eles”.
“Quando for ajudar, afaste da mente a nefasta ideia de que ‘tem que ser do meu jeito ou não será’. Isto é a imposição da própria vontade sobre a vontade alheia. Deixa de ser ajuda e se torna subjugação. É comum errarmos quanto ao método apesar das nossas melhores intenções. Aconselhe, oriente, estenda mão, carregue no colo durante os momentos mais críticos da necessidade, incentive a alçar voos solos, pois a dignidade tem forte relação com as próprias asas. Nunca estabeleça qualquer relação de subordinação para que a ajuda seja real e verdadeira. Ajude material e financeiramente quando preciso, tendo em mente que a caridade afetiva é extremamente mais rara e valiosa. Não tenha dúvida de que um abraço ou a disponibilidade para uma conversa amigável é mais precioso do que um cheque. Acima de tudo, tenha em mente que os mais nobres andarilhos são os que percebem a necessidade de ajuda alheia sem que seja preciso rogá-la. Ajude sempre em silêncio, pois divulgar o auxílio não é amor, mas mero exibicionismo. De outro lado, aceite amorosamente quando o outro estiver fechado e se recusar a receber ajuda. Entenda, sem qualquer traço de ressentimento, que é um direito dele. Pode ser a falta de entendimento ou mesmo um momento de introspecção, quietude e silêncio, o inverno no qual o urso hiberna na escuridão da caverna para digerir todos os acontecimentos vividos e se preparar para a primavera da vida. Apenas mantenha a porta da sua casa e do seu coração abertos para caso ele mudar de ideia”.
A sobrinha comentou que nunca pensou que uma simples ajuda pudesse ser tão complexa. O sapateiro sorriu e disse: “A ajuda não é complexa, ao contrário, é bastante simples. No entanto é rica em virtudes e precisa, para se completar, estar despida de qualquer sombra. Entende porque o outro é fundamental em nossas vidas? O ato da caridade movimenta muitas virtudes e aperfeiçoa o ser. Este entendimento nos permite perceber que quem socorre acaba mais beneficiado do que aquele que recebeu a ajuda. Embora a plenitude, traduzida pelas conquistas da felicidade, da paz, da liberdade, do amor incondicional e da dignidade, seja uma construção interna, independente do mundo exterior, precisamos das pessoas para aprimorarmos as virtudes, que por sua vez, iluminarão as nossas escolhas, ferramentas únicas de evolução individual e, por consequência, planetária”.
Lydia argumentou que reconhecia o valor de tudo que o tio falara, mas persistia a dúvida de como proceder frente ao namorado, diante de tantas brigas e ofensas. Loureiro franziu as sobrancelhas e disse com seriedade: “Somos todos viajantes rumo às mais diversas estações, cada qual de acordo com a sua afinidade vibratória. Em razão desta sincronia energética e, também, por necessidade evolutiva, há momentos em que estaremos sós; noutros, acompanhados por seguir na mesma direção e ritmo. O importante é perceber o valor e a beleza de ambas as situações. Enquanto houver sintonia, estaremos juntos na estrada, quando em desafino, cada um deve seguir em busca das suas músicas, lições e sonhos. Assim o Caminho se perfaz de modo solitário e solidário, na perfeita lição de que não dependemos de ninguém para fazer o coração cantar melodias sinceras de amor e felicidade, porém, precisamos do outro para nos ajudar a afinar o instrumento pessoal, indispensável à grande sinfonia do universo: o espírito, a verdadeira identidade de cada um de nós”.
Arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Você é livre para ficar, mas também é livre para partir. Isto, claro, também vale para o Giovani. Essa é uma bela e simples lição: quando a decisão é boa para um sempre será para o outro; se houver incompreensão, será apenas momentânea, reflexo de um ego ainda desalinhado”.
“Apenas tome cuidado para não se enganar, disfarçando os seus desejos mais egoístas, de querer o outro ao seu lado a qualquer custo, sob a desculpa de ajudá-lo. O peso insuportável e doloroso das influências indevidas e, por isto, opressivas, sobre as escolhas alheias, trará, por reação inevitável, o sumiço da alegria. A leveza das relações, ainda que reste a saudade, revelando o amor que transmutou para outro estágio por ter atingido o seu limite, sempre será a escolha mais saudável e saborosa”. Piscou o olho para sobrinha e segredou: “Para ficar tem que ser bom; para partir também. Sempre existe uma escolha que tem o sagrado poder de nos tirar uma enorme mochila de pedras das costas. O seu coração sabe qual é. Tenha coragem para escutá-lo e seja feliz!”
Os olhos de Lydia estavam perdidos em um lugar distante. Sem dizer palavra, deu um forte abraço no tio e foi embora. Apesar do silêncio, eu tive a certeza de que ela ficou bem depois daquela conversa. O sorriso que levava no rosto não existia quando chegou.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Além do Fim do Túnel

Ao lado de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, buscávamos um restaurante que ainda servisse almoço no meio da tarde. Tinha chovido forte durante todo o dia. Aproveitamos a esteada para singrarmos as ruas estreitas e tortas da pequena e charmosa cidade localizada no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. As pesadas nuvens deixavam o céu escuro e fizeram com que os lampiões se acendessem mais cedo do que de costume. Conversávamos de maneira alegre e vadia, como dois amigos que se sentem felizes pelo simples fato de estarem juntos, enquanto desviávamos das poças d’água formadas no calçamento contruído com pedras seculares. Ao entrarmos no restaurante nos deparamos com Carlo, um amigo em comum. Tomamos um susto. Nem de longe parecia aquele homem confiante, bonito e bem cuidado que estávamos acostumados a ver. Tínhamos nos encontrado há menos de um mês e ele aparentava estar muito bem. Naquele dia era o reverso da pessoa que conhecíamos. Carlo estava abatido, encurvado, sem viço, parecia um espectro de si mesmo.
Nos recebeu com a alegria possível ao seu coração naquele momento. Nos convidou para sentar à mesa com ele e o acompanhar em uma taça de tinto. Perguntei se ele almoçaria conosco e a resposta foi negativa. Há dias estava sem apetite. Acrescentou que a sua vida tinha virado ao avesso de uma hora para outra. Carlo tinha um bom emprego; trabalhava na sede de uma multinacional situada em uma metrópole não muito distante, a apenas uma hora de trem. Na semana anterior, ao chegar na empresa foi chamado por um diretor e informado que haveria uma reformulação nos quadros funcionais. Alguns cargos seriam extintos, entre os quais, o seu. Nem lhe foi permitido voltar à sua sala; os seus pertences pessoais já estavam acondicionados em uma caixa, sendo entregues naquele instante. A verba rescisória seria depositada em sua conta bancária no dia seguinte. Passados alguns dias, a sua esposa, com quem esteve casado por quase dez anos, comunicou o fim do matrimônio. Ela estava apaixonada por outra pessoa e, com a mala pronta, partiu em seguida.
Acrescentou que se sentia no fundo do poço. A vida estava escura e, pior, não havia qualquer sinal de que uma luz pudesse se acender. Imediatamente, tentei animá-lo com um conhecido discurso de superação, do tipo “agora é pegar o impulso no fundo para retornar à tona”. Ele se confessou sem forças para superar aquele momento e reconstruir a sua vida. Foi quando Loureiro nos surpreendeu ao afirmar: “Por enquanto, o melhor é continuar no fundo do poço. Não é hora de voltar”.
Olhei para o sapateiro com censura, como quem pede um pouco de misericórdia. Carlo se espantou e chegou a pensar se tratar de uma brincadeira, claramente inoportuna. Loureiro começou a construir o seu raciocínio: “O mundo somente se desmorona quando a alma está desequilibrada”.
“Se ele tomar impulso no fundo para voltar agora, retornará no mesmo estágio em que se encontrava, ou pior, alimentado por mágoas e desejos vingança ao transferir a terceiros a razão da sua queda”.
Interrompi para argumentar que a inércia, neste momento, poderia estimular os mesmos sentimentos sombrios ou engatilhar um processo de tristeza e depressão. O sapateiro sacudiu a cabeça e explicou: “O fundo do poço pode ser visto com sordidez por muitos, porém, com a devida atenção e calma, pode ser abraçado como um lugar de silêncio e quietude, propício para a reflexão e a meditação. A oportunidade perfeita para entender quais as escolhas equivocadas que o levaram até lá”.
Tornei a interromper para dizer que era um absurdo acreditar que alguém fosse ao fundo do poço por livre e espontânea vontade. Carlo me olhou como se eu falasse por ele. O sapateiro não perdeu a calma e foi pedagógico: “Esse é o perigo do Carlo retornar agora à tona. Provavelmente voltará do mesmo jeito, na ilusão de que foi empurrado pelos outros. As tempestades apenas existem para corrigir as rotas dos marinheiros que ainda não sabem navegar”.
“Antes da tempestade o mar fica encrespado, o vento anuncia a mudança do tempo e o céu, ao longe, sinaliza com nuvens pesadas. Cabe a cada um, capitão da própria nau, manter ou mudar de direção. Assim, os naufrágios encontram aqueles que insistem em não ler os sinais. Porém, nada resta de todo perdido, pois os naufrágios acabam por formar os melhores navegadores; a vida é uma escola formadora de grandes mestres”. Deu uma pausa e concluiu: “Desde que se esteja disposto a aprender com ela”.
“O fundo do poço é sempre uma escolha de quem caiu”.
“A aceitação dessa realidade é o primeiro passo para afastar eventuais ressentimentos e a vitimização que tanto retarda a evolução. Enquanto o indivíduo acreditar que o responsável pelo seu sofrimento é outra pessoa, não iniciará o processo de transformação, cura e libertação da prisão em que se colocou”.
“Todos têm as mesmas condições de alcançar a plenitude, traduzida pelas conquistas da felicidade, da paz, da liberdade e da dignidade pessoais. Entender a queda é aprender quais os movimentos foram equivocados e, daí em diante, passar a fazer diferente e melhor. É permitir o florescimento de virtudes ainda em semente no âmago do ser”. Olhou para Carlo com sincera compaixão e disse: “Você pode interpretar o fundo do poço como maldade alheia, conspiração infame do universo e ansiar em voltar à tona com aura de super-herói. Aliás, este é o desejo mais comum e infantil, sempre movido por orgulho e vaidade em sonhos de vinganças vis e de poder efêmeros e inconsistentes”.
Esperou o garçom abrir a garrafa e encher as taças. Bebeu um gole e prosseguiu: “No entanto, pode, no fundo do poço, começar a construir um túnel. Nunca como fuga da realidade, mas em busca de uma nova realidade, com possibilidades nunca antes imaginadas. Voltar à tona, no mesmo lugar, reconstruir a vida sobre os mesmos alicerces, o mesmo padrão antigo de ser e viver, é perpetuar a estagnação através de outra roupagem. É preciso conhecer as possibilidades que estão além do fim do túnel para que haja transformação efetiva e verdadeira. Caso contrário, viveremos a maldição de Sísifo, o mito grego, que empurra todos os dias uma grande pedra para o alto de uma montanha, da mesma maneira, que quando próxima ao cume, teima em rolar para baixo, em constante repetição, fadado ao insucesso. O fim do poço tem que ser o início do túnel a permitir alcançar a luz desconhecida, de um jeito diverso do anterior, com verdadeiro avanço íntimo”.
“É hora da humildade e da determinação, duas preciosas virtudes. O fundo do poço, em razão do silêncio e da quietude, é o lugar ideal para ficar frente a frente consigo mesmo, em perfeito espelho, sem a distorção das máscaras que criamos para aceitação social, longe dos personagens que inventamos para sustentar as sombras do orgulho e da vaidade, sem a fuga da responsabilidade pela própria felicidade, sem as distrações rasas que têm apenas o intuito de adiar esse importante encontro marcado: saber quem somos de verdade, gatilho das grandes transformações”.
“O indivíduo que sabe realmente quem é traz para si todo o poder da vida, se torna capaz de superar as mais duras dificuldades; em contrapartida, aquele que se desconhece será sempre uma pessoa frágil, necessitada de artifícios aparentes de ilusão, vulnerável às menores decepções. O autoconhecimento permite entender a sua capacidade e as virtudes que já possui para fazer um bom uso delas. Reconhece, também, as imperfeições ainda existentes e as virtudes que faltam germinar, instrumentos imprescindíveis à evolução. Humildade e determinação são os ventos impulsionadores dessa travessia, da busca pelo tesouro escondido a espera de ser revelado em prol de si mesmo e para o mundo. Se soubermos fazer a leitura correta do mapa da vida, perceberemos que o fundo do poço é a permissão amorosa para o início de uma viagem a um maravilhoso mundo desconhecido, tão longe e tão perto. O próprio coração; a essência do ser e a semente sagrada do universo”.
Reclamei, entre irritado e incrédulo, com a dureza de Loureiro para com o nosso amigo. Carlo concordou comigo e disse que não merecia aquele tratamento por parte do sapateiro, se levantou e saiu. O artesão manteve o semblante sereno e, diante do meu olhar inquiridor, deu de ombros e disse: “Sei que fui duro com ele, mas fiz o que penso ser melhor. Sem transformação não há avanço. A verdade pode ser um açoite que fere; então, dói. Ou o bálsamo que cura; então, liberta. Depende do sentimento de quem a profere; movimentei-me por amor”.
Passaram-se vários meses sem que tivéssemos qualquer notícia de Carlo. Certo dia, estávamos almoçando no mesmo restaurante quando fomos surpreendidos pela sua chegada. Ele estava muito diferente do homem que era nos dois momentos anteriores da sua vida. Nem era o arrumado executivo da multinacional nem o homem alquebrado no fundo do poço. Tinha uma elegância informal e estava mais bonito do que sempre. Usava uma barba bem aparada, calça jeans acompanhada de uma bela camisa, um par de tênis e, mais importante, um sorriso indescritível no rosto. Abriu os braços quando nos viu e pediu para sentar à mesa conosco. Comentei da boa coincidência de nos encontrarmos no mesmo restaurante. Ele explicou que não havia nenhum acaso nisso. O dono era um velho conhecido que, a pedido seu, avisou que estávamos lá. Era importante que fosse no mesmo lugar, pois aquele encontro havia sido angular em sua vida.
Precisava agradecer ao sapateiro por suas palavras firmes. Com lágrimas nos olhos, confessou que na época recebeu de outras pessoas, todas bem-intencionadas, palavras por demais açucaradas, porém, estéreis. Reconhecia que o discurso de vítima estava lhe estimulando à fraqueza, a tristeza e, por consequência, a estagnação. A firmeza da retórica do artesão o acordou do sono sombrio da acomodação e do desvio de responsabilidade. Se a vida era sua, logo, cabia a ele escrever a própria história, dentro das possibilidades possíveis de superação a serem alcançadas com o devido esforço. Sem culpa, pois agiu com o nível de consciência que possuía na época, mas com o compromisso pessoal de fazer diferente e melhor dali em diante. Somente assim foi possível assumir o protagonismo da própria vida. Entrar para a vida adulta não era apenas arrumar um emprego e casar, mas atingir a maturidade. Falou que no início foi muito difícil, mas depois percebeu que o abandono que sentia, na verdade, era a fantástica chance de assumir o controle da própria vida, sempre postergado pelo fato de culpar os outros pelos seus insucessos e decepções. Aceitou que era a hora de ser sincero consigo ou não sairia da infância da existência. Acrescentou que a vitimização é cômoda, mas acovarda o indivíduo e impede o seu crescimento. A maturidade se traduz em aceitar a responsabilidade pelas suas escolhas, aprender com elas e seguir adiante, a cada dia, com um jeito diferente e melhor de ser.
Em seguida, confessou que, pelo fato de trabalhar há muitos anos naquela multinacional, criara um mecanismo que distribuía aos outros funcionários muitas de suas funções, até que, por isto, se tornou dispensável. Na verdade, inconscientemente, ele é quem tinha provocado a sua demissão por mostrar a própria desnecessidade do cargo que ocupava. O contrário provavelmente aconteceria se tivesse ido além, ao se fazer essencial. Disse que também se acomodara em relação ao casamento. Em algum momento desistira de manter acesa a chama do afeto que o unira à esposa, sendo natural que ela acabasse se desinteressando pela relação e surgisse uma lacuna a ser ocupada. Para ser sincero, em ambos os casos, eram ciclos que ele já poderia ter encerrado de maneira mais honesta, seja consigo, seja com os outros. No fundo, a dor que sentiu era apenas fruto do orgulho ao ser dispensado, seja pela esposa, seja pela empresa. No momento que se mostrou disposto a trabalhar isto em si mesmo, entendeu que aquilo que acreditava ser o fundo do poço, era o princípio do túnel que lhe permitiu uma busca, então, impensada. Ao invés de retornar à tona, como era a vontade inicial, descobriu um novo lugar, onde havia muito mais luz. Contou que nesse processo, à medida em que se conhecia, se transformava e tudo ao redor também mudava. Os interesses, as vontades e as escolhas ficaram diferentes. O que antes era primordial, passou a não fazer qualquer sentido. Revelou que como sempre fora apaixonado por motocicletas, tinha aberto uma pequena oficina na garagem da sua casa. Lá conhecera uma moça, também amante dos motores, com quem começou a sair. O namoro e o negócio estavam engatinhando, o dinheiro ainda era curto e limitado, mas os passeios que fazia de motocicleta com a namorada nos fins de semana eram longos e deliciosos. Confessou que nunca se sentira tão livre e leve. Vivia cada vez mais em sintonia com a sua essência e isto o fazia feliz. Ao contrário de antes, agora, todos os dias, acordava bastante animado com a vida. Se tudo desse errado, tinha aprendido as possibilidades ilimitadas de sobreviver, tinha entendido a força incomensurável que trazia dentro de si e, agora, sabia que poderia recomeçar tantas vezes quantas fossem necessárias. O fundo do poço tinha sido uma bênção.
Carlo chamou o garçom. Pediu o cardápio, iria almoçar conosco. Estava com fome. Fome de viver, acrescentou. Rimos. Aproveitou para agradecer ao artesão pela conversa do outro dia. Disse que tinha a sensação de que os argumentos usados pelo sapateiro, de alguma maneira, já rondavam pela sua vizinhança. Faltava abrir as cortinas para que ele pudesse vê-los com clareza e os convidar para entrar. Loureiro concordou: “Sim, é como se eles estivessem adormecidos e o nosso papo apenas os despertou, pois do contrário, ainda seriam refutados pelo tempo necessário para amadurecerem no inconsciente até serem levados ao consciente. Assim expandimos o nosso nível de percepção e mudamos a própria vida”.
Carlo acrescentou que aquilo que parecia um triste fim, agora se mostrava como o início de uma bonita jornada. Loureiro sorriu e finalizou: “Embora não seja uma regra, por vezes, no fundo do poço, a depender do comportamento de quem caiu, se abre um túnel que permite ir além. Ir além de si mesmo. É quando se abre o primeiro portal do Caminho. O indigente se transforma em andarilho. Então, tudo se transforma. Para sempre”.

domingo, 17 de setembro de 2017

O Sal da Terra

Encontrei o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, por acaso, do lado de fora dos muros do mosteiro. Ele voltava de um passeio na floresta localizada no arredor. Como havia chovido nos dias anteriores e o sol reaparecera, aquela manhã estava perfeita para a colheita dos cogumelos que germinam aos pés dos carvalhos. Provavelmente, à noite, teríamos a sua famosa sopa. Eu tinha saído para fumar um cigarro. Como sempre, o monge estava bem-humorado, no bom equilíbrio entre a alegria e a serenidade. Cumprimentou-me com um sorriso sincero, mostrou a cesta repleta de cogumelos e comentou que a colheita tinha sido proveitosa. Não teceu qualquer comentário a respeito do cigarro. Quando ele fez menção de prosseguir para atravessar os portões do mosteiro, eu comentei que voltara a fumar para não me suicidar. O Velho apenas comentou: “Trágico, não”? E seguiu. Logo adiante, deu uma pequena parada, se virou e disse: “Estarei na cantina”. Piscou um olho como quem conta um segredo e falou: “Ouvi dizer que um bom café é perfeito após o cigarro”. E tornou a seguir. Com os olhos acompanhei os seus passos lentos, porém, firmes, até desaparecer por entre os muros.
Fumei o cigarro até não restar mais nada. Fiquei irritado com a postura do monge, que considerei desatenciosa com a minha dor. A minha cabeça estava tomada por um torvelinho de ideias desencontradas. Nenhuma tinha força para me alegrar. Encontrei com o Velho na cantina. Ele estava sentado na última cadeira da enorme mesa coletiva. Sozinho, parecia distraído com os seus pensamentos diante de uma xícara de café e um pedaço generoso de bolo de aveia, acompanhado de uma grossa fatia do delicioso queijo produzido na região. Cheguei na ofensiva. Acusei-o pela insensibilidade de fazer pouco do meu sofrimento. Nem mesmo a possibilidade de cometer um suicídio o comoveu. O Velho me olhou com doçura, fez sinal com o queixo para eu me sentar ao seu lado, se levantou e trouxe uma caneca cheia de café para mim. Tornou a se acomodar e disse: “O drama é para os fracos”, deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Cada um tem os problemas na perfeita medida das lições de que precisa, nem mais nem menos. Não perca tempo com lamentações estéreis e cenas inúteis. Ao invés disto, aproveite a chance oferecida para aprender e se transformar”. Bebeu um gole de café e prosseguiu: “No mais, não precisa se comportar como um menino que foi pego em plena travessura. Você conhece todas os malefícios que envolvem o cigarro e tem plenas condições de fazer as suas escolhas. Acredite, não há qualquer recriminação da minha parte. Fumar fora do mosteiro é um direito seu que não diz respeito a ninguém. Portanto, relaxe. Não fumo porque não gosto e quero aproveitar de maneira saudável o meu lapso de tempo nesta existência; é uma das maneiras que tenho de agradecer e respeitar o universo por esta oportunidade. Além disso, outro motivo pelo qual não fumo, é para não perder o paladar. Ficar sem o sabor dos alimentos deve ser ruim; perder o gosto pela vida é a tristeza maior”.
Em seguida, me lembrou que éramos membros da Ordem Esotérica dos Monges da Montanha – OEMM – e este nome não era pelo mero fato de o mosteiro se localizar no alto de uma montanha, mas por ser o Sermão da Montanha o eixo principal de nossos estudos. Este valioso legado filosófico tem a profundidade que cada um estiver disposto a mergulhar. Virou-se para mim e citou de cor um dos trechos: “‘Você é o sal da terra. Se o sal perde o sabor, o que restará? Perde-se o sentido da vida’”.
Sem confessar que, de fato, tinha ficado sem graça por ter sido pego fumando, falei que não havia entendido a ligação entre o trecho do texto e o meu atual momento de vida. O Velho manteve a paciência: “No plano físico o sal é o principal tempero dos alimentos. Como tudo na vida, o equilíbrio se faz necessário. Uma comida bem temperada se torna mais saborosa; com sal em excesso fica intragável; sem sal restará insossa e despida de qualquer interesse. Em metáfora perfeita, assim é na esfera espiritual: o sal da vida é a disposição, o ânimo, a alegria pelo aprendizado, pelo aperfeiçoamento pessoal, pelo compartilhamento das virtudes que adquirimos aos poucos, pela beleza do Caminho, mesmo entre flores e espinhos. Pela percepção do amor e da sabedoria do universo ao se movimentar dentro da gente, tanto na construção de um mundo melhor, quanto na formação do mestre que um dia seremos”. O uso harmonioso do sal é necessário tanto na cozinha quanto na vida: em sua ausência, perdemos o gosto pela busca e atolamos no charco do desânimo e da agonia; em excesso, seremos atrapalhados pelas brumas que impedem o melhor olhar, descambando no precipício do fanatismo”.
“Ser o sal da terra é compartilhar a alegria e a esperança que mantemos vivas dentro da gente; é se movimentar com a convicção que trazemos na alma todo o poder do universo, pois já conseguimos sentir isto, e esta força precisa se manifestar através das nossas escolhas. Caminhar livre e em paz é o exemplo que ajudará a temperar o mundo”. Mordiscou um pedaço de bolo e continuou: “Deixar de ser o sal da terra é o outro lado, uma das faces sombrias da existência. Equivale a se perder no Caminho, restar sem rumo, desencontrar de si mesmo, restar aprisionado no quarto escuro da inércia e dos medos descabidos”.
“Convém lembrar que na época em que o discurso foi proferido, o sal era o método usado para a conservação dos alimentos. Não é diferente no plano espiritual, somos os responsáveis por manter acesos os princípios dignos da vida, os valores nobres da luz, a essência divina do ser, revelando nas atitudes corriqueiras do cotidiano o sagrado que está oculto em todas as coisas; é encontrar a beleza de toda a gente. Ser o sal da terra é conservar os seus sonhos mais lindos apesar de todas as dificuldades inerentes ao Caminho”.
Tentei impedir o choro, mas não consegui. O Velho esperou pacientemente que eu parasse de chorar e brincou: “Prove as suas lágrimas, elas têm sal”. Ri enquanto soluçava. Ele prosseguiu: “Os suicidas não têm por costume avisar sobre o ato de desespero e escuridão que cometerão. No entanto, aqueles que se sentem desamparados e, em última análise, precisam de atenção, costumam usar esse artifício infantil”. Eu confessei que não sabia como lidar com os meus problemas. Ele sugeriu: “Fale; exteriorize todos os seus sentimentos, toda a sua dor, todos os fatos que o oprimem”. Perguntei se ele me ajudaria. A resposta foi doce e sincera: “Não sei se poderei ajudá-lo. Apenas sei que você, mais do que qualquer outra pessoa, possui tamanho poder para ajudar a si mesmo. Toda a luz da qual precisa está adormecida em seu âmago. É preciso acendê-la. Ao falar, você irá ouvir a sua própria voz, as suas razões, o tom das emoções e a insensatez que o alimenta. É um ótimo exercício. Perceberá, também, que enquanto transferir a outros a responsabilidade pela sua felicidade, estará adiando e abdicando do poder que possui sobre a própria vida. Isto fará com que comece a entender quem você é e as transformações que precisa operar em si mesmo. Apenas assim a vida se modifica de verdade”. Eu quis saber se existia outro método para eu não me expor tanto. O Velho aquiesceu com a cabeça: “Sim, a meditação é outra maneira eficiente de chegar ao mesmo resultado. A escolha será sempre sua”.
Confessei uma certa vergonha de expor as minha mazelas e preocupações. O monge franziu as sobrancelhas e disse: “A simplicidade é a virtude de nos aceitarmos do jeito que somos, sem subterfúgios, personagens ou medo. A simplicidade é o poder da transparência, uma poderosa ferramenta para as transformações necessárias ao ser”. Pausou por instante e ofereceu: “Caso queira, estou aqui para ouvir”.
Imediatamente comecei a derramar todas as minhas agonias e sofrimentos. Expliquei como estava insatisfeito com a minha vida profissional e o no meu relacionamento afetivo, que depois de anos, me parecia insuportável. Como era de esperar, culpei os sócios e a namorada pelas minhas dores. Acusei-os de teimosia ao insistirem em agir erradamente, cada qual da sua maneira e com as suas motivações e deficiências. Falei até cansar. O Velho tornou a encher as nossas canecas com café, me ofereceu um olhar bondoso, e disse: “Consegue ver as limitações alheias com muita precisão, não? E quanto às suas próprias dificuldades? Não ouvi sequer uma única palavra. A transferência de responsabilidade sobre a própria felicidade é uma sombra ardilosa e tentadora. É muito cômodo culparmos os outros ou lamentarmos a falta de sorte para justificar o nosso sofrimento. Todas as vezes em que caímos nessa esparrela, abdicamos do sal da vida”.
“Os outros são como têm que ser, com suas dores e delícias, cada um em sua busca, com o nível de consciência e capacidade amorosa que possuem no momento. Ninguém tem a obrigação de se modificar para se encaixar em nossos desejos ou necessidades. Você não precisa de ninguém para ser feliz. Entender este conceito é o primeiro passo para se permitir as asas da liberdade. No entanto, não podemos esquecer que os relacionamentos pessoais são imprescindíveis como oficinas de aperfeiçoamento, pois as dificuldades opostas e as decepções provocadas pelo mundo são eficientes ferramentas utilizadas no processo evolutivo, por nos movimentar e nos reinventar, sempre com um jeito diferente e melhor de ser e viver. Justo as enormes dificuldades e limitações alheias me levarão a entender quais virtudes ainda estão adormecidas em mim e que necessitam florescer, assim como os cogumelos precisam das noites de chuva para germinarem ao sol da manhã. O outro se faz indispensável para que eu possa acender e compartilhar toda a luz que existe em mim, pois o que ainda não consigo dividir, em verdade, não tenho nem sou. Assim, benditas sejam as frustrações! Perceber isto é construir o jardim da paz onde antes existia um campo de batalha”. Sorriu e concluiu: “Dentro do próprio coração”.
Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Quebrei o silêncio para me confessar uma pessoa fraca. Admiti que me sentia sem forças para ultrapassar as barreiras que se apresentavam em minha vida. O Velho franziu as sobrancelhas, como fazia quando aumentava o tom de seriedade, e disse: “O sal da terra tem a sua genesis no autoconhecimento. Esta é a fonte no qual todo o poder se alimenta, é a raiz da magia da vida”. Deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Quanto mais uma pessoa se conhece, de verdade, mais forte ela se torna. O contrário também é verdadeiro, atrasando a jornada do indivíduo nas paisagens da ilusão, das desculpas e lamúrias. O insucesso pode ser uma pá de cal a enterrar um sonho ou um poderoso adubo a impulsioná-lo; a escolha será sempre sua”.
“Aceitar quem você é sem subterfúgios e mentiras, mas com a responsabilidade e o ânimo de se aperfeiçoar, concede o poder de modificar tudo ao seu redor na medida que transformar a si mesmo. O método mais eficiente de escalar os obstáculos da existência é com o burilamento das virtudes no ser. As virtudes são os elementos da luz que dissiparão a escuridão; elas mostram que os muros mais altos podem se tornar da altura de um risco de giz no chão”.
Arqueou os lábios em leve sorriso e elencou algumas possibilidades: “Humildade e simplicidade para admitir a perfeição que ainda não possuímos e, portanto, não podemos exigir dos outros; compaixão para com as dificuldades e limites alheios; misericórdia para abraçar o mundo e extinguir as indiferenças; pureza e justiça para estancar a maldade em si mesmo; delicadeza, bondade e paciência a qualquer instante; coragem, esperança e fé para seguir em frente; amor para iluminar todos os cantos escuros que encontrar”. Ficou com o olhar distante por algum tempo e complementou: “As possibilidades de aplicar as virtudes como instrumentos de superação e evolução são infinitas”. Mirou-me nos olhos e sugeriu: “Invente as suas e seja feliz, Yoskhaz. Não desperdice o sal da terra”!
Em seguida, o Velho pediu licença dizendo que estava na hora da sua meditação e se retirou. Antes, porém, bebeu todo o café da sua caneca, deu de ombros e aconselhou como quem não tem maiores pretensões: “Beba sempre até o final”. Na hora não entendi este último comentário. Fiquei sentado na cantina por um tempo que não sei precisar. Somente, então, percebi algo que nunca tinha reparado: que todas as xícaras do mosteiro tinham um coração insculpido no fundo, visível apenas quando estavam vazias. Sorri sozinho. Em seguida gargalhei, comecei a bailar em volta da mesa e abençoei o Velho por sua saudável loucura. Entendi que se eu fosse ao fundo de mim mesmo, me esvaziasse dos condicionamentos, ideias e sentimentos turvos, enxergaria o que nunca tinha visto: o meu próprio coração. Ali está o poder da vida; ali brota o sal da terra”.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Aqui e Agora

Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encheu as nossas canecas com café fresco para iniciarmos uma conversa vadia quando fomos surpreendidos por Zinedine, um simpático artista plástico local, que se dedicava a esculpir peças em bronze. Embora tivesse talento e sensibilidade, a maior parte das suas obras estavam inacabadas. Ora porque enquanto esculpia uma peça era tomado por outra ideia, que considerava melhor, e abandonava a anterior; noutras vezes largava o trabalho no meio por não o considerar suficientemente bom. O tempo parecia lhe passar com rapidez, esgotando a herança deixada pela família. Tinha grande urgência de que a arte passasse a ser também um ofício e fonte do seu sustento, fato que o deixava cada vez mais agoniado. Contou que acabara de chegar de uma viagem e, embora tivesse sido bem agradável, confessou que a partir de determinado momento sentiu saudades de casa. Ocorre que passados alguns dias do regresso, já tinha sido tomado por uma enorme vontade em tornar a viajar. Loureiro ofereceu a ele uma xícara de café e disse: “Viajar pode ter um efeito parecido a renovar o guarda-roupa da alma ao nos depararmos com outras culturas: maneiras diferentes de ser na vida e estar no mundo. Isto amplia as possibilidades e indica rumos nunca antes imaginados, o que é maravilhoso. Como somente sentimos saudades do que é bom, revela que em casa introduzimos ao cotidiano os hábitos que nos agradam e alegram. Se ao estar fora, depois de um determinado momento, você não sente falta da sua casa e rotina, revela que há algo de errado em suas escolhas ou que ainda não sabe onde é a sua casa nem entendeu a rotina que deve construir para si. A viagem tem o poder de nos revelar o caminho de casa”, deu uma pequena pausa antes de concluir: “Em todos os sentidos”.
Zinedine argumentou que possuía a natureza inquieta. Quando estava aqui queria estar ali e vice-versa. Admitiu que nunca estava totalmente à vontade em um local, pois quando estava em casa trabalhando lembrava das delícias de descobrir uma nova cidade e os hábitos do seu povo; quando viajava sentia vontade de voltar para inserir em suas obras as maravilhas do mundo e da vida que tinham sido descortinadas. Loureiro comentou: “O movimento é gratificante quando dirigido pela necessidade consciente da busca por si mesmo; quando desorientado, o indivíduo se move em sentido contrário, atrás de distrações e fugas que adiem o encontro mais importante de sua vida, aquele que cedo ou tarde terá consigo próprio. Não raro, se torna uma pessoa impaciente. Então, é hora da introspecção e da quietude, um movimento que fazemos para dentro; a viagem interior capaz de nos revelar diferentes maravilhas, de um encanto sem igual, que não encontraremos em nenhum outro lugar do mundo”.
“Há os se sentem bem em fincar raízes como árvores milenares. Outros ficam à vontade em flanar como o vento levando e trazendo os perfumes de outras estações e dimensões. Existem os que circulam como as águas conduzindo pessoas em suas correntes e fertilizando as terras por onde passam. Alguns se comportam como o fogo para destruir as velhas formas e a forjar o aço de uma nova realidade”. Bebeu um gole de café e acrescentou: “Não estranhe se ora você for de um jeito e, em outros momentos, de outro. O importante é entender que cada qual é único e todos são essenciais; nisto reside a beleza da vida”.
“Quando o movimento se torna de dentro para fora as escolhas são serenas e alegres, na percepção do aprimoramento pessoal, no florescimento das virtudes, da conquista da liberdade, da paz e da plenitude ao refletir a evolução interna no embelezamento planetário. Ao se deixar levar pelo movimento contrário, o condicionamento imposto pelo atual estágio da humanidade alimentará as sombras do orgulho e da vaidade a direcionarem as escolhas pessoais. A falta de profundidade torna efêmera todas as situações e pessoas, criando no indivíduo a necessidade de reabastecimentos cada vez mais frequentes em forma de purpurina e aplausos para maquiar uma existência baseada nas tintas de uma casca vibrante, sem qualquer entendimento quanto ao valor da semente adormecida no âmago. O moto-contínuo dessa fome frenética e voraz estimulará a ansiedade em um primeiro momento, que quando expandida ao máximo, cede a vez à agonia e à depressão”.
“A falta de entendimento sobre a essência de si mesmo gera a insatisfação em relação a tudo que o cerca, bagunça o coração, bloqueia a mente e oculta o caminho de volta para casa ao adiar o devido alinhamento entre o ego e a alma, tornando ainda mais dolorosa a batalha do ser dividido. Para esses, o mundo nunca será um bom lugar para viver, por mais luxuoso que seja o castelo de cimento e tijolos por eles habitado”.
Inteligente, o artista plástico perguntou se o sapateiro usava aquele discurso como uma maneira indireta de explicar o fato de ele, Zinedine, nunca se sentir satisfeito onde estava ou por deixar as suas obras inacabadas ao iniciar a construção de outras. Loureiro franziu as sobrancelhas e disse: “Se você não sabe o que quer dizer nenhuma palavra fará sentido nem trará clareza; se não sabe onde deseja estar, nenhuma casa se tornará um lar”. O artista argumentou que em sua cabeça polvilhavam muitas ideias e ele ficava em dúvida sobre qual delas era a melhor. O sapateiro tentou explicar: “Todas as ideias são boas, depende apenas da maneira como será trabalhada. Todos os assuntos podem tocar no coração das pessoas, basta a abordagem adequada”.
“Quando começar algo, prossiga. Desmanche, recomece, insista. Aprenda com as dificuldades. Refaça, apare, burile, aperfeiçoe. Vá, volte e retorne a ir. Nada está pronto, tudo está por fazer e carece de chegar ao final”.
“O importante é ser por inteiro onde quer que esteja, em absoluta intensidade com toda a magia oferecida pelo momento. Quando faço um sapato, algumas vezes faço apenas um sapato; noutras consigo aproveitar a oportunidade para transformar o couro como arte circulante em pés alheios. A diferença será o quanto do meu coração foi depositado naquele trabalho”. Tornou a beber um gole de café e comentou: “Uma folha de papel pode servir para embrulhar o pão, escrever uma poesia, virar um origami ou ser apenas uma folha de papel. A sua mente poderá levá-lo até a esquina ou a lugares fantásticos, depende apenas do quanto de você mesmo for ofertado em cada olhar e gesto”.
“Independente da situação, quando olhamos e agimos com amor o universo se manifesta em luz”.
“Assim é o fato de sempre desejar estar em outro lugar, diferente daquele no qual se encontra. Enquanto eu não entender quem sou não saberei onde estou. Sem referências sobre a minha direção pessoal não entenderei o sentido do Caminho. Penso no táxi de Londres quando estou no metrô de Tóquio; desejo um restaurante de Nova Iorque enquanto almoço no mercado em Istambul. Acabo por desperdiçar o tesouro da existência”. O artista plástico quis saber sobre esta riqueza referida pelo sapateiro. Loureiro disse: “É uma valiosa sabedoria ensinada pelo budismo, que de tão antiga, muitos a julgam obsoleta”, arqueou os lábios em leve sorriso e acrescentou: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”.
“Independente de onde estiver, aqui estão as suas lições e o mel da vida. Agora é a hora de oferecer o seu melhor, de fazer diferente e ser feliz. Não existe nenhum outro lugar ou momento”.
“A espera nem sempre significa paciência. Movimento nem sempre se traduz em transformação. Ansiamos tanto pelo porto seguro que esquecemos que a vida acontece nos mares da travessia. Desperdiçamos a fila do ônibus, o supermercado lotado, a criança chorando, o faminto que pede pão, o amigo problemático, os parentes encrenqueiros, a difícil e bonita luta pela sobrevivência, sementes de todas as lições. Afinal, no desejo pelo paraíso, onde não exista nenhuma dessas chateações, perdemos a vida na espera da hora ideal e do lugar perfeito. A luz é um dom latente no ser; a queremos, mas nem sempre percebemos o véu que a esconde diante dos nossos olhos. Por ansiar pela obra pronta esquecemos das ferramentas oferecidas, da responsabilidade como criaturas e da alegria por participar da criação”.
“O momento certo e o lugar adequado será sempre onde estiver o seu coração. E ele apenas pode estar aqui e ser agora”.
Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Foi Zinedine quem rompeu o silêncio ao perguntar se o sapateiro o aconselhava permanecer com uma ideia ou em determinado lugar mesmo quando não mais estivesse satisfeito. Loureiro balançou a cabeça e respondeu: “Em absoluto. A insatisfação é o primeiro sinal da necessidade de mudança. Ninguém é obrigado a nada. As escolhas são e precisam ser livres para que possam nos traduzir e conduzir pelo Caminho. A liberdade é uma ferramenta indispensável às mutações. Independente de ir ou ficar, permanecer ou trocar, apenas não devemos nos comportar de maneira superficial e volúvel. Lembre que lições estão ocultas nos problemas. O importante é aproveitar a situação vivida aqui e agora com a máxima intensidade, se colocar por inteiro no momento para que ele possa se preencher, expandir até o limite e, então, transmutar em outra possibilidade nunca antes imaginada”. Abaixou a cabeça e sussurrou como quem conta um segredo: “Então, a luz”. Bebeu o último gole de café e finalizou: “Fora do aqui e agora não existe vida, apenas um espectro de vida”.
Zinedine fechou os olhos e sorriu em agradecimento.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

As Sutilezas Da Verdade.


O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.
O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.
“A verdade é terapia essencial de cura. Impossível atravessar o Caminho sem nos aliarmos a ela. Somente a verdade ilumina as feridas que tanto incomodam, mas ainda não diagnosticamos”.
“Todavia, a escolha das palavras, a maneira e o momento de falar são posologias desse valioso remédio. Não podemos nos reportar a todos de um único jeito ou na mesma hora. Alguns já são capazes de suportar doses maiores, em outros, temos que começar ministrando pequenas gotas, para que não haja rejeição, casos em que almas embrutecidas e despreparadas entram em colapso e se negam a prosseguir em tratamento de cura”. Deu uma pequena pausa e disse: “Lembre-se que a verdade absoluta nos aguarda em estação distante. Ela vai se apresentando passo a passo, para todos, sem distinção, na medida do andar e do ritmo de cada um no Caminho. Não é diferente para mim ou para você”, disse o Velho.
Contrariado, provoquei dizendo que, em alguns casos, talvez fosse melhor mentir. Ele arqueou os lábios em leve sorriso ao perceber a minha intenção e falou sem perder a calma: “Penso que jamais devemos mentir. A mentira sempre será um elemento da escuridão por enevoar a realidade, iludir o andarilho e atrasar a viagem. A mentira é uma profunda falta de respeito tanto para o autor quanto ao destinatário”.
“No entanto, você deve ter a exata dimensão de qual sentimento te move antes de proferir qualquer palavra. A sua intenção é usar a verdade para curar ou para ferir? Não raro vejo a verdade sendo usada apenas para impor sofrimento, sem qualquer função educativa. Casos, estes, em que é melhor calar. Não se esqueça que sempre poderemos utilizar uma boa ferramenta para o bem ou para mal. Usa-se o martelo tanto na construção quanto na demolição”.
Naquele momento me senti desorientado e confessei que não sabia como agir em situações, por vezes, bastante delicadas. O monge tinha a pele bastante vincada pelo tempo, marcas de muitas lutas, que serviam de interessante moldura para os seus olhos, ainda brilhantes e repletos de bondade. Ele disse com seu tom de voz sempre sereno: “Assim como não podemos revelar todo o conhecimento para uma criança que acaba de entrar no colégio, por ela precisar de maturidade e aprendizado sobre certas disciplinas para entender outras de maior complexidade, muitos de nós ainda estamos na infância da alma. É inútil ensinar o cálculo de uma raiz quadrada para alguém que ainda não domina as quatro operações básicas. A pedagogia de ensino para um universitário é diversa para aquele que ainda está nas classes primárias. Para cada qual a lição exata, a medida e a maneira de revelar a verdade, de acordo com a capacidade de percepção do aprendiz”.
O Velho segurou em meu braço e me fez caminhar com ele pelo jardim enquanto continuava a falar: “Como poderosa lanterna, a verdade traz o poder de mostrar as sombras que nos habitam e dominam. Estas são as feridas que precisam de medicamento e cura. Nem sempre é agradável ver. Há que se ter coragem e, acima de tudo, temos que estar prontos para enfrentar um inimigo sagaz: cada qual na tentativa de iludir a si próprio sobre a justificativa de seus erros. Nossas sombras iludem a consciência, pois para sobreviver se fingem protetoras a manipular o ego, que por defesa repudiará a verdade”.
“A verdade é um instrumento que deve ser bem aproveitado tamanho é o seu valor. Por sua sutileza, deve ser afinado pelo diapasão do coração, dedilhado com a sensibilidade da sabedoria. Sem esquecer que não se compõe uma sinfonia em um único dia. Yoskhaz, a paciência é uma bela e indispensável virtude, companheira inseparável da verdade”.
Ainda tentando alocar as ideias em minha mente, citei uma expressão popular que diz que ‘a ignorância protege’. O Velho riu com vontade e depois me disse: “A ignorância nunca protege, apenas ilude e aprisiona em falsa sensação de segurança. É como manter um pássaro em uma gaiola sob a alegação de resguardá-lo dos perigos do mundo. É como se o desconhecimento da existência de um problema o fizesse desparecer. É como se o fato de esconder a doença de um paciente fosse capaz de levá-lo à cura. Enfim, pura bobagem”!
Deu uma pequena pausa e finalizou: “A verdade é a ponte necessária para alcançarmos a imensidão da liberdade e a grandeza da justiça. Sem aquela não teremos estas. Essa ponte está à disposição de todos, mas não fácil percorrê-la. Alta e extensa, é preciso coragem para atravessar sobre o enorme abismo das atraentes sombras; delicada e sutil, necessita de sabedoria para abdicar de muitas coisas tangíveis, que tanto pesam, em prol das belezas invisíveis que conferem leveza; e, por fim, por estar tão sujeita às intempéries da vida, torna indispensável o amor na sutileza de entender que essa travessia, muitas vezes, é solitária, pois nem todos, neste instante, possuem o equilíbrio necessário para manter os passos até o outro lado”.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

A Fuga do Mundo

[... acho que era só um até logo]

Era um típico dia de inverno. O céu azul, completamente sem nuvens, permitia que o sol nos acariciasse a pele sobre o casaco de lã, em gostosa sensação de aconchego. O dia ainda amanhecia quando fui chamado ao portão para encaminhar um senhorzinho que desejava conversar com o Velho, como carinhosamente chamávamos o decano da Ordem. Como era cedo, o monge sugeriu que a conversa fosse no refeitório ao imaginar que o visitante partira ainda no escuro para alcançar o mosteiro, na montanha, àquela hora. Como a meditação era a primeira atividade do dia, ainda em jejum, e já realizada, todos nos sentamos à enorme mesa. Quando os demais monges se retiraram para os seus afazeres, o Velho perguntou ao visitante como poderia ajudá-lo. O homem manifestou a vontade de fugir do mundo, vez que a solidão o corroía por se sentir abandonado por filhos e netos, cujas visitas eram cada vez mais raras. Tinha a forte resolução de abraçar a vida monástica, aderindo às fileiras da Ordem. Com o olhar suave e voz repleta de bondade, o monge começou a explicar: “Solidão não significa desistência, tampouco fugir do mundo lhe trará a desejada paz. É necessário entender a busca para direcionar o leme do destino”. O homem declarou que estava cansado das ingratidões da vida em sociedade, que tinha se dedicado ao trabalho e à família por toda sua existência para receber apenas esquecimento como moeda de troca. Amargurado, confessou que, se não tinha mais importância para os seus, era melhor se afastar.
“Tudo errado”, disse o velho depois de ouvir com paciência todo o rosário de lamentações. “Para começar é bom lembrar que cada qual tem seus afazeres, compromissos e interesses que tomam tempo. Todos têm uma vida pessoal para cuidar. Aceitar que não somos o centro da vida alheia é um bom início para afastar as lamentações indevidas”.
“Em seguida, é necessário entender que entre membros de um mesmo grupo familiar ou social sempre haverá alguns acenando com dívidas emocionais ancestrais. Justo com estes estão guardadas as nossas lições evolutivas; através desta via nos será oferecida as preciosas lições de amor através do exercício da paciência, tolerância, compaixão e, principalmente, do perdão”.
“Depois, é importante perceber que a solidão não significa abandono. Porém, encontro. É a oportunidade de iniciar o relacionamento mais importante da sua vida: consigo mesmo. É a sinuosa estrada para o autoconhecimento, primeiro estágio para a indispensável e posterior plenitude. É fundamental que façamos um mapa detalhado de quem realmente somos para, somente então, aparar as arestas que rasgam os relacionamentos e ferem a paz. Somente assim iluminaremos as ideias e emoções que tanto nos atrapalham, por obsoletas e nocivas. Ao contrário de como é tratada pejorativamente, a solidão é maravilhosa, se bem aproveitada. Para tanto, precisamos da quietude e do silêncio que a solidão oferece. Uma boa maneira de ficarmos frente a frente com a própria essência, identificando o sagrado que há em nós. Assim, o que é sombra se torna luz”.
O homem observava com interesse e o Velho continuou a falar: “A grande lição desse momento é o rompimento da dependência emocional em relação aos outros. É medonha, equivocada e triste a ideia de mendigar ou cobrar afeto e atenção para sustentarmos a felicidade. Um total absurdo nascido da incompreensão das próprias capacidades. Por outro lado, seria enorme crueldade a obrigação de carregar o pesado fardo da felicidade alheia. Apesar de todas as dificuldades e conflitos, o Universo oferece a cada qual as perfeitas condições para conquista da felicidade. Por si e em si”. Mirou o visitante nos olhos e confessou: “Este momento é mágico”!
“Então, é chegada a hora do passo seguinte: compartilhar com o mundo o que floresceu em seu coração. Do que adianta um belo pomar se ninguém tem acesso para se deliciar com o mel de suas frutas? É o momento de retornar e intensificar o convívio social. Somente os encontros permitem que possamos oferecer o que temos de melhor, além de mostrar as dificuldades ainda não vencidas na busca pelo aperfeiçoamento. É como semeamos e colhemos nos campos da humanidade”.
O senhorzinho baixou a cabeça, lamentou que ninguém estava interessado nele e que acreditava que, por sua idade avançada, já não tinha qualquer serventia para aqueles que o cercavam. O Velho arqueou os lábios em doce sorriso e disse: “É preciso tirar a fantasia da vítima, trocar os óculos do drama. Seria bom uma reflexão sincera para que você entenda exatamente o que está entregando a sua família. Você está disposto a oferecer o seu melhor ou apenas se acomodar no desejo de que tudo e todos girem ao seu redor? Exigir ser a pessoa mais importante na vida do outro é uma das maiores causas de conflitos existentes. Flor do egoísmo, raiz do ego. Um equívoco por desnecessário”.
O homem retrucou dizendo que tinha lutado por toda uma vida para construir uma família e, agora, as pessoas pareciam ter esquecido dele. O monge pediu para que eu colocasse mais um pouco de café em sua xícara e falou: “Tenha a generosidade de aceitar que cada qual se move de acordo com os seus interesses, doa apenas na medida da sua capacidade, e enfrenta as próprias dificuldades na exata necessidade das lições, por ora, cabíveis”.
“O amor, para existir de verdade, tem de ser incondicional. Ele exige renúncia ou não é amor. Um dos alicerces da plenitude sustenta que devemos nos aprimorar para sempre entregar ao outro o que de mais valioso nos habita; em troca, aceitamos de bom grado, o que nos é oferecido, ainda que muito pouco ou mesmo nada. Entender isto é unir o mais puro amor com a mais fina sabedoria. Na viagem evolutiva aprendemos que cada qual apenas pode oferecer o que tem em sua carteira sagrada, o coração. Como exigir cem de quem só tem dez para dar? Como esperar flores de quem está soterrado em pedras? Impossível. Cada qual pensa e reage de acordo com seu estágio de consciência no Caminho”.
O senhorzinho retrucou de que estava cansado e não tinha mais forças para seguir no difícil propósito da lapidação do ser. Melhor seria se juntar aos monges na Ordem, insistiu. O Velho mirou o homem nos olhos e disse: “Sair do mundo para encontrar consigo, tudo bem; fugir do mundo para sair da vida; tudo errado. O mosteiro não é um esconderijo ou lugar para quem se abandonou. Aqui é um local de estudo e trabalho, onde todos entendem a alegria do burilamento. Buscamos a solidão para meditar e refletir, como trilha para o autoconhecimento; o trabalho comunitário como instrumento para promovermos a festa da vida, que é a troca com o outro, cada qual, parte a parte, oferecendo os seus melhores e mais sinceros sentimentos”. Com os olhos mareados disse com emoção: “Na caridade ganha mais quem dá do que quem recebe. Creia nisto”.
Deu uma pequena pausa antes de prosseguir: “No entanto e para tanto, não é necessária uma vida monástica. Cada qual é um centro individual de poder, um precioso templo e qualquer canto silencioso tem a quietude necessária para acalmar os tambores do mundo e lhe permitir ouvir a voz do silêncio que a alma sopra. Transformar em jardim o deserto do ser é a alquimia da vida. Começamos conosco, depois espalhamos a magia e as flores para o mundo”.
O homem confessou que tinha medo de não ser amado e que estava ali para chamar a atenção da família. Tinha o desejo secreto que fossem resgatá-lo no mosteiro. O Velho riu com vontade, depois acrescentou: “Imagine se em profundo respeito às suas escolhas, o que seria correto, eles apoiassem o seu ingresso na Ordem? O seu sofrimento seria incomensurável. Não raro, somos vítimas de nós mesmos”. Deu uma breve pausa e falou: “Procuramos a escuridão da caverna na ilusão de nos proteger da dor. Quando, na verdade, precisamos da luz da vida para ver as feridas que precisamos curar”.
Contrariado, o visitante lamentou não conseguir ajuda ali. Girou nos calcanhares e partiu.
O Velho franziu as sobrancelhas como dizendo que tinha feito o possível e se as sementes das suas palavras fossem boas, haveria, algum dia, de germinar. Em seguida, falou com seu jeito manso: “Ofereça sempre o seu melhor e não espere nada em troca; no dia seguinte ofereça um pouco mais e espere menos ainda” e piscou um olho como quem conta um segredo.