quarta-feira, 27 de abril de 2011

Estar em paz...

Morrer deve ser muito mau. Morrer, sem contar com isso, deve ser rápido demais para quem vai, demasiado repentino para quem fica. Morrer por dentro faz de nós, zumbis. Morrer por fora faz-nos ficar invisíveis. Morrer, acho que é sempre mau, mau demais para quem morre, péssimo para quem é vivo. A maior brutalidade associada à morte é a doença, que nos vai definhando, anulando e reduzindo. Desgasta e emagrece, tira, suga, mata tecidos e faz parar os órgãos. Não sinto que a morte me espreite, mas sinto o pesar dos outros que perdem quem amam. Sinto cada vez mais a angústia, a ferida que se cria com o desaparecimento de alguém. Duro é, quando o cancro mata. Começa por tirar o sorriso, a alegria diária, é como se fossemos a marchar para a guerra da morte certa, na frente da batalha, onde as bombas rebentam sem dó nem piedade. Quando nos atinge, parece que só nos apetece chorar, berrar, perguntar o porquê. Depois o silêncio. O silêncio é tão frio, tão forte. O gosto amargo e seco que nos seca a garganta e nos arrefece as emoções. O cancro, mata devagar, fica ali teimoso, sem querer sair, à vista ou escondido numa táctica de guerrilha, camuflado, deixando minas por todo o corpo. Quando vencemos uma batalha, sabemos isso mesmo, que é uma batalha. Fica a plena convicção de que nunca ganhamos a guerra. E que guerra! Que batalhas! Que prova tão dura e longa a que somos sujeitos. É o teste de uma vida, não só para o portador da doença mas para toda a família. Sempre que se perde a guerra, a fatalidade espalha-se por todos, deixando as feridas marcadas e vincadas, cicatrizes que jamais secarão, que o nosso coração carregará para sempre. Cansados, exaustos, olhamos para o céu, e apetece-nos morrer também. Sem perceber porque é que hoje chove tanto dentro de nós, lembramos os dias de risos ensolarados, e apoiando-nos mutuamente, vamos reaprendendo a andar, devagarinho, todos unidos, porque é preciso continuar. Quando olhamos para trás, relembramos os que ficaram na guerra, o sorriso de antes nunca será o mesmo. De alma na mão, quase de rastos erguemo-nos pelos mais novos que precisam de nós para sorrir, e pedimos a Deus, que a guerra nunca lhes chegue, que possam rir sempre, recordando os que vão ficando para trás, pelas imensas coisas boas. Continuamos…mas nunca continuamos sós.

57 dias sem você...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um só sangue...


Nas chamas distantes
Onde as colinas sempre queimam
Aos pés dos nossos heróis
Nós nos esforçamos para aprender
Mas a lição é perdida lá
Na fumaça e na lama
Em que somos uma só carne, uma só respiração, uma só vida, um só sangue.

Eu espero perto do rio
que correu vermelho de vergonha
Eu estive nos campos de matança
Onde a morte não tinha nome
Eu estive com meus irmãos
E esperei pela enchente
E nós éramos uma só carne, uma só respiração, ma só vida, um só sangue.

Então eu caí no chão
Provei cinzas na minha língua
Pensando que somente os mortos
São sempre jovens

Havia paz no crepúsculo
Por um momento ou mais
Havia um mundo sem perigos
Um mundo sem guerra
E eu tiraria todo o seu sofrimento,
Se isso fizesse algum bem
Porque somos uma só carne, uma só respiração, uma só vida, um só sangue.