terça-feira, 14 de junho de 2016

O "último" adeus.


Bom... eu vou tentar ser breve. Isso é um afetuoso adeus, um até logo talvez. Estamos "juntos" a 7 anos e confesso que nunca imaginei que algum dia eu teria alguma visualização, até porque eu não criei esse blog com a intenção de aparecer. Cheguei a marca de mais de 7mil visualizações (acabei de olhar) e sinceramente... sabe que diferença isso faz? Nenhuma. Mas vocês, meus amigos, que eu sei que sempre me visitam aqui, vocês sim fazem toda a diferença... Roger, Aranha, Gabriel Wend, Cibele, Rafael (Bagass) e todos outros amigos que eu sei que também estiveram aqui sempre que eu postava algo novo. O fato é que The Sound of Silence é um pedaço de um passado que nada me acrescenta mais... embora tenha vivido uma vida em silêncio e com a sensação de estar sempre sozinho e no escuro, hoje não sou mais assim, eu encontrei muitas luzes no meu caminho, e embora ainda pareça escuro por vezes, eu ja sei o caminho. Hoje, mais do que nunca, tenho uma luz que brilha muito forte (Ly)... eu vinha pensando a dias sobre como eu mudei desde que comecei a postar aqui (01/09/2009) e me deparei com um figura totalmente diferente... nem mesmo meus personagens (e personalidades que eu adotava para poder escrever) são os mesmos. Não sei mais quais são as motivações de Adam (-a), ou de W, ou de Mad, ou de Hiram, ou de Hunt, eu os desconheço e também sou desconhecido por eles. Sou seu porta voz nesse mundo, mas não tenho mais palavras para continuar suas histórias... talvez tenhamos nos confundido e nesse bolo todo acabei me tornando um pouco de cada um de vocês... Hoje sou Canção Estrelada, sou Loureiro, sou Yoskhaz, sou Raul... Raul que nunca foi nesse blog, Raul que nunca teve espaço para ser ele mesmo nesse blog, Raul que expressou sentimentos que NUNCA sentiu (aqui).
Sempre sonhei em escrever um livro, mas o meu sonho era proporcional ao tamanho da minha insegurança (e ainda é)... O blog foi uma ótima oportunidade para eu treinar minha capacidade de criar personagens, criar diálogos, sentimentos, universos e praticar minha escrita. Ainda estou longe de chegar onde quero, satisfação pessoal mesmo, nada de querer virar um Tolkien ou Paulo Coelho...


Pois é... então quer dizer que todos os textos e poemas não dizem respeito a sua pessoa?

Não é exatamente assim, tudo que tem aqui é um pedaço da minha existência, do meu ser-no-mundo. Ora um desejo mascarado de sentir algo, ora uma história que sonhei na noite anterior, ora um reflexão de um personagem que claramente ja exercia influência sobre mim... porque sou assim, eu crio as coisas e não permito que elas se vão... eu internalizo e faço delas parte de mim também.

Enfim... O bom é que quase ninguém lê isso aqui, então não preciso me preocupar com um bando de pessoas angustiadas, é, vocês 4 ou 5 que acompanham aqui, podem perguntar, mas o porque ja esta escrito aqui. Postei coisas que não queria aqui, assim como também postaram por mim... aceitei, numa tentativa desesperada de evitar coisas ruins.
Não vos deixo com lágrimas nos olhos The Sound of Silence... mas com um sorriso, grato por ter sido meu diário, por ter sido meu universo de criação, por ter a mesa de fichas onde criei e experimentei meus mais variados personagens, embora todos tivessem um viés depressivo rsrs é a influência da segunda geração do romantismo, fazer o que?
Um dia talvez eu volte para cá, quem sabe eu não vos faça uma breve visita em um momento de angústia?

Por fim, deixo essa música que representa bem o sentimento de agora...

 

Vlw galera...

I bid you all a very fond farewell... -Adam - Hunt - Hiram - W - Mad









A importância do dialógo.

Apesar de ser um tema bastante popular e fugir bastante da ideia do blog, decidi falar hoje sobre o diálogo entre o casal, devido a uma experiência vivenciada por mim, esses dias atrás. Passei horas a fio escrevendo um relatório, estava muito cansado, sem qualquer vontade de conversar. Minha namorada é sempre muito atenciosa e constantemente me pergunta sobre o meu dia. Quando finalmente quis falar com mais amplitude de todo os acontecimentos que vivenciei, senti um grande alívio, além de uma deliciosa sensação de prazer e bem-estar por ter compartilhado algo meu e mais: por saber que alguém tão querido se interessou em saber.
O diálogo é um fator ímpar para uma relação de sucesso entre o casal. De acordo com Ed Wheat, autor do livro “O amor que não se apaga”, o silêncio do parceiro – a aparente indiferença aos sentimentos da parceira (ou vice-versa) e sua recusa em discutir coisas com ela – pode destruir um casamento. Esse autor afirma ainda que a infidelidade mata milhares e o silêncio dezenas de milhares! Sendo assim, é possível ter uma ideia do quão é relevante conversar com o (a) parceiro (a). Quando um homem e uma mulher se casam/namoram, os dois vislumbram um futuro que os dois viverão juntos, formando uma única carne. O horizonte que é posto para um casal, a partir do momento em que eles estabelecem um compromisso formal, pode ser alargado, fazendo com que o casal chegue no limite do horizonte, o céu. Isso acontece a partir do diálogo.
O Rei Salomão, no livro de Provérbios, diz: “Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha” (18. 13). Você tem parado para ouvir seu companheiro ou tem respondido antes mesmo dele/dela ter formulado a pergunta? Se a resposta for negativa, é sinal de que o casal tem uma boa perspectiva. No entanto, se a resposta for positiva é o momento de rever os seus conceitos.
Estar pronto para ouvir é fundamental. Somente quando o parceiro tem a oportunidade de ser ouvido é que ele/ela expressará seus sentimentos, suas preocupações, suas inquietações, seus desejos. Quando este é interrompido de maneira brusca, antes de concluir sua fala, esse pode se fechar e não mais querer se expressar. Falar é também primordial. Fazer com que o outro saiba de minhas dúvidas, meus medos, minhas expectativas pode ser um grande impulso para que o casal deseje sempre estar unido. A falta de diálogo em um relacionamento pode provocar a falência múltipla de tudo o que foi construído ao longo da união.
A amizade entre o casal é necessária. O amor tem que ser natural entre eles. Ambos devem gostar de estarem próximos um do outro. Quase todo o tempo, em uma relação a dois, vivenciamos o “amor amizade”, o “amor natural”, e também o amor fraterno e afetivo. Esse é o contexto de uma relação sólida.
O diálogo deve estar presente o tempo todo, pois ambos precisam desabafar os acontecimentos do dia, seja no trabalho ou mesmo no lar, onde muitas coisas acontecem. Se, homem e mulher não puderem contar com eles mesmos como confidentes um do outro, como funcionará esse relacionamento onde ninguém sabe o que se passa no íntimo do outro?
Muitos fatores podem colocar fim a uma relação, mas um deles certamente é a ausência de diálogo. Faça sua parte! Não permita que isso aconteça na sua relação! Converse sempre com seu/sua companheiro(a)!
           
“O meu amado é como uma macieira; comparado com outros jovens, ele é a árvore mais bonita do pomar. Tenho prazer de me sentar à sombra dele; como é gostoso o seu fruto.”

“Sim, você é um lírio entre os espinhos; assim é minha amada entre as outras moças.” Ct 2.2-3.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O SENTIDO DA VITÓRIA. (Conto)

Era fim de tarde, estávamos sentados na estação a espera do trem que nos levaria até a pequena cidade no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos ido visitar uma jovem que passava por tratamento oncológico em um moderno hospital de uma metrópole não muito distante. Como de costume, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, parecia encantado com tudo a sua volta. O movimento, as lojas, as pessoas; a alegria e a tristeza nas chegadas ou partidas; os abraços emocionados, sorrisos e choros de encontros e despedidas; os solitários. “Esta gare é a síntese do mundo”, comentou sem me olhar, sabendo que eu o observava. Comentei que achava estranho a mania de ele encontrar beleza em tudo e em todos. “É preciso exercitar o ver-além das aparências, das formas e, principalmente, da ilusão. É necessário nos encantar com a essência. O Mestre nos ensinou que ‘quando seu olho é bom, todo o seu corpo é luz’”, citou um pequeno trecho do Sermão da Montanha.
Aleguei que a prática era bem diversa da teoria. Usei como exemplo a moça adoentada que tínhamos visitado naquele dia. O médico não dera nenhuma garantia de sucesso no tratamento e o futuro dela era uma incógnita. Como agravante, ela vivia como quem tem uma faca afiada no pescoço, na iminência do corte. “Todos temos. Apenas desconhecemos a hora e o jeito do golpe. As lâminas se apresentam com inúmeras faces. Acidentes, catástrofes, assassinatos; doenças inesperadas, lentas ou fulminantes; os vícios e as tristezas, graves variantes de suicídio inconsciente; a contagem variável, inconstante, e implacável da ilusão do tempo”, deu uma pequena pausa e comentou: “A propósito, você reparou como ela estava feliz”?
Falei que era tudo jogo de cena para tentar alegrar os parentes que a amavam, pois ninguém poderia ficar bem diante daquela situação. O monge deu de ombros como se eu não tivesse entendido nada e falou: “Eu conversei muito com ela. A doença trouxe a reflexão sobre a morte. Isto a fez alterar o sentido da vida, pura expansão de consciência. Houve uma mudança de valores. Situações relegadas à segundo plano, sentimentos adormecidos e compromissos esquecidos ou adiados ganharam importância e emergiram para ganhar força e poder. Coisas que sempre foram urgentes acabaram por evidenciar a sua irrelevância. Tudo mudou. Por vezes, a doença do corpo é o remédio da alma. Para alguns é o método mais eficaz de cura. Não tenha dúvida, a felicidade e a paz que ela sente são sinceras e, provavelmente, nunca as teve antes, ao menos com tamanha magnitude”.
“Dificuldades e decepções podem abater e consumir as nossas forças ou podem nos ensinar preciosas lições de aperfeiçoamento e força para o próximo bom combate, que sempre virá. Seja de uma maneira ou outra, o Universo sempre conspira a nosso favor, cabendo a nós entender e aproveitar, ao invés de atrapalhar ou lamentar. Em todas as situações, sejam vitórias ou derrotas, dores ou delícias, a vida sempre oferece um cálice repleto de veneno e outro de mel. Nós escolhemos qual beber”.
Falei que talvez de nada adiantasse todos os ganhos espirituais adquiridos pela moça se lhe restasse pouco tempo de vida. O Velho balançou a cabeça contrariado antes de falar: “Isto não tem importância”! E antes que eu articulasse qualquer palavra, prosseguiu: “Não percebe que esse novo olhar é herança eterna, tesouro imaterial que ela poderá levar na bagagem para o próximo trecho do Caminho? Este ganho é real! Esquece que a viagem não tem fim? A doença foi apenas o caldeirão, mas poderia ter sido uma separação conjugal ou uma demissão trabalhista. O importante é que ela se permitiu acrescentar o ingrediente essencial: amor sobre todas as coisas. Depois mexeu com a colher da sabedoria concedida pela própria expansão de consciência. Pronto, eis a magia da transformação do chumbo em ouro. Esta é a alquimia da vida”.
Somente naquele momento me dei conta de alguns casos conhecidos de pessoas que ficaram melhores e mais interessantes após dolorosas situações de divórcio ou falência. Viram o céu fechar, enfrentaram terrível tempestade e sobreviveram para se reinventar e voar mais alto do que eram capazes de imaginar antes das dificuldades surgirem.
Como se soubesse os meus pensamentos, o Velho comentou: “A derrota ou a vitória, independente do aparente júbilo ou tragédia, se define na amplitude do seu olhar. É uma escolha da alma. Algumas vezes a vitória só é permitida na derrota”.
Como assim? Confessei que não tinha entendido. O monge manteve a sua enorme paciência para que eu compreendesse o óbvio: “Ganhar nem sempre é vencer, pois existem dois aspectos verdadeiros e ocultos nesta sentença. O primeiro é que não se atinge a vitória ganhando a qualquer custo. Há que se trilhar o inevitável caminho da dignidade ou nada terá valor. O outro, nasce da lógica inversa: perder nem sempre significa derrota. Enquanto o desesperado chora pela tragédia, o sábio agradece pelas asas”.
Diante do meu espanto, exemplificou para me ajudar: “Para o enfermo a proximidade da morte pode lhe oferecer a infinita dimensão da vida. Quando isto acontece a felicidade e a paz são indescritíveis. Perde-se o corpo, ganha-se a alma”.
“Quantas vezes o afastamento da pessoa amada não foi a oportunidade para se aproximar e conhecer a si próprio? Perde-se o outro, ganha-se a si mesmo”.
“A demissão do emprego que significava a ilusão de estabilidade pode proporcionar o desenvolvimento dos seus dons e talentos, resgatar o sonho escondido e permitir o despertar de todo o potencial pessoal e profissional adormecidos. Perde-se uma vaga, ganha-se o mundo”.

“Esses são os milagres da vida. As transformações indispensáveis que permitirão florescer o melhor que nos habita. Para tanto, algumas vezes, é necessário a forte pressão da terra para que a semente exploda e germine”. Deu uma pequena pausa, me mirou fundo nos olhos e disse: “A felicidade e a paz não serão nunca uma condição material, mas sempre uma decisão filosófica em aprender, transmutar, compartilhar e seguir”. Neste instante o trem apontou na estação e diante do meu desconcerto, eu ainda tentava alinhar todas aquelas palavras, o Velho deu um sorriso maroto, apontou o vagão com o queixo e disse: “É hora de partir, Yoskhaz. Ou você prefere ficar”?

O PODER DAS ESCOLHAS. (Conto)

“Ser forte é uma escolha. Ninguém nasce corajoso ou covarde, no entanto, todos os dias, a toda hora, fazemos a escolha por fugir ou enfrentar a batalha que se apresenta dentro e fora de nós”, falou Canção Estrelada, o xamã que através da palavra, cantada ou não, narrava a sabedoria ancestral do seu povo. Estávamos apenas os dois, sentados em torno de uma pequena fogueira sob o manto de estrelas a inspirar a conversa. Naquele dia tinha ocorrido um cerimonial destinado aos jovens da tribo que selava a passagem da adolescência para a vida adulta. Lembrei das palavras ditas pelo xamã ao encerrar o ritual: “O entendimento de que você é capaz de resolver os problemas que surgem, a aceitação da responsabilidade que lhe cabe e a coragem para a luta, desenham a maturidade formada no guerreiro, que somente após ser lapidado em muitas batalhas estará pronto para se sentar entre os sábios”.
Comentei que admirava a valentia de determinadas pessoas que se mostravam obstinadas em seus objetivos e verdades. Por fim, confessei, não sem uma ponta de vergonha, que eu gostaria de ser um desses. O xamã deu uma longa baforada em seu cachimbo de fornilho de pedra, me observou por instantes e disse: “Todos os heróis que conheci navegaram os mares da dúvida e trilharam as florestas do medo. São tempos sombrios, de incertezas internas, mas necessários. Buscaram na quietude e no silêncio as respostas que precisavam. As dificuldades aperfeiçoam o caráter e fortalecem o espírito. Só assim alicerçamos a força em nós e aprimoramos as nossas escolhas”. De pronto falei que não tinha compreendido todo o alcance de suas palavras. Canção Estrelada me mirou nos olhos e falou: “As escolhas são as únicas ferramentas que temos para exercitar a espiritualidade. Não há outra, daí o seu valor. Através delas você aprende absolutamente tudo que precisa: a diferenciar o bem do mal; a essência da aparência; a justiça das leis; que para ser grande é necessário ser verdadeiramente humilde; que os verdadeiros revolucionários são mansos, pois sabem que as transformações que mudam o mundo são interiores; que sem pureza no coração não existe vitória; que é impossível ser feliz sem perdoar; que sem compaixão não existe vida em comum; que sem renúncia não se pode amar e, por fim, que sempre é possível escolher diferente e melhor”. Deu uma longa pausa, com os olhos perdidos nas labaredas, e voltou ao assunto: “Gostamos de pensar que somos o discurso que narramos sobre nós mesmos ao nos apresentar aos outros. Mas não, na verdade, somos o somatório das escolhas que fazemos no decorrer da existência. Elas nos fizeram chegar até aqui, entre erros e acertos, dores ou delícias. As escolhas nos definem e indicam o futuro próximo, pois estão inexoravelmente atreladas a Lei da Ação e Reação. As escolhas mostram como você atravessa o Caminho, seus percalços ou suavidade”.
Comentei que só naquele instante tinha me dado conta das centenas de escolhas que fazemos durante um único dia. Das mais simples, mas não menos importantes, como sorrir ao nos dirigirmos a alguém, até as mais complexas como terminar um relacionamento ou mudar de emprego. “Tudo são escolhas. E por mais opressora que seja a situação, sempre temos possibilidades de escolher. Ficar ou partir, aceitar ou lutar, falar ou calar. As escolhas são as sementes imortais da liberdade que nos habita e diferencia”, concluiu o xamã. Aproveitei e falei que passava por um momento muito difícil, pois tinha que decidir sobre questões pessoais e profissionais para que pudesse dar um rumo à minha vida. As muitas chances que se apresentavam, diante das incertezas que tinha, acabavam por se tornar em possibilidade nenhuma.
“Nossas escolhas são a espada do guerreiro ou a lanterna do sábio a desbravar e iluminar a estrada da vida”, explicou. Ele deu uma pequena pausa e eu aproveitei para perguntar ao Canção Estrelada por qual direção eu deveria seguir. O xamã sorriu com bondade e falou: “Ninguém poderá lhe dar essa resposta, salvo você mesmo. A sua escolha é fruto de todos os elementos que germinam dentro de você. É o instrumento que afinará a melodia da sua alma. É a expressão do seu nível de consciência e da pureza que traz no coração. Permita-se ficar a sós consigo e entender que cada escolha definirá as condições próximas do Caminho, pontes ou abismos, jardins ou desertos”.
Falei que muitas vezes hesitei em seguir por algumas trilhas por pensá-las por demais arriscadas, noutras por não saber onde terminavam. Canção Estrelada explicou com paciência: “Há caminhos mais seguros, que te levam a curta distância, em paisagens previsíveis; trilhas mais perigosas, que podem te apresentar um universo inimaginável. Para fazer a escolha preste atenção em qual sentimento lhe move: a busca pelo aplauso fácil imposto pelas convenções sociais ou o mergulho profundo na viagem ao aperfeiçoamento no exercício do ser? Quando o seu movimento é impulsionado por nobres sentimentos o poder do mundo passa para as suas mãos. Esta é a magia da vida”.
Canção Estrelada me olhou com severidade e disse: “Cada uma das escolhas tem que vir revestida de dignidade, coragem, humildade, alegria e amor para que o palco se descortine diante do fantástico espetáculo das possibilidades ainda desconhecidas, a permitir que desperte o sagrado que adormece em ti”.
O sagrado em mim, como assim? Estranhei o termo. O xamã explicou: “Suas escolhas movimentam as suas asas ou te impedem de voar. Elas são o sal da vida, o sorriso no rosto, o encantamento por si e pelo outro, além da conexão com a pulsante esfera invisível. Assim, as escolhas têm o poder de transformar o mundano em sagrado pelo conteúdo e valor da transformação que irá gerar. Cada escolha pode ser um ato vulgar ou ter a força transformadora do milagre”.
Insisti dizendo que não tinha entendido. Canção Estrelada me olhou diferente, como um pai observa um filho e finalizou com a velha e boa lição: “A todo momento o Caminho nos apresenta bifurcações. Por um lado, a atraente estrada dos desejos, repletas de holofotes, privilégios e homenagens; do outro a discreta trilha das necessidades de metamorfoses da alma, cujas as únicas luzes apenas se acendem nos corações”. O xamã ficou algum tempo sem dizer palavra, como se buscasse lembranças ancestrais, até que finalizou: “Nem tudo que reluz é luz. Apenas a chama que brota nos corações puros pode iluminar os passos. O amor tem o poder de sacralizar todos os atos e de transformar o mundo quando é a força motriz das escolhas. O maior segredo da vida é muito simples, Yoskhaz: escolhemos por puro amor ou escolheremos errado”.

O ESCUDO CONTRA O MAL. (Conto)

“Solicitar ajuda das forças luminosas do Universo em prol de uma dificuldade da qual não se tem nenhum controle é louvável, pois demonstra humildade”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, a um homem que veio ao mosteiro suscitar auxílio em uma situação que lhe afligia. Em seguida alertou: “No entanto, pedir auxílio para que façam o trabalho que lhe cabe, apenas revela a falta de entendimento das Leis, pois não acontecerá. A vida não endurece para maltratar, mas para ensinar. Não há privilégios, apenas lições”
Como uma tempestade que chega sem anunciar, a vida desse homem parecia, de uma hora para outra, virada ao avesso. Brigas familiares insensatas e complicações profissionais que levaram à dificuldade financeira inesperada, eram as consequências imediatas e visíveis do inferno que ele vivia em solo terreno. Com os olhos mareados, se confessou desorientado para continuar na luta. Estávamos no refeitório, os três, e eu lhes servia café com bolo de milho. O homem, de ótima aparência e muito culto, narrou que até há poucas semanas navegava em águas tranquilas pelos mares da vida. Uma família aparentemente bem estruturada; sócio de uma empresa que gerava lucros suficientes para sustentar condição material bem acima da média. Até que, em algum momento, tudo desandou.
“A vida exige movimento. Assim, te fará caminhar por gosto ou imposição. A inércia e o comodismo são ferramentas das sombras a atolar o viajante. Aos que buscam incessantemente o aperfeiçoamento do próprio ser, a vida há de ser generosa, a fornecer todas as condições necessárias para o prosseguimento de uma viagem serena”, explicou o Velho. Deu uma pequena pausa, sorveu um gole de café e prosseguiu: “Aos que se iludem eleitos dos deuses, alheios a tudo e a todos, aos que se imaginam ‘escolhidos’, não tardará o desequilíbrio sobre as situações que o sustentam. A Lei do Serviço é parte do Código Não Escrito e obriga ao trabalho e ao progresso espiritual. Crises emocionais, brigas afetivas, desavenças familiares, dificuldades econômicas ou doenças, são alguns dos instrumentos de instabilidade utilizados pelo Universo para impor novo momento de adaptabilidade diante da realidade alterada. Agora a criatura caminhará por necessidade”.
“O Caminho é muito generoso em te permitir escolher as rotas da viagem, entretanto, muito justo em elaborar as dificuldades inerentes ao trajeto. O Mestre ensinou há milênios que devemos atravessar a porta estreita das virtudes. No entanto, muitos ainda escolhem seguir pela estrada larga das vantagens indevidas. Afagam o ego em prejuízo a alma. O resultado? Após os prazeres imediatos e transitórios, anda-se em círculos por trilhas cada vez mais escuras e esburacadas. Agonia e tristeza se apresentam como companheiras de viagem”. O homem, muito sensibilizado, confessou que, de fato, não vinha oferecendo o melhor de si. Aflito, perguntou ao Velho como poderia mudar a própria vida, pois não sabia para onde seguir. O monge arqueou os lábios em um sorriso repleto de compaixão e disse: “Quer um novo Caminho? Basta mudar o seu jeito de caminhar”.
“Problemas sinalizam a necessidade de mudanças. Entenda o que você precisa transformar em si e se dedique a isto com sinceridade. Só então chegará a ajuda da esfera invisível”.
O homem argumentou que sofria muito, não imaginava como fazer e, mais, a atual situação se mostrava tão nebulosa que não acreditava ser capaz de solucionar todos os problemas sem a ajuda das forças superiores. O Velho respondeu com a voz bondosa: “O Universo não quer que você sofra, porém exige que você evolua para chegar a próxima estação. Aprender, se transformar, compartilhar e seguir são momentos distintos de cada etapa nas inúmeras existências permitidas, como escolas de sabedoria e amor”.
O homem disse que precisava também de muita proteção, pois tudo de ruim parecia acontecer a ele naquele momento. O monge mordiscou um pedaço do bolo e falou: “Estamos sujeitos à inexorável Lei da Ação e Reação, uma das que compõe o Código Não Escrito. Ela atrai para a sua vida pessoas e situações que lhe são adequadas, não por punição, mas de acordo com o rigor necessário para o aprendizado do aluno, no mesmo diapasão de suas atitudes. O perfume da flor atrai pássaros e borboletas; o odor do esgoto chama para si os ratos e as baratas. Assim, escolhemos os que nos acompanham e definimos o destino próximo”.
“Ninguém está fora do alcance das Leis. Os guardiões ou anjos do Universo ficam impedidos de interferir em razão da situação conflitante ser parte da lição que cabe a você. Assim, você precisa se ajudar para ser ajudado. É uma grande ilusão achar que a casa do mal é o mundo. A sua raiz está em cada um de nós, em maior ou menor intensidade, a depender da expansão de consciência individual. Acredite, ninguém lhe prejudica mais do que você mesmo. Equalizar emoções e pensamentos nas ondas de Luz, envolvendo-os com amor, para que possam se materializar em boas atitudes é a defesa mais eficaz contra o mal. Pois, cria uma abóbada de proteção energética a sua volta, a permitir a aproximação de seus exércitos com maior rapidez, permissão e poder. Como pode ver, o melhor escudo contra o mal é um coração puro”.
“Nunca lhe faltará o auxílio. Entretanto, cada qual terá a ajuda na exata medida das suas necessidades de desenvolvimento, da vontade sincera de se transformar, de semear flores para quem vem atrás. Não podemos esquecer que as dificuldades nos trazem as lições indispensáveis para o aprimoramento da alma, muitas vezes ainda bem embrutecida, necessitando de métodos rigorosos de aprendizado”.
“Reflexões e meditações no encontro consigo próprio são ferramentas poderosas para a ampliação de consciência. Leituras auxiliam na criação de ideias e sustentação filosófica. As preces germinadas no coração são de extremo valor, pois auxiliam no equilíbrio emocional e o auxílio rogado, de algum jeito, nunca faltará, no entanto, não esqueça que santo nenhum dará os passos que cabem a você. A ajuda jamais chegará em forma de carroças repletas de ouro ou que a pessoa amada se dobre aos seus desejos. O auxílio vem através de sinais que indicam um novo sentido e aos ‘acasos’ que criam situações inimagináveis a fim de nos proteger. Ou por intermédio de intuições luminosas que indicam as indispensáveis metamorfoses da alma, as mudanças em seu sentir, pensar e agir”.
“Esta é a alquimia da vida: a transformação de sombras em luz, de dor em amor. Este é o mais precioso dos milagres e muitos nem se dão conta de que os têm na mão”.
Como um vício moderno, o homem reclamou da situação do planeta, que está tudo errado em todo lugar e do mal que parece campear sem rédeas. O monge mirou em seus olhos com doçura e falou: “Quando lamentamos o mundo, criticamos a nossa própria situação interna. O mal é fruto das sombras que habitam cada um de nós, nossas imperfeições e dificuldades, a formar um coletivo de iniquidades. Do contrário é também verdadeiro afirmar que somos a Luz na construção do bem e na manutenção da Obra. Através dos séculos o mundo sempre foi a exata fotografia de nossos corações. Do meu e do seu. Quer mudar o mundo? Transforme a si próprio. Como? Aperfeiçoe as suas escolhas”. O homem acenou com a cabeça em concordância, mais por desconcerto do que por satisfação.
Em seguida, tornou a lamentar a própria situação e insistiu que lhe fosse dito como, de forma objetiva, poderia reverter as atuais dificuldades. “Não faço a menor ideia”, disse o Velho. Diante do olhar atônito do homem, pediu para que eu lhe servisse mais um pouco de café e explicou: “Administrar a vida alheia é muito fácil e tentador, entretanto também demonstra leviandade e arrogância. O exercício da vida, com suas dores e delícias, é a ferramenta pessoal e intransferível de que dispomos para desenvolver as asas da alma, alavancar a nossa evolução. Entenda, aceite e use adequadamente a liberdade de buscar e decidir”.
“Apesar de nunca lhe faltar ajuda – e que sejamos claros, não para um desfecho mágico dos seus problemas, pois o auxílio não será na medida dos desejos do seu ego, mas das necessidades de sua alma, ou seja, por intermédio de condições para alterar, por si e através de si, a realidade – a parte mais importante do processo terá que ser feita por você, na ampliação de sua consciência, no burilar do coração, no desapego dos velhos conceitos. Medidas que refletirão no aprimoramento das suas escolhas”.
Observou o homem por alguns instantes e aconselhou: “Procure o silêncio e a quietude para ficar a sós consigo. Mergulhe fundo, conhecer a si próprio é a estrada para a plenitude. Estabeleça para si mesmo cláusulas invioláveis de amor e dignidade. Perceba o que precisa ser modificado em sua vida. Absolutamente tudo pode ser diferente e melhor. Todos os sábios já fizeram isso para romper a dureza do casulo e sentir as asas da liberdade”.
O Velho pediu para unirmos as mãos e fez uma prece sentida por amor e Luz. O homem agradeceu educadamente a conversa, a oração e partiu. A sós com o Velho, falei que tinha a impressão de que o visitante tinha ficado um tanto decepcionado. “Poucos aceitam os encargos e o trabalho que lhes cabem. Todavia, se as minhas palavras forem uma boa semente, cedo ou tarde germinará”, disse o monge. Deu uma pequena pausa e finalizou: “Na verdade, as transformações exigem grandes esforços que nem todos parecem dispostos a operar. Pensam ser mais fácil rogar por um milagre, que nunca virá, pois o bom educador não faz o dever do aluno. Roga-se por socorro para que se materialize um castelo de muros altos a garantir privilégios e mordomia, quando, na realidade, a ajuda sempre chegará em forma de ponte, toda vez que existir a vontade sincera do andarilho em caminhar e atravessar o abismo”.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Pensamentos 07


Fechei algumas portas, não por arrogância ou orgulho.
Mas porque já não me levam a lugar algum...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

MEU PERSONAGEM FAVORITO. (Conto)

Estava com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre, por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de compreendermos toda a grandeza de um sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme, vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós, aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.
Pedi para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos, a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados, admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior que há em nós. É inevitável”.
O elegante artesão tinha o olhar perdido em alguma página da sua história e falava como quem explica um fato distante: “Em geral, não preparamos o outro para nos ver atuando sem nossas fantasias sociais. O ego que criou o personagem na tolice de nos proteger, cedo ou tarde, subirá à tona para mostrar a verdadeira face, aquela que ocultamos. O ‘eu’ vai ficar nu. Nenhum truque se sustenta para sempre. Daí surgem as decepções, conflitos, e sofrimentos, nesta ordem”.
“Algumas pessoas abusam mais, outras menos, dos personagens na medida da falta de coragem para encarar quem realmente são. É necessário enfrentar a verdade, sem adereços, com humildade, como primeiro passo para se transformar e vivenciar as suas infinitas possibilidades. Não se chega à próxima estação sem enfrentar a estrada. Ainda que haja curvas, pedras e tempestades, as dificuldades fortalecem e aperfeiçoam o viajante”.
“Nem todos estão dispostos a se deparar com as verdades da alma, com suas frustrações e insucessos. Então, nos escondemos sob o manto das ilusões oferecidas pelo ego, a nos enganar, na vã esperança que ele nos conforte e proteja para sempre. Usamos as máscaras que ele nos empresta no baile em homenagem à mentira. Até que o Caminho, na exigência do movimento da cura pela verdade, despe o personagem que criamos para interpretar as histórias que gostamos de contar sobre nós mesmos. Cedo ou tarde, nos obriga a olhar para o espelho. Estar frente a frente consigo é mirar nos olhos da verdade e entender toda a sua força revolucionária. É doloroso em um primeiro momento, por estar sem maquiagem, não encontrar a perfeição que se iludiu. Mas só assim descobrimos o que precisa ser modificado, o que temos que deixar para trás. Entendemos, principalmente, que não somos o nosso discurso, mas as nossas escolhas”.
Comentei que deveriam existir alguns modelos mais comuns de fantasias, arquétipos do inconsciente coletivo. Loureiro concordou: “Existem muitos e posso exemplificar alguns. Um personagem muito usado hoje em dia é o da ‘pessoa séria, muito ocupada, que não tem tempo para os outros’, em uma clara demonstração de fuga do convívio, da intimidade, por medo de revelar que tem pouco para mostrar ou de mostrar o que anseia esconder. É a débil máscara do forte, a fantasia curta do poderoso. Na verdade, ocultamos aquilo que não temos coragem de enfrentar. Levanta-se muros para que ninguém descubra as nossas fraquezas, quando na verdade precisamos de pontes para atravessar esses abismos. Somente quando admitimos as dificuldades nos tornamos aptos a superá-las. Para ser grande é necessário trilhar o caminho do pequeno. Isto se chama humildade. Esta virtude lhe fará aceitar a condição de aprendiz, de que ninguém nasce pronto, e assim permitirá, não sem muito trabalho, que aos poucos revele toda a grandeza que habita em seu coração”.
“Existe também o personagem do ‘falso alegre’, aquele que precisa estar sempre rodeado de gente e, de preferência, barulho. Que fique bem claro que diversão, amizade, alegria e movimento são coisas maravilhosas. Mas há que se ter hora para todas as coisas, a fazer bom uso do tempo, este tesouro finito. Por que o medo de ficar à sós consigo? De ouvir a música do silêncio? De conversar com o próprio coração? A solidão tem sido amaldiçoada por mal compreendida. Solidão não significa abandono, mas a viagem que o ego faz aos jardins da alma. O retiro necessário para percebermos as máscaras que atrapalham, por ineficazes, a conquista da plenitude; as fantasias que ficaram velhas sem conseguir sustentar a felicidade; a maquiagem que borrou por tantas lágrimas ao perceber que a paz não se encontra nas prateleiras da ilusão, mas precisa ser construída pela verdade de se conhecer por inteiro e, então, se transformar. Ser feliz é uma escolha consciente que exige determinação e coragem para estar consigo próprio e ouvir a voz que brota no coração”.
“De todas as fantasias, a mais triste é a da ‘vítima’. São aqueles que se dizem bons e generosos, porém alegam ser enganados ou sabotados por todos o tempo todo. Usam a máscara do drama para transferir aos outros a responsabilidade pelo seu sofrimento, escondendo de si mesmo a atribuição de trabalhar a própria evolução. É como se desejassem uma carona até a próxima estação para não ter que enfrentar as dificuldades do Caminho. Esquecem que os problemas que nos perseguem nada mais são do que as lições que precisamos aprender, as transformações que devemos forjar no próprio ser. Ignoram que a batalha final é travada dentro de cada um de nós”.
Loureiro tomou um último gole de vinho e alertou: “É importante se reinventar todos os dias, pois faz parte do processo primoroso de transformação. No entanto, é preciso que se funde os alicerces da verdade nas rochas da humildade, alegria e coragem, afastando-se, a cada dia, dos pântanos da ilusão, da mentira e do medo que atolam a evolução”.
“É imperioso desvendar o véu da fantasia que enevoa as mudanças necessárias exigidas pela alma despida. Embora seja um processo difícil, pois muito do aparente conforto do personagem será substituído pelo esforço no desenvolvimento do verdadeiro eu. O autoconhecimento é indispensável à cura. Cura das imperfeições, dos traumas e do sofrimento através do remédio da verdade, na lapidação das cascas de si mesmo até que se reflita a mais pura luz. Semear e cultivar a essência que nos habita, na beleza de ser único e parte do todo, ao mesmo tempo”.
Deu uma pequena pausa e concluiu antes de se levantar: “Cada qual é a nau a atravessar as tempestades das próprias ilusões, aprendendo a manobrar com os ventos da verdade, a navegar pela luz da fina sabedoria. A vida é o mar, os encontros são os portos e o amor é o destino”.
Já de pé, me ofereceu um sorriso maroto e provocou: “Yoskhaz, qual a sua máscara?”. Rimos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

NINGUÉM SOFRE POR AMOR! (Conto)

Era aquela hora indefinida em que não sabemos se é dia ou noite. Algumas lojas já começavam a se preparar para fechar. Apressei o passo pelas estreitas e sinuosas ruas da secular cidade próxima à montanha que acolhe o mosteiro da Ordem. Queria encontrar a oficina de Loureiro ainda aberta para convidá-lo a beber uma taça e conversar. O elegante sapateiro era amante dos livros e dos vinhos. Filosofia e os tintos eram a sua preferência. A sua antiga bicicleta encostada no poste em frente era sinal de que eu estava com sorte. Quando entrei na loja quase esbarrei com uma bela jovem que saía. Percebi suas feições tristes e os olhos avermelhados de chorar. Fui recebido com a alegria de sempre. Loureiro era um príncipe, seu reino era a nobreza no trato pessoal com toda a gente, a elegância dos gestos e do pensamento. Ele costumava dizer que “É preciso iluminar os passos e não empurrar para o abismo. A hora e a maneira de usar as palavras é uma mestria”. Sem que eu precisasse perguntar, me disse que a moça era sua sobrinha e tinha vindo conversar sobre a recente separação. A moça estava inconsolável.
Seguimos para taberna e depois do primeiro gole, comentei o fato das pessoas se abrirem tanto com ele. “Talvez por eu nada perguntar. Acho que isto as deixa à vontade para falar”. Conversamos um pouco sobre o motivo de os relacionamentos afetivos causarem tanto sofrimento. Aproveitei para falar sobre algo que me intrigava: se o amor é algo tão bom, por que este precioso sentimento causa tanta tristeza?
O sapateiro se mostrou logo disposto a enfrentar a questão: “Antes de tudo, se faz necessário entender o amor. Sem nenhuma dúvida o amor é a força mais poderosa do universo, a energia que move e transforma o viajante para as próximas estações do Caminho. O amor é a matéria prima dos milagres desde o início dos tempos, a argamassa que une as pessoas, envolve os mais puros encontros, alimenta a humanidade em suas ceias espirituais. É o sentido da vida. Logo, que fique bem claro: ninguém sofre ou mata por amor”.
Brinquei com o bom sapateiro para que tivesse cuidado, pois seria apedrejado pelos amantes e defenestrado pelos poetas. “Sei que se sofre muito em razão de separações afetivas, mas não é por amor. O verdadeiro amor é aliado inseparável da liberdade; diria até que o amor são as asas da liberdade. Ele, o amor, respeita a escolha do outro em partir ou não querer mais manter o relacionamento. ‘Ah, eu gostava tanto dela’... Continue gostando, admirando, mas entenda que ninguém é dono de ninguém. Uma alma não pode ser proprietária de outra. Não existe qualquer tipo de dominação no amor verdadeiro. Não se pode celebrar um casamento como quem outorga uma escritura de compra. Tem tudo para dar errado. Dessa maneira, o sofrimento, em verdade, nasce do apego ilegítimo de desejar ter o que não pode ser possuído. Não se justifica o cerceamento da liberdade de alguém em função dos medos e desejos de outra pessoa. O descuido e ignorância em permitir a manifestação em seu coração de emoções de baixa vibração como o ciúme, a inveja, o orgulho e a vaidade são as reais e únicas razões do sofrimento. No entanto, essas sombras, sempre sorrateiras e disfarçadas, se eximem da responsabilidade e a atribuem injustamente ao amor. Há milênios se condena o amor por crimes que ele nunca cometeu. E nós continuamos a acreditar na mentira, desperdiçando a beleza e a grandeza do amor”.
Argumentei que os jornais, todos dias, narram crimes passionais cometidos por amantes inconsoláveis. Loureiro balançou a cabeça como quem diz que está tudo errado e falou: “Ciúme não é amor. Mata-se por ciúme, nunca por amor. São sentimentos antagônicos. Já ouvi, muitas vezes, a seguinte frase: ‘quem ama tem ciúme’. Uma mentira. E uma mentira repetida mil vezes ganha força de verdade, o que é lamentável, por induzir as pessoas ao erro”. Retruquei que o ciúme era inerente à natureza humana. “Sim, isso é verdade. Ciúmes, inveja, orgulho, vaidade, medo estão entre as outras emoções que compõem as sombras que se escondem no âmago de todos nós. Transmutá-las é a grande batalha. Há quem sinta ciúme e mate; há quem sinta ciúme pegue o violão e faça uma canção. Enquanto uns permitem que as sombras se tornem senhoras de si, a dominar e iludir as suas vontades; outros as iluminam, modificando para sempre a sua antiga condição. Percebe que enquanto um enveredou pelas raias da insanidade e do crime, o outro confeccionou uma bela obra de arte? Ambos tinham o mesmo sentimento como matéria-prima. Mas fizeram escolhas diferentes. Porquê? Nível de consciência é a resposta. E somente a compreensão das infinitas possibilidades do amor sustenta e expande as fronteiras da sabedoria, a nos levar às Terras Altas da Plenitude”.
“É necessário entender que a Lei da Afinidade é que rege a aproximação entre as pessoas. Uma frequência energética de sentimentos e pensamentos vibrando em faixas similares as atraem. Isto pode durar um dia ou séculos. Então, deixar ir ou você próprio partir quando sentir que ligações não se sustentam na intensidade necessária, significa que já estão em pontos diferentes do Caminho. Respeitar as escolhas é entender a viagem. É sábio, é um ato de amor. Isto nos liberta para novas histórias e para um novo ciclo. Separações não são perdas; são oportunidades”.
Eu quis saber onde costumamos errar, onde nos perdemos? De pronto o artesão me respondeu: “Para começar costumamos focar na exigência em sermos amados ao invés de amarmos sem qualquer exigência, invertendo a lógica natural do amor, que precisa da renúncia para se espraiar e brilhar em toda a sua amplitude. Só temos aquilo que doamos com o coração, com pureza e sinceridade, sem apegos, condições ou tributos. Mas reparo as pessoas fazerem uma espécie de ‘livro-caixa do afeto’, onde anotam créditos e débitos na ilusão de auferir lucros ou, na pior das hipóteses, zerar a conta do ‘carinho e da atenção’. Ora, isto nunca foi amor”.
Loureiro bebeu mais um gole do tinto e se aprofundou: “Outro motivo, bem comum, é transferir ao outro a responsabilidade por fazê-lo feliz nas relações afetivas. É como mandar o outro fazer um trabalho que lhe cabe. Você apenas encontrará a felicidade dentro de si, em processo de autoconhecimento, de cura pela verdade, de transmutação das velhas formas do pensar e agir. Esta construção é pessoal e intransferível. Depositar no outro a obrigação de te fazer feliz? Tudo errado de novo. Puro medo de enfrentar as batalhas de aprimoramento e evolução que devem ser travadas consigo mesmo, entre o ego e a alma: sombra e luz. O amor exige doação, jamais cobrança. Em geral, por infeliz ironia, cobra-se muito quando se tem pouco para dar. Temos que compartilhar o amor que floresce em nós e não desejar ardentemente sugá-lo do outro como um viciado em busca de droga”.
Questionei ao sapateiro, sobre o sofrimento causado pela perda de um ente querido. Ele me olhou incrédulo e rebateu de pronto: “Perda? Que perda, Yoskhaz? Até quando vamos insistir em não desmistificar a morte? A morte é uma certeza, ponto. Lembrar todos os dias de que iremos morrer a qualquer momento é altamente saudável, amplia o sentido da vida, refina o tempo, aperfeiçoa as escolhas. Se entendermos que a morte não é o final de uma história, mas a mudança de capítulo no livro da vida, não haverá sofrimento. A saudade da partida será a fonte da alegria no reencontro. Inúmeras partidas e chegadas. Os laços costurados pelo amor são eternos e unirá a todos mais à frente. Lei da Afinidade de novo. Caso contrário, nada faria sentido. Enquanto isso vamos aprendendo, transmutando, compartilhando para seguir adiante, habilitados para novas aventuras de uma história sem fim. A saudade tem que ser motivo de alegria, pois só há saudade onde existe amor. Celebremos a saudade, pois quem não a sente reside no vazio. Assim, a exata percepção das Leis do Universo transforma o sofrimento em pó de estrelas”.
Falei da sua sobrinha, que mais cedo saíra em lágrimas da oficina. Ele me disse com a voz mansa, repleta de compaixão: “Ela ainda está aprisionada a condicionamentos sociais e culturais que enevoam a pura dimensão do amor. Usa o seu sagrado nome e o interpreta de forma equivocada. Evoluímos por vontade ou pelo desequilíbrio que a vida impõe. A recusa dela em se permitir outra ótica traz sofrimento, que em algum momento, por se cansar da dor, ou melhor, por entendê-la desnecessária, fará com que reveja conceitos, ideias, comportamentos. Então, conhecerá toda a liberdade contida no amor. Só assim entenderá e viverá o amor. De verdade”.

ALEGRIA, ALEGRIA! (Conto)

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, tinha sido convidado pelo vigário da igreja localizada na pequena e charmosa cidade próxima à montanha que abriga o mosteiro, um amigo de longa data, para proferir algumas palavras durante a missa de domingo. Ele me chamou para acompanhá-lo e nos fez chegar cedo para aguardar no banco da praça em frente à igreja. O Velho gostava de sentir o sol que aquecia o corpo diante da manhã fria de outono. O sol, o frio, os esquilos, pais que passeavam com seus filhos pequenos, filhos que passeavam com seus pais anciões, a algazarra das crianças, os jardins e os pássaros, enfim, a vida pulsando em todas as suas manifestações encantava o monge. “Tudo isso alimenta o meu silêncio”, comentou.
A missa transcorreu tranquilamente em seu cerimonial até que o Velho, foi chamado a subir no púlpito. O vigário alertou aos presentes que não estranhassem a linha de discurso do monge, embora profundamente cristão, pertencia a uma ordem esotérica secular, dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. O Velho agradeceu e iniciou: “Eu vou tecer algumas palavras sobre a grandeza da gratidão, essa virtude tão mal interpretada”.
“Alguns estão aqui aflitos a solicitar auxílio por problemas que se sentem incapazes de resolver; outros para agradecer pelas dádivas concedidas; muitos, apenas para se banharem nas energias de amor e luz que inundam esta casa. Cada qual com os seus motivos, razões, sentimentos e fé. Todos merecem acolhida, respeito e carinho. Mas desde sempre me fiz duas perguntas: qual o critério da esfera espiritual para atender as súplicas, vez que algumas são atendidas, outra não? A outra, qual a melhor maneira de agradecer por tudo de bom que foi ofertado? Foram questões que tomaram bastante tempo em minhas meditações”, fez uma pequena pausa para que todos refletissem por instantes e prosseguiu: “Conheço os que realizam doações preventivamente, como forma de ‘ficar bem’ com os amigos divinos a garantir proteção e privilégios. Há os que preenchem generosos cheques em prol de instituições religiosas e filantrópicas para ‘quitar a dívida’ do pedido atendido. Para estes e aqueles posso afiançar o total equívoco de suas intenções. O Céu ou o plano espiritual, independente do nome que lhe atribua, não é um balcão de negócios”. A voz do Velho tinha a habitual serenidade e, embora baixa, se podia ouvir claramente até a última fileira; o silêncio era absoluto.
“Além do mundo visível não se compra favores, tampouco o dinheiro é a moeda de troca. Os interesses e valores são outros. Você se acha ‘especial’ porque tem mais dinheiro, mais estudo ou aparece na TV? Esquece. Ter as melhores ferramentas e possibilidades apenas aumentam a sua responsabilidade em transformar. Sabe as orações em que você promete adotar uma criança caso fique milionário ao ganhar o prêmio da loteria? Esquece. Não se barganha com amor, muito menos com Deus.
“A lógica no plano invisível é diferente. Não existe nenhum interesse pelos desejos do seu ego. As preocupações dos benfeitores espirituais estão ligadas tão somente as necessidades da sua alma, a tudo que você precisa para evoluir. O emprego, a casa, os filhos e até mesmo a saúde, ou a falta disso, compõe a perfeita realidade para você Aprender, se Transformar, Compartilhar e Seguir”.
“Não, não se lamente por não ter o que deseja, ao contrário, agradeça a oportunidade e faça o melhor uso possível do que lhe foi oferecido. Isto é sábio. Isto é pura gratidão. Ainda que neste instante haja dificuldade em entender, tenha certeza não lhe falta absolutamente nada para o encontro com a paz, salvo o que você tem que buscar no âmago do próprio ser: A coragem de agregar os seus dons e talentos ao seu viver; parar de negociar com as sombras; aperfeiçoar as escolhas na busca pela Luz e aprender a amar demais.
“Por mais absurdo que possa parecer, tudo que acontece em nossas vidas é para o nosso bem. O bom guerreiro agradece a dureza das batalhas pelo seu aperfeiçoamento na habilidade de combater. A sua evolução é a prioridade para o Universo, todo é resto é efêmero, perfumaria sem poder de cura. Portanto, seja grato sempre. As frustrações são adubos do amadurecimento; as dificuldades são lições a iluminar e fortalecer o espírito; os problemas e adversários são mestres ocultos a nos brindar com sabedoria e ampliar a capacidade de amar. Assim nos metamorfoseamos, rompemos a crosta que aprisiona para florescer as asas de um novo ser”.
“E as preces, elas são importantes? Sim, como a meditação, elevam o padrão vibracional e aproximam os mestres e guardiões invisíveis para ajuda e proteção, desde que haja vontade sincera por transformação e nos limites permitidos pelas Leis Não Escritas que balizam a evolução universal, em binômio formado por necessidade e merecimento. Acontecimentos inesperados; o surgimento repentino de pessoas, como se fossem anjos; os inúmeros sinais; a intuição, que é a perfeita conexão cósmica, são algumas das muitas maneiras de colaboração que recebemos. Perceba e seja grato. No entanto, preste atenção: Eles sempre ajudarão, mas jamais farão a parte que cabe a você realizar. São coisas bem diferentes”.
“Assistir a missa, mas se aliar as sombras que lhe habitam não resultará no efeito esperado. Por outro lado, quem anda pelo lado ensolarado da Estrada não precisa temer a escuridão. O perfume das flores atrai passarinhos e borboletas; o odor do esgoto o infesta de baratas e ratos. Assim escolhemos quem nos acompanha”. Deu uma pausa e concluiu: “Portanto, nunca há motivos para reclamações”.
Muitas das pessoas que assistiam a missa estavam visivelmente desconfortáveis com aquele discurso. O Velho olhou para o vigário e este arqueou os lábios em sorriso de aprovação.
“Toda caridade é bem-vinda e uma bela forma de gratidão. Sem dúvida que a ajuda material é indispensável para quem tem frio e fome. No entanto, as de maior significado e importância são aquelas em que depositamos o coração junto com as nossas ações. Por isto a caridade emocional será sempre infinitamente mais valiosa do que a financeira, afinal o que você tem de mais precioso do que o próprio coração? Um abraço costuma valer mais do que um cheque”.
“Não conheço palavra mais bonita do que misericórdia. De origem latina, ela nasce da junção de duas outras e significa o ato de oferecer amor como remédio ao sofrimento alheio. Historicamente os que mais se deram nada tinham para dar, além de si próprios, além de seus corações. Assim, conseguiram tudo. Acham incoerente? Perguntem a Francisco de Assis ou a Tereza de Calcutá. Para ser grande é necessário se sentir pequeno diante do menor de todos. Não basta simplesmente ter o coração do mundo, é preciso sentir o seu pulsar e não lavar as mãos”.
“Me refiro ao dia a dia, no convívio com toda a gente e em todas as nossas relações. Não aguarde ser convidado para alguma grande cerimônia de transformação, pois é durante os afazeres e obrigações do cotidiano que a vida acontece. É nas pequenas coisas que você se revela, aprende e caminha; é nos detalhes quase imperceptíveis que os milagres se manifestam, invisíveis a olhares desatentos. E tudo se modifica de uma hora para outra sem qualquer aviso. Esta é a magia da vida”. Tornou a dar breve pausa para que as palavras encontrassem o seu lugar.
“Ouso a ir um pouco mais longe. A gratidão é sincera e simples em sua manifestação. Os mais puros sentimentos, por serem frutos da pura humildade, são discretos e anônimos. Não se revelam para o aplauso público, mas estão ligados a intimidade e beleza de compartilhar, como qualquer ato de amor verdadeiro. Nasce da responsabilidade pelo aperfeiçoamento da obra que nos foi confiada na condição de coautores. Sim, o mundo foi criado, mas não está terminado. Isto nos torna criadores e também as criaturas desse fascinante espetáculo, com as suas maravilhas e mazelas, na medida que ajudamos a escrever o roteiro, ao mesmo tempo em que protagonizamos as cenas. Nem todos ainda se deram conta da oportunidade concedida. Desta forma, agradeça e vá além da retórica ao tornar impecável cada gesto ou palavra. Não esqueça, ainda que distante, o mundo perfeito começa em você”.
O Velho sabia que não tinha mais do que alguns segundos para não atrapalhar o bom andamento da missa: “Para finalizar, peço desculpas se falei demais e deixo-os com duas questões. Como costumamos reclamar bastante das imperfeições do mundo, pergunto-lhes qual foi a sua melhor ação em prol de um mundo melhor?”, esperou alguns instantes para fazer a outra pergunta. “Qual a melhor maneira de agradecer por todas as bênçãos que a Vida segue a nos presentear?”.
Ao término da missa, o pároco agradeceu ao Velho por suas palavras e trocaram um forte abraço. Na saída da igreja muitas pessoas olharam para o monge com cara-feia, outros vieram lhe cumprimentar e ele atendeu a todas com atenção e carinho. Já de volta à praça, a sós, questionei sobre as perguntas que ele deixou a todos. Achei que não tratavam de uma mesma matéria, assim como o seu discurso, abordava dois assuntos distintos. O monge me mirou nos olhos, deu um leve sorriso e balançou a cabeça como dizendo que eu não tinha entendido nada.
Sentamos em uma cafeteria próxima. O Velho me falou com serenidade: “As Leis Não Escritas ajustam a vida e alavancam a evolução de todos. Caminhamos por gosto ou por imposição. A dificuldade nasce da recusa em aprender a devida lição para se libertar de um ciclo. Não lamente, agradeça, aprenda, se transforme, compartilhe e siga. O andarilho do Caminho se reconhece distante, não critica e busca o aperfeiçoamento. Ele sempre oferece o melhor de si. A cada escolha definimos o nosso destino e herança. Nesta ou em outra estação recolheremos os frutos da própria semeadura. Receberemos as exatas lições para entender a grandeza do Jardim. Somos o jardineiro, a semente, a flor e também o fruto. A semente é depositada e, em algum momento, há de germinar. Nem que para isso o solo pressione a casca de forma enérgica para que se rompa, germine e floresça em todo o seu encantamento”.
Ficamos em silêncio por um tempo e tornei a tocar nas perguntas que ele tinha feito a todos na igreja e qual seriam as respostas. Ele me observou com os olhos repletos de misericórdia e brincou. “Você é o pior discípulo que já tivemos na Ordem, Yoskhaz! Só existe uma resposta e serve para ambas as perguntas”, deu uma pequena pausa, rimos juntos, ele comeu a pequena fração de chocolate que acompanhava o café e respondeu: “A melhor maneira de agradecer pelas bênçãos recebidas é também o jeito mais eficaz de harmonizar o planeta: espalhe alegria por onde passar. Alegria, alegria! O amor tem as cores da alegria. Nada é mais poderoso do que ser o motivo para o sorriso de alguém”.
“Alegria é a melhor maneira de demonstrar gratidão por todas as bênçãos do Caminho”. Mirou no fundo de meus olhos e finalizou: “A alegria é o pão da alma; é um presente do amor. A alegria revela a paciência que temos com o que ainda não somos, de ver a beleza oculta em tudo e em todos. A alegria tem o dom de convidar os corações para dançar, aliviar dores, dar asas aos sonhos da humanidade e a manter viva a esperança indispensável em si próprio e em toda a gente. Permite que as suas atitudes reflitam o perfeito mundo que seu coração deseja. A alegria revela a boa vontade, a coragem e o respeito para com a vida. Aprenda com alegria, se transforme com alegria, compartilhe com alegria e siga com alegria. O melhor de tudo é que você não precisa pagar absolutamente nada por ela, é sementeira barata e está á disposição de qualquer um. Basta buscá-la no fundo do coração. A alegria é uma criatura do Amor e traz consigo todo o poder do Criador”.

O ENIGMA DA PACIÊNCIA. (Conto)

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, parecia encantado com as roseiras do pátio e as podava como bom jardineiro. Pedi para lhe fazer companhia. Ele anuiu com a cabeça e os seus olhos me indicaram um banco próximo para sentar. Ficamos em silêncio por um bom tempo a alimentar a alma com a quietude das horas. Até que perguntei se podíamos conversar. O monge arqueou os lábios em breve sorriso que interpretei como uma permissão. Discorri as minhas reflexões e dúvidas sobre a virtude da paciência e a sua importância para a felicidade. Ele ouviu sem dizer palavra, depois recolheu o alicate no bolso, acomodou-se à sombra em outro banco na minha frente e falou enquanto se distraia com uma pequena lagarta na palma da mão que acabara de arrancar da roseira: “A paciência é alimento indispensável da alma na estrada para a plenitude do ser, onde reside a paz”, pausou por alguns instantes como se buscasse as melhores palavras e seguiu: “No entanto, a paciência é uma virtude valiosa que possui um precioso enigma. A chave para decifrá-lo é a sensibilidade”.
De pronto, eu quis saber mais. O Velho me mirou nos olhos e disse: “Antes de qualquer coisa, há que se ter boa vontade com tudo e com todos. Entender que as pessoas se comportam de acordo com o seu nível de consciência e carga emocional momentânea e pretérita, ajuda a paciência a encontrar o seu lugar em nós. Não adianta ensinar uma criança a calcular uma raiz quadrada se ela ainda não domina as quatro operações básicas da matemática ou explicar algo enquanto está adormecida. Em nossas relações pessoais não é diferente. Ter esse compasso é perceber o passo do mundo, a entender que as relações se desenvolvem de acordo com a evolução e possibilidades dos interlocutores. A natureza não dá saltos. Aos poucos, tudo e todos se aperfeiçoam”.
Pensando ter entendido, falei que restava esperar que cada qual alargasse seu horizonte para as transformações indispensáveis no âmago do ser. De plano o Velho retrucou: “Apenas esperar? Esse não é o enigma da paciência”.
“Não podemos esquecer de oferecer o nosso melhor diante de qualquer acontecimento que se apresente, das mais banais às mais complexas situações e a paciência é parte essencial desse pacote. Isto é uma premissa para o andarilho do Caminho. Entretanto, a paciência nem sempre exclui uma atitude enérgica diante de determinados momentos do cotidiano. Ao contrário, ela tem que se fazer presente principalmente nos momentos que exigem firmeza nas ações”. Acomodou a pequena lagarta dentro de uma caixa de fósforos, mais tarde a soltaria na floresta, e disse: “Ser paciente não significa ser permissivo com o mal, cegos à injustiça, tolerantes com a violência ou omissos ao erro, quando se apresenta a responsabilidade de agir. Em outra variante, existe a hora de esclarecer e ajudar, como um farol a iluminar a embarcação na noite escura, evitando que naufrague nos rochedos da existência. Você nem sempre evitará o desastre, mas sinalizará a possibilidade de outra rota”. Deu uma pequena pausa, me observou por instantes e continuou: “No entanto, essa indispensável interferência é bastante delicada e revela muito de si mesmo. Por isto, deve ser feita com cuidado para que não seja um exercício de orgulho e vaidade do ego, que se satisfaz em imaginar, por instantes, superior ao outro. Tampouco que se crie estardalhaço para não envergonhar aquele que está no erro, porém que tenha tão somente a pura finalidade de mostrar um olhar diferente sobre determinada situação. Não esqueça que a paciência nunca tenta convencer, apenas iluminar, pois é um ato de amor. Bondade, generosidade e, acima de tudo, humildade são pressupostos indispensáveis da paciência”, explicou o monge.
Comentei que nunca tinha me dado conta de como a paciência era complexa. “Sim, ao contrário do que muitos pensam, ser paciente não significa ser conformista, porém um transformador. Sem alarde, longe do moralismo castrador, sem o sincero desejo de humilhar, de vingança ou de buscar aplausos nos palcos sociais. Por outro lado, a paciência não pode servir para maquiar a covardia ou a preguiça. A paciência é para os fortes, pois fizeram a escolha de abdicar da violência para o enfrentamento das dificuldades. O ser que domina a virtude da paciência é um pacífico e um pacificador, utiliza a paz como força de transformação. Ele é suave, porém firme; nunca agressivo. Suas palavras e atitudes servem como bálsamo a acalmar os corações dos que ainda viajam aflitos, lanterna aos navegantes perdidos nas rotas sombrias da existência”.
Questionei como saber a hora de esperar ou agir diante de cada situação. O monge me olhou como se já esperasse a pergunta e respondeu: “Este é o enigma da paciência, Yoskhaz. Voltamos ao início da conversa quando lhe falei sobre a sensibilidade ser a chave do segredo. A sensibilidade nada mais é do que a percepção apurada do Caminho. Isto faz com que o andarilho ofereça sempre o seu melhor, em infinito aperfeiçoamento para as metamorfoses indispensáveis à evolução. É a parte que lhe cabe e que ninguém fará por ele. Por outro lado, traz consigo a calma em saber que as Leis Não Escritas são inexoráveis, mesmo quando o resultado esperado não for imediato, até porque, não raro, envolve questões que o andarilho desconhece. Nada no universo escapará da abrangência e poder do Código. Então, é continuar semeando com afinco e aguardar a magia da vida na primavera que sempre chega”.
Falei que entendia, mas pedi que fosse mais didático. O Velho riu e caprichou: “Falo das Leis do Amor, Retorno, Afinidade, Ciclos, entre várias outras. São as Guardiães do Caminho e direcionam o processo evolutivo. A mente as decodifica pouco a pouco e nos mostra que quando mudamos o nosso jeito de andar mudam também a Estrada e a paisagem. O coração se encanta com a nova leveza do ser. Os desejos do ego lentamente se alinham aos princípios dignos da alma. A sabedoria passa a iluminar as feridas da alma e o amor as envolve com o seu incomensurável poder de curar. Assim passamos do embrutecimento à sensibilidade, da agonia para a paz”. Após uma pequena pausa, concluiu: “Aprendemos o momento de agir ou a hora de esperar através da sabedoria e do amor, mas sem a paciência essas virtudes desaparecem”.
Fechei os olhos por um tempo que não sei precisar. Quando voltei o Velho ainda estava sentado à minha frente. Ele me observou com sua enorme doçura e finalizou: “Não trago nenhuma novidade. A sabedoria e o amor são muito antigos, estão no mundo desde o início dos tempos. A transmutação do chumbo em ouro era a incessante busca dos alquimistas, pois é a grande batalha da vida. Trata-se de uma metáfora a iluminação das sombras que habitam cada um de nós. Esta é a Pedra Filosofal. E, pode acreditar, a paciência é um poderoso ingrediente na magia desse caldeirão”.

quarta-feira, 30 de março de 2016

DEVER DE CASA. (Conto)

Eu tinha terminado um longo e proveitoso período de estudos. Leituras, meditações, reflexões, conversas profundas, foram partes importantes da busca por conhecimento no ciclo encerrado. O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, me lembrou que teoria sem prática é remédio esquecido na gaveta, que perde a razão de existir por não curar. “Conhecimento só vira sabedoria quando vivenciado em todas as nossas relações”, alertava o monge para os discípulos. Eu me olhava de maneira diferente, como se possuidor de uma importante ferramenta em busca da melhor maneira de usá-la. Questionei ao velho monge qual seria, para mim, a melhor aplicação dos meus dons e talentos. Ele estava entretido na poda de uma roseira, mas sempre paciente com todos, me olhou por cima dos óculos e disse: “Não tenho tal correio. Toda escolha é importante, não sendo aconselhável transferi-la a ninguém, por mais querido e bem-intencionado que seja o interlocutor. O poder de decidir sobre o destino é, ou deveria ser, personalíssimo. Não abdique da liberdade que a vida lhe concede em suas escolhas, pois de qualquer forma, seja seguindo o seu coração ou a lógica alheia, você não escapará das responsabilidades e consequências. Portanto, erre ou acerte pelas suas verdades. A Vida lhe impõe o caminhar como única maneira de entender o Caminho”.
Não satisfeito com a resposta, sustentei que não via mal nenhum em pedir um conselho com o intuito de clarear a minha decisão. Dessa vez o velho nem levantou a cabeça e me respondeu de pronto: “Apenas um conselho?”, deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Tire para si um período sabático. Viaje para renovar o guarda-roupa da alma, respirar outros ares, conviver com pessoas que têm um jeito de viver diferente do seu, um outro olhar sobre todas as coisas. Nada mais rico. Acredito que assim você encontrará a resposta que precisa. Não se espante se a encontrar adormecida dentro de você, apenas aguardando que tenha a coragem de trazê-la à vida”.
Assim, atravessei o oceano e retornei para mais uma temporada na aldeia de Canção Estrelada, xamã nativo do Povo da Estrada Vermelha. Fui recebido por todos com a alegria de sempre, tinha cultivado bons sentimentos em minhas estadas anteriores. O xamã viajara para participar de um Conselho de Anciões e retornaria em dois dias, tempo que foi preenchido pelas novidades narradas por todos os lados. Eu tinha mudado bastante e aproveitava cada conversa para encaixar uma palavra iluminada ou um pensamento de profundidade. Quando Canção Estrelada chegou, logo soube da admiração que eu conseguira arrancar em toda a tribo. Ouviu muitos elogios sobre a minha metamorfose, mas não disse palavra. À noite me convidou para fumarmos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra em frente a uma pequena fogueira sobre o manto de estrelas.
Ficamos um bom tempo em silêncio, até que o xamã, depois de uma baforada, disse: “Nem tudo que reluz é luz”. Quis saber ao que se referia e ele foi sincero como de costume: “Ouvi muitos elogios em relação a você. Todos na aldeia estão sinceramente impressionados com as mudanças ocorridas, seja pelas palavras, sempre bem colocadas ou pelas atitudes gentis. No entanto, o discurso costuma ir aonde ainda não conseguimos chegar”. Aproveitei para falar, não sem uma evidente ponta de orgulho, que tinha chegado a hora de colocar todo o meu aprendizado em prática, de maneira a auxiliar a humanidade por um mundo melhor. Elenquei algumas possibilidades urgentes, tais como me engajar em lutas como a mortalidade infantil na África, o desmatamento da Floresta Amazônica ou a extinção das baleias em todos os oceanos do planeta. Canção Estrelada me mirou fundo nos olhos e disse: “Todos esses serviços têm urgência, valor inestimável e carecem de valorosos guerreiros. No entanto, é necessário entender duas coisas: uma, há infinitas maneiras de colaborar por um mundo melhor e todas são válidas; duas, saber a hora e estarmos prontos para enfrentar cada uma das diferentes batalhas”.
Aleguei que me considerava pronto e interpretava as palavras de todos da tribo como uma prova inequívoca das minhas habilidades. No mais, argumentei que tudo que a vida quer da gente é coragem. Ele sorriu com compaixão e disse: “Ahoo! Sim, que a coragem nunca nos falte”, deu uma baforada antes de continuar: “Nem a sabedoria. Um degrau de cada vez, Yoskhaz”, aconselhou.
“Há quanto tempo você não visita a sua família?”, perguntou o xamã a me surpreender. Respondi que tinha alguns anos, pois sempre tive um relacionamento difícil com meus pais e irmãos. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Toda família é uma oficina de reajustes e aprimoramento. Não só em razão de dívidas ancestrais que nos obriga a exercitar o amor mais profundo em suas muitas vertentes como o perdão, a renúncia, a sabedoria, a paciência e a compaixão, mas porque os olhos da família são mais rigorosos em relação às nossas arestas. Não raro eles nos conhecem muito mais do que os de fora. Um discurso com belas palavras e frases de efeito tem o poder de encantar mais facilmente aqueles que não nos sabem a fundo. Na intimidade revelamos o pior de nós. Ajustar os laços familiares que se desfizeram na esteira do tempo forja o caráter do guerreiro, lapida a mente do sábio e enobrece o coração dos filhos do Grande Espírito”.
“De que adianta sair para cuidar do mundo enquanto sua casa arde em fogo?”, ele perguntou. Retruquei que estaria sendo egoísta em colocar o individual na frente do coletivo. “Há prioridades e hierarquia de urgências. Primeiro faça o dever de casa, depois salve o planeta”, explicou. “Assim como ao nos conhecer melhor passamos a ser mais compreensivos com os outros, é o aprimoramento das relações familiares que irá te dar o compasso e o esquadro do mundo. Cedo ou tarde temos que avançar além das boas impressões que todos alcançam com facilidade nas relações sem profundidade”, concluiu. Acabei por confessar que não me sentia animado em buscar a minha família, pois havia um longo histórico de incompreensões e eu acreditava, sinceramente, que nada mudaria. Acrescentei que tinha encontrado a fórmula perfeita para o problema: visitas pontuais e rápidas em datas festivas, nos limites do que eu denominava como política da boa vizinhança. Canção Estrelada tornou a sorrir por perceber que tinha aberto o meu coração e revelado sentimentos que não combinavam com o meu discurso fácil e bonito usado ao regressar à aldeia, na ilusão de ferramentas que imaginava dominar. “Percebe agora de que maneira você deve aperfeiçoar e fortalecer o espírito antes de guerrear outras lutas? O guerreiro despreparado é presa fácil nas sombras da desilusão e do desânimo. A batalha de reconciliação com os seus é parte da maior batalha da sua vida, aquela que você trava todos os dias dentro de si, a iluminar as próprias sombras, na árdua tarefa de afiar a espada da sabedoria, forjar o escudo do caráter e estender o tapete de flores do melhor amor”.
Insatisfeito por não ouvir o que desejava, argumentei que a intolerância em minha família era enorme e eu me sentia mais à vontade com os amigos que a vida tinha me presenteado. “É a oportunidade e a grandeza de oferecer o melhor de si a quem não nos compreende ou aceita. Ser bom apenas para com os bons? Isto os fracos também conseguem”. Falei que meus familiares pensavam de uma maneira muito diferente da minha e eu jamais conseguiria convencê-los. O xamã me olhou como se eu fosse uma criança e disse: “Convencer de quê? Não existe estupidez maior do que tentar convencer os outros da nossa razão. Oferecemos o nosso coração com pureza e serenidade, como fosse semente a aguardar pela chuva que um dia fertilizará o solo, na certeza que cedo ou tarde, germinará as flores da paz no grande jardim do amor. Esta é a lei, Yoskhaz”.
Ainda longe de me sentir vencido, pois meu ego secretamente alimentava o desejo de trabalhar em questões que causariam maior sensação nos salões sociais, narrei algumas tentativas frustradas e, até mesmo, como fui tratado de maneira rude em certas ocasiões. Canção Estrelada me ouviu com sua paciência que parecia infinita e quando terminei as minhas lamúrias, ele falou: “Você evita o trabalho de remover a lama que lhe aprisiona e, para tanto, concede a si qualquer desculpa. Claro que você enfrentará a desconfiança e a mágoa dos seus parentes. Eles te conhecem desde sempre e há rusgas ainda sem luz. Suas mais nobres intenções serão postas em xeque e seus valores testados até o limite para a mais fina lapidação da sua alma. Agradeça por isto, o aço só consegue forjar a melhor têmpera no calor do fogo”.
Falei que algumas pessoas da minha família eram muito duras e, com certeza, fariam questão em me humilhar. Eu não queria mais este tipo de situação em minha vida. Canção Estrelada arqueou os lábios em breve sorriso, me passou o cachimbo e olhou para as estrelas. Ele sabia que naquele instante estávamos dançando no âmago do meu ser. O xamã disse com mansidão: “A fronteira entre a humildade e a humilhação reside no fato de permitirmos nos sentir ofendido com as palavras alheias. Se você entender que as ofensas apenas revelam o que o narrador possui no coração, perceberá que ele esta falando da essência dele e não a verdade sobre a sua. Ignorar isto te fará sentir humilhado por ofendido e eternizará o conflito. No entanto, a verdade está muito além das aparências. O agressor, esperneia não por ser vítima, mas pela alma que está em desajuste na escuridão que o maltrata. Ainda que negue, por não conseguir ver por trás do véu do orgulho e da ignorância, ele está clamando por ajuda. Só quem já andou um pouco pelas trilhas do amor e da sabedoria consegue perceber a bela dimensão da humildade. O humilde tem o poder de flutuar sobre a esteira das agressões. Não à toa, pela magia de transformar em pó de estrelas toda e qualquer ofensa, a humildade é a primeira ponte do Caminho”.
Ficamos algum tempo sem dizer palavra, ele pegou o cachimbo para uma baforada longa e fechou os olhos para finalizar: “Para ser grande você tem que ser sinceramente pequeno diante dos outros para servi-los usando o seu coração como bandeja. Este é o poder da humildade e uma das lições da borboleta que não teme rastejar até amadurecer o valor das próprias asas”.
Nada mais foi dito naquela noite. Entendi que eu tinha de voltar para casa e cumprir o meu destino que começava no berço desta existência. Uma família não se forma em vão e há que se entender o porquê. Era a hora e o lugar para oferecer o meu melhor; exercitar e aprimorar o meu aprendizado; fortalecer o espírito diante das dificuldades íntimas, que nos são as mais duras, até porque revelarão verdades que desconheço sobre a minha essência; expandir os limites do meu coração e deixá-lo com a porta aberta para quem quiser entrar; transmutar continuamente meus sentimentos e ideias que sempre podem ser diferentes e melhores. Enfim, reconstruir a casa que estava demolida – a minha família. Era lição das mais difíceis. Só então eu estaria pronto para conquistar o mundo.
O dia amanheceu em paz.

A GRANDE AVENTURA (Conto)

Eu caminhava pelas ruas medievais da pequenina cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Era acossado pelos ventos frios de outono que obrigavam a me proteger entre os vãos e muradas das antigas construções. Alegrei-me ao ver a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente a sua oficina. Encontrei o bom sapateiro elegantemente vestido, como de costume, a trabalhar em uma cara bolsa de uma belíssima mulher, que aguardava o conserto. Fomos apresentados e o hábil artesão explicou que a jovem tinha sido amiga de escola da sua filha, portanto, a conhecia desde criança. Contente em me ver, ele pediu para que eu esperasse um pouco, pois queria me falar sobre um novo livro de filosofia enquanto tomávamos um café. Trabalhar sobre o couro era o ofício de Loureiro; prosear sobre filosofia, a sua arte. Nem tinha me aquietado em um canto, a bela mulher continuou a falar das viagens por lugares exóticos que já tinha feito. Passeios de balão sobre vulcões, saltos de paraquedas em queda livre, perigosas corredeiras em frágil caiaque, entre outras façanhas. Arrematou afirmando seu enorme gosto pela aventura. O sábio artesão, imerso no trabalho, não disse palavra. Logo em seguida, como se sentisse dificuldade na quietude e no silêncio, a jovem falou que não via a hora de iniciar a escalada ao Everest que programara para o próximo verão e começou a discorrer sobre os preparativos e riscos da nova empreitada. Até que em determinado momento da narrativa, disse que esse gosto pela aventura adquiriu do ex-marido. Nesse momento, o sapateiro sem levantar a cabeça, apenas me olhou por sobre os óculos que lhe corrigiam a vista cansada, permaneceu calado e voltou ao trabalho. Como em uma ópera previsível, logo em seguida, ela contou de como tinha sido feliz naqueles anos, mas fez questão de ressaltar, sem parecer muito sincera, que não gostaria de encontrá-lo em uma dessas viagens. Logo em seguida, deixou transparecer certa mágoa pelo fim do casamento, que evidentemente ocorrera contra a sua vontade. Loureiro levantou a cabeça, mirou a bela moça nos olhos e disse com bondade: “O mais interessante nas pessoas não é o que elas mostram, mas o que escondem”.
“Já parou para pensar que todo esse seu interesse por viagens pode estar apenas adiando a grande aventura da sua vida?”, perguntou para a moça, que de início pareceu curiosa, querendo saber ao que se referia o sapateiro. Ele explicou: “O que você tem que questionar é se viaja em busca de simples divertimento ou por fuga, na ilusão de retornar a um momento de sua vida que não existe mais. Pense bem”, pediu o sábio sapateiro.
Levemente irritada e com uma voz em um tom acima, disse acreditar que a história do seu casamento ainda estava longe de acabar, pois família do seu antigo marido a adorava e todos lhe afirmavam que ele jamais encontraria uma esposa melhor. O velho artesão, mantendo a voz baixa e doce, falou: “Você entende que todos esses passeios perigosos apenas ocultam a mais fantástica de todas as viagens que você algum dia ousou a realizar?”. A moça quis saber de qual viagem ele falava. “A da libertação”, concluiu o sapateiro.
A bela mulher retrucou dizendo que ele estava enganado, pois era uma pessoa absolutamente livre. Ia e voltava a qualquer canto do planeta na hora que quisesse. “Flanar solto pelas ruas não significa liberdade. Os perdidos e desorientados também assim o fazem”, ele tentou diferenciar. A moça argumentou que era dona de si mesmo e das suas escolhas, portanto, uma pessoa livre. O artesão tentou esclarecer: “A questão é saber qual a real amplitude das suas escolhas. Entender o quanto elas podem estar amarradas a desejos inconfessáveis, a pesadelos que insistem em maltratá-la por se fantasiarem de sonhos e, por consequência, a dificuldade em se livrar deles. As frustrações escondidas no inconsciente, prontas a nos enganar, são difíceis de identificar e se tornam o passo inicial para um sofrimento que pode atravessar tempos imemoriais. Padrões de pensamentos endurecidos e automatizados, comportamentos obsessivos, ou ideias e conceitos que nos recusamos a transformar, terminam por aprisionar e limitar as escolhas, como se, por absurdo, a vida não permitisse um novo olhar”. Deu uma pequena pausa e diante das feições da moça, um misto entre a surpresa e a raiva, ele prosseguiu sereno: “A consequência mais comum é insistirmos em manter o passado atrelado ao presente, sem entender que após o amadurecimento a fruta é aproveitada ou apodrece. Depois vira adubo ou semente. Devemos permitir o fechamento do ciclo que findou para que o novo se inicie”.
A jovem retrucou com convicção de que ela e o ex-marido nasceram para formar uma família. Reiterou que todos que os conheciam na intimidade corroboravam essa certeza. Loureiro, com a calma que lhe era peculiar, tentou oferecer outra ótica: “As almas são afins, ou seja, mantêm-se juntas enquanto existir afinidade energética ou de propósitos, pelo tempo em que estivem no mesmo degrau evolutivo. Isto pode durar um dia ou muitos séculos. Todos somos espíritos livres e, por princípio, devemos partir ou deixar ir, quando o ciclo se fechar”. Deitou as ferramentas sobre o balcão de trabalho, se acomodou na cadeira e prosseguiu: “Por experiência própria, sei o quanto é difícil aceitar que as fases da vida mudam, quando, muitas vezes, queremos que elas se eternizem. O Universo exige movimento. Para tanto, transformação”.
A jovem lhe disse que não via sentido em abdicar do passado se este lhe parecia melhor que o presente. Com olhos que revelavam compaixão, Loureiro tentou explicar: “A vida não está preocupada com os seus desejos, mas com a sua necessidade de evolução. A cada ciclo, uma lição. Celebre, pois chegada a hora de abrir as asas para iniciar um voo além das fronteiras do conhecido e já vivido”.
Impaciente, por contrariada, a bela mulher se esforçava para não perder o controle. Então, perguntou ao artesão se ele estava lhe aconselhando a abandonar um sonho. De pronto, ele respondeu: “De jeito nenhum, sonhos são sagrados e parte primordial dos encantos da vida. No entanto, é preciso entender que os sonhos estão estritamente ligados aos nossos dons, aos talentos que devemos exercer para que o melhor em nós floresça. São as metamorfoses da evolução; as transmutações que operamos no âmago do ser a se refletir através de um novo jeito de pensar e agir. Assim vivemos o sonho; todo o resto é apenas desejo”.
A jovem reclamou que ele parecia um louco em afirmar que todo desejo era ruim. “Eu não falei isso”, protestou Loureiro: “Apenas tento lhe dizer que os desejos, quando mal interpretados ou assimilados em fontes escusas, alimentam as nossas sombras. Estas, as sombras, comumente se tornam um cruel carcereiro por não nos permitir entender que estamos presos ao nos iludir livres”. A mulher pediu que ele fosse mais específico e perguntou o que eram as tais sombras a que se referia. “As sombras se manifestam através dos sentimentos de baixa vibração como ciúme, inveja, mágoa, entre outros, e também por alguns comportamentos, como por exemplo, a fuga da realidade”, o sapateiro elencou apenas algumas atuações do largo espectro das sombras, comuns a todos nós. Em seguida abordou o aspecto tênue de outro tipo de sombra e tocou na delicada esfera pessoal da jovem: “Ter como pedra fundamental da vida a vã esperança de que o outro algum dia pense e aja de acordo com a nossa vontade é abandonar-se na masmorra da ilusão e da dor”. Deu uma pequena pausa, mirou a bela jovem nos olhos e tentou concluir: “Não raro criamos um ideal de vida sem perceber o quanto isto nos maltrata, pelo absurdo de criarmos um elo de dependência entre nossas escolhas e as escolhas alheias, imaginando que ali reside a felicidade. Este é o elo que aprisiona. Como não há, nem pode haver, imposição sobre a livre vontade do outro, o erro de conceito nos empurra para o abismo do sofrimento”.
A jovem, agora bastante irritada, disse que aquela oficina não era um divã, Loureiro não era terapeuta, tampouco sabia do que falava e, com certeza, era melhor ele parar de ler livros que não fosse capaz de entender. “Sim, sou apenas um velho sapateiro, amante dos livros, a pensar na vida e, provavelmente, a falar, de vez em quando, coisas que não devesse. Peço-lhe desculpas por ter me intrometido onde não devia”. Neste instante tinha finalizado o reparo na bolsa e a entregou a jovem. Ela perguntou o preço do serviço. Ele respondeu com seu jeito elegante e de maneira sincera: “Você não me deve nada. Acho que já lhe causei inconvenientes demais por hoje. Peço desculpas por ter me comportado como um pai aconselhando uma filha. Sei que não fui convidado para esse papel. Este talvez seja o meu erro, mas apenas este”. A moça se despediu com as feições fechadas e saiu, não sem tempo de ouvir o bom artesão desejar: “Que a paz seja convosco”. Ela parou, mirou os sapateiros nos olhos, girou nos calcanhares e partiu.
Loureiro passou um bule de café fresco sem dizer palavra. Com uma xícara fumegante nas mãos, puxei conversa enquanto ele se acomodava à minha frente. Falei que concordava sobre a necessidade de romper com os velhos padrões, ideias que não têm mais lugar nas prateleiras do coração nem nas gavetas da mente, de atitudes que não levam a lugar nenhum por nada acrescentar ou transformar. Enfim, desamarrar as asas. Ele tomou um gole de café, me observou por algum tempo e disse: “A viagem de libertação da alma sobre os condicionamentos impostos pelo ego e pelos conceitos do mundo é a grande aventura da vida de todos nós. Ela nos leva às Terras Altas do Ser”. Deu uma pequena pausa e finalizou com um muxoxo, como se falasse consigo: “Ocorre que muitos ainda temem as alturas”.

PELO PRISMA DA LUZ (Conto)

“O que nos faz bom ou mau não é o que nos acontece, mas como reagimos ao fato”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, provocando uma grande discussão na universidade de uma grande metrópole, onde fora convidado para uma mesa de debates com filósofos, professores, cientistas e artistas. Um dos participantes, homem culto e gentil, discordou frontalmente, argumentando que as pessoas são frutos do meio em que vivem. Articulado com as palavras e ótima retórica, sustentou que as experiências do convívio social obrigam e aprisionam as escolhas, através de seus sucessos e traumas. O Velho tornou a discordar: “Atribuir ao mundo a responsabilidade por nossos erros é vestir a fantasia da pobre vítima. Isto não ajuda ninguém em nada. É fundamental que se dispa do personagem para entender que se pode fazer diferente. Seguir sem a culpa que limita, mas com a responsabilidade de que agora em diante fará melhor, pois terá compromisso com a Luz”.
O debate ficou acalorado e todos se manifestaram. A maioria pensava como o professor e alguns outros como o monge, que manteve a postura serena, mesmo diante de uma historiadora que atacou duramente o seu posicionamento. Ela pediu que ele definisse o que era “compromisso com a Luz”. O olhar do Velho me encontrou sentado na plateia e pude perceber o quanto ele achava tudo aquilo interessante. Tomou um gole de água e respondeu: “Compromisso com a Luz é um código de dignidade que cada um de nós tem que escrever na alma para nortear a conduta, com leis próprias baseadas no melhor que existe em si. Princípios do mais puro amor e da mais clara sabedoria devem iluminar as suas linhas e ações. Porém, como passamos por infinitas transformações, esse código de conduta não é definitivo. Ele sofrerá mudanças na medida que aquela alma evoluir. Aos poucos, seus conceitos se modificarão por outros mais iluminados. O instrumento que permitirá tal evolução será as escolhas que o aperfeiçoará através das dificuldades, inerentes à vida, a lhe ensinar valiosas lições indispensáveis à evolução. Para tanto, se faz indispensável estarmos em movimento constante, na eterna busca pela Luz. Este é o compromisso, este é o Caminho”. Deu uma pequena pausa antes de concluir: “Cada qual é o herói do próprio filme e todo herói, por princípio, acaba, cedo ou tarde, por buscar o lado Ensolarado da Estrada”.
Os ânimos se exaltaram ainda mais e nem de longe houve qualquer consenso. Mais tarde, naquele mesmo dia, comentei que me espantava vê-lo tão tranquilo diante de tanta discórdia e ataques: “Tentar convencer os outros é inútil; durante uma discussão é tolice. Devemos ouvir com respeito e falar as nossas verdades com serenidade e clareza. No silêncio da alma a boa semente um dia há de germinar. Aqui ou ali. As ideias precisam do adubo da quietude para florescer”.
Falei, também, que concordava com a maioria dos debatedores. Achava que o ambiente social é determinante para a formação das pessoas, atenua e justifica as suas fraquezas. O Velho coçou a barba e disse: “Claro que tudo que nos acontece nos influencia, pois é fonte de aprendizado e, não raro, demoramos a entender. O que não quer dizer que se te acontece algo ruim, isto vá justificar uma má atitude. São essas escolhas que nos definem”. Tornei a discordar e o acusei de estar sendo muito ingênuo diante da vida. Ele apenas me observou e não disse palavra.
No dia seguinte, quando regressaríamos ao mosteiro, o Velho me entregou um pequeno pacote e me pediu o favor de deixá-lo com uma amiga que morava no subúrbio daquela grande cidade. Ele cuidaria de outros compromissos e nos encontraríamos à noite para viajar. De posse da encomenda e do endereço, peguei o metrô e desci na última estação. Depois enveredei por uma malha de becos e vielas que seguia através de informações que conseguia com um e outro. Na medida que avançava, as casas ficavam cada vez mais humildes e eu tive a sensação de que jamais conseguiria sair daquela teia. Comecei a sentir medo. Em determinado momento, sem saber em qual direção seguir, ouvi uma bela voz, ao longe, a cantar uma canção que de tão bonita parecia encantada e reverteu o sentimento que começava a tomar o meu coração. De imediato lembrei da Odisseia de Ulisses e do perigo que o protagonista enfrentou diante do canto das sereias. De início interpretei como um mau presságio. Entretanto, lembrei que o Velho sempre me ensinou a respeitar e interpretar os sinais. Enchi o coração de esperança, vez que perdido eu já estava e deixei que a melodia me guiasse até uma casa simples e muito velha, porém bem cuidada. No quintal, algumas crianças brincavam com evidente alegria. Aproximei-me da janela e uma mulher, que não consegui precisar a idade, cantava enquanto costurava. Quando me viu, sorriu e disse: “ Eu estava lhe esperando”. Largou a agulha e se levantou para abrir a porta. Fui recebido com alegria e tomado por uma indescritível sensação de bem-estar. Ela vestia um vestido simples, porém com um belo estampado em cores fortes. Uma rosa vermelha lhe prendia os cabelos negros. Fez uma mesura e, sem que eu precisasse perguntar, falou: “Meu nome é Mercedes. Sim, eu sou uma cigana”. Levou-me até a cozinha e tirou um bolo cheiroso do forno. Chamou as crianças, eram seis, que comeram em alegre algazarra e rapidamente voltaram para brincar no quintal. Perguntei se eram seus filhos, pois achei-os muito diferentes entre si. “Sim, são todos meus filhos. Todas as crianças que passam pela porta desta casa e desejam ficar, se tornam meus filhos”, explicou. “O primeiro surgiu não sei de onde, simplesmente apareceu. Não devia ter mais de quatro anos. Disse que vivia na rua desde sempre, não tinha família e estava com fome. Convidei-o para ficar, coloquei-o na escola, cuidei dele. Ninguém veio reclamar. Depois ele trouxe outro que encontrou abandonado na rua, em condições parecidas. Também ficou. De igual modo chegaram os demais. São todos filhos; são todos irmãos. O coração tem o poder de alargar as próprias fronteiras até o infinito, na exata medida do amor que temos”, seus olhos tinham um brilho que eu nunca vira igual.
Não resisti a curiosidade e indaguei se era casada ou se possuía uma família. “Perdi meus pais ainda na infância, fui criada pelos cantos, ora aqui noutra ali. Sofri o preconceito da pobreza e da minha etnia, mas desde logo resolvi fazer disto a minha força. Tornei-me uma moça vistosa, não tanto pela beleza física, mas por uma alegria que sempre fez parte de mim. Penso que esta é a causa do brilho e da atenção que sempre chamei. Casei cedo, mas meu marido logo me trocou por outra mulher que poderia lhe proporcionar uma vida mais confortável. A casa era dele. Peguei tudo que tinha, que mal enchia uma sacola, desejei-lhe boa sorte e segui em frente”, falou com a tranquilidade de quem tem a vida bem equacionada dentro de si. Eu quis saber se tudo isso tinha lhe causado revolta. “Não há espaço para mágoa, apenas para o entendimento de que cada um age de acordo com amplitude da sua alma. Sentir-se vítima é chamar para si o papel do fraco. Lamentações nos tornam chatos e em nada ajudam. Percebi que as trombadas tinham o poder de me fortalecer, como a mão de um estivador que fica calejada e melhor afeita ao trabalho depois de tanto peso”.
Perguntei como conseguia alimentar, vestir e educar aquelas crianças, que pareciam bem cuidadas e felizes. “Vivo do meu ofício de costureira. Por vezes, exerço a arte do meu povo de jogar cartas a falar do destino; da parte que não cabe o arbítrio; das permissões e compromissos que assumimos antes desta existência. Embora não cobre a consulta, as pessoas, quando satisfeitas, fazem alguma doação, que aceito com grado e acaba por ajudar nas despesas. Nunca nos faltou nada”. Ela me serviu uma xícara de chá com um generoso pedaço de bolo, depois falou: “Aprendi que o importante é sempre oferecer o seu melhor, colocar a maior dose de amor possível em tudo que fizermos. Depois é deixar que a magia da vida cuide do que é necessário”. A cigana me mirou nos olhos e disse em tom baixo, como quem revela um segredo: “E cantar. Cantar sempre. A música espanta os maus espíritos” e sorriu.
Depois, Mercedes abriu o pequeno pacote enviado pelo Velho. Dentro além de um belo pregador de cabelos em forma de flor, que ela adorou, tinha um outro embrulho menor destinado a mim. Surpreso, abri e encontrei um par óculos sem lentes. À parte, vários jogos de lentes de muitas cores. Atônito, olhei para cigana sem entender o que aquilo significava. Ela jogou os cabelos para trás e deu uma risada gostosa e disse: “É uma antiga mensagem codificada entre os esotéricos. Consegue entender?”. Falei que não e pedi para que fosse mais clara. “Diz que podemos escolher as lentes pelas quais vemos o mundo. As do drama ou as da alegria; as da tragédia ou as das lições. O seu olhar será determinante para que o fato defina a sua reação. Olhos de drama costumam enterrar os sonhos; olhos de aprendiz alavancam a evolução”. Rimos juntos dos truques do Velho, como um mágico a nos encantar com o imprevisível. Por fim, a bela cigana me disse: “ Tem uma frase dita pelo Mestre há milênios que define a maneira como atravessaremos o Caminho: ‘Se o seu olho é bom, todo o seu corpo é Luz’”.