quarta-feira, 30 de março de 2016

DEVER DE CASA. (Conto)

Eu tinha terminado um longo e proveitoso período de estudos. Leituras, meditações, reflexões, conversas profundas, foram partes importantes da busca por conhecimento no ciclo encerrado. O Velho, como carinhosamente chamávamos o decano do mosteiro, me lembrou que teoria sem prática é remédio esquecido na gaveta, que perde a razão de existir por não curar. “Conhecimento só vira sabedoria quando vivenciado em todas as nossas relações”, alertava o monge para os discípulos. Eu me olhava de maneira diferente, como se possuidor de uma importante ferramenta em busca da melhor maneira de usá-la. Questionei ao velho monge qual seria, para mim, a melhor aplicação dos meus dons e talentos. Ele estava entretido na poda de uma roseira, mas sempre paciente com todos, me olhou por cima dos óculos e disse: “Não tenho tal correio. Toda escolha é importante, não sendo aconselhável transferi-la a ninguém, por mais querido e bem-intencionado que seja o interlocutor. O poder de decidir sobre o destino é, ou deveria ser, personalíssimo. Não abdique da liberdade que a vida lhe concede em suas escolhas, pois de qualquer forma, seja seguindo o seu coração ou a lógica alheia, você não escapará das responsabilidades e consequências. Portanto, erre ou acerte pelas suas verdades. A Vida lhe impõe o caminhar como única maneira de entender o Caminho”.
Não satisfeito com a resposta, sustentei que não via mal nenhum em pedir um conselho com o intuito de clarear a minha decisão. Dessa vez o velho nem levantou a cabeça e me respondeu de pronto: “Apenas um conselho?”, deu uma pequena pausa e prosseguiu: “Tire para si um período sabático. Viaje para renovar o guarda-roupa da alma, respirar outros ares, conviver com pessoas que têm um jeito de viver diferente do seu, um outro olhar sobre todas as coisas. Nada mais rico. Acredito que assim você encontrará a resposta que precisa. Não se espante se a encontrar adormecida dentro de você, apenas aguardando que tenha a coragem de trazê-la à vida”.
Assim, atravessei o oceano e retornei para mais uma temporada na aldeia de Canção Estrelada, xamã nativo do Povo da Estrada Vermelha. Fui recebido por todos com a alegria de sempre, tinha cultivado bons sentimentos em minhas estadas anteriores. O xamã viajara para participar de um Conselho de Anciões e retornaria em dois dias, tempo que foi preenchido pelas novidades narradas por todos os lados. Eu tinha mudado bastante e aproveitava cada conversa para encaixar uma palavra iluminada ou um pensamento de profundidade. Quando Canção Estrelada chegou, logo soube da admiração que eu conseguira arrancar em toda a tribo. Ouviu muitos elogios sobre a minha metamorfose, mas não disse palavra. À noite me convidou para fumarmos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra em frente a uma pequena fogueira sobre o manto de estrelas.
Ficamos um bom tempo em silêncio, até que o xamã, depois de uma baforada, disse: “Nem tudo que reluz é luz”. Quis saber ao que se referia e ele foi sincero como de costume: “Ouvi muitos elogios em relação a você. Todos na aldeia estão sinceramente impressionados com as mudanças ocorridas, seja pelas palavras, sempre bem colocadas ou pelas atitudes gentis. No entanto, o discurso costuma ir aonde ainda não conseguimos chegar”. Aproveitei para falar, não sem uma evidente ponta de orgulho, que tinha chegado a hora de colocar todo o meu aprendizado em prática, de maneira a auxiliar a humanidade por um mundo melhor. Elenquei algumas possibilidades urgentes, tais como me engajar em lutas como a mortalidade infantil na África, o desmatamento da Floresta Amazônica ou a extinção das baleias em todos os oceanos do planeta. Canção Estrelada me mirou fundo nos olhos e disse: “Todos esses serviços têm urgência, valor inestimável e carecem de valorosos guerreiros. No entanto, é necessário entender duas coisas: uma, há infinitas maneiras de colaborar por um mundo melhor e todas são válidas; duas, saber a hora e estarmos prontos para enfrentar cada uma das diferentes batalhas”.
Aleguei que me considerava pronto e interpretava as palavras de todos da tribo como uma prova inequívoca das minhas habilidades. No mais, argumentei que tudo que a vida quer da gente é coragem. Ele sorriu com compaixão e disse: “Ahoo! Sim, que a coragem nunca nos falte”, deu uma baforada antes de continuar: “Nem a sabedoria. Um degrau de cada vez, Yoskhaz”, aconselhou.
“Há quanto tempo você não visita a sua família?”, perguntou o xamã a me surpreender. Respondi que tinha alguns anos, pois sempre tive um relacionamento difícil com meus pais e irmãos. Canção Estrelada arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Toda família é uma oficina de reajustes e aprimoramento. Não só em razão de dívidas ancestrais que nos obriga a exercitar o amor mais profundo em suas muitas vertentes como o perdão, a renúncia, a sabedoria, a paciência e a compaixão, mas porque os olhos da família são mais rigorosos em relação às nossas arestas. Não raro eles nos conhecem muito mais do que os de fora. Um discurso com belas palavras e frases de efeito tem o poder de encantar mais facilmente aqueles que não nos sabem a fundo. Na intimidade revelamos o pior de nós. Ajustar os laços familiares que se desfizeram na esteira do tempo forja o caráter do guerreiro, lapida a mente do sábio e enobrece o coração dos filhos do Grande Espírito”.
“De que adianta sair para cuidar do mundo enquanto sua casa arde em fogo?”, ele perguntou. Retruquei que estaria sendo egoísta em colocar o individual na frente do coletivo. “Há prioridades e hierarquia de urgências. Primeiro faça o dever de casa, depois salve o planeta”, explicou. “Assim como ao nos conhecer melhor passamos a ser mais compreensivos com os outros, é o aprimoramento das relações familiares que irá te dar o compasso e o esquadro do mundo. Cedo ou tarde temos que avançar além das boas impressões que todos alcançam com facilidade nas relações sem profundidade”, concluiu. Acabei por confessar que não me sentia animado em buscar a minha família, pois havia um longo histórico de incompreensões e eu acreditava, sinceramente, que nada mudaria. Acrescentei que tinha encontrado a fórmula perfeita para o problema: visitas pontuais e rápidas em datas festivas, nos limites do que eu denominava como política da boa vizinhança. Canção Estrelada tornou a sorrir por perceber que tinha aberto o meu coração e revelado sentimentos que não combinavam com o meu discurso fácil e bonito usado ao regressar à aldeia, na ilusão de ferramentas que imaginava dominar. “Percebe agora de que maneira você deve aperfeiçoar e fortalecer o espírito antes de guerrear outras lutas? O guerreiro despreparado é presa fácil nas sombras da desilusão e do desânimo. A batalha de reconciliação com os seus é parte da maior batalha da sua vida, aquela que você trava todos os dias dentro de si, a iluminar as próprias sombras, na árdua tarefa de afiar a espada da sabedoria, forjar o escudo do caráter e estender o tapete de flores do melhor amor”.
Insatisfeito por não ouvir o que desejava, argumentei que a intolerância em minha família era enorme e eu me sentia mais à vontade com os amigos que a vida tinha me presenteado. “É a oportunidade e a grandeza de oferecer o melhor de si a quem não nos compreende ou aceita. Ser bom apenas para com os bons? Isto os fracos também conseguem”. Falei que meus familiares pensavam de uma maneira muito diferente da minha e eu jamais conseguiria convencê-los. O xamã me olhou como se eu fosse uma criança e disse: “Convencer de quê? Não existe estupidez maior do que tentar convencer os outros da nossa razão. Oferecemos o nosso coração com pureza e serenidade, como fosse semente a aguardar pela chuva que um dia fertilizará o solo, na certeza que cedo ou tarde, germinará as flores da paz no grande jardim do amor. Esta é a lei, Yoskhaz”.
Ainda longe de me sentir vencido, pois meu ego secretamente alimentava o desejo de trabalhar em questões que causariam maior sensação nos salões sociais, narrei algumas tentativas frustradas e, até mesmo, como fui tratado de maneira rude em certas ocasiões. Canção Estrelada me ouviu com sua paciência que parecia infinita e quando terminei as minhas lamúrias, ele falou: “Você evita o trabalho de remover a lama que lhe aprisiona e, para tanto, concede a si qualquer desculpa. Claro que você enfrentará a desconfiança e a mágoa dos seus parentes. Eles te conhecem desde sempre e há rusgas ainda sem luz. Suas mais nobres intenções serão postas em xeque e seus valores testados até o limite para a mais fina lapidação da sua alma. Agradeça por isto, o aço só consegue forjar a melhor têmpera no calor do fogo”.
Falei que algumas pessoas da minha família eram muito duras e, com certeza, fariam questão em me humilhar. Eu não queria mais este tipo de situação em minha vida. Canção Estrelada arqueou os lábios em breve sorriso, me passou o cachimbo e olhou para as estrelas. Ele sabia que naquele instante estávamos dançando no âmago do meu ser. O xamã disse com mansidão: “A fronteira entre a humildade e a humilhação reside no fato de permitirmos nos sentir ofendido com as palavras alheias. Se você entender que as ofensas apenas revelam o que o narrador possui no coração, perceberá que ele esta falando da essência dele e não a verdade sobre a sua. Ignorar isto te fará sentir humilhado por ofendido e eternizará o conflito. No entanto, a verdade está muito além das aparências. O agressor, esperneia não por ser vítima, mas pela alma que está em desajuste na escuridão que o maltrata. Ainda que negue, por não conseguir ver por trás do véu do orgulho e da ignorância, ele está clamando por ajuda. Só quem já andou um pouco pelas trilhas do amor e da sabedoria consegue perceber a bela dimensão da humildade. O humilde tem o poder de flutuar sobre a esteira das agressões. Não à toa, pela magia de transformar em pó de estrelas toda e qualquer ofensa, a humildade é a primeira ponte do Caminho”.
Ficamos algum tempo sem dizer palavra, ele pegou o cachimbo para uma baforada longa e fechou os olhos para finalizar: “Para ser grande você tem que ser sinceramente pequeno diante dos outros para servi-los usando o seu coração como bandeja. Este é o poder da humildade e uma das lições da borboleta que não teme rastejar até amadurecer o valor das próprias asas”.
Nada mais foi dito naquela noite. Entendi que eu tinha de voltar para casa e cumprir o meu destino que começava no berço desta existência. Uma família não se forma em vão e há que se entender o porquê. Era a hora e o lugar para oferecer o meu melhor; exercitar e aprimorar o meu aprendizado; fortalecer o espírito diante das dificuldades íntimas, que nos são as mais duras, até porque revelarão verdades que desconheço sobre a minha essência; expandir os limites do meu coração e deixá-lo com a porta aberta para quem quiser entrar; transmutar continuamente meus sentimentos e ideias que sempre podem ser diferentes e melhores. Enfim, reconstruir a casa que estava demolida – a minha família. Era lição das mais difíceis. Só então eu estaria pronto para conquistar o mundo.
O dia amanheceu em paz.

A GRANDE AVENTURA (Conto)

Eu caminhava pelas ruas medievais da pequenina cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Era acossado pelos ventos frios de outono que obrigavam a me proteger entre os vãos e muradas das antigas construções. Alegrei-me ao ver a clássica e bem conservada bicicleta de Loureiro encostada no poste em frente a sua oficina. Encontrei o bom sapateiro elegantemente vestido, como de costume, a trabalhar em uma cara bolsa de uma belíssima mulher, que aguardava o conserto. Fomos apresentados e o hábil artesão explicou que a jovem tinha sido amiga de escola da sua filha, portanto, a conhecia desde criança. Contente em me ver, ele pediu para que eu esperasse um pouco, pois queria me falar sobre um novo livro de filosofia enquanto tomávamos um café. Trabalhar sobre o couro era o ofício de Loureiro; prosear sobre filosofia, a sua arte. Nem tinha me aquietado em um canto, a bela mulher continuou a falar das viagens por lugares exóticos que já tinha feito. Passeios de balão sobre vulcões, saltos de paraquedas em queda livre, perigosas corredeiras em frágil caiaque, entre outras façanhas. Arrematou afirmando seu enorme gosto pela aventura. O sábio artesão, imerso no trabalho, não disse palavra. Logo em seguida, como se sentisse dificuldade na quietude e no silêncio, a jovem falou que não via a hora de iniciar a escalada ao Everest que programara para o próximo verão e começou a discorrer sobre os preparativos e riscos da nova empreitada. Até que em determinado momento da narrativa, disse que esse gosto pela aventura adquiriu do ex-marido. Nesse momento, o sapateiro sem levantar a cabeça, apenas me olhou por sobre os óculos que lhe corrigiam a vista cansada, permaneceu calado e voltou ao trabalho. Como em uma ópera previsível, logo em seguida, ela contou de como tinha sido feliz naqueles anos, mas fez questão de ressaltar, sem parecer muito sincera, que não gostaria de encontrá-lo em uma dessas viagens. Logo em seguida, deixou transparecer certa mágoa pelo fim do casamento, que evidentemente ocorrera contra a sua vontade. Loureiro levantou a cabeça, mirou a bela moça nos olhos e disse com bondade: “O mais interessante nas pessoas não é o que elas mostram, mas o que escondem”.
“Já parou para pensar que todo esse seu interesse por viagens pode estar apenas adiando a grande aventura da sua vida?”, perguntou para a moça, que de início pareceu curiosa, querendo saber ao que se referia o sapateiro. Ele explicou: “O que você tem que questionar é se viaja em busca de simples divertimento ou por fuga, na ilusão de retornar a um momento de sua vida que não existe mais. Pense bem”, pediu o sábio sapateiro.
Levemente irritada e com uma voz em um tom acima, disse acreditar que a história do seu casamento ainda estava longe de acabar, pois família do seu antigo marido a adorava e todos lhe afirmavam que ele jamais encontraria uma esposa melhor. O velho artesão, mantendo a voz baixa e doce, falou: “Você entende que todos esses passeios perigosos apenas ocultam a mais fantástica de todas as viagens que você algum dia ousou a realizar?”. A moça quis saber de qual viagem ele falava. “A da libertação”, concluiu o sapateiro.
A bela mulher retrucou dizendo que ele estava enganado, pois era uma pessoa absolutamente livre. Ia e voltava a qualquer canto do planeta na hora que quisesse. “Flanar solto pelas ruas não significa liberdade. Os perdidos e desorientados também assim o fazem”, ele tentou diferenciar. A moça argumentou que era dona de si mesmo e das suas escolhas, portanto, uma pessoa livre. O artesão tentou esclarecer: “A questão é saber qual a real amplitude das suas escolhas. Entender o quanto elas podem estar amarradas a desejos inconfessáveis, a pesadelos que insistem em maltratá-la por se fantasiarem de sonhos e, por consequência, a dificuldade em se livrar deles. As frustrações escondidas no inconsciente, prontas a nos enganar, são difíceis de identificar e se tornam o passo inicial para um sofrimento que pode atravessar tempos imemoriais. Padrões de pensamentos endurecidos e automatizados, comportamentos obsessivos, ou ideias e conceitos que nos recusamos a transformar, terminam por aprisionar e limitar as escolhas, como se, por absurdo, a vida não permitisse um novo olhar”. Deu uma pequena pausa e diante das feições da moça, um misto entre a surpresa e a raiva, ele prosseguiu sereno: “A consequência mais comum é insistirmos em manter o passado atrelado ao presente, sem entender que após o amadurecimento a fruta é aproveitada ou apodrece. Depois vira adubo ou semente. Devemos permitir o fechamento do ciclo que findou para que o novo se inicie”.
A jovem retrucou com convicção de que ela e o ex-marido nasceram para formar uma família. Reiterou que todos que os conheciam na intimidade corroboravam essa certeza. Loureiro, com a calma que lhe era peculiar, tentou oferecer outra ótica: “As almas são afins, ou seja, mantêm-se juntas enquanto existir afinidade energética ou de propósitos, pelo tempo em que estivem no mesmo degrau evolutivo. Isto pode durar um dia ou muitos séculos. Todos somos espíritos livres e, por princípio, devemos partir ou deixar ir, quando o ciclo se fechar”. Deitou as ferramentas sobre o balcão de trabalho, se acomodou na cadeira e prosseguiu: “Por experiência própria, sei o quanto é difícil aceitar que as fases da vida mudam, quando, muitas vezes, queremos que elas se eternizem. O Universo exige movimento. Para tanto, transformação”.
A jovem lhe disse que não via sentido em abdicar do passado se este lhe parecia melhor que o presente. Com olhos que revelavam compaixão, Loureiro tentou explicar: “A vida não está preocupada com os seus desejos, mas com a sua necessidade de evolução. A cada ciclo, uma lição. Celebre, pois chegada a hora de abrir as asas para iniciar um voo além das fronteiras do conhecido e já vivido”.
Impaciente, por contrariada, a bela mulher se esforçava para não perder o controle. Então, perguntou ao artesão se ele estava lhe aconselhando a abandonar um sonho. De pronto, ele respondeu: “De jeito nenhum, sonhos são sagrados e parte primordial dos encantos da vida. No entanto, é preciso entender que os sonhos estão estritamente ligados aos nossos dons, aos talentos que devemos exercer para que o melhor em nós floresça. São as metamorfoses da evolução; as transmutações que operamos no âmago do ser a se refletir através de um novo jeito de pensar e agir. Assim vivemos o sonho; todo o resto é apenas desejo”.
A jovem reclamou que ele parecia um louco em afirmar que todo desejo era ruim. “Eu não falei isso”, protestou Loureiro: “Apenas tento lhe dizer que os desejos, quando mal interpretados ou assimilados em fontes escusas, alimentam as nossas sombras. Estas, as sombras, comumente se tornam um cruel carcereiro por não nos permitir entender que estamos presos ao nos iludir livres”. A mulher pediu que ele fosse mais específico e perguntou o que eram as tais sombras a que se referia. “As sombras se manifestam através dos sentimentos de baixa vibração como ciúme, inveja, mágoa, entre outros, e também por alguns comportamentos, como por exemplo, a fuga da realidade”, o sapateiro elencou apenas algumas atuações do largo espectro das sombras, comuns a todos nós. Em seguida abordou o aspecto tênue de outro tipo de sombra e tocou na delicada esfera pessoal da jovem: “Ter como pedra fundamental da vida a vã esperança de que o outro algum dia pense e aja de acordo com a nossa vontade é abandonar-se na masmorra da ilusão e da dor”. Deu uma pequena pausa, mirou a bela jovem nos olhos e tentou concluir: “Não raro criamos um ideal de vida sem perceber o quanto isto nos maltrata, pelo absurdo de criarmos um elo de dependência entre nossas escolhas e as escolhas alheias, imaginando que ali reside a felicidade. Este é o elo que aprisiona. Como não há, nem pode haver, imposição sobre a livre vontade do outro, o erro de conceito nos empurra para o abismo do sofrimento”.
A jovem, agora bastante irritada, disse que aquela oficina não era um divã, Loureiro não era terapeuta, tampouco sabia do que falava e, com certeza, era melhor ele parar de ler livros que não fosse capaz de entender. “Sim, sou apenas um velho sapateiro, amante dos livros, a pensar na vida e, provavelmente, a falar, de vez em quando, coisas que não devesse. Peço-lhe desculpas por ter me intrometido onde não devia”. Neste instante tinha finalizado o reparo na bolsa e a entregou a jovem. Ela perguntou o preço do serviço. Ele respondeu com seu jeito elegante e de maneira sincera: “Você não me deve nada. Acho que já lhe causei inconvenientes demais por hoje. Peço desculpas por ter me comportado como um pai aconselhando uma filha. Sei que não fui convidado para esse papel. Este talvez seja o meu erro, mas apenas este”. A moça se despediu com as feições fechadas e saiu, não sem tempo de ouvir o bom artesão desejar: “Que a paz seja convosco”. Ela parou, mirou os sapateiros nos olhos, girou nos calcanhares e partiu.
Loureiro passou um bule de café fresco sem dizer palavra. Com uma xícara fumegante nas mãos, puxei conversa enquanto ele se acomodava à minha frente. Falei que concordava sobre a necessidade de romper com os velhos padrões, ideias que não têm mais lugar nas prateleiras do coração nem nas gavetas da mente, de atitudes que não levam a lugar nenhum por nada acrescentar ou transformar. Enfim, desamarrar as asas. Ele tomou um gole de café, me observou por algum tempo e disse: “A viagem de libertação da alma sobre os condicionamentos impostos pelo ego e pelos conceitos do mundo é a grande aventura da vida de todos nós. Ela nos leva às Terras Altas do Ser”. Deu uma pequena pausa e finalizou com um muxoxo, como se falasse consigo: “Ocorre que muitos ainda temem as alturas”.

PELO PRISMA DA LUZ (Conto)

“O que nos faz bom ou mau não é o que nos acontece, mas como reagimos ao fato”, disse o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo do mosteiro, provocando uma grande discussão na universidade de uma grande metrópole, onde fora convidado para uma mesa de debates com filósofos, professores, cientistas e artistas. Um dos participantes, homem culto e gentil, discordou frontalmente, argumentando que as pessoas são frutos do meio em que vivem. Articulado com as palavras e ótima retórica, sustentou que as experiências do convívio social obrigam e aprisionam as escolhas, através de seus sucessos e traumas. O Velho tornou a discordar: “Atribuir ao mundo a responsabilidade por nossos erros é vestir a fantasia da pobre vítima. Isto não ajuda ninguém em nada. É fundamental que se dispa do personagem para entender que se pode fazer diferente. Seguir sem a culpa que limita, mas com a responsabilidade de que agora em diante fará melhor, pois terá compromisso com a Luz”.
O debate ficou acalorado e todos se manifestaram. A maioria pensava como o professor e alguns outros como o monge, que manteve a postura serena, mesmo diante de uma historiadora que atacou duramente o seu posicionamento. Ela pediu que ele definisse o que era “compromisso com a Luz”. O olhar do Velho me encontrou sentado na plateia e pude perceber o quanto ele achava tudo aquilo interessante. Tomou um gole de água e respondeu: “Compromisso com a Luz é um código de dignidade que cada um de nós tem que escrever na alma para nortear a conduta, com leis próprias baseadas no melhor que existe em si. Princípios do mais puro amor e da mais clara sabedoria devem iluminar as suas linhas e ações. Porém, como passamos por infinitas transformações, esse código de conduta não é definitivo. Ele sofrerá mudanças na medida que aquela alma evoluir. Aos poucos, seus conceitos se modificarão por outros mais iluminados. O instrumento que permitirá tal evolução será as escolhas que o aperfeiçoará através das dificuldades, inerentes à vida, a lhe ensinar valiosas lições indispensáveis à evolução. Para tanto, se faz indispensável estarmos em movimento constante, na eterna busca pela Luz. Este é o compromisso, este é o Caminho”. Deu uma pequena pausa antes de concluir: “Cada qual é o herói do próprio filme e todo herói, por princípio, acaba, cedo ou tarde, por buscar o lado Ensolarado da Estrada”.
Os ânimos se exaltaram ainda mais e nem de longe houve qualquer consenso. Mais tarde, naquele mesmo dia, comentei que me espantava vê-lo tão tranquilo diante de tanta discórdia e ataques: “Tentar convencer os outros é inútil; durante uma discussão é tolice. Devemos ouvir com respeito e falar as nossas verdades com serenidade e clareza. No silêncio da alma a boa semente um dia há de germinar. Aqui ou ali. As ideias precisam do adubo da quietude para florescer”.
Falei, também, que concordava com a maioria dos debatedores. Achava que o ambiente social é determinante para a formação das pessoas, atenua e justifica as suas fraquezas. O Velho coçou a barba e disse: “Claro que tudo que nos acontece nos influencia, pois é fonte de aprendizado e, não raro, demoramos a entender. O que não quer dizer que se te acontece algo ruim, isto vá justificar uma má atitude. São essas escolhas que nos definem”. Tornei a discordar e o acusei de estar sendo muito ingênuo diante da vida. Ele apenas me observou e não disse palavra.
No dia seguinte, quando regressaríamos ao mosteiro, o Velho me entregou um pequeno pacote e me pediu o favor de deixá-lo com uma amiga que morava no subúrbio daquela grande cidade. Ele cuidaria de outros compromissos e nos encontraríamos à noite para viajar. De posse da encomenda e do endereço, peguei o metrô e desci na última estação. Depois enveredei por uma malha de becos e vielas que seguia através de informações que conseguia com um e outro. Na medida que avançava, as casas ficavam cada vez mais humildes e eu tive a sensação de que jamais conseguiria sair daquela teia. Comecei a sentir medo. Em determinado momento, sem saber em qual direção seguir, ouvi uma bela voz, ao longe, a cantar uma canção que de tão bonita parecia encantada e reverteu o sentimento que começava a tomar o meu coração. De imediato lembrei da Odisseia de Ulisses e do perigo que o protagonista enfrentou diante do canto das sereias. De início interpretei como um mau presságio. Entretanto, lembrei que o Velho sempre me ensinou a respeitar e interpretar os sinais. Enchi o coração de esperança, vez que perdido eu já estava e deixei que a melodia me guiasse até uma casa simples e muito velha, porém bem cuidada. No quintal, algumas crianças brincavam com evidente alegria. Aproximei-me da janela e uma mulher, que não consegui precisar a idade, cantava enquanto costurava. Quando me viu, sorriu e disse: “ Eu estava lhe esperando”. Largou a agulha e se levantou para abrir a porta. Fui recebido com alegria e tomado por uma indescritível sensação de bem-estar. Ela vestia um vestido simples, porém com um belo estampado em cores fortes. Uma rosa vermelha lhe prendia os cabelos negros. Fez uma mesura e, sem que eu precisasse perguntar, falou: “Meu nome é Mercedes. Sim, eu sou uma cigana”. Levou-me até a cozinha e tirou um bolo cheiroso do forno. Chamou as crianças, eram seis, que comeram em alegre algazarra e rapidamente voltaram para brincar no quintal. Perguntei se eram seus filhos, pois achei-os muito diferentes entre si. “Sim, são todos meus filhos. Todas as crianças que passam pela porta desta casa e desejam ficar, se tornam meus filhos”, explicou. “O primeiro surgiu não sei de onde, simplesmente apareceu. Não devia ter mais de quatro anos. Disse que vivia na rua desde sempre, não tinha família e estava com fome. Convidei-o para ficar, coloquei-o na escola, cuidei dele. Ninguém veio reclamar. Depois ele trouxe outro que encontrou abandonado na rua, em condições parecidas. Também ficou. De igual modo chegaram os demais. São todos filhos; são todos irmãos. O coração tem o poder de alargar as próprias fronteiras até o infinito, na exata medida do amor que temos”, seus olhos tinham um brilho que eu nunca vira igual.
Não resisti a curiosidade e indaguei se era casada ou se possuía uma família. “Perdi meus pais ainda na infância, fui criada pelos cantos, ora aqui noutra ali. Sofri o preconceito da pobreza e da minha etnia, mas desde logo resolvi fazer disto a minha força. Tornei-me uma moça vistosa, não tanto pela beleza física, mas por uma alegria que sempre fez parte de mim. Penso que esta é a causa do brilho e da atenção que sempre chamei. Casei cedo, mas meu marido logo me trocou por outra mulher que poderia lhe proporcionar uma vida mais confortável. A casa era dele. Peguei tudo que tinha, que mal enchia uma sacola, desejei-lhe boa sorte e segui em frente”, falou com a tranquilidade de quem tem a vida bem equacionada dentro de si. Eu quis saber se tudo isso tinha lhe causado revolta. “Não há espaço para mágoa, apenas para o entendimento de que cada um age de acordo com amplitude da sua alma. Sentir-se vítima é chamar para si o papel do fraco. Lamentações nos tornam chatos e em nada ajudam. Percebi que as trombadas tinham o poder de me fortalecer, como a mão de um estivador que fica calejada e melhor afeita ao trabalho depois de tanto peso”.
Perguntei como conseguia alimentar, vestir e educar aquelas crianças, que pareciam bem cuidadas e felizes. “Vivo do meu ofício de costureira. Por vezes, exerço a arte do meu povo de jogar cartas a falar do destino; da parte que não cabe o arbítrio; das permissões e compromissos que assumimos antes desta existência. Embora não cobre a consulta, as pessoas, quando satisfeitas, fazem alguma doação, que aceito com grado e acaba por ajudar nas despesas. Nunca nos faltou nada”. Ela me serviu uma xícara de chá com um generoso pedaço de bolo, depois falou: “Aprendi que o importante é sempre oferecer o seu melhor, colocar a maior dose de amor possível em tudo que fizermos. Depois é deixar que a magia da vida cuide do que é necessário”. A cigana me mirou nos olhos e disse em tom baixo, como quem revela um segredo: “E cantar. Cantar sempre. A música espanta os maus espíritos” e sorriu.
Depois, Mercedes abriu o pequeno pacote enviado pelo Velho. Dentro além de um belo pregador de cabelos em forma de flor, que ela adorou, tinha um outro embrulho menor destinado a mim. Surpreso, abri e encontrei um par óculos sem lentes. À parte, vários jogos de lentes de muitas cores. Atônito, olhei para cigana sem entender o que aquilo significava. Ela jogou os cabelos para trás e deu uma risada gostosa e disse: “É uma antiga mensagem codificada entre os esotéricos. Consegue entender?”. Falei que não e pedi para que fosse mais clara. “Diz que podemos escolher as lentes pelas quais vemos o mundo. As do drama ou as da alegria; as da tragédia ou as das lições. O seu olhar será determinante para que o fato defina a sua reação. Olhos de drama costumam enterrar os sonhos; olhos de aprendiz alavancam a evolução”. Rimos juntos dos truques do Velho, como um mágico a nos encantar com o imprevisível. Por fim, a bela cigana me disse: “ Tem uma frase dita pelo Mestre há milênios que define a maneira como atravessaremos o Caminho: ‘Se o seu olho é bom, todo o seu corpo é Luz’”.

A LUZ DA VERDADE (Conto)

Eu andava amuado pelos cantos do mosteiro. Evitava tarefas que precisasse conversar com os outros discípulos ou monges. Tudo me irritava. Ao perceber o meu estranhamento, o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, me convidou para um passeio no jardim. Enquanto ele puxava conversa, eu insistia em respostas monossilábicas, a demostrar todo o meu mau humor. Em certo momento, o Velho falou: “Quanto mais iluminado é um espírito, mais bem-humorado é o seu comportamento. As Esferas Superiores, independente da forma como você as conceba, são revestidas em ambiente alegre. Ao contrário do que muitos intelectuais imaginam, não existe sabedoria na irritação e na impaciência. A verdade é libertadora, assim se torna fonte de infinita alegria e paz”. Neste instante eu parei de andar, olhei para o monge e lhe disse que essa era a questão do meu desânimo em relação à humanidade, pois a verdade de uma pessoa não era necessariamente a verdade da outra. Logo, eu não previa um final feliz para o mundo. O Velho sentou em um banco de madeira, como quem não tem pressa, antes de falar com sua voz suave: “A verdade é aparentemente instável, pois a consciência das pessoas está em constante evolução e diferentes níveis”. Interrompi sob a alegação de que ali estava o motivo de eternos conflitos. “Não”, rebateu o monge. “Exatamente neste ponto reside a Inteligência Cósmica. Ao impor a convivência entre aqueles que se encontram em distintos momentos evolutivos, permite que uns ensinem a outros. Ela nos torna alunos e professores em incessantes lições. Temos a oportunidade de vivenciar a beleza de compartilharmos amor e sabedoria através da convivência. Na medida que o entendimento se amplia, as pessoas, cada qual em seu momento, começam a perceber a importância de bens imateriais em detrimento às riquezas aparentes; a valorização de sentimentos mais sublimes ao invés das emoções mais sensoriais. Aos poucos o amor mostra a sua grandeza diante do ódio; o perdão liberta da mágoa. Somente na beleza da transformação individual será possível modificar e alinhar o planeta”.
Disse-lhe da minha agonia ao ver o mundo envolvido em tanta iniquidade e lutas insensatas por orgulho e vaidade. Em seguida enumerei diversas passagens aflitivas da atualidade. O monge ouviu as minhas queixas com enorme paciência até que eu me cansasse de falar. Depois falou: “O mundo está exatamente do jeito que deve estar, pois sempre vai refletir o exato grau de evolução intelectual, emocional e espiritual dos seus habitantes. Elefantes não voam”.
Lembrei do Dumbo, o personagem da fábula cinematográfica do genial Walt Disney e não perdi a piada. O Velho não se fez de rogado, riu bastante e disse: “É verdade. Mas se você prestar atenção, aquele jovem elefantinho, era repleto de bons sentimentos, bem acima da encontrada em sua espécie. Em um exercício absurdo de imaginação, poderíamos crer que seu grau elevado de evolução fez a diferença entre os seus, causa da transformação de orelhas em asas. Penso que conosco é igual, a percepção da verdade aperfeiçoa nossos sentimentos a permitir voos cada vez mais altos”.
Insisti que a minha dúvida persistia sobre qual era a definitiva e libertadora verdade. O Velho arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Já prestou atenção que as suas verdades de alguns anos atrás já não são necessariamente as mesmas? Sabe por quê? Pelo simples fato de você não ser mais o mesmo. As verdades se ampliam na exata medida na nossa evolução. Na proporção em que as verdades são decodificadas pelo consciente, enviadas e encaixadas definitivamente nas prateleiras dos sentimentos para uso interno, externo e eterno, ocorre transformações no seu ser, pois o saber se incorpora ao sentir. Coração e mente no mesmo diapasão, como músicos de uma afinada orquestra.”.
“A verdade final reside em viver o amor sem limites. Isto é libertador, mas ainda difícil de entender e aceitar em nosso momento evolutivo. Já percebemos, mas ainda temos dificuldade em vivenciar a mais valiosa energia que existe no universo em sua forma incondicional. A sabedoria de entender que a grande batalha é travada dentro de nós, torna o incessante exercício de iluminar as próprias sombras um decisivo passo na busca da verdade. Todos conhecemos o amor e sabemos da sua importância como fonte de Luz, entretanto, ainda não conseguimos experimentá-lo em sua completa magnitude. Infelizmente ainda desperdiçamos a sua força. Uma pena, pois o amor é a matéria-prima essencial aos milagres, que nada mais são do que as transformações ocultas em nós”. Deu uma pequena pausa, sorriu com os olhos e finalizou: “Quanto mais amor, maior o poder. Esta é a verdade em toda a sua amplitude e simplicidade”.

terça-feira, 8 de março de 2016

A VOZ DO CORAÇÃO. (Conto)


Encontrei Canção Estrelada – o xamã recebera este nome por causa do seu dom de preservar e semear a tradição do seu povo através da palavra, cantada ou não – trocando o couro do seu tambor de duas faces em frente à sua tenda. Eu tinha resolvido sair da cidade por um tempo, andava chateado com as duras críticas que os originais do meu último romance tinham recebido, a ponto de me levar a duvidar do meu próprio talento como escritor. Até tinha recebido alguns elogios, no entanto as críticas foram ferozes e a tristeza me corroía as entranhas. Assim que o vi, derramei todas as minhas queixas. Do jeito que ele estava trabalhando, continuou e sem levantar os olhos, falou: “Você não está sabendo dar a exata medida às opiniões alheias. Nem todo elogio é sincero nem toda crítica é justa”. Ele parou de encordoar o tambor por alguns instantes, me mirou nos olhos e falou com sua voz mansa e rouca: “Já lhe ensinei sobre o Portal Sul, penso que chegou a hora de falar sobre o Portal Oeste, onde mora o urso na Roda de Cura”. Mandou-me descansar e que fosse ao seu encontro quando “o Grande Mistério agasalhasse a Terra com seu manto de estrelas”.
À noite encontrei o xamã sentado, sozinho, em frente a uma pequena fogueira. Convidou-me para fumarmos juntos o seu inseparável cachimbo de fornilho de pedra. Após algumas baforadas em silêncio, falou: “A Roda de Cura é o símbolo sagrado que representa a vida de cada um nesta existência. A vida é o tratamento de cura do espírito. A cada lição aprendida ou ferida cicatrizada avançamos um aro na Roda”. Deu uma pausa e prosseguiu: “No lado Oeste da Roda, onde o sol se põe, fica o espaço sagrado do Urso, a sua caverna, onde ele se retira para o sono invernal depois de experimentar todos os alimentos das demais estações”. Aguardei sem dizer palavra, pois não estava entendendo onde Canção Estrelada queria chegar. “O urso procura o silêncio da caverna para se aquietar e ficar um longo período a digerir tudo que comeu. Com a chegada da primavera, ele acorda mais forte para enfrentar e viver a vida. Esta é a lição e o poder do urso. Conosco não é diferente”. Insisti que continuava sem entender. Ele me olhou com sua enorme paciência e disse: “Cada vez mais as pessoas ouvem todas as vozes em detrimento às palavras do próprio coração. Escutam muito, mas entendem pouco. Percebo uma enorme busca por distração e divertimento, não que isto seja ruim, mas estão desaprendendo a ouvir a sua própria verdade, pois têm cada vez mais dificuldades em ficar apenas consigo, como se não entendessem que a solidão é um exercício necessário para escutar a voz do coração. Ou será que estão fugindo de encontrar consigo próprias? Por que temem tanto esse encontro?”.
Argumentei que ouvir é importante, pois aprendemos muito com os outros. “Sem dúvida, porém só você poderá escolher em qual direção seguir”, ele respondeu e continuou: “Para tanto, é necessário filtrar, depurar e contextualizar as vozes do mundo, sem esquecer que apenas você sabe e pode decidir sobre a própria vida. Não pode temer as suas escolhas, pois são os únicos apetrechos de que dispõe para o seu aperfeiçoamento, o que lhe diferencia e o torna único a exercer os dons que lhe pertencem. Seguir a manada não te fará escapar das responsabilidades que lhe cabem, apenas impedirá que floresça o que existe de melhor em você. Aqueles que Caminham em Beleza não podem abdicar da valiosa lição do urso, a busca por si próprio e o encontro com a sua verdade”.
Perguntei-lhe como poderia vivenciar os ensinamentos do Portal Oeste. O xamã deu uma longa baforada, seus olhos pareciam perdidos nas estrelas. Ele falou: “São três passos. O primeiro é a introspecção. Na quietude e no silêncio, penetre no seu espaço sagrado em um mergulho profundo nas águas tranquilas da essência do seu ser. Estar apenas consigo é maravilhoso”. Observou-me por alguns instantes e perguntou: “Gosto de confraternizar com o meu povo, mas você consegue perceber a importância da solidão?”. A pergunta era apenas retórica, pois ele não esperou resposta e continuou a falar: “O segundo passo é ter a sabedoria de ouvir a própria voz para saber discernir entre voz do ego e a voz da alma. Somente esta última te falará a verdade sobre o Caminho. Pois enquanto o ego te diz sobre as paixões, a alma te revelará todo o amor necessário. Acalme o ego, permita que a alma brilhe em toda a sua luz e encante-se!”.
Eu quis saber sobre o terceiro passo. Canção Estrelada falou: “Depois é estruturar toda a sua vida em função da verdade revelada. Não pense que será fácil, pois precisará de coragem e desapego para abandonar as velhas formas contidas em conceitos e comportamentos que não mais lhe servem, pois foram impostos por padrões culturais e sociais ou pelas expectativas que os outros têm sobre você. Ou, pior ainda, são limites impostos por quem não acredita em sua capacidade de criar e transformar o próprio ser e, por consequência, a vida. No entanto, ao final da introspecção invernal o urso está pronto para sair da caverna, ele se aperfeiçoou e afinou as suas escolhas no diapasão da própria verdade. Ele está consciente de sua capacidade e talento. Nenhuma tempestade o impedirá de seguir em frente, pois ele traz consigo a força do Caminho. É o momento de revelar todo o seu poder e magia!”.
Ficamos a olhar para o infinito sem dizer palavra por um tempo que não sei contar, até que Canção Estrelada rompeu o silêncio: “Entender os ciclos em que cada um de nós está sujeito é fundamental para viver com serenidade. Cada ciclo só se encerrará na medida que estivermos aperfeiçoados e fortalecidos para o novo momento, assim como a borboleta só rompe o casulo quando suas asas estão maduras para alçar voo”. Quis saber como poderia aplicar todas aquelas palavras em meu atual momento profissional. “Você pode aprender com os outros, mas nunca permitir quem quer que seja de lhe abalar e furtar a paz. Se isto ainda acontece, é porque você ainda não encontrou consigo nem amadureceu as asas para voar”.
Comentei que desconfiava que este era o meu caso. Canção Estrelada sorriu com os olhos e finalizou: “É hora de vestir a pele do urso, entrar na caverna para ter um importante encontro consigo próprio e buscar o precioso diamante que lhe aguarda”, antes que eu perguntasse do que se tratava, ele concluiu: “As vozes do mundo sempre comparam uns com os outros. Aprender a ouvir a voz do coração é descobrir a beleza de ser único”

Pensamentos 06


O uivo do lobo ecoava pela montanha
O pesar que carregava era a saudade do que nunca tivera
Correu por três luas a uivar
A primeira era a Nova que me mostrou o vazio
Aprendi assim a ser preenchido
A segunda era a Crescente que fez com que sentimentos brotassem em meu coração
Relutante os aceitei e os cultivei
Não sabendo se era certo ou não
A terceira lua veio e seu brilho revelou a face do meu desespero
A minha amada...
Perfeições imperfeitas que eu adorava...
Então veio a lua Cheia
E coube a eu decidir, decifrar
O que, afinal, havia naquele olhar?

Hiran*