terça-feira, 29 de setembro de 2015

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Eu fiquei lá fora noite passada. Tentei ignorar o silêncio, que outrora me fazia bem, mas o ar vazio era como uma boca aberta sobre minha cabeça. No fim, eu me dei conta de que teria que dormir. Se alguém quisesse "me matar", eu morreria. E eu dormi bem como não dormia há anos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma boa Morte


Uma Boa Morte

Magga estava para morrer pela décima quarta vez. Ela mordiscou uma maçã podre — mais uma vez. Sua polpa, como sempre, a infectou com putrinumbra. A atriz fez os movimentos de cair para sua morte enquanto proferia suas palavras finais para que todos ouvissem.
"Oh, mas que sonho maravilhoso é a vida? Só agora–tarde demais!–desperto e vejo sua míriade de esplendores", ela lamentou.
Com uma vaporada de fumaça e de pólvora, Kindred fez uma grande entrada no palco. Por tradição, eles são interpretados por um único ator com a cabeça coberta por ambas as máscaras. Ele aproximou-se de Magga com a máscara branca da Ovelha fitando-a.
"Atenção! Ouço um apelo pela minha flecha mais penetrante? Venha, criança, deixe que o calor do seu coração seja dissipado no frio abraço do oblívio".
Magga recusou, como fez nas treze vezes anteriores. Qualquer nuance em sua performance estava sobre a entrega ensurdecedora de seu grito. Com a deixa, a Ovelha virou, revelando a segunda máscara — a do Lobo.
"Não há o que possa ser feito para impedir o fim", rosnou o Lobo.
"Sou apenas uma jovem donzela! Por favor, deixe que meu choro lastimável caia sobre todos os quatro ouvidos de vossas mercês".
O público parecia extasiado pelo desenrolar da trama de Mecânicas de Orphellum. Com as ameaças gêmeas da praga e da morte nas línguas dos protetorados vizinhos, os dramas de morte eram o último grito.
Denji, o ator interpretando a Ovelha e o Lobo, desceu até a jovem atriz, desajeitadamente expondo as presas de madeira. Magga ofereceu seu pescoço. Com a ameaça da mordida do Lobo, ela ativou o dispositivo costurado no colarinho de sua blusa. Laços de tecido vermelho desenrolaram-se para a surpresa da plateia. Eles receberam o que queriam.
Quando o pessoal voltou às suas carruagens e saíram na direção de Riachoagulha, não era possível ver estrela alguma. Em vez disso, um véu de nuvens estendeu-se pelo céu noturno.
Riachoagulha sempre teve um bom público, Illusian, o dono da empresa e único dramaturgo, explicou mais uma vez. Ele cambaleou, embriagado em seus próprios elogios––bem como no vinho que Parr conseguiu dos locais.
A noite continuou e a trupe começou a brigar. Tria e Denji criticavam o escritor sobre a qualidade de suas tramas que tinham uma estrutura previsível: uma tragédia atinge a donzela, a morte encontra a donzela, a morte leva a donzela. Illusian argumentou que tramas complicadas desvirtuavam uma boa cena de morte.
Magga, a mais nova do grupo, concordou com o diagnóstico de Tria e Denji, mas manteve sua boca calada. Caso não tivesse entrado clandestinamente no vagão da trupe itinerante, ela certamente estaria em uma situação muito ruim. Para sua sorte, o espetáculo recentemente perdeu alguns atores devido à insistência de Illusian de completar o controle artístico. Devido à sua personalidade––e óbvia mediocridade––eles estavam com falta de rostos novos. Então, a Mecânicas de Orphellum concordou em contratar Magga para morrer em todas suas peças no futuro próximo. Ela ficou muito agradecida por isso.
Illusian ainda estava irritado com as palavras de Denji e Tria quando pediu a Parr, seu condutor, que parasse e montasse acampamento. O escritor embriagado preparou seu saco de dormir com orgulho próximo à carruagem. Ele então jogou o resto dos sacos na grama próxima.
"Atores ingratos podem dormir na floresta", Illusian desferiu, "onde espero que encontrem sua educação".
O resto da trupe preparou uma fogueira e trocou histórias. Denji e Tria dormiram nos braços um do outro enquanto balbuciavam potenciais nomes no ouvido um do outro para o filho que estava por vir. Eles falaram sobre o dia que a companhia viajante pararia em Jandelle, uma cidade tão perfeita e pacífica que eles deixariam suas vidas errantes para criar seu filho.
Magga aproximou-se do fogo crepitante para que seus ruídos abafassem as namorações incômodas de seus companheiros de viagem.
Mas o sono nunca chegou. Em vez disso, Magga virou-se e revirou-se, pensando sobre a reação nos rostos da plateia quando o sangue fluísse de seu pescoço. Uma linda donzela morta por sua inocência era a pompa teatral que Illusian podia bolar, mas a multidão ansiava pela fachada aterrorizante.
Eventualmente, ela deixou seu saco de dormir e foi até a mata para acalmar sua mente confusa.
Na calada da noite, Magga chegou em um monte com pouca grama e placas de madeira em sua base. Apesar de não conseguir ler as inscrições, seus dedos tatearam os inscrições familiares das máscaras gêmeas dos Kindred. Este era um local dos mortos, um local de sepultamento criado há muito tempo.
Ela sentiu um frio atrás do pescoço que a compeliu a olhar para cima. Ela não estava sozinha. Magga imediatamente entendeu o que viu, pois havia encontrado uma interpretação bruta deles dia após dia. Porém, o pobre Denji não poderia instigar o pavor que tomara Magga. À sua frente, empoleirada em um carrinho desgastado, estava a Ovelha, acompanhada de seu fiel companheiro, o Lobo.
"Ouço um coração batendo!" — disse o Lobo, com os olhos negros brilhando em deleite. "Posso tê-la?"
"Talvez", respondeu a Ovelha. "Sinto que ela está com medo. Diga, formosa. Diga-nos seu nome".
"Di-diga-me o seu primeiro", gaguejou Magga, andando para trás. Sua fuga lenta foi parada pelo rápido Lobo, que materializou-se inquietantemente atrás dela.
Ele disse diretamente em seus ouvidos. "Temos muitos nomes".
"No oeste, sou Ina e ele é Ani", disse a Ovelha. "No leste, sou Farya e ele é Wolyo. Porém, somos os Kindred em toda parte. Sempre sou a Ovelha para o Lobo e ele sempre é o Lobo para a Ovelha".
O Lobo retrocedeu e cheirou o ar.
"Ela está jogando um jogo entediante", disse o Lobo. "Vamos jogar um novo jogo, um de perseguir e correr e morder".
"Ela não vai jogar, querido Lobo", disse a Ovelha. "Ela está assustada e perdeu seu próprio nome. Ele se esconde por trás de seus lábios, com medo de sair. Não se preocupe, querida criança, encontrei seu nome. O conhecemos como você nos conhece, Magga".
"P-por favor", Magga sussurou. "Esta noite não é uma boa noite para––"
A grande língua rosada do Lobo rolou para o lado de sua boca e ele começou a gargalhar.
"Todas as noites são boas para atacar", disse o Lobo enquanto ria.
"Todos os dias também", disse a Ovelha. "Com a luz vem um tiro certeiro".
"Não tem lua hoje!", gritou Magga. Ela utilizou o que Illusian ensinou a ela––gesticular grandiosamente para que aqueles no fundo pudessem ver seus movimentos. "Ela está escondida por uma manta de nuvens, escondida dos meus e dos seus olhos. Sem a lua, o que poderia ser a última coisa que eu veria?"
"Nós vemos a lua", respondeu a Ovelha, enquanto ela acariciava seu arco. "Ela está sempre ali".
"Não tem estrelas!", disse Magga, tentando novamente, desta vez com gesticulações menores e falando mais baixo. "Sem diamantes brilhantes, reluzentes à tonalidade da meia-noite. Qual vista mais bonita alguém poderia esperar para o encontro com a Ovelha e o Lobo?"
"Essa tal de Magga está fazendo um novo jogo", grunhiu o Lobo. "É conhecido como ‘adiamento’".
O Lobo parou de se mover e pendeu sua cabeça para o lado. Ele virou seu focinho para Magga antes de falar. "Podemos brincar de ‘Perseguir a Tal da Maga e Mordê-la em Pedacinhos?’". O Lobo fechou sua mandíbula sonoramente.
"Vamos perguntar a ela", disse a Ovelha. "Magga! Você prefere a perseguição do Lobo ou minha flecha?"
Magga estava tremendo. Seus olhos correram por todos os detalhes do mundo ao seu redor. Não era um local tão ruim para partir. Tinha a grama. Tinha as árvores. Tinha a arcada ancestral. Tinha uma tranquilidade no ar.
"Prefiro a flecha da Ovelha", ela disse, olhando para as cascas ásperas das árvores. "Imagino-me escalando os galhos mais altos, como quando eu era uma criança. Porém desta vez, nunca vou parar de subir. É isso o que significa ir com você?"
"Não", disse a Ovelha, "apesar de ser um bom pensamento. Não tenha medo, pequena donzela, estamos apenas nos divertindo. Você veio a nós esta noite; não viemos por você".
"Não posso perseguir a tal da Magga", disse o Lobo, com um tom de desapontamento em sua voz. "Porém, existem outras coisas por perto. Outras coisas prontas para a perseguição e para as mordidas. Vamos logo, Ovelha. Estou faminto".
"Por agora, saiba que sua encenação nos agradou e que vamos assisti-la até chegar o dia de nos encontrarmos novamente".
O Lobo passou por Magga e desapareceu na floresta. A besta sombria desvaneceu por entre os campos de grama alta. Magga olhou novamente para o monte desgastado. A Ovelha se foi.
A atriz escapou.
Quando Magga voltou ao acampamento, ela o encontrou em ruínas. A carruagem que ela mal começara a chamar de lar foi saqueada e reduzida a lascas em brasa. Pedaços de tecido e acessórios arruinados encontram-se espalhados pelo acampamento.
Ela encontrou o corpo de Denji próximo de onde ele dormia. Ele morreu protegendo Tria, cujo cadáver estava atrás dele. Julgando pelos traços de sangue, suas mortes não foram lentas. Eles se arrastaram para perto um do outro, seus dedos entrelaçados em um último afeto antes da morte.
Magga notou que Illusian conseguiu matar dois dos bandidos antes de ser queimado com Parr na carruagem.
As únicas coisas que continuaram intocadas foram as máscaras de Ovelha e Lobo de Denji. Magga as pegou e segurou em suas mãos. Ela colocou a máscara de Ovelha sobre seus próprios olhos e escutou a voz do Lobo.
"Persiga a tal da Magga".
A donzela correu toda a distância para Riachoagulha, nunca olhando para trás.
A Arena Áurea estava lotada com um mar de olhos piscantes, todos fitando com entusiasmo a cortina de veludo. O rei sentou-se no teatro com a rainha e seus conselheiros, todos esperando ansiosamente o início da trama. Todos ficaram calados quando a cortina negra foi levantada para revelar os atores.
Magga sentou-se em um camarim silencioso sob o palco. Ela escutou a multidão ficar muda enquanto se estudava no espelho. O esplendor da juventude sumiu de seus olhos anos atrás e a deixou com uma longa mecha prateada em seus cabelos.
"Madame!" disse o assistente de palco. "Você ainda não está a caráter".
"Não, criança", Magga disse, "só me visto no último momento".
"Este é o último momento", disse o jovem assistente de palco, segurando as duas peças finais da fantasia de Magga: as mesmas máscaras de Ovelha e Lobo de seus dias com a Mecânicas de Orphellum.
"Que sua performance seja abençoada hoje à noite", o assistente disse.
Magga preparou-se para sair para o palco. Ela colocou as máscaras sobre sua cabeça. O antigo calafrio do monte sombrio correu sua espinha. Ela o acolheu –– como sempre.
Ela entreteve a platéia planando no palco, incorporando os movimentos graciosos da Ovelha. Ela encantou a multidão com sua versão da selvageria brincalhona do Lobo. Ela, como as mortes gêmeas personificadas, acabava com o sofrimento de seus colegas atores, ou arrancava de seus pescoços, ate que a plateia ficasse de pé e irrompesse em estrondosos aplausos.
Era verdade. Todas as plateias amavam uma boa morte e amavam a de Magga mais que qualquer outra.
Até mesmo o rei e a rainha estavam de pé para louvar seu trabalho.
Porém, Magga não ouviu aplausos ou viu ovações. Ela não sentiu o palco sob seus pés, nem as mãos de seus companheiros de profissão quando estavam fazendo as reverências. Tudo o que ela sentia era uma dor aguda em seu peito.
Quando Magga olhou para a plateia, cada rosto era o de uma ovelha ou de um lobo.

domingo, 13 de setembro de 2015

O "Bonzinho"

Quando você ouve pela enésima vez aquele papo de que "bonzinho só se fode" ou "as mulheres só querem saber dos canalhas", tudo o que dá vontade de fazer é suspirar fundo, dar um tapinha nas costas do infeliz e pedir outro chopp sem ter que nem começar a explicar por que isso é uma grande baboseira
Mas pode ser que o cara seja um amigo seu ou você esteja num dia benevolente, então você tenta.
Um bom ponto de partida é um livro chamado "Virtudes do Medo", do Gavin De Becker.

"Nós temos que aprender e ensinar às nossas crianças que gentileza não é igual a bondade. Gentileza é uma decisão, uma estratégia de interação social; não é um traço de caráter. Pessoas controladoras quase sempre apresentam a imagem de uma pessoa gentil no começo. (...) Gentileza não-solicitada frequentemente tem um motivo secundário."


Um cara bonzinho não é um cara bacana. Um homem bonzinho não é um homem bom. Isso aí vale para homens e mulheres, mas em geral são os homens que reclamam mais desse suposto fenômeno.
O bonzinho não sabe, nem intui, que tratar as mulheres como rainhas-princesas-deusas é quase tão objetificante quanto tratá-las feito um pedaço de carne. Ele ainda acha que as mulheres são seres de Vênus e que deve reverenciá-las, e nunca as trata como seres pensantes e iguais.
O bonzinho ainda cai na lenga-lenga do "friendzone". Quem fica ofendidinho por ser amigo de uma mulher e acha que sexo é o contrário de amizade está longe de ser bonzinho.
O bonzinho costuma se surpreender se todas aquelas contas do restaurante, todas aquelas portas abertas, os rapapés, as noites escutando os problemas dela, todo esse "sacrifício" que ele fez "porque eu sou legal", não são pagos em dobro com um par de pernas abertas e amor eterno.
Claro que nem passa pela cabeça do bonzinho ser honesto e dizer a que veio. Ele espera que a mulher adivinhe que as gentilezas dele são uma abertura romântica, e acha que quando ela as aceita está automaticamente se endividando com ele. No final, tem tanta raiva embaixo do tapete que mal consegue esconder sua misoginia latente quando diz que "essas piranhas só querem saber dos canalhas".
O bonzinho é uma pessoa emocionalmente instável que está procurando validação o tempo inteiro. Ele não tem seus próprios amigos, interesses e atividades preferidas. Parece que está sempre cantando aquela música do "por onde for quero ser seu par".
Por não saber expressar seus limites, o bonzinho acaba atraindo e se relacionando com mulheres também manipuladoras que se aproveitam dele, o que acaba por reforçar essa visão de mundo maniqueísta e estreita. Ele ainda não entendeu: não é que todas as mulheres sejam vacas, só as que aturam ele.
Pensando bem, se você tiver a oportunidade de explicar tudo isso para um bonzinho, por favor, explique. Respire fundo, peça outro chopp, e seja bem didático. A sociedade agradece.
Em um momento de fraqueza e solidão, ela vai entregar os pontos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Uma conversa qualquer...

?- Olhe as folhas e as flores no chão... amo essa sensação de que o tempo está passando.
R- O seu tempo também está passando...
?- ...?
R- Sua vida passa, com ou seu você...
?- ...
R- A pergunta é... você é a protagonista?

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

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Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

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Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder.
Você está nu.
Não há razão para não seguir seu coração.

domingo, 6 de setembro de 2015

Uma visão diferente sobre a solidão

O pior sentimento de solidão que existe, é aquele que vem da alma. Podemos estar rodeados de pessoas, família, filhos, companheiro e amigos, mas mesmo assim nos sentimos solitários.

Muitas pessoas, vivem relacionamentos desgastantes, frustrantes ou destrutivos. Outras se humilham e se submetem diante de um companheiro, e perdem-se de si mesmas. Há aquelas que terminam um relacionamento e já entram em outro, de forma compulsiva. Algumas, tem um relacionamento estável, mas precisam sempre ter um outro alguém para se relacionar paralelamente. Várias outras, "fazem de conta" que são felizes em seu relacionamento.

Por que as pessoas se sujeitam a isso? Para alguns, vale qualquer coisa ou sacrifício, só para não sentirem a dor esmagadora da solidão.

Existem também pessoas que, após algumas tentativas fracassadas em relacionamentos, desistem de se relacionarem e tornam-se solitárias. Apesar da dor inicial, depois de certo tempo se "anestesiam" inconscientemente, de forma a não sentirem mais dor. O perigo aqui, é que a pessoa acredita que está muito bem sozinha. Neste caso, a dor da solidão existe, mas é muito menor. Esta pessoa acredita que quando tem um companheiro, vive com medo de perdê-lo e, para ela, viver o tormento do medo da perda e da provável solidão, é muito pior.

Seria muito adequado uma pessoa viver sozinha, por qualquer período que fosse, pois quando aprendemos que podemos viver sozinhos, sem necessitar a presença de um companheiro, podemos finalmente perder o medo, e passamos a nos relacionar de forma mais saudável, simplesmente pelo desejo de ter alguém ao nosso lado e não mais pela necessidade e dependência de ter o amor do outro. Esta seria uma excelente experiência. Mas nem todos conseguem isto.

Então, vou apontar um bom recurso, para aliviar da dor da solidão. É o caminho "para dentro de si". As pessoas que se sujeitam a viver relacionamentos infelizes, normalmente fazem isso, pelo temor de não serem desejadas, amadas e aceitas em sua totalidade e, assim, serem rejeitadas. Pelo medo da rejeição e por não sentirem-se seguras, aceitam essa triste condição.

No caso de uma pessoa temer ser rejeitada e abandonada, e viver na solidão, a primeira pergunta que deve se fazer é: onde e como eu mesma me rejeito e me abandono? O que há de tão ruim em mim, que faz com que eu mesma não me aceite, e que me faz acreditar que não serei aceita pelo outro?

Bem, este é o início de uma busca interna. É justamente porque as pessoas não se aceitam em sua totalidade, que se submetem a viver com "qualquer tipo de pessoa", em qualquer tipo de relação.

Para uma pessoa conseguir se aceitar, ela precisará conhecer mais sua realidade interna. Nesta realidade, ela encontrará tudo o que há de mais sublime e iluminado, mas também encontrará aspectos de sua negatividade e destrutividade, os quais abomina. É por causa destes aspectos, que inconscientemente a pessoa sabe que tem, que ela mesma não se aprova.

É somente na tomada da autoconsciência, descobrindo quem é de verdade - em sua Luz e em sua sombra - que a pessoa poderá começar a se amar.

Mas o maior temor, inconsciente, para maioria das pessoas, é entrar em contato com sua própria negatividade.

Porém, espiritualmente falando, não existe o "certo e o errado", o "bom e o ruim". Na verdade, em essência, tudo é Luz. Todos os nossos aspectos negativos, são virtudes, são aspectos positivos, que entraram em desequilíbrio e se negativaram. Nossa sombra pode ser entendida como parte de nossa Luz, que se "esqueceu" que era Luz, e se negativou. Com este olhar, podemos compreender que, quando constatamos algo negativo em nós e o aceitamos, e apenas desejamos superá-lo, sem lutar contra e sem a necessidade de eliminá-lo, ocorre como uma "reconversão",   do negativo para o positivo. Digamos que "a sombra se reconverte em Luz, sua verdadeira essência".

Aos olhos espirituais, isso tudo é muito belo e divino, faz parte da existência humana. Se Somos Todos Um, é porque somos iguais, em Luz e Sombra. Não há porque alguém sentir-se inferior aos outros, só por conter aspectos destrutivos dentro de si.

Se as pessoas mergulharem em si mesmas para uma busca profunda, encontrarão suas verdades. Se aceitarem tudo o que encontrarem, em sua totalidade, sem auto-rejeição, com certeza começarão a se gostar mais, sua auto-estima se elevará, o auto-respeito acontecerá. Com isto, uma pessoa assim, que se aceita e se aprova, não mais se sujeitará a estar presa em um relacionamento deprimente, só para não ficar sozinha.

Ao se conhecer melhor, a pessoa aprenderá a relacionar-se consigo mesma de forma mais saudável e a ter prazer nisso. Somente quando conseguimos esta relação, primeiro conosco, é que estamos muito mais prontos para um relacionamento com o outro.

Certa vez, li em um livro, em que ele dizia que existe uma diferença entre solitude e solidão. "A solidão é a ausência do outro, a solitude é a presença de si mesmo".

Então, viva sua solitude, aprenda a se aprovar, se apreciar, se aceitar. Com certeza, descobrirá o ser humano especial que você é. Quando uma pessoa se gosta, ela acredita que os demais também gostarão dela e, assim, não teme ser rejeitada.

Mas, caso alguém a rejeite, ela aceitará e não ficará em busca de migalhas, pois poderá compreender e aceitar que, por algum motivo, essa determinada pessoa, não a aprecia e aprova plenamente. Desta forma, poderá se abrir, para que outra pessoa, que a respeite e a aceite em sua totalidade, chegue em sua vida.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Os verdadeiros Heróis

Segundo o dicionário, herói é o homem notável por suas qualidades extraordinárias.
Em todas as épocas, a Humanidade elegeu e aclamou heróis.
Entre eles, contam-se governantes iluminados pelo amor ao seu país e ao seu povo.
Também se enumeram filósofos e pensadores de grande talento.
Líderes de resistência contra governos despóticos e cientistas dedicados, igualmente figuram no panteão dos heróis.
Esses homens sempre foram considerados modelos a serem seguidos, por suas excepcionais virtudes.
Atualmente, a Humanidade vive uma fase de turbulenta transição.
Antigos padrões de comportamento são revistos.
Valores consolidados são questionados ou rejeitados, sem muita análise.
O relevante parece ser ousar e inovar, ainda que sem grande critério.
A liberdade é valorizada ao extremo, embora não haja preocupação com a responsabilidade, sua natural contraparte.
Nesse contexto de valores ambíguos, carentes de reflexão e consolidação, surgem novos padrões de conduta.
Personagens exóticas são facilmente alçadas à condição de heróis.
Os passos dessas figuras inquietas são seguidos pela mídia.
Uma multidão fascinada e irrefletida os observa com êxtase e comenta e copia suas palavras e atos.
O novo panteão de heróis é formado por um grupo de criaturas de origem e personalidades variadas.
Há participantes de shows que pretendem imitar a realidade da vida.
Inexplicavelmente, intrigas e brigas que promovem em recinto fechado, mas mostrado pela televisão, os endeusam perante o imaginário popular.
Expectadores ávidos de baixezas acompanham o desempenho desses ídolos.
Há também artistas muito belos, mas desequilibrados, pelos quais as massas se apaixonam.
Muitos deles se deixam fotografar e filmar em cenas despudoradas.
De outro lado, não faltam atletas regiamente remunerados, mas com padrão de comportamento pouco elogiável.
Os novos heróis produzem escândalos, iniciam e terminam relações afetivas com rapidez vertiginosa.
Mas a multidão os acompanha, subjugada por sua juventude, seu brilho, sua beleza e sua arrogância.
Entretanto, o que há de nobre e aprazível no comportamento de tais pessoas?
Uma ligeira reflexão permite concluir que o heroísmo não se expressa mediante comportamentos exóticos.
O genuíno herói há de ser alguém que contribui para a construção de um mundo melhor.
Nessa linha, há inúmeros heróis anônimos, cujo comportamento merece ser admirado e copiado.
Por exemplo, o jovem que diz não às drogas e à promiscuidade.
O estudante atento a seus deveres e que não cola, mesmo tendo oportunidade.
O filho que cuida dos pais idosos ou enfermos.
O professor que leciona com dedicação e competência, mesmo quando mal remunerado.
Os pais que gastam tempo orientando seus filhos, a fim de que não se percam nas ilusões do mundo.
O empresário honesto, que não sonega tributos e nem lesa seus clientes.
Onde quer que haja alguém preocupado em ser honesto e solidário, em construir um Mundo melhor, aí se tem um herói.
Ao eleger seus ídolos e modelos, pense nisso...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

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"Existem coisas piores que estar sozinho, mas geralmente leva décadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais..."