sexta-feira, 20 de setembro de 2019

O décimo-primeiro dia da travessia – os demônios acompanham a caravana

Ainda era cedo. O sol começava a banhar o deserto por detrás de uma enorme duna ao leste. Arrumei as minhas coisas no alforje e o deixei pronto para colocá-lo sobre o camelo na hora da partida. Fui à tenda em que serviam o desjejum para encher uma caneca com café. Depois me afastei para a prece que gostava de fazer sozinho pela manhã, sempre acompanhada de alguma reflexão. Como de costume, o caravaneiro estava destacado do grupo, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro que usava no braço esquerdo, para o adestramento matinal. Foi então que se aproximou de mim um peregrino que fazia parte da caravana. Perguntou se podia me fazer companhia. Com o queixo apontei para que se sentasse ao meu lado. Não demorou, puxou conversa. Disse que se chamava Saul. Falou que, assim como eu, ele também ia ao oásis para conhecer o sábio dervixe. Em seguida criticou a estrutura da caravana. Falou que o valor cobrado pela viagem era muito caro para o pouco que ofereciam e que o caravaneiro devia dedicar ao grupo a mesma atenção que oferecia ao falcão. Eu nada respondi para não alimentar aquela conversa com energias que estimulavam a discórdia e a insatisfação. Não satisfeito, talvez por não encontrar em mim o apoio esperado, perguntou se eu tinha lido determinado livro. Respondi que nunca tinha ouvido falar nem no título nem no autor. O peregrino me olhou com espanto para dizer que aquela leitura era pressuposto para a conversa com o dervixe, uma vez que era a base de sua doutrina filosófica. Acrescentou que nem todos que iam ao oásis conseguiam o esperado encontro, pois o sábio escolhia apenas algumas pessoas, aquelas que considerava aptas a entenderem as suas palavras.
Eu quis saber se ele tinha o livro e se poderia me emprestar. Como ainda faltavam trinta dias até chegarmos ao oásis, seria tempo suficiente para eu me preparar. O homem falou que tinha o livro, mas estava dedicado a uma releitura do mesmo. Lamentou não poder me atender. Falou, ainda, que tinha certeza de que ele seria um dos eleitos para se reunir com o dervixe. Relatou todos os estudos que fizera e escolas das mais diversas tradições que frequentara ao longo de muitos anos. Pelo que tinha reparado, duvidava que na caravana alguém estivesse tão preparado como ele. Perguntou sobre qual vertente se sustentava o meu conhecimento. Falei que recentemente tinha ingressado em uma ordem esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Nada além disso. Ele sacudiu a cabeça como quem diz que não era suficiente, mas aconselhou que eu não desistisse e que me ajudaria no que fosse possível. Em seguida, falou que tinha que preparar a sua bagagem, pois a caravana logo seguiria a viagem. Antes, porém, me alertou para ter cuidado com o caravaneiro. Perguntei a razão, mas ele apenas puxou a pálpebra do olho como sinal para que eu estivesse atento e saiu.
Fui envolvido por uma sensação muito ruim. Uma mistura de emoções desagradáveis com alguma confusão mental. Pensei em como seria detestável atravessar o deserto, com todas as dificuldades inerentes ao percurso, para, ao final, voltar frustrado quanto às intenções da viagem. O que eu diria aos meus amigos ao me perguntarem sobre como tinha sido a conversa com o dervixe, especialmente entre aqueles que me incentivaram a fazer a peregrinação? Incomodava a ideia de responder que fora em vão, que o sábio se recusara a conversar comigo. De sobra ainda teria que me deparar com os colegas que haviam me aconselhado a não vir por causa dos perigos do deserto, além da grande despesa que eu teria com a viagem. Fechei os olhos e os imaginei me oferecendo lições de prudência com ares de pretensa superioridade, dizendo algo como “se Deus está em todo lugar, e principalmente dentro de si mesmo, você não precisa ir a lugar nenhum para encontrá-lo”. Na realidade, eu não viajava para encontrar Deus, mas em busca de novos conhecimentos. Eles retrucariam, “não vejo sentido em você se privar do conforto da sua casa, principalmente hoje em dia, onde encontramos tudo na internet”. Ora, andar pelas ruas de uma cidade me permite uma percepção bem diferente do que conhecê-la por fotos. Assim é com a filosofia; se não for vivida restará desperdiçada. No mais, fora as críticas que eu teria que enfrentar, não tinha vislumbrado a possibilidade de passar quarenta dias no deserto, com todas as privações inerentes à caravana, para ao final nem ao menos ouvir uma única frase do dervixe. Aquilo me deixou profundamente agoniado.
Esperei o caravaneiro retornar com o falcão. Quando passou por mim, o questionei por qual razão ele não me avisou que havia uma enorme chance de eu não conseguir conversar com o sábio quando chegássemos ao oásis. Ele me olhou atentamente, como quem procura ler o que está escrito além das palavras ditas, e disse com serenidade: “Você contratou a caravana para chegar a um determinado destino em segurança. Tão somente. Esse é o meu compromisso. Respondo apenas por mim e pela caravana. Não sou secretário nem agenciador do dervixe. Não posso ser responsabilizado se ele viajou ou está recluso sem desejar encontrar com ninguém. Assim como não posso responder pelos negócios entre mercadores e tapeceiros. Ao contrário, veto o ingresso na caravana daqueles que, de antemão, percebo que perderão tempo e dinheiro na travessia. Sejam mercadores, sejam peregrinos”. Admiti que, de fato, eu mesmo quase fui impedido de participar da viagem, logo no início, uma vez pelo caravaneiro, noutra pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli. No entanto, achava que a possibilidade de atravessar o deserto e não conseguir encontrar o sábio deveria restar mais clara.
Sem deixar que a energia densa que me envolvia o atingisse, ele manteve o tom suave da voz como maneira de não alimentar a confusão: “Assuma os riscos da sua escolha e aproveite a travessia. O deserto é muito mais do que sol e areia”. Olhou-me nos olhos e concluiu de jeito enigmático antes de seguir para os seus afazeres: “Mais uma coisa, preste atenção aos demônios para não servir a eles. O melhor truque das sombras é nos iludir de que elas não existem em nós”.
Aquela conversa com o caravaneiro piorou ainda mais a confusão mental que eu sentia. Perdi a confiança nele, e a insegurança quanto ao encontro com o sábio dervixe se agigantou, tomando conta de todos os meus pensamentos. O acampamento foi recolhido e a caravana partiu. Eu seguia desconfortável sobre o camelo. O gingado do animal, a falta de brisa, o calor parecia mais intenso naquele dia. Tudo me incomodava. Senti fome, pois tinha apenas tomado uma xícara de café no desjejum. Depois fiquei com sede. Em razão das lições dos dias anteriores, eu sabia que tinha que racionar a água para não tornar a ter problemas. Comecei a lembrar das pessoas que me desaconselharam a fazer a viagem e fui tomado por uma horrível sensação de arrependimento de estar ali. Eu poderia estar em lugares que adorava, como no mosteiro, nas montanhas do Arizona, na oficina do Loureiro, na pequena vila do Himalaia ou mesmo viajando com as minhas filhas. No entanto, eu estava atravessando o deserto, sob severas condições, para vivenciar uma experiência que, agora, descobria improvável. A agonia me abateu e convidou a irritação para a ceia.
Foi quando o peregrino emparelhou o camelo dele ao meu. Ofereceu-me um chiclete. Disse que ajudava a manter a boca úmida. Aceitei e encontrei nele um amigo disposto a me ajudar. Não demorou muito, Saul começou a narrar como era solicitado para ministrar cursos e fazer palestras. Contou das suas incríveis experiências metafísicas, apenas permitida aos iniciados. Enquanto ouvia, eu me comparava a ele. No íntimo, senti vontade de algum dia ser requisitado daquela maneira.
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli passou por nós montada em seu ágil cavalo negro, olhou-me por instantes e prosseguiu.
Em seguida, Saul antecipou a conversa que teria com o dervixe. Tinha uma série de questões filosóficas para debater com o sábio. E mais, faria uma proposta irrecusável para juntos montarem um spa espiritual na cidade do peregrino. Diante de tudo, confessei o meu receio em não ser recebido pelo dervixe e de como esta possibilidade me incomodava. Ele disse que, na medida possível, intercederia ao meu favor. Acrescentou que eu deveria, da próxima vez, me preparar melhor antes de vir. Depois, voltou a falar sobre a precariedade da caravana, de como era ruim a relação entre o valor cobrado e as condições oferecidas. Falou de algumas maravilhas proporcionadas por outras caravanas. Tendas mais confortáveis e comidas mais requintadas eram apenas algumas das realidades que estavam distantes da nossa.
Ao final da tarde paramos para passar a noite. Logo após o acampamento ser montado, foi servida a refeição. Fui com o peregrino até a tenda para enchermos a nossa cuia. Era um guisado com carne seca de carneiro, grãos e legumes. Saul provou, torceu o nariz, me olhou como para lembrar do que ele tinha falado. Ensina a sabedoria que o acaso não existe, pois nesse instante o caravaneiro entrou para se servir. Enchi-me de coragem e o abordei para reclamar das condições da caravana. Ele me ouviu sem interromper. Quando terminei, ele falou com serenidade: “Ofereço o melhor que posso dentro dos limites das possibilidades que se apresentam e da capacidade que possuo. Acredite, nem um pouco a menos. No entanto, entendo que é um direito seu não estar satisfeito ou mesmo arrependido de estar aqui. O que de pior pode acontecer na caravana é a discórdia criar raízes e se alastrar”. Fez uma pequena pausa antes de prosseguir com toda a calma: “Dou-lhe a chance de retornar daqui. Devolverei integralmente o dinheiro pago. Não quero que você se sinta prejudicado ou enganado. Amanhã um dos encarregados voltará à cidade de onde partimos. Se quiser, poderá ir com ele. Pense. Se for o caso, esteja pronto logo cedo”. E se retirou. Olhei para o lado em busca do apoio do peregrino. Ele tinha se afastado.
Fui em sua direção e percebi que ele me evitava. Insisti até estar com ele. Achei estranho o comportamento do homem. Mais ainda, quando perguntei se tinha ouvido a conversa, ele nada respondeu. Eu quis saber se ele voltaria comigo no dia seguinte. O peregrino sacudiu a cabeça em negativa e nada falou. Falei que eu estava em uma situação delicada com o caravaneiro. Saul, em um tom agressivo de voz, disse que não era responsável por minhas atitudes nem por minhas escolhas. Falou que eu deveria amadurecer. Contestei. Argumentei que eu tinha plena consciência da responsabilidade pelas minhas ações. Entretanto, as palavras eram a forma mais antiga de magia, pois têm o poder de espalhar as sombras ou semear a luz. Ele, como homem iluminado que se proclamava, deveria saber disso e entender que tipo de mago de fato era e a má influência que tinha causado. Saul me olhou com desdém e disse que logo que me viu tinha reparado que eu não tinha a menor condição de me encontrar com o dervixe. Contrariado, preferi me afastar para não criar uma confusão maior.
Fiquei sozinho, sentado em um canto distante, até um manto de estrelas cobrir o céu do deserto. Aos poucos fui me tranquilizando. Dei-me conta de como tinha sido tolo por embarcar nas sombras de Saul. Lembrei do bom homem que servia chá na caravana, que embora nunca tivesse frequentado uma escola, possuía uma sabedoria extraída da simplicidade e da humildade. Impulsionado pelos bons sentimentos, além de outras virtudes, como a delicadeza e a compaixão, ele se tornara uma das pessoas com quem o dervixe adorava conversar. Não tinha como negar a importância do conhecimento; no entanto, sem amor tudo se esgota nos ralos da existência. Passou um tempo que não sei precisar, quando, de repente, ouvi uma voz doce atrás de mim: “Mais do que sexo, poder e dinheiro, o medo move o mundo. Toda a vez que isso acontece, seguimos na direção oposta à luz, nos afastando do verdadeiro destino”. Era a bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli.
Ela se sentou à minha frente. Contei lhe todo o ocorrido durante o dia. Ao final, me declarei traído pelo peregrino. A mulher não concordou: “Pare de culpar os outros pelo seu sofrimento. Isto o impede de avançar. Em verdade, você foi traído por suas vozes ao dar ouvido às próprias sombras. Uma das mais perigosas delas, o medo, se tornou seu conselheiro e alimentou a vaidade e o orgulho do peregrino. Isto fez com que a inveja também lhe fizesse companhia. Com mentores desse quilate você inevitavelmente teria problemas”. Sustentei que a responsabilidade pelas escolhas era minha, porém ele era responsável pelo alcance das suas palavras. A mulher concordou, em parte: “Sim, é verdade. No entanto, a magia das palavras somente germina onde encontra solo fértil, seja de sombra, seja de luz”. Fez uma pausa e concluiu: “A vaidade, o orgulho e a inveja são os demônios mais vulgares que existem, porém os mais influentes em nossas vidas. Todos nascem do medo”.
Eu quis saber se esses eram os demônios aos quais o caravaneiro havia se referido naquela manhã. Ela concordou com um movimento da cabeça. Perguntei se esse era o motivo de ela ter passado a cavalo me olhando enquanto eu conversava com o peregrino durante a marcha daquele dia. “Sim, percebi os demônios acompanhando a caravana”, ela respondeu simplesmente. Falei que o peregrino era quem movia esses demônios e só agora eu me dava conta disso. Ela discordou: “O peregrino é responsável apenas pelos demônios dele. Você, pelos seus. A permissão para que os demônios dele alimentassem os seus foi concedida por você”.
“As pessoas têm sobre nós apenas os poderes que concedemos a elas.”
Lamentei que nem sempre eu conseguia identificar a presença desses demônios em mim e também tinha certa dificuldade de entendê-los. Ela explicou: “A vaidade é a necessidade de se sentir admirado pelos outros; o orgulho surge quando precisamos nos sentir maiores que as demais pessoas. Ambos insistem em nos convencer de que são indispensáveis à felicidade. A inveja se faz presente quando teimamos em nos comparar ou em desejar a vida alheia, como se as possibilidades que se apresentam não são boas o suficiente para nós. No fundo, um desejo sombrio e inconfessável de estar no trono do mundo”. Olhou-me profundamente e disse: “Vaidade, orgulho e inveja são demônios filhos do medo. Medo de duvidar da própria força, medo de não acreditar no poder que o habita, medo de não conseguir viver o próprio sonho, medo de não enxergar a beleza do seu dom, medo de se sentir menor, pior ou abandonado. Medo de mergulhar nas profundezas de si mesmo para iluminar a escuridão. Paradoxalmente, é esta escuridão que alimenta o medo, em eterno ciclo de sofrimento e fuga. Fugimos para a vida do outro na vã tentativa de esquecer a nossa. Então, sofremos por incompletude”.
“Dentro de cada um de nós vivem anjos e demônios, alimentados pelos nossos sentimentos e pensamentos. Os bons e os ruins. O que fazer com cada um deles define, passo a passo, quem somos e qual direção seguimos. Creia, neste momento da existência, ainda precisamos de ambos, anjos e demônios, movidos por ideias e paixões de muitas vertentes, para aperfeiçoar as nossas escolhas e fortalecer, em definitivo, os laços com a luz”.
“Todos temos os mesmos demônios. Não negue nem reprima os seus. Envolva-os com amor e os ilumine, como um bom pai cuida do filho. Use a enorme força vital deles para trabalhar em favor dos seus anjos. Esta é a diferença”.
Falei que tinha que dar uma resposta ao caravaneiro logo pela manhã. Admiti que estava arrependido e já sabia a decisão que tomaria. Ela disse: “A humildade é a virtude primordial ao primeiro portal do Caminho. O portal da lucidez. Lucidez por começar a entender quem sou. Só então, me abro as infinitas possibilidades para tudo aquilo que posso me transformar, na alegre batalha para me tornar melhor do que fui ontem. A existência não trata da absurda competição com os outros, mas no esforço da superação sobre si mesmo. Essa estrada começa com a humildade. Em verdade, a humildade é o início do amor pela vida. As virtudes são os nossos anjos, pois protegem e libertam; a humildade é um dos anjos mais poderosos que existe”.
Sem pedir licença, se levantou e saiu. Fiquei acompanhando os seus passos, quando ela se virou e disse: “Não esqueça de agradecer aos seus demônios pela lição de hoje”. Fez uma pausa e finalizou: “Mas também não esqueça de educá-los”. Depois seguiu até o alto de uma duna. Iluminada pelas estrelas, a vi bailando, sozinha, em comunhão com o deserto.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O décimo dia da travessia – os demônios do deserto

Estávamos no décimo dia de viagem. Ainda não tinha amanhecido. Eu me revirava de um lado para o outro sem sono. Resolvi sair da barraca. O deserto estava iluminado pelas muitas estrelas do céu e de alguns poucos lampiões pendurados nas entradas das tendas. Uma brisa fria, que nos passar das horas desaparecia para dar lugar a um forte calor à medida que o dia avançasse, exigia que eu me cobrisse com uma manta. O silêncio era absoluto. Ocorreu-me que ainda não tinha ouvido ninguém na caravana falar dos demônios do deserto. Eu conhecia muitas histórias, mitos e lendas sobre esses espíritos e não tinha qualquer dúvida de que havia algo de verdade. Sentei-me na areia e fiquei envolvido em reflexões. Logo o céu começou a mudar de cor anunciando o novo reinado do sol. As tendas começaram a ficar barulhentas com o despertar do acampamento. Alegrei-me com a possibilidade de tomar um café quente logo pela manhã. A primeira pessoa que vi foi o caravaneiro. Ele estava pensativo, com o olhar perdido no deserto. Estranhei ele não estar com o falcão para o adestramento matinal. Sem dar importância a esse detalhe, me aproximei e perguntei pelos demônios do deserto. Eu queria saber se ele acreditava na existência deles. O caravaneiro me olhou rapidamente, depois se voltou para o deserto e disse: “Eles acompanham a caravana e estão misturados aos viajantes”.
Antes que eu iniciasse uma série de perguntas que me ocorreram, ele orientou: “Arrume logo a sua bagagem. Sairemos mais cedo do que de costume, pois temos que chegar ao poço antes do anoitecer. Precisamos abastecer. Não há tempo a perder”. Falei que antes tomaria uma caneca de café. Ele esclareceu: “Não haverá desjejum hoje. Partiremos assim que as tendas sejam recolhidas”. Aquilo me irritou. Alguns poucos minutos para um rápido café não fariam diferença até a chegada ao poço. Achei que faltavam planejamento e sensatez. Pensei em dizer isso a ele, mas quando me virei e o caravaneiro viu as minhas feições, se adiantou as minhas palavras e falou: “Reze”. Em seguida concluiu: “Que Deus o proteja”. E saiu.
Voltei para a tenda e arrumei as minhas coisas. Foi quando percebi que a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli me observava. Conversar com ela era uma das coisas mais interessantes da caravana. Tentei me aproximar, mas um homem intercedeu pela minha ajuda. Precisava de auxílio para colocar o seu pesado alforje sobre o camelo. Não tinha como negar e aquele precioso minuto foi suficiente para eu não mais a encontrar quando tornei a procurá-la. Voltei a me irritar ainda tão cedo. Aquele não estava sendo um bom dia.
Logo a caravana iniciou a sua marcha. Domei a minha ira à força, como se faz com um animal selvagem, e tive os pensamentos desviados para memórias, antigas e recentes, de situações mal resolvidas que ainda me traziam desconforto. Enquanto atravessávamos dunas após dunas, eu lembrava de como poderia ter me comportado diferente naqueles momentos do passado que me deixaram mágoas. Achei que algumas pessoas mereceriam respostas mais duras e outras eu jurei nunca mais procurar ou dirigir a palavra. Olhei no relógio e o tempo se arrastava bem mais lento do que eu desejava.
Foi quando tornei a perceber que, de longe, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli me observava. Porém ela estava a uma distância que não permitia a minha aproximação. Nesse momento, um homem que seguia um pouco à frente, acendeu um charuto. Era comum algumas pessoas fumarem durante a marcha, mas aquele cheiro estava insuportável. Como ninguém nada falou, adiantei o meu camelo para reclamar com ele. Logo se iniciou uma ríspida discussão acalmada pelos viajantes que estavam próximos. Um dos encarregados da caravana me recolocou em outro lugar, distante da fumaça do charuto. Fiquei indignado com a permissividade de todos em relação ao fumo. Sem dúvida, um absurdo, mormente em um grupo controlado com regras de comportamento tão rigorosas como uma caravana. Decidido a não deixar que a irritação me dominasse, desviei o pensamento para momentos agradáveis da minha vida. Situações que me levaram a outras, de pesadas memórias. Dei-me conta de como as pessoas são difíceis e como é raro encontrar alguém que tenha empatia pelos outros, que sintam os sentimentos do mundo e disponibilize o próprio coração com boa vontade para pacificar as relações. Situações que eu pensei esquecidas tornaram a se fazer presentes em minha memória, trazendo a sensação de que eu não tinha sido tão feliz quanto imaginava. Tive certeza o mundo não era um bom lugar para se viver quando chegou a notícia de que não pararíamos, como também era de costume, para um breve almoço. A caravana seguiria initerruptamente até o poço. O calor estava insuportável e o sol mais quente do que nos dias anteriores. A bela mulher de olhos da cor de lápis-lazúli, de longe, continuava a me observar.
Custei a acreditar quando chegamos ao poço ainda no meio da tarde, restando algumas boas horas até o anoitecer. Veio a ordem para montar o acampamento e que todos se abastecessem de água. O jantar seria servido em seguida. Decidi esperar que a enorme fila que se formou no poço terminasse. Não havia pressa, pois só partiríamos no dia seguinte. Vi que o sábio homem do chá colocava algumas ervas em infusão e me aproximei. Comentei que não entendia a pressa que nos deixou sem desjejum e almoço. Ainda era cedo e daria tempo para tudo. O homem sorriu com doçura e tentou explicar: “As reservas de água da caravana estavam esgotadas e não podíamos correr o risco que algum imprevisto impedisse que chegássemos aqui antes de anoitecer”. Falei que se a caravana fosse uma empresa e o caravaneiro o seu diretor, com certeza seria demitido por um planejamento tão equivocado. O sábio do chá disse com doçura: “Por isso ele é um homem da areia e não um executivo do asfalto. Cada qual com a sua beleza e sabedoria”. Agradeci o chá e me afastei pensando como as pessoas no deserto eram resignadas em excesso. Eu não tinha ouvido uma única reclamação por causa daquela absurda programação. Uma paciência tão estendida que beirava a permissividade. Isto me incomodava.
Enquanto aguardava o jantar, vi que o caravaneiro se afastava, com o seu falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço esquerdo, para iniciar o treinamento vespertino da ave. De longe vi o falcão planar no céu por longos segundos com as asas abertas até as recolher para um mergulho profundo e retornar com uma serpente em suas garras. A cena me fascinou e decidi me aproximar, quando fui impedido por um dos encarregados, sob a alegação que o caravaneiro tinha pedido para ficar só. Falei que estranhava a ordem, pois outras vezes tinha conversado com ele enquanto adestrava o falcão. Acrescentei que estava cansado de ordens sem qualquer sentido e me desvencilhei para ir de encontro ao caravaneiro. O encarregado tornou a me segurar e quando tentei me soltar, a minha roupa rasgou. Reagi e nos embolamos no chão. Rapidamente outras pessoas chegaram para apartar a briga, evitando maiores consequências. O caravaneiro que assistiu a tudo, mandou que fossemos falar com ele. Demos as nossas explicações. Dispensado o encarregado, que apenas cumpria uma ordem, o caravaneiro se virou para mim e disse: “Você não queria conhecer os demônios do deserto? Eles te acompanharam por todo o dia. Espero que consiga se entender com eles”. Em seguida determinou que eu estava proibido de jantar e deveria ficar o resto do dia afastado do grupo. Irritado, perguntei se ele me puniria com a fome. Ele esclareceu: “Não, a sua pena será a reflexão. Mais do que uma punição, que a pena sirva de aprendizado ou não servirá para nada”.
Sozinho, sentado na areia, vi o céu mudar de cor enquanto a minha mente se parecia com uma tempestade do deserto. Revolta e ressentimento me devoravam como predadores a uma presa. Foi isto que falei à bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli quando ela me surpreendeu ao se sentar ao meu lado. Ela ouviu todos os meus lamentos com paciência e, ao final, falei que o caravaneiro dissera que os demônios tinham me feito companhia por todo o dia. Confessei que tinha achado sem sentido o comentário dele, pois o fato de eu ter opinião sobre qualquer assunto era um direito inalienável. A mulher balançou a cabeça em concordância, mas teceu considerações que iam além do aspecto mundano: “Nossas opiniões são sagradas por revelarem, muito ou pouco, da verdade que nos habita naquele momento. As escolhas, reflexo prático das ideias, se nutrem das nossas emoções, poço onde os demônios bebem se dermos a eles aquilo que os alimenta. Então, o sagrado se afasta, a espera de que possamos entender e lidar com a trindade que define quem somos: sentimentos, ideias e escolhas. Coração, mente e mãos; sentir, pensar e fazer. Eis a santíssima trindade do ser”.
Eu quis saber quais eram os alimentos dos demônios. A mulher respondeu de imediato: “As sombras. Muito mais do que em grandes desastres, os demônios se fazem presentes nas situações banais do cotidiano. O orgulho, a vaidade, a inveja, o ciúme, a ganância, o medo, o egoísmo, a impaciência, a vitimização são as portas de entrada mais comuns. Formam um enorme banquete para as trevas. Por descuido, no desencontro de quem somos, nos tornamos justamente aquilo que tememos”.
“Isso nos leva a uma óbvia conclusão: ninguém nos prejudica mais do que cada um a si mesmo”.
Pedi para ela explicar melhor, mas a mulher se levantou, disse para eu continuar em reflexão. Se pudesse, após o jantar, voltaria. A vi se afastar com seu jeito gracioso de andar até desparecer em uma das tendas. Envolto comigo mesmo, achei que aquelas palavras faziam sentido e me permiti usá-las como guia para reflexão. Procurei acalmar os sentimentos para que não atrapalhassem a fluidez dos pensamentos. Passado algum tempo, me ocorreu que, se eu agigantava os demônios com as minhas emoções, ideias e atitudes, também seria capaz de enfraquecê-los da mesma forma. Tudo se resumia em ser um poço de sombras ou de luz. Isto definiria quem, se anjos ou demônios, se aproximaria para andar comigo. Sim, os demônios do deserto não apenas se alimentavam comigo, mas, pior, percebi que muitos eram criações minhas. Sim, alguns nasciam das minhas emoções, ideias e atitudes.
Em contrapartida, pensei, como criador eu também tinha o poder de criar anjos. Melhor ainda se eu criasse os anjos a partir da transmutação dos próprios demônios. Afinal, “nada se perde, tudo se transforma”, ensinou certa vez um alquimista francês. Para tanto, era preciso luz. Onde buscar luz? Ora, só havia um lugar, na mesma fonte das sombras, na trindade pessoal, em mim mesmo. Cada ser é a perfeita fonte de luz do universo. Luz ou trevas, anjos ou demônios, são escolhas pessoais. Naquele instante, eu percebi que precisava refazer as minhas criações. Era necessário também trocar quem me acompanhava e aconselhava. Entendi que por este motivo, a trindade pessoal é o perfeito escudo contra o mal. Indo mais fundo, cheguei à conclusão de que, se ela, a trindade pessoal, me liberta das prisões impostas pelas sombras, ela se torna também as minhas asas. Ali, na trindade, está todo o poder e a magia do mundo. Uma agradável sensação me envolveu. Satisfeito, sorri comigo mesmo.
Passou um tempo que não sei precisar; todo o acampamento dormia, enquanto eu continuava encantado com as minhas descobertas. A bela mulher com olhos de lápis-lazúli retornou. Contei sobre o conhecimento que tinha se revelado para mim e a agradeci por suas palavras. Ela arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Nada que não estivesse pronto para florescer. As sombras não são de todo ruim como se costuma pensar. Não raro se tornam a força necessária para romper a casca da semente onde a luz aguarda para germinar”.
Falei que estava envergonhado pela minha postura durante aquele dia. A mulher me corrigiu em um tom entre a gentileza e a firmeza: “Não sinta vergonha para não ficar paralisado. Ninguém chega pronto para atravessar o deserto. Seja grato a tudo e a todos pelo aprendizado. No entanto, o mais importante é o compromisso com a transformação do próprio ser e toda a mudança que isto irá gerar ao seu redor”. Olhou-me profundamente e concluiu: “É disso que os demônios mais temem”.
Sem se despedir, se levantou e andou até o alto de uma duna. Então, sozinha, bailou para as estrelas que iluminam o céu do deserto.