Não acordei bem. Uma insatisfação se fazia presente. Em geral
desperto bem-humorado, sem que precise de qualquer esforço para me
sentir otimista em relação à vida. Sempre fui assim. No entanto, tinha
dias que um azedume invadia as entranhas e predominava nas sensações.
Não havia necessidade de ter acontecido algo em particular para que eu
me sentisse assim. Era esporádico. Acontecia às vezes sem que eu
conseguisse identificar a origem do mal-estar. Antes do café, me afastei
para a minha prece e meditação diária. Eram poucos, porém, importantes
minutos dessas duas práticas, as quais eu não dispensava. A meditação me
permite encontrar e conversar comigo; o outro que me habita. Me
conhecer melhor e entender as mudanças que me são necessárias. A prece
me conecta com os meus mestres e guardiões pessoais do plano invisível,
os quais todos temos. Ocorre que nesses dias em que eu acordava mal, era
comum situações de incômodas memórias insistirem em se intrometer em
minha mente para atrapalhar, seja a prece, seja a meditação. E isto me
deixava ainda pior, com a sensação de não ter completado uma tarefa.
Naquela manhã, a falta de concentração me fez demorar um pouco mais
do que de costume em minhas práticas diárias. O café já estava frio
quando cheguei na tenda que servia de refeitório. A caravana levantava o
acampamento para partir. A insatisfação comigo mesmo ou com a vida, eu
não sabia exatamente identificar, embora fosse a mesma coisa, aumentou.
Na formação em fila, quem voltou a emparelhar o camelo ao meu lado foi
Abdul, o médico com quem eu conversara há dias. Ele sorriu e fez um
aceno com a cabeça. Cumprimentei-o da mesma maneira. Seguimos sem dizer
palavra por algum tempo. Abdul, com os olhos fechados, parecia rezar.
Fiquei prestando atenção no médico mulçumano. Quando ele abriu os olhos,
perguntei se, por vezes, incômodas memórias invadiam a sua mente
durante a oração. Abdul admitiu e explicou: “São situações que já
estamos aptos a lidar e prontas para serem pacificadas no coração. Um
dos aspectos da plenitude é a possibilidade de visitar todo o seu
passado sem qualquer sofrimento, mágoa ou vergonha. Quando uma memória
se tornar recorrente, abrace-a como a um filho que volta para casa após
uma briga; faça as pazes com ela. É a sua consciência em expansão que já
está pronta para a superação daquele fato doloroso. Ilumine-o para
sempre dentro de você.”
Aquelas palavras me tocaram. Fiquei algum tempo em reflexão sobre
elas. Adiante, decidi por quebrar o silêncio e o perguntei sobre qual
aspecto a medicina mais o fascinava. Ele respondeu sem pestanejar: “A
cura.” Falei que todos os médicos eram assim. Abdul sacudiu a cabeça em
negativa: “Há os magistrados que amam a profissão, existem aqueles que
amam a justiça. Estes estão em outro patamar. Há os médicos que adoram a
medicina; existem os curadores.” Fez uma breve pausa e concluiu: “Quero
me fazer crer que pertenço a estes últimos ou terei desperdiçado a
melhor parte do meu dom.” Em seguida tornou a abordar a minha pergunta:
“Nos últimos anos tenho me dedicado ao estudo do inconsciente.”
Falei que não entendia a razão de tanto fascínio pelo inconsciente
para quem se dedica à cura. O médico me alertou: “É o inconsciente que
traz as difíceis memórias que tanto sofrimento causam. Aprender a usar o
inconsciente é fundamental à integralidade do ser. Contudo, por
ignorância, temos por hábito tratá-lo como a um sótão poeirento onde
guardamos aquelas coisas que não sabemos o que fazer com elas em casa.
Porém, o inconsciente é bem mais do que isto. Como uma parte viva e
atuante do ser, ele irá sempre se manifestar de acordo com o tratamento
que receber. Adoentado por abandono, pedirá por cura. Quando saudável,
será um importante aliado para a expansão da consciência.”
Confessei que tinha dificuldade em entender. Abdul se esforçou para
me explicar: “O cérebro é como um iceberg. O consciente é a parte que
fica visível, acima da linha d’água. No entanto, é a sua menor parte.”
Em seguida, resumiu a base do seu raciocínio: “Portanto, ao abandonar o
inconsciente abdicamos do nosso potencial absoluto; vivemos menos do que
somos.”
“No inconsciente está o imponderável de nossas capacidades”, afirmou.
Pedi para ele aprofundar. Abdul foi generoso: “Abaixo da linha d’água
está oculto muito do que somos, mas não percebemos. Nem por isto deixa
de fazer parte de quem somos. As frustrações que negamos; as decepções
que sangram, mas fingimos ignorar; as revoltas que reprimimos sem
conseguir pacificar. Situações que tentamos aprisionar para que não
venham à tona, pois incomodam. No entanto, somos um todo. É uma ilusão
acharmos que temos um sótão para esconder os incômodos da alma para
sempre. Podemos nos esforçar para esquecer essa preciosa parte do ser,
mas ele nunca deixará de se manifestar, ainda que sorrateiramente, na
alteração de uma reação involuntária qualquer, ou em manifestações
incontroláveis de tristeza e agressividade.” Olhou o deserto ao longe e
disse: “Temos mais do inconsciente em nossas atitudes do que
imaginamos.”
“Não há como falar em expansão de consciência sem trazer o
inconsciente à tona, sem fazer com que ele se integre de maneira
equilibrada e harmoniosa ao consciente. É fundamental que o inconsciente
se manifeste em luz, acima da linha d’água. Afinal, o inconsciente não
guarda apenas problemas; lá também se oculta uma poderosa fonte de
soluções. A criatividade é um dos bons exemplos. Os artistas devem
agradecimentos sinceros ao inconsciente por suas obras”, lembrou.
“Toda expansão é uma viagem ao desconhecido. O inconsciente, à medida
que for compreendido, sem pressa nem atropelos, sem medo nem
preconceitos, porém com simplicidade e equilíbrio, nos protegerá e
iluminará, ampliando as possibilidades de ser e de viver.”
“O inconsciente é uma jornada muito além das fronteiras do atual
conhecimento científico.” Fez uma pausa e seguiu com a explicação. “Nele
trazemos os registros akáshicos, onde ficam guardadas as memórias de existências ancestrais, facilitando o entendimento dos carmas,
situações experienciais relativas ao aprendizado pessoal.” Interrompi
para dizer que aquilo não era medicina. Abdul explicou: “É
espiritualidade. A medicina sempre bebeu nesta fonte de águas claras,
que está muitos degraus acima. Como um rio cuja nascente está nas
montanhas, as águas da vida usam desse desnível para se movimentar rumo
aos mares da existência.”
Pedi para ele falar mais sobre o assunto. Abdul o fez com boa
vontade: “O consciente trabalha de maneira linear, como se o pensamento
fosse uma reta com começo, meio e fim. Bem diferente, o inconsciente
funciona de modo quântico. Por isto permite navegar tanto aquém da
memória desta existência, em mares ancestrais, como além da realidade
aparente, em oceanos futuros de imponderáveis curvaturas que ainda não
conseguimos explicar, como as premonições que, por ventura, ocorrem.
Saltos para trás e à frente, por vezes, simultaneamente. Sigmund Freud, o
neurologista austríaco, criador da psicanálise, em certa ocasião
admitiu que ‘o inconsciente é atemporal’.”
Declarei ao Abdul que as suas palavras me encantavam, contudo, me
enchiam de vontade em saber mais. Perguntei como eu podia a acessar o
inconsciente: “Meditação, oração ou terapia”, respondeu. Nesse momento
veio a ordem para a caravana parar. Era o momento do habitual descanso
diário. O médico pediu licença, pois precisava ver algumas pessoas que
não se sentiam bem. Prometeu que continuaríamos aquela conversa sobre o
inconsciente em uma próxima ocasião. Peguei o cantil e algumas tâmaras
secas; me afastei. Eu precisava pensar em tudo aquilo. Quanto dos meus
dias azedos não tinham ligação com o inconsciente que pedia por atenção?
O quanto das minhas reações agressivas ou as sensações de tristezas,
ambas aparentemente intempestivas e incontroláveis, nada mais eram do
que uma parte renegada de mim, por mim, querendo o seu justo quinhão em
minha vida e desejosa por mostrar o seu valor e utilidade? As ideias
criativas e geniais, além das boas soluções surgidas repentinamente,
teriam agora uma coautoria assumida?
Eu estava envolto em os meus pensamentos, quando percebi um andarilho
que se aproximava, solitário, ao longe. Parecia vir de lugar nenhum em
minha direção. Quando chegou bem perto, notei que não trazia bagagem;
nem mesmo um cantil, para o meu total espanto. Embora castigadas pelo
vento e pelo sol, as suas feições rudes mostravam uma certa beleza; uma
beleza melancólica. Ele me pediu um pouco de água. Estendi o cantil em
suas mãos. Foi um gole demorado, como quem há muito o desejava.
Ofereci-lhe um punhado de tâmaras. Ele pegou apenas uma. Fechou os olhos
ao colocá-la na boca. Saboreou a fruta com uma satisfação desconhecida
para mim. Aquela tâmara me pareceu bem mais do que uma tâmara.
Perguntei quem ele era. “Ninguém”, ele respondeu. Diante do meu olhar
atônito, complementou: “Mas posso ser quem você quiser”. Falei que ele
era estranho. Ele sorriu com timidez, como quem se reconhece em um
elogio involuntário e concordou: “Sim, Estranho é um bom nome.”
Eu quis saber aonde ele ia. “A lugar nenhum; a todos os lugares”,
falou. Deu de ombros e acrescentou: “Depende.” Falei não entender ao que
se referia. O Estranho se explicou, não menos enigmático: “Depende de
para onde o vento soprar.” Em seguida, prosseguiu: “Hoje o vento me
trouxe até você.” Perguntei o que ele queria comigo. O Estranho apenas
tornou a dar de ombros.
Ficamos algum tempo sem dizer palavra. Considerei levantar para me
juntar à caravana. No entanto, algo me manteve ali. O Estranho, de
alguma maneira, me trazia um fascínio que, naquele momento, embora
inegável, eu não conseguia explicar; embora alguns sentidos me
alertassem do perigo, outros me diziam para eu ficar. O Estranho apontou
para um conjunto de dunas não muito distante. Pareciam formar, entre
elas, uma espécie de corredor ou alameda. Ele me convidou a percorrer
com ele o que denominou “viés desconhecido do deserto”. Confessei o meu
receio. O estranho revelou: “São as entranhas do deserto. Não é sempre
que o deserto nos permite conhecer o seu âmago. Atravessar o deserto e
recusar esse convite é desprezar a melhor parte, o todo e a arte.”
O estranho se levantou e me deu a mão. Deixei-me conduzir. No início
eram apenas paredes de areia. Dobrávamos à esquerda e a direita de
maneira que me senti como em um labirinto. “Sim, é um exato labirinto”,
disse o estranho como se lesse o meu pensamento. Tornei a admitir que
sentia medo; confessei a vontade de sair. Ele explicou: “Temos que
prosseguir. O medo do que está à frente impede a cura do medo que ficou
atrás. É uma ilusão acreditar que a saída do labirinto está nas bordas.
Em verdade, a porta nos aguarda no miolo.”
A intuição de seguir foi mais forte do que o instinto de fugir. Aos
poucos, na medida dos passos dados, as paredes de areia começaram a
formar imagens, como se fossem gigantescas telas. Como em um filme
fantástico, repleto de efeitos especiais, os grãos de areia se mexiam
para formar personagens e cenas. Vi um garoto ser duramente repreendido
por tirar uma nota baixa em matemática. Fracasso e vergonha o dominaram.
Parei; aquela cena não me era desconhecida. Reconheci-me no garoto, no
seu sofrimento por se sentir incompreendido em sua dificuldade em lidar
com números e fórmulas. Naquele instante fiz uma óbvia conexão com a
minha aversão em conviver com novas tecnologias, como se a cada
necessidade em aprender a usar uma nova máquina fizesse arder em mim uma
ferida que eu nem mais lembrava. Ou, estranhamente, acreditava que não.
Vi um adolescente perdido diante da separação dos seus pais. Como se
sentiu desamparado por uma família que não conseguiu lhe ofereceu a
estrutura necessária para o orientar diante da vida adulta que se
avizinhava. E como isso o deixou inseguro e influenciaria, sem que
aquele jovem percebesse, todos os seus futuros relacionamentos afetivos.
Uma insegurança que deixou sequelas. Não era caso de distribuir culpas,
mas de procurar por tratamento e cura. Percebi algo de familiar
naquelas imagens. O quarto onde o adolescente chorava escondido era o
meu próprio quarto. Sim, eu era o adolescente do filme. Falei ao
Estranho que achava estranho em me ver ali, pois não lembrava de ter
sofrido na separação dos meus pais, então, uma situação bem resolvida na
minha cabeça. Em resposta, o Estranho me ofereceu um sorriso repleto de
compaixão.
Assustei-me ao ver uma cena violenta, como em um filme de época. Um
escravo, após ter assassinado a esposa do seu proprietário, ateou fogo
nas plantações da fazenda. Perseguido e capturado, foi açoitado até a
morte pelo viúvo inconsolável. Embora em corpos diferentes, algo em mim
me trazia a convicção de que se tratava de mim e do meu irmão. Vidas
entrelaçadas em uma existência no passado? Será que isso explicava a
animosidade que nutríamos um pelo outro desde o berço? Será que era uma
das batalhas que eu precisava pacificar através do amor? Olhei para o
Estranho. Ele abaixou os olhos em resposta.
Assisti a muitas outras imagens. A cada cena era a exigência por um
tratamento a sofrimentos que eu negava, oprimia ou recalcava. Porém que
me faziam reagir desmedidamente em agressividade ou tristeza, a depender
do momento. Eram situações pretéritas que ainda me impediam algumas
importantes transformações e, por consequência, atrasavam a minha
jornada evolutiva e a conquista das plenitudes. Percorrer o labirinto
era como a uma terapia de cura e de pacificação do ser. Vi refletido nos
olhos do Estranho a parte mais insólita do deserto; a parte da luz e da
vida não percebidas por mim. Em mim.
Tudo aquilo tinha me deixado esgotado. Falei que não conseguiria
prosseguir naqueles corredores de areia com as suas imagens estranhas e
terapêuticas a um só tempo. O Estranho apontou com o queixo uma porta.
Sem me dar conta, eu havia chegado ao âmago do labirinto. Ele disse:
“Atrás da porta está saída. Basta abrir e atravessar”. Com as minhas
últimas forças empurrei a porta. Ela estava fechada. Procurei pela
maçaneta, em vão. Não tinha maçaneta. Atônito, olhei para o Estranho em
busca de uma solução. Ele, sem pronunciar qualquer som, apenas
movimentou os lábios em palavras: “A senha”. De joelhos, abri os braços
em desespero, eu não sabia do que ele falava; ninguém tinha me fornecido
nenhuma senha. Ele apenas olhava para mim, como se na luz dos seus
olhos estivesse a resposta. O impasse demorou um tempo que não sei
precisar; tive a sensação de uma eternidade. Vi o mundo na luz dos seus
olhos; vi tristezas e alegrias; vi a infinitude da vida. Até que percebi
haver amor em seus olhos; muito amor. Sim, o amor é uma chave-mestra a
abrir todas as portas. Foi quando, “do nada”, uma ideia me ocorreu. Uma
ideia simples e genial. Olhei para a porta e pronunciei com todas as
letras, e de todo coração, que eu me perdoava assim como perdoava a todos que me tivessem ofendido.
A porta se abriu. Apaguei de cansaço.
Quando abri os olhos o céu estava salpicado de estrelas. Ao meu
redor, no acampamento iluminado por lamparinas e tochas, a caravana se
preparava para dormir. Abdul ajoelhado ao meu lado, apoiava a minha nuca
em suas mãos e me ofereceu um pouco de chá. Explicou que era medicinal.
Ele quis saber como eu estava. Respondi que sentia uma estranha leveza.
Perguntei pelo Estranho. O médico disse não saber a quem eu me referia.
Eu quis saber quem tinha me tirado dos corredores de areia. Abdul
sacudiu a cabeça e explicou que inexistiam corredores de areia: “Na
parada no meio do dia alguma coisa aconteceu que você ficou com febre
alta e entrou em transe. Você fez o resto do percurso de hoje como em
delírio, falando frases desconexas e estranhas”. Olhei para as estrelas.
Pedi desculpas pelo trabalho e agradeci os cuidados. Ele disse para eu
não me preocupar. O médico se mostrou sinceramente feliz por eu me
mostrar saudável. Agradeci também pela conversa que tivemos naquela
manhã, pois seria de enorme valia em minha vida. Abdul sorriu e se foi.
Sozinho, tornei a olhar às estrelas. Percebi alguém se aproximando.
Não, não era o Estranho, embora estranhamente, agora, ele me parecesse
íntimo e fosse bem-vindo. Era a mulher com olhos da cor de lápis-lazúli.
Ela sorriu ao me ver bem. Pela primeira vez fez um breve carinho em
meus cabelos. Depois, com a uma pequena harpa tocou uma melodia doce e
suave. Perguntei pelo Estranho. Ela explicou: “O Estranho sempre esteve
em você. No entanto, por distanciamento, era apenas um estranho. Não é
mais. Aproveite a sua companhia; é um importante aliado.” Perguntei se
ela se referia ao meu inconsciente. Ela sorriu e balançou a cabeça em
anuência. Em seguida, concluiu: “Este foi apenas um dos diferentes
encontros que cada um tem que ter consigo para que a travessia se
complete. Agora você conhece os corredores de areia, sabe onde está a
porta e como ela se abre. Outros encontros se farão necessários.” Sorri
em agradecimento pelo entendimento permitido. Ela finalizou: “Agradeça
ao deserto pela permissão. Um merecimento simples, porém de
incomensurável valor e poder.”
Voltou a tocar a sua harpa. Sem perceber, adormeci.
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