Quando o caravaneiro chegou com o falcão para o treino da manhã eu já
o aguardava. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e me cumprimentou
com um aceno de cabeça. Coloquei a grossa luva de couro e senti as
garras firmes da ave em volta do meu braço esquerdo. Em pensamento,
falei ao pássaro que apesar dos olhos privilegiados que possuía não
deveria se deixar guiar apenas por eles. Era preciso ver além da visão.
Retirei a touca da cabeça do animal e fiz o movimento de impulso. O
falcão alçou voou e logo ganhou o céu. No alto, planou em círculos por
longos minutos. Fiquei apreensivo por um mergulho vertiginoso na captura
de uma pequena presa. Olhei para o caravaneiro; ele estava impassível e
sereno como um padre em uma missa de domingo. Parecia ter tudo sobre
controle. O silêncio era quase absoluto; o ruído distante do acampamento
e o sopro de uma suave brisa compunham a cantiga daquela manhã. Pensei
em como algumas pessoas demonstravam enorme serenidade diante da
imprevisibilidade dos dias. Tudo pode acontecer; de bom e de ruim.
Naquele canto do deserto poderíamos ter um dia calmo de travessia, mas
sempre existia a possibilidade do imponderável. Um assalto por selvagens
tribos nômades que habitam no deserto; um ataque por grandes felinos,
como leões e leopardos, também comuns desde sempre na região; uma picada
de serpente ou de escorpião, animais que têm a areia e as pedras como
habitat natural; uma devastadora tempestade de areia; uma enorme
confusão entre os integrantes da caravana, um motim ou mesmo uma
epidemia de rápida disseminação. Entre outras possibilidades que nem ao
menos me ocorriam naquele momento. Entretanto, as suas feições eram como
se ele estivesse inalcançável a qualquer mal. Comentei isto e perguntei
a razão de tamanha serenidade. Sem tirar os olhos do falcão, o
caravaneiro foi monossilábico em sua resposta: “Fé.”
Ponderei que grande parte da humanidade, através das mais diversas
tradições religiosas, acredita em um poder superior que rege o universo,
porém, nem por isto, consegue manter a calma. Assim também acontece com
os eruditos, estudiosos de muitas vertentes filosóficas; conhecem as
letras, mas a ansiedade nascida da incerteza dos dias perdura. O receio
que alguma espécie de mal pudesse se avizinhar era causa endêmica de
crises de pânico, depressão e agressividade. Medo, pessimismo e
desesperança em diferentes escalas, a depender do indivíduo, pareciam
cada vez mais presentes a quase todas as pessoas. Eu conhecia
pouquíssima gente que conseguia se manter além dessa sensação sombria,
independente da classe social, nível cultural ou continente de moradia. O
caravaneiro, sem tirar os olhos do falcão, apenas me ouvia. Falei que,
apesar de ter lido muitos livros de filosofia e metafísica, além de
também acreditar em Deus, nem por isto deixava de me incomodar com a
mera possibilidade de vivenciar situações desagradáveis e tristes. Eu
não conseguia conviver com o imponderável ao ponto de me sentir
plenamente confortável com o dia de amanhã. Apesar, acrescentei, de
nunca, nem por um único momento, ter deixado de acreditar em Deus. Neste
instante o caravaneiro virou o rosto para mim e arqueou as
sobrancelhas. Em seu olhar não havia espanto nem indignação, porém o
sentimento de compaixão e paciência que temos quando nossos filhos dão
os primeiros passos ou, na infância terna, nos perguntam o significado
de todas as coisas que existem no mundo.
Contudo, não disse palavra. Os minutos se passaram até que o falcão
retornou para pousar na grossa luva de couro que eu usava no braço
esquerdo. Fiquei preocupado, pois tinha sido mais um dia que, sob o meu
comando, o falcão não conseguira nenhuma caça. O caravaneiro pareceu não
se alterar com o fato. Tínhamos que retornar ao acampamento, a caravana
não poderia tardar em partir. Em silêncio, passei o pássaro para o
caravaneiro. Antes de voltarmos ele disse: “Crença não significa fé. São
conceitos distintos.”
Como ter fé é diferente de acreditar em um poder divino? Fiquei
pensando nisso enquanto arrumava as minhas coisas no alforje e o
colocava sobre o camelo. Alinhei para a marcha. Naquele dia quem
emparelhou comigo foi um morador do oásis que retornava de um tratamento
de saúde que fora realizar em Marraquexe. Logo começamos a conversar.
Zayn era um homem simpático e estava alegre por faltar poucos dias para
reencontrar a sua esposa e seus filhos. Falou que o período de
internação no hospital tinha sido muito difícil, mas os médicos e as
enfermeiras que cuidaram dele eram muito dedicados. Falei que acreditava
terem sido dias de muita ansiedade e incerteza. Zayn explicou que
ninguém fica feliz por estar doente, todavia, não se sentiu triste nem
inseguro durante o tratamento. A fé manteve o seu ânimo em alta.
Acrescentou que isto tinha auxiliado muito na cura, além de tornar o
tratamento mais tranquilo. A fé ajudara a tornar mais suave o tempo que
passara no hospital. Contei uma breve história de uma pessoa que disse
ter sido visitada por Deus quando esteve internada. Perguntei se isto
tinha acontecido com ele. Zayn sacudiu a cabeça e explicou: “Não foi
necessária nenhuma visita. Deus mora em mim. Trago em mim uma parte
Dele. Estamos conectados por todo o tempo.” Aquela resposta me instigou.
Eu quis saber se ele temeu a morte e, por consequência, a situação na
qual ficaria a sua família. Zayn me ofereceu um olhar parecido com o do
caravaneiro mais cedo, como se tivesse que falar o óbvio e disse: “Faço o
meu melhor no dia de hoje. Do amanhã Ele cuida.”
Interrompi para dizer aquela frase me incomodava. Confessei que eu
tinha alguma dificuldade em aceitar que eu não era o artesão do meu
destino. Zayn me corrigiu: “Não falei isto. Sem dúvida que cada um molda
o próprio destino. A existência é o barro universal; a Lei da Ação e
Reação é a espátula cósmica. Este é o poder sagrado das escolhas. Terei o
amanhã na exata dimensão das minhas necessidades evolutivas.” Virou o
rosto em minha direção e disparou: “Não tenha dúvida, frequenatmos em
uma escola de excelência.”
Falei que as coisas não eram simples assim. Eu já tinha presenciado
muita desgraça. Assisti a vida de pessoas viradas ao avesso de uma hora
para outra. Tempestades existenciais varreram a alegria de muita gente
conhecida. Alguns nunca conseguiram se recuperar. Zayn ponderou: “Nunca é
um tempo que não existe para que o mal perdure”. Em seguida prosseguiu:
“Entenda que cada um tem as suas próprias lições; quem determina o
tempo de duração delas é o aluno. Aprendeu, segue em frente; não
entendeu, novas explicações da mesma lição. Aceite a sabedoria, a
justiça e o amor da vida, ainda que não seja capaz de compreender a
beleza daquele momento. Acredite, sempre há uma boa razão para todos os
acontecimentos. Não lamente, aproveite a oportunidade e cresça.” Falei
que entendia a profundidade das suas palavras, porém, me intrigava ver
pessoas boas passarem por sofrimentos inexplicáveis e imprevisíveis.
Zayn, embora enigmático, foi mais fundo no raciocínio: “A existência é
apenas um recorte. A vida é a imagem por inteiro.”
Ato seguinte, perguntou se eu tinha filhos. Falei que era abençoado
por ter duas filhas, já maiores de idade. Ele perguntou seu eu já as
tinha maltratado. Respondi que jamais me ocorrera absurda ideia. Eu
nunca tinha maltratado sequer um desconhecido, como imaginar em
maltratar pessoas que eu amava com toda a força do coração. Zayn disse:
“Não tenho a menor dúvida quanto às suas palavras. Contudo, você e eu,
apesar de amarmos profundamente nossos filhos, os educamos à medida da
sabedoria e firmeza necessárias para que cresçam nos trilhos da luz.
Negamos desejos insensatos, repreendemos nos erros, aconselhamos dentro
da ética, ensinamos as virtudes, envolvemos com amor. Mesmo assim há
situações de equívocos e de rebeldia por parte deles. Então, temos que
ser ainda mais firmes para que não restem deseducados pelas sombras que
são inerentes à humanidade. Esta firmeza, muitas vezes manifestadas em
forma de repreensão e de negativas, seria um ato de maldade ou de amor?
De descuido ou de cuidado?” Eu me mantive calado. Claro que, apesar do
rigor, era um ato de amor. Ele prosseguiu: “Situações que acontecem
todos os dias em lares do mundo habitados por pais amorosos. Pois é
preferível que sejam encaminhados com afeto de casa a serem moldados
pela aspereza do mundo. Por que imaginamos que o Pai Maior, com a sua
infinita capacidade de amar, enorme sabedoria e senso de justiça, faria
menos ou pior do que fazemos você e eu? Como todo bom pai, zeloso em
ensinar os seus bons valores e conceitos, Ele nos orienta à sua imagem e
semelhança. A cada dia é preciso ser mais parecido. Não no corpo, mas
nas ideias e no coração. Um pouco mais próximo a Sua imagem e semelhança
em nossa alma e nas escolhas de todos os dias.”
“Faça o seu melhor hoje; amanhã um pouco mais. No mais, sem demais, nada lhe será negado.”
Questionei se essa linha de raciocínio não induzia as pessoas a
negociar um futuro promissor. Zayn sorriu diante da minha malícia e
lamentou: “Apenas os tolos agem assim”. Olhou as areias sem fim por
breves instantes e tornou ao tom enigmático: “Não se negocia com o
deserto.”
Pedi para ele explicar melhor. Zayn foi generoso: “De nada serve
fazer o bem sem ser bom. Nenhum valor tem a caridade por interesse
grosseiro e sem amor. É a aparência em detrimento da essência. O Paraíso
não está disponível na prateleira de um mercado. O motivo é simples: o
céu está dentro de você. O passaporte para as Terras Altas é
confeccionado pelo próprio coração através das mãos que acodem, dos
braços que abraçam, dos lábios que consolam e beijam.”
Tornou a olhar o deserto e disse: “O deserto não aceita barganha nem
se deixa enganar. Consigo me enfeitar para você; diante do deserto, não
tenha dúvida, estarei sempre nu.” Fez uma pausa e disse como se falasse
consigo mesmo: “Todos os reis estão nus.” Virou-se para mim e ensinou:
“Ao deserto apenas importa assistir e auxiliar ao pequeno grão de trigo a
crescer até se transformar no pão que alimentará a humanidade em suas
ceias espirituais. Todo o resto não passa de retórica na vã tentativa de
ludibriar o deserto. Sem amor não se avança na travessia. Contudo, o
amor, apesar de ser uma virtude comum a todos, não é de fácil
compreensão quanto à sua extensão e poder. Apenas a fé permite a
percepção de toda a amplitude possível ao amor.”
Em seguida, concluiu: “Confundimos apego com amor; crença com fé. Por
isto nos sentimos desconfortáveis e desorientados com a impermanência
dos dias no deserto.”
Mais uma vez a questão da fé diferenciada da crença. Eu tinha muitas
perguntas para a fazer ao Zayn, porém veio a ordem para a habitual
parada para um ligeiro descanso no meio do dia. Zayn pediu licença, pois
tinha de encontrar com Abdul, o médico que seguia com a caravana para
atender as pessoas no oásis. Abdul o acompanhava clinicamente durante a
travessia. Peguei o meu cantil, um punhado nozes e me afastei para
pensar sobre a questão da fé. Foi quando vi o caravaneiro sozinho,
agachado e compenetrado sobre um objeto. Aproximei-me. Ao sentir a minha
presença, ele se virou e não fez qualquer objeção. Cheguei mais perto e
notei que ele mexia em um rádio. Sem que eu nada perguntasse, ele
comentou que como estávamos próximos ao oásis era de praxe fazer contato
através do rádio. Explicou que no oásis funcionava uma estação amadora
de rádio que transmitia música, notícias e orientava as caravanas que
passavam ao largo. Percebi que o caravaneiro enfrentava dificuldade em
sintonizar o seu rádio na frequência da estação do oásis. Ele se
mantinha sereno e afável. Aproveitei para indagar sobre o que havia na
fé e na crença que eu achava não ter entendido. O caravaneiro foi
generoso: “É muito comum as pessoas confundirem os conceitos de crença
com os da fé. A crença surge da percepção sensorial de um mundo
invisível que permeia e interfere no mundo visível. Em verdade, se trata
de um mesmo mundo, apenas em distintas dimensões, nem sempre accessível
à medida dos desejos, mas da necessidade e do aprimoramento.”
“Neste ponto a fé começa a se tornar tangível. A fé surge do
conhecimento e do exercício das virtudes, simples e complexas, todas
tendo o amor como raiz e fruto. Como o todo está contido na parte, a fé é
a virtude que move o poder do universo através de cada pessoa. Por isto
se diz que a fé faz o inacreditável.”
“A crença é uma percepção; a fé, uma construção. A crença é
sensorial; a fé, uma virtude. Todas as virtudes reunidas concedem o
poder da luz. A fé, sem dúvida, embora banalizada em discursos de
religiosidade superficial, é uma virtude profunda e nem sempre fácil
para se conquistar. Antes, o andarilho precisa sedimentar em si outras
virtudes para servirem de alicerces para fé. A fé é a ponte pela qual o
sagrado se manifesta em você.”
Eu falei que a explicação era boa, mas restava a sensação de que
ainda faltava algo a ser compreendido quanto à fé. O sentimento
traduzido em palavras simples para a plena captação do conceito. Afinal,
as palavras são cápsulas que trazem em si a clareza e o poder de uma
ideia.
Fui interrompido pela chiadeira do rádio que aumentou de volume. Como
se viesse a sugestão para eu me calar um pouco. Rimos. Ficamos alguns
instantes em silêncio enquanto o caravaneiro tentava encontrar as ondas
da estação do oásis. De repente, ele se virou me olhou com a aquela
expressão de quem é assaltado por uma ideia e disse: “Somos como um
rádio. As pilhas são a energia vital que nos anima durante a existência.
A crença é como ligar o rádio na expectativa de ouvir uma música. Sem
sintonizar em uma estação transmissora não ouviremos nenhuma melodia, o
rádio será apenas ruído. O sagrado é a estação transmissora. O amor é o
botão de frequência ou dial. A sintonia entre o rádio e a estação se chama fé.”
“Transmissor e receptor precisam estar em conexão pura, livre de
interferências indevidas para uma melhor comunicação. Um rádio fora de
frequência apenas faz barulho. Em sintonia, traz a música que transforma
a vida.”
Neste instante, não por acaso, o ruído cessou e uma doce melodia
árabe pode ser ouvida através do rádio. O caravaneiro tinha conseguido
alinhar o seu rádio à estação do oásis. Ele arqueou os lábios em leve
sorriso e sussurrou como quem conta um segredo: “A fé permite a música
que nos faz bailar na grande sinfonia cósmica.”
Em seguida o caravaneiro disse para eu me aprontar, pois estava na
hora da travessia prosseguir. Zayn emparelhou o seu camelo ao meu. Ele
falou que Abdul tinha verificado a sua pressão arterial e estava tudo
bem. Sorrimos. Seguimos um longo tempo em silêncio até que comentei que
eu tinha entendido a sofisticação da fé através da metáfora simples de
um rádio, uma linguagem disponível a qualquer pessoa todos os dias. Zayn
comentou: “Assim é o amor e a sabedoria. Através das coisas simples e
corriqueiras o deserto nos mostra a sua sofisticação e importância.”
No entanto o alertei que, embora tenha entendido o conceito da fé por
intermédio da figura do rádio, algo ainda restava incompreendido em
mim. Na prática, como usar a fé para me sintonizar com as ondas
cósmicas? Zayn se valeu da mesma metáfora para encerrar a lição: “Ligar o
rádio é o passo inicial. Mas isto não basta; você precisa sintonizar o
rádio para ouvir a música. A estação lança a música no ar para todos,
mas apenas uma antena ativada conseguirá captar as ondas da estação e,
por consequência, a música. Esta antena se chama coração. Para ouvir a
canção das estrelas tenho que despertar o amor em mim.”
Fez uma pausa e prosseguiu: “Preciso ativar a beleza em mim. Esta é a
frequência sem a qual não conseguirei sintonizar a beleza que existe em
você e no universo. A beleza a que me refiro é aquela plena em pureza e
em amor; eis a canção das estrelas, a música da vida. Se eu não ouvir
essa melodia a minha existência se esgotará nos bueiros dos dias ralos,
tristes e assustados. A música da vida traz consigo a poesia que
dissolve os medos e nos alegra; a serenidade diante das impermanências
inerentes ao cotidiano. Sem a fé não se ouve nenhuma melodia na rádio do
deserto; entretanto, com ela, tenho todo o poder e a força do deserto
em mim. Não temo a escuridão, sou a luz.”
Não se disse mais palavra até o final da marcha daquele dia. Não quis
jantar. Peguei o saco de dormir e fui dormir sozinho, distante do
acampamento. Deitei olhando para as estrelas, pensando em quantas
possibilidades de sintonia me eram possíveis para ouvir as suas canções.
Adormeci com uma inacreditável sensação de força e poder que poderiam
ser meus. Uma certeza inabalável.
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