A travessia entrava em sua reta final. Um mês se passara. Restavam
exatos dez dias para, no quadragésimo dia, chegarmos ao maior oásis do
deserto, onde eu pretendia conhecer um sábio dervixe, sabedor de “muitos
segredos entre o céu e a terra.” Tinham sido dias tensos e intensos;
dias atribulados, de muito aprendizado. Eram suficientes, pensei.
Desejei um atalho para chegar mais rápido ao destino desejado.
A festa da noite anterior não impediu a caravana de despertar antes
do sol subir à linha do horizonte. O acampamento foi desmontado e, sem
demora, todos estavam perfilados. Logo iniciamos a marcha. A manhã
estava agradável. Uma brisa suavizava o clima severo do deserto. Era
hora de começar a interiorizar todas as valiosas lições vividas naquelas
areias para que a travessia se justificasse. Caso conseguisse, eu me
tornaria um homem melhor, além de ficar mais preparado para o encontro
com o dervixe. Pensei em como seria bom ter alguns dias calmos para a
reflexão; de outro lado, considerei sobre esta desnecessidade. Tudo
aquilo vivido restava aprendido; os fatos se impunham como lições. Não
havia nada a acrescentar. Tornei a desejar, agora com mais intensidade,
que a última etapa da travessia fosse suprimida.
Foi quando um burburinho na caravana me chamou a atenção. As pessoas
apontavam para o céu. Um improvável balão sobrevoava o deserto. Seguimos
em frente. Depois de algum tempo ficou claro que o balão acompanhava a
caravana. Quando paramos no meio do dia para o habitual e breve
descanso, o balão, após algumas manobras circulares, aterrissou a pouca
distância de onde estávamos. Dois homens desembarcaram. Vestiam-se como
os antigos aviadores do início do século XX. Outra surpresa, eram
gêmeos. Aproximaram-se. Ofereceram curtos passeios no balão. Foram
cercados por muitos viajantes, a maioria curiosa pelo inusitado. Fizeram
muitas perguntas, todas respondidas pelos irmãos, sempre de maneira
educada. Os poucos que, de fato, tinham vontade de fazer o passeio,
desistiram ao saber do preço cobrado. Era caro. Afastado, eu observava o
movimento com interesse. Uma ideia me ocorreu. Ponderei que a caravana
estava repleta de peregrinos com o mesmo interesse de conhecer o sábio
do oásis. Se eu chegasse antes, maior seria a possibilidade de ele
aceitar me receber; mais tempo eu teria para conversar com o dervixe.
Aguardei o momento em que um dos gêmeos ficou sozinho para abordá-lo.
Sem expor as minhas reais intenções, falei que eu estava cansado da
travessia e desejava apressar a minha chegada ao oásis. Perguntei se me
levariam até lá e quanto me custaria. O homem me olhou profundamente por
alguns instantes e disse que antes teria de conversar com o irmão, pois
a proposta era bem diferente da apresentada por eles.
Retornou depois de poucos minutos acompanhado do irmão. Disseram se
chamar Dario e Mário. Eram quase iguais fisicamente. Mário era mais
calado; Dario, mais desinibido. Além disso, Mário usava um lenço
vermelho amarrado no pescoço; o de Dario era verde. Nada mais parecia
diferenciá-los. Dario disse que eles me levariam e propôs um valor igual
ao cobrado por um breve passeio aos demais viajantes da caravana.
Comparados os preços, me propunham um inegável bom negócio. Contudo,
estranhei e perguntei a razão da oferta. Ele explicou que o objetivo
deles era visitar um amigo que foi morar no oásis depois de casar com
uma moça de lá. Portanto, se eu fosse com eles, ainda que por um valor
menor, seria um bom negócio para todos. Eu quis saber quando
chegaríamos. Dario disse que naquela mesma noite; Mario lembrou que
dependeriam do vento nos ajudar, um fator do qual não tinham controle.
Dario falou que o vento soprava ao nosso favor e deveríamos partir logo
para não desperdiçar a oportunidade. Mario me atentou sobre o meu
camelo. Dario sugeriu que eu pedisse para um dos encarregados o levar
até o oásis. Argumentou que, inclusive, o animal seria útil para
distribuir melhor a carga levada pela caravana. Todos ficariam
satisfeitos. Falei que eu precisava pensar, pois era uma situação
inimaginável há poucos minutos. Dario disse que partiriam em instantes.
Eu tinha que me decidir.
Olhei para os lados em busca do caravaneiro ou da mulher com os olhos
da cor de lápis-lazúli. Eu precisava de um conselho; eu queria ouvir
uma opinião. Não os vi. Era a oportunidade de encurtar a viagem. Uma
travessia, embora rica de experiências, muito atribulada. Eu estava
esgotado do deserto. Lembrei de como eu desejara aquela situação pela
manhã. Tudo parecia se encaixar. O preço era bom, a chance de encontrar
com o dervixe cresceria bastante. O camelo ainda ajudaria a distribuir a
carga da caravana. Era o universo conspirando a favor. Tornei a
procurar o caravaneiro e a mulher de olhos azuis. Pareciam ter
desaparecido. Eu teria que decidir sozinho. Os sinais apontavam para uma
inegável direção. Contudo, algo dentro de mim dizia para eu não aceitar
a oferta. De outro lado, eu não podia deixar que o medo me impedisse.
Eu ainda estava inseguro quanto a qual decisão tomar quando o Dario
avisou que partiriam naquele momento. O tempo para me decidir tinha
encerrado. Ele me questionou, com inegável sarcasmo, se eu aproveitaria a
oportunidade única de voar sobre o deserto ou “seguiria na areia com a
manada”. Tive vergonha de parecer um tolo e de me arrepender se
recusasse a oferta.
Sem demora, tomei as providências sobre o camelo. Deixei acertado que
eu o pegaria no oásis. Embarquei no balão. Quando estava a poucos
metros do solo, vi o caravaneiro e a mulher de olhos azuis. Eles me
olhavam. De maneira que eu mesmo não entendi naquele instante, por algum
motivo me senti envergonhado e desviei o olhar.
Em pouco tempo já tínhamos alcançado uma considerável altura. A
sensação de voar era inebriante e eu me senti poderoso. No entanto, algo
em mim estava desconfortável. A sensação externa de euforia não
combinava com o sentimento interno de equívoco. Ego e alma pareciam
desencaixados. Pensei no fato de estar abdicando da travessia e das
eventuais lições inerentes a ela. Procurei afastar o pensamento. Disse
para mim mesmo que eu não podia deixar o medo atrapalhar a minha vida.
Já havia aprendido muito naqueles dias de caravana. Bastavam.
A primeira hora de voo foi fantástica. Eu voava enquanto os demais
homens andavam pelas areias. Uma inegável vantagem. Superioridade e
poder. Considerei que eu era merecedor de tamanha condição; regozijei-me
por ter sido o escolhido das Terras Altas. Quando finalmente senti a
convicção de ter tomado a decisão correta, respirei fundo de satisfação.
Então, o vento mudou.
Percebi, pela posição do sol, que navegávamos em sentido oposto.
Falei que estávamos nos afastando do oásis. Mário explicou que as
possibilidades de manobras com o balão eram limitadas. O vento era
determinante para manter o plano voo e nos permitir seguir na rota
pretendida. Os irmãos pouco podiam fazer. Dario alegou que naquela
região o vento mudava a todo momento, logo tornaria a nos colocar no
rumo certo. À medida que o tempo passava a tensão crescia. Desisti de
qualquer comentário quando os irmãos começaram a discutir. Falavam em um
idioma desconhecido para mim. Eu apenas olhava para o céu e rezava para
os Céus não me abandonarem.
Passado mais algum tempo, o vento desmanchou a minha euforia inicial e
a tensão se transformou em medo. Os irmãos não mais discutiam, apenas
trocavam palavras, embora eu não as entendesse, percebia que não eram
animadoras. A tarde avançava e a noite não demoraria. Falei isto para
eles. Mário e Dario apenas se olharam. O balão começou a perder altura.
Eles manobravam para isto. Até que pousamos na areia. Eu não tinha
dúvidas, aquilo era prenúncio de uma notícia ruim. Mário disse que eu
devia desembarcar. Perguntei se apenas eu desceria do balão. Dario
confirmou a minha suspeita. Explicou que o vento estava traiçoeiro e
imprevisível, o que limitava as manobras e tornava o voo perigoso.
Precisavam ficar mais leves para navegar com mais segurança. Tinham
tomado a decisão para o meu bem; queriam me preservar. Não vi motivo
para agradecer. Dario explicou que com menos peso teriam melhores
condição para manobrar. Pedi para que um deles ficasse comigo. Mário
disse que não, pois precisavam de dois para pilotar o balão até o oásis.
Então, pediriam para que viessem me resgatar. Que eu não me apavorasse,
pois era um fato corriqueiro. Argumentei que ficasse um deles ali; como
passageiro eu teria prioridade para seguir a viagem no balão. Mário
ponderou que as condições de voo estavam bem complicadas e eu nada
conhecia sobre como dirigir balões. Eu mais atrapalharia do que
ajudaria. Juntos, os irmãos teriam mais chances. Insistiram para que eu
mantivesse a calma. Prometeram que não me abandonariam. Ameacei não
descer do balão. Mário jogou a minha mochila com roupas, pertences,
cantil e documentos na areia. Temei em não descer. Dario me mostrou o
coldre de um revólver sob o casaco. Pediu para eu não complicar. A
prudência foi maior do que a raiva. Desci.
Como um tolo, pedi o dinheiro que tinha pago por uma viagem
cancelada. Dario disse que eles não tinham culpa se o vento não
colaborara. Irritado, gritei que o argumento era absurdo. Mário lembrou
que o dinheiro seria usado para pagar o meu resgate. Assim, a viagem se
completaria. Partiram. Fiquei olhando o balão até sumir ao longe. A
raiva voltou com intensidade, apenas amansada por eu me sentir um
idiota.
O sol ainda me daria algumas horas de dia claro. Eu precisava pensar.
Para tanto, era necessário me acalmar para que as ideias fluíssem com
sensatez. Sentei na areia. O primeiro pensamento foi que eu estava
sentado onde há poucos minutos me orgulhava por sobrevoar. Sorri com
amargura da lição de abertura. Deixei que a respiração normalizasse. Fiz
uma prece sentida por luz e proteção; eu sabia que precisaria muito de
ambas. Eu não acreditava no resgate prometido pelos irmãos. Um pouco
mais calmo, ponderei que, embora tivesse uma noção para qual direção
seguir, tendo o sol como referência, seria insensato sair dali, ao menos
naquele momento. As razões eram algumas. Poucos graus de diferença na
direção poderiam me distanciar ao invés de me aproximar do destino. Um
cantil de água me daria sobrevida por dois, talvez três dias, se parado;
me restaria um dia, no máximo, andando no calor inclemente do deserto.
De outro lado, ficar parado na expectativa que algo de bom acontecesse,
dava a sensação de ter desistido da luta pela vida. Algo inadmissível
para mim. Como a noite não demoraria, decidi ficar ali até o amanhecer
do dia seguinte. Então, decidiria se esperaria ou seguiria na tentativa
de encontrar alguma ajuda ou, ainda, alcançar a caravana, uma vez que
estaríamos na mesma rota rumo ao oásis.
Recostei-me em uma enorme pedra e comecei a meditar. Era a hora de
usar o conhecimento adquirido para que houvesse fundamento em sua busca.
Para começar eu precisava me esvaziar do medo e dos condicionamentos de
impotência diante dos infortúnios da existência. É preciso encolher
antes de expandir. Era necessário abrir espaço para as novas ideias, a
criatividade, o inusitado e, principalmente, para virtudes se
manifestarem; isto me traria leveza e força. Humildade, prudência,
firmeza, coragem e fé. A meditação me ajudaria também a sincronizar o
meu coração com o coração do deserto, para que batessem em um mesmo
ritmo, como um só coração. Assim, eu me tornaria parte do deserto; o seu
poder fluiria através de mim.
Enquanto eu meditava, era inevitável que me viesse a mente os
episódios e as escolhas daquele dia. Pela manhã, havia o desejo em
suprimir a parte final da travessia na arrogância de que eu já sabia
tudo. Também influenciou o condicionamento sociocultural por atalhos,
sempre na tentativa de evitar o indispensável esforço pelo verdadeiro
crescimento. Além do vício por vantagens e privilégios. De como o ego,
quando ainda nos primórdios da jornada cósmica, se encanta por tais
truques e se deixa envolver pelas sombras. Não as sombras do mundo,
porém as suas próprias sombras. Egoísmo, orgulho, comodismo e medo eram
as principais naquele dia. Em um primeiro momento tentei afastar esses
pensamentos para pensar em possíveis soluções para a difícil situação na
qual eu me encontrava. Contudo, lembrei de ter aprendido que as feridas
são as portas abertas por onde a luz entra, cura e revitaliza o ser.
Evidentemente, se eu assim permitir. Ou continuarão apenas como fontes
turvas de negação, recalque, amargura e sofrimento.
Abracei os fatos para analisá-los pelo viés da luz. Para tanto, era
necessário ser justo. Sem dúvida que os irmãos não tinham sido honestos
comigo pela falta de clareza diante de todas as possibilidades do voo.
Todavia, pouco importava. Em verdade, o importante era resolver o
problema comigo mesmo. Isto é digno e libertador. Para tanto,
sinceridade é fundamental. O ego tinha que confessar à alma as suas
verdadeiras intenções, seja quanto às vantagens indevidas, seja em
relação aos desejos insensatos. Então, haveria uma chance para luz.
Ah, os desejos! Malditos desejos, pensei. “O problema não são os
desejos, mas os desequilíbrios pessoais que transfiro aos meus desejos”,
uma voz soou dentro de mim. Sim, eu conversava comigo mesmo. Não, não
era loucura. Era a sensatez de colocar as minhas metades para um diálogo
franco. Ego e alma precisam se alinhar. O ego, quando ainda na infância
da vida, se move orientado pelos enganos das sombras. No fundo, as
sombras são mecanismos de proteção ao avesso. Elas concedem a ilusão de
poder para que não percebamos o quanto somos frágeis. Nascem do medo e
da ignorância. O que são o orgulho, a vaidade, a ganância, o ciúme, a
agressividade? Não passam de grossas cortinas para que ninguém descubra,
em verdade, quem somos. Nem mesmo nós.
“A alma traz em si toda a luz do mundo”. Toda? “Sim, absolutamente”.
Peguei um punhado de areia e deixei escorrer por entre os dedos. O grão é
parte do deserto; logo, ele traz o deserto em si. Como parte do todo
temos o todo em nós. Por isto os sábios ensinam que cada um tem dentro
de si as respostas para todas as perguntas; basta aprender como as
encontrar. Se é verdade, me questionei, por que fazemos tantas escolhas
equivocadas? Como temos tamanho poder se em diversas situações nos
sentimos impotentes? Qual a razão de tanta luz se muitas vezes tudo
parece escuro e nos vemos diante de um vazio abismal?
“Temos a luz em nosso DNA. Contudo, essa luz precisa ser acesa; esse
poder, adormecido na alma, necessita despertar. Depois, aprimorá-lo
todos os dias para que ilumine cada vez com maior intensidade. Este é
fogo da criação em primeiro plano; o fogo da transmutação em estágio
intermediário; o fogo da evolução em essência final.”
Voltei aos desejos e o motivo de tanto cairmos em função deles. Eu
estava abandonado no deserto em razão dos meus desejos. Os problemas são
os desejos ou serão os sentimentos, ideias e intenções que estão
encapsulados neles?
Oculto em cada desejo existe a vontade de me integrar ao mundo ou de
possuí-lo? Ser com ele ou me sentir dono dele? Virtudes ou sombras,
quais os elementos que constroem os meus desejos? Os tão desejados bens
econômicos são objetivos finais ou simples consequências da existência?
Os maiores desejos se concentram em conquistas abstratas ou materiais?
Qual delas me é verdadeiramente tangível?
Perguntas, perguntas e mais perguntas. É preciso sempre buscar a
pergunta certa. Somente a pergunta certa me levará à melhor resposta. A
cada resposta um pedaço de mim. Aquelas eram as perguntas que me
ajudavam a entender aonde cada desejo me levou ou, se preferir, deixou
de me levar. Desejos definem destinos; explicam muito sobre quem sou. E
quanto ainda me falta ser.
Desejos são fantásticos motores da existência. Impulsionam para o bem
ou para mal. O comando é pessoal e intransferível. A responsabilidade
também.
Não há viagem maior nem mais bela do que aquela feita através do
conhecimento sobre si próprio; o voo em busca da plenitude. Anoiteceu.
Embora sozinho no meio do deserto, eu não me sentia abandonado. Aos
poucos eu me tornava uma boa companhia para mim mesmo. Ego e alma
entravam em comunhão; encontravam harmonia em seus propósitos de vida e
sintonia de desejos. Percebi que o problema não eram os desejos, mas a
qualidade deles. Os desejos estão no campo das intenções. As intenções
alimentam os desejos, seja pelo poder das virtudes já sedimentadas, seja
pela força das sombras ainda dominantes. Assim os meus desejos me
oferecem uma perfeita fotografia da minha vida.
Ficou triste na foto? Troque os desejos.
Desejos nada são além de escolhas. A diferença é que os desejos se
caracterizam por escolhas sobrecarregadas pelas emoções densas de um ego
desequilibrado. Porém, com amor e sabedoria, podem aprender a levar a
bagagem leve de um espírito livre.
Eu estava ali porque eu tinha escolhido estar ali. Entrei no balão
por vontade própria e desejos obscuros. Era preciso ser sincero comigo
se eu quisesse avançar. Transferir a responsabilidade aos irmãos criaria
um empecilho, pois me deixaria aprisionado à vida deles. A consciência
da responsabilidade por minhas escolhas me conduz a maturidade do ser.
Com a maturidade vem a integralidade. Em seguida, as plenitudes. Uma
estranha e agradável serenidade permeou todo o meu corpo. Não quis
pensar sobre em quão difícil seria o dia seguinte. Quando acordasse
teria tempo para isso. Queria aproveitar aquela noite em total
integração com o deserto. Ele tinha me ensinado muito sobre mim; eu
estava agradecido a ele.
Deite-me na areia. Fiquei observando beleza do céu salpicado de
estrelas. Quando estava quase adormecendo tive a sensação de que uma
delas se movia. Cocei os olhos por achar que era reflexo do cansaço.
Fixei o olhar e notei a sua aproximação. Parecia vir ao meu encontro.
Quando chegou bem perto, uma surpresa. Repleto de lanternas, o balão
manobrava para aterrissar. Tive dificuldades para acreditar nos meus
olhos. Mário desceu e disse para eu embarcar. Pediu para eu me apressar,
pois tinham que aproveitar o vento favorável. Dario me cumprimentou com
um movimento de cabeça. Levantamos voo. Confessei que considerava uma
opção improvável a volta deles para me resgatar. Dario deu de ombros;
disse que por ele, não voltariam. Porém, algo de novo deveria ter
acontecido, pois o deserto assim tinha ordenado. Diante das minhas
feições atônitas, Mário explicou que como eles viajavam com a permissão
do deserto, ficavam sujeitos às suas ordens. A princípio uma conversa de
loucos, mas naquele dia fez todo o sentido para mim.
Passados alguns momentos, vi um acampamento com inúmeras lamparinas e
tochas acesas. Era a caravana. Pedi para que eles me deixassem ali.
Mário ponderou que seguiam para o oásis, meu local de destino. Falou que
era insensato. Insisti em ficar com a caravana para completar a
travessia através das areias do deserto. Poucas decisões eram mais
sensatas do que aquela. Expliquei que no deserto não há atalhos; que no
Caminho apenas se voa com as próprias asas.
Desembarquei. Agradeci a viagem e os vi tornar a subir pelos ares. A
caravana dormia, apenas os encarregados pela segurança estavam de
sentinelas. Quando entrei no acampamento vi o caravaneiro na ponta
oposta, em cima de uma pequena duna. Ele estava de pé, com os braços
cruzados, como um guardião iluminado pelas estrelas. O seu olhar sério
estava fixo em mim. Fiz um gesto pedindo permissão para entrar. Ele
balançou a cabeça em anuência. Não tenho certeza, mas acho que vi os
seus lábios se arquearam em discreto sorriso. Peguei o saco de dormir e
fui deitar a céu aberto. Olhei para a noite do deserto e agradeci pelo
voo daquele dia. O voo do corpo e da alma.
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