Como todo aprendiz dedicado, eu já aguardava o caravaneiro quando ele
chegou com o falcão para o treinamento matinal. Era muito cedo, o
acampamento despertava. Ter sido convidado para aprender a arte da
falcoaria muito me animava. Contudo, era preciso honrar o convite; em
dois dias, sob o meu comando, o falcão voltara sem nenhuma presa. Isto
me preocupava. Vesti a grossa luva de couro, presente do caravaneiro, e
recebi o pássaro. Senti a força das garras do pássaro de rapina no meu
braço esquerdo. Avaliei o quão difícil seria para um animal de pequeno
porte escapar daquele predador. Conforme o caravaneiro tinha me
ensinado, e demonstrado, me aproximei do falcão para transmitir em
pensamento as orientações para a caçada daquele dia. Sem dizer palavra,
falei para ele ver além dos olhos para que pudesse encontrar as presas
escondidas além das aparências do deserto. Retirei a touca que cobria a
cabeça da ave; ela manteve o olhar fixo para frente. Em seguida, a
impulsionei com o braço. O falcão ganhou os céus. Planou em círculos por
longos minutos; momentos de muita ansiedade para mim e absoluta
serenidade para o caravaneiro. Quando retornou ao meu braço não trazia
nenhuma caça. Mais uma vez. Aguardei algum comentário do caravaneiro,
mas ele nada disse a respeito. Apenas falou para retornamos ao
acampamento, pois estava na hora de arrumarmos as nossas coisas para a
caravana seguir para mais um dia da travessia. Comentei que estava
chateado com o fato de o falcão ainda não ter tido sucesso em nenhuma
caçada sob o meu comando. O caravaneiro disse: “Você está preocupado com
a glória do caçador, por consequência, a sua. Esta é a razão do falcão
não encontrar nada.” Fez uma pausa antes de explicar, ao seu estilo, de
modo enigmático: “Esqueça a caça e se concentre em viver o mecanismo da
busca. Então, toda a procura irá se revelar. O troféu não é a presa, mas
o perfeito voo.”
Andávamos lado a lado, já bem próximos ao acampamento, eu estava para
comentar que não via a mulher com olhos da cor de lápis-lazúli há dois
dias, quando notamos uma enorme confusão. Liderados por Omar e Jamil, um
pequeno grupo formado por alguns encarregados amotinados mantinha sob a
mira de armas os outros encarregados, além dos demais viajantes da
caravana. Eles ameaçavam matar sumariamente quem os desobedecesse. Omar e
Jamil tinham personalidades distintas. Enquanto Omar era calado e
carrancudo, Jamil era falante e popular. Omar nos apontou o rifle quando
nos aproximamos. Foi Jamil quem fez a ameaça verbal. Disse que se
houvesse reação teríamos uma tragédia. Acrescentou que estavam
insatisfeitos com o comando do caravaneiro, pela divisão dos lucros
provenientes da caravana. O caravaneiro, sem demonstrar qualquer
resquício de nervosismo e nenhuma pressa, passou o falcão para mim.
Somente depois se manifestou. A sua voz era clara, mansa e sem medo:
“Todas as condições foram expostas antes de a caravana partir. Ofereci o
que considero justo. Ninguém foi obrigado a aceitar ou a vir. Quem o
fez deve honrar o compromisso ou tem a opção de se desligar dos serviços
da caravana. Pode retornar, seguir para o oásis, não mais como
encarregado, mas na condição de viajante ou, ainda, partir para onde
desejar.” Fez uma breve pausa para prosseguir: “Ninguém precisa fazer
aquilo que não concorda. Apenas não pode, através da violência, obrigar
os outros a fazer o que não querem ou subtrair os seus pertences.”
Jamil disse que os encarregados se sentiam explorados e maltratados.
Aquela era a revolta dos oprimidos, bradou. O caravaneiro ponderou: “As
condições do deserto são muito inóspitas; a travessia pode se frustrar a
qualquer erro. Cabe a mim manter a ordem e a harmonia na caravana.
Estamos a três dias de chegar ao oásis. Lá encontraremos um tribunal com
magistrados afeitos às leis do deserto. Os insatisfeitos podem propor
as reparações que considerarem devidas. No entanto, eu os alerto, pelas
leis do deserto todo caravaneiro tem direito absoluto sobre a caravana;
as dificuldades encontradas no deserto exigem firmeza sob o risco de a
travessia não se completar. Em contrapartida, todo caravaneiro tem o
compromisso de oferecer a própria vida para levá-la em segurança até o
destino. Assim são as leis do deserto. Todos aqui foram avisados das
regras antes de a caravana partir.” Olhou nos olhos de cada rebelde e
sibilou: “Isso não é uma insurreição. Em verdade, não passa de coação e
um roubo vulgar.”
O caravaneiro avisou a eles que o tribunal do deserto seria
implacável quando chegássemos ao oásis. Todavia, concederia o perdão se
desistissem espontaneamente do crime que cometiam. O circunspecto Omar,
que se mantivera calado, tomou a frente para dizer que era tarde demais
para o arrependimento. Acrescentou que não eram ingênuos a ponto de se
dirigirem para o oásis, onde sabiam que encontrariam olhares de censura.
Mudariam de rumo em sentido a uma aldeia tuaregue a menos de um dia de
marcha. O líder dos aldeões aguardava a caravana. Lá, sim, todos seriam
julgados. O caravaneiro arqueou os lábios em leve sorriso, como se já
esperasse a malícia de Omar e disse: “Um julgamento, para ter a
dignidade de assim se denominar, pressupõe uma análise honesta dos
fatos, uma defesa ampla em possibilidades e uma decisão descompromissada
de quaisquer interesses alheios à verdadeira justiça. Caso contrário,
nessa aldeia encontraremos somente a divisão do butim e a retórica
tortuosa para justificar os lucros da pilhagem.”
O caravaneiro não opôs reação quando as suas mãos foram amarradas.
Omar tentou seguir no cavalo branco do caravaneiro, no entanto, o
animal, aparentemente dócil, não permitiu outra montaria. Vigiado de
perto pelo mal-humorado Omar, o caravaneiro seguiu a pé, ao lado do
cavalo e dos demais encarregados leais a ele. Jamil garantiu a todos da
caravana que, se não criassem problemas, seriam liberados após o
julgamento na aldeia. Nada falou sobre a destinação dos seus bens e
pertences. Os encarregados rebeldes seguiram ao lado da caravana com as
suas armas apontadas de modo ameaçador para os demais viajantes montados
em seus camelos. Eu fiz questão de ir junto ao caravaneiro, embora
Jamil dissesse que não era necessário. Insisti. Eles riram, porém,
permitiram. Segui a pé, embora desamarrado nas mãos. Na avaliação deles
eu não oferecia perigo. O caravaneiro sorriu com os olhos para mim. Em
suas feições não se encontrava um único traço de ódio, apenas serenidade
e atenção. Passado algum tempo que andávamos, comentei com ele que me
surpreendia com tamanha tranquilidade. O caravaneiro disse: “Não tenho
controle sobre as tempestades do mundo, mas tenho total domínio para que
elas não alcancem o meu coração.” Fez uma pausa e acrescentou: “No
mais, o momento envolve muito perigo e atenção. Preciso da mente clara
para as decisões exatas em tempo e conteúdo, sem as interferências
sombrias de um coração afogado em ódio.”
Assim como quase todos na caravana, eu estava com medo. Eu percebia
medo até mesmo nos homens insurgentes e armados. Perguntei se o
caravaneiro não sentia nem mesmo uma ponta de medo. Ele disse com
sincera humildade: “A hora do medo passou. O momento é de coragem,
esperança e fé.”
Ele tinha razão. Para isso servem as virtudes. Qualquer aprendizado
apenas faz sentido se aplicado às situações do cotidiano; o conhecimento
precisa de exercício para se transformar em sabedoria. Estamos
condicionados a sentir medo diante das dificuldades que se apresentam.
Contudo, o medo, por se tratar de uma sombra, é um fator ocultador das
virtudes, das boas ideias e melhores escolhas. O medo ofusca a
manifestação da luz. Diante disto, me esforcei para dominar as minhas
emoções nos trilhos das palavras do caravaneiro. Aos poucos também me
acalmei, comecei a raciocinar melhor e a percepção se mostrou mais
apurada. Foi quando me dei conta de que eu não tinha visto a bela mulher
de olhos da cor de lápis-lazúli. Vasculhei com os olhos por toda a
caravana sem o menor sinal dela. Perguntei ao caravaneiro se ele a tinha
visto. Ele apenas sacudiu a cabeça em negativa. Por uma fração de
segundo, achei que a vira montada em seu vigoroso cavalo negro, o Vento,
observando a caravana no alto de uma duna distante. Forcei os olhos,
não havia nada. Considerei que não passara de uma miragem típica do
deserto.
Seguimos por mais algumas horas. A habitual parada no meio do dia foi
desautorizada por Omar, embora Jamil a desejasse. O insurgente
carrancudo insistiu em apressar a chegada até a aldeia. Houve uma breve
discussão; a vontade de Omar em seguir parecia que prevaleceria, quando o
caravaneiro se intrometeu para dizer que era preciso parar. Ponderou
que na caravana havia pessoas mais velhas e outras que não estavam bem
de saúde. A parada seria providencial. Omar argumentou que por vários
dias a caravana seguiu direto sem qualquer descanso. O caravaneiro, com a
fala pausada e tranquila, explicou que aquele não era um dia comum. A
tensão corrói a resistência física, explicou. Omar tornou a negar. O
caravaneiro disse que não daria mais um passo. Sentou-se na areia.
Diante do espanto geral, um gesto de rebeldia dentro da insurreição.
Omar apontou a espingarda para a cabeça do caravaneiro. O ameaçou de
morte se ele não se levantasse de imediato. O caravaneiro apenas o olhou
profundamente nos olhos. Não disse palavra nem se levantou. Neste
instante, tomado por uma estranha calma, proveniente de uma convicção
profunda eivada no âmago da minha alma, também me sentei. Em seguida, os
encarregados leais ao caravaneiro também se sentaram, mesmo com as
ameaças escalando tons. Um a um, todos os demais viajantes se acomodaram
pelas areias do deserto. De pé apenas os insurgentes diante daqueles
que se insurgiam face a insurreição inicial.
Jamil ameaçou matar a todos caso continuassem a desobedecer. Ele
estava visivelmente descontrolado. Ninguém se manifestou. Jamil estava
frente a um impasse. Para valer a sua autoridade teria que tomar uma
atitude que demonstrasse, de forma inequívoca, o seu poder. No entanto,
assassinar toda a caravana no meio do deserto seria uma atitude tão
extrema que, em verdade, mostraria a sua fraqueza e inabilidade em lidar
com a situação. Jamil sabia que restaria desmoralizado perante a aldeia
de tuaregues da qual dependiam de apoio. Liderança e autoridade são
conceitos distintos. A liderança brota do bom exemplo; a autoridade
surge em razão da lei ou da força bruta. O caravaneiro era um líder por
causa das leis do deserto, mas também pela admiração que as suas
atitudes geraram perante a caravana; Omar e Jamil não passavam de
pessoas autoritárias que se impunham diante do pavor que provocavam.
Contudo, a violência, à régua da exacerbação, demonstra sempre
descontrole, medo e ignorância. Com a resiliência à medida da ética
pessoal, todos, sem exceção, têm um código de conduta no qual
estabelecem limite ao mal. Com os tuaregues não era diferente;
dificilmente compactuariam com um extermínio insensato envolvendo
pessoas comuns e indefesas. O deserto era um solo sagrado para esse
povo. No entanto, diante de um desatino qualquer, o risco que corríamos
era enorme e todos estavam cientes disto. Alguns, no entanto, percebiam
algo além; sabiam estar na fronteira entre a tragédia e a redenção.
Fez-se um silêncio, ao mesmo tempo, abismal e celestial; de sepulcro e
de vida em botão. Instantes que pareceram demorar uma eternidade. Os
próximos movimentos definiriam as sombras ou a luz daquele dia.
Foi quando Kalil, o bom homem do chá, uma pessoa sábia com quem eu
tinha aprendido muito sobre a alma do mundo, além do valor da
simplicidade e da humildade, se levantou, disse que iria colocar algumas
ervas em infusão e perguntou se alguém estava servido. Diante da tensão
e do inusitado, todos riram. Menos Jamil e, principalmente, Omar. Este,
irritado, pegou o homem do chá pelo braço, encostou a arma na sua
cabeça e ameaçou que o mataria se todos não se levantassem de imediato e
reiniciassem a marcha. Disse, ainda, que mataria um por vez até que
fosse obedecido. Ninguém se levantou, exceto o caravaneiro. Não para
obedecer a ordem de Omar, porém para aconselhar: “Cortar a cabeça é o
modo mais eficaz para se matar um animal. Mate a mim e terá todo o corpo
da caravana à disposição.”
Omar ficou atônito. Ele não tinha se programado para aquelas reações.
Em sua cabeça o roteiro daquele dia teria de narrar uma história bem
diferente, uma narrativa na qual o horror imporia a submissão. Tudo
parecia fora de controle. Mais por instinto do que por raciocínio, Omar
empurrou o homem do chá para o chão, apontou a arma para o caravaneiro e
mandou que se aproximasse. Este, em resposta, foi monossilábico e
desafiador: “Não.” Ele não faria qualquer movimento para facilitar o
trabalho do carrasco; era ousadia, coragem e fé, jamais um suicídio.
Um tiro.
O barulho me fez fechar os olhos. Ouvi alguns gritos de susto e
pavor. Quando reabri os olhos me surpreendi com as feições de surpresa
no rosto de Omar. Virei-me para a direção aonde o seu olhar assustado se
dirigia. Então, entendi. O tiro não tinha saído da arma de Omar nem de
ninguém da caravana. Tinha sido um tiro dado para o alto, disparado pelo
líder dos tuaregues de cima de uma duna não muito distante. Ladeado por
seu bando, ele se aproximou.
Como o inesperado não se cansava de se fazer presente naquele dia,
cavalgando altiva com o seu vigoroso cavalo negro por entre o bando,
estava ela. Sim, a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Omar
e Jamil se mostraram servis diante de Ali, o chefe tuaregue. Jamil, de
pronto, ofereceu a sua versão dos fatos. Falou que o caravaneiro era um
homem impiedoso e injusto. Era também insensível e explorava a todos na
caravana, cobrando valores abusivos pela travessia. Como se não
bastasse, extorquia os encarregados, os remunerando com um salário
miserável. Ali era um homem de poucas palavras, mas a situação parecia
inspiradora. Ele disse: “Essa foi a história que Omar me contou quando,
há meses, me procurou pedindo por apoio para interceptar a caravana. No
entanto, não é isto que vejo. Tampouco esta é a história que essa mulher
me contou” e apontou para a mulher de olhos azuis. O chefe tuaregue
prosseguiu: “Omar também não me falou que o caravaneiro em questão era
este.” Com o queixo apontou para o homem sereno que estava de pé, com as
mãos amarradas, ao meu lado. Ali continuou: “Eu o conheço. Esse
caravaneiro é um homem de lei. Ele segue as leis do deserto.
Leis que o povo tuaregue também está sujeito, assim como todo ser vivo
que habita ou atravessa essas areias desde tempos imemoriais.”
“Somos selvagens porque não nos submetemos a ninguém, salvo as leis
do deserto. As leis permitem justiça, jamais roubo. Habitamos o deserto
desde que no mundo se fez vida. Cobramos pedágios daqueles que
atravessam os nossos domínios sagrados. Mas não somos ladrões. Nos
fazemos firmes com aqueles que acreditam que não precisam de autorização
e respeito para atravessar o deserto. Também aplicamos a justiça aos
moldes da lei e de nossa consciência. Todavia, somos doces com aqueles
que merecem o mel da vida.” Olhou para a caravaneiro e quis saber se era
verdadeira a história contada por Jamil e Omar. O caravaneiro tornou a
dar uma resposta monossilábica: “Não.” Inesperadamente, acrescentou: “No
entanto, para todo fato existe no mínimo duas versões.” Fez uma pausa
proposital para acrescentar: “Além da verdade” Deu de ombros e concluiu:
“Fique à vontade para apurar.”
O chefe tuaregue sorriu diante da honestidade que beirava o
atrevimento. Eu tinha aprendido durante aquela travessia que a verdade
sempre protege; a alma do mundo ama a verdade. Ali apeou do camelo, se
aproximou do caravaneiro, puxou um punhal da cinta de sua túnica e
cortou as cordas que amarravam as mãos do caravaneiro. Houve uma troca
de olhares significativa entre os dois. Disse que a partir daquele ponto
faria a vigília da caravana até o oásis. Acrescentou que estávamos em
território tuaregue e a nossa segurança estava assegurada. Em seguida,
perguntou o que o caravaneiro faria com os rebeldes. O caravaneiro não
hesitou: “Eles ficarão. Serão julgados pelo seu povo de acordo com as
leis do deserto. Que seja uma sentença de caráter educativo para que vir
permeada em justiça; nenhuma vingança é desejada nem acolhida pelo
deserto.”
Sem demora a caravana retomou a travessia. Sobre o meu camelo, no
meio da grande fila, avistei, bem à frente, a mulher de olhos azuis
cavalgando ao lado do caravaneiro. Havia um grande burburinho durante a
marcha daquele dia. Todos conversavam sobre a aventura e as emoções
sentidas. Aos poucos fui deixando que outros passassem por mim. Quis
ficar na rabeira da fila, sozinho, para alocar os sentimentos e
concatenar as ideias de tudo que me foi permitido viver. Todos os dias
um mestre nos aguarda com uma nova lição. Aos poucos o mestre daquele
dia se fazia visível e a lição ficava inteligível.
Considerei várias hipóteses e fiz muitas reflexões. Talvez o
caravaneiro tivesse percebido o movimento insurgente antes de eclodir.
Isto explicaria o sumiço da mulher de olhos azuis que partira em busca
de apoio junto aos tuaregues, fazendo-os entender a justiça dos fatos.
Pensei também no comportamento do caravaneiro; do risco que se permitira
correr no limite das consequências entre o mal e o bem. Eu tentava
entender como, mesmo diante da possibilidade de o pior acontecer, ele se
manteve com inabalável serenidade; como se nada nem ninguém pudessem
atingir a sua alma.
Pensei por muitas horas até clarear o raciocínio. O risco é inerente à
vida. Tudo poderia ter dado errado; seria uma tragédia. De outro lado,
os acontecimentos se desenvolveram de maneira favorável. Como o
caravaneiro se movia em prol da luz, por consequência teria a proteção
do deserto. Isto é uma lei. Mesmo assim algo poderia ter se mostrado
desastroso naquele dia? Sem dúvida. Porém, apenas na aparência. As
manifestações de amor, sabedoria e justiça do deserto nem sempre são de
fácil entendimento.
Contudo, como se manter firme e sereno diante de um final indesejado?
A resposta era de uma simplicidade absurda: A tristeza tem a sua raiz
nas frustrações e decepções. Isto somente acontece quando vivemos em
busca das recompensas da existência. O caravaneiro não vivia em busca
dos prêmios; ele apenas se empenhava em fazer a coisa certa. Tão e
somente. Isto o tornava pleno; livre, digno e em paz. Daí brotam todo o
amor e felicidade. Então, nada falta.
Mas o que é a coisa certa? A coisa certa é viver o seu
melhor a cada dia, com leveza e alegria, à medida da sua consciência,
nos trilhos das virtudes já iluminadas em si. A consciência é a
percepção que cada um tem de si e do deserto. Assim, cada qual ao seu
passo faz a travessia rumo à luz; assim se chega ao oásis. Lá, a
verdade. Este é todo o poder.
Ao final da tarde a caravana parou para acampar e passar a noite. Vi
quando o caravaneiro passou com o falcão para o treinamento vespertino.
Fui atrás. Como se me esperasse, sem dizer palavra, me passou a ave.
Pousado sobre a grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo, me
aproximei do pássaro para falar, apenas em pensamento, que era preciso
que visse além dos olhos para encontrar tudo aquilo que estava oculto à
aparência. Mas não só. Independente de capturar uma presa, sugeri ao
falcão que subisse o mais alto que as suas asas suportassem, pedi por um
voo perfeito; com leveza, pela simples alegria de sentir o vento do
deserto impulsionando e mantendo o seu corpo no ar.
Tirei a touca da cabeça da ave. O falcão se virou para mim por uma
fração de segundo como se tivesse entendido cada palavra que não falei.
Com o movimento do meu braço o pássaro se lançou às alturas. Planou pelo
azul do céu por um bom tempo, como se nada mais importasse, salvo voar
pela precisão de voar. Voar é preciso; viver não é preciso. Naquele
instante foi impossível não lembrar do famoso poema do alquimista
lisboeta.
Inesperadamente o falcão recolheu as asas para um mergulho
vertiginoso até o solo. Em seguida trouxe em suas vigorosas garras um
pequeno roedor. O caravaneiro me olhou e arqueou os lábios em leve
sorriso. Em silêncio, balancei a cabeça em agradecimento por aquela
inestimável lição.
Adormeci deitado na areia, distante do acampamento, olhando as
estrelas e à espera da bela mulher com os olhos da cor da lápis-lazúli.
Tanta coisa para conversar. Ela não veio.
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