Eu tinha acordado bem-disposto. Era muito cedo. A caravana ainda
dormia. A leste o céu começava a ganhar o tom rosado que antecede ao
azul. Sem demora as estrelas se retirariam de cena. Em verdade, estariam
lá, apenas ocultas pela cortina do dia. Os sentidos permitem ou limitam
as percepções à medida de como lidamos com eles. Sentei na areia em
local um pouco afastado e fiquei pensando sobre a verdade que está por
trás dos nossos sentidos. O mundo e, por consequência, a vida nos é
concebido da maneira como entendemos tanto o mundo quanto a vida.
Quantas e quais cortinas preciso abrir para encontrar a verdade? Quanto
da vida eu perco por não a perceber em toda a sua amplitude e sutileza?
Eu estava envolto em minhas reflexões quando fui interrompido por uma
anciã. Ela parecia ter uma idade avançada ao analisar por sua pele
bastante enrugada. Não conseguia me recordar dela na caravana. As suas
feições não eram nem tristes nem alegres; apenas serenas. A anciã me
perguntou se eu podia acompanhá-la. Imaginei que ela precisava de ajuda
e, sem hesitar, me coloquei à disposição. Ela me levou até a tenda mais
distante do acampamento.
Quando entrei vi sobre uma mesa baixa, típicas dos acampamentos no
deserto, um bolo coberto com frutas secas. Ela me acomodou em uma
confortável almofada e se sentou em outra à frente. Serviu-me uma fatia
de bolo com uma caneca de café. Uma combinação maravilhosa. Tudo muito
gostoso. A anciã pegou uma pequena harpa e começou a tocar uma música
suave. Tudo muito agradável. Quando acabei, a anciã tornou a colocar
outra fatia em meu prato. Pedi mais um pouco de café para acompanhar o
bolo. Ela disse que o café tinha acabado. Sugeriu que eu experimentasse
um dos chás que ela fazia. Aceitei. Ela me serviu em uma xícara de fina
porcelana. A minha língua ficou adormecida após eu provar o chá. Quando
coloquei um pedaço de bolo na boca percebi que o mesmo bolo, que minutos
antes havia me deliciado, tinha perdido todo o sabor. O chá tinha
anestesiado as minhas papilas gustativas. Pensei que aquele não era um
bom chá, pois furtava o sabor do bolo; ou talvez o bolo não fosse tão
bom quanto imaginei. A anciã continuava a tocar a harpa. Porém, acelerou
o ritmo. A música rápida acrescida do bolo sem sabor tornou, de um
momento para outro, o ambiente desagradável. Nada falei. Apenas agradeci
a hospitalidade, me despedi sob a alegação de que eu tinha que arrumar
as minhas coisas e saí. A anciã não fez qualquer objeção; apenas
sorriu.
Quando eu passava por entre as tendas fui interrompido por uma jovem e
bela mulher. Ela pediu a minha ajuda para abrir uma pequena caixa. Era
uma tenda confortável, repleta de almofadas estampadas ao estilo árabe e
com um agradável perfume de incenso. A moça estava sozinha. A chave
parecia emperrada. Pedi um pouco de óleo. Ela perguntou se azeite
serviria. Falei que sim e ela me passou um vidro. A chave azeitada girou
na fechadura da caixa sem qualquer dificuldade. A caixa estava repleta
de joias de ouro e pedras preciosas. A mulher se mostrou agradecida e
disse para eu escolher algo da caixa. Recusei. Ela insistiu. Diante da
minha irredutibilidade a mulher escolheu um anel de fina ourivesaria,
adornado com um precioso rubi, e tentou colocar em um dos meus dedos.
Tornei a recusar. A minha resistência foi quebrada pelo seu belo sorriso
e modo carinhoso pelo qual segurou na minha mão. Eu me senti no céu.
Neste instante entrou na tenda um homem. Ele estava zangado. Os dois
discutiram em um idioma que eu não conhecia. Não foi difícil perceber
que o homem reclamava pela caixa. A discussão subiu de tom. O homem
apontava para o anel que a mulher tinha me dado e gritava. A anciã, que
há pouco tinha me servido o bolo, entrou no momento em que eu devolvia o
anel, me puxou pegou pelo braço e me retirou da tenda. Senti-me
aliviado de sair daquele lugar que mais parecia o inferno.
Caminhei até a tenda que servia de refeitório. O simples fato de já
ter café pronto me alegrou. Enchi uma caneca e bebi ali mesmo. Eu bebo
muito café, principalmente quando acordo. Após completar a segunda
caneca, ouvi um grupo de homens conversando sobre o caravaneiro. Falavam
que ele se casaria assim que a caravana chegasse ao oásis. Seria uma
grande festa, mas apenas alguns integrantes da caravana teriam sido
convidados. Todos do grupo se declararam convidados e que
providenciariam os presentes sem demora. Eu não tinha recebido qualquer
convite. Uma enorme insatisfação corroeu as minhas entranhas. Não ter
sido convidado para o casamento me entristeceu e, pior, fui tomado por
um misto de inveja e ciúme. Um dos homens ressaltou a insistência do
caravaneiro para que ele não faltasse à festa; outro contou que também
tinha sido convidado para apadrinhar o primogênito quando nascesse.
Aquela conversa me fazia mal, mas por algum motivo, eu não conseguia me
afastar. Como se o veneno que começou a correr em minhas veias
precisasse de mais veneno para me manter de pé. Emoções insensatas e
raciocínios absurdos. Foi quando a anciã tornou a me pegar pelo braço.
Com um movimento suave tentou me retirar daquele espiral negativo de
sensações. Resisti. Ela olhou firme para os meus olhos. Nos seus olhos
havia uma luz muito forte, inversamente proporcional ao seu corpo
alquebrado. Eram olhos que pareciam falar. Eles insistiam para que eu
saísse dali, porém também me diziam que não podiam me obrigar; a escolha
sempre seria minha. Decidi por acompanhá-la. Sem dizer palavra, nos
afastamos do acampamento. Ela me conduziu para perto de onde o
caravaneiro realizava o treinamento matinal com o seu falcão. Falei que
eu não queria ficar ali. A presença dele a me incomodava. Naquele
momento, na bagunça do meu coração, eu o considerava arrogante e
estúpido. A anciã insistiu que permanecêssemos. Passado alguns
instantes, ele nos viu e fez sinal para que nos aproximássemos. Chateado
com o caravaneiro, hesitei. Ela me conduziu até o caravaneiro com a
força da sua suavidade. A anciã possuía uma mansidão encantadora. Eles
se cumprimentaram como velhos conhecidos. Ela se despediu, fiz menção em
acompanhá-la, mas a anciã disse que iria sozinha. O caravaneiro arqueou
os lábios em leve sorriso. Enquanto observava o falcão voar em
círculos, quase sem bater as asas, sustentado no ar pela brisa da manhã a
procura de uma caça, eu esperava pelo convite, ainda que tardio, para o
casamento. O caravaneiro não tocou neste assunto.
Eu estava perdendo tempo ali. Falei que era melhor eu ir para não me
atrasar, pois ainda tinha que arrumar as minhas coisas antes de
partirmos. O caravaneiro me perguntou se eu queria aprender sobre a arte
da falcoaria. Fiquei surpreso, eu sabia que tal ensinamento era um
privilégio. Não havia uma escola que alguém pudesse se matricular para
conhecer essa arte. Os mestres falcoeiros escolhiam os seus aprendizes;
os conhecimentos eram transmitidos há séculos pela tradição oral.
Naquele instante, os sentimentos e ideias que eu tinha pelo caravaneiro
ficaram ainda mais confusos. De um lado, zangado por ter sido preterido
da sua festa; de outro, alegre por ter sido convidado para algo tão
importante. Embora magoado, não consegui recusar a incomensurável
oferta. Apenas balancei a cabeça em concordância. Ele retirou a grossa
luva de couro que usava em seu braço esquerdo e a colocou no meu. Era o
ritual simbólico de iniciação. Com o silvo de um apito, inaudível ao
ouvido humano por causa da alta frequência sonora, chamou o falcão de
volta. Quando a ave se aproximava ele me orientou a manter o braço, no
qual estava a luva de couro, bem levantado para que o pássaro não
tivesse qualquer dúvida quanto ao local de pouso. Sem que me machucasse,
senti a força das garras firmes do falcão em meu antebraço. Uma
sensação agradável. Em seguida me entregou uma espécie de touca que
tinha por objetivo tapar os olhos da ave. Pediu para que eu cobrisse a
cabeça do animal com delicadeza. Ele explicou: “É para que o falcão não
se distraia e possa se concentrar nas suas palavras. Diga para ele que
apenas encontrará aquilo que conseguir ver. No entanto, fale também que
enxergamos melhor quando vemos além dos olhos.” Diante do meu olhar
atônito, acrescentou: “Por mais apurados que sejam os olhos de uma ave
de rapina.” Em seguida, explicou: “Sempre podemos ouvir sem qualquer
palavra; se deliciar sem usar o paladar. É preciso sentir além dos
sentidos.”
Achei tudo aquilo muito estranho. O primeiro pensamento foi de como
encontrar a melhor maneira para aconselhar um falcão sem me sentir
ridículo. Em seguida me ocorreu que talvez fosse uma limitação pessoal
desprezar a inteligência e o instinto alheio, mesmo que de um animal.
Assim, procurei as melhores palavras para aconselhar o pássaro. O
caravaneiro me mostrou o movimento que eu teria de fazer com o braço
como sinal para que a ave alçasse voo. Assim aconteceu. O falcão voou em
círculos por minutos que me pareceram intermináveis. Comentei que
aquela região do deserto era inóspita ao extremo, imprópria para a vida.
Não haveria qualquer caça ali. O caravaneiro voltou a soar o apito
inaudível. Falcão retornou. Levantei o braço esquerdo com a luva de
couro para ele pousar. O caravaneiro colocou a toca sobre a cabeça do
animal. Porém, ao invés de pedir para que eu falasse, ele próprio
aproximou a sua cabeça ao falcão e movimentou os lábios como se
conversasse com o pássaro. Não em palavras faladas, mas em pensamento.
Achei esquisito. Fez sinal para eu liberar o animal para um novo voo.
Quando retirei a touca da cabeça da ave, ela virou a cabeça e olhou para
o caravaneiro por um breve instante como se dissesse que tinha
compreendido aquilo que não foi dito. O pássaro ganhou o céu. Após
planar por algum tempo, o falcão recolheu as asas para mergulhar
vertiginosamente até o solo. De longe vimos a ave escavar as areias do
deserto e trazer em suas garras uma serpente que, escondida, se
acreditava protegida sob o piso arenoso e sem vida.
O caravaneiro disse que era hora de encerrar. Por aquele dia bastava:
“Hoje marcharemos até mais tarde. Não haverá o treino vespertino. Caso
queira prosseguir se apresente amanhã bem cedo.” Agradeci, disse que ele
podia contar comigo no dia seguinte. No entanto, algo ainda me
incomodava. Antes de sair para arrumar as minhas coisas, desejei que ele
fosse feliz em seu casamento. O caravaneiro sorriu, deu de ombros e
disse: “Eu sou feliz no meu casamento. Tenho esposa e filhos; amo a
minha família. Não vejo a hora de retornar para casa e me aconchegar.”
Surpreso, me despedi e saí sem falar mais nada. Coloquei tudo no alforje
e o ajeitei sobre o camelo. Procurei a anciã por todos os lugares, pois
eu queria alinhar ao seu lado na marcha. Eu tinha muitas perguntas para
fazer. No entanto, não tive sucesso. Indaguei por ela a várias pessoas;
ninguém a tinha visto.
Naquele dia ninguém emparelhou comigo. Segui acompanhado apenas dos
meus pensamentos e sentimentos. Quando encerramos a marcha a noite se
avizinhava. O acampamento foi erguido e me afastei um pouco enquanto
esperava o aviso para o jantar. Eu meditava sobre a necessidade de
perceber além dos sentidos; sentir além das emoções; entender além das
razões. Sim, existia algo de verdadeiro e valioso a ser percebido,
sentido e entendido para uma vida plena que naquele momento eu deixava
escapar.
“A paz”, ouvi uma voz doce atrás de mim. Não era a anciã. A bela
mulher com olhos da cor de lápis-lazúli se aproximou sem eu perceber e,
mais uma vez, parecia adivinhar o que acontecia comigo. Ela se sentou ao
meu lado e disse: “Enquanto permitirmos que a densidade do mundo afete a
sutileza da alma ficaremos distantes da paz. Acreditar que a paz
depende dos fatos da vida é uma tola ilusão. Quando ainda rumo à
maturidade acreditamos conhecer as delícias pelo paladar, o perfume pelo
olfato, a beleza pelos olhos, a música pela audição e a textura pelo
tato. A vida é mais. A verdade está bem distante dos sentidos básicos.”
“O bolo deixa de ter sabor se eu estiver gripada. A música cessa de
tocar se eu me negar a ouvir. A beleza se desmancha se eu fechar os
olhos. Ou será que continuam a existir além dos meus sentidos, da minha
capacidade de perceber e compreender tudo o que há?”
“Tentar entender a vida apenas através dos sentidos básicos é
desperdiçar a sua grande e melhor parte. As minhas limitações não podem
impedir a minha caminhada. O Caminho muda quando o andarilho se
transforma. Qualquer um pode ser mais, mas é preciso treino para ver a
serpente que se oculta sob a areia”, disse em explicita alusão a
experiência vivida naquela manhã, mas também em clara metáfora.
Falei que tanto o mundo quanto a vida são maiores quando eu me
permito os sentimentos e a razão para entendê-los. Assim os percebo além
dos sentidos básicos. Coração e mente são indispensáveis para a
compreensão de tudo e de todos. A mulher de olhos azuis concordou apenas
em parte: “Sim, no entanto, temos que aprender a sentir e a raciocinar
sem a areia das sombras que esconde a paz. Um assunto no qual já falamos
várias vezes durante esta travessia, mas que nos persegue diariamente.
Amor ou ódio não dependem da informação oferecida, mas da antena que a
captar e do canal que a codificar. A sua opinião e sentimento sobre o
caravaneiro mudou quando a mentira e a intriga estimularam a vaidade, o
orgulho, o ciúme e a inveja. Uma cortina se fechou e a beleza
desapareceu.”
“Quando o coração e a mente estão pacificados pela humildade,
compaixão, simplicidade, mansidão, sinceridade, entre outras virtudes
cuja raiz é o amor, tudo e todos se tornam diferentes. Tudo fica claro e
sereno, todos se tornam belos e interessantes mesmo diante das enormes
dificuldades inerentes à vida. As cortinas se abrem.” Fez uma pausa e
concluiu: “Em suma, sim, precisamos do coração e da mente para entender a
exata verdade e a perfeita beleza da grande escola. Contudo, não basta
usá-los. O amadurecimento se faz indispensável. Precisamos de um coração
puro e uma mente profunda. Há os que ainda estão em sementes; existem
os que já se compartilham em frutos.”
“Os canais de entendimento e percepção são muitos; todos têm o seu
valor. Alguns, entretanto, se mostram extremamente poderosos. Há aqueles
que chegam prontos como a audição, a visão, o tato, o olfato e o
paladar, por isto são considerados básicos. Coração e mente, através das
emoções e das razões, são considerados pelos eruditos como fundamentais
para o entendimento do mundo e da vida. No entanto, embora
importantíssimos, necessitam de aprimoramento. São sentidos de nível
intermediário devido à extensão do alcance.”
Se coração e mente eram intermediários, quais seriam os essenciais? A
mulher explicou: “A intuição é a quintessência dos sentidos enquanto
estivermos na terceira dimensão. A intuição, quando bem desenvolvida, é
um canal valioso de comunicação com os planos superiores. Quando mal
trabalhada acaba servindo às esferas turvas da existência. Não raro os
andarilhos imaturos costumam confundir a intuição com os seus desejos e
medos. Para discernir uma dos outros é preciso amor e sabedoria, através
de muito conhecimento e exercícios, para que todas as cortinas se
abram. Nada é fácil.”
“Contudo, não é só. Alguns sentidos são próprios do ego, pois nos
dizem muito sobre a sobrevivência; outros são permitidos apenas através
da alma ao nos orientar quanto à transcendência. A intuição são os
olhos, a voz, o ritmo, a percepção, o gosto, os sentimentos e a razão da
sua alma. Isto é muito importante e poderoso. A alma é a sua parte
sagrada no todo universal. Ela o torna um ser cósmico. A alma conhece a
origem da vida. Através da intuição a alma tem o poder de te levar à
zero-dimensão, onde tudo é cristalino e as plenitudes aguardam. Apenas
com ela à frente poderemos chegar à verdade.”
Ficamos em silêncio por algum tempo. A mulher disse que tinha coisas a
fazer e se levantou. Agradeci a conversa. Falei que eu tinha muito o
que pensar e me esforçaria para amadurecer a minha intuição como
ferramenta evolutiva. A mulher sorriu. Antes de ela sair, perguntei
sobre a anciã. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli explicou:
“Ela é uma mensageira da paz. De todas as plenitudes, a paz é a mais
difícil de se conquistar. Parece escondida ou perdida sob tanta areia
que colocamos sobre ela. Assim como a felicidade, o amor, a dignidade e a
liberdade, a paz está em semente dentro de cada um de nós. Para
encontrar a paz é preciso perceber além dos sentidos, sentir além
emoções, entender além da razão. A semente da paz é uma semente sutil,
porém poderosa. Perceptível apenas à sensibilidade da alma.”
“Como um pequenino, e aparentemente frágil e sem vida, grão de trigo.
Além do invólucro da casca do grão, para quem aprendeu a ver, existe o
pão. Para que o grão germine em vida a casca inerte precisa se romper.
Algumas cascas se rompem com o equilíbrio das emoções, outras com a
clareza da razão. Contudo, há invólucros que precisam de uma força maior
para que o pão da vida se manifeste através da paz. A fé é este poder.
Não se alcança a fé sem a intuição.”
“O fruto parece inexistir quando não vemos além do caroço; o fruto
está ali, apenas ainda é invisível aos olhares inflexíveis e intangível à
percepção superficial. São os véus que precisam ser descortinados. Mas,
não tenha dúvida, todo o fruto um dia esteve oculto atrás de um véu em
forma de caroço.”
Falei que gostaria de encontrar a anciã de novo. A mulher de olhos
azuis sorriu, sacudiu a cabeça como quem diz que eu não tinha jeito e
finalizou: “Passe a prestar mais atenção à sua volta. Você a encontrará
todos os dias. Ela sempre esteve ao seu lado. Assim se disfarçam os
anjos.”
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