Acordei bem-disposto. E tarde. O caravaneiro já retornava com o
falcão pousado na grossa luva de couro do braço esquerdo quando enchi
uma caneca com café fresco na tenda que servia de refeitório. O
acompanhei com o olhar. Ele entregou o pássaro aos cuidados de um
encarregado e remexeu nas suas coisas em busca de algo. Já tinha me
chamado atenção o fato de o caravaneiro carregar tão poucas coisas na
sua bagagem. Poucos na caravana levavam um alforje tão leve. De quanto eu menos precisar mais livre serei,
era um ensinamento que, pelo visto, ele cumpria à risca. Aproximei-me.
Como ele olhou sem fazer objeção, me encorajei a chegar mais perto.
Comentei sobre a minha observação. Ele disse: “As desnecessidades sobre
as coisas do mundo são fatores que ajudam e sinalizam a conquista da
liberdade por evitar as relações de dependência. Contudo, não basta.
Pois posso estar além dos cárceres da matéria, mas aprisionado nas
esferas das emoções. A liberdade é um estado por inteiro do ser. Uma
conquista profunda”, com a mão fez no ar um traço na vertical, “E
ampla”, e desenhou outro traço na horizontal. Uma cruz. Não entendi a
razão do gesto.
Ele se virou e voltou a se concentrar no que estava fazendo.
Continuei de pé ao seu lado. Falei que eu tinha relação de amor e ódio
com o deserto. A cada dia me era permitido uma lição. No entanto, às
duras penas. O caravaneiro olhou para mim e aconselhou: “Quando o
deserto estiver por demais inóspito, se deixe encantar pela luz das
estrelas. Contudo, não se satisfaça com elas a ponto de esquecer de
prosseguir na travessia.” E tornou a se virar. Acrescentei que percebia
que o deserto era a metáfora da vida; a travessia representava os
percalços e as delícias da existência de todos nós. O caravaneiro
continuava agachado revirando os seus pertences. Ele voltou a me olhar e
disse: “Uma flor traduz todo o universo e as manifestações da
existência. Mesmo assim continua sendo apenas uma flor”. Comentei que
das duas, uma. Ele não tinha entendido a minha observação ou eu não
havia compreendido a sua resposta. O caravaneiro pegou a bússola que
procurava, fechou o alforje, se levantou e disse: “A travessia não é
apenas o deserto” e tornou a fazer o movimento horizontal com a mão,
“Mas também é as estrelas” e fez a linha vertical no ar. A cruz, de
novo. Prosseguiu: “Entenda algo, um assunto, um conceito ou a si mesmo.
Mas, principalmente, entenda que nada restará limitado na fronteira da
sua percepção, salvo você próprio.” E saiu.
Fiquei pensando nas palavras do caravaneiro enquanto esvaziava a
caneca de café. Eu estava atrasado. Arrumei as minhas coisas no alforje e
aprumei o camelo na fila para a marcha de mais um dia. Quem alinhou ao
meu lado foi um europeu. Um homem que eu já conhecia de vista, como
todos naquela altura da travessia, mas com quem eu nunca conversara.
Julius, como se chamava, era muito gentil, simpático e educado. Uma
pessoa bastante agradável de conviver. Sem demora, puxou assunto.
Perguntou sobre a minha atividade profissional. Respondi-lhe. Ele
mostrou interesse em saber sobre a agência de propaganda. Fez vários
questionamentos sobre o funcionamento. Ele quis saber se a travessia
tinha algum intuito comercial. Falei que não; apenas me interessava
conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a
terra.” Ele nada perguntou sobre isto. Em seguida, revelou que era
mercador de remédios. Tinha feito fortuna como representante dos
principais laboratórios da Europa nos “confins do mundo”, como se
referiu aos lugares pelos quais viajava oferecendo os medicamentos.
Viajava ao oásis à negócio. Falou que era um privilegiado, pois tinha a
oportunidade de conhecer os lugares mais insólitos do planeta, onde os
outros representantes se recusavam a ir. De sobra, ficava rico enquanto
se divertia e aproveitava a vida. Enriquecia com dinheiro e histórias,
fez questão de acrescentar. Contou a experiência vivida no ano anterior
em um campo de refugiados dentro de uma zona de guerra na região central
da África. Um país dividido por etnias, mas principalmente, e
infelizmente, cortado pelo ódio. Explicou que apesar de terem vários
aspectos culturais em comum, e isto os tornava uma nação, as diferenças
se manifestavam em intolerância, sangue e morte. Um povo destruído
econômica e afetivamente. Nessa ocasião, quando chegou ao campo de
refugiados, encontrou muitas pessoas, entre adultos e crianças,
mutiladas pelas tribos rivais para que não servissem mais para o combate
nem para o trabalho e, assim, no ápice da maldade, se tornassem um ônus
para os seus parentes pelo resto da existência. Para piorar, além de
diversas doenças, uma perigosa epidemia se alastrava em razão das
precárias condições de saúde e higiene. Não havia hospitais, todos
destruídos na guerra absurda. Alimentos e água potável eram racionados.
Uma organização não-governamental humanitária, formada por médicos de
todo o mundo, que durante os seus períodos de férias viajavam para lá,
pagando todos os custos do próprio bolso, com o objetivo de levar a
assistência e o atendimento possível à região e àquele povo, mantinham a
vida possível. Viu cirurgias sendo feitas em tendas e curas alcançadas
pela inenarrável determinação, competência e amor daqueles
profissionais.
Eu ouvia atentamente. Nesse momento comentei que Deus os iluminasse e
os protegesse. “Deus? Que Deus? Qual o Ser repleto de amor, sabedoria e
justiça permitiria aquele descalabro? Por que Ele não soluciona aquele
suplício desumano?”, deixou transparecer a sua revolta e a descrença em
um mundo invisível que permeia e interage ao visível. Narrou que a
organização daqueles bondosos médicos já não tinha mais dinheiro para
comprar uma nova remessa de remédios na tentativa de conter a infecção
generalizada que se alastrava. Então ele, o mercador de remédios, o
homem que ganhava a vida vendendo remédios, pela primeira vez na vida,
não apenas abriu mão da sua comissão, mas negociou com os laboratórios
uma doação de medicamentos. Ainda mais, Julius arcou com toda a despesa
do transporte para que a medicação chegasse à zona de conflito. Por fim,
olhou para mim, sorriu e confessou que era muito feliz com a profissão
que tinha escolhido, pois levava a cura para muita gente através dos
remédios, sejam os vendidos, sejam os doados, aos recantos esquecidos do
mundo. Duvidava que houvesse outra profissão melhor.
Veio a ordem para a habitual parada no meio do dia. Um breve descanso
e uma refeição ligeira eram necessários. No momento de alinhar os
camelos na fila para a outra metade da marcha daquele dia, quem
emparelhou comigo foi um religioso, quase um asceta. Um homem dedicado à
meditação, à oração e a caridade espiritual. Embora nunca tivéssemos
nos falado, assim como o Julius, eu também o conhecia de vista. Muito
amável, transparecia uma enorme serenidade. As suas palavras eram sempre
em voz mansa, claras e traziam inegável conforto. Assim como Julius,
era muito simpático e também me senti bem ao seu lado. Disse isso a ele,
que sorriu e falou se chamar Naim. Acrescentou que o seu nome, de
origem árabe, significava tranquilidade. Logo me perguntou qual
a religião eu professava. Respondi que todas. Contei que eu tinha forte
influência cristã desde a infância, ensinamentos preciosos que fui
enriquecendo à medida que conhecia as outras tradições filosóficas e
religiosas, ocidentais e orientais. Acrescentei que todas as palavras de
amor e sabedoria me interessavam, independente da origem. Mostrei no
cordão que eu usava sob a blusa, a cruz que transpassava o círculo. Era o
símbolo da irmandade esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da
metafísica da qual eu fazia parte, cujo o eixo central era o Sermão da
Montanha. Naim sorriu com o coração. Perguntou sobre os meus estudos;
nada quis saber sobre a minha atividade profissional. Em seguida, falou
que percorria os “confins do mundo” levando uma palavra que pudesse
trazer algum conforto a qualquer alma sofredora. Esta era a sua enorme
riqueza. O seu patrimônio, ao contrário, se resumia na túnica que vestia
e outra que trocava quando lavava aquela. “Ah, também estas sandálias”,
disse apontando para os pés. Calçados que usava até “se desmancharem”.
A conversa se estendeu. Naim confessou que as histórias vividas
também eram parte da sua riqueza. Contou que no ano passado esteve na
parte central da África, em país repartido pela guerra civil. A disputa
pelo poder por diversas tribos, divididas em facções étnicas, tinha
levado o povo à miséria material, mas principalmente, à miséria
espiritual. As pessoas sofriam tanto que já estavam descrentes de tudo.
Acrescentou que quando perdemos a esperança a fé não sobrevive. Então,
não resta nada. Fica difícil para o amor germinar. Estava em um campo de
concentração onde uma perigosa epidemia se alastrava com rapidez em
razão das precárias condições de sobrevivência, mas também por causa de
um baixo padrão vibracional, gerado pelo medo e pelo pessimismo, que
enfraquecia o sistema imunológico daquelas pessoas. Uma organização de
médicos dispendia todos os recursos humanos e financeiros para atender
aquele povo sofrido, mesmo sob diversos riscos. Pessoas que poderiam
usufruir das férias em lugares paradisíacos, mas que como na mitologia,
iam ao inferno como anjos guardiões resgatar almas desamparadas, sob o
perigo real de receberem um tiro, serem aprisionados por uma das facções
ou de também se contaminarem.
Era preciso novos medicamentos para conter a infecção bacteriológica
que se generalizava. Não havia mais recursos; todos os canais de ajuda
tinham sido acionados e nenhuma solução se mostrara possível. O desânimo
também era contagiante. Preocupou-se em animar as pessoas com boas
palavras e abraços aconchegantes. Também rogou a Deus por Sua
intervenção. No dia seguinte o acampamento foi invadido por uma das
violentas facções. O filho do chefe estava muito doente. O garoto sofria
de um mal que os médicos não conseguiam identificar. O menino estava
com a vida por um fio. Alguns dias atrás, o chefe tinha tirado o filho
do acampamento, onde estava sob o cuidado dos médicos, e o levado para a
tribo. Lá o garoto esgotaria as suas últimas forças. Voltou para se
vingar das pessoas que, segundo o chefe, tinham contaminado o seu filho.
Naim pediu uma chance para tentar curar o garoto. Uma única
oportunidade. Caso não conseguisse, o chefe executaria o plano. Alegou
que, do contrário, o pai retiraria a última chance do filho. Mesmo
desconfiado, o chefe aceitou, não sem antes ameaçar Naim com uma morte
cruel e dolorosa caso não obtivesse êxito. Quando chegou à tribo Naim
logo sentiu a energia densa do lugar e percebeu que o garoto tinha as
suas forças vitais sugadas por espíritos sombrios que, por afinidade
vibracional, tinham se instalado no local. Os médicos não conseguiam
curar o filho do chefe porque não era uma doença física, mas espiritual.
Promoveu um ritual de purificação e equilíbrio energético. Em poucos
dias o menino estava bem, brincando com as outras crianças como se nada
tivesse acontecido.
Agradecido e feliz, o chefe disse que Naim poderia pedir o que
quisesse. Naim pediu que o campo de refugiados nunca mais fosse atacado.
Sob nenhuma hipótese. Explicou que já havia sofrimento demais. O chefe
lhe garantiu o pedido. O religioso explicou que as doenças do corpo
estão, em geral, ligadas à alma enfermiça. Naim pediu também que fosse
conduzido de volta para o acampamento, pois estava preocupado com a
epidemia que se alastrava. O chefe prometeu que ele seria levado
imediatamente. Contudo, falou que as suas preocupações arrefecessem,
pois soubera que após a saída deles chegara um europeu. Este homem
providenciara o medicamento necessário para debelar a infecção. Naim
contou que passou a noite em oração de agradecimento a Deus pelo
atendimento aos seus pedidos e por Sua pronta intervenção. “Naquele
momento a mão de Deus se fez presente através desse europeu”, disse com
os olhos mareados. Um homem que, mesmo sem acreditar, mas envolvido em
um gesto de amor, se tornou uma ferramenta sagrada, pensei sem nada
dizer. Naim revelou que quando retornou ao campo de refugiados o tal
europeu, que tanto gostaria de conhecer, já tinha partido. Com os novos
remédios que logo chegaram e o fim do medo de serem constantemente
atacados, a cura se sustentou.
Estávamos no final da tarde. Veio a ordem para encerrar a marcha e
levantar o acampamento para passarmos a noite. Naim agradeceu a tarde
que passamos juntos e se despediu. Havia pessoas que precisavam dele.
“Sou um curador de almas”, se definiu. Declarou-se um homem abençoado
pelo trabalho que exercia. Também agradeci pela conversa e nada falei
sobre a sincronicidade dos fatos daquele dia. A caravana era envolta em
magia.
Não era difícil imaginar que o deserto me deixara com a incumbência
de ser o elo de ligação entre as duas pontas de uma mesma história. Sob
ângulos e olhares distintos, pontas que se encontravam em algum ponto.
“No ponto em que o deserto se encontra com as estrelas”, ouvi a voz da
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli soprando em meus
ouvidos. Virei a cabeça para os lados, não havia ninguém. “A cruz”,
tornei a ouvir a voz dela. Mais uma vez, não havia ninguém. Considerei
que aquela travessia inóspita logo me traria outras alucinações.
Vi o caravaneiro se afastar para o treinamento vespertino do falcão.
Sentei na areia, um pouco distante, para apreciar o voo do pássaro; e
pensar. Eu precisava pensar. Aqueles dois homens me contando as suas
aventuras em um mesmo dia. Homens que tinham as suas existências
entrelaçadas, mas não se conheciam. O acaso não existe; eu sabia disto.
Ao longe o caravaneiro me observava. Quando nossos olhares se
encontraram ele tornou a fazer o sinal da cruz com a mão. Abri os braços
como quem diz que não entendeu o gesto. Ele se virou para cuidar do
falcão.
“Quando se anda pelo deserto há que se ter a preocupação em caminhar
para as estrelas. Concomitantemente.” Era a bela mulher de olhos azuis.
Desta vez não apenas a sua voz, mas ela em pessoa. Sem pedir licença, se
sentou ao meu lado. Perguntei se ela tinha visto o sinal da cruz que o
caravaneiro tinha feito para mim. A mulher balançou a cabeça em
anuência. Falei que ele repetiu aquele gesto várias vezes durante o dia,
desde que conversamos pela manhã. Ela explicou: “A cruz é um símbolo
que existe desde tempos imemoriais. Foi usada na Suméria, no Egito
Antigo, na Índia, na Pérsia e, posteriormente, renasceu em Jerusalém.
Possui vários significados, todos preciosos, interligados em si. O mais
conhecido, e dos mais belos, é o da libertação através das virtudes
aplicadas à vida, ensinado pelo maior dos mestres que já andou por este
mundo. Contudo, há outros mistérios; todos precisam de esclarecimentos.”
Falei que já tinha visto em meus estudos diversas cruzes, com
pequenas alterações de formato, como a cruz alçada no Egito ou a cruz em
giro na Índia. A famosa cruz dos celtas, além de outras com diferentes
geometrias, algumas usadas também no cristianismo, como a cruz em T de
Francisco de Assis ou a cruz invertida de Pedro, o apóstolo. A mulher
tornou a balançar a cabeça e disse: “Todas trazem em si conhecimentos
ocultos que precisam vir à luz.”
“Penso que a cruz simétrica, aquela em que a linha horizontal possui o
mesmo tamanho da linha vertical, possui uma valiosa lição. Não se
caminha para cima sem caminhar para os lados; não se chega ao Céu sem se
envolver com o mundo.”
Pedi para ela explicar melhor. A mulher foi generosa: “Veja as
histórias de Julius e de Naim. Ambos são bons homens. Um sempre conduziu
a vida em função dos negócios, da sobrevivência do corpo, dos
interesses ligados ao ego. Um homem do mundo; o traço horizontal da
cruz. O outro, vive em função do intangível, da elevação do espírito, em
razão dos interesses da alma. Um homem do Céu; o traço vertical da
cruz. Cada um com as suas prioridades. No entanto, para salvar os mesmos
refugiados, para salvar as mesmas vidas, ambos foram igualmente
imprescindíveis. Sem os remédios providenciados pelo Julius, a epidemia
de bactérias ceifaria a existência de muitos refugiados; sem as
medicações espirituais de Naim a epidemia de ódio imporia aos refugiados
uma pena semelhante. Encontraram-se no ponto central da cruz, onde os
traços se entrelaçam. Este ponto se chama amor.”
“Julius é o deserto; Naim, as estrelas. Juntos se completam e se expandem, longitude e latitude, na perfeição da cruz.”
“Quando se caminha pelo deserto sem olhar as estrelas não se chega a
lugar nenhum. Quando apenas se olha para as estrelas sem caminhar pelo
deserto também não.” Fez uma pausa e finalizou: “A existência se passa
pelo mundo para se fortalecer no campo de provas. A vida precisa das
estrelas para iluminar na superação dessas provas. Amplitude e
profundidade. Não se separa o deserto das estrelas. Julius e Naim em um
único homem. Em verdade, a travessia apenas se completa quando realizada
em cruz.”
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se levantou e saiu.
Acompanhei os seus passos. Ela passou pelo caravaneiro e o
cumprimentou; ele sorriu em agradecimento para ela. Depois desapareceu
por trás das dunas. Entardecia. Esperei anoitecer enquanto alocava
aquelas ideias e pensava nas modificações que se faziam necessárias para
eu viver em cruz. Quando as estrelas do céu tocaram as areias do
deserto no infinito do meu olhar, me levantei a procura de Julius e
Naim. Eu queria apresentar um ao outro. Eu veria irromper a luz ao unir
os traços da cruz.
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