Era o penúltimo dia da travessia. Desde muito cedo eu estava de pé. O
céu tinha a tonalidade rosada, típica de quando o sol ainda não venceu a
linha do horizonte. Eu andei com o caravaneiro para um local afastado
do acampamento. Ele avisou que seria o último treinamento antes de
chegarmos ao oásis. Em seguida me passou o falcão. Senti a pressão das
garras em torno da grossa luva de couro que eu usava no braço esquerdo.
Em pensamento, enviei à ave as orientações quanto a ver além dos olhos,
mas, principalmente, quanto à simples alegria de se sentir em pleno voo.
Retirei a touca que lhe cobria a cabeça. O pássaro me olhou por um
breve instante, em seguida fiz o movimento de impulsão e o falcão logo
ganhou altura no céu. Planou em círculos por longos minutos até que
repentinamente recolheu as enormes asas junto ao corpo em posição
aerodinâmica instintiva para um mergulho vertiginoso ao solo. Retornou
com uma serpente em suas garras. O caravaneiro se manteve impassível,
atitude que interpretei como um sinal de aprovação. Sem nada dizer, eu
sorri para mim. Retornamos ao acampamento que despertava. Fui à tenda do
refeitório e me servi de uma caneca com café fresco. Tornei a me
afastar do acampamento. Com os olhos vasculhei os arredores em busca da
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Há dias não
conversávamos. Muitas coisas importantes tinham acontecido. Eu sentia
falta de falar com ela e, principalmente, de ouvi-la. A sua maneira de
pensar era peculiar e interessante. No entanto, não a vi naquela manhã.
Quem se aproximou foi a Ingrid, a astrônoma nórdica de cabelos ruivos,
ao lado do Paolo, o seu simpático namorado italiano. Traziam nos rostos a
expressão de encantamento típica dos casais apaixonados. Ofereceram-me
alguns biscoitos para acompanhar o café. Aceitei e os convidei para
sentarem ao meu lado. Acomodados na areia, Ingrid comentou que logo que
chegássemos montaria os telescópios para iniciar os seus estudos sobre a
constelação apenas visível do oásis. Paolo brincou dizendo que ela não
precisava ter pressa, pois as estrelas a esperariam por alguns milhões
anos. Rimos. Em seguida, ele quis saber se eu me considerava pronto para
encontrar com o sábio dervixe. Também brincando, lembrou que, ao
contrário das estrelas, eu não teria tanto tempo para fazer aquilo a que
me propunha. Concordei com ele. Contudo, ponderei que o tempo, embora
fosse um limitador da existência, nunca seria um adversário, a depender
de como nos relacionamos com ele.
Paolo ponderou que não era bem assim. Como era um homem polido, pediu
desculpas antecipadas pelo que falaria, mas lembrou que o encontro com o
dervixe poderia se frustrar por vários motivos. Doença, morte, viagem
inesperada, compromissos urgentes, há situações imponderáveis a impedir a
conversa que eu desejava ter. Então a cansativa viagem se mostraria
improdutiva. Concordei que eu tinha me proposto à travessia em razão dos
enormes conhecimentos sobre as coisas do céu e da terra que o sábio
poderia compartilhar comigo. Era inegável que tal encontro poderia nunca
acontecer. Todavia, cada dia no deserto tinha sido de incomensurável
sabedoria a ponto de não deixar qualquer rastro de perda ou de decepção
se a conversa não fosse possível. “Penso que a caravana foi como um grão
de trigo que a cada dia cresceu em mim. Sinto o grão pronto para se
transformar em pão. Pão que me alimentará e que levarei sempre comigo
para oferecer em todas as demais travessias que vier a fazer. Se eu
encontrar com o dervixe o meu coração ficará em festa; caso contrário,
nada também me faltará. Aprendi a encontrar em mim, quando alinhado à
luz, o suficiente à ceia de cada dia”, argumentei. Em seguida, conclui:
“Somente com a minha permissão os fatos do mundo terão força capaz de
atormentar a minha alma.”
Paolo questionou se não era um olhar arrogante perante mim mesmo. Eu
propus a ele um raciocínio diferente: “Penso que dependerá sempre dos
olhos com os quais eu me perceber. Se eu me enxergar repleto em
sabedoria não passarei de um estúpido a incorrer em antigos erros. Se eu
entender o exato tamanho que tenho me permitirei os novos erros; com
eles a possibilidade dos conhecimentos ainda inimagináveis.” Olhei para a
imensidão do deserto e expliquei: “O que não posso é condicionar a
minha paz ou felicidade aos acontecimentos da caravana ou do oásis. Isto
seria uma concessão indevida sobre a minha vida.”
“A mim cabe a vigilância sobre as minhas escolhas para que sejam
sempre manifestas em virtudes. Ao me iluminar embelezo a caravana e o
oásis. Mesmo que ninguém perceba, o deserto me reconhecerá. Isto me
basta.”
“Um fato pode me desagradar, posso desaprovar determinada atitude
alheia, pode uma escolha não satisfazer a ninguém na caravana ou o
dervixe do oásis não entender as razões que me movem, porém entendo que
isso faz parte de um mundo onde todos estão em processo de aprendizado.
Os equívocos serão inevitáveis. Inclusive os meus. Não raro, erro em
escolhas sobre algo que já conheço. Entretanto, saber não significa ser;
trata-se apenas do passo inicial. Todavia, nada disso pode me
descontrolar, abater ou paralisar. Evito a culpa que aprisiona em função
da dependência que gera. Escolho trabalhar com a responsabilidade
pessoal de fazer diferente e melhor da próxima vez.”
“Este é o único poder que tenho. Contudo, é de uma força
incomensurável; ele muda o mundo por transformar a mim mesmo. Com ele
sou invencível como o pequeno grão de areia que traz a alma do deserto
em si e a manifesta. Esse é o exercício pelo qual tenho a possibilidade
de, a cada dia, me aproximar um pouco mais da imagem e da semelhança de
Deus. Esta é a travessia para luz. A caravana parte todos os dias bem
cedo.”
Aproveitando a metáfora que eu fazia, Paolo lembrou que no deserto há
severas tempestades de areia que costumam fazer enormes estragos às
caravanas. Balancei a cabeça em concordância e disse: “Sem dúvida. As
tempestades movimentam os grãos de areias, soterram algumas caravanas,
porém, passam. O deserto permanece incólume.” Fiz uma pausa para
prosseguir: “Em suma, as tempestades nunca destroem o deserto, apenas
atingem o que está fora dele.”
“Assim, não posso condicionar a plenitude do ser à obtenção de algum
bem material; de algo ou condição externa a mim. Preciso das coisas
concretas para atravessar a existência; todavia, apenas o que é abstrato
interessa à vida. No concreto, o tangível; no abstrato, a verdade.
Logo, não preciso esperar o acontecimento de algum fato, seja na
caravana, seja no oásis, para viver a felicidade, em paz, com liberdade,
dignidade e amor.”
“Se eu viver cada dia na dependência do que ainda não tenho ou na
espera de alguma realização – além das minhas próprias transmutações – o
tempo será em vão; as tempestades se comportarão com uma fúria
destruidora. A mais terrível das tempestades, quando bem aproveitada,
somente servirá para impulsionar o pequeno grão de areia para longe, a
um ponto ainda inimaginável, além de fantástico. Há muitos recantos no
deserto, longe dos oásis, com impensadas maneiras de ser e viver.” Olhei
para o horizonte e conclui: “Faça a travessia, aproveite a caravana, se
divirta no oásis; mas seja o grão de areia que é parte do deserto e,
por isto, traz em si todo o poder do deserto.”
Estava na hora de partirmos. A Ingrid falou para o Paolo realizar
aquele trecho da travessia ao meu lado para continuarmos a conversa. Ela
aproveitaria para seguir a marcha ao lado do astrólogo com quem gostava
de discutir sobre as estrelas. Brincou ao dizer que astrônomos gostavam
de conversar sobre o céu com os astrólogos, apesar de não concordarem
em quase nada. Rimos. Deu um beijo no namorado e se foi. O italiano
emparelhou o seu camelo ao meu. Partimos. Passados alguns minutos, Paolo
pediu para eu explicar melhor a teoria sobre qual eu me referia.
Ofereci o melhor que pude: “Existem muitos tipos de vícios. Drogas e
jogos de azar são os mais comuns por serem os mais visíveis pelos
estragos aparentes que proporcionam. No entanto, há outros, talvez mais
perigosos, por serem de sofisticada percepção, não nos permitem entender
a dependência que nos aprisiona.” Citei uma frase conhecida na Ordem
Esotérica dos Monges da Montanha da qual eu era membro: “‘A pior prisão é
aquela que não tem grades.’” Em seguida, prossegui: “Quem não se
percebe preso não sente falta da liberdade. Não esqueçamos que as únicas
grades que têm força para nos manter cativos são aquelas que nós
próprios criamos ou permitimos que nos imponham. São todas meramente
conceituais, frutos da ignorância e do atavismo dominador. As grades de
ferro podem conter um corpo; jamais uma alma livre. As grades
intelectuais, emocionais e espirituais mantêm uma alma cativa por
milênios. Por exemplo, ‘apenas serei feliz se fulano agir de determinada
maneira; se beltrano aprovar a minha escolha’ são situações comuns e
desnecessárias. Em verdade, nocivas. Mas há outras subespécies que
condicionam a felicidade à conquista de um diploma, à compra de uma casa
ou à realização de uma viagem. Não que haja algo de errado em querer um
diploma, uma casa ou em fazer uma viagem. O que não pode é ficar na
dependência da ocorrência de um fato externo para viver a leveza da
plenitude apenas possível no âmago do ser.”
“Assim acontece com a paz. Aguardamos que alguém faça algum movimento
para que alcancemos a sonhada paz. Preciso do consentimento de fulano
para que os dias sejam serenos; necessito da aceitação de beltrano para
que a vida se pacifique em mim. Mentiras a nos enganar, as quais
repetimos para nós mesmos todos os dias! Não passam de dependências;
como tais, todas inúteis. Não é diferente com a dignidade. Nada além do
que há em mim a impede. Para ser digno basta que eu trate os outros como
gosto que me tratem. Nada mais é necessário. Não há nada a se esperar,
em absoluto; é uma simples escolha. Como as demais plenitudes, depende
somente da maneira como irei me relacionar comigo mesmo.”
O italiano me interrompeu para saber quais eram as plenitudes de que
eu tanto falava. Eu lhe disse: “A plenitude total é composta das cinco
plenitudes básicas: a liberdade, a paz, a dignidade, o amor
incondicional e a felicidade. Nenhuma delas reside em qualquer fato
externo a você. Todas estão em sementes no âmago de cada pessoa. Fazer
com que floresçam é o sentido da vida.”
Ao longe, à frente da caravana, vi o caravaneiro cavalgando sobre o
seu cavalo branco levando o imponente falcão sobre as grossas luvas de
couro que usava no braço esquerdo. A imagem me lembrou do ensinamento e
serviu de inspiração: “Nada do que existe ou acontece além do falcão
pode impedir a beleza do seu voo. Não importa a caça ou o clima; vale a
leveza de voar e a verdade oculta além dos olhos.”
Paolo me perguntou como tornar as plenitudes uma realidade. Respondi
sem titubear: “Através das escolhas. Tão e somente. A plenitude é o céu
azul; as virtudes são as asas do falcão.”
O italiano quis saber de quais virtudes eu me referia. Especifiquei:
“Humildade, simplicidade, compaixão, sinceridade, generosidade,
delicadeza, firmeza, mansidão, honestidade, coragem, pureza, justiça,
misericórdia, alegria, fé, entre algumas outras. Todas tendo o amor como
o vento que lhes sustentam o voo.”
“Os nossos relacionamentos e os fatos do mundo são alimentos ou são
venenos à medida da capacidade do falcão em lidar com o quanto do
deserto já consegue sobrevoar e enxergar.”
Paolo lembrou das doenças e da morte como fatores impeditivos à
plenitude. Tornei a oferecer outro olhar: “As doenças são cármicas, logo
estão ligadas ao nosso aprendizado. Podem nos falar sobre as
existências passadas; nestes casos as trazemos como herança hereditária.
Outras estão em sintonia à existência atual. São situações que nos
abalaram emocionalmente e não restaram devidamente absorvidas na
essência do ser. Na busca incessante por pureza e cura a alma expurga
aquilo que a intoxica. Pode ser em agressividade ou depressão; as
chamadas ‘feridas da alma’. Pode, de outro lado, desencadear o
funcionamento deficiente de algum órgão ou mesmo um tumor; as
denominadas ‘enfermidades do corpo’. Para uma pessoa desatenta será uma
desgraça sem precedentes. Para o indivíduo conectado à evolução será uma
maravilhosa oportunidade de aprendizado e superação. Ainda que haja
sequelas ou o perecimento físico haverá a cura do espírito, a
quintessência do ser, desde, é claro, que ele tenha encontrado o mestre
oculto que traz a lição inerente àquela dificuldade. As doenças das
existências têm por finalidade nos conduzir à cura para a vida.”
“A morte do corpo, por sua vez, embora seja uma certeza
incontestável, permanece incompreendida. A morte, em verdade, é um ato
de amor do universo pela vida.” De amor? Paolo estranhou. Tentei
explicar: “Um gesto de amor por cada um de nós, pela possibilidade de
prosseguir no processo evolutivo em renovadas condições. Quando assim
entendemos, o tempo finito da existência se torna ato de profunda
sabedoria nos impulsionando à infinitude da luz. Então, podemos abraçar o
tempo como fazemos a um amigo.”
“Se eu viver cada dia como uma fonte inesgotável de virtudes, sejam
nas manhãs aconchegantes de sol, sejam nas noites frias de inverno, o
tempo se mostrará como um animado mestre de cerimônias quando me
informar que o show terminou. Sem dúvida o espetáculo valerá tanto o
preço da luta cobrado pela existência quanto o valor da luz ensinado
pela vida.”
Veio a ordem para a caravana parar para o habitual descanso breve e
uma refeição ligeira. Apeamos dos camelos. A Ingrid veio ver como o
namorado estava. Paolo disse que estava bem. Ela trouxe um cantil com
água e algumas tâmaras desidratadas. Bebemos e comemos em silêncio.
Quando a marcha foi retomada, Ingrid se afastou. Tornamos a emparelhar
as montarias e o italiano pediu que eu me alongasse no assunto:
Prossegui: “Aproveitar em cada dia a possibilidade de se conhecer um
pouco mais, de tentar algo diferente, de fazer um pouco melhor do que
antes; eis a magia da vida. Em todos os dias portas se abrem a outros
patamares da existência na oportunidade de realizar em si algo não
tentado até então. As escolhas aparentemente impossíveis através de
olhares impensados. Quando nos permitimos essa possibilidade acabamos
por descobrir que podemos ir mais; que podemos ver além dos olhos; que
podemos voar mais alto. Que podemos ser o mestre e o aprendiz; o
falcoeiro e o falcão. Isto, de modo inevitável, se refletirá no mundo.
Na transformação do ser está a fortuna da existência, a riqueza da
evolução, a revolução do mundo, a nossa herança ao planeta. Quando
vivemos assim não resta vício nem vazio. Todo o momento importa, cada
acontecimento agrega valor pelo aprendizado que traz. Nada falta nem
excede; quando completos transbordamos para a vida.”
“Assim os alquimistas transformam o chumbo em ouro.”
“Não importa o que aconteça no mundo; o importante é aquilo que no
mundo aconteceu e teve força de transformação íntima. A história de uma
pessoa não se narra pelos seus atos heroicos mundo afora, mas pelos
fatos que o levaram a transmutar a si mesmo universo adentro.” Calei-me
por alguns instantes antes de prosseguir: “A lição é para todos;
contudo, o aprendizado é pessoal. A exata dimensão do mundo está na
medida da compreensão de si próprio; daquilo que o envolve e o
impulsiona. Assim funciona a consciência a nos moldar a realidade.”
“Aprender, transmutar, compartilhar e seguir, estes são os quatro
capítulos do manual de cada dia no deserto. Esta é a grande lição da
caravana; também é o poder incomensurável do viajante. Um poder que se
expande ou se encolhe nas réguas das virtudes aplicadas. Toda a luz
apenas começa a iluminar quando aprendemos a acender o próprio fogo.
Depois cabe continuar alimentando a chama; aos poucos, o entorno irá se
clarear em alcances cada vez maiores. Qualquer coisa além disso não se
se faz necessária; é mera peça de decoração.”
Paolo argumentou que lamentavelmente quase nunca conseguimos realizar
tudo o que projetamos. Tentei mostrar a ele outro olhar: “Se olharmos
apenas o quanto ainda não realizamos sempre restará uma frustração pela
infinitude do todo em si. Qualquer realização no mundo está vinculada a
acidentes extrínsecos, ou seja, dependem muitas vezes de fatores alheios
à sua vontade. Assim, não há porque sofrer se o efeito está, em parte,
desvinculado ao esforço dedicado. Vale o aprendizado, a transformação, o
compartilhamento e prosseguimento da travessia sem fim; infinito é o
deserto. Entretanto, se nos alegrarmos em fazer o melhor dentro do
oferecido a cada dia teremos uma diferente e pequena parte do todo
acrescida a nós diariamente. Nada será em vão ou restará desperdiçado.
Nenhuma decepção, apenas a alegria da serena plenitude.”
O italiano não disse mais palavra. Ele precisava de silêncio para
alocar aquelas ideias em si; aproveitar as que julgasse úteis e
descartar aquelas que acreditasse desnecessárias. As ideias são
sazonais; algumas se apresentam em tamanha perfeição por já estarem
maduras, outras não prestam ou ainda não estamos prontos para elas.
Seguimos calados por incontáveis minutos. Quando nos demos conta,
entardecia. Chegou a ordem para a caravana parar e montar o acampamento.
Era a última noite. Afastei-me para, em oração, agradecer ao deserto
por aquela travessia. Não havia faltado nem luz nem proteção. A quietude
foi interrompida por Paolo. O italiano retornou para questionar sobre
uma das plenitudes, o amor incondicional. Lembrou que eu havia falado da
liberdade, da paz, da dignidade e da felicidade. Nem uma palavra sobre o
amor. Ele acrescentou da importância do amor em nossas vidas, em como a
ausência de amor nos impede a uma existência plena. Tive uma estranha
sensação, pois, de alguma maneira, eu esperava que o Paolo voltasse com
essa questão. Embora estranha, era uma sensação boa. Sorri para mim;
sorri para ele. Em seguida, abordei o tema: “O amor é a virtude mais
sofisticada que existe, pois, para ser alcançada necessita de todas as
demais virtudes a lhe sustentar. Apesar disto, o amor é essencial a cada
virtude isolada.” Paolo me interrompeu para dizer que aquilo era um
paradoxo. Eu expliquei: “Todo paradoxo é apenas aparente. Cada virtude
se move e se orienta através de um impulso próprio de amor. Todas juntas
se manifestam em magnitude máxima, o amor em forma de pura luz. A
iluminação cósmica.” Para melhor compreensão usei uma analogia: “As
virtudes são como as pétalas de uma flor. O amor é o miolo que as
sustentam. Sem o miolo as pétalas perecem; sem as pétalas não há flor.
Esta flor se chama luz.” O italiano quis saber seu eu me referia ao amor
incondicional. Ponderei: “Amor incondicional, em verdade, é um
pleonasmo. Todo amor, para assim ser, é incondicional por definição e
pressuposto. O amor não impõe condições, não se sujeita às reações, não
cobra taxas nem deixa dívidas. Não é credor, tampouco cria devedores.”
Paolo tornou a interromper para falar que era muito triste ver pessoas
que não conheciam o amor por nunca terem encontrado alguém que as
amassem. Acrescentou que ele tinha muita sorte por ter o amor da Ingrid.
Eu fiz as correções que entendia cabíveis: “O amor que você recebe da
Ingrid não é seu; é dela. Tanto que ela pode decidir por nada mais lhe
oferecer. Então, nada restará. Em verdade, o amor que você tem é tão e
somente o amor que você compartilha. Este nasce em você. Com isto você
pode dimensionar, orientar e sustentar a própria vida. Assim, nada
faltará.”
“Não haverá dependências externas nem existirá sofrimento pelas
escolhas alheias. Apenas liberdade, dignidade, felicidade e paz oriundas
do amor cuja a fonte inesgotável é o próprio coração.”
“Esperar pelo amor dos outros é o dilema do amor; o equívoco na arte de amar. Raiz-mor de todas as dependências e sofrimentos.”
Mais uma vez fui interrompido. Desta vez pela Ingrid. A astrônoma
veio buscar o namorado para jantar. Antes de ir, o italiano apertou a
minha mão e me agradeceu pelos ensinamentos daquele dia. Eles se
afastaram. Sozinho, me percebi na outra ponta de onde eu sempre
estivera. Lembrei da inúmeras conversas que tivera com aqueles com os
quais eu considerava os meus mestres. O Velho, o Loureiro, o Canção
Estrelada e o Li Tzu formavam o quarteto mágico a me indicar as inúmeras
maneiras para eu encontrar o meu jeito pessoal de acender a minha
própria luz, sem precisar da luz alheia a me iluminar nas noites comuns
ao Caminho. Ou à travessia.
Não! Afastei a ideia da mente. Eu gostava da prática de ter os
mestres, não para decidir por mim – este é o papel odioso dos gurus que
geram tantos vícios emocionais, intelectuais e espirituais ao afundar os
seguidores em crises existenciais. Prometi a mim mesmo que jamais me
permitiria tamanho ardil – mas para indicar diferentes possibilidades de
olhares e de escolhas. Eu nunca me consideraria um mestre nem teria
qualquer aprendiz; uma ideia que eu afastava com sincera repulsa. Fiquei
mais algum tempo envolto em meus pensamentos quando o caravaneiro se
aproximou com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no
braço esquerdo. Comentei que ele dissera que o treino da manhã teria
sido o último da travessia. Ele nada disse, apenas fez um sinal para
acompanhá-lo. Afastamo-nos um pouco mais. De pé ao seu lado, vi o
caravaneiro falar ao pássaro, em pensamento. Por instantes, achei que
tivesse ouvido as palavras não ditas. Quando ele tirou a touca, a ave
olhou para mim e, em seguida, para o caravaneiro. Era como se estivesse
agradecendo. E se despedindo.
Com o impulso do braço o falcão ganhou altura. Dessa vez não planou
em círculos. Voou para longe, para além da última duna, para um lugar no
céu onde os meus olhos não conseguiam enxergar. De uma maneira que não
saberia explicar, eu não me surpreendi, assim como eu tinha certeza de
que nunca mais veria aquele falcão. Ao contrário do que eu mesmo
acreditaria até então, me alegrei por isto.
O caravaneiro comentou como se falasse consigo: “A leveza de
conquistar sem possuir”. Houve uma rápida troca de olhares entre nós. Um
entendimento profundo, difícil de ser medido em palavras. Sorri para o
deserto.
O caravaneiro enterrou a sua grossa luva de couro nas areias do
deserto. Entendi que ele não mais a usaria. Aquela missão terminara. Fiz
menção em fazer o mesmo com a minha luva. Ele me olhou nos olhos,
sacudiu a cabeça para que eu não fizesse o mesmo e avisou: “A sua missão
começa aqui.” Em seguida, retornou ao acampamento. Preferi ficar a sós
com o silêncio e a quietude. Passado algum tempo, senti saudade da bela
mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli, das conversas que tínhamos.
Há dias eu não falava com ela. Ela não apareceu naquela noite. Em sua
homenagem decidi subir uma enorme duna que tinha à minha frente. Ela
gostava de bailar no alto das dunas, de se sentir próxima às estrelas
quando queria entrar em comunhão com o deserto. Escalei a duna. Lá de
cima, bem ao fundo, me foi possível avistar o oásis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário