Era um dia diferente. Tínhamos alinhado para iniciar a marcha ainda
com o céu escuro. Quando o sol surgiu por detrás das dunas, hora que, em
geral, a caravana acordava, já marchávamos há três quartos de hora. O
objetivo era chegar a um oásis intermediário para nos abastecer de água e
víveres. Esse oásis tinha um enorme lago de água doce e limpa. Nas suas
margens existiam várias pequenas fábricas, todas familiares e montadas
em tendas, de excelentes tapeceiros. Eram tapetes com belas estampagens,
confeccionados com difíceis pontos de costura, técnicas transmitidas
através de muitas gerações do deserto. Muitos mercadores de tapetes que
estavam na caravana realizavam ali os seus negócios, adquirindo as peças
para a revenda. Daquele ponto retornavam para Marraquexe, conduzidos
por um grupo de encarregados. Outra parte da caravana seguia em frente,
rumo ao maior oásis do deserto, onde havia outros tecelões de tapetes,
que se utilizavam de diferentes técnicas de confecção. Eu, assim como
outros peregrinos, seguiríamos no intuito de encontrar com um sábio
dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o céu e a terra.” Saímos
mais cedo para que chegássemos no meio do dia, oferecendo tempo
suficiente para a caravana se abastecer. Como isto demoraria um pouco,
dormiríamos aquela noite naquele oásis.
Com o sol à pino, avistamos ao longe o enorme lago. Não demorou
muito, fomos recebidos pelos hospitaleiros moradores locais. Algumas
tendas ofereciam pratos típicos, bom para fugir da rotina simples das
refeições da caravana. Almocei e, em seguida, fui conhecer as fábricas e
os tapetes. As pessoas eram muito gentis; as fábricas, rudimentares; os
tapetes, belíssimos. Passei um bom tempo por entre as tendas. Já
próximo ao final da tarde, reparei em uma tenda situada numa ponta
distante do lago. Não havia nenhuma outra tenda próxima. Perguntei a um
homem se aquela tenda também era uma fábrica. Ele me olhou por instantes
e sacudiu a cabeça dizendo que não sabia. Estranhei, ao passo que tive a
curiosidade despertada. Tornei a perguntar, desta vez, a uma mulher.
Sem me olhar nos olhos, ela se limitou a responder que não valia a pena
eu ir até lá. Claro que fui.
Foram uns dez minutos de caminhada. Era uma tenda simples, mas bem
arrumada e limpa. Um ancião de pele morena colocava algumas ervas em
infusão para um chá. De costas para mim, sem se virar, deve ter
percebido a minha presença, pois me convidou para acompanhá-lo em uma
xícara. Aceitei. Foi quando ele se virou e sorriu. Assim como o seu
cabelo, os seus dentes eram perfeitamente brancos, algo raro de se ver
em alguém da sua idade. Pegou um punhado de outras ervas para acender
como incenso. Um delicioso perfume impregnou a tenda. Ao seu convite me
recostei em uma confortável almofada. Ele se sentou em um banquinho de
madeira ao meu lado e acendeu um cachimbo enquanto esperava o chá ficar
pronto. Falei que eu estava visitando as fábricas de tapete do oásis.
Mesmo sabendo que a resposta seria negativa, perguntei se ele também
confeccionava tapetes. O ancião sacudiu a cabeça em negativa e disse:
“Tenho uma fábrica de alegrias.”
Estranhei. Falei que não tinha entendido. Ele me explicou com
paciência: “As pessoas acreditam que podem comprar alegria.” Deu de
ombros e concluiu: “Iludem-se”. Fez uma pausa e prosseguiu: “Confundem
alegria com diversão.”
“Estar com a família, encontrar com os amigos, cantar e dançar são
algumas coisas maravilhosas que a vida oferece. Faz muito bem ao coração
e eu recomendo. Contudo, são apenas diversões. A alegria é diferente.”
Pedi para ele explicar melhor. O ancião foi gentil: “Posso me
divertir todos os dias, e não há qualquer contraindicação nisto, porém
não significa que serei um homem alegre. Posso ser uma pessoa agradável,
polida e até mesmo engraçada, a ponto de arrancar risos de quem estiver
ao meu lado. No entanto, nada disso me torna, necessariamente, um homem
alegre.”
Falei que havia uma contradição. Se alegria não se vendia, não fazia
sentido ele ter uma fábrica de alegria, uma vez que nada teria para
oferecer. O ancião explicou: “Sim, você não está errado. Na verdade, eu
ajudo a você a montar a sua própria fábrica de alegrias. Tenho uma
fábrica que fabrica fábricas de alegrias.” Achei esquisito.
Desconfiado, eu perguntei quanto ele cobrava. Tomei um susto ao ouvir
o preço. Quase dava para comprar um camelo. Um camelo, por sua enorme
utilidade, possui um alto valor no deserto. Agradeci, mas recusei a
oferta. O ancião não insistiu. Ao contrário, manteve a mesma simpatia
que lhe era característica. Levantou-se, retirou as ervas em infusão e
serviu o chá. Trouxe o chá em duas xícaras de porcelana sobre uma
bandeja de prata arrumada com capricho. Estava delicioso. Eu quis saber
se os moradores do oásis frequentavam a tenda do ancião. Ele me
respondeu que nenhum deles. Perguntei se ele tinha muitos clientes. O
ancião possuía uma honestidade apaixonante: “Bem poucos. No máximo um a
cada dois ou três anos.” Comentei que a pequena clientela se dava em
razão do alto preço cobrado. Ele concordou: “Acredito também”, mas em
seguida fez uma ressalva: “De outro lado, pelo fato de as pessoas não
entenderem a alegria, não lhe dão o devido valor.”
Discordei. Falei que não existia uma única pessoa que não
reconhecesse a importância da alegria. O ancião me ofereceu um olhar de
compaixão e questionou: “Não duvido, mas é uma importância abstrata.
Como entender o verdadeiro valor de algo que não conhecemos ou,
experimentamos tão pouco durante a vida, que as lembranças acabam
arrefecidas quanto à sensação e ao sentido?”
Calei-me por instantes. Aquelas palavras me tocaram de maneira
diferente. Lembrei da distinção entre divertimento e alegria que o
ancião tinha falado no início da conversa. Em silêncio, questionei a mim
mesmo se eu conhecia a alegria. Quanto ao divertimento eu não tinha
qualquer dúvida. Falei que se não fosse tão caro eu compraria uma
fábrica de alegrias para mim. Confessei que temia não conseguir a
fabricação da alegria esperada. Acrescentei que o risco era alto, uma
vez que dependeria de habilidades pessoais que eu não podia afirmar se
as tinha. O ancião sorriu, como se esperasse por aquilo, e me fez uma
proposta: “Você apenas paga se ficar satisfeito com o resultado.” Falei
que satisfação é um conceito subjetivo e bem variável. O ancião admitiu:
“O risco agora é todo meu.” Quando me dei conta o meu rei estava acuado
no canto tabuleiro. Xeque-mate!
Sem ter como recusar, lembrei ao ancião que a caravana partiria logo
cedo no dia seguinte. Ele disse que tínhamos tempo de sobra. Levantou-se
e voltou logo depois com um tambor. Os tambores do deserto.
Instrumentos famosos na ritualísticas para alterar o estado de
consciência, nos permitindo viajar a lugares fantásticos. Na maioria das
vezes, dentro de nós mesmos. Jardins floridos que nos trazem boas
recordações e sempre desejamos voltar; porões escuros que tentamos
esquecer e, que por este motivo, precisam ser revisitados para restarem
limpos, arejados e iluminados. Os porões também fazem parte da casa do
ser.
Eu sabia de tudo isso. Contudo, sabia também que a viagem precisa ser
conduzida adequadamente para não ficarmos aprisionados em celas sem
grades. Não raro, isto já acontece. Porém há prisões mais cruéis que
outras. Viajar é preciso, mas há que se ter cuidado.
O ancião me pediu que não tivesse medo. Ele seria o meu guia. O
engenheiro da fábrica de alegrias. Havia algo nele que transmitia uma
inexplicável bondade. Lembrei dos camaleões do deserto. Não, o ancião
não era um camaleão. Confiei no amor que emanava dele. À sua orientação,
fechei os olhos e me deixei embalar pelo rufar inebriante do tambor. O
tambor parecia falar e embalar o meu coração. Passado algum tempo, o
tempo despareceu. O meu coração pulsava no ritmo do tambor, como se
dançassem juntos.
O ancião pediu para que eu lembrasse de um dia em que me senti muito
feliz. A primeira lembrança que me ocorresse era a melhor. Falei da
minha festa de aniversário de doze anos. Foi na casa do meu avô. Todos
os meus amigos da escola foram. Jogamos futebol e brincamos muitos. Os
meus pais ainda estavam juntos; todos estavam felizes. Naquela noite,
quando fui dormir, eu senti uma felicidade tão grande que parecia não
caber em mim. O ancião me disse que eu tinha o direito de me lembrar
desse dia todas as vezes que quisesse animar um dia triste. As
lembranças existem para isso e também para nos mostrar que, se esse
bem-estar aconteceu uma vez, pode acontecer em outras oportunidades.
Basta que eu me movimentasse nesse sentido.
Perguntei se essas recordações eram uma fábrica de alegrias. O ancião
respondeu: “Não. São apenas instrumentos de bem-estar, importantes para
colorir momentos tristes. Apenas para colorir. Não podem servir como
fuga da realidade. Para superar a tristeza é preciso compaixão para com
todos e entendimento quanto a si mesmo.”
Em seguida me veio a lembrança que, logo após aquela festa, os meus
pais se separaram. Lembrei das brigas e de que fui passar as férias na
casa de uma tia no interior. Foram dias tristes, de muita insegurança e
medo. Falei que tentaria afastar essa recordação da minha mente. O
ancião me corrigiu: “Não. Fugir das nossas memórias é fugir de nós
mesmos. Elas fazem parte da nossa vida, apenas temos que nos reconciliar
com elas. Não tente esquecer ou reprimi-las. Abrace-as com amor. Se
elas vieram à mente é porque anseiam por cura, estão prontas para
iniciar o tratamento. Entenda que os seus pais, por motivos que cabe a
eles, não eram felizes no casamento. E que você não tem qualquer culpa
nisso.” Interrompi para falar que foi um período muito difícil para mim.
O ancião explicou: “Entenda que essa dificuldade ajudou a forjar quem
você é, a torná-lo mais forte. Quando superamos um sofrimento intenso
descobrimos que é possível superar todas as outras dores. O aço atinge a
melhor têmpera no fogo intenso. O ancião ensinou: “Tudo o que acontece
em nossas vidas é para o nosso bem. Absolutamente tudo.”
Por que não esquecer os momentos tristes? Eu queria saber. O ancião
seguiu a explicação: “Porque não o esquecemos nunca. Pode-se ficar um
tempo sem lembrar, então, inesperadamente, eles nos tomam de assalto.
Não é assim?” Balancei a cabeça concordando. Uma lágrima escorreu em
minha face. Ele aprofundou: “Todas as situações complicadas que passamos
na vida tem uma razão de existir. Claro que naquele momento temos uma
enorme dificuldade em entender. Mas os dedos do universo são longos e
somente mais à frente iremos compreender para, então, agradecer.” Fez
uma pausa e concluiu: “As tristezas não podem nem devem ser esquecidas,
pois precisam de superação. Apenas possível com entendimento e
transformação do nosso jeito de ser e de viver. São os alicerces da
fábrica de alegrias.”
Chorei muito. O ancião apenas mudou o ritmo do tambor. As batidas do
meu coração acompanharam. Um pouco mais calmo, admiti que passado alguns
anos os meus pais refizeram as suas vidas, ao jeito deles, se tornaram
pessoas melhores. Quanto a mim, tive uma maturidade prematura, mas que
me ajudou a chegar até aqui. Sim, eu era grato pela minha história; ela
me tornava único. O ancião sorriu.
Seguindo o ritual, lembrei de outros momentos da minha vida. O
futebol de rua com os amigos, a emoção do primeiro beijo, o ingresso na
universidade. Recordei também situações difíceis. O diretor da escola
que me acusou de algo que não fiz, uma namorada que me trocou por um
colega, a demissão inesperada de um emprego. O ancião continuou a me
orientar: “Não olhe o passado como um jogo tristeza versus alegria. Veja
como lições que o aperfeiçoaram. Então, não haverá perdas”.
Eu segui vasculhando o baú de memórias. Em determinado instante,
seguindo as orientações do ancião, todas as lembranças, até mesmo aquela
que inicialmente eram tristes, me pareceram boas por eu entender a
razão delas em minha vida. Uma agradável sensação me invadiu. Perguntei
se aquilo era alegria. Achei que sabia a resposta. Ele me surpreendeu:
“Não”. Como assim? Falei que estava decepcionado, pois achava que a
fábrica de alegrias estava pronta. A paciência do ancião em me guiar
nessa construção parecia sem fim: “O prédio da fábrica ficou pronto. No
entanto, você ainda não tem ideia de como colocar os seus motores para
funcionar. Lembre, é preciso fabricar as alegrias.”
Ele insistiu que eu tornasse a buscar por lembranças agradáveis. Eu
consegui lembrar de várias outras situações que já imaginava ter
esquecido por completo. Perguntei se eu já tinha conseguido colocar os
motores da fábrica em funcionamento. O ancião apenas sacudiu a cabeça em
negativa. Com o queixo pediu que eu prosseguisse na construção da
fábrica, enquanto ele continuava a ritmar o tambor do deserto. Vieram
outras recordações, nenhuma que alterasse a atenção do engenheiro da
fábrica. Até que lembrei de um momento, ainda no ensino médio, de que as
minhas notas em matemática estavam muito ruins. A reprovação era
iminente. Para eu passar de série teria que tirar nota dez na prova
final. Não poderia errar nenhuma questão. Se eu fosse reprovado perderia
a bolsa e a chance de prosseguir os estudos em uma escola de
excelência. Senti muito medo de desperdiçar a oportunidade que eu tinha.
Contei que durante três semanas eu esqueci da vida para me entregar
profundamente ao estudo da matemática. Foram dias e noites movidos pela
esperança de atingir a meta. Lembrei dos instantes de tensão que
antecederam o resultado e a alegria incomensurável que senti ao saber
que estava aprovado. Neste momento o ancião parou de tocar o tambor e
disse: “Isto é alegria! Houve a entrega. Você colocou o seu coração à
frente. A alegria não veio de fora, mas nasceu dentro de você. Os
motores da fábrica começaram a funcionar. Prossiga!” Determinou, para em
seguida intensificar o ritmo do tambor.
Então, mudaram as recordações. Eu comecei a me lembrar de momentos da
vida nos quais eu tinha me doado por inteiro. E da alegria florescida
em cada um deles. Falei de quando troquei algumas noites de sábados ao
lado de amigos para ir com o pessoal da igreja levar alimentos a pessoas
que moravam pelas ruas da cidade; das férias que segui com um grupo de
médicos para um país da África assolado pelas misérias de todos os tipos
ao invés de passear pela Europa. Ressaltei da alegria que eu sentia por
cada olhar e abraço que eu recebi dessas pessoas. Tornei a chorar, mas
agora eram lágrimas de alegria, compaixão e amor.
Naquele momento me dei conta uma coisa muito importante. Um detalhe
que modificava o todo. Confessei ao ancião que, na verdade, o que tinha
me impulsionado a fazer a caridade, não era o amor que eu tinha. Mas, ao
contrário, era o amor que eu não tinha, o vazio imenso que me habitava.
Ele sorriu e levantou os braços: “Perfeito!” Bradou, para logo
explicar: “A alegria tem que ser movimentada pelo amor. Não pelo amor
que tenho, mas pelo amor que busco. Não nos outros, mas através dos
outros em mim. Assim coloco o outro dentro do meu coração. O amor que
tenho é o amor que ofereço, não o amor que recebo. Antes de oferecer
amor ao outro pela necessidade dele em receber, o faço pela minha
necessidade em ofertar o amor. Não ofereço amor pela necessidade do
outro, mas, primordialmente, por precisar dar amor para sentir o amor
pulsando em mim e, então, ser feliz. Pratico a caridade porque preciso
fomentar o amor em mim. Percebo-me pequeno e me torno humilde.”
Questionei se não era uma atitude egoísta. Ele aprofundou: “Egoísta é
desejar apenas receber amor. Que os outros se obriguem a suprir um amor
que não quero fabricar.”
Tornou a ritmar o tambor, agora em tom bem suave, e disse: “Quando
ofereço amor, seja de modo puramente afetivo, como uma palavra ou um
abraço, seja através de um bem material, tenho que fazer por mim, pela
oportunidade do indispensável exercício do amor que eu preciso sentir no
coração. Se faço pelo outro irei me sentir superior a ele. Então o amor
se esgota nos ralos da vaidade e do orgulho. Amo a você porque amo a
mim; faço bem ao mundo porque faz bem para mim. Desta maneira me sinto
igual e do tamanho daquele que receberá o amor que tenho para dar. Assim
não caberão cobranças futuras nem restarão dívidas de ninguém para com
ninguém. Apenas amor.”
“Só existe alegria onde há amor. Apenas existe amor onde há a entrega de si por inteiro. Esta é a alegria do mundo!”
O tambor do deserto parou de rufar. A minha fábrica de alegrias tinha
começado a funcionar. Fez-se silêncio e quietude. O ancião foi buscar
mais duas xícaras de chá. Sentou-se em uma almofada à minha frente e
colocou as xícaras sobre uma mesa baixa que estava entre nós. Da minha
mochila tirei um maço de dinheiro e entreguei ao ancião. Ele recusou:
“Você não me deve nada. Não fiz por você, fiz por mim.”
Ofereceu-me um sorriso do qual me lembrarei até o dia do dia sem fim.
Eram como se os seus dentes brancos fossem estrelas do deserto. Fiz
menção em contestar, em dizer que não era justo, pois eu estava muito
satisfeito com a fábrica. O ancião fez um gesto com a mão para eu não
insistir: “Apenas lembre que a alegria é uma virtude que possui um
grande segredo: ela exige entrega absoluta. Para tê-la como companheira é
preciso que sejamos inteiros em qualquer coisa que fizermos.”
Olhou-me profundamente e disse: “Agora vá.” Em seguida, finalizou:
“Nunca esqueça que o amor é a matéria-prima da alegria. Ambas têm a
mesma origem; bebem da mesma fonte. Isso é fundamental para se ter uma
fábrica cada dia mais próspera”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário