Eu tinha acabado de fazer a minha prece. Ainda era bem cedo. Munido
de uma caneca de café, me sentei na areia para, mais uma vez, me
encantar com o caravaneiro e o seu falcão. Pousada na grossa luva de
couro que o caravaneiro usava no braço esquerdo, a ave parecia entender
as palavras que lhe eram sussurradas. Ao comando, se lançava aos céus.
Voava alto em círculos longos, como se não tivesse pressa, até que
recolhia as asas para mergulhar vertiginosamente ao solo e capturar a
presa. Serpentes ou pequenos roedores eram as mais comuns. Daquela vez,
trouxe em suas garras um camaleão. O deserto, ao contrário do que muitos
imaginam, não é um vazio de vida. Muitas espécies coabitam as areias em
simbiose contínua, embora nem sempre visível ao primeiro olhar.
Comentei esse fato como o caravaneiro. Ele me disse: “O que os olhos não
veem, não significa que não exista.” Fez uma pequena pausa e
aprofundou: “Ainda que os olhos vejam, não significa que compreenderam.”
Fiquei sem entender a fala do caravaneiro. Achei por demais
enigmática. Perguntei se ele se referia a algum animal. O caravaneiro me
olhou como a um menino e foi sucinto na resposta: “Também.”
Desconcertado por não saber o que pensar, insisti em perguntar de qual
espécie ele se referia. O caravaneiro apontou com o queixo para as
garras do falcão e disse: “O camaleão é o exemplo mais elementar.” E
seguiu para o acampamento, que começava a ser desmontado para iniciarmos
mais um dia de travessia rumo ao maior oásis do deserto. Fiquei com
aquela conversa na cabeça. Embora qualquer criança aprenda nas primeiras
aulas de ciências sobre o mimetismo de algumas espécies, entre elas o
camaleão, e o seu poder de disfarce, de aparentar aquilo que não é, ora
como estratégia de defesa, noutras como arma de ataque, o caravaneiro
costumava ser bastante direto em suas palavras. Porém, dessa vez, restou
a sensação de ter deixado um enorme texto nas entrelinhas da sua fala.
Quando alinhei o meu camelo na fila para a marcha, alimentava a
esperança de que a Ingrid, a bela astrônoma, emparelhasse comigo. Embora
a sua companhia me alegrasse, ela não mais tinha seguido ao meu lado
desde que discutimos pela última vez. Eu sentia falta dela. Os meus
olhos vasculharam por toda a caravana à sua procura. A encontrei
alinhada para a marcha ao lado de um mercador em animada conversa. A
fogueira do ciúme me queimou as entranhas. Fingi que não a vi.
Quem seguiu ao meu lado naquele dia foi outro peregrino, que, assim
como eu, também viajava na intenção de encontrar com o sábio dervixe que
morava no oásis. Muito simpático, ele puxou conversa logo que a marcha
começou. Falou que se iniciava nos estudos da metafísica e, talvez,
fosse prematuro estar na caravana, pois, ainda não se considerava
adequadamente preparado. De outro lado, confessou que há dias tinha
reparado em mim. Falou que uma aura de profundo conhecimento me
envolvia. Bastava prestar um pouco de atenção para perceber que eu era a
pessoa com quem o sábio dervixe mais se interessaria em conversar.
Diante do ciúme que me incomodava, aqueles elogios me trouxeram um pouco
de conforto. Ele disse se chamar Juan. Em seguida me fez várias
perguntas sobre questões esotéricas. Todas bem básicas, as quais eu não
tive nenhuma dificuldade em responder. Juan se revelou encantado com a
minha grande sabedoria. Disse que, sem qualquer dúvida, eu já podia me
considerar um mestre. A conversa seguiu agradável até a costumeira
parada que fazíamos no meio do dia para um breve descanso e uma refeição
ligeira. Juan notou que eu levava um punhal no cós da calça. Era uma
peça antiga, comprada em Damasco, confeccionada com o famoso aço da
região. O cabo era feito de ébano e tinha um valioso rubi incrustado na
guarda. Na bainha, em couro, havia uma prece árabe insculpida a fogo.
Ele me perguntou se eu usava o punhal como arma de proteção pessoal.
Respondi que sim, embora não necessariamente para uma luta física, mas
para me resguardar das vibrações deletérias. Expliquei que o aço, quando
próximo ao corpo, tem a capacidade de absorver boa quantidade da
energia densa que nos ronda. Acrescentei que era importante lembrar de
descarregar o punhal na terra no final do dia. Funcionaria como um
para-raios, exemplifiquei. Falei que era um pequeno segredo esotérico;
embora não fosse fundamental que se usasse o aço como proteção, pois a
mente e o coração, através das boas ideias e sentimentos, eram escudos
bem mais eficientes. Juan se mostrou encantado com o ensinamento e pediu
para ver o punhal. Com ele nas mãos, se revelou fascinado por aquela
peça que deveria ter atravessado séculos e pertencido a algum sultão ou
intrépido guerreiro. Perguntou se ele poderia mostrar a alguns amigos e
logo me traria de volta. Como negar um pedido tão simples de alguém tão
simpático? Respondi que tomasse cuidado, pois além de ser uma peça cara,
ela me acompanhava há anos.
Juan demorou a voltar. Quando retornou a caravana já reiniciava a
segunda etapa da jornada diária. Solicitei o punhal. Ele pediu muitas
desculpas, mas como os amigos também o tinham adorado, deixara com eles.
Porém, que eu não me preocupasse, pois à noite o devolveria para mim. A
desconfiança, uma das filhas do medo, se infiltrou em minhas veias.
Esforcei-me para dominar a minhas emoções. Juan era uma boa pessoa e
merecia a minha confiança. No entanto, me senti desconfortável com a
situação pelo resto do dia.
Ao final da tarde, quando paramos para montar acampamento e passar a
noite, Juan se afastou a pretexto de buscar o punhal. O tempo passou e
como ele não retornou, decidi procurá-lo. Olhei por todos os cantos sem
sucesso. Quando me aproximei de um grupo de homens que, agachados,
jogavam dados, vi um deles mostrando o meu punhal a outro. Falei que
aquele punhal era meu e o pedi de volta. O homem respondeu dizendo que o
tinha recebido como pagamento de dívida referente a apostas ocorridas
mais cedo. Argumentei que ninguém poderia pagar com algo que não lhe
pertencia. O homem disse que não me conhecia e me aconselhou a falar com
a pessoa para quem eu tinha “supostamente” entregue o punhal. Fiz
menção em pegar o punhal, mas um brutamonte se interpôs no meio em gesto
de velada ameaça.
Tornei a rodar pelo acampamento em busca de Juan. Eu estava
transtornado; o ódio tem este poder. Eu me alimentava dos meus piores
sentimentos. Vi a Ingrid, a bela astrônoma, em animada conversa com
outro grupo de pessoas. Ao me ver, ela percebeu que havia algo de errado
comigo e, atenciosa, veio ao me encontro. Quis saber o que acontecia. O
ciúme que eu sentia dela há dias tornou a aflorar. Naquele momento o
ciúme foi inflado pelo ódio. Respondi de modo grosseiro que não era da
sua conta, fazendo com que ela recuasse assustada. Senti-me ainda pior.
Perguntei por ele a diversas pessoas, mas ninguém o tinha visto.
Desorientado, parei no meio do acampamento olhando para todos os lados
sem o menor sinal do Juan. Girei em círculo e a caravana me pareceu uma
massa desfocada de gente, tendas e camelos emolduradas por céu e areia.
Foi quando vi que alguém me observava ao longe, um pouco além do
acampamento. Era a bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli.
Fui até ela. Derramei toda a minha indignação e rancor pelo ocorrido.
A mulher me ouviu com as feições serenas como quem escuta uma criança
narrar a descoberta de uma triste novidade. Falei que o meu defeito era
confiar nas pessoas. Acrescentei que nunca mais confiaria em ninguém; me
confessei desiludido com a humanidade. A bela mulher de olhos azuis
ponderou ao jeito socrático: “É possível ser feliz sem confiar nas
relações que construímos? Que tipo de pessoa me tornarei ao não confiar
nos outros? É possível existir uma relação verdadeira sem confiança?”
Abaixei os olhos. No íntimo eu sabia que era impossível. No entanto, eu ainda não estava disposto a admitir.
Quando não encontramos o apoio esperado, a irritação aumenta; à
medida que a irritação escala tons, os argumentos descem degraus. Falei
que era fácil ter um discurso generoso e altruísta quando não somos os
lesados de uma fraude. Ela balançou a cabeça em concordância e disse:
“Por isso as vítimas devem estar impedidas de julgar os seus algozes: as
emoções envolvem em névoas o melhor olhar, que carece da claridade para
uma análise isenta de paixões”.
Perguntei se ela gostaria de estar no meu lugar. A mulher deu de
ombros e comentou: “A estar no lugar do Juan, sim. Mil vezes ser o
lesado a ser o ladrão.” Falei que não era quanto a isso a que me
referia. Perguntei o que ela faria no meu lugar. “Aproveitaria a energia
das minhas sombras e as inverteria em meu favor.”
Tomei um susto. Pedi para ela explicar melhor. A mulher disse para
sentarmos na areia, pois a conversa não seria fácil. Acomodados, ela
falou: “Para começar é preciso que você entenda a parte que lhe cabe
nessa situação.” Discordei de imediato. Eu achava um absurdo culpar a
vítima pelo crime. Ela sacudiu a cabeça e disse: “Não é disto que falo.
Antes de qualquer reação é necessário que você entenda o quanto
colaborou para que a situação chegasse a esse ponto.” Falei que eu tinha
confiado em Juan, apenas isto. Foi a vez dela de discordar: “Para ser
justo admita que não foi tão simples assim. Sem dúvida, que você foi
lesado pelo Juan. Ele agiu de má fé, mas você também foi vítima das suas
próprias sombras.”
Perguntei se ela dizia que as minhas sombras tinham sido coadjuvantes
no crime perpetrado contra mim. A mulher fez um gesto de anuência com a
cabeça: “Exatamente isso. As suas sombras colaboraram com o Juan. Ao
derramar muitos elogios sobre você, ao ressaltar o seu suposto
conhecimento sobre metafísica, ele fez com que você se sentisse grande e
poderoso. Ele ativou o orgulho e a vaidade que habitam em você, sombras
que causam a sensação de força e poder, porém, têm pouca duração e os
seus efeitos nunca são benéficos. O conforto emocional proporcionado
pelo orgulho e pela vaidade o impediu de perceber a personalidade e as
intenções de Juan. As suas sombras as esconderam de você; sem a ajuda
delas, provavelmente, ele não teria conseguido te enganar.”
Fiz menção em continuar a discordar, contudo percebi que era inútil. A
mulher de olhos azuis tinha razão. A ilusão de me sentir poderoso tinha
me tornado uma presa frágil. Imediatamente me veio à mente a conversa
com o caravaneiro pela manhã. Sim, o camaleão e o mimetismo. Juan tinha
se passado como um bom amigo apenas para me enganar e furtar. Comentei
com a mulher, fazendo a ressalva de como os “camaleões” são perigosos e
nocivos. Ela sorriu e me lembrou: “Não seja apressado em suas certezas.
Existem também os ‘camaleões’ que nos trazem boas surpresas. Pessoas
que, por exemplo, vivem envoltas em humildade, simplicidade e
generosidade infinitas, que diante dos condicionamentos culturais que
distorcem a realidade e nos tornam míopes para verdade, passam por
insignificantes, quando, em essência, trazem em si o grande poder da
vida. Enquanto outras, repletas de honrarias, fama ou influência social,
muitas vezes vazias no âmago, ficam com os nossos aplausos e
admiração.” Fez uma pausa e concluiu: “Prestemos atenção aos camaleões
de todos os tipos, há boa dose de sabedoria nisto.”
Fiquei algum tempo em silêncio para concatenar a lição. Em seguida,
pedi para ela falar sobre “inverter o poder das sombras ao meu favor”,
como tinha se referido há pouco. A mulher explicou com paciência:
“Dentro de nós habitam os melhores e os piores sentimentos. Sem exceção.
Ignorar as próprias sombras é se fragilizar por abdicar de uma parte de
si mesmo. É se negar a ser por inteiro. Reprimi-las é cultivar um
jardim de recalques. Iluminá-las é a libertação dos sofrimentos.”
“Como se ilumina uma sombra pessoal? Teimar para que ela desapareça é
o exercício dos tolos. Iluminar uma sombra, como indica o nome, é
fazê-la trabalhar a favor da luz. Como fazer isto? Trate-a como a um
filho pródigo. Você cuida dele ou prefere expulsá-lo de casa? Abrace as
sombras com amor como se faz com um menino rebelde; depois mostre a ela
que não é preciso agir daquele jeito, pois sempre é possível fazer
diferente e melhor. Assim como um bom pai faz com os filhos. Iluminar é
educar na luz.”
“Como se faz isso na prática? Todas as sombras geram uma enorme
descarga de energia. Tanta que nos impede até mesmo de dormir. Brigamos
quando sentimos raiva, vingamos no ciúme, amaldiçoamos na inveja,
transferimos a responsabilidade na decepção, apenas para ficar com
alguns de inúmeros exemplos. Todos estes comportamentos são fontes
turvas que levam a um sofrimento ainda maior. Sem exceção. Ao final,
depois da revolta, temos a sensação de esgotamento e de vazio interior.”
“O segredo é desviar a energia primária das sombras ao invés de
reprimir, negar ou, pior, dar-lhe vazão. É fundamental redirecionar e
redimensionar a energia das sombras no sentido da luz. Use a sua
consciência como um aparelho transformador, semelhante àqueles que
existem nas hidrelétricas que aproveitam a força das águas para fazer a
magia da eletricidade.”
“As energias geradas pelas sombras não serão mais desperdiçadas nem
usadas de maneira destrutiva, porém, agora, transformadas em luz.”
Pedi para que exemplificasse. A mulher me ofereceu várias hipóteses:
“Há quem sinta raiva e quebre tudo à sua volta; existem aqueles que vão
aproveitar a energia gerada para fazer um bom treino de ginástica. Há
quem sinta ciúme e seja agressivo; existem alguns que pegam o violão
para compor uma canção. Há os que aumentam as suas listas de reclamações
a cada frustração provocada por um mal; existe quem troque cada uma
delas por um ato de caridade em favor do bem. Há os que, diante de uma
ofensa, pisam duro com as botas do orgulho; existem os que aproveitam
essa ventania para voar com as asas da humildade. Há que os insistem em
viver por vaidade; existem os que, em algum momento, entendem a dimensão
da fragilidade e se curam na simplicidade. Há quem culpe o mundo por
suas contrariedades; existem aqueles que as aproveitam como fatores de
estudo e aperfeiçoamento. Há os que se ofendem com tudo e com todos;
existem os que usam as mesmas situações como perfeitos espelhos para se
conhecerem melhor. Conhecendo a si mesmo, descobrem a verdade. A verdade
traz consigo o poder da plenitude.”
“Sofrem aqueles que ainda não sabem amar.”
“Assim, os que aprenderam a amar, ao invés de sucumbirem às sombras,
se fortalecem nelas. Tornam-se maiores por rasgarem a armadura que os
impedia de crescer. A sombra é a casca que impede o amor de florescer,
porém pode ser também o solo fértil que ajudará o amor a germinar. A
sombra pode ser inimiga ou aliada da luz. Trata-se de um olhar, um
entendimento e, por fim, uma escolha.”
A sombra como aliada da luz? Isto era novo para mim. A depender de
como irei direcionar a energia emanada por ela? Isto me desconcertava,
porém tinha de admitir que era genial. Perguntei onde ela tinha
aprendido isso. A mulher deu de ombros e respondeu: “No deserto com os
camaleões. Eles nem sempre são o que parecem”
Olhei para as estrelas por um bom tempo. Era preciso alocar os novos
conceitos. Seria necessário amadurecê-los em mim. Contudo, eles se
mostravam consistentes e sensatos. Quando tornei a olhar para o lado –
eu tinha uma série de perguntar a fazer – a costumeira surpresa: a bela
mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tinha se desmanchado no ar.
Fiquei sentado por mais algum tempo. Eu revirava a mente na tentativa de
encontrar uma aplicação prática para aquelas palavras. Aos poucos as
novais ideias serenaram o meu coração. Até que um grande burburinho me
chamou atenção no acampamento. Já mais tranquilo, me encaminhei até lá.
Encontrei Juan seguro pelos braços por dois encarregados da caravana.
Era acusado por outras pessoas de tê-las enganado, como a mim. Também
detidos por outros encarregados, estava o grupinho que apostava nos
dados. Entre eles o homem que tinha ficado com o meu punhal e o
brutamontes que lhe servia como guarda-costas. Desviaram o olhar quando
me viram. Era uma confusão danada; todos falavam e ninguém ouvia.
Preferi não dizer palavra; apenas observar.
Até que chegou o caravaneiro. Fez-se o silêncio. Um dos encarregados
fez menção em explicar os fatos. Com um gesto com as mãos o caravaneiro
mostrou que não era necessário. Em seguida, falou: “Todos poderão falar.
Ninguém terá a permissão de interromper a ninguém. Peço que não mintam,
mesmo aqueles que estiverem em erro. A verdade sempre protege.” Dos
lesados aos apostadores, todos tiveram a oportunidade de se expressar.
Enquanto uns se diziam vítimas, os outros sustentavam a própria
inocência. Juan também teve direito a se defender. Confessou ser vítima
do próprio vício em jogo. Lamentou o mal que tinha causado. Ele me
pareceu estar sendo sincero. Mais um truque do camaleão? Naquele momento
não me importava. De um modo ou outro, ele sofria por ser quem ele era.
A compaixão que senti por aquele homem me envolveu em leveza; e me
libertou dele. Sim, até há pouco eu estava aprisionado ao ódio que me
algemava ao Juan e consumia a minha alegria de viver.
Lembrei que antes de partir, o caravaneiro tinha me dito que durante a
travessia ele tinha o direito de vida e morte sobre todos os
integrantes da caravana. Ele era a lei; esta era a única lei. Temi pela
vida de Juan. Depois que todos falaram, o caravaneiro pareceu ponderar
por alguns instantes. Em seguida, prolatou: “É necessário ordem para
recompor a tranquilidade da caravana. É preciso justiça para haver paz
no coração. Sendo assim, declaro o perdimento do camelo de Juan para que
as vítimas sejam ressarcidas. O camelo será vendido imediatamente a
qualquer interessado por um valor justo. O dinheiro que sobrar será
devolvido a Juan, que terminará a travessia a pé, na rabeira da
caravana.”
O caravaneiro me olhou por um breve instante e perguntou se eu queria
dizer algo. Resumi os fatos vivenciados durante o dia com Juan e
apontei quem estava com o meu punhal. O homem se defendeu sob a
alegação de que tinha ganho o punhal honestamente no jogo. Portanto, o
punhal era dele. Eu que me resolvesse com o Juan. O caravaneiro falou
para mim: “Sobrará dinheiro da venda do camelo. Você pode ser
ressarcido, basta que estabeleça um preço justo pelo punhal.” Ponderei
que algumas coisas na vida não valem muito ou pouco dinheiro; possuem
outros valores. Disse que, apesar de gostar do punhal, o homem poderia
ficar com ele. Acrescentei que já tinha recebido o bastante naquele dia.
Mesmo sem entender, o homem pareceu ficar satisfeito.
O caravaneiro me olhou com uma profundidade estranha, como se fosse
capaz de ver a minha alma. Em seguida, se virou para o homem e
sentenciou: “O produto de um erro não pode pertencer a ninguém, salvo a
quem de justiça. Aqueles que aprenderam a abrir mão de tudo em favor dos
outros, desde que não lhe seja a essência e o essencial, são os que
merecem a brisa doce do deserto. Portanto, entregue-lhe o punhal.” Falou
se referindo a mim. As feições do homem se fecharam e ele fez menção em
ensaiar alguma reclamação, mas desistiu em razão da firmeza do
caravaneiro. Coloquei o punhal no cós da calça, agradeci ao caravaneiro
com um gesto de cabeça e me retirei. Não esperei pela venda do camelo
nem pelo ressarcimento dos demais.
Mil pensamentos se movimentavam freneticamente em minha mente. Era
preciso quietude para acomodá-los em seus devidos lugares. Afastei-me e
sentei em um lugar distante para que o silêncio pudesse conversar
comigo. Pensei nas metáforas e lições dos camelões como mestres ocultos
das sombras e da luz. Agradeci as oportunidades de ensinamento
proporcionados naquele dia. Agora era aprender a direcionar a força das
energias densas no sentido do bem, como maneira de, pouco a pouco,
transformá-las em vibrações sutis. Eu tinha acabado de experimentar essa
nova possibilidade de viver as minhas escolhas. Por fim, lembrei das
palavras do caravaneiro logo pela manhã, enquanto adestrava o falcão: “O
que os olhos não veem, não significa que não exista. Ainda que os olhos
vejam, não significa que compreenderam.”
Pela primeira vez me senti no comando das minhas emoções. No entanto,
sabia que ainda faltava muito para tê-las devidamente pacificadas. A
jornada era longa, mas era um bom começo. Tirei um lápis e a caderneta
de anotações do bolso. Decidi escrever uma poesia para a Ingrid. Falei
de como os meus sentimentos ainda eram camaleônicos; tanto para mim
quanto em relação a ela. O meu coração sorriu para mim.
Adormeci ali mesmo um sono tranquilo, protegido por um cobertor de estrelas, sob a luz da lua crescente.
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