O falcão ficou um logo tempo planando em círculos, como se apenas
flanasse despreocupadamente pelo deserto. De repente, recolheu as asas
para mergulhar vertiginosamente até a areia em ataque fulminante. Trouxe
uma serpente em suas garras. Por descuido, um pouco antes de pousar, o
réptil lhe escapou. Em frações de segundo, movida por instinto de
sobrevivência, a cobra se escondeu dentro de uma pequena toca entre as
pedras. Com o falcão pousado na grossa luva de couro que usava no braço
esquerdo, o caravaneiro se retirou. Um pouco afastado, com uma caneca de
café fresco à mão, eu observava o caravaneiro e o falcão. Acompanhar o
adestramento matinal do falcão tinha se tornado parte da minha rotina
diária. Em seguida, fiz a minha prece rogando por luz e proteção. O
acampamento estava sendo desmontado e logo seguiríamos para mais um dia
de travessia. Guardei as minhas coisas, ajeitei o alforje sobre o
camelo. Para a minha surpresa, quem tornou a alinhar ao meu lado para a
marcha foi a Ingrid, a bonita astrônoma. Animado, puxei conversa. Tive o
cuidado de, naquele dia, não polemizar com ela para não acabarmos em
discussão como ocorrera outras vezes. Ela era apaixonada por mecânica
quântica e quanto à sua aplicabilidade tanto na astronomia como na
construção da realidade. Dizia que o nosso cotidiano tem mais em comum
com as estrelas do que a nossa tosca filosofia era capaz de imaginar.
Agradável e inteligente em seus modos e argumentos, embora eu
discordasse de vários deles, ela fez com que a manhã transcorresse mais
rápida do que eu desejava. Quando me dei conta, já estávamos no meio do
dia, hora que costumávamos parar para um breve descanso e uma refeição
ligeira. Desmontamos dos camelos, estendemos um pequeno tapete para
sentar e me ofereci para buscar algumas tâmaras com os encarregados da
caravana. Ela aceitou com um sorriso. Eu tinha dado poucos passos quando
ouvi um grito. Eu sabia que era a voz da Ingrid. Virei-me rapidamente
e, ao mesmo tempo que vi a sua expressão de dor, observei uma serpente
fugir com impressionante agilidade pelas areias após morder a astrônoma.
Desorientado e aflito, gritei por socorro. Logo várias pessoas se
aproximaram. Nervosos, todos falavam ao mesmo tempo. Sem demora, um dos
encarregados pela segurança matou a cobra e confirmou o que todos
temiam. Era venenosa. Troquei um olhar de medo com a Ingrid. Desejei do
fundo do coração que tivesse soro antiofídico na caravana. Pensei que a
organização teria o zelo de trazer alguns remédios para situações
previsíveis como essa. Claro que teria. Não tinha.
Esbravejei diante da falta de cuidado. Os acusei duramente por
negligência. Foi quando o caravaneiro se aproximou. Ele trazia em si uma
estranha tranquilidade. Repeti as acusações de maneira ainda mais
veemente quando senti que ele não compartilhava do meu nervosismo. Ele
me ouviu sem se alterar. Ao perceber que eu não cessaria de reclamar, me
interrompeu. O tom de voz dele mesclava firmeza e serenidade: “Tudo que
a moça não precisa agora é que percamos o controle da situação”. Falei
que não podíamos perder aquilo que não tínhamos; a situação já estava
fora de controle e a culpa era dele. Se fossem um pouco mais previdentes
teriam o soro na caravana. O caravaneiro se manteve impassível diante
das duras palavras proferidas. Em seguida, me corrigiu: “Não tenho como
controlar os acontecimentos ao meu redor. É impossível para mim prever e
dominar todas as situações externas que podem influenciar a minha vida.
No entanto, posso controlar o universo de emoções que me habitam. Tenho
como oferecer uma boa razão para acalmar cada paixão que me assola. As
tempestades do mundo estão fora do meu domínio; as da alma apenas
acontecem com a minha permissão.”
Antes que eu retrucasse, Ingrid me tocou no braço. Em seguida disse
que não era hora do medo, mas da esperança. Ofereceu-me um sorriso para
alegrar o meu coração. Abaixei os olhos. Ele tinha razão; ela também.
Tudo o que não precisávamos naquele momento era do meu destempero. Eu
precisava me orientar pelas virtudes ao invés de seguir o impulso das
minhas emoções. Em silêncio, lamentei comigo mesmo de não ter tido um
comportamento melhor. Eu estudava com o intuito de aplicar o
conhecimento adquirido em momentos cruciais como aquele, porém, mais uma
vez, deixava escapar a oportunidade. Calei-me.
O caravaneiro pediu para trazerem a serpente. Na frente de todos,
abriu o ventre do animal com o seu punhal. Extraiu um líquido viscoso,
vertendo-o para uma taça. Depois solicitou que colocassem uma
determinada mistura de ervas em infusão. Tudo aquilo era desconhecido
para mim. Enquanto aguardávamos, vi a Ingrid quase desfalecer e tentei
animá-la. Ela começava a arder em febre. Quando chegaram com o chá, ele
misturou ao líquido retirado da cobra. Mexeu com o punhal. Em seguida
entregou para a astrônoma beber. Ela não hesitou. Fez uma careta
revelando o gosto amargo do elixir.
O caravaneiro orientou aos encarregados que fizessem uma maca para
ser transportada entre dois camelos emparelhados. Não queria que Ingrid
fizesse nenhum esforço. Mandou que a envolvessem com vários cobertores.
Era importante, não só pela febre, mas que ela transpirasse bastante, na
esperança que o organismo dela, estimulado pelo elixir, expelisse o
veneno pelos poros. Esperei que ele saísse e fui ao seu encalço. Eu
queria saber se ela ficaria bem. O caravaneiro foi sincero: “Não sei.”
Insisti em saber quais as chances de ela sobreviver. Mais uma vez a
honestidade imperou: “Pequenas. Muito pequenas. Aquele tipo de serpente
possui um veneno muito agressivo.” Eu não estava pronto para ouvir
aquilo. As palavras têm o poder de enfeitiçar, tanto para o bem quanto
para o mal. De imediato as emoções se avantajaram e por pouco não
tornaram a me aprisionar mentalmente. Tive que fazer um esforço enorme
para impedir que elas me dominassem mais uma vez. Embora soubesse que
naquele momento seria inútil insistir, não consegui deixar de ponderar
que seria prudente que a caravana trouxesse, nas próximas viagens,
algumas doses de soro antiofídico devido a grande quantidade de cobras
que existem no deserto. Eu queria deixar registrado a minha insatisfação
com o que considerava uma falha grave de planejamento. O caravaneiro,
talvez por sentir o meu sofrimento, me olhou com profunda compaixão.
Havia misericórdia em seus olhos. Ele explicou: “Não foi por
esquecimento. A razão é outra e bem simples. O soro precisa estar
refrigerado para não estragar. Seria difícil transportar uma geladeira
na caravana; impossível mantê-la ligada. Este é o motivo.” Ele tinha
razão. Calei-me. O caravaneiro aconselhou: “Mesmo que tivesse ocorrido
um erro, não é hora de desperdiçarmos energia, tempo e tranquilidade com
o que não foi feito. O momento é de concentrar esforços naquilo que
podemos fazer; nas soluções possíveis.” Ele concluiu: “Fizemos tudo o
que sabíamos. Agora temos que formar uma corrente de pensamentos bons em
torno da moça. Oferecer o nosso coração para que, unidos, sirvam de
alicerces para ponte pela qual os bons espíritos do deserto irão
transitar. Quanto maior o amor, mais carga a ponte conseguem suportar.” E
me deixou um aviso: “Uma boa ponte tem o tráfego interrompido quando um
dos seus pilares se mostra frágil. É como cortar o fio condutor para
interromper a passagem da eletricidade. Quem não se achar firme o
suficiente para manter o fluxo energético entre as dimensões que se
afaste neste momento. É também um jeito de ajudar.” E saiu.
A caravana retomou a marcha. Preocupado, alinhei o meu camelo logo
atrás dos camelos que transportavam a Ingrid na maca. As palavras do
caravaneiro não me saiam da cabeça; eu tinha alguma dificuldade de
alcançar a extensão delas. Ideias e emoções duelavam dentro de mim. Ao
mesmo tempo em que eu desejava a cura da astrônoma, eu tinha dificuldade
em acreditar que aconteceria. As condições eram muito precárias. Foi
quando fui surpreendido por uma voz: “O que determina se o andarilho
prosseguirá na jornada não são as intempéries da estrada, mas o poder
que ele traz consigo. As batalhas de um guerreiro não se definem na sua
destreza com a espada, as vitórias nascem na mente. Para vencer não se
pode temer a derrota; para se viver, ao menos com a intensidade que a
vida merece, não se pode temer a morte. A vida se molda na consciência.”
Era a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Ela emparelhou o
seu vigoroso cavalo negro ao lado do meu camelo sem que eu percebesse.
Brinquei que ela tinha de parar de ler os meus pensamentos. A mulher
sorriu e prosseguiu: “Não basta entender, é preciso aceitar; na
existência temos o indispensável exercício com a verdade. A verdade se
constrói na amplitude da consciência. Ambas são traços de uma mesma
régua.”
Eu disse que não tinha entendido. Ela começou a explicar: “Somos bem
mais do que os nossos corpos físicos. Somente ao aceitar esta realidade
nos será possível viver de acordo com outro nível de percepção. Fora
disto, todo o resto é ilusão e cotidiano. Conhecimento, quando aliado à
prática, permitem ir, desde que de maneira amorosa, além dos cinco
sentidos básicos. É quando deixamos a infância das sensações para
conhecer as infinitas possibilidades de outra realidade. Bem menos
física, bem mais poderosa.”
“Toda cura tem origem na consciência. Por sua vez, posso ter o
inconsciente como aliado ou inimigo, a depender de como será utilizado. O
mesmo martelo que utilizo na construção também posso usar na
demolição.” Interrompi para falar que o discurso continuava complicado.
Pedi para ela explicar melhor. A mulher de olhos azuis teve paciência:
“O inconsciente, movido por memórias ancestrais, aprisionado por
condicionamentos culturais, responde por nós mais do que costumamos nos
dar conta; ele é responsável pelo automatismo de quase todas as reações
que temos. Isto faz com que também sirva de limitador às novas
possibilidades. O inconsciente, enquanto selvagem e dominador, impede o
consciente de se expandir e conhecer todo o seu infinito poder. Educar o
inconsciente é primordial para a liberdade da consciência. A amplitude
do olhar leva à transformação do ser. A realidade ao seu redor se
modifica à medida que você a entende de maneira diferente.”
“Era sobre isso que o caravaneiro falava contigo. A consciência,
embora perceptível no corpo físico, está também fora dele. Este é o
indício inicial para conhecer novas capacidades ao permitir a interação
entre planos de existência. Se a parte mais importante do ser está além
do corpo, algumas outras funções vitais também podem ser alteradas fora
da esfera física. Claro que vários fatores, como o carma, por exemplo,
afetam o resultado pretendido. Pois evolução está intrinsicamente ligada
ao aprendizado. Contudo, não veja o carma como um bloqueador, mas como
um estimulante. O aprendizado irá movimentar o incomensurável poder que,
por ora, está fora de uso, proporcionando uma vida mais plena em
liberdade, dignidade, paz, felicidade e amor. Se carma é uma lição ainda
não aprendida, ele, em verdade, é um aliado à evolução. É do veneno que
se extrai o antídoto para a cura.”
“Para tanto, não se veja como um corpo, mas como um espírito. Não se
acredite uma mera matéria andante, porém, uma sofisticada energia
pulsante. Está é a diferença entre o estar e o ser; entre o meu e o eu;
entre a estética e a ética; entre o finito e o infinito. Você é um
espírito que neste momento precisa de um corpo físico para as suas
devidas lições evolutivas, principalmente as de ordem emocionais; para
entender melhor sobre a força mais poderosa do universo, o amor. Em
geral, os espíritos que necessitam de um corpo físico ainda sabem muito
pouco sobre o amor. Embora acreditem conhecer tudo sobre o assunto,
quase todos são desequilibrados amorosamente. Todos os carmas, direta ou
indiretamente, falam sobre o amor. Com forte influência dos
sentimentos, somos cada um dos nossos pensamentos. A harmonia daqueles
são imprescindíveis ao equilíbrio e à evolução destes. Assim moldamos a
realidade através da consciência. Nem mais nem menos.”
“Ideias alicerçadas em sentimentos que se materializam em escolhas.
Uma após outra, as escolhas desenham quem sou a cada momento. Emoções
equilibradas ajudam a aperfeiçoar as escolhas ao buscar inspiração nas
boas virtudes. O exercício das virtudes me aproxima da luz; não há outro
Caminho. Aos poucos, a plenitude se instala no ser, mantendo-o além das
tempestades mundanas. Assim temos uma vida diferente e melhor daquela
na qual fomos educados por padrões que privilegiam o plano material em
detrimento às conquistas invisíveis. É a diferença entre as grades e as
asas; entre o veneno e o antídoto.”
“A cada fração de segundo emitimos vibrações de acordo com o pensar
daquele instante. Os pensamentos formam ondas que navegam pelo espaço
gerando efeitos. Luz e sombras se alimentam deles. Cada onda tem uma
frequência própria: ondas longas quando as vibrações são densas; ondas
curtas nas mais sutis. Isto determina a qualidade da nossa energia;
define quem somos e as forças com as quais estamos em sintonia.
Estabelece o poder que temos a cada momento da existência.”
“As ondas longas formam abismos nas rotas do universo; as curtas
funcionam como pontes. Assim determinamos aonde podemos ir; se estamos
aprisionados ou se somos capazes de prosseguir. Quem define o alcance da
jornada é você; o seu olhar e o seu pensar. A sua consciência. As
vibrações sutis, por serem de ondas menores, possuem uma maior
capacidade de penetração. Logo, de transformação. Esta é a força do bem.
Quanto mais leve o pensamento, maior o poder da luz em você e ao seu
dispor.”
“O que concede leveza ao pensamento é a esperança na vida, é a fé em
si mesmo. A generosidade, a delicadeza e a paciência que tenho comigo e
com todos. A humildade em ser e a compaixão em sentir. A simplicidade no
viver. A alegria por perceber cada momento pulsando em minhas veias. A
sinceridade da palavra e a pureza de intenções que pavimentam todas as
relações. O amor que floresce em meu coração e eu compartilho com o
mundo. Assim alcançamos as estrelas.”
“Quando você se envolve com os desejos passionais, com a ignorância,
com o orgulho, a vaidade, o egoísmo, o ciúme, a intriga, a inveja, a
ganância, a vingança, a vitimização, com as conquistas meramente
materiais, acaba por criar dependências e relações dominadoras de desejo
e poder. O medo de não conseguir o desejo e, em seguida, o medo de
perdê-lo. Ao final, resta um imenso poder sobre a ilusão.”
“Tudo que você tiver medo de perder não vale a pena conquistar.”
“As verdadeiras e preciosas conquistas não podem ser roubadas; não se
desmancham no ar nem se deterioram pelo tempo. Este entendimento amplia
a capacidade do seu consciente em agir além da realidade física por
oferecer as pontes para atravessar os abismos dos poderes mundanos que,
em verdade, não passam de realidade aparente. A realidade consciencial
se vive concomitante ao mundo, mais está além do mundo. O mel da vida
acontece na essência do ser quando no exercício das virtudes. Este é o
poder da vida. A luz.”
“O mais curioso é que quando você se autobloqueia porque, em razão de
condicionamentos obsoletos, tem foco exclusivamente na aparência, em
uma convivência de superfície, apenas perceptível aos cinco sentidos
básicos, abre mão de usar o poder consciencial para a alteração da
realidade. Perde os ganhos verdadeiros e profundos. Cercado de abismos e
nenhuma ponte, resta impossibilitado de seguir a viagem pela negação
das possibilidades a que se impôs.”
A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli foi mais longe:
“Trazendo essa retórica para a situação da Ingrid, o caravaneiro tentou
explicar que é justamente o medo e a desesperança que impedem você de
ajudar a astrônoma.” Contestei de imediato. Era um absurdo pensar que a
Ingrid morreria por minha causa. A mulher de olhos azuis sacudiu a
cabeça: “Não foi isso que eu falei. Apenas disse que na atual esfera de
vibração em que você se encontra em nada irá auxiliar na melhora do
estado de saúde dela. O caravaneiro tentou explicar, entre outras
coisas, que o seu medo e a ignorância quanto ao próprio poder podem
romper o elo da corrente. A corrente de luz que tentamos envolver em
torno da Ingrid na expectativa de potencializar a sua cura.”
Tornei a discordar. Argumentei que o medo era natural. A Ingrid
corria sério risco e eu temia por sua vida. A mulher foi didática: “Sim,
o medo é natural. Mas o que fazer com ele, o medo, é uma escolha. Você
pode permitir que ele domine os seus pensamentos, bloqueando os
movimentos da esperança e da fé ao se depararem com abismos astrais que
você mesmo criou. De outro lado, tem a possibilidade de mostrar para o
medo que a vida é um ato de coragem, por indispensável aos desafios
inerentes à existência e ao aprendizado. Isto, por sua vez, inicia o
processo de mudança. A coragem encorpa a esperança por acreditar nas
infinitas oportunidades da vida. Ela sabe que sempre, de um jeito ou
outro, haverá uma nova chance. Nem mesmo a morte esgota as
possibilidades; apenas as transforma.”
“Não perca a oportunidade de agigantar a fé surgida a cada
dificuldade. A fé, embora muito falada, é a virtude mais desconhecida
entre nós; também uma das mais poderosas. A fé, ao contrário do que
muitos imaginam, não se trata de uma crença ou de somente acreditar em
Deus, na Luz ou no Universo. Este é apenas o degrau raso da fé. A fé
atinge a sua maior potencialidade quando percebo que ela, assim como o
amor e as demais virtudes, é parte do sagrado que me habita. No entanto,
a fé é bem mais do que a esperança e a firmeza, embora delas se
fortaleçam e lhes sejam essenciais. A fé se caracteriza pelo poder que
cada indivíduo tem de mover a força incomensurável que traz dentro de si
em favor de si mesmo e do mundo; o verdadeiro poder da luz. Isto faz
com que você passe a acreditar em si mesmo e no poder infinito de
transformação que possui. Acreditar em si mesmo, desde que com o mais
puro amor, equivale a acreditar em Deus.”
Diante do meu espanto, me olhou profundamente e murmurou como quem conta um segredo: “Sim, você pode.”
Falei que mesmo com toda fé existente eu não poderia impedir a morte.
A mulher de olhos azuis concordou: “Claro que não. E é bom que não
possamos, pois seria um ato de profundo egoísmo.” Discordei; ela
explicou: “A morte é um ato de amor. Um bonito e sábio gesto de amor da
Vida em relação à vida. Desde, é claro, que se entenda todo o amor que
há na vida.”
“Ela, a morte, encerra um ciclo de aprendizado para proporcionar o
início de outro, em diferentes condições de existência. A morte não toma
nada de ninguém, salvo dos que insistem em seus sentimentos de egoísmo e
dominação. Assim, além de um gesto de amor, se torna também um ato de
sabedoria e justiça.”
“A morte apenas altera a programação da vida, oferece uma nova chance
de evolução com diferentes ferramentas.” Tornou a falar como quem conta
um segredo: “A morte também faz parte do processo de cura e de
encantamento pela vida. A morte é uma benção. Sempre será, ainda que
tenhamos dificuldade para compreender.”
“Quando entendo que a minha morte não é inimiga da minha vida, mas
uma aliada, torno-me um guerreiro sem medo. Invencível pelo poder que
assumo.”
Ponderei que, se aquelas palavras fossem verdadeiras, de nada
serviria mentalizar ou rezar pela cura de Ingrid. A morte é inexorável e
tem a sabedoria de estabelecer a hora da partida. A mulher concordou,
em parte: “Na grande maioria das vezes é impossível. Entretanto, em
algumas poucas ocasiões é permitido um adiamento como exercício à
espiritualidade das pessoas envolvidas. A morte é um dos nossos melhores
mestres, desde que se ame e entenda a vida. Caso contrário, continuará
sendo um problema e, pior, um instrumento de ameaça disponível para
aqueles que se deixam manobrar pelas sombras.”
Eu tinha uma série de perguntas a fazer a ela, quando veio a ordem
para pararmos. Estávamos no final da tarde. Iríamos acampar ali naquela
noite. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli tocou com o
calcanhar no dorso do vigoroso cavalo negro, movimentou as suas rédeas e
logo sumiu do meu alcance. Aquela conversa tinha oferecido uma nova
ótica, mas que necessitava, como tudo mais na vida, do devido
amadurecimento; outras questões ainda restaram sem explicação para mim.
Como tudo mais na vida, um passo de cada vez.
A Ingrid foi acomodada em uma tenda com todo o cuidado. Fui
autorizado a ficar ao lado dela, que, de olhos cerrados, parecia em sono
profundo. Em vigília, sem nenhuma fome, recusei o jantar. Mas tarde,
quando o burburinho do acampamento silenciou, vieram à tenda o
caravaneiro, a mulher de olhos azuis, o bom homem do chá e a sábia anciã
com quem eu tinha enfrentado uma tempestade de areia há dias. Sentados,
formaram um círculo em torno da astrônoma deitada sobre tapetes e
almofadas. Perguntaram se eu me sentia apto a participar. Eu sabia que
não podia ser o elo fraco da corrente. Portanto, tinha que estar
disposto a me entregar por inteiro àquele momento; tinha que oferecer
todo o meu amor. Anui com um movimento de cabeça. O caravaneiro entoou
uma sentida oração em forma de canção. Os demais o acompanharam. Como
era desconhecida para mim, apenas me deixei envolver pela agradável
vibração que a música ancorou naquele instante na tenda. Todos
estenderam as suas mãos acima do corpo da astrônoma. Acompanhei o
movimento. Tive a estranha sensação que das minhas mãos pulsavam ondas
que eu nunca sentira. Em parte, originavam em mim; em parte, vinham
através de mim. Apesar da situação difícil da Ingrid, havia beleza e
leveza inegáveis naquela tenda. Não sei precisar o tempo que durou
aquele cerimonial simples e poderoso. Como a fé, igual ao amor.
Ao final, o caravaneiro sussurrou: “Que os bons espíritos do deserto
permitam que aconteça, não os nossos desejos, mas o que for melhor para a
Ingrid.” Dei-me conta, naquele instante, que, em verdade, nem sempre os
melhores desejos, ainda que puros e sinceros, representam as melhores
escolhas. Aos poucos, um a um, todos deram um beijo suave no rosto da
astrônoma e se retiraram em silêncio.
A sós com a Ingrid na tenda, pensei na frase dita pelo caravaneiro
antes de sair: “Que aconteça o melhor…” Havia sabedoria, amor e justiça
naquelas palavras. Quantas vezes não nos enganamos quanto ao melhor?
Como os nossos desejos são egoístas; os medos montam armadilhas
traiçoeiras. A visão de curto alcance nos traz um sofrimento
desnecessário por não entender o que existe além da curva, onde os meus
olhos ainda não podem alcançar. Não tinha como saber o que aguardava por
Ingrid na próxima estação. Era pretensioso da minha parte acreditar que
eu sabia o que era melhor para ela, quando muitas vezes nem sou capaz
de saber o que é melhor para mim. Sim, a morte é parte importante do
ciclo da vida por permitir a sua renovação em outros níveis e planos de
existência. Amar a vida consiste em entender a grandeza e a sabedoria da
morte; estar em paz com a morte nos permite viver os dias com
intensidade, coragem e amor.
Lembrei que do veneno da cobra se extrai a essência do remédio que
salva do próprio veneno; a doença ensina tudo sobre a cura. A coragem
nasce na forja do medo; a fé se origina do desamparo. As sombras, no
fundo, se tornam a semente da luz. A morte não é um mal, tampouco deve
ser temida; ela não é um veneno. A morte não mata nem é um fim. A morte é
a cura pela renovação, desde que haja respeito e amor pelo ciclo vida. A
morte me fala sobre o valor da vida. Portanto, jamais devemos chamar ou
desejar pela morte em respeito à vida. Porém, aceitá-la na sabedoria da
própria hora, como um mestre que encerra uma aula. O meu coração
serenou de maneira absoluta; as ideias ficaram claras como eu nunca as
tinha percebido. Senti uma paz desconhecida. Passei as costas da mão com
carinho no rosto de Ingrid e lhe desejei o melhor, de modo sincero,
ainda que fosse distante do meu desejo.
Tive a firme sensação de que, independente do que viesse acontecer,
nada me abalaria. A vida evolui em ciclos de aprendizado, transmutações,
compartilhamentos e infinitas viagens. Senti-me digno, livre e em paz.
Em comunhão comigo mesmo como forma de estar comunhão com a perfeição da
vida. Uma estranha leveza pareceu capaz de me sustentar no ar. Quando a
morte não mais assusta; a vida floresce em impensável beleza. O veneno
da morte me oferecera o antídoto para a morte. Tinha me ensinado uma,
apenas uma, das infinitas possibilidades de cura através da vida.
Então, quando eu não mais esperava, o inesperado aconteceu. A
astrônoma abriu os olhos e balbuciou por um pouco de água. Quando voltei
com o cantil, Ingrid sorriu para mim. Era um sorriso lindo e repleto
de vida. A febre cessou. Os seus olhos brilhavam. Naquele instante não
tive nenhuma dúvida de que a viagem dela ainda prosseguiria pelas areias
do deserto. Naquela caravana. Ao meu lado.
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