A travessia tinha chegado à metade. Naquele dia, todos na caravana,
principalmente os mais experientes, falavam do “ponto sem volta”. Um
determinado ponto no deserto, entre a cidade e o oásis, que quando
atingido, em razão da distância, não mais compensava voltar caso
houvesse algum imprevisto. A partir dali era melhor seguir adiante,
qualquer que fosse a dificuldade. Enquanto marchávamos, eu percebia um
enorme burburinho entre os viajantes. Eles falavam de uma determinada
lenda que envolvia o ponto sem volta, sem que eu conseguisse ouvir a
exatamente qual era história sobre esse lugar. Quem tinha o camelo
emparelhado ao meu nesse dia era George, um peregrino como eu, que
também viajava para conhecer o sábio dervixe, “conhecedor de muitos
segredos entre o céu e a terra.” George se mostrou muito simpático e
falante. Disse que dava aulas em uma escola esotérica e tinha inúmeros
alunos. Declarou-se um mestre, pois havia galgado vários degraus na
escala evolutiva graças ao extraordinário conhecimento obtido em muitos
anos de dedicação aos “mistérios do mundo”. Contou-me dos livros que
tinha lido, muitos dos quais eu nem mesmo ouvira falar do título. Em
seguida, começou a demonstrar a percepção apurada que possuía, indicando
as dificuldades emocionais, morais e espirituais de cada integrante da
caravana apenas ao olhar para eles. As horas se passavam até que, quando
tive a oportunidade, perguntei o que ele esperava do encontro com o
sábio dervixe. Ele revelou que esperava ter uma conversa séria com o
sábio pois, segundo o George explicou, o filósofo do oásis teria dito,
certa vez, que “assim como o ouro e a prata, os tesouros imateriais
também enferrujam.” Tal afirmação, de acordo com o George, que explicava
com muita segurança, continha dois erros conceituais. O primeiro é que
nem o ouro e a prata enferrujam, como todos sabem; o segundo é que as
conquistas imateriais jamais se perdem, como ensina a tradição
esotérica. O seu propósito era travar um debate com o sábio dervixe.
Tinha, inclusive, uma filmadora em seu alforje, pois pretendia registrar
a conversa para usar em suas futuras aulas e em redes sociais, onde
divulgava o seu enorme conhecimento. Aquilo me impressionou, seja pelo
inesperado, seja pelo indelicado. Tentei mudar de assunto e falei que
tinha ouvido sobre a lenda que envolvia o “ponto sem volta”, mas não
sabia exatamente qual era. Perguntei se ele a conhecia. George revelou
que naquela manhã tinha visto o caravaneiro contar a lenda para alguns
viajantes. Mas como as lendas não passavam de bobagens do imaginário
popular e o caravaneiro não era mais do que um homem rústico do deserto,
que nada sabia sobre os segredos da vida fora do universo estreito e
rotineiro da caravana, decidiu não perder o seu tempo com histórias
inúteis. Enquanto o professor falava sobre isso e outros assuntos,
chegamos ao ponto sem volta. Para a minha surpresa, que acreditava se
tratar de um lugar fictício no meio do deserto, havia um trem abandonado
marcando o local.
Sim, uma grande locomotiva, sobre alguns poucos metros de trilhos
além e aquém, jazia sobre a areia escaldante. Absurdo? Se tinha algo que
eu já tinha aprendido naquela travessia, era a aceitar as
possibilidades do impossível, entender a permanência da impermanência e a
conviver com o imponderável. Veio a ordem de parar para um breve
descanso e uma refeição ligeira. Antes de apearmos dos camelos, o
caravaneiro avisou a todos: “Podem tirar fotos à vontade, mas é proibido
subir no trem. Ele é um monumento a sabedoria dos povos do deserto.
Portanto, guarda em si o aspecto do sagrado para a nossa gente.”
Monumento? Sagrado? Estas palavras atiçaram ainda mais a minha
curiosidade a respeito da lenda que envolvia o trem que sinalizava o
ponto sem volta. Quase todos os viajantes, principalmente os que
realizavam a travessia pela primeira vez, como eu, pousaram com a
locomotiva ao fundo, seja para guardar uma foto como lembrança, seja
para testemunhar a inacreditável história que contaríamos quando
retornássemos às nossas casas. Quando todos esgotaram as poses ao redor
do monumento e se afastaram para lanchar, George se aproximou de mim,
com uma máquina fotográfica na mão. Pediu para que eu tirasse algumas
fotos dele. Mostrei-me solícito e, enquanto esperava que ele se
posicionasse, para o meu espanto, ele subiu no trem para que eu o
fotografasse. Lembrei a ele que não era permitido, mas George fez um
gesto com a mão como quem diz para eu deixar de bobagem. Insisti para
que ele descesse e me recusei a bater a foto. Diante da sua teimosia, ao
longe, o caravaneiro observava a cena com os braços cruzados e uma
expressão séria no rosto. Ao perceber o caravaneiro, o professor, em
atitude de desafio, não apenas se recusou a descer, mas sentou sobre a
locomotiva, retirou do bolso uma tâmara e, como se estivesse na sua
casa, cruzou as pernas e mordeu fruta como quem saboreia um prazer sem
pressa. Fiquei tenso.
Como se a minha tensão fosse o prenúncio de algo pior, naqueles
momentos do breve impasse, surgiram três tuaregues galopando os seus
camelos em velocidade; estavam armados com espingardas. Os tuaregues são
nômades que habitam o deserto há séculos. Com as armas apontadas para o
George e bastante enfurecidos, gritaram para que ele descesse do trem.
Desta vez o professor obedeceu. Com braços para o alto, ele foi alvo de
palavras hostis. Tomaram a máquina fotográfica da minha mão e, embora eu
tentasse argumentar a minha inocência, sob a honesta alegação de que me
recusara a bater a foto, me colocaram ao lado do George, encostado na
locomotiva. Um dos tuaregues tirou do alforje um enorme chicote e não
foi difícil entender, mais pelos gestos do que pelas palavras, que
seríamos punidos por desobediência e sacrilégio. É impossível saber como
reagiremos diante do medo provocado por um momento como esse. Enquanto
eu fiquei emudecido, sem conseguir falar uma única letra, o professor
tagarelava sem parar. Logo ele, tão culto e sábio, segundo os seus
próprios conceitos, alegava desconhecimento e ignorância naquele
instante.
Sob a mira das armas de dois tuaregues, o terceiro se aproximou de
nós com o enorme chicote na mão. Ninguém da caravana chegou perto, nem
mesmo os encarregados pela segurança. Todos se limitaram a olhar
apavorados. Apenas o caravaneiro andou em nossa direção. Ela parecia não
ter pressa nem medo; trazia consigo um olhar severo como eu nunca tinha
visto antes. Senti mais medo do caravaneiro do que dos tuaregues. Um
deles, o que parecia o chefe do grupo, disse que tínhamos violado o
código do deserto e seríamos punidos com dez chicotadas por isto. Era
uma pena branda se comparada com a punição extrema permitida pelas leis
dos povos da areia. Contudo, por consideração e respeito ao caravaneiro,
poderiam deixar de aplicar a pena se ele assim solicitasse.
Imediatamente o garboso professor se ajoelhou e, em lágrimas, implorou
que o caravaneiro advogasse o seu perdão. E tornou a implorar muitas
vezes.
Com sua a voz grave, quase rouca, o caravaneiro falou para o George:
“Durante a travessia, o que é seu eu não deixo que tomem; o que não é
seu, eu jamais lhe entregarei. Se quiser justiça, me peça. O perdão está
além de mim.” Em seguida, sem dizer palavra, fez sinal para que eu
saísse dali e fosse me juntar à caravana, como se declarasse a todos a
minha inocência. Rapidamente me afastei do trem e corri para onde estava
a nossa caravana. O professor voltou a clamar por piedade. O
caravaneiro somente o olhou.
O tuaregue mandou que o George virasse de costas e apoiasse as mãos
na locomotiva. Sem demora, a primeira chicotada estalou no ar se
misturando com muitos gritos. A roupa do professor foi cortada nas
costas. O tuaregue se aproximou e com as mãos terminou de rasgar a
blusa, expondo as costas nuas do professor ao castigo. Por enquanto,
havia apenas um grosso arranhão. Todos sabiam que o pior se avizinhava.
Foi quando, não tenho a mínima ideia de como, surgiu por detrás da
locomotiva a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli. Ela andava
como se bailasse sobre as areias do deserto. Tinha um sorriso
indescritível no rosto. Um sorriso que falava sobre a beleza da
compaixão, da misericórdia e do perdão. Era um sorriso que revelava a
grandeza do amor e a capacidade de superação do amor sobre o mal.
Qualquer mal; todo o mal.
Aproximou-se do chefe do grupo, tirou de dentro da manga comprida do
seu vestido a flor mais linda que eu já tinha visto e entregou a ele.
Uma flor azul, da cor dos seus olhos. Repetiu o gesto para os outros
dois, como se houvesse um jardim por debaixo da manga. Fez com que o
tuaregue que portava o chicote segurasse a flor na outra mão. Oferecia a
flor azul em troca do açoite. Ofereceu o dilema de outra possibilidade.
A possibilidade da luz. O seu gesto, embora singelo, continha um enorme
discurso sobre o amor e a tolerância aos intolerantes, que por
ignorância, se imaginam sábios.
Fez-se um silêncio absoluto. Até o vento parou para que todas as criaturas do deserto pudessem testemunhar.
Os tuaregues aceitaram o presente e as palavras não ditas pela
mulher. Ofereceram um sorriso sincero de gratidão. Gratidão pela lição;
pela oportunidade de transformarem sombras em luz. Sem dizer palavra,
cumprimentaram respeitosamente o caravaneiro com um gesto de cabeça e
partiram. O caravaneiro inclinou o corpo em reverência à mulher com os
olhos da cor de lápis-lazúli. Em seguida ele deu ordem para partirmos
imediatamente.
Com o camelo emparelhado ao meu, ao contrário daquela manhã, George
seguiu o resto do dia sem pronunciar um único som. Estava implícita à
justiça aplicada naquele caso, a função educativa que uma sentença
precisa trazer em seu conteúdo para que seja verdadeiramente justa, não
um mero ato de vingança. Em reflexão e arrependimento, tendo o enorme
susto como punição, o professor iniciava um processo íntimo de revisão
de valores e conceitos. Pensei em como isto tornaria mais proveitoso o
seu encontro com a sábio dervixe.
Ao final da tarde, como de costume, a caravana acampou para passar a
noite. Houve um silêncio diferente no restante daquele dia. As pessoas
quase não falavam, como se ainda metabolizassem os acontecimentos
presenciados, como se a lição, de alguma maneira, servisse a todos.
Afastei-me para olhar para estrelas e meditar. Sentado na areia, me
alegrei quando a bela mulher de olhos azuis sentou à minha frente. Falei
que ainda estava sob o impacto do ocorrido. Sentimentos e ideias novas
procuravam um lugar para morar dentro de mim. Pedi para ela contar a
lenda que envolvia a locomotiva e o ponto sem volta. Ela sorriu e
balançou a cabeça como quem diz que esperava por isso.
“Há muito tempo atrás, um poderoso sultão se apaixonou perdidamente
por uma belíssima moça, a mais linda do oásis. Pediu a sua mão em
casamento, ofereceu fortunas em ouro e prata como demonstração das suas
melhores intenções. A moça se confessou encantada pelo sultão e disse
que o aceitava como marido desde que ele jurasse nunca deixar enferrujar
o ouro e a prata que haviam em seu coração. O sultão aceitou de
imediato.”
“Ela tinha outro pedido. A moça gostaria de morar no oásis, onde fora
criada de maneira simples e pura, perto das pessoas que amava desde
sempre. O sultão explicou que não podia se afastar da cidade por longos
períodos em razão dos suas obrigações e negócios, mas que construiria
uma ferrovia entre os dois lugares para que eles pudessem se encontrar
com a frequência desejada pelo amor que os unia. A moça aceitou a
proposta.”
“O sultão empenhou todos os esforços para que a ferrovia ficasse
pronta o mais rápido possível, o que não demorou muito. Com o casamento
marcado mandou que o trem, em sua primeira viagem, buscasse a moça e
todos os que ela amava para a cerimônia religiosa que se realizaria no
palácio do sultão, um dos mais belos da cidade, luxuosamente reformado
por ocasião da festa. Reis e membros das monarquias dos mais distantes
lugares foram convidados. O trem, com o sultão que fez questão de
acompanhar a sua amada na viagem, partiu lotado do oásis rumo à cidade.”
“Durante a viagem, não demorou, a moça notou a maneira deselegante e
grosseira como o sultão tratava os seus subalternos e as pessoas pelas
quais ele não nutria nenhuma relação de afeto ou interesse. Explicou
para o sultão que todos traziam dentro de si uma enorme riqueza, os bons
sentimentos. Falou que a verdadeira nobreza não falava de dinheiro ou
títulos, mas era uma questão de amor e bons sentimentos. Como todas as
coisas que possuímos, precisamos usar o coração para que não enferruje. O
sultão disse que as pessoas não eram iguais e, portanto, não podiam ser
tratadas da mesma maneira. Acrescentou que ela não precisava se
assustar, pois ele era atencioso com as pessoas que amava. A moça
explicou que a virtude não estava em tratar bem aqueles que apreciamos,
mas na dignidade de respeitar e cuidar bem de cada pessoa, indiferente
da natureza das diferenças que se apresentavam. Por fim, disse que como
ele não era capaz de cumprir com a sua promessa, não haveria casamento.”
“Do alto do poder que imaginava ter, o sultão avisou que eles tinham
passado do ‘ponto sem volta’. Confessou que não podia obrigar a ela a se
casar com ele, mas caso ela insistisse em manter a decisão, mandaria
parar o trem para que a moça e os seus amigos descessem. Lembrou que
retornar a pé ao oásis seria uma tarefa bem árdua, quase impossível se
levasse em conta que estavam no meio do deserto.”
“A moça se manteve firme. Ela respondeu ao sultão que ‘não existe
ponto sem volta, pois sempre é possível refazer as escolhas, ainda que
pese o fardo das decisões anteriores. O deserto acolhe a todos que amam a
travessia e se guiam pelas estrelas que iluminam a sua noite.’”
Ansioso, eu quis saber pelo desfecho da aventura. A mulher tornou a
sorrir e seguiu a história: “Reza a lenda que o trem parou para que a
moça descesse junto com os seus amigos e parentes. Muitos dos empregados
do sultão resolveram por acompanhá-los; tinham aprendido a admirar os
modos da moça e perceberam que era possível uma vida diferente. Restaram
o maquinista e os funcionários mais fiéis ao sultão, que ficou
apreciando da janela do vagão aquela gente se afastar a pé até aonde a
vista alcançava. Quando ele deu a ordem para partir, por algum motivo, o
motor da locomotiva travou. Após constatarem a impossibilidade do
conserto, mandou um dos funcionários ir à cidade para trazer cavalos e
camelos necessários para o resgate. Tinham no trem mantimentos
suficientes para esperar. No entanto, no dia seguinte uma tempestade de
areia soterrou a todos e, sem completar a sua primeira viagem, deu cabo
da ferrovia. Exatamente no local onde conhecemos como ‘o ponto sem
volta.’”
Perguntei se a moça e o seu pessoal tinham conseguido retornar às
suas casas. A mulher de olhos azuis concluiu: “Não andaram muito. Não
demorou, encontraram um mercador de camelos que levava os animais para
negociar no oásis. Apiedado e generoso, ofereceu os camelos para o
transporte daquelas pessoas. Dizem que houve uma grande festa quando
chegaram.” Fez uma pausa e finalizou com as palavras usadas pela moça:
“O deserto sempre acolhe aqueles que amam a sua travessia e se guiam
pelas estrelas que iluminam a sua noite.”
Encantado, eu só conseguia pensar na estranha sincronicidade entre a
lenda e o motivo da conversa que o professor gostaria de ter com o sábio
dervixe, conforme ele tinha me revelado naquele dia pela manhã. Aquela
explicava e excluía esta. Falei que tinha sido uma pena que o George não
tivesse se interessado pela lenda. Talvez evitasse os dissabores pelos
quais passou. A mulher explicou: “Ele ainda fazia a travessia sem amor,
sem entender para onde seguia. De acordo com a tradição, o deserto
sempre corrige a rota daqueles que o percorrem sem rumo, usando do rigor
necessário a cada caso. O faz por amor.” Fez uma pausa e lembrou da
lenda: “Para atravessar o deserto é preciso não deixar enferrujar o ouro
e a prata que trazemos no coração.” Falei que os ensinamentos
esotéricos ensinam que as conquistas morais e espirituais, ao contrário
dos ganhos materiais, jamais se perdem. Ela concordou, com uma ressalva:
“Não as perdemos, mas é indispensável que estejam sempre em uso. Caso
contrário, em verdade, não a teremos.” Abriu os braços como quem fala o
óbvio e concluiu: “Ninguém perde aquilo que não tem.” Olhou para as
estrelas e disse: “Todos conhecem o amor”. Deu de ombros e deixou no
vento uma pergunta de simples retórica: “Mas do que adianta saber o que é
o amor sem amar?”
Fechei os olhos por instantes para concatenar em mim todas as ideias
encapsuladas naquelas palavras. Sim, quando tornei a abrir os olhos a
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli não estava mais lá.
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