Eu acordara tarde, ainda cansado das emoções vividas no dia anterior.
Embora tivesse dormido profundamente, parecia que o corpo ainda estava
cansado e pedia férias. Arrumei rapidamente as minhas coisas e as
coloquei no alforje sobre o camelo. Por sorte, consegui uma xícara de
café quando a tenda que servia de restaurante já estava quase
desmontada. Sem demora, a caravana partiu para mais um trecho da
travessia rumo ao maior oásis do deserto onde morava o sábio dervixe,
conhecedor de “muitos segredos entre o céu e a terra”. Quem tornou a
alinhar o seu camelo ao meu foi a Ingrid, a bela astrônoma de cabelos
ruivos que viajava para observar determinada constelação, possível de
ser avistada apenas sob o céu do oásis. Como tínhamos discutido dias
antes, fizemos as primeiras horas da marcha em silêncio, como crianças
birrentas. Em determinado momento, a astrônoma quebrou o mal-estar ao
comentar, com jeito travesso, que trocaria o seu camelo por um sorvete
de chocolate. Ri e devolvi que trocaria o meu camelo e os telescópios da
Ingrid por um colchão de molas, lençóis de seda e um potente aparelho
de ar condicionado em minha tenda. Divertidos, seguimos as horas
expressando os nossos desejos. Uns simples, outros nem tanto. Alguns tão
inseridos em nossas rotinas que nem dávamos conta do quanto nos
proporcionavam de prazer. É preciso deixar de ter para entender. De
comum, a impossibilidade de serem materializados sobre as areias do
deserto.
Embora no imaginário popular qualquer deserto não passe de uma
paisagem monótona cercada de areia por todos os lados, a caravana se
revelara mágica, não apenas pela fauna e flora surpreendentes, mas pela
quantidade de momentos inesperados que proporcionava. Tudo parecia nos
levar além dos sonhos mais criativos que alguém ousasse a imaginar.
Naquele dia, próximo ao poço onde nos abasteceríamos de água, tomei um
enorme susto ao me deparar com uma enorme pedra, do tamanho de um prédio
de dez andares. Em uma das faces tinha sido esculpido uma espécie de
templo. Como a cidade ancestral de Petra, no deserto da Jordânia,
reduzida a um único prédio. Isto no “meio do nada”, o que tornava ainda
mais absurdo o entendimento das razões daquela construção, assim como
quem seriam os seus geniais arquitetos e pedreiros.
Acampamos ao lado do poço, com a antiga construção a não mais de uma
centena metros de distância. O caravaneiro explicou que nada se sabia
quanto à obra, os autores ou as suas motivações. Arqueólogos
desconfiavam se tratar de um templo anterior às civilizações da
Mesopotâmia, Babilônia ou mesmo das pirâmides do Egito. Acrescentou que
se acreditava, embora sem qualquer registro histórico, fosse um templo
construído por um soberano muito poderoso para cultuar os desejos mais
íntimos da humanidade. Por isso tinha sido construído no meio do
deserto, longe de qualquer outro lugar habitado, na tentativa de o
indivíduo ficar próximo de si mesmo e distante das influências mundanas.
Disse que podíamos visitá-lo, mas que tivéssemos cuidado e voltássemos
antes do anoitecer. Animadíssimos, todos os viajantes de primeira
travessia, como a Ingrid e eu, partiram para lá munidos de curiosidade e
máquinas fotográficas. Embora majestoso pelo primor da construção vista
pelo lado de fora, por dentro não havia nada mais do que enormes salas
esculpidas na própria pedra. Uma sala levava a outra, em um labirinto
sem fim. Qualquer objeto ou tesouro, que por ventura tivesse existido,
restara saqueado há séculos. Um dos encarregados da caravana, que
acompanhou o grupo, disse para termos cuidado, pois era comum as pessoas
se perderem no emaranhado das salas. Logo à entrada, no alto do portal,
havia dizeres insculpidos na pedra em um alfabeto desconhecido. Uma voz
atrás de mim sussurrou a tradução: “Seu desejo, sua alma; seu desejo,
seu destino.” Era a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli.
Sorri em agradecimento, mas ela logo sumiu no meio dos viajantes,
andando para o interior do templo. Após a animação inicial e as muitas
fotografias, as pessoas retornaram ao acampamento. Ingrid entre elas. No
entanto, algo me mantinha estranhamente atraído àquela construção.
Decidi passear por entre as salas e, talvez, encontrar a mulher de olhos
azuis. À medida em que passeava pelas salas, eu me permitia imaginar os
diversos rituais ali consagrados em prol dos desejos. As oferendas, as
danças e os pedidos mais inconfessáveis de uma pessoa. Seguindo pelos
diversos compartimentos, entrei em uma sala pequena, mas que tinha algo
de diferente das demais. Era o único compartimento circular da
construção. Em um plano mais alto, com uma pequena escada esculpida na
rocha, havia uma mesa, também de pedra, que me pareceu um altar. Percebi
figuras e letras do mesmo alfabeto desconhecido insculpidas nas
paredes. Não tive dúvida de que estava na sala principal do templo.
Encantado e envolvido pela estranha vibração do lugar, fui surpreendido
pela entrada da bela mulher de olhos azuis. Ela anunciou: “Você tem
direito a um desejo. Apenas um. No entanto, para que seja realizado é
indispensável que também seja honesto. Não basta que seja um desejo
qualquer, é preciso que seja o maior de todos os seus desejos, o mais
sincero deles. Aquele escondido ou negado até de você mesmo. Caso
contrário, ele se perderá nas brumas do tempo”. Em seguida, permitiu:
“Faça-o.”
Ideias de dinheiro, sexo e poder logo me invadiram a mente. Embora,
confesso, tenha me ocorrido pedir investimentos bancários ou posição de
destaque perante a sociedade, falei que desejava a paz no mundo. Ela deu
de ombros e sacudiu a cabeça como quem diz que, além de clichê, o meu
pedido não era honesto por não ser, no íntimo, o mais desejado. E saiu.
Fui atrás dela. Não, eu não estava sendo sincero, apenas queria
impressionar, parecer altruísta e, talvez, enganar a mim mesmo. Perdi a
mulher de vista. Fui entrando e saindo das diversas salas. Eu não
conseguia encontrá-la. O estranho é que independente de onde entrava ou
saía, eu sempre voltava para a sala circular onde havia o altar. A sala
dos desejos. Como já anoitecia e eu não encontrava a mulher, decidi por
retornar ao acampamento. No entanto, por mais que eu buscasse a saída,
sempre acabava por voltar à sala do altar.
Comecei a ficar nervoso à medida que anoitecia. Do alto da
construção, os raios de sol, que clareavam os ambientes através de
minúsculas fendas, se despediam enquanto o crepúsculo se aproximava.
Gritei por ajuda em vão. Todos já haviam regressado ao acampamento.
Assustava-me passar a noite ali dentro; mais ainda, a possibilidade de a
caravana partir no dia seguinte sem notar a minha ausência. Projetei as
próximas horas, depois os dias seguintes, sem água e alimentação,
definhando até a morte. Seria um desenlace sofrido e doloroso, por
abandono. Apavorado, gritei e gritei. De novo em vão.
Não sei quanto tempo se passou. A tragédia em meus pensamentos
escalou tom sobre tom até o desespero. Então, sentado no centro da sala
do altar, gritei para mim mesmo que o meu maior desejo era sair do
templo de pedra. Eu estava sendo absolutamente sincero. Após alguns
instantes de intenso silêncio, ouvi o barulho de passos. Em seguida, um
facho de luz. Era a bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli com
uma vela acesa na mão. Aliviado, pedi para que ela me levasse logo para o
acampamento.
A pressa era minha, não dela. A mulher se sentou à minha frente e
apoiou a vela no chão. Alertei que temia que a chama exaurisse a
parafina e, no escuro, não encontrássemos a saída daquele labirinto. Ela
ignorou a minha observação. Perguntei por que ela tinha deixado eu me
perder. A mulher deu de ombros e disse: “Você se perdeu sozinho quando
quis acreditar na própria mentira.” Após alguns segundos, falou: “O
labirinto mais complexo, o mais difícil de encontrar a saída, não é o
templo de pedras, mas o próprio desejo. São nas veredas dos desejos que
perdemos a vida. O desejo é o enigma da vida. Os nossos desejos são a
perfeita tradução de quem somos. Ou melhor, de quem ainda não somos.
Quer conhecer uma pessoa? Decifre os seus desejos. E estará diante de
uma alma nua.”
“Um indivíduo se transforma na exata medida em que mudam os seus
desejos.” Em seguida ela me perguntou: “Os seus desejos são de ser ou de
parecer?” Falei que não tinha entendido. A mulher explicou ao jeito
socrático, com novas perguntas: “O seu maior desejo nasce de um ego
ansioso ou brota de uma alma serena? O seu maior desejo está ligado à
aparência sobre como se mostrará ao mundo ou à alegria pela intimidade
de estar diante de si mesmo? É um desejo por brilho ou por luz? Você
deseja os elogios de quem está à sua volta ou anseia por se sentir
confortado pelo próprio coração? O seu desejo mais íntimo é de
superfície aparente ou de profundidade oculta?”
“Diga-me os seus desejos mais íntimos e eu te direi quem és. Eis o enigma do ser.”
“Não aqueles desejos politicamente corretos. Estes são chatos, pois,
em verdade, embora não sejam mentirosos, estão guardados nas últimas
gavetas no armário dos desejos. Interessam-me os desejos mais vis, os
desejos inconfessáveis. Estes, sim, nos revelam por inteiro. Eles
permitem entender a encruzilhada que estamos no Caminho.”
“Contam os antigos sacerdotes que esta sala, em tempos imemoriais, na
época em que o templo estava em uso, era toda revestida por espelhos.”
Indaguei se era para que fôssemos obrigados a olhar para nós mesmos, a
nos enxergar por todos os ângulos. A mulher confirmou com um simples
movimento de cabeça e completou: “Ajudava a entender a raiz de cada
desejo.”
Com os olhos azuis iluminados pela chama da vela, ela me olhou
fixamente e disse: “O seu desejo de sair daqui foi sincero.” Em seguida
quis saber: “O que o motivou?” O medo, falei sem pestanejar. Ela
prosseguiu: “Entende a razão de tanto sofrimento? Enquanto os nossos
desejos forem movidos pelo medo significa que continuamos a escolher
impulsionados sofrimento de quem está perdido.”
“O medo nos conduz a desejos de ilusão existencial, na vã tentativa
de fugir do sofrimento, que, por efêmeros e inconsistentes em
substância, logo são trocados por outros e depois por mais outros, em
escalas infinitas de sofrimento e impossibilidades. Com isto, adiamos o
combate para entender e superar quem somos e, por consequência, a dor
que nos aprisiona. Nessa fase os desejos nos enganam como em um show de
ilusionismo. Acabamos por desejar através do medo quando não desejamos
com amor. Decifrar o desejo é compreender, em parte, a travessia do
deserto.”
Perguntei qual deveria ser a mola dos desejos para nos afastar do
medo e da prisão que lhe é consequência. A mulher deu um sorriso doce e
respondeu: “A esperança tem o poder de acalmar o medo.” Fez uma pequena
pausa e ampliou o raciocínio: “Com mais profundidade temos a fé, que, em
essência, é a capacidade de acender e usar a luz no âmago do ser. Ou
como preferem alguns sábios, o poder de mover o sagrado que nos habita. A
fé dissolve o medo.”
“É preciso que os desejos passem a ser dirigidos pela vontade de
aprimorar a si mesmo, de comungar com os outros, de abraçar o mundo e de
viver o dia de hoje; o desejo de viver o dom e o sonho. Os desejos
guiados pelo medo nos mostram o mundo como se fosse um objeto a ser
conquistado. Como não conseguimos pela impossibilidade da tarefa,
amaldiçoamos a vida e as pessoas. O mundo não nos quer mal; são os medos
que nos convencem disto e nos levam a um confronto desnecessário.
Quando nos movimentamos por medo seguimos em sentido contrário à vida e à
luz.”
Comentei que também era muito ruim, e bastante comum, os desejos
oriundos do egoísmo. A mulher balançou a cabeça em anuência e disse:
“Sim, é verdade. Mas o que é o egoísmo se não o medo que o indivíduo tem
sobre a sua própria capacidade de superação, a ignorância sobre quem
ele é e o verdadeiro poder que traz consigo?”
A mulher de olhos azuis afastou o seu olhar do meu. Os seus olhos
navegavam através de uma fresta entre as pedras que permitia ver uma
estrela através de uma nesga do céu. Ela comentou: “Em verdade, não há
nenhum problema com os desejos. O problema não são os desejos, mas as
forças que nos impulsionam até eles.” Falei que não tinha entendido. Ela
explicou: “A questão é quando o desejo é movido pela paixão de um ego
desajustado.” Interrompi para questionar se a solução era suprimir o
ego. A mulher negou: “Claro que não. Anular o ego é abdicar de uma parte
de si. Vai lhe faltar um pedaço. O ego tem a sua importância na
manutenção e cuidado das coisas típicas da existência, no entanto,
precisa buscar o exato equilíbrio. Este ponto apenas será possível
quando o ego restar devidamente pacificado com a alma.” Tornou a olhar
nos meus olhos e perguntou: “Entende agora o significado do termo ‘o bom
combate’?”
“Esse equilíbrio consiste em não viver apenas pela alma, isto é para
os anjos. Tampouco viver somente de acordo com os impulsos do ego, algo
comum àqueles que se perderam das estrelas. Porém, uma existência na
qual o ego e a alma bailam em perfeita sintonia, tanto para atender as
necessidades mundanas quanto para atingir a indispensável evolução
espiritual. Nada falta, nada sobra; tudo se completa.”
Fez uma pausa para concluir: “Estar sem dominar; ter sem possuir”.
Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Olhei para a vela, quase
toda consumida pela chama, sem mais me importar se logo chegaria ao fim.
Uma sensação diferente me envolvia e parecia mexer comigo de maneira
estranha, embora agradável. Ocorreu-me a ideia de que os desejos, quando
egoístas, se nutrem basicamente de medo. Medo de amar.
De que adianta conquistar o mundo se nele o meu coração não pulsa em amor?
Eu tinha chegado ao berço do egoísmo. Com uma conexão intensa com os
desejos, o egoísmo é uma doença que tem por causa a exacerbação e o
descontrole do ego. Trata-se de um ego que movido pelo medo, embora não
perceba isto; tem medo de amar, embora não saiba disto. A cura não é fim
do ego, mas a supremacia do amor em seus desejos, apenas possível
quando o ego estiver ritmado à alma. A alma é a casa da luz; logo, o
amor também mora lá.
Falei para a mulher de olhos azuis que eu sempre acreditara que a
expansão de consciência me libertaria dos labirintos do desejo. No
entanto, percebera naquele momento que não bastava. Era preciso amar em
igual medida. Esta era a solução do enigma do templo e também do
deserto.
A mulher sorriu satisfeita. Tomado por indescritível força, eu me
levantei e saí. Por não mais precisar, deixei a vela com a mulher de
olhos azuis. Sozinho andei pelos corredores e salas. Embora estivesse
muito escuro, eu não tinha qualquer dúvida sobre o destino a seguir. O
labirinto tinha sido desconstruído. Sem demora encontrei a porta do
templo. Como se flutuasse, caminhei pelo deserto até o acampamento da
caravana. Naquela noite fiz questão de dormir fora da tenda. Eu
precisava olhar para as estrelas.
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