O dia amanhecia no deserto. Afastado da caravana, sentado na areia
com uma caneca de café fresco na mão, eu observava o caravaneiro
adestrando o seu falcão. Ingrid, a astrônoma, se aproximou. Ela quis
saber a razão para eu ficar de longe, todas as manhãs, olhando o voo da
ave. Respondi que não sabia ao certo, mas algo ali me fascinava. Disse
que talvez fosse pelo fato de, diante da aridez do deserto, do
improvável, do impossível para muitos, o falcão sempre retornar com a
sua caça. Comentei que provavelmente era o instinto de sobrevivência do
animal, o seu determinismo biológico, porém a ave me passava a sensação
de que ela conseguia o seu alimento por acreditar que o encontraria.
Ingrid comentou: “Onde há uma vontade, há um caminho”. Aquela frase me
impactou pelo leque de interpretações que permitia. Falei isto para a
astrônoma. Ela levantou a manga da blusa e mostrou uma tatuagem no
antebraço. Disse que era um símbolo viking conhecido como Inguz.
Ele representava essa mensagem. No entanto, ela já a tinha ouvido
também na filosofia chinesa. Explicou que a verdade está presente em
todas as tradições. Discordei de imediato. Não quanto a onipresença da
verdade, mas do fato de a vontade se tornar necessariamente um caminho.
Ingrid apenas deu de ombros. Pediu licença, pois a caravana não
demoraria a partir e ela tinha algumas coisas para arrumar. Eu vi quando
o falcão retornou ao caravaneiro trazendo um pequeno roedor em suas
garras.
Não demorou muito a caravana seguiu o seu rumo. Guardei um lugar para
a Ingrid emparelhar o seu camelo ao meu, mas ela não o fez. Preferiu,
mais uma vez, marchar ao lado do astrólogo, com quem tinha conversado há
dias. Fiquei sem entender, uma vez que ela, como astrônoma, torcia o
nariz para a astrologia. Enciumado, mas sem admitir, decidi seguir sem
ninguém ao meu lado naquele dia. As horas seguiram modorrentas até que a
bela mulher com olhos de cor de lápis-lazúli se aproximou montada em
seu cavalo negro, o Vento. Marchamos por algum tempo sem dizer palavra
até que quebrei o silêncio. Perguntei se ela não achava sem sentido uma
cientista como a Ingrid gostar de conversar com um místico como o
astrólogo. Com os olhos fixos no horizonte, a mulher disse: “Os opostos
não se atraem, mas se explicam.”
Falei que ela estava enganada. As constelações, fundamento teórico da
astrologia, em verdade, são apenas ilusões de ótica formadas a partir
do ponto de vista de quem está na Terra. Ao olhar o céu de Marte ou
Saturno, aquelas mesmas estrelas farão parte de outras constelações que
não existem para quem as olha daqui. Em verdade, as constelações são
peças de ficção, criadas pela imaginação humana na ilusão de um olhar.
Falei que Ingrid sabia disto. No entanto, me deixava pasmo por insistir
em conversar com o astrólogo. A bela mulher explicou: “O que a fascina
não é a astrologia em si, mas a entrega sincera e por inteiro do
astrólogo ao seu ofício.” Fez uma pausa e concluiu: “Onde há uma
vontade, há um caminho.” Em seguida fez um movimento suave com as rédeas
do cavalo e se afastou.
Seguimos por mais algumas horas até que veio o comando, no meio do
dia, para um breve descanso e uma rápida refeição. Se engana quem pensa
que o deserto é apenas areia. Fomos avisados que pelo resto do dia
atravessaríamos um trecho conhecido como “Floresta de Pedras”, por causa
das suas enormes rochas. Peguei algumas tâmaras e me sentei na areia.
Próximo, um homem que deveria ter a minha idade, também sentado, me
chamou atenção pelos olhos tristes. Ofereci uma fruta, ele recusou com
educação e um sorriso sem vida. Falei que seguia com a caravana para
encontrar com o sábio dervixe, “conhecedor de muitos segredos entre o
céu e a terra”, que morava no oásis. Ele contou que os seus parentes
mais próximos também moravam no oásis, eram tecelões. Olhou-me com os
seus olhos foscos e confessou que esperava chegar ao oásis para ser
enterrado pelos seus parentes. Atônito, eu quis saber se ele estava
acometido por alguma doença incurável. O homem respondeu que não. Disse
que a sua saúde era boa, mas não via qualquer motivo para continuar a
viver. Como se mantinha com o dinheiro da herança deixado pelo seu pai,
que havia sido um hábil mercador de tapetes, achava mais sensato se
despedir da vida ao invés de continuar a dilapidar o patrimônio dia após
dia sem que tivesse um motivo para viver. Deixaria o dinheiro para
aqueles que conseguiam encontrar graça na vida. Salomão era o seu nome.
Fiz várias perguntas, mais no intuito de tentar encontrar uma maneira
de fazer com que revisse as suas ideias, do que por curiosidade. Ele
contou que após o falecimento do pai assumiu os negócios. A sua falta de
aptidão para o comércio o fez repassar as lojas para não ir à falência.
Sobrara um bom dinheiro, que escorria um pouco a cada dia, sem que
encontrasse qualquer razão que lhe desse alguma alegria. Tinha tomado
uma decisão, nem triste nem feliz, apenas uma decisão. Talvez a única
que fizesse algum sentido na sua vida.
Logo veio a ordem para a caravana seguir. Preocupado com o Salomão,
fiz o resto da marcha naquele dia ao seu lado. Tentei conversar mais um
pouco com ele, porém as suas respostas se tornaram monossilábicas. O
silêncio dominou o restante daquele dia, enquanto atravessávamos o
trecho rochoso do deserto. Havia muitas pedras. Algumas formavam
construções enormes, do tamanho de um edifício. Estávamos ao final desse
trecho quando anoiteceu. Paramos para montar o acampamento em frente a
um conjunto de pedras que formava uma estranha caverna. Veio a
orientação para que ninguém entrasse na caverna, pois havia casos de
viajantes que nunca mais foram encontrados.
Afastei-me de Salomão para cuidar dos meus afazeres. Na hora do
jantar, eu me servia de um guisado de legumes quando ouvi um tiro.
Espanto, correria e muitos gritos. Ao longe percebi que dois homens
atracados rolavam na areia. Eles disputavam a posse de um revólver. Eram
Salomão e o caravaneiro.
Diversos encarregados da caravana acudiram de maneira rápida e
eficiente. Não havia feridos. O caravaneiro tinha impedido que Salomão
cometesse um suicídio. Ele não tinha conseguido esperar até a chegada ao
oásis para que seus parentes o enterrassem; a tristeza era maior que a
sua vontade. Por pouco, se não fosse a intervenção atenta do
caravaneiro, teria conseguido completar o desatino. Quando cheguei,
Salomão chorava de soluçar. Sentei-me ao seu lado e o abracei. Várias
pessoas se aproximaram. Falei que elas podiam ir, pois eu cuidaria dele.
Ficamos a sós. Deixei que chorasse até esvaziar o coração. Dizem que
choramos quando a alma transborda de emoção. Aos poucos ele foi se
acalmando; eu o deitei na areia. Passou um tempo que não sei precisar, a
caravana se preparava para dormir. Salomão continuava desperto, com os
olhos fixos nas estrelas que enfeitavam o céu do deserto. Foi quando a
bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli se aproximou.
Sem nada falar, entoou lindas canções. A música pareceu tranquilizar o
ambiente. Fez uma dança suave em volta do homem. Quando os meus olhos
lhe perguntaram porque ela fazia aquilo, ela mexeu os lábios em resposta
sem som: “Para limpar a atmosfera.” Depois, se ajoelhou ao seu lado.
Com as mãos vazias, em movimentos circulares, sem parar de cantar,
enviou boas vibrações para o Salomão. Percebendo-o mais calmo, perguntou
se ele aceitaria um convite para fazer um passeio com ela. O homem
balançou a cabeça em anuência. Então, pediu para que ele se levantasse e
a acompanhasse. Iriam à caverna. Havia algo que o aguardava lá dentro.
Salomão se negou, confessou que sentia medo. A mulher estendeu a mão e
disse: “Segure e confie. Estarei ao seu lado.” Fez um movimento com a
cabeça para que eu também fosse. Pensei em falar dos perigos dos quais
fomos avisados sobre a caverna, porém a suave firmeza que a bela mulher
de olhos azuis transmitia era arrebatadora.
Ela assobiava uma doce melodia quando entramos na caverna. Paramos
por algum tempo para que os nossos olhos aprendessem a ver na escuridão.
Andamos por entre pedras que formavam um labirinto até que, em
determinado momento, onde parecia se formar uma pequena porta, ela disse
que apenas ao Salomão seria permitido passar ali. Em seguida,
acrescentou: “Alguém que você abandonou o aguarda. É um encontro
importante e esperado.”
Antes que ele entrasse, a mulher falou: “Você será perguntado pelo
fato gerador do seu desânimo.” Salomão interrompeu para saber o que era
fato gerador. Ela explicou: “Fato gerador é o vírus que precisa ser
inoculado; é o motivo pelo qual você desistiu da vida.” E fez uma
importante ressalva: “Este encontro será movimentado pela verdade. Aqui a
ilusão se desmancha.” Fez uma breve pausa antes de prosseguir: “Quem
irá conversar contigo é a sua alma, a sua metade esquecida e reprimida,
escondida nos cantos escuros de si mesmo. Ela está entristecida pelos
sonhos negados. Isto causa fraqueza e desequilíbrio. Somente a alma pode
iluminar os seus passos, renovar-lhe as ideias e semear a alegria em
seu coração. Quando a relegamos, abandonamos a nós mesmos nos
radicalismos do ego. Então, algum dia, cedo ou tarde, a depender da
sensibilidade de cada um, implodimos como um prédio que não tem mais
forças em seus alicerces para manter firme as suas paredes e teto.” Fez
uma pequena pausa e explicou: “Isto não é de todo ruim se soubermos
aproveitar a oportunidade do momento para refazer a construção da casa
na qual moramos. Habitamos na casa em que construímos. O ego é o
pedreiro; a alma, o engenheiro. Eles devem trabalhar em comunhão. Isto
transforma um casebre em ruínas em uma fortaleza inexpugnável. O poder
de construir a própria beleza e solidez sempre foi e será seu.”
Fez com a cabeça um movimento para ele seguir. Salomão hesitou por
instantes, olhou para a mulher que lhe ofereceu um sorriso repleto de
confiança. Ele soltou a mão dela e atravessou a porta. Esperamos por um
tempo que não sei precisar até ele retornar. Tinha sido uma conversa
silenciosa, na quietude de um coração que precisa se fazer ouvir.
Salomão trazia um rosto banhado em lágrimas. Ele teve dificuldade para
falar por causa do choro. A mulher esperou com infinita paciência que
ele se acalmasse. Muito emocionado, o homem contou que, a sós com a sua
própria alma, lembrou que sempre teve vontade de ser professor. A ideia
de ampliar e compartilhar o conhecimento o encantava desde sempre. A
possibilidade de estar em sala de aula, de ensinar a crianças e a
adultos era fascinante para ele. No entanto, não conseguiu enfrentar ao
próprio pai, um homem que, embora carinhoso, era enérgico e dominador.
Achava-se no direito de decidir o que era melhor para o filho. Perpetuar
gerações no comércio de tapetes era a sua vontade, porém não era a
vontade de Salomão. O sonho de Salomão era o magistério. Contudo, o
tempo passou sem que Salomão tivesse força para movimentar a sua
vontade. Agora ele se achava velho para resgatar o próprio sonho. E sem
motivo para viver.
A mulher de olhos azuis pediu para que Salomão olhasse para o lado.
Havia outra porta que não tínhamos percebido. Ela disse: “O seu pai está
aí dentro, escondido em algum lugar escuro. Use a lanterna para
iluminar todos os cantos.” O homem disse que não tinha nenhuma lanterna.
A mulher orientou: “A lanterna surge quando substituímos o medo de
falhar ou de decepcionar os outros pela vontade de sermos nós mesmos. É a
coragem de ser único. Nas diferenças reside toda a luz; todo o poder e a
beleza do ser.”
Percebendo a presença do medo, o ensinou: “Não tenha medo de sentir
medo. O medo é um vazio existente em todos nós a espera de ser
preenchido pela coragem. Então, tudo se transforma.” Logo em seguida
complementou: “No mais, os anjos do deserto o guardarão e iluminarão
sempre que precisar e solicitar.” Tornou a fazer uma pausa e o
incentivou: “Vá! Eu estarei aqui para quando você voltar. Contudo, o
mais importante é saber que você sempre terá a si mesmo para se
acompanhar, se alegrar e se encantar.”
Salomão respirou fundo e atravessou a outra porta. Após alguns
minutos de silêncio absoluto, ouvimos o seu choro. Ele falou lá de
dentro: “É o meu pai, ele está aqui. Mas tudo continua muito escuro.” A
mulher prosseguiu nas orientações: “Aumente a luminosidade da lanterna.
Para tanto, não olhe para o seu pai com mágoa, rancor ou ressentimento.
Também não olhe com culpa nem para ele nem para si. Não existe culpa
nenhuma. Olhe para o seu pai com gratidão, com misericórdia, com
compaixão, com gentileza, com generosidade. Ele fez o melhor que sabia
fazer naquele momento. Olhe para o seu pai com amor. Com todo o amor que
houver na vida”. Fez uma pausa e, como se pudesse imaginar a cena que
acontecia, aconselhou: “Abrace-o com vontade!”
Aos poucos os soluços foram diminuindo de tom até darem lugar a
cochichos que não consegui entender. Então, ouvi gostosas risadas.
Passado algum tempo, Salomão retornou. Em uma mistura de lágrimas e
sorrisos, percebi que o Salomão que voltava era diferente do homem que
tinha ido. O seu olhar trazia uma luz que dissipava a escuridão da
caverna. Agradecido, ele disse para a mulher, ao se referir a conversa
que acabara de ter com o pai: “Nós nos perdoamos. Ele por ter sido
autoritário; eu por ter permitido a dominação. Libertei-me; nos
libertamos. Sinto-me digno; estamos em paz.” Ela apenas sorriu em
resposta. Saímos da caverna.
Sentamos na areia do deserto. Ainda seria preciso algum tempo para
alocar todas as ideias que cada um trouxe de dentro da caverna. O
silêncio foi quebrado por Salomão. Ele falou que quando chegasse ao
oásis montaria uma pequena escola para alfabetizar adultos que nunca
tiveram a oportunidade de aprender a ler e a escrever. Como havia uma
lacuna na educação das crianças que moravam lá, também daria aulas de
reforço para elas. Disse que não queria mais morrer; a vida o encantava.
Ofereceu-nos um lindo sorriso, disse que precisava descansar e, feliz,
se retirou para a sua barraca.
Comentei para a mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli que estava
impressionado com a mudança ocorrida naquele homem. Ela deu de ombros e
disse: “Ele agora tem uma vontade”. Olhou para as estrelas e falou:
“Quando vivemos o nosso sonho nos tornamos pessoas agradáveis, leves e
confiantes. Vivemos impulsionados pela alma. Então, a alegria se faz
companheira.” Pediu para que eu também olhasse para as estrelas e
concluiu: “A vontade é a força que move todas virtudes, que por sua vez,
devem orientar as nossas escolhas. O amor é a vontade de ser um bom
lugar para o outro descansar; a fé é a vontade de movimentar universo
dentro e através de mim; a sinceridade é a vontade de viver a verdade da
maneira como a entendo. Onde há vontade, há um caminho.”
Encantado com as estrelas que ilustravam aquelas palavras, me deixei
levar em reflexão por breves instantes. Quando me virei, a cena
recorrente das noites no deserto: a bela mulher não estava mais ao meu
lado. Tinha se desmanchado no ar.
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