Acordei com o céu do deserto ainda estrelado. Ao Leste o sol
anunciava levemente a sua hora colorindo uma pequena faixa do horizonte
em tom pastel. Ingrid, astrônoma que tinha adormecido na areia ao meu
lado no dia anterior, estava com os olhos abertos, encantada com as
estrelas. Quando ela me percebeu também desperto, comentou do seu
fascínio pelos astros celestes e por todo mistério que o universo ainda
encerra. Falei que o mistério existe na proporção indireta do nosso
conhecimento. Porém, curioso, perguntei sobre o que ela pensava ao falar
aquilo. “O nosso céu é o céu do passado”, ela respondeu. Eu disse que
não tinha entendido. Ingrid explicou que como as estrelas estão a uma
distância absurdamente grande, a muitos anos-luz de nós, significa que
as estrelas que estávamos vendo naquele momento já não estavam mais ali e
podiam até mesmo nem mais existir. A astrônoma falou que as estrelas
explodem quando terminam o seu ciclo de existência, mas em razão da
enorme distância, a imagem de um fato ocorrido no espaço demora anos
para chegar até a Terra. Ou seja, aquilo que meus olhos viam podiam não
mais existir. Apontou para uma estrela qualquer e concluiu: “Aquela
estrela pode ser apenas uma ilusão em razão da possibilidade de, na
realidade, não mais existir. A ilusão permeia e se mistura à realidade
por todo o tempo quando estudamos astronomia.” Comentei que eu tinha a
sensação de que na vida também era assim; nem sempre era fácil discernir
a ilusão da realidade. Permanecemos em silêncio, olhando para as
estrelas, pelo tempo de o sol escalar mais alguns poucos graus e o
acampamento despertar. Após levantar e arrumar as nossas coisas para
partir para mais um dia de travessia, fomos tomar o desjejum. Enquanto
bebia um delicioso café fresco, observei que uma enorme duna que havia à
nossa frente na tarde anterior, quando acampamos, tinha desaparecido,
varrida pelo vento da noite. Confessei para a Ingrid que a instabilidade
das coisas me trazia desconforto. Ela apenas deu de ombros como quem
diz que é inevitável e se afastou para cuidar de alguns afazeres.
Reservei um lugar para a astrônoma alinhar o seu camelo ao meu. Eu tinha
adorado conversar com ela e desejava a sua companhia. Como até a hora
de iniciar a marcha ela não tinha aparecido, passei os olhos por toda a
caravana a sua procura. Foi quando a vi pronta para prosseguir ao lado
de outra pessoa. De imediato, sentimentos ruins se apossaram de mim.
Esforcei-me para controlar o mal-estar que eu sentia. Em vão. Tentei
me distrair com a paisagem do deserto, mas tudo me pareceu de uma
insuportável mesmice. Naquele dia, quem seguiu com o camelo alinhado ao
meu foi uma senhora de idade avançada, com a pele maltratada pela
intempérie do deserto, que, porém, aparentava gozar de boa saúde.
Percebi que ela me olhava como se fosse capaz de ver além de mim, além
do meu corpo; como se fosse possível ler a minha alma. Como isto me
trazia um grande incômodo, a olhei, com a expressão séria, fixamente nos
olhos, para que parasse com aquilo. Ela sorriu deixando à mostra um
dente de ouro. Em resposta, virei o rosto para frente como quem diz que
quer ficar sozinho.
Quando eu esperava que a caravana parasse no meio do dia para um
breve descanso e uma leve refeição, como de costume, veio a ordem do
caravaneiro comunicando que seguiríamos sem a parada para que fosse
possível acamparmos ao lado de um poço onde nos reabasteceríamos com
água. Esta mudança de rotina aumentou o meu já enorme desconforto. Mesmo
sem que eu nada perguntasse, a senhora que seguia ao meu lado disse:
“Escolha quem vai te acompanhar, não apenas na caravana, mas em todos os
dias da tua vida.” Falei que quem eu desejava que estivesse ao meu lado
não quis estar. Ela, como se soubesse que eu me referia a Ingrid,
aconselhou: “Não me refiro a outra pessoa, pois não somos nem devemos
nos sentir donos de ninguém. Isto é dominação, raiz de muito sofrimento.
Para ser livre é indispensável respeitar a liberdade alheia.” Fez uma
pausa para prosseguir em seguida: “Digo quanto aos seus anjos e
demônios. Quem determina a aproximação, seja de uns, seja de outros, é
você mesmo. Luz ou sombras se definem em sua mente e em seu coração.
Assim se constrói a realidade; todo o resto é ilusão.” Tornou a pausar
antes de concluir: “Aceite que as circunstâncias mudam quando a vida
precisa avançar em outra direção. Negar a evolução é se aprisionar à
ilusão; se opor à mudança é desperdiçar a melhor oportunidade oferecida
por uma nova realidade”. Sacudi a cabeça como quem diz que ela não sabia
nada sobre a minha vida e segui calado. A senhora também não disse mais
qualquer palavra.
Ao cair da tarde chegamos ao poço. O acampamento foi montado e toda a
caravana se abasteceu com água. No jantar, o delicioso guisado de
carne-seca de carneiro com grãos cozidos não foi servido como de
costume, sendo substituído por uma sopa de aparência estranha. Entre a
decepção e a irritação, me recusei a jantar. Como se não bastasse,
reclamei com um dos cozinheiros, que me respondeu de modo grosseiro.
Afastei-me para ruminar a mágoa que eu sentia, agora não apenas de
Ingrid, mas de toda a caravana que parecia estar em complô contra mim.
Não demorou, Ingrid se aproximou. Ela disse que estava me procurando
para conversar, pois queria contar da incrível conversa que tivera
durante o dia com um astrólogo que seguia para o oásis junto com a
caravana. Trazia uma cuia de sopa, que segundo o seu paladar, estava
deliciosa. Animada, falou que travou um embate teórico com o astrólogo
entre a ciência e o misticismo; astronomia versus astrologia.
Sarcástico, perguntei se ela se sentia vitoriosa. A astrônoma percebeu o
tom da minha voz e, ao invés de responder a provocação, quis saber a
razão de eu estar magoado. Expliquei os meus motivos. Ela comentou que
eu estava sendo imaturo. Disse, ainda, que poderíamos conversar para
esclarecer. Dando vazão ao meu ressentimento, falei que não estava
disposto naquele momento. Ingrid falou que entendia e se foi. Fiquei
ainda pior.
Naquele momento estar no meio do deserto seguindo em caravana para um
oásis na tentativa de conhecer um sábio dervixe, “conhecedor de muitos
segredos entre o céu e a terra”, me pareceu uma ideia absurda. Desejei
imensamente estar no conforto da minha casa, vivendo a rotina que me
agradava, ao lado daqueles que me amavam, quando vi a bela mulher de
olhos da cor de lápis-lazúli sentada na areia, afastada de todos, em
posição de meditação. Cheguei próximo, mas hesitei em interrompê-la. Sem
abrir os olhos, ela me convidou para sentar. Ao me acomodar, eu quis
saber como ela tinha me percebido com os olhos fechados. A mulher
respondeu como quem diz o óbvio: “A energia densa que você está pulsando
é perceptível como os ventos que antecedem a uma tempestade”. Contei a
ela que não tinha tido um dia bom e resumi os fatos. Ela me olhou como
quem olha a uma criança e comentou: “Não vejo nada de tão grave que
justifique a sua insatisfação”. Contestei sob o argumento que, no dia
anterior, Ingrid tinha despertado em mim um grande afeto, para depois
trocar a minha companhia por outra pessoa que ela acabara de conhecer.
Citei o famoso trecho do livro de Saint-Exupéry, no qual o notável
escritor ensina que “és responsável por tudo aquilo que cativas”. Logo,
segundo o meu raciocínio, Ingrid tinha que ter sido mais atenciosa
comigo. A mulher de olhos azuis explicou: “O ensinamento é precioso, no
entanto, como toda a sabedoria, precisa de um contexto adequado e dos
devidos limites. Ser responsável por você não significa que ela tenha
que suprir todas as suas carências nem atender aos desejos oriundos de
um quadro emocional instável. Cativar é oferecer amor, isto não torna
ninguém responsável pela felicidade alheia pela evidente impossibilidade
da empreitada. Ser responsável pelo outro é oferecer o melhor que
temos, com o amor que já possuímos, de maneira generosa e honesta. Isto é
bem diferente de estarmos obrigados a atender a todos os desejos
alheios. Impor a alguém tamanha obrigação é um abominável exercício de
dominação, que deve ser rejeitado com firmeza e delicadeza; não se pode
aceitar a transferência de responsabilidade na busca pela própria
plenitude. O ensinamento do alquimista francês foi deturpado gerando
cobranças insensatas nas afeições, que por se tratar de amor, a
cobrança, por si só, se mostra indevida. Assim, conduzimos o raciocínio
por vias tortuosas para que entreguem a felicidade que nos cabe buscar.
Atolados na inércia pelo medo do trabalho e do desconhecido, ambos
inerentes à busca e à evolução, reclamamos do mundo e amaldiçoamos a
vida”. Olhou me com seriedade e concluiu: “Na tentativa de manipular a
realidade acabamos aprisionados na ilusão.”
Balancei a cabeça em concordância, mas lembrei que Ingrid poderia ter
sido um pouco mais atenciosa e paciente comigo ao invés de simplesmente
levantar e sair quando eu disse que não queria conversar. A bela mulher
questionou as minhas intenções: “Por que ela tinha que insistir? Para
te mimar como se faz com as crianças? É comum negarmos o crescimento na
ilusão de mantermos a permanente segurança que os adultos nos transmitem
na infância. No entanto, tudo na vida muda porque todos precisam
crescer. É necessário que seja assim. Sem transformação não há evolução.
No entanto, temos medo das novas circunstâncias da vida por não saber
se conseguiremos lidar com elas. Trazemos o vicio ancestral de dominar
tudo e todos que nos cercam ao invés de nos concentrar em equilibrar o
universo que nos habita. Estamos condicionados a impor ou manipular as
escolhas alheias ao invés de simplesmente respeitá-las. Ao ansiar pelo
controle do mundo perdemos o poder sobre nós mesmos e desperdiçamos as
maravilhas da vida. Somente com a alma madura nos sentiremos seguros.
Vivemos no mundo o universo que nos habita; sejam os conflitos, seja a
harmonia. Pensar que a dor que sentimos é de responsabilidade dos outros
é uma ilusão doce de realidade amarga.”
Falei que, de certa maneira, era isso que a anciã tinha me dito sem
que eu tivesse entendido. Acrescentei, por curiosidade, que havia
estranhado o dente de ouro que aparecia quando ela sorria. A mulher de
olhos azuis me olhou surpresa e comentou: “Você não me falou nada sobre
ela. Poderia descrevê-la para mim?” Eu o fiz em detalhes, pois ela havia
marchado ao meu lado por todo aquele dia. A bela mulher me perguntou se
eu vira a anciã na caravana em outro dia qualquer. Foi quando me dei
conta que, na verdade, apesar de duas semanas de convívio, todas as
pessoas eram, ao menos, conhecidas de vista. No entanto, eu não me
recordava de tê-la visto. A mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli
esclareceu para o meu espanto: “Não havia ninguém marchando ao seu lado
hoje. Melhor dizendo, nenhuma pessoa. A anciã a que você se refere é um
espírito; um bom espírito que acompanha e protege as caravanas. É uma
guardiã das areias conhecida como a Cigana do Deserto. Ela é muito sábia
e tem muita luz. Conversar com ela é uma oportunidade concedida a
pouquíssimos viajantes.”
Tentei prosseguir a conversa, porém fui desaconselhado pela mulher
que colocou o dedo sobre os lábios em sinal de silêncio. Em seguida,
passou a mão sobre os olhos como quem pede para que eu os fechasse.
Entendi que era momento de quietude e reflexão. Atendi a sugestão. Não
demorou, ao serenar a emoções, todos os acontecimentos do dia se
passaram como um filme em minha tela mental. As várias situações que
estavam fora das minhas previsões e desejos, desde a escolha de Ingrid
em marchar ao lado de outra pessoa até a mudança do cardápio no jantar
se apresentaram com clareza. Ao me recusar a viver as possibilidades que
se apresentavam fora do meu controle e vontade, me senti mal o dia
todo. Deixei-me aborrecer pelo mero fato de não pararmos para descansar
no meio do dia, não conheci o sabor da sopa, briguei com o cozinheiro e,
pior, por estar envolvido no ciúme que sentia de Ingrid, desperdicei a
rara oportunidade de aproveitar melhor a conversa com uma guardiã do
deserto. Enquanto eu invejava a conversa da astrônoma com o astrólogo,
não percebi o encontro fantástico que a magia da vida me proporcionava.
Aos poucos os pensamentos se alinharam para compor um mosaico de
ideias. Entendi que ao tentar controlar o mundo eu perco a mim mesmo e a
vida. Ao contrário, ao harmonizar o meu universo interior, encontro
comigo, me equilibro com o mundo e abraço a vida. Apenas a impermanência
de todas as coisas pode me ensinar isto. A impermanência oculta a
mestria da evolução ao descortinar o véu da ilusão.
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