O Silêncio e eu...
Eu prezo o silêncio, o mudo onde se encontra a respiração, o passar das
folhas preenchidas de um mundo diferente, o tilintar de duas taças de
vinho acompanhada de dois sorrisos sacanas e o silêncio, o breve
ressonar entre o primeiro beijo e as roupas serem atiradas em qualquer
direção. Prezo-o como a mãe que alimenta pela primeira vez a cria, como o
soldado que retorna da batalha mutilado, mas ainda tem o prazer de ver o
límpido sorriso de um pequeno de cinco anos e meio. Seria ousado ao
ponto de arriscar que a felicidade encontra-se com a música pausada, com
a boca fechada e a língua travada, gesto de sobrancelha num tom de
sarcasmo delicado, agradecer com olhos sorrisos, o apertar das mãos e
correr os dedos através da costas, o gosto do oposto antes de engolir o
coração, e faz esperar a batida para começar a quebra de começar,
respira…expira… e esquecendo-se de começar e a perder e parar. Eu sou o
silêncio em etapas burocráticas, eu governo o som que não ouço como um
dia o maestro regeu sua fiel orquestra e sou quem cala por fora o
turbilhão entorpecente dentro da caixa lacrada do meu ser, sou o espaço
em branco entre as notas. Eu amo o silêncio pois ele e o nada se
encontrão em algumas escalas graves de sinônimos, e o ninguém junta-se
formando um trio. Eu já não sou nada, não pertenço a ninguém além do
silêncio vazio que me ecoa.
30/12/2017
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