segunda-feira, 14 de março de 2011

Noites Escuras

Percorri o mundo pelo dia. Passava horas com medo da noite. Ficava com medo que o escuro me cobrisse e me levasse para longe dos meus pais, dos meus irmãos, para longe de mim. Encontrava-me sempre coberto pelos cobertores, refugiado, ironicamente no escuro, do escuro. Era um medo terrível que a mão invisível da negridão me levasse para outro mundo. Ainda me lembro, quando descalcinho ia aos saltitos para a cama, esperançoso que o sono chegasse primeiro que a escuridão. A luz do corredor era a fada protetora, a minha salvação e guardiã do meu sono. Estava sempre ligada e presente, velando pelo meu transe noturno e restaurador. A sua presença deixava-me sempre a esperança que tudo estava bem, e mais importante, ia acabar bem quando nascesse o sol, quando voltasse a luz. Precisava de acreditar nisso quando ia para dentro da cama fria, naquela terrível missão de a aquecer. A angústia das nove e meia, quase por si só, expulsava o sono claro e trazia a insónia negra. Isto são memórias do meu quarto, de mim pequenino, medroso e ansioso pela alegria. Lembro-me tão bem disso, quantas são as saudades, daquelas noites tão escuras.


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