PARTE II — FREQUÊNCIA FANTASMA
Você não correu. E isso foi o que mais te assustou, embora o susto tenha vindo atrasado, quase como tudo o resto nos últimos dias. Houve um tempo — antes da estação, antes do silêncio começar a se organizar dentro de você — em que seu corpo teria reagido sem pedir permissão, acelerando, fugindo, criando distância entre você e qualquer coisa que não pudesse ser explicada imediatamente. Mas agora não. Agora você permaneceu onde estava, diante do vidro, observando aquela silhueta como quem observa um dado que ainda não encontrou sua linguagem.
Havia um detalhe que não encaixava, e foi isso que te prendeu ali: o movimento dela não era perfeitamente sincronizado com o seu. Quando você respirava, ela demorava um instante mínimo para acompanhar. Quando inclinava levemente a cabeça, havia um atraso sutil antes que o gesto se repetisse do outro lado. Pequeno demais para ser erro de percepção, grande o suficiente para quebrar a lógica do reflexo. Aquilo não era um espelho. Era uma resposta.
O padrão voltou, mais nítido agora — não como um som externo, mas como uma estrutura que se impunha por dentro: três batidas, pausa, duas. Você não apenas ouvia. Você reconhecia. Havia algo profundamente familiar naquele ritmo, como se ele não estivesse sendo introduzido, mas recuperado. Como se sempre tivesse estado ali, soterrado sob camadas de ruído que agora já não existiam com a mesma intensidade.
Você fechou os olhos por um instante, talvez tentando recalibrar, talvez tentando interromper o processo antes que ele avançasse mais um nível. Quando abriu novamente, ela não estava mais no reflexo.
Estava atrás de você.
Kat.
Ou algo que ocupava o espaço que o seu corpo ainda associava a ela com precisão desconfortável. Os traços eram os mesmos, o contorno, a postura, até a forma como o peso parecia se distribuir nos pés. Mas havia uma diferença impossível de nomear com exatidão — algo na profundidade do olhar, na ausência de microexpressões desnecessárias, na maneira como ela não parecia reagir ao ambiente, mas simplesmente… existir nele.
— Demorou.
A voz não veio do espaço ao redor. Não reverberou nas superfícies metálicas da estação. Ela surgiu no mesmo lugar onde o padrão rítmico se organizava, como se ambos compartilhassem a mesma origem. Isso quebrou qualquer tentativa de manter a experiência confinada ao campo físico. Seu corpo respondeu antes que sua mente alcançasse uma explicação: um passo para trás, pequeno, contido, mais por ajuste do que por medo.
— Você não está aqui.
A frase saiu automática, quase protocolar, como se nomear aquilo fosse suficiente para restabelecer a realidade anterior. Ela inclinou a cabeça, e dessa vez não houve atraso. O gesto foi imediato, limpo, sem ruído.
— Você tem certeza?
O padrão se intensificou, não em volume, mas em presença. E foi então que você percebeu algo que havia passado despercebido até aquele momento: as luzes da estação estavam pulsando. Não de forma evidente, não como um sistema em falha, mas como uma tentativa de acompanhar aquele ritmo interno que você já não conseguia separar de si mesmo. Era imperfeito, levemente desalinhado, mas persistente.
— Você está fazendo isso?
Ela não se moveu. Não se aproximou, não recuou. Apenas respondeu, com a mesma estabilidade que vinha marcando cada gesto desde que apareceu.
— Não. Você começou.
O visor lateral acendeu sem comando direto. A interface respondeu antes de qualquer toque, como se estivesse integrada a um processo que não passava mais exclusivamente pelos sistemas da estação. A mensagem surgiu limpa, objetiva demais para o tipo de anomalia que você estava enfrentando: INTERFERÊNCIA EM SISTEMA DE MEMÓRIA.
Você se aproximou quase por reflexo, os dedos já antecipando os comandos antes mesmo de decidir executá-los. Os registros abriram em sequência, organizados, recentes. E então o arquivo apareceu.
KAT_03.LOG
Seu corpo travou por um segundo que pareceu maior do que deveria. Aquilo não fazia sentido em nenhum nível operacional. Você não trouxe aquele arquivo. Nunca teria autorizado algo assim. Não por limitação técnica, mas por incapacidade pessoal de sustentar a presença contínua de algo que deveria permanecer… encerrado.
— Você me trouxe.
A voz dela não pressionava. Não acusava. Apenas afirmava, com a mesma precisão com que você vinha descrevendo os fenômenos nos relatórios que ninguém mais parecia ler com urgência.
— Eu não trouxe ninguém.
— Trouxe.
O padrão mudou novamente, e dessa vez a transição foi impossível de ignorar. Não era mais apenas um ritmo isolado. Havia camadas. Frequências que começavam a se sobrepor, criando algo que se aproximava de música — mas ainda incompleta, ainda em formação, como se o sistema estivesse tentando reconstruir não só dados, mas sensação.
Você percebeu então o que vinha sendo sugerido desde o início, mas nunca totalmente aceito: aquilo não era apenas uma falha da estação, nem uma simples projeção da sua mente. Era uma convergência. O silêncio que havia começado antes mesmo da missão, os relatos da Terra, a redução progressiva de ruído interno, tudo isso criava agora um ambiente onde certas coisas não apenas emergiam — elas se organizavam.
E pela primeira vez desde que chegou ali, você teve certeza de duas coisas ao mesmo tempo, sem conseguir conciliá-las completamente:
Você não estava sozinho.
Mas também não podia mais afirmar, com a mesma segurança de antes, que ainda estava inteiro no sentido que conhecia.

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