Ainda era cedo. O sol começava a banhar o deserto por detrás de uma
enorme duna ao leste. Arrumei as minhas coisas no alforje e o deixei
pronto para colocá-lo sobre o camelo na hora da partida. Fui à tenda em
que serviam o desjejum para encher uma caneca com café. Depois me
afastei para a prece que gostava de fazer sozinho pela manhã, sempre
acompanhada de alguma reflexão. Como de costume, o caravaneiro estava
destacado do grupo, com o seu falcão pousado nas grossas luvas de couro
que usava no braço esquerdo, para o adestramento matinal. Foi então que
se aproximou de mim um peregrino que fazia parte da caravana. Perguntou
se podia me fazer companhia. Com o queixo apontei para que se sentasse
ao meu lado. Não demorou, puxou conversa. Disse que se chamava Saul.
Falou que, assim como eu, ele também ia ao oásis para conhecer o sábio
dervixe. Em seguida criticou a estrutura da caravana. Falou que o valor
cobrado pela viagem era muito caro para o pouco que ofereciam e que o
caravaneiro devia dedicar ao grupo a mesma atenção que oferecia ao
falcão. Eu nada respondi para não alimentar aquela conversa com energias
que estimulavam a discórdia e a insatisfação. Não satisfeito, talvez
por não encontrar em mim o apoio esperado, perguntou se eu tinha lido
determinado livro. Respondi que nunca tinha ouvido falar nem no título
nem no autor. O peregrino me olhou com espanto para dizer que aquela
leitura era pressuposto para a conversa com o dervixe, uma vez que era a
base de sua doutrina filosófica. Acrescentou que nem todos que iam ao
oásis conseguiam o esperado encontro, pois o sábio escolhia apenas
algumas pessoas, aquelas que considerava aptas a entenderem as suas
palavras.
Eu quis saber se ele tinha o livro e se poderia me emprestar. Como
ainda faltavam trinta dias até chegarmos ao oásis, seria tempo
suficiente para eu me preparar. O homem falou que tinha o livro, mas
estava dedicado a uma releitura do mesmo. Lamentou não poder me atender.
Falou, ainda, que tinha certeza de que ele seria um dos eleitos para se
reunir com o dervixe. Relatou todos os estudos que fizera e escolas das
mais diversas tradições que frequentara ao longo de muitos anos. Pelo
que tinha reparado, duvidava que na caravana alguém estivesse tão
preparado como ele. Perguntou sobre qual vertente se sustentava o meu
conhecimento. Falei que recentemente tinha ingressado em uma ordem
esotérica dedicada ao estudo da filosofia e da metafísica. Nada além
disso. Ele sacudiu a cabeça como quem diz que não era suficiente, mas
aconselhou que eu não desistisse e que me ajudaria no que fosse
possível. Em seguida, falou que tinha que preparar a sua bagagem, pois a
caravana logo seguiria a viagem. Antes, porém, me alertou para ter
cuidado com o caravaneiro. Perguntei a razão, mas ele apenas puxou a
pálpebra do olho como sinal para que eu estivesse atento e saiu.
Fui envolvido por uma sensação muito ruim. Uma mistura de emoções
desagradáveis com alguma confusão mental. Pensei em como seria
detestável atravessar o deserto, com todas as dificuldades inerentes ao
percurso, para, ao final, voltar frustrado quanto às intenções da
viagem. O que eu diria aos meus amigos ao me perguntarem sobre como
tinha sido a conversa com o dervixe, especialmente entre aqueles que me
incentivaram a fazer a peregrinação? Incomodava a ideia de responder que
fora em vão, que o sábio se recusara a conversar comigo. De sobra ainda
teria que me deparar com os colegas que haviam me aconselhado a não vir
por causa dos perigos do deserto, além da grande despesa que eu teria
com a viagem. Fechei os olhos e os imaginei me oferecendo lições de
prudência com ares de pretensa superioridade, dizendo algo como “se Deus
está em todo lugar, e principalmente dentro de si mesmo, você não
precisa ir a lugar nenhum para encontrá-lo”. Na realidade, eu não
viajava para encontrar Deus, mas em busca de novos conhecimentos. Eles
retrucariam, “não vejo sentido em você se privar do conforto da sua
casa, principalmente hoje em dia, onde encontramos tudo na internet”.
Ora, andar pelas ruas de uma cidade me permite uma percepção bem
diferente do que conhecê-la por fotos. Assim é com a filosofia; se não
for vivida restará desperdiçada. No mais, fora as críticas que eu teria
que enfrentar, não tinha vislumbrado a possibilidade de passar quarenta
dias no deserto, com todas as privações inerentes à caravana, para ao
final nem ao menos ouvir uma única frase do dervixe. Aquilo me deixou
profundamente agoniado.
Esperei o caravaneiro retornar com o falcão. Quando passou por mim, o
questionei por qual razão ele não me avisou que havia uma enorme chance
de eu não conseguir conversar com o sábio quando chegássemos ao oásis.
Ele me olhou atentamente, como quem procura ler o que está escrito além
das palavras ditas, e disse com serenidade: “Você contratou a caravana
para chegar a um determinado destino em segurança. Tão somente. Esse é o
meu compromisso. Respondo apenas por mim e pela caravana. Não sou
secretário nem agenciador do dervixe. Não posso ser responsabilizado se
ele viajou ou está recluso sem desejar encontrar com ninguém. Assim como
não posso responder pelos negócios entre mercadores e tapeceiros. Ao
contrário, veto o ingresso na caravana daqueles que, de antemão, percebo
que perderão tempo e dinheiro na travessia. Sejam mercadores, sejam
peregrinos”. Admiti que, de fato, eu mesmo quase fui impedido de
participar da viagem, logo no início, uma vez pelo caravaneiro, noutra
pela bela mulher com olhos da cor de lápis-lazúli. No entanto, achava
que a possibilidade de atravessar o deserto e não conseguir encontrar o
sábio deveria restar mais clara.
Sem deixar que a energia densa que me envolvia o atingisse, ele
manteve o tom suave da voz como maneira de não alimentar a confusão:
“Assuma os riscos da sua escolha e aproveite a travessia. O deserto é
muito mais do que sol e areia”. Olhou-me nos olhos e concluiu de jeito
enigmático antes de seguir para os seus afazeres: “Mais uma coisa,
preste atenção aos demônios para não servir a eles. O melhor truque das
sombras é nos iludir de que elas não existem em nós”.
Aquela conversa com o caravaneiro piorou ainda mais a confusão mental
que eu sentia. Perdi a confiança nele, e a insegurança quanto ao
encontro com o sábio dervixe se agigantou, tomando conta de todos os
meus pensamentos. O acampamento foi recolhido e a caravana partiu. Eu
seguia desconfortável sobre o camelo. O gingado do animal, a falta de
brisa, o calor parecia mais intenso naquele dia. Tudo me incomodava.
Senti fome, pois tinha apenas tomado uma xícara de café no desjejum.
Depois fiquei com sede. Em razão das lições dos dias anteriores, eu
sabia que tinha que racionar a água para não tornar a ter problemas.
Comecei a lembrar das pessoas que me desaconselharam a fazer a viagem e
fui tomado por uma horrível sensação de arrependimento de estar ali. Eu
poderia estar em lugares que adorava, como no mosteiro, nas montanhas do
Arizona, na oficina do Loureiro, na pequena vila do Himalaia ou mesmo
viajando com as minhas filhas. No entanto, eu estava atravessando o
deserto, sob severas condições, para vivenciar uma experiência que,
agora, descobria improvável. A agonia me abateu e convidou a irritação
para a ceia.
Foi quando o peregrino emparelhou o camelo dele ao meu. Ofereceu-me
um chiclete. Disse que ajudava a manter a boca úmida. Aceitei e
encontrei nele um amigo disposto a me ajudar. Não demorou muito, Saul
começou a narrar como era solicitado para ministrar cursos e fazer
palestras. Contou das suas incríveis experiências metafísicas, apenas
permitida aos iniciados. Enquanto ouvia, eu me comparava a ele. No
íntimo, senti vontade de algum dia ser requisitado daquela maneira.
A bela mulher com os olhos da cor de lápis-lazúli passou por nós
montada em seu ágil cavalo negro, olhou-me por instantes e prosseguiu.
Em seguida, Saul antecipou a conversa que teria com o dervixe. Tinha
uma série de questões filosóficas para debater com o sábio. E mais,
faria uma proposta irrecusável para juntos montarem um spa espiritual na
cidade do peregrino. Diante de tudo, confessei o meu receio em não ser
recebido pelo dervixe e de como esta possibilidade me incomodava. Ele
disse que, na medida possível, intercederia ao meu favor. Acrescentou
que eu deveria, da próxima vez, me preparar melhor antes de vir. Depois,
voltou a falar sobre a precariedade da caravana, de como era ruim a
relação entre o valor cobrado e as condições oferecidas. Falou de
algumas maravilhas proporcionadas por outras caravanas. Tendas mais
confortáveis e comidas mais requintadas eram apenas algumas das
realidades que estavam distantes da nossa.
Ao final da tarde paramos para passar a noite. Logo após o
acampamento ser montado, foi servida a refeição. Fui com o peregrino até
a tenda para enchermos a nossa cuia. Era um guisado com carne seca de
carneiro, grãos e legumes. Saul provou, torceu o nariz, me olhou como
para lembrar do que ele tinha falado. Ensina a sabedoria que o acaso não
existe, pois nesse instante o caravaneiro entrou para se servir.
Enchi-me de coragem e o abordei para reclamar das condições da caravana.
Ele me ouviu sem interromper. Quando terminei, ele falou com
serenidade: “Ofereço o melhor que posso dentro dos limites das
possibilidades que se apresentam e da capacidade que possuo. Acredite,
nem um pouco a menos. No entanto, entendo que é um direito seu não estar
satisfeito ou mesmo arrependido de estar aqui. O que de pior pode
acontecer na caravana é a discórdia criar raízes e se alastrar”. Fez uma
pequena pausa antes de prosseguir com toda a calma: “Dou-lhe a chance
de retornar daqui. Devolverei integralmente o dinheiro pago. Não quero
que você se sinta prejudicado ou enganado. Amanhã um dos encarregados
voltará à cidade de onde partimos. Se quiser, poderá ir com ele. Pense.
Se for o caso, esteja pronto logo cedo”. E se retirou. Olhei para o lado
em busca do apoio do peregrino. Ele tinha se afastado.
Fui em sua direção e percebi que ele me evitava. Insisti até estar
com ele. Achei estranho o comportamento do homem. Mais ainda, quando
perguntei se tinha ouvido a conversa, ele nada respondeu. Eu quis saber
se ele voltaria comigo no dia seguinte. O peregrino sacudiu a cabeça em
negativa e nada falou. Falei que eu estava em uma situação delicada com o
caravaneiro. Saul, em um tom agressivo de voz, disse que não era
responsável por minhas atitudes nem por minhas escolhas. Falou que eu
deveria amadurecer. Contestei. Argumentei que eu tinha plena consciência
da responsabilidade pelas minhas ações. Entretanto, as palavras eram a
forma mais antiga de magia, pois têm o poder de espalhar as sombras ou
semear a luz. Ele, como homem iluminado que se proclamava, deveria saber
disso e entender que tipo de mago de fato era e a má influência que
tinha causado. Saul me olhou com desdém e disse que logo que me viu
tinha reparado que eu não tinha a menor condição de me encontrar com o
dervixe. Contrariado, preferi me afastar para não criar uma confusão
maior.
Fiquei sozinho, sentado em um canto distante, até um manto de
estrelas cobrir o céu do deserto. Aos poucos fui me tranquilizando.
Dei-me conta de como tinha sido tolo por embarcar nas sombras de Saul.
Lembrei do bom homem que servia chá na caravana, que embora nunca
tivesse frequentado uma escola, possuía uma sabedoria extraída da
simplicidade e da humildade. Impulsionado pelos bons sentimentos, além
de outras virtudes, como a delicadeza e a compaixão, ele se tornara uma
das pessoas com quem o dervixe adorava conversar. Não tinha como negar a
importância do conhecimento; no entanto, sem amor tudo se esgota nos
ralos da existência. Passou um tempo que não sei precisar, quando, de
repente, ouvi uma voz doce atrás de mim: “Mais do que sexo, poder e
dinheiro, o medo move o mundo. Toda a vez que isso acontece, seguimos na
direção oposta à luz, nos afastando do verdadeiro destino”. Era a bela
mulher de olhos da cor de lápis-lazúli.
Ela se sentou à minha frente. Contei lhe todo o ocorrido durante o
dia. Ao final, me declarei traído pelo peregrino. A mulher não
concordou: “Pare de culpar os outros pelo seu sofrimento. Isto o impede
de avançar. Em verdade, você foi traído por suas vozes ao dar ouvido às
próprias sombras. Uma das mais perigosas delas, o medo, se tornou seu
conselheiro e alimentou a vaidade e o orgulho do peregrino. Isto fez com
que a inveja também lhe fizesse companhia. Com mentores desse quilate
você inevitavelmente teria problemas”. Sustentei que a responsabilidade
pelas escolhas era minha, porém ele era responsável pelo alcance das
suas palavras. A mulher concordou, em parte: “Sim, é verdade. No
entanto, a magia das palavras somente germina onde encontra solo fértil,
seja de sombra, seja de luz”. Fez uma pausa e concluiu: “A vaidade, o
orgulho e a inveja são os demônios mais vulgares que existem, porém os
mais influentes em nossas vidas. Todos nascem do medo”.
Eu quis saber se esses eram os demônios aos quais o caravaneiro havia
se referido naquela manhã. Ela concordou com um movimento da cabeça.
Perguntei se esse era o motivo de ela ter passado a cavalo me olhando
enquanto eu conversava com o peregrino durante a marcha daquele dia.
“Sim, percebi os demônios acompanhando a caravana”, ela respondeu
simplesmente. Falei que o peregrino era quem movia esses demônios e só
agora eu me dava conta disso. Ela discordou: “O peregrino é responsável
apenas pelos demônios dele. Você, pelos seus. A permissão para que os
demônios dele alimentassem os seus foi concedida por você”.
“As pessoas têm sobre nós apenas os poderes que concedemos a elas.”
Lamentei que nem sempre eu conseguia identificar a presença desses
demônios em mim e também tinha certa dificuldade de entendê-los. Ela
explicou: “A vaidade é a necessidade de se sentir admirado pelos outros;
o orgulho surge quando precisamos nos sentir maiores que as demais
pessoas. Ambos insistem em nos convencer de que são indispensáveis à
felicidade. A inveja se faz presente quando teimamos em nos comparar ou
em desejar a vida alheia, como se as possibilidades que se apresentam
não são boas o suficiente para nós. No fundo, um desejo sombrio e
inconfessável de estar no trono do mundo”. Olhou-me profundamente e
disse: “Vaidade, orgulho e inveja são demônios filhos do medo. Medo de
duvidar da própria força, medo de não acreditar no poder que o habita,
medo de não conseguir viver o próprio sonho, medo de não enxergar a
beleza do seu dom, medo de se sentir menor, pior ou abandonado. Medo de
mergulhar nas profundezas de si mesmo para iluminar a escuridão.
Paradoxalmente, é esta escuridão que alimenta o medo, em eterno ciclo de
sofrimento e fuga. Fugimos para a vida do outro na vã tentativa de
esquecer a nossa. Então, sofremos por incompletude”.
“Dentro de cada um de nós vivem anjos e demônios, alimentados pelos
nossos sentimentos e pensamentos. Os bons e os ruins. O que fazer com
cada um deles define, passo a passo, quem somos e qual direção seguimos.
Creia, neste momento da existência, ainda precisamos de ambos, anjos e
demônios, movidos por ideias e paixões de muitas vertentes, para
aperfeiçoar as nossas escolhas e fortalecer, em definitivo, os laços com
a luz”.
“Todos temos os mesmos demônios. Não negue nem reprima os seus.
Envolva-os com amor e os ilumine, como um bom pai cuida do filho. Use a
enorme força vital deles para trabalhar em favor dos seus anjos. Esta é a
diferença”.
Falei que tinha que dar uma resposta ao caravaneiro logo pela manhã.
Admiti que estava arrependido e já sabia a decisão que tomaria. Ela
disse: “A humildade é a virtude primordial ao primeiro portal do
Caminho. O portal da lucidez. Lucidez por começar a entender quem sou.
Só então, me abro as infinitas possibilidades para tudo aquilo que posso
me transformar, na alegre batalha para me tornar melhor do que fui
ontem. A existência não trata da absurda competição com os outros, mas
no esforço da superação sobre si mesmo. Essa estrada começa com a
humildade. Em verdade, a humildade é o início do amor pela vida. As
virtudes são os nossos anjos, pois protegem e libertam; a humildade é um
dos anjos mais poderosos que existe”.
Sem pedir licença, se levantou e saiu. Fiquei acompanhando os seus
passos, quando ela se virou e disse: “Não esqueça de agradecer aos seus
demônios pela lição de hoje”. Fez uma pausa e finalizou: “Mas também não
esqueça de educá-los”. Depois seguiu até o alto de uma duna. Iluminada
pelas estrelas, a vi bailando, sozinha, em comunhão com o deserto.
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