Estava
com Loureiro em uma taberna na pequena e secular cidade próxima da
montanha que acolhe o mosteiro. Tínhamos acabado de trocar ideias sobre
sofrimentos e decepções. O bom sapateiro fundamentara, com mestria, que o
amor não é causa de nenhuma dor e vem sendo injustiçado, desde sempre,
por darmos ouvidos às sombras, emoções sem nobreza, ao invés de
compreendermos toda a grandeza de um
sentimento capaz de mudar o mundo pela capacidade de fazer florescer o
melhor que existe em nós. Já tínhamos solicitado a conta, quando, de
repente, ele diz: “Mas penso que não é só. Sempre que falamos das
sombras nos referimos àquelas mais conhecidas como inveja, medo, ciúme,
vaidade e ignorância. Muitas vezes esquecemos a mentira, talvez por nos
ser tão íntima”. Confesso que fiquei atônito. Ele percebeu, riu e
explicou: “De todas as sombras, talvez a mentira seja o cárcere de
libertação mais difícil, por ser a mais sorrateira. Falo da mentira que
contamos para nós mesmos. Ela nos leva à fuga da realidade na ilusão do
conforto de quem teme as atribulações do bom combate. Essa sombra no
leva a criar e a interpretar papéis distantes da verdade”. Deu uma
pequena pausa e foi adiante: “Existe mais da nossa essência na parte que
escondemos do que no pedaço que mostramos; há mais oculto no fundo da
gaveta do que aquilo exposto na vitrine. Isto é o que vendemos de nós,
aquilo é o que somos. Esta é a razão de muitas frustrações”.
Pedi
para que fosse mais claro no seu raciocínio. O bom sapateiro teve boa
vontade: “Criamos personagens, repletos de virtudes que ainda não temos,
a nos representar nos círculos sociais. Todos desejam ser amados,
admirados e idolatrados. Na superfície todos conseguem se mostrar bons e
circulam na ilusão de ser o que ainda não são. No entanto, os
relacionamentos impõem a hora do mergulho profundo”. Deu uma pausa e
concluiu: “Então, a intimidade irá revelar o melhor e, também, o pior
que há em nós. É inevitável”.
O elegante artesão tinha o olhar
perdido em alguma página da sua história e falava como quem explica um
fato distante: “Em geral, não preparamos o outro para nos ver atuando
sem nossas fantasias sociais. O ego que criou o personagem na tolice de
nos proteger, cedo ou tarde, subirá à tona para mostrar a verdadeira
face, aquela que ocultamos. O ‘eu’ vai ficar nu. Nenhum truque se
sustenta para sempre. Daí surgem as decepções, conflitos, e sofrimentos,
nesta ordem”.
“Algumas pessoas abusam mais, outras menos, dos
personagens na medida da falta de coragem para encarar quem realmente
são. É necessário enfrentar a verdade, sem adereços, com humildade, como
primeiro passo para se transformar e vivenciar as suas infinitas
possibilidades. Não se chega à próxima estação sem enfrentar a estrada.
Ainda que haja curvas, pedras e tempestades, as dificuldades fortalecem e
aperfeiçoam o viajante”.
“Nem todos estão dispostos a se deparar
com as verdades da alma, com suas frustrações e insucessos. Então, nos
escondemos sob o manto das ilusões oferecidas pelo ego, a nos enganar,
na vã esperança que ele nos conforte e proteja para sempre. Usamos as
máscaras que ele nos empresta no baile em homenagem à mentira. Até que o
Caminho, na exigência do movimento da cura pela verdade, despe o
personagem que criamos para interpretar as histórias que gostamos de
contar sobre nós mesmos. Cedo ou tarde, nos obriga a olhar para o
espelho. Estar frente a frente consigo é mirar nos olhos da verdade e
entender toda a sua força revolucionária. É doloroso em um primeiro
momento, por estar sem maquiagem, não encontrar a perfeição que se
iludiu. Mas só assim descobrimos o que precisa ser modificado, o que
temos que deixar para trás. Entendemos, principalmente, que não somos o
nosso discurso, mas as nossas escolhas”.
Comentei que deveriam
existir alguns modelos mais comuns de fantasias, arquétipos do
inconsciente coletivo. Loureiro concordou: “Existem muitos e posso
exemplificar alguns. Um personagem muito usado hoje em dia é o da
‘pessoa séria, muito ocupada, que não tem tempo para os outros’, em uma
clara demonstração de fuga do convívio, da intimidade, por medo de
revelar que tem pouco para mostrar ou de mostrar o que anseia esconder. É
a débil máscara do forte, a fantasia curta do poderoso. Na verdade,
ocultamos aquilo que não temos coragem de enfrentar. Levanta-se muros
para que ninguém descubra as nossas fraquezas, quando na verdade
precisamos de pontes para atravessar esses abismos. Somente quando
admitimos as dificuldades nos tornamos aptos a superá-las. Para ser
grande é necessário trilhar o caminho do pequeno. Isto se chama
humildade. Esta virtude lhe fará aceitar a condição de aprendiz, de que
ninguém nasce pronto, e assim permitirá, não sem muito trabalho, que aos
poucos revele toda a grandeza que habita em seu coração”.
“Existe
também o personagem do ‘falso alegre’, aquele que precisa estar sempre
rodeado de gente e, de preferência, barulho. Que fique bem claro que
diversão, amizade, alegria e movimento são coisas maravilhosas. Mas há
que se ter hora para todas as coisas, a fazer bom uso do tempo, este
tesouro finito. Por que o medo de ficar à sós consigo? De ouvir a música
do silêncio? De conversar com o próprio coração? A solidão tem sido
amaldiçoada por mal compreendida. Solidão não significa abandono, mas a
viagem que o ego faz aos jardins da alma. O retiro necessário para
percebermos as máscaras que atrapalham, por ineficazes, a conquista da
plenitude; as fantasias que ficaram velhas sem conseguir sustentar a
felicidade; a maquiagem que borrou por tantas lágrimas ao perceber que a
paz não se encontra nas prateleiras da ilusão, mas precisa ser
construída pela verdade de se conhecer por inteiro e, então, se
transformar. Ser feliz é uma escolha consciente que exige determinação e
coragem para estar consigo próprio e ouvir a voz que brota no coração”.
“De todas as fantasias, a mais triste é a da ‘vítima’. São
aqueles que se dizem bons e generosos, porém alegam ser enganados ou
sabotados por todos o tempo todo. Usam a máscara do drama para
transferir aos outros a responsabilidade pelo seu sofrimento, escondendo
de si mesmo a atribuição de trabalhar a própria evolução. É como se
desejassem uma carona até a próxima estação para não ter que enfrentar
as dificuldades do Caminho. Esquecem que os problemas que nos perseguem
nada mais são do que as lições que precisamos aprender, as
transformações que devemos forjar no próprio ser. Ignoram que a batalha
final é travada dentro de cada um de nós”.
Loureiro tomou um último
gole de vinho e alertou: “É importante se reinventar todos os dias, pois
faz parte do processo primoroso de transformação. No entanto, é preciso
que se funde os alicerces da verdade nas rochas da humildade, alegria e
coragem, afastando-se, a cada dia, dos pântanos da ilusão, da mentira e
do medo que atolam a evolução”.
“É imperioso desvendar o véu da
fantasia que enevoa as mudanças necessárias exigidas pela alma despida.
Embora seja um processo difícil, pois muito do aparente conforto do
personagem será substituído pelo esforço no desenvolvimento do
verdadeiro eu. O autoconhecimento é indispensável à cura. Cura das
imperfeições, dos traumas e do sofrimento através do remédio da verdade,
na lapidação das cascas de si mesmo até que se reflita a mais pura luz.
Semear e cultivar a essência que nos habita, na beleza de ser único e
parte do todo, ao mesmo tempo”.
Deu uma pequena pausa e concluiu
antes de se levantar: “Cada qual é a nau a atravessar as tempestades das
próprias ilusões, aprendendo a manobrar com os ventos da verdade, a
navegar pela luz da fina sabedoria. A vida é o mar, os encontros são os
portos e o amor é o destino”.
Já de pé, me ofereceu um sorriso maroto e provocou: “Yoskhaz, qual a sua máscara?”. Rimos.
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