Hoje (ontem, só postei hoje dia 01) acordei com o coração apertado. Final de ano, momento inevitável
para reflexões. Me lembrei das pessoas que ficaram para trás. Mas me
lembrei ainda mais daquelas, pelas quais eu fui deixado para trás.
Sabemos
que a vida nos leva para lá e para cá como bem entende. Muito do que
gostaríamos de decidir, não fica realmente em nossas mãos. Conhecemos
pessoas e somos obrigados a nos despedir um dia. Vivemos a saudade dos
momentos que tivemos com elas e temos que nos contentar com o contato em
redes sociais ou com os valiosos telefonemas, tão raros hoje em dia.
Mas
e quando percebemos que não tivemos valor para alguém que nos dedicamos
tanto? Um amigo ou amiga, que pensávamos, ser para sempre? Um lampejo,
uma possibilidade de um amor que pareceu estar chegando e mais uma vez
nos damos conta de que vivemos um momento descartável?
É
difícil aceitar como nos tornamos descartáveis uns para os outros. Em
nome de uma sobrevivência forçada, de uma sociedade enlouquecida em seu
ritmo alucinante. Entramos nessa onda de velocidade e as pessoas que
passam em nossas vidas chegam e se vão como água, não importando mais o
que acontece em seguida.
Estes tempos atrás minha terapeuta
me disse: “Quem vê você, vê um homem seguro, disponível, cheio de si e
não imagina como você é de verdade por dentro”. Ela se referia a isso, à
minha não aceitação do ser descartável, simplesmente o ser mais uma na
vida de alguém, enquanto que o meu comportamento seguro talvez demonstre
o contrário. Pareço eu ser mais um a tratar os demais de forma tão
rasa?
A arte do desapego em relação às pessoas que passam
em minha vida é algo que desconheço. Me apego sim. Gosto, curto, admiro e
torço pela felicidade dos meus. E de preferência ao meu lado. Quando a
vida é dura e leva de mim os que gosto, sofro, mas ao menos tenho a
certeza de que foi a vida quem quis assim. Cruel é quando as pessoas nos
descartam sem mais nem menos, sem ao menos ter a decência de nos dar um
por que. Triste é ser desprezado e totalmente ignorado, como se nem
tivéssemos existido.
Vivemos numa sociedade onde as
pessoas “ficam”, trocam suas energias mais fortes e profundas com
desconhecidos. Fogem de relações que somam em troca das que
aparentemente não fazem diferença alguma, quando na verdade subtraem
sim. Subtraem nossos sentimentos, nossos valores, nossas possibilidades
de evolução emocional, de valorizar o outro, de conhecer o próximo e a
si mesmo de forma mais profunda.
Nos tornamos uma
sociedade doente, onde o conhecer pessoas em sua essência se tornou algo
raro. O olhar ao outro com o coração é estranho e não natural como
deveria ser. Amigos já não parecem ser tão amigos assim. Amores, só de
final de semana ou fim de festa. Somos todos bem-vindos à era do
coleguismo e dos relacionamentos virtuais. Centenas de mensagens no
Whatsapp até a cama e um provável adeus logo em seguida.
Fico
feliz ao não me encaixar nessa modernização das relações humanas. Gosto
e faço questão da visita em casa, do encontro pessoalmente, do ouvir a
voz e o olhar nos olhos. O abraço apertado e uma conversa franca sobre
quem eu sou, além do que aparento ser. Aprecio o conhecer o outro na sua
mais profunda intimidade, desde suas qualidades até as fraquezas mais
escondidas. Admiro o buscar de afinidades. E o respeito pelas
diferenças. Vivo o longo momento do conhecer e do se reconhecer no
outro. Que para mim, vai bem além das centenas de mensagens via telefone
celular. Começa no olhar e dura uma vida inteira.
Vivemos
numa era de pessoas descartáveis, quando aceitamos ser tratados assim. E
pior, quando olhamos para os demais de forma tão superficial. Se não
nos encaixamos, acabamos por nos sentir sozinhos, por ainda possuirmos
algo de tamanho valor e esquecido pela maioria: o amor ao próximo como a
nós mesmos. Ainda que nos sintamos sozinhos, não estamos sós de
verdade. Apenas ficou difícil encontrar os que sobraram da mesma
espécie. Sejamos nós, os que sobraram, a perpetuar o que é duradouro.
Que amizade e amor não entrem em extinção!
"Nunca se esqueça de quem você é no seu mais profundo e íntimo ser. E nunca se contente em ser apenas isso."
ResponderExcluirMe chame de um otimista cego, mas, em meio a tantas pessoas perdidas, encontrar alguém com os pés no chão e os olhos nos seus torna-se um evento ainda mais especial.