segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Psicólogo

— Você sabe quem você é? 
— Não, eu não sei. 
— Desde quando? 
— Desde que me perguntei quem eu sou.
— Você tem uma crise existencial. 
— Não saber quem eu sou me faz ser quem eu não sou?
 — Certamente sim. 
— E como eu posso saber quem eu me tornei não sendo eu? 
— Um estranho pra si mesmo, você se criou. E é você quem tem que se descobrir. 
— E se eu me descobrir e acabar percebendo que eu não sou quem eu gostaria de ser? 
— E quem você quer ser? 
— Um estranho para mim mesmo.
 — Você já é. 
— Então eu não tenho uma crise existencial se eu já sou quem gostaria de ser. 
— Você é feliz sendo quem você é? 
— Seria se eu não fosse tão complicado. A minha felicidade vem em pequenas doses, não consigo me embriagar dela por muito tempo. 
— E como você se sente agora? 
— Nem triste, nem feliz. Apenas um vazio que me permite tê-lo em si todos os sentimentos do mundo, mas nenhum consegue preenchê-lo por completo. 
— Quando foi a última vez que você sentiu que era feliz?
 Minutos antes de perceber que eu sou a felicidade das pessoas, mas elas não são a minha. 
— Não se sente feliz vendo alguém feliz por você? 
— Sinto pena. Pois sem perceber eu a estou enganando. Mas continuo me mostrando feliz, só para não magoá-la. Parece que eu retenho a tristeza das pessoas para mim, e quando elas vão embora, sou eu quem fica semeando o que roubei delas. 
— Então você sente uma certa compaixão pelas pessoas, você não está tão vazio assim. 
— Eu não estou vazio, são os meus sentimentos que estão pequenos. 
— Do que você tem medo? 
— De quase tudo, tenho até medo de sentir medo.
 — Qual o maior dos teus medos? 
— A morte. 
— Por que? 
— Porque a ideia de ser imortal me apavora, e a ideia de morrer eternamente me desespera. 
— Você acredita em vida após a morte? 
— Acredito em morte após a vida. 
— Se você morresse hoje, do que se orgulharia? 
— De nunca ter estado vivo. 
— Qual o seu sonho? 
— Domar meus fantasmas. Aceitar a vida como ela é. Entender o sentido da morte, e porque ela é tão cruel. Saber quem eu sou, do que gosto e de quem gosto. E por que amar é tão necessário se sempre é tão sofrido. Por que estamos vivos? Qual a função da nossa existência se somos tão individuais. Por que eu gosto tanto das pessoas, e ao mesmo tempo, me prejudico tanto... Gosto de sofrer por benefícios alheios? Por que a tristeza está sempre pronta para me acolher? Por que o céu é tão infinito e nós somos tão limitados? Ele não foi feito para nós? Mas e você, sabe quem você é? 
— Não, eu também não sei

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