segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma outra você.





Ela tinha a blusa daquela mesma estampa que a tua, a camiseta debaixo tinha a mesma cor e a bolsa era no lado direito também. De longe apenas as roupas me lembraram você, mas ao ver caminhar na minha frente me peguei analisando cada passo, que por incrível que pareça me lembraram os seus. Ela tinha o teu jeito de colocar as mãos no bolso e olhar para o nada e ao mesmo tempo olhar para tudo. E quando me viu ali  observando, reparei que ela tinha os teus olhos. Talvez agora as coisas fiquem mais exageradas, afinal é noite, a música tá calminha e sempre dá saudade. Mas posso aproveitar para dizer que a boca dela tinha o formato da sua e a cor da pele de vocês é a mesma. Não sei se cada um tem um jeito certo de se recostar em paredes, mas o jeito como ela entortou as costas aposto que é exatamente da forma como você faz. Até a virada de pescoço quando me viu mais uma vez olhando parecia que tinha um toque seu. A não ser pelos centímetros a mais, e o cabelo mais curto, meu coração poderia ter parado ali mesmo. 
Mas aí passa um amigo dela, e quando ela abre a boca parece que colocaram tua gravação para tocar. A sua voz sai por aquela boca que parece a sua, e soa como se fosse você voltando. Um adeus e até semana que vem. Você tá vindo semana que vem? Juro que te ouvi dizer. O jeito dos pés baterem impacientes acompanham teu ritmo, o tênis também é o mesmo, diga-se de passagem. Quem sabe até o mesmo número. Talvez seja o seu perfume que invada o ar quando ela passa, mas confesso que já não me lembro. Lembrar de cheiros não é meu forte (faço questão de esquecê-los), e há tanta gente que talvez nem seja dela. Aposto que a música que sai por aquele fone sempre pendurado, igual ao teu, é a mesma dessa sua playlist. Talvez ela guarde alguns rabiscos na última folha do caderno, e tenha lá livros difíceis na estante de casa. Ou nem goste de ler, e seja só essa aparência física que me lembra você por inteira. Mas é bom fantasiar, talvez tenha te encontrado perdida por aqui. 
Mais uma vez me pego querendo mergulhar naqueles olhos só para ver se o mar deles dá no teu oceano. Ouvir ela rir e relembrar daquela vez que eu falei besteira e você acabou rindo por horas. Vê-la sorrir e sentir a alegria que me invadia sempre que sorria. Me aproximar e sentir o coração batendo forte, as pernas bambearem e as mãos ficarem gélidas do mesmo modo que você fazia. Beijar aqueles lábios que desenham os teus e sentir de novo o teu gosto. E ficar horas olhando-a, só pra deixar a imaginação fluir e te desenhar aqui de novo. Só mais esses minutinhos, já ela se vai. Ele sempre vai mais cedo mesmo. Então só mais uma vez vou deixar que as memórias venham e corroam-me, fazendo com que cada célula do teu corpo se materialize nesse menina que apareceu como que já premeditado para me lembrar você. Uma última olhada para ter certeza se o jeito que ela ajeitou a bolsa foi do mesmo modo que você. Foi. Agora ela tá coçando o braço, que tem o formato dos teus. Será que tem seu abraço escondido ali também? (Ei, moça, deixa eu te abraçar só para testar uma coisinha? É rápido, juro.)
Os minutos passam e ela se vai. Fico ali parado pensando em todas aquelas vezes que ela me viu olhando, talvez já me ache louco. E talvez eu realmente seja. Mas minha loucura não é dela, é sua. Porque você me faz fantasiar pessoas, como já diz alguns amigos, virei um caçador de você em todos os lugares. Te procuro em cada pessoa, no mercado, bar, faculdade e esquinas. Hoje encontrei. Encontrei tuas roupas, teus sapatos, tua boca e voz. Só falta o coração, mas esse é apenas teu mesmo. Espero que ainda bata numa nota minha de vez em quando. Baixinho, no meio da noite, que ele cante aquela canção que lembra de mim só para que não esqueças. Porque eu não esqueço. A vida faz questão de me enviar você de inúmeras maneiras, mas dessa vez foi golpe baixo. Numa noite de carência é bem capaz de eu perguntar para ela se ela lembra daquele filme que a gente assistiu. Vai saber, ela é tão você. O destino me traz você, quem sabe um dia me leve também. 

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