Ela tinha
a blusa daquela mesma estampa que a tua, a camiseta debaixo tinha a mesma cor e
a bolsa era no lado direito também. De longe apenas as roupas me lembraram
você, mas ao ver caminhar na minha frente me peguei analisando cada passo, que
por incrível que pareça me lembraram os seus. Ela tinha o teu jeito de colocar
as mãos no bolso e olhar para o nada e ao mesmo tempo olhar para tudo. E quando
me viu ali observando, reparei que ela
tinha os teus olhos. Talvez agora as coisas fiquem mais exageradas, afinal é
noite, a música tá calminha e sempre dá saudade. Mas posso aproveitar para
dizer que a boca dela tinha o formato da sua e a cor da pele de vocês é a
mesma. Não sei se cada um tem um jeito certo de se recostar em paredes, mas o
jeito como ela entortou as costas aposto que é exatamente da forma como você
faz. Até a virada de pescoço quando me viu mais uma vez olhando parecia que
tinha um toque seu. A não ser pelos centímetros a mais, e o cabelo mais curto,
meu coração poderia ter parado ali mesmo.
Mas aí
passa um amigo dela, e quando ela abre a boca parece que colocaram tua gravação
para tocar. A sua voz sai por aquela boca que parece a sua, e soa como se fosse
você voltando. Um adeus e até semana que vem. Você tá vindo semana que vem?
Juro que te ouvi dizer. O jeito dos pés baterem impacientes acompanham teu
ritmo, o tênis também é o mesmo, diga-se de passagem. Quem sabe até o mesmo
número. Talvez seja o seu perfume que invada o ar quando ela passa, mas
confesso que já não me lembro. Lembrar de cheiros não é meu forte (faço questão
de esquecê-los), e há tanta gente que talvez nem seja dela. Aposto que a música
que sai por aquele fone sempre pendurado, igual ao teu, é a mesma dessa sua
playlist. Talvez ela guarde alguns rabiscos na última folha do caderno, e tenha
lá livros difíceis na estante de casa. Ou nem goste de ler, e seja só essa
aparência física que me lembra você por inteira. Mas é bom fantasiar, talvez
tenha te encontrado perdida por aqui.
Mais uma
vez me pego querendo mergulhar naqueles olhos só para ver se o mar deles dá no
teu oceano. Ouvir ela rir e relembrar daquela vez que eu falei besteira e você
acabou rindo por horas. Vê-la sorrir e sentir a alegria que me invadia sempre que
sorria. Me aproximar e sentir o coração batendo forte, as pernas bambearem e as
mãos ficarem gélidas do mesmo modo que você fazia. Beijar aqueles lábios que
desenham os teus e sentir de novo o teu gosto. E ficar horas olhando-a, só pra
deixar a imaginação fluir e te desenhar aqui de novo. Só mais esses minutinhos,
já ela se vai. Ele sempre vai mais cedo mesmo. Então só mais uma vez vou deixar
que as memórias venham e corroam-me, fazendo com que cada célula do teu corpo
se materialize nesse menina que apareceu como que já premeditado para me
lembrar você. Uma última olhada para ter certeza se o jeito que ela ajeitou a
bolsa foi do mesmo modo que você. Foi. Agora ela tá coçando o braço, que tem o
formato dos teus. Será que tem seu abraço escondido ali também? (Ei, moça,
deixa eu te abraçar só para testar uma coisinha? É rápido, juro.)
Os
minutos passam e ela se vai. Fico ali parado pensando em todas aquelas vezes
que ela me viu olhando, talvez já me ache louco. E talvez eu realmente seja.
Mas minha loucura não é dela, é sua. Porque você me faz fantasiar pessoas, como
já diz alguns amigos, virei um caçador de você em todos os lugares. Te procuro
em cada pessoa, no mercado, bar, faculdade e esquinas. Hoje encontrei.
Encontrei tuas roupas, teus sapatos, tua boca e voz. Só falta o coração, mas
esse é apenas teu mesmo. Espero que ainda bata numa nota minha de vez em
quando. Baixinho, no meio da noite, que ele cante aquela canção que lembra de
mim só para que não esqueças. Porque eu não esqueço. A vida faz questão de me enviar
você de inúmeras maneiras, mas dessa vez foi golpe baixo. Numa noite de
carência é bem capaz de eu perguntar para ela se ela lembra daquele filme que a
gente assistiu. Vai saber, ela é tão você. O destino me traz você, quem sabe um
dia me leve também.
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