Morrer deve ser muito mau. Morrer, sem contar com isso, deve ser rápido demais para quem vai, demasiado repentino para quem fica. Morrer por dentro faz de nós, zumbis. Morrer por fora faz-nos ficar invisíveis. Morrer, acho que é sempre mau, mau demais para quem morre, péssimo para quem é vivo. A maior brutalidade associada à morte é a doença, que nos vai definhando, anulando e reduzindo. Desgasta e emagrece, tira, suga, mata tecidos e faz parar os órgãos. Não sinto que a morte me espreite, mas sinto o pesar dos outros que perdem quem amam. Sinto cada vez mais a angústia, a ferida que se cria com o desaparecimento de alguém. Duro é, quando o cancro mata. Começa por tirar o sorriso, a alegria diária, é como se fossemos a marchar para a guerra da morte certa, na frente da batalha, onde as bombas rebentam sem dó nem piedade. Quando nos atinge, parece que só nos apetece chorar, berrar, perguntar o porquê. Depois o silêncio. O silêncio é tão frio, tão forte. O gosto amargo e seco que nos seca a garganta e nos arrefece as emoções. O cancro, mata devagar, fica ali teimoso, sem querer sair, à vista ou escondido numa táctica de guerrilha, camuflado, deixando minas por todo o corpo. Quando vencemos uma batalha, sabemos isso mesmo, que é uma batalha. Fica a plena convicção de que nunca ganhamos a guerra. E que guerra! Que batalhas! Que prova tão dura e longa a que somos sujeitos. É o teste de uma vida, não só para o portador da doença mas para toda a família. Sempre que se perde a guerra, a fatalidade espalha-se por todos, deixando as feridas marcadas e vincadas, cicatrizes que jamais secarão, que o nosso coração carregará para sempre. Cansados, exaustos, olhamos para o céu, e apetece-nos morrer também. Sem perceber porque é que hoje chove tanto dentro de nós, lembramos os dias de risos ensolarados, e apoiando-nos mutuamente, vamos reaprendendo a andar, devagarinho, todos unidos, porque é preciso continuar. Quando olhamos para trás, relembramos os que ficaram na guerra, o sorriso de antes nunca será o mesmo. De alma na mão, quase de rastos erguemo-nos pelos mais novos que precisam de nós para sorrir, e pedimos a Deus, que a guerra nunca lhes chegue, que possam rir sempre, recordando os que vão ficando para trás, pelas imensas coisas boas. Continuamos…mas nunca continuamos sós.
57 dias sem você...
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